segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Adiei o lançamento de meu novo livro

Semanas atrás escrevi aqui que estava finalizando a seleção de contos, crônicas e espasmos que vão formar um novo livro. Muito texto, muita lambança, muitos vacilos e, por que não, alguns momentos bem interessantes. Li (ou quase li) mais de dois mil e fui cortando, cortando, até chegar em 80.

Ótimo. Encaminhei o material para São Paulo onde nesta segunda-feira, vulgarmente conhecida como hoje, iriam começar a trabalhar no projeto gráfico. Eu quero uma coisa meio pós-punk, meio  Staatliches-Bauhaus , meio Claudio Valério Teixeira, meio Luiz Carlos Lacerda (o Bigode), meio Glauber Rocha, meio Luiz Carlos Maciel, meio Tarsila do Amaral, meio Oscar Niemeyer, meio Burle Marx, meio Carlos Zéfiro, meio Di Cavalcanti, meio Pete Townshend, meio Egberto Gismonti, meio Almir Satter, meio Ramones, meio The Clash, meio Gestalt, meio Anais Nin, meio Henry Miller, meio Blur, meio Radiohead…

Bom, os caras disseram que entenderam o que eu quero e ainda me falaram “como você diz aí no Rio, vai ficar do cacete”. Caminhando pelas ruas do Centro fui pego pelo calor de 31 graus em plena cloaca do inverno. Foi aí que desisti de lançar meu novo livro este ano porque, decididamente, não quero mais submeter meus amigos, convidados, parentes, colegas e a mim mesmo ao inclemente calor tropical que devasta amores, humores e quase literatos. Isso já aconteceu outras vezes e não vou repitir a festa da garoupa suada.

Por causa do calor, o personagem Meursault do clássico do existencialismo “O Estrangeiro”, de Albert Camus, matou um árabe a facadas. Pois também por causa do calor, parei o meio livro, cujo lançamento fica adiado para o início do outono do ano que em. Até lá reunirei mais material e jogarei no moedor de carne da seleção.

Liguei para São Paulo e falei com o pessoal do projeto gráfico e, na boa, senti um certo alívio também por parte deles. Mas garantem que até o verão terão chegado a uma conclusão sobre o sarapatel de porco que sugeri ali no parágrafo dois.

É isso aí.



sábado, 29 de agosto de 2015

A angustiante velocidade do tempo

Texto restaurado e reeditado
Não sei se o tempo é a maior angústia do ser humano, ou está entre as principais, mas fato é que, ultimamente, muita gente tem falado da velocidade dos calendários e relógios, o que me faz lembrar de uma frase do amigo Alvaro Acioli: “agora, enquanto ainda”. Ou seja, faça enquanto há tempo.
Lógico que o tempo também me angustia. Lembro que tempos atrás tive um dia duro de trabalho. Muito duro. Achei que o tempo tinha voado bem mais rápido do que no dia anterior, quando o trabalho foi mais light. Será que a distração proporcionada pelo trabalho aumenta a nossa percepção de velocidade do tempo? Sei lá. Um alto executivo de uma montadora de automóveis nos Estados Unidos, em sua autobiografia, escreveu que “agora, aposentado, sinto vontade de atirar o relógio pela janela na ilusão de que fazendo isso estarei parando o tempo”.
Nós aceleramos a percepção de velocidade do tempo? Nós temos esse poder? Quando um supermercado coloca ovos de Páscoa (que é em abril) na vitrine, praticamente na primeira semana de março, está acelerando a percepção de velocidade do tempo de muita gente? Não sei. Na verdade, muita gente passou pela vida pensando nisso e, no final da história, a vida acabou passando por cima de todo mundo que caiu nesta cilada de transformar o tempo em passatempo.
Para mim, Caetano Veloso é o maior poeta brasileiro. Lendo sua coluna aos domingos, percebo que ele anda super angustiado com o tempo. Volta e meia diz coisas do tipo “antes de ficar velho, eu ia mais a Bahia”. Caetano fez e faz muita gente pensar com a letra da canção “Oração ao Tempo”, de 1979:
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo


Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo


Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo


Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo


Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo


De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo


O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo


E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo


Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo


Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo









domingo, 23 de agosto de 2015

O Manual do Orgasmo - ficção extraída de meu livro “Torpedos de Itaipu”, editora Artware

Parecia chanchada italiana. Eu estava numa livraria dando um tempo. Chovia pra cacete lá fora e o trânsito lembrava um enorme jacaré bêbado. Livraria vazia. Entra um casal. Ele calmo, jeitão de economista do Banco Central, óculos com lentes fundo de garrafa, meio mal humorado. Ela, agitada, colorida, enfiada numa malha rosa arrochada; mulher grande, brincalhona, muito gostosa.


O aguaceiro engordou na rua. Não gosto de andar na chuva porque toda hora enfiam um umbrella na minha cara. Umbrella é guarda-chuva em inglês...só pra contrariar. Brasileiro, apesar de tropical, convive muito mal com as tempestades.
Voltando ao casal, ia tudo muito bem até ela pedir um livro, subindo o tom da voz. “O senhor tem o Manual do Orgasmo, de Fulana de Tal?”. Até eu fiquei sem saber o que fazer. Quem estava embrulhando parou de embrulhar, quem estava empilhando livros parou de empilhar e eu que estava lendo orelhas parei de ler. Como todos prevíamos, o tal homem sereno virou um mamute enfurecido.
Verde de ódio o sujeito levou a mulher para um canto e, tentando falar baixo, vociferou: “Precisava me humilhar? Vamos embora! Chega! Eu não aguento mais!”. E saíram no toró mesmo, soltando faíscas.
Não precisava ser desta forma. Muito se fala em alma feminina, nos cuidados que temos que ter com a mulher, com os desejos da mulher, com a liberdade da mulher, com a sensibilidade da mulher. Mas que fim levou a alma masculina?
Uma mulher que entra numa livraria com o marido e pede, vociferando, o “Manual do Orgasmo” está querendo barraco. Ou então pedindo. Alguém dirá “quem sabe, era meio burrinha”. Não! Não existe mulher burra. Se aquele mulheraço estivesse a fim de comprar o tal manual para usufruir teria ido sozinha, ou com amigas, irmãs, com o cachorro, comprava na internet, tudo, menos com o marido. Uma sutil (?) maneira de dizer “benzinho, você está precisando afogar melhor o seu gansinho”?. E o tal livro (acabei dando uma olhada) parece manual de funcionamento de freezer. A tomada é aqui, você liga ali, tem um botãozinho que faz isso, uma carrapeta que faz aquilo. Pior: sem garantia, sem Procon.
Voltando ao drama da alma masculina, por mais que as revoluções sociais, conceituais ensinem, o homem precisa ser enganado. No fundo, lá nas zonas abissais do inconsciente, precisa achar que é o princípio, meio e fim de uma mulher. Precisa ser herói, único, indispensável, insubstituível, eterno. O homem sabe que é mentira, mas essa mentira é sua fonte de sobrevivência. Em outras palavras, o homem é um imbecil. Ah, mas as coisas mudaram, dirão alguns. Mudaram coisa nenhuma. O homem ainda é o mesmo primata das cavernas, macho, guerreiro, predador de lobos. E pobre da mulher que cair no conto da evolução.
Um dos maiores confrontos do homem é o mistério que ronda o orgasmo da mulher. Está provado que a maioria dos homens vai para a cama muito mais interessado em fazer um belo workshop do que em sentir prazer. Cama é uma espécie de showroom. Um leitor, certa vez, confidenciou num bar na avenida Amaral Peixoto: “ Olha, não existe nada mais importante do que uma mulher derrubada, com aquela cara de bagaço, esgotada. É quando me sinto Hércules, Sansão, Homem Aranha”. Perguntei sobre a sua satisfação pessoal. O cara riu, bateu com o copo de Genebra na mesa e arremessou: “Prazer eu sinto com um cacho que tenho lá em Raiz da Serra.”
O homem é um golfinho de Miami sexual. Vai para a cama para ser aplaudido de pé, ou de joelhos. Condenada estará a mulher que, estonteada pela hipnose liberalista que de vez em quando bate em alguns, confessa que ele é mais um. Ele sabe. Todos sabem. Mas o homem quer acreditar que é o único, the best, The One, The Beatles naquele palco/cama. 
Dentro dessa conjuntura imagine o que o tal sujeito da livraria sentiu. Na pífia cabeça dele quando a mulher ao pediu o Manual do Orgasmo, declarou publicamente que seu macho falha, pifa, dá tilt, é mosca de padaria, siri na lata, leão da Metro.
Um conhecido meu separou-se da mulher há uns dois anos. Vivia reclamando que a vida estava ruim, que não a amava mais, etc. Conversaram, muita choradeira e ponto final. Três meses após a separação ele me contou que tinha dormido na casa dela. “Saudade é fogo”, comentei. Mas ele rebateu: “Saudade nada. Soube que ela já estava saindo com outro sujeito, me bateu paranoia e eu fui lá. Conseguir melar tudo”.
O pior é que, até hoje, quando a ex-mulher começa a se encostar em outro ele vai lá e crau! Só para não perder o lugar que ele mesmo não quis. E quando está bêbado afirma que ´ex-mulher existe, o que não existe é ex-vagina`. Alma masculina é chumbo grosso.
Homem liberal só existe em anúncios de uísque. Nós, machos, seres rudimentares e inferiores, nascemos com várias escrituras imaginárias na cabeça, e apesar da psicanálise, da cromoterapia, da neurolinguística, dos florais de Bach, da homeopatia, das revistinhas de sacanagem de Carlos Zéfiro, enfim, de toda a modernidade ainda somos os mesmos... e (por que não?) vivemos como nossos pais, como cantou Belchior nos anos 1970.
Haverá cura para o homem na sociedade contemporânea? Vai chegar o dia em que ele conseguirá viver sem honra ou mérito, ou sem honra, ou sem mérito? Será que um dia a mulher poderá comprar o Manual dos Orgasmo o lado do marido como se estivesse comprando alpiste para o canário? Viveremos momentos onde ex-mulheres imediatas (segundo a literatura, a mulher se livra definitivamente de um homem num prazo que corresponde a 20% ao da convivência. Exemplo: conviveu 20 anos levará quatro para se livrar) poderão namorar livremente por aí? Não. Porque o maior drama do homem não é viver sem mulher, e sim viver sem urras, elogios e “obrigado meu amo”.




sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Danem-se os taxistas existenciais. Numa boa.

Em plena era do Uber precisei pegar um táxi, longe da hora do rush para constatar que a tal da hora do rush agora começa as 6 da manhã e só acaba as 10 da noite. Não sei o que vão fazer com tantos carros e antas dirigindo. O táxi que peguei deveria ser arrancado de circulação. Caindo aos pedaços.
Entrei (não havia outra opção jáque não há Uber em Niterói) e o motorista ouvia uma rádio mundo cão aos berros, com as piores notícias até aquela hora do dia. Solicitei, visivelmente irritado, que o taxista desligasse o rádio. Ele diminuiu o volume, carinha feia. De novo pedi para desligar. Não sei que tipo de expressão facial me acometeu, mas o cara foi lá e clique, desligou o rádio.
Foi pior. No lugar do rádio, ele começou a falar. Falar mal. Do mundo, do Brasil, da vida, da mulher e do seu próprio carro. Perguntei, tentando cortar aquela tempestade de coliformes fecais despejada pela boca daquele cidadão, se o ar condicionado do carro estava funcionando. Ele disse que não porque “o ar desse carro é uma porcaria”. E continuou sentando o pau no carro, nas peças do carro, no vidro escuro que estava lascando, isso tudo com o transito se arrastando como uma lacraia bêbada.
Quando percebi que teria que aturar aquele ogro, olhei para o taxímetro (que marcava R$ 9,80), peguei uma nota de R$ 10,00, paguei e pedi para encostar. O taxista, surpreso, tentou saber “mas o senhor não vai até...”. Eu disse que tinha “esquecido de pegar a minha cachorra no veterinário” e desci daquele shitmóvel antes de chegar a metade do caminho.
Que alívio! Sem rádio mundo cão, sem vozes negativas, de gargantas negativas, cabeças negativas. Decidi ir andando até o destino providenciar um táxi decente. Uns 400 metros depois vi o tal taxi, sem vidros escuros, novinho, livre! Entrei e tocava a Radio MEC FM, o motorista tranqüilo, enfim, cheguei ao final da corrida bem, sem aquela sensação de chute no saco que estava sentindo.
Acho que na vida também é assim. Se estamos num “táxi” que não presta é crucial descer e trocar. Pode? Claro que pode. A arte da felicidade passa pela renovação, pela ousadia. E dane-se se os taxistas existenciais vão ou não entender porque descemos no meio do caminho. O caminho é nosso e ponto final.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Hoje! Victor Biglione e Jimi Hendrix na estreia do Projeto Mustang Video Rock Jam



              Victor Biglione
     Paulo Renato Rocha                                                                        
O guitarrista Victor Biglione é a atração de estreia do novo projeto da casa Mustang Rock Casual Food em Pendotiba, o Mustang Video Rock Jam. Idealizado e produzido por Paulo Renato  Rocha, o novo projeto tem os mesmos moldes do Cine Jazz ,que o produtor organiza há três anos no Museu do Ingá em Niterói:  mensalmente a exibição de um filme de classic rock (anos 60 e 70) com um artista convidado a cada edição, que após a exibição, participa de 
um  workshop sobre  o filme, e em  seguida, encerra o programa com uma apresentação ao vivo.

A estreia do projeto e nesta quinta, 20 de agosto às 21h, terá um filme inédito de Jimi  Hendrix, rodado em 35 mm em uma apresentação do guitarrista com seu grupo The Jimi Hendrix Experience (com os ingleses Noel  Redding no baixo elétrico e Mitch Mitchell na bateria) no Royal Albert Hall em Londres em 24 de fevereiro de 1969. A película, produzida por Steve Gold e Michael Jeffery e que esteve  brevemente em cartaz no final de 69 em algumas  capitais europeias como Londres, Paris e Amsterdam, traz ainda participações especiais do guitarrista  Dave Mason e do flautista Chris Wood do grupo Traffic, numa super jam session que encerra  o memorável concerto.  

O músico convidado desta primeira edição é o renomado guitarrista Victor Biglione, que após a exibição do filme e o workshop, encerrará o programa se apresentando ao vivo com seu trio, interpretando exclusivamente o repertório de Hendrix. 

Couvert Artístico 20,00 e classificação etária 18 anos.

Telefone do Mustang - (21) 3471-2007

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Troca de e-mails: fartura de mal entendidos no auge da era tecnológica

Tempos atrás enviei um e-mail para um amigo. Perdemos o contato desde que ele foi viver fora e, graças a um amigo comum consegui seu endereço eletrônico. Por que perdemos o contato?

Acidentalmente vi a ex-mulher dele na maior descabelação de fandangos com uma outra garota. Estavam encostadas numa pilastra no estacionamento de um shopping. Fiquei na minha, fingi que não vi e até tentei me esconder mas não adiantou. Ela me viu e quando o brejo veio à tona contou para o meu amigo que até eu já sabia.

O cara ficou enfurecido. Achava que eu deveria ter contado a ele já que a cidade toda estava sabendo. Tentei explicar que não sou lanterninha da vida alheia, fiquei e ficarei quieto sempre, etc. O cara deu uma sumida. Eu também não gostei do policiamento, desse papo “você tinha que fazer isso”. Qual é?

Para zerar tudo, espalhar bandeira branca por aí, tempos atrás sentei no computador, escrevi umas 20 linhas e, no final (lembro bem), digitei “aguardo resposta, meu chapa”. Até hoje não recebi resposta alguma.

A princípio achei que o cara não tinha recebido o e-mail mas, caso o endereço estivesse errado, a mensagem teria voltado. Chato, cri-cri, entrei em contato com o tal amigo comum que confirmou que o endereço era aquele mesmo. Eu ia mandar um segundo e-mail perguntando se ele havia recebido o primeiro, mas bateu o comodismo, o “dane-se”. Vai ver que a cornofobia bateu, ele lembrou da história do shopping e fez beicinho.

Se bem que chateado comigo ele não está porque na última vez que nos encontramos (ele estava até de mulher nova) rimos pra cacete, lembramos de alguns fatos da adolescência, eu desejei boa viagem, enfim, tudo azul. Mas como acho o silêncio uma forma de comunicação, fiquei meio encafifado. Voltei ao amigo comum que disse ter acontecido a mesma coisa com ele. Mandou um e-mail e o cara não respondeu. Esqueci o assunto.

Na magistral canção “Paula e Bebeto” (versão original do disco “Minas”, de Milton Nascimento), Caetano Veloso pergunta “qual a palavra que nunca foi dita?”. Muitas, Caetano. Muitas palavras ainda não foram ditas nesse oceano de silêncios estranhos que eventualmente nos rodeia à bordo da farta tecnologia, como o caso do meu amigo que caminha a passos largos para a cratera dos ex-amigos. Por causa de um e-mail? Sim, por causa de um e-mail.

Mais do que um artifício tecnológico, o e-mail transporta mensagens.
Na Europa inventaram um manual para o uso do e-mail e o primeiro item é “responda logo”. Recebeu? Responda. Mesmo que a resposta seja “recebi sua mensagem e logo vou responder”. Claro que estou me referindo a pessoas que nos consideram e vice e versa. E, assim que der, mande a resposta. O nome desse vai e vem de informações é Comunicação, uma ciência que (na boa) a internet está vulgarizando.
Outro cuidado é com o texto. Texto é uma ferramenta perigosa quando é mexida com intimidade por quem não tem intimidade alguma com ele. Exemplo: numa redação da vida nós (um pequeno grupo de quatro, cinco colegas que se tornaram amigos) nos tratávamos mutuamente de “canalha”. Telefone: “alô, canalha? Tudo bem?”. E por aí foi. A existência pulverizou esse grupo mas, sinceramente, se eu tiver que mandar uma mensagem para um deles hoje não vou começar com um “fala, canalha!”. Vai que o cara esqueceu de que nos tratávamos assim, ou que mudou de temperamento, ou que...entenderam? Outro perigo é esse trio que digitei aí atrás, os três pontinhos das reticências. Reticências abrem um universo de especulações.

Algumas pessoas são dúbias ao vivo e, no texto, essa duplicidade de comportamento existencial é simbolizada pelas reticências. Não me dou bem com pessoas reticentes. Aliás, me dou mal com pessoas reticentes. Prefiro um golpe brutal e certeiro do que petelecos, indiretas, reticências. Numa outra redação da vida um colega pôs reticências num texto e automaticamente ganhou o apelido de Monalisa, o enigma que Da Vinci pintou que não sabemos se ri ou chora. Pelo que sei, o colega nunca mais usou os três pontinhos para nada.





terça-feira, 11 de agosto de 2015

Um dínamo que se chama Edilene Baldam

Conheci a Edilene Baldam há uns anos atrás. Me chamou atenção em sua página no Facebook a chamada “The Police 0001!!!”, assim mesmo, com três exclamações. Com certeza ela é a fã mais visceral, dedicada, apaixonada pelo Police que conheço. O tempo foi passando e comecei a notar que o brilho da Edilene, sua vibração, otimismo, amor pela vida vai muito mais além de uma banda de rock. São um exemplo de existência.

Tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente numa tarde de autógrafos de meu livro “A Onda Maldita – Como nasceu a Fluminense FM”, em 2012, que ela me honrou com a sua adorável presença. Quando a vi entrar na Sala de Cultura Leila Diniz, na Imprensa Oficial em Niterói, não precisou dizer o nome. O sorriso, a vibração, a simpatia, a generosidade, só podiam ser da Edilene . E eram. Para a felicidade geral.

Em menos de 10 minutos ela estava conversando com todo mundo, distribuindo a sua infinita energia gerada por um dínamo interior capaz de reverter muitas (todas?) as adversidades dessa vida. Se no Brasil existissem 10 milhões de Edilenes Baldam a nossa história seria outra. Seria lírica, lúdica, honrada mas, sobretudo, seria vitoriosa.

Edilene é uma das figuras mais queridas e populares do Facebook, onde não tem o menor constrangimento de postar fotos de ingressos para todos os dias do Rock in Rio. Todos! Visita as páginas, opina, dá força, estimula, incentiva. Foi a todos os dias do Lollapalooza em São Paulo, vai sempre ao Circo Voador, Fundição Progresso, praias, piscinas, sol, mar, sul, chuva. Caramba! É obvio que como todos nós ela deve ter seus momentos mais aflitos mas a sua capacidade de passar por cima graças ao seu gerador de alegria é impressionante.

Diz a lenda que ela decorou um quarto de sua casa só com memoralibia, mais posters e fotos do Police. Sabe quem me disse? Caiam para trás, meus amigos. Quem me disse foi o próprio Andy Summers em 2008, que conheceu a Edilene e de quem virou fã. Outro fã que ela ganhou no universo da musica foi o Roberto Menescal que me disse “impressionante o astral daquela garota”.

Pouco tempo atrás ela estava indo para São Paulo ver o Andy Summers tocar e eu pedi um favor. Queria que ela confirmasse uma informação que li, para mim ultra preciosa, de que quando chegou a Londres para morar, em 1967, Jimi Hendrix teria usado uma guitarra Fender Stratocaster emprestada pelo Andy Summers. Ela me respondeu “deixe comigo, vou perguntar na lata”.

Só que houve um desencontro e a pergunta continua no ar, mas estou certo de que a Edilene rapidamente vai resolver essa minha consumição. Aliás, Edilene, se você estiver lendo esse texto, se o Andy confirmar a história pergunte onde foi parar a guitarra que, neste caso, tornou-se sagrada.

Garota, que bom! Que bom que o planeta abriga pessoas mágicas como você. Peço apenas que continue assim, se movendo, movimentando, prestigiando, observando, valorizando cada minuto que temos aqui nessa bola azul, sob a infinita benção de Deus. Você é fundamental para que uma pequena multidão (sua família, amigos, colegas, o povo da internet) continue acreditando que tudo pode dar certo e que, como diz uma amiga minha, “não há solução onde não existe problema”.

Viva a Edilene Baldam!



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O direito de viajar no planeta da ficção

Mergulhei fundo no mundo da ficção quando escrevi meu primeiro romance, “5 e 15”, que foi lançado em 2007. Como o livro esgotou, resolvi disponibilizar para a leitura aqui: http://5e15lam.blogspot.com.br/
Não foram poucas as pessoas que leram e depois mandaram e-mails com perguntas do gênero “como nasceu a ideia que você colocou no capítulo tal?”. Sempre respondi “não sei” porque de fato não tenho noção de onde vem as ideias.
Todo ser humano tem suas ficções. Isso é fato comprovado até por revistas de fofocas. Existem as ficções do bem, que se transformam em livros, filmes, peças de teatro, poesias, letras de música ou simplesmente em nada e as do mal, muito chegadas a paranoias, medos inexplicáveis, fofocas e dezenas de outras conseqüências. Fato é que há muitos anos li num livro que botar pra fora as boas ficções faz bem a saúde.
Eventualmente me aventuro a escrever devaneios totalmente ficcionais mas, ainda assim, alguns leitores perguntam se o que escrevi aconteceu ou não. Ou então, se aquela história foi inspirada em alguma experiência pessoal que vivi, enfim, parece que alguns leitores precisam ver um pouco de realidade nas ficções.
Tenho colegas jornalistas que se dão muito bem com a ficção, mas eles sempre dizem que o pavio é aceso por algum elemento factual, alguma coisa que aconteceu ou que eles achavam que iria acontecer. Outros não conseguem. No máximo produzem uns ensaios, sempre baseados em fatos, dados, comprovações.
Um de meus primeiros textos de ficção brotou da história que foi contada numa rodinha por um lendário cascateiro de Niterói. Ele disse que certa vez estava numa boia de pneu de caminhão na Praia de Icaraí, pegou no sono e acordou em Copacabana. Sem ter o que fazer, dormiu de novo e acordou em Icaraí. E ai daquele que o questionasse porque além de truculento ele brigava bem pra cacete. Tanto que, anos mais tarde quando publiquei a história num jornal local (totalmente maquiada, disfarçada, cheia de artifícios, mas não adiantou porque ele reconheceu) o cara andou me procurando. Diziam que queria me dar uma surra.
Até que o acaso me fez encontrá-lo na fila do cinema e ele me tratou amavelmente, ofereceu pipoca e o falecido (eu acho) Chucola, drops de Coca Cola. Entendi. No fundo, ele adorou ver sua história publicada, apesar de todas as deformações que cometi para ocultá-lo. Vai entender. Aliás, entender pra que? Por que temos essa cisma de querer entender muitas coisas que nos são totalmente inexplicáveis, entre elas a ficção?
Escrevi esse texto para informar que o conto aí de baixo “The Dark Side of the Moon” é mera invenção. Ponto.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Os Velosez e Furiosos da Rio-Manilha, ou quando “Easy Rider” virou motoboy de nona categoria

                                                                                 
Ontem
Hoje
Duas motocicletas de no máximo 150 cilindradas faziam zigue e zague entre os carros na mau caráter estrada Rio-Manilha. Na moto de trás, preta, um adesivo branco, bem grande, colado no tanque de gasolina: “Velosez e Furiozos”. Assim mesmo, com o S no lugar do Z, Z no lugar do S e muito cocô de pomba na cabeça do famigerado condutor.

Um deles quase arrancou meu espelho retrovisor e o sujeito do carro da frente xingou os dois motoboys (ambas as motos carregavam aqueles baús para entregas na garupa), que faziam a tradicional “saudação” empinando o dedo médio da mão. Se estivesse armado, tenho certeza que o tal sujeito do carro da frente ia metralhar.

Depois vieram outros, e outros, lá na frente uma moto estava caída no acostamento e uma ambulância do Samu atendia o sujeito que parecia bem. Enfim, as motocicletas de hoje que arrotam pelas ruas conduzidas por bípedes que ostentam Q.I. de protizoários nada tem a ver com aquelas do passado. Românticas, pinta de cafajetes de baixos teores, imortalizadas por Marlon Brando, James Dean, Evel Knievel.

Assisti ao filme “Easy Rider”, de 1969 (no Brasil chamou-se “Sem Destino”) no final de 1970 num cinema chamado Alvorada, em Teresópolis. O filme acabou se tornando um clássico do chamado “road movie” e todos nós, adolescentes, vibramos no cinema com aquela viagem de Wyatt e Billy (Dennis Hopper e Peter Fonda) ao som de Jimi Hendrix, Steppenwolf e muitos outros.

A fumaça de maconha, cigarro com Melhoral, cherinho da loló e similares era tal que disseram que o lanterninha do cinema começou a recitar Alziro Zarur, botou o piru pra fora e começou a escrever seu nome com urina na parede lateral da sala.

O tempo voou e mais recentemente, num delicioso vôo entre o Rio e Porto Alegre, vi o anúncio de uma moto Harley Davidson numa revista. Lembrei de “Easy Rider” e constatei que o filme nada mais é do que a saga de dois vagabundos, dois à toas, traficantezinhos de nona categoria, que passavam a vida levando cocaína, heroina e similares do México para Los Angeles e sonhavam passar o carnaval em Norva Orleans.

Suas motos eram aqueles modelos “chifrudos”, Harley Davidson com o garfo longo que bota a roda da frente bem longe. Uma marca que acabou se tornando sonho de consumo de todos nós, apesar de sabermos que aquela moto é uma bosta, derruba qualquer um, trucida a coluna vertebral, não faz curva, não freia, bebe como uma porca, não leva garupa, enfim, moto de cinema. Aliás, a única Harley que gosto é a vermelha do amigo Hilário Alencar. No mais, prefiro as japonesas e alemães.

O chamado “charme transviado do motociclista” acabou virando essa cloaca urbana que está aí. Flanelinhas trepados em estrumes sobre rodas arriscam não só as suas vidas mas as nossas, sobem e descem de calçadas, em geral andam de chinelo (tipo Ryder), bermudão de surfista do Planalto, boné com a aba virada para trás no lugar do cacapete, sem camisa, óculos escuros espelhados modelo 4 por 30 reais, cabelo a la Neymar e “tocando o terror” como dizem para os amiguinhos no final do dia.

Esses são motoqueiros. Eu fui motociclista. Até mais ou menos 2005 e minha última moto foi uma Suzuki DR 800 que adorava. Vendi porque perdi o medo dela. E quando o sujeito perde o medo de moto é melhor vender senão vai se acabar. Isso é regra e não exceção. Gostava de rodar sozinho por aí já que como não sei montar barraca e arrumar mochila nunca pertenci aos grupos de duas rodas que viajam pelo país. E pegaria mal todo mundo acampado e eu em pousada.

Depois de muitos e muitos anos condenando aquele clone de George Bush que matou os personagens de Hopper e Fonda no final de “Easy Rider”, hoje eu entendo. Quando esses animais quase matam velhos e crianças nas calçadas, se metem entre os carros (o problema não é só um desses morrer, mas o problema eterno que causa ao motorista), enfim, são representantes (mal) motorizados da molambalização que a cada ano engole mais o Brasil, dá vontade de dar umas bofetadas.

Bofetadas que a tecla SAP dos reacionários dos EUA traduz para “tiro de escopeta 12 nos cornos”. Aquele que matou Wyatt e Billy.





sábado, 1 de agosto de 2015

“Jimi Hendrix foi quase um Garrincha do rock and roll” (Caíque Fellows) - artigo reeditado

Um grande livro: “Jimi Hendrix por ele mesmo”, organizado por Alan Douglas e Peter Neal, com brilhante tradução de Ivan Weisz Kuck. Foi lançado no Brasil pela Editora Zahar e, felizmente, é um best seller nas melhores livrarias. Um livro que as pessoas que gostam de música precisam ler.

O livro foi feito a partir de cartas, bilhetes, trechos de depoimentos em filmes, gravações de entrevistas, enfim, centenas de horas, milhares de documentos que Jimi Hendrix deixou. Não foi pouca coisa.

Peter Neil explica no prefácio que a ideia surgiu quando ele e Alan Douglas (competente ex-produtor de Hendrix, mas visto por muitos como um larápio) estavam reunindo material para fazerem um documentário para o cinema. Diante da fartura de falas, observações, desabafos, decidiram editar tudo e transformar neste livro narrado pela primeira pessoa por Jimi Hendrix. Considero uma autobiografia de um dos maiores e mais importantes músicos de todos os tempos.

Jimi deixou devaneios falando desde o dia em que nasceu, 27 de novembro de 1942, Seattle, Washington, EUA, até as vésperas da morte, 18 de setembro de 1970, Notting Hill, Londres, Reino Unido. Esse material foi trabalhado e transformado nessa obra magistral, que mostra o verdadeiro Jimi Hendrix, sem exageros, adjetivos, vitimologia. Já li três biografias dele e a irritante vitimologia, que só falta chama-lo de coitadinho, é uma constante.

O que Hendrix mais queria era ser orgulho de seu pai, James Al Hendrix, herói confesso nessa autobiografia (vou chamar assim) e que, em contrapartida, também se orgulhava muito do filho. Quando foi para o exército servir como paraquedista, mandava cartas para o pai (muitas estão no livro) falando de saudade da família, do objetivo de ser o melhor paraquedista para “honrar o sobrenome Hendrix”, mas ao mesmo tempo não escondia que detestava a vida militar.

No quartel já tocava guitarra (fez até uma banda com o baixista Billy Cox), que aprendeu sozinho ouvindo discos de Muddy Waters e outros que o pai dava. Apaixonou-se pelo instrumento e quando deixou a farda (“dei sorte de não pegar o Vietnã”) foi direto para os clubes, bares, muquifos em geral para tentar a vida como músico. Passou fome, frio, dormiu atrás de palcos, mas sempre escrevia para o pai muito otimista, afirmando que tudo iria mudar.

Dos artistas de rock que conheci em biografias, três foram os mais ligados a família: Pete Townshend, Neil Young e Jimi Hendrix. Hendrix confessa que chorava de saudade do pai e dos irmãos, já que sua mãe (índia cherokee) tinha morrido (álcool) quando ele tinha 16 anos. Ela já estava divorciada do pai do músico.
Mal sabia que, fora o pai (James Al Hendrix morreu em 2002, aos 82 anos), sua família ia virar um bando de urubus. Uma horda de vagabundos que vive mamando do bom e do melhor graças a herança milionária de Jimi Hendrix, fora as incontáveis horas de shows que ele deixou gravadas e que continuam virando discos. 

Voltando, o que mais provocava indignação em Hendrix não era a fome, mas a falta de oportunidade. “Quando começava um trabalho era sempre para tocar atrás de alguém, nunca na frente”, ele conta.
Em 1965, envolvido pela baba sedutora de um estelionatário chamado Ed Chaplin, Hendrix assinou um inacreditável contrato onde concordou receber apenas um por centro (isso mesmo, um!) dos direitos autorais e de gravação. Esse contrato causou problemas sérios ao músico durante toda a sua vida.

Mas nada tirava o guitarrista de sua obsessão de vencer fazendo música não comercial em volume estupidamente alto. Foi tocar com Little Richard, que o roubou também. Hendrix viajou de ônibus tocando com Richard pelos Estados Unidos e depois de cinco semanas sem receber foi cobrar. O afetado roqueiro, na maior cara de pau, disparou uma espécie de “ou dá ou desce”. Jimi desceu e foi embora, junto com os outros músicos que também não foram pagos.

O melhor emprego que conseguiu foi no “Cafe Wha?” de Nova Iorque. Lá ele conheceu um cara que iria lhe apresentar ao pedal "wah-wah", um gênio chamado Frank Zappa. Boquiaberto ao assistir Hendrix tocar, depois do show Zappa foi lá atrás e deu o seu pedal "wah-wah" de presente para Jimi que, em pouco tempo, tornou-se um mestre dos efeitos com o equipamento.

Uma noite, o então baixista do The Animals, o inglês Chas Chandler, foi vê-lo e depois do show o convidou para ir para Londres. Jimi não pensou duas vezes. Com a roupa do corpo (literalmente) voou para a Inglaterra.

Ele conta que foi reconhecido por músicos como Paul McCartney, Eric Clapton, Brian Jones. Chas Chandler (com certeza o melhor amigo de toda a vida de Hendrix) providenciou tudo o que músico queria. Seu sonho era fazer um trio: ele na guitarra, um baixista e um baterista. Chandler providenciou anúncios e apareceram mais de 70 candidatos. Jimi testou 32 bateristas até aprovar Mitch Mitchell. Na leva dos baixistas, partiu de uma ideia sua de que “os melhores baixistas são os que sabem tocar guitarra”. Noel Redding, guitarrista de primeira linha, aceitou pegar o baixo que (como podemos ouvir) em muitos momentos serve de segunda guitarra para Hendrix.

Felicidade plena. Ele escreve que a Inglaterra o recebeu de cabeça aberta e, só em 1967, ele Noel e Mitch fizeram quase 100 shows pela Europa. Também em 1967 gravaram o primeiro disco, que imediatamente estourou na parada britânica e também Suécia e França. No livro, Jimi diz que pretendia viver eternamente no Reino Unido.

Conta que graças a Paul McCartney (ele era e é fã de Jimi) que ligou para John Phillips (ex-Mamas & Papas, organizador do festival Monterey Pop) falando de Hendrix, o guitarrista foi tocar no festival onde fez o melhor show. Disparado. No livro ele diz que tacou fogo na guitarra no final porque estava muito feliz com a receptividade da plateia, a extraordinária performance da banda (Mitch Mitchell e Noel Redding deram tudo) e por isso “sacrifiquei a guitarra num gesto de amor e ela”.

A repercussão de sua participação no festival foi tamanha que ele correu todos os Estados Unidos numa turnê, mas os reacionários que o achavam pornográfico no palco continuavam a persegui-lo. Muitas meninas não podiam ir aos seus shows porque os pais achavam Jimi Hendrix um pervertido sexual. Ele até que era, mas não nesse aspecto. Aliás, acima da música e da guitarra, sua maior paixão era a mulher, ou melhor, as mulheres. Ele não confirma mas também não desmente que fazia orgias diárias com, pelo menos, cinco mulheres.
A primeira turnê americana de Jimi (vejam vocês) foi abrindo para os Monkees, que no livro Hendrix chama de “Beatles de plástico”. Ele foi teria sido expulso da turnê devido a reclamações de que sua conduta no palco chamada de "lasciva e indecente" pela organização conservadora de mulheres Daughters of the American Revolution. No livro, Hendrix dá a entender que essas mulheres não podiam conviver com “desejo” que sua banda acendia, mas a história oficial diz que não foi bem assim. 
A expulsão foi falsa. A fofoca foi inventada pela jornalista (???) australiana Lillian Roxon, que acompanhava a turnê junto com o namorado e cantor Lynne Randell. O mais incrível é que a calúnia foi publicada na famosa Rock Encyclopedia de Lillian Roxton em 1969. Mais tarde ela confessou que inventou tudo.
Bem de vida com o que conseguiu ganhar em Londres (escreveu para o pai “cheguei em Londres com a roupa do corpo, mas volto para a América com as melhores roupas de Oxford Street”) ele começou a estourar nos Estados Unidos. Aos trancos e barrancos, tocando 360 dias por ano (para alimentar o estelionatário do contrato de 1% lá em 1965), Jimi conseguiu realizar um grande sonho, construir seu estúdio em Nova Iorque, o cultuado Electric Lady Studios, na 52 West 8th Street, no bairro de Greenwich Village.
Foi inaugurado três semanas antes dele morrer e segundo David Fricke, da edição norte-americana da revista Rolling Stone, Jimi havia supervisionado pessoalmente muitos de seus detalhes psicodélicos, como o mural de uma mulher diabólica no console de uma nave espacial. Nessa noite de 26 de agosto de 1970 houve a festa oficial de inauguração. Convidados como o guitarrista Johnny Winter, Yoko Ono e Mick Fleetwood (baterista do Fleetwood Mac) comeram pratos japoneses no Estúdio A, onde Hendrix normalmente tinha pilhas de amplificadores.

Fricke conta que “Hendrix evitou a badalação. Um dos artistas mais extravagantes do rock - mas um homem reservado e incrivelmente tímido fora dos palcos -, ele estava distante e triste, passando boa parte da festa sentado em uma cadeira de barbeiro, em um canto, quieto. Seria sua última noite no Electric Lady. Hendrix morreu três semanas depois, em Londres, aos 27 anos. 

O estúdio que deveria ter sido o santuário de Hendrix também era uma fonte de estresse e frustração. Apesar das vendas recordes, o músico lutava por dinheiro para custear a construção do Electric Lady, mudava as formações da banda e brigava com seu empresário. Mas, mesmo durante a maré baixa, ele olhava para a frente, como afirmou em uma música da época, "Straight Ahead".”

Leio no Wikipédia sobre o ano de 1968. Por volta dessa época, desavenças pessoais com o baixista Noel Redding, combinadas com a influência das drogas, álcool e fadiga, conduziram a uma problemática confusão na Escandinávia. Em 4 de janeiro de 1968, Hendrix foi preso pela polícia de Estocolmo, após ter destruído completamente um quarto de hotel num ataque de fúria devido à bebedeira.

O terceiro disco do trio, o álbum duplo Electric Ladyland, de 1968, era mais eclético e experimental, incluindo uma longa sessão de blues ("Voodoo Child"), a "jazzística" "Rainy Day, Dream Away"/"Still Raining, Still Dreaming" e aquela que é provavelmente a versão mais conhecida da música de Bob Dylan "All Along the Watchtower".

O trabalho antes disciplinado de Hendrix tornou-se uma baderna. Suas intermináveis sessões de gravação repletas de aproveitadores, baba-ovos e vadios no estúdio finalmente levaram Chas Chandler a pedir demissão em 1 de dezembro de 1968. Chandler posteriormente se queixou da insistência de Hendrix em repetir tomadas de gravação a cada música (a música “Gypsy Eyes” teve 43 tomadas, e ainda assim Hendrix não ficou satisfeito com o resultado) combinado com o que Chas viu com uma incoerência causada por drogas, fez com que ele vendesse sua parte no negócio a seu parceiro Michael Jeffery. 

O perfeccionismo de Hendrix no estúdio era uma marca - comenta-se que ele fez o guitarrista Dave Mason tocar 20 vezes o acompanhamento de guitarra de “All Along The Watchtower” - e ainda assim ele sempre estava inseguro quanto a sua voz, e muitas vezes gravava seus vocais escondido no estúdio.

Comenta-se que Jeffery (que foi anteriormente empresário da banda The Animals) desviou boa parte do dinheiro que Hendrix ganhou durante a vida, depositando secretamente em contas no exterior. Jeffery tinha fortes ligações com os serviços de inteligência (ele se dizia agente secreto) e com a máfia.

Apesar das dificuldades na sua gravação, muitas das faixas do álbum mostram a visão de Hendrix se expandindo para além do trio original (o disco teria inspirado o som de Miles Davis em “Bitches Brew”) e convidando um grupo de artistas ainda desconhecidos, incluindo Dave Mason, Chris Wood e Steve Winwood (da banda Traffic), ou o baterista Buddy Miles e o ex-organista de Bob Dylan, Al Kooper.

Ainda no Wikipédia, a pesquisa aponta que a expansão dos horizontes musicais de Jimi Hendrix foi acompanhada de uma deterioração no seu relacionamento com os colegas de banda (particularmente com Noel Redding), e o Experience se desfez durante 1969. 

Sua péssima relação com o público também veio à tona quando em 4 de janeiro de 1969 ele foi acusado por produtores de televisão de ser arrogante, após tocar uma versão improvisada e desleixada de "Sunshine of your Love" durante sua participação remunerada no show da BBC1, “Happening for Lulu”.

Em 3 de maio Hendrix foi preso no Aeroporto Internacional de Toronto após uma quantidade de heroína ter sido descoberta em sua bagagem. Ele foi mais tarde posto em liberdade depois de pagar uma fiança de 10 mil dólares. Quando o caso foi a julgamento Hendrix foi absolvido, afirmando com sucesso que as drogas foram postas em sua bolsa por um fã sem o seu conhecimento.

Em 29 de junho, Noel Redding formalmente anunciou à mídia que havia deixado o Jimi Hendrix Experience, embora ele efetivamente já tivesse deixado de trabalhar com Hendrix durante a maioria das gravações de Eletric Ladyland.

Em agosto de 1969, no entanto, Hendrix formou uma nova banda chamada Gypsy Suns and Rainbows, para tocar no Festival de Woodstock. Ela tinha Hendrix na guitarra, Billy Cox no baixo, Mitch Mitchell na bateria, Larry Lee na guitarra base e Jerry Velez e Juma Sultan na bateria e percussão. O show, apesar de notoriamente sem ensaio e desigual na performance (Hendrix estava, dizem, sob o efeito de uma dose potente de LSD tomada pouco antes de subir ao palco) e tocado para uma plateia que esvaziava lentamente, mostra a extraordinária versão instrumental improvisada do hino nacional norte-americano, The Star-Spangled Banner.

O Gypsy Suns and Rainbows teve vida curta e Hendrix formou um novo trio com velhos amigos, o Band of Gypsys, com seu antigo companheiro de exército, Billy Cox, no baixo e Buddy Miles na bateria, para quatro memoráveis concertos na véspera do Ano Novo de 1969/1970. Felizmente os concertos foram gravados, capturando várias peças memoráveis, incluindo o que muitos acham ser uma das maiores performances ao vivo de Hendrix, uma explosiva execução de 12 minutos do seu épico antiguerra 'Machine Gun'.

Em 28 de janeiro de 1970 acontecia no Madison Square Garden, em Nova Iorque, um dos maiores concertos já organizados em prol da paz no Vietnã, o Festival do Inverno para a Paz. Foram sete horas e meia de duração. O baterista, Mitch Mitchell e o baixista Noel Redding, estavam no backstage porque participariam do fim do show fazendo uma jam com a Band of Gypsys.

Michael Jeffrey, empresário de Hendrix, deu-lhe um ácido, pensando que isso levantaria o astral de Jimi e faria com que o show saísse melhor. Mas o resultado foi o contrário e Jimi terá ficado fora de si em pleno palco, dizendo para uma garota na plateia que “você está menstruada? Eu posso ver através das suas bermudas”. Aí Hendrix se tocou. Em seguida, ainda no palco, balbuciou “eu não estou bem” e abandonou o palco no meio da segunda música. Hendrix foi o mais ovacionado apesar do curto set. 

Em agosto de 1970 ele tocou no Festival da Ilha de Wight com Mitchell e Cox, irritado porque os fãs queriam ouvir seus antigos sucessos, em lugar de suas novas ideias, mesmo tendo momentos memoráveis. Em 6 de setembro, durante sua última turnê europeia, Hendrix foi recebido com vaias e insultos dos fãs, quanto se apresentou no Festival de Fehmarn, na Alemanha, em meio a uma atmosfera de baderna. O baixista Billy Cox deixou a turnê e retornou aos Estados Unidos depois de supostamente ter utilizado fenilciclidina, uma substância analgésica.

Antes da morte, mais tarde no mesmo ano, Hendrix iria começar um novo projeto, junto com o guitarrista e baixista Greg Lake (na época no grupo King Crimson) e o tecladista Keith Emerson. Greg, que acabava de deixar o King Crimson e Keith procuravam por um baterista e percussionista, e chegaram a conversar com Mitch Mitchell. O ex-baterista do Jimi Hendrix Experience recusou, mas passou a ideia para Hendrix, que aceitou. A banda, que iria então ser formada pelos três, iria incorporar também Carl Palmer, como baterista, e se chamaria HELP (Hendrix, Emerson, Lake & Palmer). 

Infelizmente, Jimi morreu, mas o projeto seguiu, formando a banda de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer, que produziu grandes sucessos.

Jimi Hendrix morreu em Londres nas primeiras horas de 18 de setembro de 1970, em circunstâncias que nunca foram completamente explicadas. Jimi havia passado parte da noite anterior em uma festa, de onde seguiu juntamente com a sua namorada Monika Dannemann para o Hotel Samarkand, no número 22 da Lansdowne Crescent, em Notting Hill. Investigações indicam que ele teria morrido pouco tempo depois.

Dannemann alegou em seu depoimento original que Hendrix teria tomado sem que ela soubesse, na noite anterior, nove comprimidos de um remédio para dormir que ela utilizava. De acordo com o médico que o atendeu inicialmente, Hendrix tinha se asfixiado (literalmente afogado) em seu próprio vômito, composto principalmente de vinho tinto.

Por anos Dannemann alegou publicamente que Hendrix ainda estava vivo quando o colocaram na ambulância; seus comentários sobre aquela manhã, no entanto, foram frequentemente contraditórios, e variaram de entrevista para entrevista. Declarações de policiais e paramédicos revelam que não havia ninguém além de Hendrix no apartamento e que não apenas ele já estava morto quando chegaram à cena, mas também estava totalmente vestido.

As letras de uma canção composta por Jimi e encontradas no apartamento levaram Eric Burdon a fazer um anúncio precipitado no programa 24 Hours, da BBC, de que Hendrix teria cometido suicídio. Depois de um processo por difamação movido em 1996 pela namorada inglesa de Hendrix por anos, Kathy Etchingham, Monika Dannemann cometeu suicídio - embora seu último amante, o guitarrista Uli Jon Roth(ex-Scorpions), tenha feito acusações de que ela teria sido assassinada. 

John Bannister, médico que atendeu Jimi Hendrix na noite de sua morte, disse que é plausível que o guitarrista tenha sido assassinado. As informações são da revista New Musical Express. Bannister se refere às declarações publicadas por James "Tappy" Wright, ex-roadie de Hendrix, em seu livro "Rock Roadie". 

Segundo Wright, o empresário do guitarrista, Mike Jeffrey, confessou que contratou um grupo que teria invadido o quarto de hotel e forçado Jimi Hendrix a tomar vinho e soníferos.
Bannister disse que é possível que isso tenha acontecido por causa da quantidade de vinho encontrada nos pulmões e no corpo do guitarrista. De acordo com o médico, ele estava "realmente afogado em uma enorme quantidade de vinho tinto".

Wright afirma que Mike Jeffrey confessou tudo em 1971, um ano após a morte de Hendrix. O empresário, que tinha uma apólice de seguro no nome do guitarrista no valor de US$ 2 milhões, morreu em 1973 em um acidente de avião. 

Sobre o caráter do produtor Alan Douglas, consultei o arquiteto, fotógrafo e pesquisador de música Caíque Fellows (profundo conhecedor de Jimi Hendrix). Sua resposta:

“Na verdade não dava pra chamar o cara de safado, não. O Jimi é que na verdade não tinha o controle sobre o próprio trabalho, era praticamente "funcionário" do Ed Chaplin, que assinou um contrato leonino com ele, antes dele ser "achado" pelo Chas, dos Animals e conseguia manter ativo este contrato através de um batalhão de advogados de primeira linha.

O cara sacou que ali tinha grana.  Aliás, nem o Chas aguentou a porrada de moscas de padaria que viviam em volta do cara. E viviam, por conta de TUDO que envolvia ele, ser movido a grana, até a oportunidade de estar perto do astro... O Jimi Hendrix foi quase o Garrincha do rock'n'roll. Só não era alcoólatra, como o tristemente genial Mané.

Um dia o saco encheu e o cara - sempre cismado com o número 9 - pegou uma caixa de Vesperex daquela maluca da Monika (a caixa vinha com dez comprimidos), tomou nove e derrubou uma garrafa de vinho tinto. Passou mal pra cacete (claro!) e a maluca não chamou uma ambulância "com medo da repercussão". Resultado: o Jimi se foi.”