quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Bonnie


https://www.podomatic.com/podcasts/luizantoniomello/episodes/2017-09-20T08_11_18-07_00

Quando o carro chegou naquela aldeia empoeirada, bela, paradisíaca, minha cabeça moída e o corpo cansado agradeceram. De pés juntos. Era verão, provavelmente o melhor verão de minha vida. Pelo menos até o verão seguinte.

O acaso me fez encontrar com três amigos, que foram promovidos a grandes amigos, numa rua qualquer naquela semana. Eu estava de saco cheio de ególatras, interesseiros, gente que só investe em amizade de conveniência achando que somos babacas. Tudo bem, eventualmente sou um babaca mesmo, mas naquela semana eu estava com a faca nos dentes. Os caras me convidaram desleixada e afetuosamente, “vamos passar o resto do verão naquela aldeia praiana. Alugamos uma casa lá e um dos caras não vai poder ir.”

Como estava cheio e detesto o verão na cidade, comuniquei as férias (vencidas) no trabalho, passei em casa, peguei o carro, e fui, sem maiores expectativas. 

Partimos em dois carros, saindo por volta das 10 da noite, uma viagem que durou umas seis horas pois paramos em várias biroscas para bater papo. Eu não estava habituado ao saldo positivo de tempo. Naquela noite sobrava tempo, mas as vezes, no meio da conversa movida a gargalhadas senti a incômoda presença do fantasma da culpa até lembrar que estava de férias.

Na reta final, quase chegando a aldeia, achei que um caminhão vinha em sentido contrário, mas era Vênus, linda, vaidosa, imponente no meio daquele céu azul petróleo banhado de estrelas. Vênus ficou em nosso horizonte alguns mágicos minutos, até dobrarmos a direita numa estrada secundária que levava diretamente a aldeia.

Chegamos e nem desfiz minha mala. Simples. Duas calças jeans, duas bermudas, quatro camisetas, sandália, tênis, sunga, escova de dente, Omo, etc e lá no fundo, bem no fundo, a fita com “Bonnie”, do Supertramp, que havia gravado há meses como uma espécie de mantra e estava perdida. Ela acabava e recomeçava, acabava e recomeçava. Peguei. Peguei e logo que coloquei a rede nos ganchos da varada, liguei “Bonnie” num micro system de um dos amigos, no meio daquele resto de noite de um lado e início de amanhecer do outro, com direito a brisa soprando e ruido do mar de encontro as pedras perto dali.

Acordei com o sol na cara, quente, implacável. Eram umas 10 da manhã e quase me arrastando fui para o quarto onde liguei na tomada meu bravo ventilador Britania, que morava no porta malas do meu carro. Dormi. Dormi pra cacete.

A tarde, nós quatro fomos almoçar numa birosca que servia o melhor e mais barato filé de cação da região, com arroz agulhinha e brócolis de acompanhamento. Dali, fomos para a praia, mar translúcido, areia deserta. Um dos amigos tinha levado o seu pranchão de windsurf, um esporte que existiu entre os anos 80 e 2000, se não me engano. Pusemos a prancha no mar sem ondas, eles colocaram a vela e começaram a velejar. Não sei nem nunca soube velejar porque tenho preguiça de aprender, apesar de achar fantástico. Os caras eram feras e no fim da tarde pararam. Na beira d’água, tirei a vela da prancha, amarrei num pedregulho (como âncora) e deitei de barriga para cima, boiando como Zorba, o Grego.

As 11 da noite retornamos para a casa, a uns 60 metros dali. Eles pediram e para minha alegria dei Play na fita de “Bonnie”, que rolou mais um tempão. Fizemos e devoramos um churrasco de picanha. Depois, em duas motos e, dois em cada uma, fomos para uma espécie de centro da aldeia e entramos num dancin' bem simples, com frequentadoras locais e também de fora, maioria de São Paulo e Minas.

No dia seguinte, sem dormir, peguei uma das motos e percorri a beira d’água por vários e incontáveis quilômetros, rumo ao norte. A culpa já tinha sido chutada e meu relógio de pulso guardei no porta luvas do carro, abandonado na garagem. Em algum lugar parei, mergulhei, deitei na areia e dormi. Acordei com o sol quase se pondo. Mergulhei de novo. Depois, liguei a moto e retornei. Quando cheguei próximo a casa, notei um movimento extra. Algumas garotas que estavam no dancin' na noite anterior resolveram nos visitar e, de topless, animadas, falavam, gargalhavam, beijavam na boca e nos degustavam com apetite e prazer.

E assim o verão “Bonnie” foi cavalgando. Tudo muito devagar. Dias depois já estávamos pretos por causa do sol, e barbudos por desleixo proposital. Numa das noites maravilhosas e transcendentais, quando todo mundo havia saído (com algumas outras garotas do dancing), preferi ficar sozinho.

Deitei a vela da prancha de windsurf no gramado, liguei “Bonnie” e mergulhei nas estrelas e satélites que passavam naquele impressionante firmamento que misturava azul petróleo com prata. “Deus existe”, pensei várias vezes. Pensei e prometi a mim mesmo mudar algumas coisas em minha vida. Alguns comportamentos. Não foi promessa, nem decisão radical. Um mero acordo meu com aquelas noites abençoadas que, de cara, me deram de presente três amigos extraordinários.

Em minha divagação (teria sido meditação?) excluí algumas manias que de fato foram deletadas, menos uma delas: não incomodar ninguém. Tinha essa mania. Tinha e tenho. Naquele verão mesmo fui sozinho a uma praia relativamente movimentada, peguei sol demais e acho que tive intermação. Sei que na hora em que fui mergulhar quase desmaiei e me afoguei. Ali mesmo, no raso. Mas, com essa mania de não querer incomodar, não pedi socorro, não chamei ninguém, mas ainda assim fui visto por um gringo que me puxou pelo braço e me levou para a areia. Até hoje penso “será que se ele não tivesse me puxado eu teria me afogado por cerimônia?”. Creio que sim. Pior é que ando cada vez mais radical. Nem a hora pergunto. 

Já me perdi em São Paulo por horas por não perguntar nada a ninguém. Por isso, até a pé uso o aplicativo Waze. Não pergunto nada, não peço nada, não grito socorro para ninguém, não gosto de ganhar presente porque “dá trabalho a quem compra”. No entanto, quem me conhece diz que sou mega solidário e prestativo o que sou mesmo.

Passamos do final do verão lá naquela aldeia, como primatas. Uns 40 dias, não sei bem. Retornamos muito amigos. Um deles seguiu a pé para a Cordilheira dos Andes e o outro pegou um voo para o México, onde estava estudando os peiotes de Carlos Castanheda. Eu e o terceiro amigo ficamos por aqui mesmo e toda vez que nos encontramos falamos de “Bonnie”.

Como não?








Bandido que assassinou idosa a facadas vai continuar matando

                                   Os bandidos que atacaram a aposentada. Sem tarja preta nos olhos
                                    como determinam os politicamente corretos
Ontem a tarde. A Sra. Maria Alcina Gil, idosa de 66 anos que se aposentou há dois meses, cometeu a ousadia de sair de casa sozinha em Icaraí, Niterói, cidade também largada a própria falta de sorte pelo governo do estado e prefeitura. Dois bandidos de bicicleta, menores de idade, cercaram a senhora para assaltá-la. Ela tentou fugir e um deles, de 17 anos, cravou uma faca nas costas da vítima que sangrou até morrer. Foi num bairro bucólico (também é crime ser bucólico?) conhecido como Alameda Carolina.

Os menores foram apreendidos (os politicamente corretos não gostam de falar que menor foi preso) e um deles, que vai fazer 18 anos em dezembro, confessou friamente o crime, segundo a polícia, sem mostrar sinais de arrependimento. A dupla mora no populoso morro do Preventório onde em época de eleição alguns candidatos sobem prometendo de tudo, inclusive títulos de terras ilegais e manter a maioridade criminal em 18 anos, e não baixar para 15, como clama a maioria da população que os politicamente corretos chamam de “reacionários”.

A faca que os marginais cravaram em Dona Maria Alcina está sangrando as costas de todos os cidadãos de bem do Estado do Rio, especialmente de Niterói, cidade que é hoje palco do que existe de pior em administração pública. Pior. O atual prefeito (que foi do PT até o ano passado), reeleito em segundo lugar (perdeu para votos nulos, em branco e abstenções) pretende se candidatar a governador do estado ano que vem.

Há tempos a mídia que não recebe jabá (dinheiro por fora) da prefeitura da cidade vem alertando para a enorme quantidade de bandidos infiltrados entre os flanelinhas que achacam motoristas, principalmente em ruas movimentadas e cheias de idosos (público preferencial) como Tavares de Macedo, Moreira César e Lopes Trovão, em Icaraí. Mais: a cidade está tomada de meliantes misturados a população de rua que cerca porta de bancos e outros estabelecimentos comerciais, apesar da prefeitura mentir dizendo que sua guarda municipal de 600 agentes é eficiente. Até durante a madrugada esses bandidos agem.

A Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos de Niterói, nome tão pomposo quanto inútil, cabide de empregos* que é curral eleitoral de uma petista que é vereadora licenciada (pela segunda vez ganhou a eleição mas preferiu ser secretária…) que costuma dizer que a população de rua é convidada a ir para os abrigos, mas recusa. Curioso isso. Ela acha que a culpa é do povo que dá esmola para vagabundos, o que não deixa de ter razão. Em tempo, essa senhora apoia a facção do PT que tem ódio da classe média que chama de "elites".

Senhora Maria Alcina Gil, a sua cidade está muito triste e indignada com o crime hediondo que culminou com a sua morte, mas lamento dizer que em greve esses dois bandidos vão estar de volta as ruas, matando, matando, matando, porque são menores de idade e Niterói vai continuar largada. O que vai acontecer? Manifestações pacíficas com faixas com os dizeres “basta de violência”, alguns políticos condenando o crime, enfim, vida que segue.

Ou melhor, morte que segue.

* Chamada da Secretaria: 14/11/2016 - A Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos de Niterói (SASDH) abriu processo seletivo para contratação temporária de 197 profissionais para os cargos de assistente social, auxiliar administrativo, conselheiro químico, digitador, educador social, entrevistador, psicólogo e técnico de nível superior. Os vencimentos vão de R$ 806,06 a R$ 1.411,19. A inscrição, que é gratuita, abre na quarta-feira (16) e deve ser feita na sede da SASDH, das 9h às 12h e das 13h às 17h.








terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Cravo não brigou com a Rosa- Texto de Luiz Antônio Simas*

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto

Soube que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O Cravo brigou com a Rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o Cravo - o homem - e a Rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o Cravo encontrou a Rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a Rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: “Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas.” A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.”
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. 
Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens. Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. 

O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, bola de sebo, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa, cotonete e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa de 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do c..., cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. 
Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.
Abraços.

*Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio.

sábado, 16 de setembro de 2017

Poderia ter sido diferente?

Até os livrotes vagabundos tricotam freneticamente sobre o renascimento de nações que foram dizimadas por guerras. Inglaterra, Alemanha, Itália, China, Japão. A Coreia do Sul, depois de ser destruída nos anos 50/60, passou todo mundo e hoje é o país-modelo em educação.

Se o Brasil tivesse encarado guerras teria sido? Sabem a antiga teoria psicanalítica de que o ser humano só cresce com dor, sob tensa e intensa crise? Ela se aplica a nações? O Vietnã viveu em guerra de 1910 a 1975. Japão invadiu, França invadiu, Estados Unidos invadiram. Só na guerra contra os Estados Unidos morreram 1 milhão e 500 mil vietnamitas que, em nenhum momento, largaram o osso. Foram até o fim e botaram os americanos pra fora com memoráveis chutes na bunda. Hoje o Vietnã já é quase um “tigre asiático”.
                                                
Parto de um princípio de que a culpa não é de quem faz, mas de quem deixa fazer. Exemplo: se puserem um caixa eletrônico em cima da Pedra do Arpoador a culpa será do banco ou da prefeitura?  A passividade popular homologa os desvios. As eleições sacramentam. Em outras palavras, qualquer pau de enchente que esteja no poder num regime democrático, o aval (culpa) é nosso.

Não vou citar exemplos de outros países que venceram o arbítrio/corrupção/canalhice porque todos (sem exceção) usaram a truculência. Mussolini foi pendurado de cabeça para baixo num poste, americanos jogaram coquetéis molotov em postos de gasolina que aumentaram preços no crash de 1929, enfim, não encontro um exemplo de vitória popular que não passe pela luta.

Não estou defendendo ninguém e muito menos atacando. O que a História nos conta é que por não coincidência os povos regidos por fanatismos religiosos são os mais manipulados. Os povos da Índia e África, em sua maioria, são hordas de mortos-vivos dopados por crenças fanáticas que não deixam enxergar que os seus governos roubam, matam, achacam, em nome desse mesmo fanatismo. E Deus não tem nada a ver com isso.

Não tenho lastro teológico suficiente para afirmar que Deus discorda do fanatismo religioso, mas tenho o direito de supor que Ele não concorda. Fanatismo paralisa, enlouquece, dopa. Fanatismo quando decreta que orelhão é sagrado os seguidores batem palmas quando o Estado não instala orelhão nenhum.

Fanatismo quando determina que peixe é sagrado seus seguidores autorizam o Estado a não investir nada em indústria pesqueira. Mao Tse Tung radicalizou quando sentenciou que “a religião é o ópio do povo”. Em alguns casos, a religião manipulada, mais do que o ópio, é pior do que heroína.

Por que nós, brasileiros, somos tão submissos e cordatos? Faltou guerra? Faltou o olhar do invasor dentro da nossa casa citando Renato Russo : “eu sou a sua morte/ vim de fazer companhia”? De vez em quando vejo carros com adesivos “Basta isso”, “Basta aquilo”. Bastar como? Como se “basta” a lambança? Como se basta o arbítrio, a corrupção, tráfico de vidas?  

Fato é que a gemedeira e a vitimologia continuam por aí. Continuamos pagando a tal taxa de “assinatura” dos telefones, engolindo o “matematicalogismo” que aumenta planos de saúde, mais casa, comida, roupa lavada e corrupção de parlamentares. Qual é o critério? A submissão? Qual é a saída? 

Quem é o inimigo? Quem é você?



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Focus arrasa no Teatro Municipal de Niterói

                                                          Pierre Van Der Linden - bateria                                                                          

                                                        Thijs Van Leer - flauta, órgão e voz               
                                                                               

                                                                 Menno Gootjes - guitarra
                                                                                    
                                                                Udo Pannekeet - baixo
Teatro lotado, pessoas aplaudindo de pé no meio das músicas, energia fortíssima e um dos melhores shows que assisti nos últimos tempos. Em resumo, essa foi a noite de quinta-feira quando o grupo holandês Focus proporcionou aos felizardos que compareceram a seu espetacular show no Teatro Municipal de Niterói.

Contemporâneo, com um som que mistura o progressivo, jazz, fusion e, lógico, rock, o Focus mostrou porque continua no topo da montanha das grandes bandas do mundo. Digo sem qualquer dúvida que jamais em tempo algum assisti ao vivo a um baterista tão visceral e genial quanto Pierre Van Der Linden, fundador da banda, que do início ao fim do show surpreendeu a todos com ousadia, pitadas de vanguarda, experimentalismo e uma agilidade impressionante. Adepto do clube “fora vassourinha!”, ele quase destruiu, literalmente, o instrumento de tanta emoção, a ponto da produção, no meio do show, ajustar as peças que sucumbiam a maravilhosa descarga emocional do músico.

Outro fundador da banda (em Amsterdã, 1969), flautista, cantor e organista Thijs Van Leer, carismático, em determinado momento do show pegou a sua flauta, desceu do palco e fez um solo caminhando pela plateia em êxtase. Foi demais! Coube ao guitarrista Menno Gootjes, um cara de uns 30 anos, a difícil missão de tocar os solos do ex-Focus Jan Akkerman, que há tempos deixou o grupo e continua tocando pelo mundo. Menno cumpriu a missão e foi mais além. Mostrou sua impressionante velocidade com direito a ousadia desafinar de propósito uma corda em duas no final de um solo, sem perder o timing. Com certeza ele ouve Jimi Hendrix desde criança.

A banda toca amanhã no Gillan’s Inn, em São Paulo e domingo no Bar da Montanha em Limeira, SP.


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Caros leitores, valeu mesmo! Rendição jamais!

Emocionado, agradeço aos leitores que me deram a maior força quando desabafei no artigo “Destrepa Tudo” que publiquei aqui na Coluna domingo último (leia abaixo deste). Fiquem tranquilos pois não existe hipótese de rendição da Coluna diante desse gado barulhento, mas não tão grande assim; protozoários conhecidos como “politicamente corretos”.

Vamos lá. O que vocês acham de uma pessoa ser admiradora do maior traficante do México (e do mundo), Joaquín Archivaldo Guzmán Loera, vulgo El Chapo*? Caso, por exemplo, do ator e diretor Sean Penn que em janeiro de 2016 o entrevistou (historinha mal contada pra cacete) e, acidentalmente (???), acabou entregando o sicário e está todo enrolado até hoje. Admirar El Chapo é o que? Desvio de caráter? Mau caratismo? Ou socialismo moreno? E o caso dos que defendem o assalto ao Estado brasileiro, roubalheira, endeusam Nicolás Maduro e similares? E aqueles que acham que o fornecimento pelas milícias e traficantes de “gatonet”, botijão de gás”, internet pirata, etc, tudo roubado, é “democrático porque dá acesso aos mais pobres”?

A luta é dura mas não abro mão, consciente de que ninguém é dono da verdade absoluta. Se é que ela existe. Ao mesmo tempo, sei que a ignorância é um direito universal, bem como a boçalidade e o banditismo. Respeito bandido que se assume bandido, mas não me convidem para aplaudir quem bebe sopa de cocaína tentando nos convencer que é canja de galinha.

Aí é patifaria mesmo.


*Vale a pena assistir a série e também ao longa-metragem, ambos na Netflix.

domingo, 10 de setembro de 2017

Destrepa tudo

O saudoso humorista Leon Eliachar escreveu que "o tarado é um homem normal pego em flagrante". Quem lê meus posts no Facebook (cada vez mais magros, com grave tendência a sumir) sabe que já fui severamente patrulhado por um covil de "politicamente corretos", que também frequentam esta Coluna, o que aliás não entendo. Seria preocupante.

Mas como ingressei numa nova era de reinvenção existencial moderada, ou cavalo de pau, ou “volta que deu merda”, “destrepa tudo”, etc. não acho mais nada, absolutamente nada, preocupante. O que dirá as afetações e pequenas canalhices de supostos leitores de redes sociais.

Tempos atrás, no inbox do Facebook, essas pessoas disseram que a crônica que escrevi sobre minha puberdade/pré-adolescência no Campo de São Bento, em Niterói, é um poço de perversões, atentados a moral e aos bons costumes, papo de tarado fundamentalista e tudo mais.

Pensei se tratar de galhofa de amigos ou conhecidos, mas depois percebi era mesmo reação de leitores anônimos (e anacrônicos), cujo I.P. (Internet Protocol, o CPF da internet), que aparece para quem usa o Blogger, eu nunca conferi porque tenho mais o que fazer.

A reinvenção existencial moderada me faz assassinar algumas penumbras emocionais que precisam ser assassinadas e por isso reli a crônica umas três vezes. Constatei que o suposto mar de devassidão não passam de pueris vivências e desventuras de um garoto vivendo a liberdade possível em seus 12, 13 anos de idade.

Um adorador de mulheres surfando a liberdade possível e clandestina porque a sociedade moralista, nos moldes nelsonrodriguianos, sempre foi moralista mas jamais conseguiu esconder os seus orgasmos diante de situações nefastas como assassinatos de crianças, linchamentos de mendigos, torpes tragédias em geral.

É essa sociedade moralista que dá altíssimos índices de audiência aos programas de TV e rádio do estilo mundo cão, e também jornais e outros tipos de mídia especializados em sangue, suor e lágrimas. Bom lembrar que as casas de sadomasoquismo e swing tem os “moralistas” como clientes preferenciais.

Detonei qualquer possibilidade de mudar os rumos do que escrevo aqui na Coluna, um espaço assinado, com endereço conhecido, frequentado por pessoas de todas as idades e escrito, modéstia à parte, por um jornalista com mais de 40 anos de profissão que sabe, exatamente, endereço, telefone e e-mail da Dona Ética e seus parentes próximos.

Vou continuar exercendo a liberdade de escrever sobre temas mais ousados já que estamos assistindo ao verdadeiro escárnio contra a moral representado pela corja que assaltou o Estado. Felizmente indo em cana, um por um. Isso sim é perversão, é escarrar na cara tudo o que existe de mais limpo, honesto, íntegro.

Não será a micro saga de um garoto conhecendo o sexo que deve ser defenestrada pelos politicamente corretos, em geral ladrões, safados, pervertidos e pedófilos. Agraço aos leitores que me incentivam, estimulam, levam o que escrevo aqui para o terreno do humor, da boa vida, para o jeito positivo de encarar a existência e não para as sombras dos "corretos" com aspas, que vivem no limo sob o signo das taras mal resolvidas e da malignidade suprema.

sábado, 9 de setembro de 2017

Molambeiro, o elo perdido entre o homem e o porco

                                                                             
Andando pelo bairro onde moro,num dia de verão, 41 graus à sombra, o cheiro de mijo não só incomodava como irritava. Coisa de molambeiro, bípede que não mora onde mija, não tem qualquer relação afetiva com a cidade onde está e, por isso, cospe no chão, atira lata de cerveja junto ao meio fio, enfim, essa figura conhecida como molambeiro deveria ser estudado em profundidade porque, diz a minha tosca e eventualmente mal humorada intuição, que ele pode ser o elo perdido entre o homem e o porco.

O molambeiro não tem sexo, cor, classe social, nível de instrução. É uma bola de sebo tatuada rolando pelas cidades, saltitando merda para todos os lados e atualmente tem como veículo preferido a motocicleta, em geral equipada com um tal de baú onde alguns carregam cachaça, cheirinho da loló, crack e outros aditivos muito comuns a espécie. Se a polícia fizer seis meses de asfixia (blitz permanente) nas motocicletas, a segurança pública vai melhorar 80% porque além de baderneiros, escroques sociais, paladinos da imundície, muitos são bandidolas.

Molambeiros gostam de andar em bandos e contrariando normas internacionais de segurança, andam de motocicleta sem camisa, calçando chinelos vagabundos, capacetes idem, cano de descarga cortado (barulho infernal) e em zigue zague entre os carros.

Em Niterói, o point da molambada é a praia de Itacoatiara, onde os molambeiros encontram molambeiras com quem copulam e perpetuam a espécie. Itacoatiara virou moda entre eles e entrou na rota da barbárie desses animais que, geralmente sem documentos, invadem o bairro fazendo enorme barulho (como suas motos são vagabundas, não correm muito), fazem xixi em qualquer árvore e enchem de cocô e latas de energético genérico a restinga da praia. Itaipu e Piratininga viram fim do mundo.

Na praia, fumando maconha paraguaia, jogam futebol na beira d’água (velhos e crianças que se danem), dão saltos mortais as gargalhadas no mar onde aproveitam para fazer xixi e cocô de novo, aos gritos de “hahahaha....tá dominado, rapá....hahahahaha”. Na areia, funk, pagode e sertanejo aos berros naqueles equipamentos de som chineses, com porta USB por onde a caganeira musical transita.

Os moradores locais? Se borram de medo. Itacoatiara é bairro de classe média alta e um dia já foi o must do verão em Niterói, e como toda a classe média, tem pavor dessa molambada com cabelo à Neymar, moto na mão e muita bosta na cabeça. Os locais dizem que “os estrangeiros são perigosos e acham que a praia é deles”. Claro que a praia é deles. A praia, o bairro, a cidade, o país.

Não bata o cheiro de mijo. Andando numa cidade que estupra com o IPTU, conta de luz, água, telefone, ainda vem esses molambos e, em menos de duas horas, cagam tudo.

Com certeza a porradaria ia comer se eu pegasse um molambeiro desses, elo perdido radical, defecando em frente a uma creche (para eles tanto faz). Aliás, é por isso que não tenho ido a praia sábado e domingo, onde a civilidade é minoria absoluta. 

Prefiro permanecer réu primário.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Roberto Menescal: os 80 anos de uma lenda viva

                                     Menescal e Andy Summers, amigo e guitarrista

Lenda viva, mestre da música, amigo muito querido, Roberto Menescal está comemorando seus 80 anos onde gosta: na estrada, em turnê nacional. Filei esse pedaço da ótima matéria que o Silvio Essinger publica hoje no Segundo Caderno do Globo:

Esta sexta, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, ele abre para o público a série “Dia de luz, festa de sol! Roberto Menescal e a bossa nova” em show com Marcos Valle e Cris Delanno. Amanhã, é com Cely Curado, Marcia Tauil, Nathalia Lima e Sandra Duailibe (que em 2012 lançaram o disco “Elas cantam Menescal”), e no domingo, com Ivan Lins e Leila Pinheiro. 

Os shows vão para os CCBBs de São Paulo (incluindo Simoninha, Leo Gandelman, Lula Galvão e Sabrina Parlatore, dos dias 21 a 24) e do Rio (entre 19 e 21 de outubro, com o acréscimo de Zélia Duncan, Danilo Caymmi e Wanda Sá). Antes, no próximo dia 28, Menescal toca no Rio com sua banda e Delanno nas Quintas no BNDES.

Eu já piscava muito, estou piscando dez vezes mais! — brinca o músico, que, depois do aniversário ainda encara um Espaço Furnas Cultural nos dias 9 e 10 de dezembro com o guitarrista Andy Summers, do Police, e em 2018 planeja ir à Europa para shows do disco “MPBossa: da bossa ao frevo”, feito em 2016 com André Rio e Luciano Magno. — Não tenho gripe, nem nada. E tampouco medo de avião. O Tom Jobim morria de medo, e dizia: “o mecânico está lá embaixo”.

Conheci Roberto Menescal* em 1982. Ele esteve na Rádio Fluminense FM onde, na maior cara de pau, pedi um autógrafo. Simpático, gente muito boa, na dele, mas profundo conhecedor de música e mídia, em meia hora de conversa ele sintetizou muito bem o que estávamos fazendo na “Maldita”.

A partir daquele encontro, Menescal se tornou um amigo guru. Diante de qualquer decisão mais grave, sempre liguei para ele que, disponível para os amigos, opina com simpatia e muita precisão. Até hoje é assim. Quando estou numa encruzilhada profissional, procuro a opinião dele. Em 1985,mais ou menos, eu quis parar definitivamente de trabalhar com rock achando que estava estigmatizado. 

Menescal me convidou para almoçar no Taranlella, na Barra, e depois do meu desabafo disparou: “Meu amigo, você trabalha também com música. Música como um todo. Mas quanto a esse medo de estigma, fique tranquilo. Você já está estigmatizado (risos) e eternamente será conhecido como “roqueiro e fundador da Rádio Fluminense, a Maldita” mesmo que decida virar astronauta. Até hoje eu sou o “Menescal do Barquinho”, e tudo bem. Relaxe e tire proveito”. E foi o que fiz, faço e farei.

* Em 1985, comecei a produzir o primeiro LP de Celso Blues Boy, que batizei de “Som na Guitarra”. Menescal era o diretor nacional da gravadora Polygram e não discutiu quando falei de gravar o Celso. Acreditou no músico e em mim. Mais: tornou-se meu padrinho de estúdio. Foi ele quem me apresentou a um estúdio de 32 canais (acho) que comandei ao longo de três meses. Quando finalizei o trabalho, tirei uma cópia e fui mostrar ao Menescal. Frio na barriga, suor frio. Ao final, ele abriu um sorriso e disse “discaço”. Quase chorei de emoção.

 Parabéns, amigo! Parabéns, mestre!


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Tolerância a intolerância

A tolerância a intolerância é intolerável, mas está presente até para quem não pode ou não quer ver. Nas ansiosas filas dos bancos, nos ônibus, aviões, na caminhada solitária das pessoas rumo ao trabalho, na escola, na consulta médica. Rumo ao nada, muitas vezes.

Exercitar a tolerância é mais do que fundamental, ensinam a filosofia (parceira invisível e milenar de todos nós), a psicologia, o bom senso. Um exercício difícil, espécie de musculação existencial, vital, fundamental para que as pessoas possam conviver minimamente bem com elas mesmas e a partir daí com a sociedade.

A intolerância está presente nas ruas, no ambiente de trabalho, no supermercado, nas redes sociais na internet, na política partidária. Nesse momento de crise, o radicalismo parece se impor ao bom senso e assistimos a um banho de sangue entre aspas entre pessoas que atiram até amizades de décadas no lixo em nome de convicções políticas dos outros, dos políticos profissionais.

A sensação de “vão-se os dedos, ficam os anéis” em redes sociais como o Facebook e Twitter, onde todo mundo bate em todo mundo defendendo políticos, políticas, governos, desgovernos, incha mais os bolsos deles, dos políticos, e esvazia a esperança de uma nação mais equilibrada, mais generosa e até mais engraçada. Afinal, sem humor nada é possível.

Dizem que essa onda de tolerância a intolerância é passageira. Até concordo, mas não nego que ela me preocupa e até ocupa meus pensamentos em plena hora da vadiagem, dos devaneios. Afinal, se brigar por nós exige limites, brigar por quem não parece ridículo.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Saudade colossal de Keith Emerson

Quando assisti a homenagem de Rick Wakeman, ontem no You Tube (vídeo amador acima, a partir de 3 minutos e 35 segundos) bateu um enorme saudade de Keith Emerson, que nos deixou em março de 2016 aos 71 anos. Um dia desses conversava com amigos sobre Rick Wakeman, que assisti ao vivo algumas vezes e a vontade de assistir o Emerson, monumental multi tecladista presente, muito presente, em minha vida e de toda uma geração que conheceu a primeira geração do rock progressivo. A melhor, a mais autêntica, a mais visceral, pura, sem tecnicismos, decoreba. Os caras tocavam o que vinham à pele. Keith Emerson era um dos líderes desse pequeno bando de gênios.

Conheci a sua música quando ouvi o álbum de estreia de seu trio, Emerson Lake and Palmer, lançado em 1970, mas só fui abduzido dois anos depois quando ouvi "Pictures at an Exhibition", uma leitura dele e de Greg Lake e Carl Palmer da obra do russo Modest Mussorgsky (1839-1881), de quem eu nunca ouvira falar. Mas o álbum que me pegou definitivamente foi "Trilogy", deste mesmo 1972. Os álbuns nacionais de vinil eram tão vagabundos, bem como os toca discos fabricados aqui, que o meu "Trilogy" gastou. Isso mesmo. De tanto ouvir ele acabou ficando liso, em especial a minha faixa favorita a ultra experimental e maravilhosa "Abaddon´s Bolero", que encerra o disco.




Não parei mais de ouvir o ELP. Auge da adolescência, das crises, de gargalhadas, de nós na garganta inexplicáveis, ataques de fúria, consequências de sucessivas tempestades hormonais, micro (que pareciam giga) crises existenciais, dúvidas, cabelos muito longos, costelas expostas pela magreza e que lembravam os teclados de Keith Emerson.

Se a música do Who parecia escrever o meu diário
de adolscente sentia a música do ELP como algo que estava em algum lugar do futuro. Sentia o mesmo quando sorvia Jimi Hendrix que só bem mais tarde fui saber que iria formar o HELP (Hendrix, Emerson, Lake and Palmer) no lugar do ELP, em 1970. Mas a morte levou Hendrix e a vida atirou o ELP no mundo. Mas as vezes fico imaginando o que teria sido o HELP.

Hoje, a sensação é estranha. Parece que alguém próximo foi embora a pé, no meio de um
denso e frio nevoeiro. Alguém que jamais cumprimentei, assisti pessoalmente. Pensando bem, e daí? Keith Emerson, com a sua selvagem delicadeza nos teclados, era próximo sim. Como Hendrix, como Machado de Assis, como Coppola.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Somos todos impublicáveis?

Faz sentido um sonho que tive, noites atrás. Muitas noites atrás. Muitas e muitas e muitas e muitas noites atrás. Provavelmente nem era nascido.
Sonhei com o filme “Beleza Americana”, obra genial de Sam Mendes lançado em 1998, com Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch nos papeis principais. O filme mexeu tanto na minha vida (literalmente) que comprei uma cópia em DVD para assistir de novo de tempos em tempos. Mas não assisto porque muitas vezes é melhor deixar nossos baús trancados, calados, quietos. Além do mais, esse DVD também sumiu da minha estante, onde existe um misterioso exterminador de obras de arte.

O cavalo de pau existencial do personagem de Kevin me deixou quase lacrimoso dentro do cinema, onde permaneci uns cinco minutos depois que o filme acabou, completamente abobalhado, besteirão, queixo caído, vendo os créditos subirem na tela enquanto as pessoas saiam, com o capacete da minha Suzuki DR 800 no colo; tinha motocicleta naquela época, mas motocicleta deixou de ser um veículo civilizado, segundo o regulamento da guerra civil, também conhecido como “perdeu. Larga a moto pra não tomar tiro na nuca.”

No dia seguinte comecei a sentir os bons sintomas do filme, que culminaram com uma ida a Igreja do Senhor do Bonfim na Bahia. Na época escrevi (acho que foi no Estadão) que o cinema tem o poder de meter uma colher de sopa em nossas vísceras. O cinema, em muitos casos, faz o papel do inconsciente gente boa derramado em via pública.

Mas aí mora uma pergunta: somos todos impublicáveis? Beleza Americana” me disse “larga essa vidinha e caia dentro com vigor, tesão e uma boa dose de irresponsabilidade”. Irresponsabilidade, irresponsabilidade, irresponsabilidade, eco, eco, eco. Aquilo ficou martelando em minha cabeça (e a trilha sonora idem) e, meses depois, quando olhei para trás vi que também tinha dado uma guinada radical, que a tal “vidinha” denunciada em silêncio pelo filme tinha sido substituída pelo vigor da tal dose de irresponsabilidade.

Respeitei a pergunta - todos somos impublicáveis? - e continuei a viver a nova vida calado, mais convicto ainda de que nada podemos fazer para deter a carruagem do tempo, do vento, do destino. Nada podemos fazer.

O sonho que tive (concordo com C.G. Jung sobre a linguagem dos sonhos e suas mensagens cifradas) não foi nada demais, mas para mim foi como se um torpedo de um submarino alemão singrasse o fundo do mar em direção a um porta-aviões americano, em 1944.

O que fazer? Acesseio You Tube e fiquei contemplando a beleza que é a instalação que o artista plástico Daniel Wurtzel fez, baseado na trilha sonora do filme. Imersão total. Beleza mais que americana.

Absoluta.

Agora é só ouvir os berros do inconsciente e seguir em frente. 


Calado, quieto.

domingo, 3 de setembro de 2017

Pou!, mau humor!

Durante uns anos fui freguês de um comedouro nas imediações. Distraído, olhando e pensando em outras coisas, fingi que não sabia o quanto era mal tratado naquele negócio. Gente mal humorada distribuindo coices pelas baias de fregueses pacatos, cansados, arregados, entre eles eu. Para piorar, o negócio aumentava o preço dos seus produtos à galega, de acordo com o (mau) humor dos donos.

Há seis meses entrei e dei boa tarde. Uma funcionária, com um bico de pica pau na cara, não respondeu. Dei boa tarde mais duas vezes e nada. Perguntei se um produto do comedouro tinha sido feito há pouco tempo e ela respondeu “é, mas tem que pagar as torradas avulso”. Rebati “avulsas, minha filha. Avulsas!”. Saí e fui para um outro curral, no mesmo comedouro. Outra funcionária, tromba à mostra, bico de avestruz. Dei boa tarde, nada. Boa tarde segunda vez, resposta: “vai querer o que?”. Saí prometendo a mim mesmo não voltar mais, o que de fato aconteceu. Muitas vezes demoro, o saco inflama, arde, pela, mas quando torra adeus.

Minha alma levemente babaca atura quase tudo da humanidade, menos mau humor. Flagelo universal, o mau humor pode ter feito D. Pedro I gritar “independência ou morte” na margem do Rio Ipiranga, mas hoje a história revista mostra que é pura cascata. Acometido de violenta diarreia, o imperador nada disse, nada gritou, mas fez a independência, sim. Era mal humorado, detestava banho, fedia, e, dizem as lendas, pegava até as éguas na Quinta da Boa Vista, mas quando se sentia de tromba sumia de circulação. Tinha consideração com os outros mortais.

Uma pessoa de mau humor não deveria sair de casa. Ou sair e ficar quieta. Um amigo tem duas filhas, 20 e poucos anos, propensas ao mau humor, que moram com a mãe, também mal humorada meio crônica. Ele já combinou com as filhas que quando estivessem de bico, avisassem para ele não aparecer. Como não é de lata, o amigo retribui sumindo quando o mau humor o pega de jeito. Um conhecido diz que o bico, ou bicão/bocão/tromba, é um quadro comum entre os mal humorados. Ele me conta que “quando estou mal humorado, chego em casa, pego o cachorro, ponho na coleira e saio para passear infinitamente noite adentro.” Aliás, se existe um ser perfeito neste planeta, este ser é o cachorro. Fome, frio, doença, calor, calor, calor, nada tira o cão de seu bom humor.


Passando em frente ao tal comedouro que abriu esse texto, sinto um certo alívio. Não voltei mais lá, optando por outros comedouros bem mais civilizados, educados, respeitosos. Ninguém é obrigado a aturar mau humor, seja pago, seja grátis, seja de que forma for. Por mais que, eventualmente, haja pedregulhos em nossa trilha existencial, e isso gere frustração e mau humor, ninguém tem nada com isso.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Livraço “Lindo Sonho Delirante: 100 discos psicodélicos do Brasil (1968-1975)”

                                                                                     
Bento Araujo

Sou fã do Bento Araújo porque ele tem coragem, determinação, talento e amor extremo pela boa música. Há anos acompanho a sua saga editando a sensacional revista Poeira Zine e outros projetos revolucionários que o mundo “digitoso” acha que não dão certo. E ponto. Só que não é ponto final e o Bento, de novo, mostra que é preciso estar a atento e forte e encarar o pessimismo de frente, como uma kombi subindo a via Dutra na contramão.

Seu livraço “Lindo Sonho Delirante: 100 discos psicodélicos do Brasil (1968-1975)”, que acabei de ler, virou uma referência para o meu trabalho e hoje mora na minha cabeceira. Nele, Bento Araújo mostra quem fez os sons realmente lisérgicos no Brasil, nesse período de muita loucura, perseguição, tortura, AI-5 e (que contradição), genialidade. O arrocho dos militares era pesado, caçavam cabeludos, pretos e maconheiros pelas ruas e, ainda assim, vivemos um raro momento de criatividade, que o Bento nos mostra nessa obra. Contradição. Os meganhas nas ruas e nas lojas de discos só diamantes, rubis e esmeraldas. Hoje, liberdade total, empoderamentos e os cacetes e as boas lojas de discos são raras. O vemos é o merdalhal desabando sobre nossas cabeças na forma de downloads. Vai entender.

Lindo Sonho Delirante...” vai muito mais além de um guia. Cada disco, com capa original reproduzida em alta definição, é analisado em profundidade pelo autor, que opina, mostra as origens, conta história e os bastidores. Não é um livro estilo google, como vemos por aí, nessa era de oportunistas. É um extraordinário trabalho de pesquisa que recomendo a todas as pessoas que, direta ou indiretamente, tem algum contato com a música. Aqui, uma descrição do livro feita pelo site da loja Locomotiva Discos:

Lindo Sonho Delirante: 100 discos psicodélicos do Brasil (1968-1975) é ricamente ilustrado, com reproduções das capas de todos os cem (100) discos apresentados. Cada álbum e compacto é acompanhado de uma resenha em português e inglês, minuciosa reprodução da arte gráfica original, um cabeçalho contendo o nome do grupo/artista, nome do disco/compacto, seu respectivo selo fonográfico, número de série da prensagem original e data de lançamento.

Considerando o disco-manifesto Tropicalia ou Panis et Circencis como uma espécie de marco zero da psicodelia nacional, a garimpagem das obras contidas no livro começa em 1968. De Tropicalia ou Panis et Circencis partimos rumo a uma jornada de oito anos, que termina no talvez mais raro e mitológico disco psicodélico brasileiro de todos, Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol, lançado por Lula Côrtes e Zé Ramalho, em 1975.

De pioneiros como Arnaldo Baptista, Rogério Duprat, Tom Zé, Fábio e Ronnie Von, até astros como Rita Lee, Milton Nascimento, Secos & Molhados e Novos Baianos. De gigantes como Gil, Caetano, Gal, Jorge Ben e Os Mutantes, até heróis e heroínas não tão celebrados, como Damião Experiença, Lula Côrtes, Sidney Miller, Suely e Os Kantikus, Marconi Notaro, Guilherme Lamounier e Loyce e os Gnomos. Do rock marginal da Equipe Mercado, Ave Sangria, A Bolha, Casa das Máquinas, Spectrum e Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, até a sofisticação de Marcos Valle, João Donato, Egberto Gismonti, Luiz Carlos Vinhas, Pedro Santos e Arthur Verocai. Todos estão juntos nesse Lindo Sonho Delirante, os superstars e os esquecidos, os raros compactos e os elepês.

Além das cem (100) resenhas, o livro contém uma introdução, onde uma particular visão do período é abordada, analisando a influência da música pop anglo-saxônica misturada à exaltação das raízes brasileiras por parte dos artistas locais, tomando como ponto de partida a Semana de Arte Moderna de 1922 e ícones da cultura nacional, como Chacrinha e Grande Otelo.

A análise da criação e a interpretação do simbolismo desta lisergia tropical cria uma iconografia inédita, um volume que funciona como um presente à memória da música nacional e àqueles artistas brasileiros que expandiram a mente em nome da arte, em plena era de sangrenta repressão militar e de extremo preconceito social.

Especificações do Livro
232 páginas
21 cm de largura X 19,5 cm de altura
Inteiramente colorido
Capa em papel couchê 300 g/m2, miolo em couchê 115 g/m2, lombada hotmelt
Textos em português e inglês
Informações preciosas
00 resenhas de discos + 100 reproduções das capas originais + Introdução

Esgotado em várias livrarias, para comprar é só escrever para contato@poeirazine.com.br