domingo, 19 de novembro de 2017

Uma “re-resenha” do magistral show de Paulinho Guitarra no Teatro Municipal de Niterói, dedicada a um grande vacilo meu

                        Paulinho com a Diva Adriana Ninsk. Foto do mestre Luiz Edmundo Castro
                          Paulinho, aos 13 anos, em sua primeira banda, "Os Adolescentes".Ele é o segundo da direita para a esquerda com Oldair, Dutra e Luiz Carlos Britto.

Aqui no sertão da minha suave ignorância em informática intuí que existe um componente ilógico nesse mundo binário. Desculpa de ineptos? Pode ser. Explico:

Cheguei do show do grande Paulinho Guitarra no Teatro Municipal de Niterói (parabéns pela esplendida programação, Marilda Ormy), na última quinta a noite, com a alma lavada. Teatro lotado, música plena no ar. Nas primeiras horas de sexta, dia 17, abri esta plataforma do Blogger e digitei direto no sistema uma resenha sobre o show. Sim, isso não se faz, deve-se escrever num editor de textos e depois migrar para o Blogger, mas eu estava ansioso, queria compartilhar logo com todo mundo a alegria de ter assistido a um dos melhores shows que assisti na vida, já que Paulinho Guitarra está entre os melhores do mundo.

Como sempre, postei e compartilhei no Facebook. Beleza. Na mesma hora, dezenas de comentários de pessoas que também assistiram, todos no maior astral, na maior alegria, chamando o show de “fabuloso”, “grandioso”, “genial”. E assim foi até a tarde de sábado, ontem, quando postei no Facebnook a chamada para o meu artigo semana no site Coluna do Gilson, do amigo Gilson Monteiro.

Devo ter feito alguma lambança porque quando pus a chamada no ar derrubei uns quatro artigos do Blogger, inclusive a resenha do show do Paulinho que, o vacilão aqui, decidiu escrever direto, e não no word para caso de necessidade.

Mas, querem saber? Uma boa oportunidade para revelar mais uma vez a minha emoção diante do show maravilhoso que reuniu quase 25 músicos se revezando no palco que foram ao Teatro Municipal abraçar e tocar com o Paulinho Guitarra pelos 62 anos de vida e 50 como músico.

Afinal, ele inventou uma música nova, uma inédita maneira de tocar guitarra absolutamente a prova de rótulos. Foi um show-baile-aula de música com direito a músicas de seu novo álbum que vem aí que vai se chamar “Baile na Suméria”, que foi também o nome do show.

Demais! Desculpem o vacilo (foi mal, Paulinho, foi mal Jane Lapa!) e postem, por favor, seus comentários de novo já que, como na música, o jornalismo também tem seus remixes. Prometo não mexer (rs).

Uma boa semana!

sábado, 18 de novembro de 2017

Solidão

Saudade, velho amigo.

Não adianta fugir, correr, pular cercas. Ela é o maior desafio existencial da espécie humana. Solidão. Por mais que saibamos se tratar da condição humana básica e que em muitos casos se apresenta como um agudo sentimento passageiro, a solidão é impiedosa. Machuca, fere, marca. Musa de milhares de canções, filmes, poemas, livros.

Saudade, velho amigo.

Flagelo dos que não suportam conviver com suas ebulições interiores, ignorando a regra, provada e comprovada, de que o homem é o mais solitário dos mamíferos. Por mais solidário que às vezes demonstre parecer.

Saudade, velho amigo.

A solidão exige muita resistência, criatividade, autocompreensão. Os que se tornam reféns deste deserto que ora se apresenta como fato consumado, ora como circunstância de momento, cai nos braços da culpa, que, dizem, é bem pior. É fato que todos os seres humanos eventualmente estejam nas garras da solidão.

Saudade, velho amigo.

Transformá-la em criação é o desafio. Desafio possível.

Saudade, velho amigo.

O solitário latino, por inúmeras razões socioculturais, parece padecer mais. Ninguém sabe ao certo por que a solidão, apesar de voraz, é imprecisa. Muito imprecisa. E nos pega sem dia e hora desmarcados.


Saudade.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Ives Gandra: ‘Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?’

Artigo do jurista Ives Gandra publicado no Estadão


Meu Nome é: Ives Gandra da Silva Martins. Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos. 

Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna). Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que eles ocupassem em 05 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado, e ponham passado nisso.

Assim, menos de 450 mil índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também por tabela – passaram a ser donos de mais de 15% de todo o território nacional, enquanto os outros 195 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% do restante dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados. Aos ‘quilombolas’, que deveriam ser apenas aqueles descendentes dos participantes de quilombos, e não todos os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição Federal permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito. 

Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef o direito de ter um Congresso e Seminários financiados por dinheiro público, para realçar as suas tendências – algo que um cidadão comum jamais conseguiria do Governo! Os invasores de terras, que matam, destroem e violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que este governo considera, mais que legítima, digamos justa e meritória, a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse ‘privilégio’, simplesmente porque esse cumpre a lei.. 

Desertores, terroristas, assaltantes de bancos e assassinos que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de R$ 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos. E são tantas as discriminações, que chegou a hora de se perguntar: de que vale o inciso IV, do art. 3º, da Lei Suprema? Como modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade, em terra de castas e privilégios, deste governo.


O que é que a boiada tem?

O que é que a boiada tem?

Minha única incursão na pecuária é quando me atraco com uma picanha ou mignon num bom restaurante. Desde que não seja Friboi ou qualquer bosta produzida pela JBS.

Tentei até arriscar no mercado, muitos anos atrás, quando fui um dos 20 mil babacas que comprar Certificados de Investimento Coletivo (CICs)* de uma empresa que vendeu mais boi de papel do que boi de fato, o que chamei numa reportagem em São Paulo de “Boi sem mugido”.

O presidente da Presidente da Fazendas Reunidas Boi Gordo, o empresário Paulo Roberto de Andrade jura que vai pagar a todo mundo. Todos, menos a mim cujo certificado estava naquela Kombi que fazia uma mudança minha, foi roubada no caminho e depenada. Os ladrões levaram meus discos, livros (de vinil não liguei, mas todos os meus CDs foi demais!), títulos de cidadania, diploma do jardim de infância e os cacetes.

Curiosamente os pan corruptos  irmãos sertanojos Joesley e Wesley Batista chupam grana de bois. Chupam, lavam, fraudam, etc.
O Grão Mor da corrupção no Estado do Rio, o cabeça da família Picciani, professor de roubalheira generalizada de Sérgio Cabral, comparsa de Paulo Melo e do quase membro vitalício do Tribunal de Contas do Estado, escrotóide Edson Albertassi, também é cafetão do gado.

Quer dizer, o Grão Suíno Picciani usa o seu exército de chifrudos, espalhados em várias e milionárias fazendas para todo o tipo de tramoias, inclusive presidir a Alerj, um puxadinho que mantem no centro do Rio, habitado por suínos de várias espécies que trabalham pelo mal do serviço público. Um puteiro (no mau sentido) de verbas púbicas como a mais recente descoberta da PF. Mediante algumas dezenas de milhões de reais, Picianni, Paulo Melo e o escrotóide Edson Albertassi empresas deram um rombo de R$ 280 BILHÕES no Estado do Rio. 
Conclusão: o estado faliu.

Mas e o fascínio pelo boi que os corruptos tem? O que será? O que é que a boiada tem?

* Minha última aventura no cassino chamado bolsa de valores foi quando, assistindo TV, vi Amaral Gurgel perguntando: “Se Henry Ford te chamasse para ser sócio, você seria?”. E convidou para a compra de ações para financiar o carro BR 800.
Eu e meu saudoso amigo Alex Mariano, fera também em mercado financeiro, compramos. 
O BR 800 foi lançado. Dias depois a Fiat acabou com ele lançando o Uno Mille. A Gurgel faliu e minhas ações foram para Bicas, MG. Nunca mais olhei nem para o site da bolsa de valores.



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Seu Ladrão

Seu Ladrão militava na camelotagem do Centro do Rio. Cabelos e barbas brancas, caloteiro profissional, era cumprimentado com nojo pela freguesia que ao abordá-lo soltava o dobrão: “Fala seu Ladrão, escroto filho da puta!”.

Em sua banca, Seu Ladrão vendia óculos falsificados, carregadores de celulares (também produzidos por aí), relógios. Faturava mais no conserto de objetos. Por exemplo se alguém levava óculos comuns com um pequeno problema, Seu Ladrão com mãos de mágico safado dava um jeito de dar uma “perda total”. Vendia novos para o incauto e depois consertava os óculos que foram falsamente condenados para revender.

Mentiroso, inventou que foi parido no Nordeste e atirado num Pau de Arara aos 11 anos de idade. O pau de arara teria capotado em Campos dos Goytacazes e de lá, recolhido por uma família, ele veio para o Rio onde começou a trabalhar como michê nas imediações do Passeio Público. Mentira. Seu Ladrão foi parido no Rio Comprido e foi vendido para uma família da Tijuca. Desde criança roubava compulsivamente até ser flagrado mexendo numa caixa de abotoaduras douradas do padrasto. Esbofeteado, foi chutado para a rua e se juntou a um bando de pivetes no Catete.

Um aliciador o levou para a camelotagem. Começou vendendo pilhas descarregadas, pólvora granulada para fazer cabeça de nego, cheirinho da loló e outras iguarias ilegais. Ganancioso, deu um telefonema anônimo de um orelhão para a polícia informando que seu superior (o aliciador) tinha estoque de drogas ilegais numa garagem no Catumbi. A polícia estourou a boca e, para alegria de Seu Ladrão, seu aliciador foi morto na troca de tiros.

Não gostava de ficar parado na banca, temendo levar uma surra de surpresa. Por isso percorria suas cinco filiais, que roubou de outros camelôs. Enquanto caminhava (sempre de camisa vermelha) era cumprimentado pelo povo. “Boa tarde, larápio”, “Fala, moleque!”, “Teus ovos tão assando, escrotão” e por aí ia. 

O único que o tratava cordialmente era o gerente do banco onde Seu Ladrão acumulava uma riqueza, fruto de anos e anos de trambiques, tráfico, delações e até sequestros de cachorrinhos de raça de velhinhas de Copacabana.

Um dia, Seu Ladrão percorria o Centro da cidade maravilhosa e quando deu por si estava no buraco do Lume. Contemplou o panorama de concreto e aço e disse para si mesmo “Ladrão, tu é foda”. Um segundo depois, levou um tiro na nuca, a queima roupa. Um escoteiro que o seguia tinha vindo do Rio Grande do Sul especialmente para fazer justiça com as próprias balas.

O corpo de Seu Ladrão rolou na calçada. O escoteiro abriu a braguilha, mijou no rosto do que restou do camelô e seguiu em frente. Fogos, aplausos, assobios, a multidão ensandecida comemorava o fim de uma era. Diz a lenda que o corpo de Seu Ladrão foi recolhido muitas horas depois por um caminhão de lixo porque, cinco anos antes, ele havia roubado arcadas dentárias no IML para revender para assassinos de aluguel. Ninguém no IML quis dar entrada no corpo.

Seu Ladrão não imaginava que seu próximo passo na vida seria um tiro na nuca dado por um escoteiro. Afinal, estava quase conseguindo virar parlamentar.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

15 de novembro

Uma nova corrente de historiadores está botando os pombos nos telhados certos. Entre eles, destaca-se o jornalista e historiador Laurentino Gomes que escreveu o clássico “1889 – Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”.

É o último livro da trilogia sobre o Brasil do século XIX, iniciada com as obras "1808" e "1822", que contam o período de transição do Brasil da colônia para a república, começando com a transferência da corte portuguesa para o Brasil no ano de 1808, depois com a independência no ano de "1822" e, por fim, com a proclamação da república no ano de 1889.

Até ler “1889” eu achava o marechal Deodoro um patife. Depois de ler Laurentino e outros historiadores vi que o marechal era paranoico, ditatorial e de extrema incompetência. Tanto que, aos trancos, conseguiu se pendurar no poder por apenas dois anos, de 1889 a 1891.

Um aspecto interessante desse torpe “herói” brasileiro foi o fato de ser um monarquista radical, que se dizia amigo de Pedro II, a quem devia favores. Disse o marechal que ”quero acompanhar o caixão do velho imperador.”

Detesto a monarquia. Detesto a República, cujos 128 anos de total inutilidade e roubalheira são lembrados hoje, é lógico, por um feriado. A República, a partir de Deodoro, sempre foi vadia. A República sabe que o marechal estava doente em casa no dia anterior, 14 de novembro de 1889. Lauretino Gomes escreveu que os próprios republicanos, para forçar a barra, inventaram que Pedro II tinha dado ordem para matar o marechal. Não colou.

Os republicanos precisavam convencer Deodoro a romper de vez os laços com a monarquia. Valeram-se de outra notícia, essa verdadeira, pois chegou-se a enviar telegrama oficial nesse sentido. Quintino Bocaiuva e o Barão de Jaceguai mandaram um mensageiro a Deodoro para informar-lhe que o novo primeiro ministro, escolhido por Pedro II, seria Gaspar Silveira Martins, odiado por Deodoro por terem disputado a mesma mulher na juventude. Gaspar ganhou a mulher. Vingativo, Deodoro foi convencido a derrubar o regime.

E assim cavalga o Brasil, desde a chegada do grão-mestre da canalhice, D. João VI, escorraçado por Napoleão em 1808. Ele trouxe a Corte para o Rio de Janeiro e, num dos primeiros atos, inventou o Banco do Brasil que funcionava como um cofre pessoal, pagando suas esbórnias e as da Corte como um todo. Mas isso é outra história.

Ou melhor, estória.



segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Referências

Desde 1.500 vivemos momentos de crise nos serviços no Brasil. Isso atinge tanto as pessoas jurídicas como as físicas. Há tempos, uma senhora (leitora aqui da Coluna) perguntou qual é a minha TV por assinatura. Respondi. Ela emendou com uma segunda pergunta do tipo “você acha boa, recomentaria?”. Respondi, francamente, que não recomendo serviços a ninguém porque não confio.

Ela compreendeu mas ficou meio encafifada, por isso insisti para que não pensasse que eu estava de má vontade. Mais: sugeri (como sugiro aos leitores) que ela acessasse o site www.reclameaqui.com.br que concentra boa parte das reclamações sobre empresas de todos os gêneros, de smartphones a lambanças de prefeituras, passando por supermercados, farmácias, TVs por assinatura, internet. 

No ano passado, um vizinho perguntou qual é a minha internet em banda larga. Disse, mas também não recomendei porque está cada vez mais difícil darmos referências numa terra onde a qualidade dos serviços oscila como montanha russa. 

A coisa chegou num ponto que não recomendo, sequer, colegas para emprego porque o último que indiquei, recém-formado, que trabalhou como trainee numa empresa onde eu era sênior, e que eu julgava exemplar, foi para a companhia que indiquei e começou a faltar, chegar atrasado, vacilar no texto, sei lá o que deu no cara.

Esse caos nos serviços gerou uma situação incomoda, chata. Temos vontade de ajudar, indicar, mas depois corremos o risco de estarmos atrapalhando muito mais do que ajudando. Portanto, o negócio é ser franco e bater o pé: não indico de jeito nenhum.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sexólogos, a praga

Não sou desses que acham que o mundo está cada vez mais imbecil. Prefiro buscar caminhos mais saudáveis. Mas, depois que acabaram com o curso superior de jornalismo, qualquer parasita escreve o que bem desentende, onde quer, a preços módicos, ou de graça, ou até pagando. 
Dá de tudo. De falsos psicanalistas a podólogos picaterosos, passando por filósofos de porta de termas, chefes (xom X) de cozinha, enólogos de refresco de uva vagabunda.

Um sabujo desses fatura alto quando escreve uma coluna em jornais/revistas/sites de grande circulação ou faz comentários em programas de TV.  Vários deles (digo, sem susto, que é a maioria) até pagam para aparecer porque cada leitor gera, pelo menos, mil outros fregueses em potencial capazes de pagar valores até 50 vezes maior por uma consulta com o meliante. Só porque ele “escreve no jornal”, “aparece na TV”, “tem um super site na internet”, “fala no rádio”.

Uma outra espécie de golpista se juntou aos outros, o famigerado sexólogo. A praga se espalhou rápido pelos jornais, TV, sites onde os abutres da cona gélida e de glande flácida seduzem e conquistam a sua freguesia. Como a maioria não sabe escrever, paga a profissionais de comunicação para produzir textos que usem e abusem da força de expressão, de preferência forçando a barra para temas populares como “mulher ejacula, sim”, “amor e sexo são dois rios diferentes”, “cuidado, aquecimento pode engravidar!” e por aí vai, sempre ladeira (e nível) abaixo.

A vítima preferencial é o adolescente, que desde que o mundo é mundo é um desinformado. Todo mundo será, é ou já foi adolescente um dia e sabe que a sociedade costuma confundi-lo com os imbecis. E é justamente nessa brecha de ignorância, angústia e eclipse de conhecimento que agem os chupistas da sexologia (ou seria sexismo?), que traficam conselhos na mídia sabendo que é apenas o início. Sabem que, em seguida, as vítimas iludidas, dopadas pelo poder da comunicação, vão ligar em massa para seus escritórios marcando consultas, passando antes por uma livraria para comprar o décimo quinto livro do “especialista” sobre o mesmo tema, mas com título diferente e texto reescrito por profissionais de comunicação.

Soube um dia desses que uma suposta sexóloga que engana milhões de pessoas num programa popular de TV, já está cobrando 1.500 reais por uma consulta. O mais grave é que, me informaram, não há mais horário até fevereiro ou março. Um “sexólogo” que disse no rádio semana passada (eu estava num Uber e ouvi) que masturbação “pode fazer bem ou pode fazer mal, por isso deve-se procurar um especialista”, ou seja ele mesmo (detentor da verdade absoluta), cobra 800 reais por consulta com um plus a mais: o “tratamento” é pré-pago e dura, no mínimo, 10 consultas. O freguês terá que desembolsar 8 mil reais, em três vezes sem juros no cartão de crédito.

O mais grave é que tudo isso é feito a luz do dia, numa sociedade que tem mecanismos de controle em tese eficazes como, por exemplo, os Conselhos Regionais de Psicologia ou a Sociedade Brasileira de Psicanálise, entidades que podem confirmar se o doutor Fulano sabe diferenciar Sigmund Freud de uma geladeira Electrolux ou que a sexóloga Sicrana do Tal pode tecer comparações úteis entre um peixe elétrico e um clitóris avantajado.

É bom lembrar aos adolescentes que a sabedoria popular e o Kama Sutra (deem um Google, por favor) sabem há milênios que existem clitóris com 10 centímetros, conas que jorram como chafarizes e que a lei básica da vida, logo também do sexo, está numa definição nada erudita de Carl Gustav Jung (merece um outro Google): “Ninguém é igual a ninguém. A vida é diferente para cada ser desse estranho planeta. Ninguém sonha igual, pensa igual, ama igual.” Entro no vácuo de Jung: logo, sexólogos são picaretas, sim.

Problemas de disfunção erétil, um bom urologista resolve, como psiquiatras, psicólogos, psicanalistas (de excelente formação) podem resolver questões como o apagão da libido. Em homens e mulheres. Mas aí entra um problema de nossa cultura judaico cristã, o complexo de culpa, o tal constrangimento diante do óbvio. Achamos que é “falta de educação” perguntar a um médico, ou a um psicólogo, dentista seja o que for, onde ele estudou, que cursos de aperfeiçoamento fez, uma atitude que os picaretas amam, já que se alimentam da ignorância alheia.

Fuja das bruxarias, de todas, entre elas a “sexologia” (repito, seria sexismo?) praga que não para de se reproduzir como uma espécie de dengue genital, em garotos e garotas, homens e mulheres que poderiam estar bem melhor se buscassem fontes de informação mais qualificadas, bons livros, ótimos profissionais (lembro que sexólogo é uma mera grife, derivada da psicologia) e, sobretudo, aprender a viver a vida plenamente.

Apesar da “sexologia”.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Celacanto Provoca Maremoto

Celacanto, o grafite
                                                                       Celacanto, o peixe

Quarenta anos depois, finalmente descobri o mistério daquele saudoso grafite que tomou conta do Rio, do país, mundo afora. Li, com satisfação, esse artigo de Cris K que revela o autor da proeza. O colega jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C@l. Em tempo: celacanto existe. É um peixe que vive nas profundezas abissais. Agora, vamos ao artigo revelador:

Em 1977, um estranho e intrigante grafite começou a aparecer aqui e ali nos muros de Ipanema, no Rio de Janeiro: CELACANTO PROVOCA MAREMOTO. Com o passar do tempo, foi pipocando em outros lugares e, do Rio, chegou à América do Norte e Europa. Mas até hoje seu significado e propósito continuam um mistério.

Entretanto, tal assunto não será mais um mistério para os nossos leitores. O autor do CELACANTO PROVOCA MAREMOTO é o jornalista carioca Carlos Alberto Teixeira (C@T).

A origem de tudo passa pelo seriado chamado National Kid, exibido na década de 60, propaganda dos produtos National, que depois virou Panasonic. Um dos episódios era sobre os seres abissais, e um deles era o peixe chamado celacanto.

Num dado momento, o Dr. Sanada, que era um dos personagens maléficos, dizia: “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO”. E não provocava nada, quem provocava era um submarino chamado Guilton, que tinha uma boca com uma lâmina dentro, uma viagem completa.

Este negócio ficou na cabeça de Carlos até 1977, quando ele bolou no caderno um grafismo de "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO" circundado por uma moldura com uma seta, que caía em uma gota com dois tracinhos ao lado, mostrando que ela estava "tremendo":

Aquele era apenas o início. O próprio Carlos conta como a brincadeira foi crescendo e como ficou famosa a ponto de aparecer em noticiários da época:
- Um dia, após a aula, peguei giz e enchi a sala com tal representação. Era na parede, era no quadro-negro, era no chão, no teto, enfim, enchi a sala de aula e aquele negócio virou um símbolo. Na época eu tinha 17 anos, e fazia esse grafismo com giz em tapume de obra, o que gerava um contraste legal do giz branco com a madeira de coloração escura. Depois, comecei a comprar Pilot (caneta hidrocor, conhecida como pincel atômico). Ensinei alguns amigos a fazer a pichação CELACANTO PROVOCA MAREMOTO, pois havia um estilo que indicava que era eu quem estava fazendo, e não uma mera cópia (havia gente que copiava e dava para perceber que não eram da minha linhagem).

O grande salto foi usar spray e aí começou a se formar uma equipe que chegou a totalizar 25 pessoas, com gente pichando até em Washington e em Paris. Como era um trabalho que a gente fazia na madrugada, havia muita pichação na zona sul do Rio, em Ipanema, Leblon e Copacabana. Por ser uma região de gente muito cabeça, as pessoas começaram a perguntar: Ah, Celacanto, o que será isso?

Na mesma época, havia uma outra pichação, o Lerfá Mu, uma coisa de maconha. Tanto eu quanto esse Lerfá Mu estudávamos na PUC do Rio, e começamos uma batalha nos banheiros, que ficavam totalmente rabiscados: eu ofendendo o Lerfá Mu, ele respondendo... Até que um dia surgiram outros pichadores na área do Jardim Botânico e Leblon lutando contra o Celacanto e o Lerfá Mu, o que ocasionou uma aliança entre nós dois. Nos banheiros da PUC marcamos um encontro numa esquina de Copacabana. Para nos reconhecermos mutuamente, deveríamos ir com um chapéu ou com uma vassoura um guarda-chuva. Eu fui de chapéu e ele de vassoura guarda-chuva; nos reconhecemos e nos abraçamos e tal. Há alguns anos, soube que o Guilherme - autor do Lerfá Mu - faleceu de cirrose hepática.

A imprensa começou a investigar as pichações, afirmando que o CELACANTO era um código de encontro entre traficantes, imagina. Outros afirmavam que eram mensagens de extraterrestres, pois naquele tempo, e até hoje, é difícil encontrar uma pichação que seja uma frase, e ali havia um período completo, sujeito, verbo e objeto. Geralmente o cara botava o nome, ou um grafismo só, ou uma sigla, e essa frase, justamente por ser uma oração completa, despertava a curiosidade das pessoas.

Com a intensa especulação dos repórteres sobre "o que será?", "quem será", o então prefeito da cidade, o falecido Marcos Tamoio, instituiu uma multa exorbitante para aqueles que fossem apanhados pichando. Os moradores da Tijuca pegaram um dos pichadores que tinha um dos grafites mais lindos, o Megalodon (com o desenho de um tubarão), encheram o cara de porrada, deixaram-no de cueca e picharam-no todinho, largando o rapaz do meio da rua.

Meu pai trabalhava no Jornal do Brasil, um dos mais importantes do Rio, e uma das repórteres procurava descobrir que era o Celacanto. Meu pai chegou pra mim e disse: Carlos, não é uma hora boa para você aparecer? Aí você passa a ser domínio público, é visto como uma figura interessante e, quem sabe, escapa dessa multa, caso te peguem numa dessas aí de noite. Os meus pais sempre foram contra essa história de pichação, ficavam preocupados, mas eu fazia mesmo, não tinha jeito. Resultado: Topei, a repórter foi lá em casa, tirou fotos e publicou uma entrevista com meu nome, idade, o que eu fazia (na época eu cursava Física) e tudo o mais. Então eu saía na rua e era reconhecido, olha lá o Celacanto e o meu ego explodia... Pichei mais um tempo e aí fui diminuindo, pois precisava começar a ter que estudar mais para a faculdade (que era uma dureza) até que terminei abandonando o grafite.

Uns dez anos depois, recebi um telefonema:

- É você o Carlos Alberto Teixeira?

- Sim, sou eu mesmo.

- O autor do Celacanto?

- Exatamente.

- Ah, nós precisamos da sua ajuda.

- O que que foi?

- Precisamos que você faça o grafite de um cenário do programa da Angélica, na TV Manchete.

- Olha, eu faço, o preço é tanto...

Eu dei um preço exorbitante, os caras toparam, pedi um monte de material e eles me pegaram em casa numa tarde de sábado, me levando para uma estação de trem em Niterói. Ó, é aqui, você pode pichar à vontade. Fiquei pichando lá até a madrugada, uma beleza, tenho até fotos disso, e acabei ganhando dinheiro como artista plástico. Tenho o recibo lá em casa até hoje, "Carlos Alberto Teixeira, artista plástico", graças ao CELACANTO PROVOCA MAREMOTO.

Aí começaram a surgir pessoas dizendo ah, eu inventei o Celacanto. Eu ficava olhando pra pessoa e dizia "escuta, inventou nada, quem inventou fui eu", e os caras diziam "ah, desculpa, eu não sabia". Encontrei uns três caras afirmando que criaram o Celacanto e eu ia lá para conferir e os desmascarava, já que eles não tinham argumentos: "criou onde?", "desde quando?", "onde surgiu?" e ninguém sabia.


Eu pichava só tapume e parede. Jamais pichei pedra, monumento ou árvore. Eu só pegava lugares escolhidos a dedo, como na "saída" de curvas, por exemplo: quando o cara saía da curva de São Conrado, lá na Barra, dava de cara com uma casa onde tinha a inscrição do Celacanto bem no centro, o que causava uma impressão boa. Agora, qual o motivo disso aí? No meu caso, eu acho que sempre tive uma ânsia por comunicação, por passar uma mensagem, e o Celacanto foi isso, foi algo tão bem feito na época que ficou famoso e não tem ninguém do pessoal da década de 70, da zona sul do Rio, que não se lembre do "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO".

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Meu sedã japonês é inspiração até para pesadelo

Esta noite sonhei com ele. Como manda a tradição, foi um pesadelo já que há muitos e muitos anos não lembro de ter tido um sonho, digamos, normal. Só pesadelos. Eu estava tendo a primeira sessão de análise e, no final, o analista pediu meu sedã japonês emprestado por uma semana para fazer uma viagem. Por alguma razão não consegui negar. Ele pediu, por favor, que eu combinasse onde deixar o carro com a sua irmã, que tinha um quiosque na praia de Charitas, onde os quiosques são lixo a céu aberto mas, misteriosamente, ninguém (nem o Judiciário) consegue mexer nos quiosqueiros.

Eu e Odara fomos lá. Eram duas as irmãs do analista, ansiosas com a chegada do meu sedã. Eu apenas recomendei que usassem gasolina aditivada V-Power, da Shell, porque o sedã era japonês mesmo, importado de lá. Eu tinha que deixar o carro rápido porque havia uma sessão com o psicanalista meia hora depois e o trânsito de Niterói, também em pesadelos, estava um caos. Apesar de não precisar passar pela rua Alvares de Azevedo, em Icaraí, a mais engarrafada do Brasil. De 6 da manhã a meia noite parada por falta de guardas.
Saí de lá reclamando com Odara. No fundo eu estava indignado, coração pesado, fulo da vida, mas por alguma razão não pude negar o pedido. Aí você, leitor, pensa “foi quando você acordou”. Nada disso. Emendei em mais dois pesadelos cotidianos sinistros.

A história. O sedã japonês é verde escuro e estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Entrei disposto a comprar um SUV 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile. O problema seria vencer a preguiça. Eu sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando meu olhar bateu no sedã japonês.

Levantei, olhei a frente, traseira, laterais. Abri o capô, motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV. 

Mudei de ideia. Em vez do SUV comprei o sedã japonês. No dia seguinte sai da loja, pus um CD no Kenwood de fábrica e zarpei. Fui até Barra do Sana e desci pela Serramar (na época lama pura) e retornei como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixei a BR e decidi ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios de esgoto, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês passou. Com água na porta, muitas vezes boiando, sequer falhou. Dias depois, outro toró no Ingá, bairro de Niterói. Água na porta, o sedã boiou de novo e chegou a virar ao contrário. Mas não pifou.

De dois em dois anos pensava em trocar o sedã japonês por um mais novo, mas me perguntava para que, se o carro até alma de jipe tinha. Num lugar chamado Engenho do Mato as vezes eu matava saudade dos ralis fazendo trilha com o sedã no lamaçal, alta velocidade. Impressionante. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que eu iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Eu e o sedã japonês já não sabíamos mais quem era quem. Ele é quase único porque só foi importado durante um ano. Era raro. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais...jamais traiu o seu DNA japonês.

Mas um dia...bem um dia surgiu um outro japonês. Novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também...foi quando vendi o sedã japonês. Fiquei arrasado mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, tive certeza que o meu grande amigo continuaria em boas mãos.

Meu irmão, Fernando de Farias Mello, me disse domingo que viu o sedã passar por ele, lindo, reluzente. A todo instante alguém diz “eu te vi na rua tal”, “vi seu carro naquela praça”, “vi...”. O sedã foi meu embaixador por 17 anos.

O novo japonês parece ter gostado de mim. Começamos a construir uma história bacana, leve, rápida, precisa, estável. Sem problemas. Como os carros japoneses e alemães. Mas, a saudade do sedã eventualmente me pega. Como há 15 dias eu o vi com o novo dono, parado num sinal, a saudade rasgou. Decidi que, ano que vem, vou tentar recomprá-lo só para tê-lo por perto.


Só que o novo dono me disse que...não vende de jeito nenhum e até pensa comprar um outro, idêntico. Como são raros, ele está correndo atrás.

sábado, 4 de novembro de 2017

A maravilhosa incoerência dos leitores

Coerência demais é burrice. Viva a incoerência de baixos teores!


Leitoras e leitores entraram em contato com a Coluna pedindo que eu escreva textos mais longos. Outros pedem textos mais curtos, alegando falta de tempo, mas vamos combinar que deve ser a boa e velha preguiça. Mais à frente há que peça cenas de sexo, outros, poesias, outros, reflexões, outros, absurdos, outros...

Impossível entender cabeça de leitor. Ainda bem. Como a ansiedade que me esculacha (e a maioria da população mundial, segundo a OMS), a incoerência é um elemento que já vem instalado em nosso DNA. E eu acho ótimo. A incoerência. A ansiedade, não. Peraí, ansiedade sim, desde que em baixos e médias dosagens, eventualmente inverter a desordem natural das coisas. Carregar um jegue no lombo, por exemplo.

Recentemente decidi retomar uma diversão antiga: fotografia. Nos anos 1990 e 2000 perambulei pelo país com uma câmera amadora Olympus e cliquei mais de mil nuvens, trabalho que o amigo Romildo Guerrante continua fazendo, com muito talento. Minha ideia era reunir as melhores num livro, acatando a sugestão de uma amiga fotógrafa, mas para não variar perdi todas as fotos e negativos. Foi durante uma mudança de endereço, a mesma que devorou todos os meus CDs e livros e já foi até tema da Coluna.

Sou apaixonado por fotografia e a ideia é sair por aí com a minha câmera, uma pequena Sony DSC- WX100 que tento dominar. Minúscula, cheia de recursos, até demais. Até ativei minha conta no Instagram (agora é tentar saber como aquilo funciona) e comprei uma capinha rígida no Mercado Livre. Cenas urbanas me encantam e acho que minhas fotos vão por esse caminho. Ou não.

Quanto ao tamanho da Coluna peço que você, leitora/leitor, opine aqui nos Comentários: maior, menor, enfim, você decide já que a oca é sua.






sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O empoderamento da canalhice

Mais do que desonra ao mérito, a Ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, que é do PSDB de Aecinho, simboliza a canalhice reinante no país atualmente. Como se sabe, a desembargadora aposentada do TJ da Bahia além de pedir formalmente acúmulo de salario atingindo R$ 61 mil, ela comparou a sua situação com o trabalho escravo, mesmo com R$ 32 mil depositados na conta todo mês, mais carros de luxo, motoristas, cartões corporativos, aviões das FAB à disposição, casa e comida pagas por nós. Em entrevista à Rádio Gaúcha, indignada, ela perguntava “como vou comer, vestir, calçar?”, mesmo abocanhando R$ 32 mil por mês (34 vezes o salário mínimo pago a plebe). Foi a maior agressão que a população brasileira de todas as cores sofreu de um ministro de Estado na história recente.

Recentemente o presidente da Câmara dos Deputados, acompanhado de colegas, deu um giro pela Europa. Com dinheiro público, naturalmente. Semanas atrás as aguerridas (quando se trata de interesses pessoais) senadoras, as amigas Gleisi Hoffmann (PT) e Vanessa Grazziotin (PC do B), viajaram “em missão” para a Rússia. Fizeram um belo country tour, acompanhadas de outros colegas do Senado. Meses antes, as duas foram, também “em missão”, vadiar por Portugal. É assim no Congresso todo.

São dezenas de outros exemplos de patifaria explícita que dariam para encher essa página. A maior delas foi mais uma vergonhosa conduta do presidente da República Michel Temer que fingiu que não viu a gatunagem de sua Ministra dos Direitos Humanos e a manteve no cargo. Nem na cocaleira Bolívia ela sobreviveria.

O empoderamento da canalhice, acompanhado da vitimologia, mão na cabeça, “coitadismo“, mendicância existencial e outras patologias sociais, abocanharam o país recentemente. No bojo desse fenômeno estão a genial patifaria de Lula (que agora tenta se reaproximar do PSDB) a mediocridade de Dilma, a nulidade cada vez mais anêmica de Temer. Tudo com o aval do voto popular, o que é mais grave.

A mistura de corrupção, populismo e molecagem, ingredientes básicos dos três poderes hoje (executivo, legislativo e judiciário) são o combustível dessa cachorrada que virou o Brasil. Nunca o pistolão, o apadrinhamento, o jabá, o “meu querido” tiveram tanto poder. O mérito? “Dane-se o mérito”, cospem os poderosos. Na nossa cara, de hora em hora, todos os dias. Vale mais o “ A é pior do que B mas é filho de C, nosso amiguinho”, ou “esse cara é profissional demais, vai acabar nos expondo...melhor deixar como está”, ou “não precisamos de currículo forte mas de mão de ora barata” e por aí vai.

Ninguém reage, ninguém atira, ninguém joga coquetel molotov, como pode? Elementar. Graças a nossa miscigenação afetiva, deformação de caráter na origem e a chegada da macro corrupção com a vinda Corte em 1808, passamos a ser regidos pelo cagaço amplo, geral e irrestrito. É menos arriscado fazer mimimi no Facebook. Um povo que engole cusparada na cara não encara nem estalinho de festa junina.

Saída para esse Brasil que está aí? Não conheço. Há quem defenda intervenção das forças armadas, mesmo sabendo que nos últimos meses elas desviaram para bolsos particulares R$ 114 milhões. E a canalhice do andar de cima sabe que somos um povo fraco, covarde e, para piorar, finge que é desinformado, finge que não tem memória, finge que quer solução mas no ano que vem vai votar nos mesmos porcinos e porcinas para perpetuar e “aperfeiçoar” o empoderamento dos canalhas.

Para sempre.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Feriadão

                                                                     Óleo sobre tela, Osamu Obi
Quando estou no carro ouço rádios de notícias. CBN e Bandnews. CBN menos por causa da overdose de futebol que nem gandula suporta. Na Região Oceânica de Niterói (Itaipu Itacoatiara, Camboinhas, Piratininga, Cafubá etc) ouço a Oceânica FM, 105,9, que tem uma programação que tem tudo a ver comigo.

As rádios de notícias me irritam em vésperas de feriadões porque os apresentadores tratam do assunto (feriadão) como solução de tudo. Perguntam aos repórteres “vai chover no feriadão”?, “como está o transito na véspera do feriadão?, “eu vou estar de folga no feriadão, e você?”. Passam a impressão que detestam o que fazem, quando em alguns casos é mera falta de assunto.

O dicionário explica: “Feriado - dia de descanso, instituído pelo poder civil ou religioso, em que são suspensas as atividades públicas e particulares”. Já escrevi sobre feriados. Um artigo meio marrento, sentando o pau especialmente nos feriadões, que atrapalham...atrapalham...atrapalham quem? O que? Hoje, com a devida distância, digamos, histórica, confesso que foi um texto egoísta.

Desci o cacete nos feriados porque jornalistas vivem um dilema. Se por um lado parte da redação fica de folga, a outra rala dobrado para compensar, já que a mídia não para, ou pelo menos não parava. Não foi um texto reclamão, mas agressivo porque naquela semana um feriadão tinha me liberado de virar noites escrevendo, antecipando trabalhos para que o cronograma não fosse para o espaço. É isso mesmo. Gosto de dar plantão em feriados por várias razões: 1 – as cidades turísticas em geral estão soterradas de gente; 2 – as praias da cidade também; 3- bares e restaurantes a noite ficam entupidos; 4 – e eu amo muito o que faço e já troquei muita folga por plantão que, de quebra, pagam muito bem e não gastamos um centavo.

É evidente que não costumo viajar em feriados, ou feriadões, porque meu nível de masoquismo é baixo. Enchi o saco de passar feriados encalhado nas sub estradas do Estado do Rio ou largado como uma mochila perdida em esteiras de aeroportos lotados.

Tempos atrás, num desses feriadões, acompanhando uma namorada asiática que não falava português (a gente se virada num inglês à Bangu), fomos parar numa pousada no alto de uma montanha, totalmente selvagem. Sem luz (gerador ligado até 10 da noite), comida natural sem carne, sucos, água de fonte e muitos passeios pela mata virgem.

A asiática falava pouco, fazia muito. Nosso feriadão foi de quatro dias e perdi cinco quilos, comendo galinha, comendo alface, comendo abricó, e sendo comido pela insaciável asiática calada, quieta, mas que na hora do abajur lilás lembrava as bombas de Hiroshima e Nakasaki.

Não saí para caminhar. Nem ela. Parecíamos um casal de codornas internado no quarto dos fundos, para desespero de uma meia dúzia de outros casais que foram para aquele lugar com aquela conversa de reiniciar o casamento, como se casamento fosse um Windows, um PC, um OS. Casamento é para os criativos, ousados, independentes, absurdos, seres a prova de rotina como aquela asiática que, um dia, deixou uma carta apaixonada (escrita à mão) na minha portaria e ganhou o mundo. De novo.

Sofri porque me apaixonei pela liberdade dela, pelo imaginário dela, pela ausência de ciúme dela (não rolava nem “que horas são?”), pela beleza dela e...bom, ela se mandou mas deixou uma carta que, diria Euclides da Cunha, me fez ruborizar de tanto auto orgulho num momento de rejeição radical que é o do pé na bunda.

Pelo que observo, muita gente tem desistido de viajar nos feriadões porque percebeu que padece nas estradas e quando chega ao destino está tudo cheio, falta água, luz, vale a lei das filas, engarrafamentos humanos e o de automóveis pioram, praias superlotadas, preços estratosféricos, assaltos, blá blá blá.

Temos o direito de homenagear nossos mortos, santos e afins. Temos sim. Mas o que me fez realmente mudar de ideia em relação aos feriados foi uma matéria que li sobre um relatório da Organização Internacional do Trabalho, OIT, que informava que nós, brasileiros, estamos entre os povos que mais trabalham no mundo. Claro que os chineses batem recorde, mas aquilo é regime de escravidão.

Os que menos trabalham (medição em horas por semana), pasmem, são os alemães. Fiquei impressionado com a quantidade de feriados na Europa, com a quantidade de horas/semana que os franceses, ingleses e italianos trabalham que é muito menor do que a nossa. Ou seja, nós que trabalhamos pra caramba merecemos dar uma descansada-extra de vez em quando.

Não importa se viro noites, não importa se os prazos ficam apertados. O que importa é que, ao contrário do que muita gente pensa nós, brasileiros, trabalhamos muito. Você sabe disso porque sente na carne. Além disso, os feriados desorganizam a vida de muitos outros profissionais que são submetidos a plantões, emergências, enfim, nem todo mundo bota o boi na sombra.


E começamos mais um feriadão. Em vez de despejar a ira, desejo a todos muito, mas muito prazer.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Sozinho não dá

                                         Óleo sobre tela de Anna Razumovskaya

Jajá foi um mestre acidental que ganhei em meados dos anos 70, quando já estava submerso no jornalismo. Jajá era 30 anos mais velho do que todos nós, com certeza tinha o melhor texto que conheci e foi correspondente no Vietnã, no auge da guerra, entre 1969 e 1971. Trabalhou em Londres também como correspondente.

Em 1976 passou uns meses em Niterói. Foi aposentado por problemas emocionais, não por causa do Vietnã mas pela cobertura jornalística que fez do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, em fevereiro de 1974 matando 191 pessoas. Ele dizia, sempre emocionado, que “aquelas cenas...eu jamais esquecerei o que vi...jamais entenderei, jamais entenderei”.

Ele contava que para aliviar a dor começou a beber muito, “até ser resgatado por colegas em lixeiras de Londres. Mesmo assim não parei. Eu precisava afogar minhas lembranças nos copos, muitos copos, que me fizeram perder mulheres trabalhos e me levaram a aposentadoria precoce. Mas a vilã maior foi essa moleca chamada cerveja. Tem pinta de refrigerante, fraquinha, ares de inocente, fui bebendo regularmente até constatar, anos depois, que estava alcoólatra”. Ele em Minas Gerais.

Sua narrativa era irônica e debochada e certa vez, sentado na sua mesa predileta na extinta Leiteria Brasil, que ficava na rua da Conceição, Centro de Niterói, após vários chopes e garrafas de vinho Chateau Duvalier, revelou que iria escrever um livro chamado “Sozinho não dá”.

Como assim, Jajá? “Olha, por mais que o homem pise na lua, e chegue a Marte, a solidão continuará sendo a nossa maior predadora. O ser humano é bicho de bando, quem negará isso? Se você pensa em levar a vida sozinho ou, pior, acabar a vida sozinho em nome de qualquer razão está fodi... Tudo o que fazemos, pensamos e sentimos não é para que. É para quem. Todo mundo sabe que compartilhar a vida com uma mulher não é só sexo, birita e rock and roll porque em vários momentos o jogo fica pesado. Por isso sempre digo que sozinho não dá.”

Rebati dizendo, da várzea de meus 21 anos na época, que jamais havia projetado uma vida solitária, mas ele me cortou. “Tudo bem, você pega uma ali, meia dúzia acolá, mas e quando chegar a tal da meia idade quem vai comemorar com você 20 anos de relação? Quem vai te acordar no meio da noite notando que você está passando mal? Em suma L.A. (ele me chamava de L.A.) quem vai cuidar de você com o maior prazer, porra? Mais: de quem você vai cuidar? Quem você vai de levar para viajar e se divertir? Para quem você vai acordar no meio da noite para ir uma farmácia comprar remédio contra cólica? Sozinho não dá”.

Não sei se ele escreveu “Sozinho não dá” e um outro romance “Nunca mais 50”, sobre a péssima experiência que sentiu ao virar um cinquentão. Não sei se escreveu, mas publicar não publicou pois nós teríamos sabido. Ele disse, inclusive, que iria dedicar o livro a um amigo inglês que quando fez 90 anos optou pela auto eliminação. Bebeu veneno. “Ele dizia que a sua validade existencial já havia vencido”, contava o Jajá. Aliás, pensando bem, faz sentido.

Fato é que “sozinho não dá” virou um mantra em mim, o que acho  extremamente saudável. Não tenho vocação para cachorro louco e nem para egolatria, seja leve, média ou grave. Sempre apreciei o trânsito intenso de afeto, companheirismo e solidariedade porque, afinal, a minha senha também é “para quem” e não “para que”.

Afinal, sozinho não dá.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O drama do disco de vinil

                                 Disco de vinil surrado. Clec clec clec
                                        Outras utilidades

Ano passado publiquei aqui o artigo "Porque detesto disco de vinil, aquele porco redondo" contando o que me fez romper com esse tipo de mídia. Várias pessoas se manifestaram contra mim, a maioria equivocadamente.

Para começar publicaram mensagens anônimas ali nos Comentários o que me impediu de publicá-las. Muitos fizeram comparações entre a qualidade do som dos discos de vinil em relação ao CD tema que não foi incluído em meu artigo.

As questões que levantei são referentes a arranhões, estalos, complicações operacionais, aqueles incidentes que fazem o braço do toca discos correr sobre o disco e vrrrummmmm. Em emissoras de rádio foi um grande vilão, safado, derrubador de operadores, mas em momento algum comparei o som das chamadas bolachas com o do CD.

Mesmo porque acho que quando os primeiros compac discs saíram em formato AAD e ADD havia, sim, uma enorme diferença de som, principalmente a ausência de graves. Mas quando começaram a lançar em DDD tudo ficou igual. Pelo menos para mim que tenho ouvido de lince mas não absoluto, como, me parece, tem a maioria dos defensores dos discos de vinil. Peraí! Em alguns casos a superioridade do áudio do vinil é impressionante, como ouvi recentemente na casa de um grande amigo que pôs uns vinis de 180 gramas para tocar. Impressionante. Só uma ema surda não notaria a diferença.

Por isso grandes produtores só permitem que obras originalmente lançadas em vinil sejam transformadas em CD através de um processo de remixagem/remasterização extremamente bem feito. Quando a gravadora Atlantic lançou os primeiros CDs do Led Zeppelin, Jimmy Page ficou furioso, foi lá e embargou tudo. Os CDs foram recolhidos e ele mesmo, Page, fez uma nova edição específica que foi (e ainda é) um sucesso.

Quando escrevi que aprecio os colecionadores de vinil e fiz comparações com quem gosta de comprar leques para por na parede não estava debochando. Nos anos 1970 tive uma amiga, profissional de prazeres eróticos para todos os mamíferos, nível A, que adorava e sua casa tinha leques chineses, vietnamitas, paraguaios espalhados pela casa e eu achava o maior barato. Inclusive numa noite, sem que ela visse, retirei um (afegão), abri e cocei as costas com uma das pontas. Adorei.

Coleção de carros? Adoraria ter uma. Se fosse um trilhardário teria uma casa em Santa Mônica, Califórnia, maior terrenão gramado e ao fundo um mega galpão. De manhã ia tomar café lá fora e pedia para minhas assistentes tirarem da garagem um Porsche 917 ano 1971 (fora de série) ou 911, ano 1970, um Mustang 1965, vários Volvos, três ou quatro Karmann Ghias, Ferraris, Land Rovers só para ficar contemplando. No dia seguinte, uma nova leva já que, neste caso, eu teria uns 300 carros. Por que? Porque adoro carros.

Guitarras e contrabaixos? Dezenas. Minha coleção ficaria numa parede imensa, num lugar com equipamentos de museu para preservar as Gibson, Fender, Rickenbacker, Daneletro, num salão próximo a coleção de galos de briga, canários belga e roller, peixes Betta (de luta) e, lógico, cachorros, um oceano de cachorros. Sim, a casa seria a maior de Santa Monica.

Basicamente minha opinião continua a mesma: disco de vinil é uma bosta. Adoro o CD e dos formatos digitais WAV APE, FLAC que uso no computador e as novas gerações de MP3, utilizados pelas melhores webradios do mundo. Tudo, menos vinil.

Afinal, paca é paca. Trauma é trauma.