segunda-feira, 26 de junho de 2017

Soluções

Chuva, saudade de você. Senti suas gotas roçarem a minha janela, temperatura de 22 graus. Chuva. Saí para pensar, pensar, pensar. Pensar em soluções, ou em saídas, ou na possibilidade de não haver solução nenhuma diante de problemas amplificados pela aflição. 

Um bentevi assustado bebia água numa pequena poça, resolvendo sua aflição imediata de maneira simples. Quer dizer, simples para quem assiste. Grande vitória para o bentevi voar vivo, pousar vivo numa árvore próxima, saltar vivo para os fios de um poste, pousar vivo na poça. Vivo, beber a água num ambiente hostil. 

Chuva, quase frio, calma que parece reinar na cidade, protegida da falsa e histérica euforia do verão e seus moedores de carne midiáticos.

Caminhei pelo bairro que, raro, estava sereno e vazio. Sem guarda chuva, senti a quase garoa cair sobre a cidade, repousando. Pouco carros, ônibus, ciclistas, pessoas nas calçadas; os bares relativamente vazios com uma meia dúzia bebendo cerveja e aplicando a dose diária de futebol via TV. Calma. 

É esse o dom do inverno. Calma. Calma e beleza porque a luz dos dias de inverno é belíssima.

Voltei a pensar, pensar, pensar. Pensar em soluções, ou em saídas, ou na possibilidade de não haver solução nenhuma diante de problemas amplificados pela aflição de quem procura viver intensamente.

Seguir caminhado, por dentro do inverno.


sábado, 24 de junho de 2017

Fiador moral

O cara é baba-ovo, invejoso, rancoroso, arrivista e, dizem todas as, as más inclusive, é um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da fala as vezes nos metem em roubada.

Por uma questão cultural dizemos que “conheço” a quem vimos algumas vezes. Pior: em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomar o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação e posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalu e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo.

Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim.  Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não aguentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o LAM...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para o Leme”.

Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo.

Esquisito pra caramba.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Estafa

Dicionário: Estafa  é o estado onde uma pessoa encontra-se submetida a uma forte pressão externa ou interna, levando à estafa física ou emocional.

Apesar dos sintomas claros como irritação, sono conturbado, impaciência, a estafa é dissimulada e se confunde com o estresse que fica vários pontos abaixo numa hipotética escala de valores emocionais, digamos assim.

O maior problema da estafa é que nos deixa extremamente sozinhos. Como temos consciência de que “algo não vai bem”, ou que uma conjuntura de tensos fatores decidiu marcar um bate papo a mesma hora, há uma tendência de ficarmos na moita. “Não vou lá porque ando meio estourado e vai que Fulano toca num assunto complicado”, e assim o estafado vai se isolando e acaba engolido pelos pensamentos. 

E os pensamentos do estafado são sempre caóticos.

O estresse se dá em picos ocasionais. A estafa é constante, crônica. Pega e não larga. Quer dizer, larga sim. A certeza ou a consciência da estafa já são um passo importante, agitar o corpo com ginástica e similares começa a resolver e não esperar demais ser compreendido é a sentença final. Da estafa. Ninguém é obrigado a compreender, aturar, engolir um estafado. Só ele.


Pelo menos.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

89 invernos

                                                                    

terça-feira, 20 de junho de 2017

Festa Junina

Neste 24 de junho é comemorado o dia de São João, padroeiro de várias cidades, entre elas Porto Alegre e Niterói. Feriado municipal e pouquíssimos arraiais acontecendo. Não sei por que. Deixei de frequentar as poucas festas juninas por causa da lambança que andam fazendo na trilha sonora. Ao invés de canções tradicionais tocam esses entulhos como sertanejo universitário e até funk.

Tempos atrás almocei com o colega Eduardo Lamas no Centro do Rio e na volta , a caminho da estação do catamarã para Niterói, vi na Praça 15 um cartaz anunciando uma festa junina. Típica e tradicional. O desenho trazia uma fogueira, gente fantasiada e até os perigosos (e hoje inviáveis) balões. Embarquei e a meu lado sentou um sujeito que era a cara do Danny Devito: baixo, gordo, careca, que não largava o celular.

Fez várias ligações porque a linha caia. Ele orientava uma mulher do outro lado da linha que arrumava a mala dele. Foi gozado. Ele dizia “não, gravata não precisa, vou descansar...bota as duas escovas de dentes, muitas meias e cuecas de algodão porque lá faz frio...não, o casaco de courvin vou levar na mão caso esfrie no caminho. Ah, leva meu radinho” e assim o cara veio até Niterói falando, gesticulando, arfando.

Curioso, quando a embarcação atracou fiquei ouvindo a conversa sobre o tal fim de semana na serra que o cover do Devito ia ter. Devito que, lá pelas tantas, disparou: “não esqueça da minha roupa para o casamento na roça. Os arraiais de lá são imperdíveis”. Onde seriam esses arraiais, num lugar frio, onde o nosso personagem cai na gandaia? Cara de pau, perguntei. Sorridente, ele respondeu “em Santa Maria Madalena, é claro. Onde mais?”.

Voltando ao cartaz da festa junina, bateu saudade. Saudade das grandes festas que frequentei ao longo do tempo, onde mergulhei em arraiais com fogueiras gigantescas, bandeirinhas, pau-de-sebo, comidas típicas, quadrilhas. Saudade daquele cheiro de lenha queimada, do som primitivo dos conjuntos tocando e, logicamente, dos balões, meu fascínio desde que nasci.

Saudade de um arraial gigantesco que fui certa vez em Teresópolis, outro em Friburgo, mais um outro em Araruama, vários no Rio e em Niterói e em Porto Alegre também.

Este ano vou correr atrás de pelo menos uma festa junina. Meu lado lúdico cobra, quase implora e merece. Com bombas, crianças a caráter e tudo mais. Quem procura, acha. 


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Enjoo dos Beatles

Há tempos não ouço FMs pelo dial. Optei pela internet por razões quase óbvias: ouço um monte de webradios pelo smartphone quando ando por aí (e ando muito por aí) ou nos desktops da vida já que, por motivos que não quis investigar (preguiça) não gosto de notebooks nem de tablets.

Um dia, logo que entrei no táxi, tocou uma música dos Beatles no rádio e eu senti um pouco de náusea, mal estar mesmo. Reagi mal aos primeiros acordes de “Let it Be” (era essa a música) e me assustei. Estaria ficando de saco cheio dos Beatles? Quando? Onde? Por que?

É verdade. Uma verdade que eu suspeitava mas não confirmava porque achava um absurdo. Mas estou enjoado de boa parte das músicas dos Beatles, não por culpa de Lennon, McCartney, Harrison e Starr, mas por causa da overdose de covers, tributos, versões, imitações, enfim, a molambalização que estão fazendo da obra da maior banda da história do rock. Exemplo: tema de novela, a versão cover vagaba de “A Hard Days Night” é uma cusparada nos tímpanos, chacina de otorrinos, é de fazer mandril comer fuzil. Aquilo é absolutamente lamentável.

Com o passar do tempo (e das versões, dos covers, das homenagens e cusp!, tributos) fui enjoando. Não aguento mais ouvir Hey Jude, nem Something, Yesterday, enfim, a lista é grande mas parou de crescer porque optei por parar de ouvir Beatles.

Voltei a ouvir graças ao espetacular CD “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, edição especial de 50 anos, remixada, com várias faixas bonus bem legais com ensaios, etc. Depois de minha “greve” ouço canções que não foram sucessos mundiais e muito menos fontes de cobiça de aproveitadores fantasiados de beatlemaníacos que jogam lama sobre a obra dos chamados Fab Fours. Principalmente os que fazem o traste chamado “tributo” que, em geral, urina sobre a biografia do homenageado.

Uma vez, no Rio Grande do Sul, no meio de um “tributo a Stevie Ray Vaughan um cara da plateia, meio bêbado, levantou e quis bater no líder da banda. Com razão porque aquilo que ele estava cometendo não era Stevie Ray Vaughan nem no Paraguai.

Percebo que o próprio Paul McCartney está preocupado com a super exposição de muitas canções dos Beatles e a cada turnê varia, busca músicas mais alternativas, enfim, o GPS do Macca já percebeu que os Beatles não merecem morrer de overdose.

Puxei assunto com o taxista que disse gostar dos Beatles e que, inclusive, foi a um show do Paul McCartney. Perguntei se ele não estava cansado de ouvir algumas canções e ele disse que “essa aí toca muito...já está meio batida”, referindo-se a “Let it Be”. Para escrever esse texto liguei para alguns amigos ligados a música e todos, absolutamente todos, concordaram que por causa dos covers, versões, etc. os Beatles estão cansando.

Um conhecido montou uma banda que toca Beatles me mandou e-mail/convite para a estreia e tal, mas acabei não indo. Semanas depois encontrei com ele no Leme e veio a fatídica “pô, não foi ao show...” Fiz o que tinha que ser feito: abri o jogo, falei a verdade, disse que não vou mais a show de cover de Beatles. Ficou tudo bem, como sempre acontece quando falamos a verdade.

Recentemente, estava num bar conversando com amigos e o violeiro que nos punia com a famigerada música ao vivo começou a tocar Beatles. Pedi a conta e fui embora antes dele chegar ao refrão porque a banda que sacudiu o planeta não merece um final tão melancólico como o esquecimento, consequência de overdose de exposição.


sábado, 17 de junho de 2017

Autocensura a flor da pele

O VALOR DO SILÊNCIO

"Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio." 

Clarice Lispector, 'Jornal do Brasil (1968)' 


Aqui na psicodélica cabana da minha crônica insignificância ouso compartilhar alguns draminhas pequenos burgueses com minha meia dúzia de quatro ou cinco leitores. Draminhas (ideal seria dramecos) que não interessam a ninguém.


Escrevo esta coluna son a mais severa, dura, moleca e (posso falar?) escrota das censuras: a auto censura. Um vulcão de cabeça para baixo que incendeia o meu âmago e entra em erupção de fora para dentro, fritando a alma imoral.


Trabalhei sob dura censura no regime militar. Escrevi no Pasquim, no Opinião (ambos sob censura prévia) e vi os burocratas da polícia com canetas pilot riscando com azul e vermelho. Azul para matérias liberadas, vermelho para censuradas. O Opinião pertencia ao empresário Fernando Gasparian e funcionava no Jardim Botânico. Uma vez ele foi reclamar que 90% de uma edição tinha sido censurada, inclusive a minha matéria sobre indígenas tratados como entulho na Casa do Índio, entidade assistencialista do governo que funcionava na Ilha do Governador. Em resposta ouviu um "f...da-se!".


Volta e meia o Opinião era apreendido. Com o Pasquim, a mesma coisa. Mas a minha insignificância era mais corajosa e eu ousava cuspir
simbolicamente nos olhos dos meganhas tentando ir mais além. Não dava. A caneta vermelha era imperativa, degolava e fim de papo. Nunca fui preso, molestado, perseguido censurado porque era fichinha, estafeta das letras miúdas, "hippie de Vaz Lobo" como me chamava o grande e saudoso J.A. Xavier. Em compensação, quando liberado, escrevia sobre tudo, opinava livremente, enchia a bola, baixava o cacete.

Aqui nesta Coluna do LAM, não. Sou autocensurado do princípio ao fim. Acho que 1/1000000 do que realmente sinto, penso, acho, procuro, vejo, presumo, não publico porque posso ofender alguém, posso estar politicamente incorreto, posso não estar sendo de bom tom, posso....posso nada.


Nem escrever sobre o nada escrevo porque o nada é um conceito subjetivo tão amplo que, muitas vezes, simultaneamente, enche de porradas e beijos com língua. Algo como.


Um
a mulher com cabeça de peixe.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Imoralismo

O saudoso humorista Leon Eliachar escreveu que "tarado é um homem normal pego em flagrante". Quem lê meus posts no Facebook (cada vez mais magros, com grave tendência a sumir) sabe que já fui severamente policiado por um covil de "politicamente corretos", frequentadores aqui da Coluna, o que aliás não entendo. Acho preocupante perceber que essa laia tem frequentado a Coluna.

Desde que ingressei numa nova era de reinvenção existencial moderada, ou cavalo de pau, ou “volta que deu merda”, “destrepa tudo”, etc. não acho mais nada, absolutamente nada, preocupante.  O que dirá as afetações e pequenas canalhices de supostos leitores de redes sociais.

Tempos atrás, no inbox do Facebook, algumas defenestraram uma crônica que escrevi sobre minha puberdade/pré-adolescência no Campo de São Bento, em Niterói. Xingaram de poço de perversões, atentado a moral e aos bons costumes, papo de tarado fundamentalista e tudo mais.

Pensei se tratar de galhofa de amigos ou conhecidos, mas depois percebi era mesmo reação de leitores anônimos (e anacrônicos), cujo I.P. (Internet Protocol, o endereço na internet), que aparece para quem usa o Blogger, mas nunca conferi porque tenho mais o que fazer.

A reinvenção existencial moderada me faz assassinar algumas penumbras emocionais que precisam ser assassinadas e por isso reli a crônica umas três vezes. Constatei que o suposto mar de devassidão não passa de pueris vivências e desventuras de um garoto vivendo a liberdade possível em seus 12, 13 anos de idade.

Um adorador de mulheres surfando a liberdade possível e clandestina porque a sociedade moralista, nos moldes nelsonrodriguianos, conseguiu esconder os seus orgasmos diante de situações nefastas como assassinatos de crianças, linchamentos de mendigos, torpes tragédias sociais em geral.

É essa sociedade moralista que dá altíssimos índices de audiência aos programas de TV e rádio do estilo mundo cão, e também jornais e outros tipos de mídia especializados em sangue, suor e lágrimas. Bom lembrar que as casas de sadomasoquismo e swing tem os “moralistas” como clientes preferenciais.

Detonei qualquer possibilidade de mudar os rumos do que escrevo aqui na Coluna, um espaço assinado, com endereço conhecido, frequentado por pessoas de todas as idades e escrito, modéstia à parte, por um jornalista com mais de 40 anos de profissão que sabe, exatamente, endereço, telefone e e-mail da Dona Ética e seus parentes próximos.

Vou continuar exercendo a liberdade de escrever sobre temas mais ousados já que estamos assistindo ao verdadeiro escárnio contra a moral representado pela corja que assaltou o Estado brasileiro. Felizmente indo em cana, um por um. Isso sim é perversão, é escarrar na cara tudo o que existe de mais limpo, honesto, íntegro.

Não será a micro saga de um garoto conhecendo o sexo que deve ser linchada pelos politicamente corretos, em geral ladrões, safados, pervertidos e pedófilos. Agraço aos leitores que me incentivam, estimulam, levam o que escrevo aqui para o terreno do humor, da boa vida, para o jeito positivo de encarar a existência e não para as sombras dos "corretos" com aspas, que vivem no limbo sob o signo das taras mal resolvidas e da perversão social suprema.



quinta-feira, 15 de junho de 2017

“Responder e-mails profissionais é uma obrigação”

O título está entre aspas porque quem disparou a frase foi um colega meu num restaurante/bar do Largo do Machado (Rio) tempos. O assunto na roda (uns 10 caras) era e-mail. Todo mundo indignado com o fato de mandarem e-mails que não são respondidos.

Dias atrás aconteceu comigo. Enviei um para um executivo do mercado de discos, mensagem mega importante, mas até agora não recebi resposta. Tive o cuidado de chamar atenção, algo do tipo “favor confirmar o recebimento”. Nem isso. Se bem que antes de enviar a mensagem várias pessoas me avisaram que “esse cara não responde e-mails...”, insisti e deu no que não deu. Por isso o mercado de trabalho na minha área, que é a COMUNICAÇÃO (em maiúsculas) bate a porta na cara de quem não exercita a COMUNICAÇÃO. Trabalhar em COMUNICAÇÃO e afins e não responder e-mails profissionais é degola na certa.

Voltando ao restaurante/bar do Largo do Machado, eu estava na boa, me divertindo com o assunto, mas lá pelas tantas opinei: “não responder a e-mails é a maior escrotália. Pior do que bater com o telefone na cara”. E voltei a me atracar com o filé à Oswaldo Aranha que, aliás, estava sublime.

Saí do bar e a caminho de casa, madrugada com brisa e lua, pensei no assunto. Ano passado mandei um e-mail para uma empresa com uma proposta profissional que interessava a mim e a ela. E-mail curto e super objetivo. A empresa não respondeu e dei o assunto como encerrado. Dias depois mandaram uma mensagem dizendo que achavam a minha proposta muito interessante e que gostariam de marcar uma reunião “presencial” (palavra ridícula). Não respondi. Encheram o meu saco, mandaram vários outros e-mails e acabei bloqueando. A minha proposta profissional envolvia parceria, dialogo, troca de e-mails. Se no primeiro já deu errado, com certeza iria dar tudo errado no futuro. Perderam um ótimo negócio.

O telefone celular é extremamente invasivo e o WhatsApp, para mim, é um papagaio neurótico, mal comido e obsessivo enchendo o saco 57 horas por dia. Um dos colegas da mesa do bar, as gargalhadas, contou que o celular dele tocou durante um tenso exame de próstata, quando o médico só mantinha nove dedos das mãos do lado de fora.

Acho o e-mail a menos invasiva forma de comunicação porque quem recebe teve que entrar na internet, acessar o programa de mensagens, enfim, se preparou para isso.

Já há algum tempo venho radicalizando. Pessoas de meu convívio profissional que não respondem a meus e-mails são limadas de minha lista de endereços. Ainda bem que são poucas, pouquíssimas. Todos nós temos defeitos, vários. Entre os meus está essa intolerância com a falta de consideração, em geral praticada por pessoas que nos acham babacas, quando na verdade babacas são elas.

Ou não?


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Frio

Sei que pertenço a minoria que adora o frio. Logo eu que nasci em pleno carnaval. O frio acalma, tranquiliza, torna as relações humanas mais simples, movimentos mais cordiais. No calor reina a barbárie, a pancadaria, o mau humor mas, sei lá porque, verão é chamado de "tempo bom" e o frio de "tempo ruim".

Fato: os países mais frios são mais desenvolvidos, menos safados e mais humanos em contraste com terras quentes e tórridas. Ontem
chegou uma massa polar aqui no sertão fluminense. Se as cidades não estão preparadas para o seu próprio clima a culpa não é do outono. Leio no noticiário on line a palavra "caos" exibida em várias reportagens. Sim, caos de roubalheira, incompetência, molambalização total dos serviços do Estado.

O frio, comprovadamente, bota ordem na casa. Mas já vejo no Facebook algumas pessoas reclamando. Serão elas as mesmas que fazem aquela barbárie chamada carnaval de blocos, quando a Zona Sul do Rio é destruída sob o reinado da birita? Pode ser.

Fato é que o frio está aí. 18 graus agora. Noites mais nítidas (e, por isso, apaixonantes), dias mais azuis, calma, muita calma.


Tempo de ouvir belas canções.

terça-feira, 13 de junho de 2017

“Janis: Little Girl Blue”, ótimo filme, chega a Netflix

A diretora e roteirista Amy J. Berg acertou em cheio. O filme "Janis: Little Girl Blue", que já chegou a Netflix, revela novos vértices da personalidade cronicamente carente e confusa da maior cantora de blues contemporânea, a texana de Port Arthur Janis Joplin.

O grande diferencial para outros filmes sobre Janis está na impressionante quantidade de cartas, fotos, áudios, filmes e vídeos inéditos, que são apresentados ao público em enxurrada. O documentário é diferente porque não trata a platéia como iniciados em Janis, ou em blues rock e, ao mesmo tempo, consegue satisfazer os conhecedores ao se manter longe do mostrar óbvio.


A platéia se comove quando o filme mostra, por exemplo, a capa de um jornal de alunos do colégio onde Janis estudou em Port Arthur quando menina e adolescente. Os alunos a elegiam "o homem mais feio do ano". Isso mesmo: homem. A humilhação foi suficiente para faze-la chorar em público pela primeira vez, segundo revela um amigo daqueles tempos.


Rejeição afetiva, simpatia, carisma, a voz que desnorteou o mundo, a bebida, as drogas, em especial a heroína que matou a cantora em 4 de outubro de 1970, sozinha num hotel em Los Angeles. O filme é pontuado pelas inúmeras cartas que Janis enviou para a sua família, para mim uma novidade. Não pensei que o contato com a sua "casa" fosse tão intenso. 


Depoimentos no presente de jornalistas, produtores, amigos, músicos da banda que a revelou (Big Brother and Holding Company), chegadas e partidas de amores que sucumbiam diante da heroína. Seu último grande amor, um americano que conheceu no carnaval do Rio de Janeiro em 1970, para onde Janis veio fugindo da heroína, mostra uma brutal ironia do destino.


Vale a pena ver, ouvir, sentir e tentar entender Janis Joplin.

domingo, 11 de junho de 2017

Não falou, não disse

Keith Emerson

Em 1969, Honduras e El Salvador entraram em guerra por causa de uma partida de futebol que valia uma vaga para a Copa de 70. Honduras venceu por um a zero, o povo de El Salvador foi para as ruas e a confusão terminou em guerra. Guerra não declarada.

Há anos, muitos anos, havia problemas entre os dois países, mas que não eram ditos. E o ser humano, até segunda desordem, só entende o que é dito, de preferência clara e nitidamente. No caso, a panela de pressão (no fogo) entre os dois países chegou a tal nível de silêncio que explodiu.

Não nasci para viver situações como essa. Jamais seria ministro do tse (assim mesmo, em minúsculas) para ser obrigado a entender o subtexto de um colega de toga ameaçando (com sinais) com a degola via radicalismo islâmico (“ira do profeta”) um sujeito não citado que o teria envolvido na Lava Jato. Para mim não disse nada.

Se não me mandarem a merda, não irei. Se não me disserem pode entrar não entrarei. As insinuações da política e sua sublinguagem deformada e esquizofrênica do gênero “Excelência, por obséquio vá tomar no c...” não estão no meu cardápio de entendimento.

Dizem que o que nos difere dos primatas é a fala. Se o sujeito diz “declaro aqui nesta corte (em minúsculas) que vou degolar Fulano de Tal por ter dito isso e mais aquilo de mim” é papo de humano. Agora, insinuar citando iras e similares, nada disse.

Romeu e Julieta foram pras picas por falha na comunicação. Marco Antonio perdeu 400 navios e o Império Romano porque tentou decifrar os enigmas e subtextos da sinuosa Cleópatra, que em suma queria dizer “perdeu, meu chapa”, mas não disse.

Honduras e El Salvador não declararam guerra. Ficaram quietas, magoadinhas, fazendo beicinho na penteadeira do quarto achando que uma estava entendendo a fúria silenciosa da outra. Bastou uma merreca de jogo de futebol para explodir tudo.

Ou seja meritíssimos, meretrizes, celacantos em geral: quem nada fala, nada diz. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Blow Up

Quando soube que “Blow-up”, de Michelangelo Antonioni (1912-2007), baseado num conto do argentino Julio Cortázar (1914-1984), seria homenageado por seus 50 anos de vida, gelei. Tive a péssima intuição de que alguém poderia fazer um famigerado “remake caça-níqueis” de Blow-Up, substituindo o denso suspense por cenas de monstrinho cansado inventado por esgotados computadores, com direito a oportunista Ariana Glande enchendo o saco no lugar do Yardbirds.

Alívio. Muito assediados pelos parasitas, os donos dos direitos do filme disseram um sonoro não e a comemoração do cinquentão foi maravilhosa: uma bela versão restaurada, bela, bem cuidada, que você encontra por aí. Me disseram que está no NOW!

Para quem não assistiu, o filme gira em torno de um fotógrafo de moda londrino chamado Thomas (David Hemmings), que após passar a noite fazendo fotografias para um livro de arte numa casa, volta para o estúdio atrasado para uma sessão com a supermodelo Veruschka.

Ele passa por um parque da cidade e por acaso fotografa um casal. A mulher das fotos, Jane (Vanessa Redgrave), furiosa por ter sido clicada (casada, estava com um amante), o segue até seu estúdio e exige os negativos de Thomas, que lhe devolve um filme virgem. Curioso com a atitude, ao fazer seguidas ampliações (blowups) de suas fotos no local, descobre o que acredita ser uma mão apontando uma arma entre os arbustos do parque.

A noite, ele volta ao parque e descobre um corpo no meio da mata (será do amante de Jane?), mas sem a câmera, não pode fotografá-lo e assustado com um barulho, deixa o local e encontra seu estúdio revirado e suas fotos roubadas. 

Ao retornar no dia seguinte ao parque, depois de mergulhar a noite londrina (1966 foi o auge da efervescência cultural e revolução de costumes da cidade) ele vê que o corpo desapareceu e acaba por não ter certeza do que realmente viu.

Caminhando absorto pelo local, assiste numa quadra duas pessoas jogando tênis por mímica, sem bolas nem raquetes. Participando da cena, quando devolve a bola imaginária que lhe é lançada por um dos jogadores, ele ouve o som da bola tocando o chão.

Assisti a versão restaurada de Blow-Up, sozinho no cinema. Não havia mais ninguém na sala, uma experiência inédita e fantástica. A tela, os atores, as cenas, o grande mistério, eu e mais ninguém. Quantos de nós já sentimos algo que parece existir como bolas e raquetes de tênis invisíveis, imagens em preto e branco de tiros prováveis com direto a corpos largados? 

Blow-Up parece dizer que temos direito ao delírio, a nos tornar apaixonados e até obcecados por fantasias, como eu (e todos os adolescentes do mundo) por Vanessa Redgrave na primeira vez que assisti, lá em 1968, com 12 anos. E, ainda, vastamente excitado com as duas modeletes que brincaram com Thomas e acabaram nuas no estúdio de fotos, emboladas num ménage à trois. Foi o primeiro nu frontal (de raspão, rápido) que vi na telona. Claro, não entendi o filme. Com essa idade poucos conseguem entender os jogos do absurdo.

Voltando ao presente, quando deixei o cinema deserto (última sessão), estava chovendo. Caminhei lentamente, ruas vazias, árvores aliviadas, as cenas de Blow-Up, o vazio existencial momentâneo e a certeza de que há sim metáforas verdadeiras e verdades metafóricas.

Mas esse é outro papo.

P.S. - Alguns artistas já conhecidos em 1966 aparecem no filme, outros se tornariam celebridades depois dele. The Yardbirds, a primeira banda conhecida de Jimmy Page e Jeff Beck, faz uma apresentação num clube londrino e Antonioni pediu a Beck que refizesse a cena de Pete Townshend, do The Who, destruindo suas guitarras e amplificadores no palco, ato pelo qual o cineasta era fascinado.

Veruschka, modelo já famosa na Europa, que interpreta a si mesma, depois do filme se tornaria uma celebridade em todo mundo. Michael Palin, comediante britânico que aparece numa das festas, alguns anos depois ficaria internacionalmente famoso como um dos criadores do grupo Monty Phyton.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Brasil hoje - 2

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terça-feira, 6 de junho de 2017

Relógio Biológico

Duas e 14 da madrugada. Acordo mansamente, sem sobressaltos, apesar do pesadelo. Gozado, mas só tenho pesadelos, desde a adolescência. Sonho bom? Nunca. Bom, acordo as 2 e 14 como se fosse seis da manhã para um triatleta. 

Rondo pela casa, ligo a TV e compro um travesseiro num programa de vendas pelo telefone. Segundo o anúncio, o tal travesseiro é um néctar de penas de ganso capaz de corrigir todos os problemas de coluna. O locutor diz que com esse travesseiro temos um sonho “reparador”. Só não prometeu que acordamos ao som de canários belgas porque a empresa fica em São Paulo. Garantiu que quem não ficasse satisfeito com o travesseiro teria seu dinheiro de volta. Os caras são craques. Duas e 14 de um dia de semana é o momento ideal para veicular um anúncio de travesseiro. Liguei, passei o número do cartão de crédito. 

Tem gente que fica muito angustiada quando acorda no chamado “meio da noite”. Como para mim é rotina, não sinto nada. Apenas uma certa impaciência, apesar da calma da madrugada, telefones mudos, e-mail calado. Tanto que já escrevi até aqui se interrupção.

Já li e ouvi muito sobre o chamado relógio biológico. Aparentemente durmo mal, mas uma vez li numa revista de ante sala que o tipo de sono que tenho se chama “flash”. Durmo e acordo várias vezes. De fato não é tão bom quanto o sono sem escalas, aquele que você deita a meia noite e acorda as oito na mesma posição. Mas o fato das comunicações estarem a minha disposição de madrugada me trouxe esse vício. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona.

Meu relógio biológico é oportunista e prático. Em geral durmo cedo sexta e sábado para atravessar o dia seguinte na praia. E praia vou o ano inteiro porque concluí que não existem praias feias com chuva, com tempo nublado ou em plena tempestade. 

As praias são lindas de qualquer jeito. Em Itaipu quando chove e o vento traz aquela bruma branca ela parece com a costa da Escócia, que conheço via cinema. Nos dias frios, de céu azul profundo, lembra a Indonésia. Já sob densa tempestade lembra a capa de “Love Over Gold”, um dos grandes discos do Dire Straits. É por isso que tenho certeza de que Itaipu é a mais gostosa das filhas de Ryan.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado, eu sou estressado. Já me chamaram de masoquista, que despendo muita energia, etc. Só que anos atrás experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. Nunca me senti tão mal na vida. Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, porra que depressão! Isso sim é masoquismo. No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, cobertor das Casas Pernambucanas.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. José Maria Monteiro de Barros (saudade desse meu amigo) me fez observar com calma as aves e mamíferos. Fora as criaturas da noite, todos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio na Wikipédia que os primeiros homens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 17 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite tem que se habituar com dois sons altamente depressivos: 1) Caminhão de leite; 2) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2)Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível.

Já tentei acertar meu relógio biológico para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade. De 1974 a 1976 trabalhei no horário das 5 da manhã ao meio dia. Jornalismo tem dessas coisas. Uma ótima oportunidade para acertar o tal relógio. Não deu. 

Chegava em casa, tomava um banho, almoçava e dormia até as seis da tarde. A noite caia na gandaia, ou para a faculdade, que na verdade eram mais ou menos a mesma coisa. Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas da madrugada numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. 
Não tem jeito. Sou bicho do mar mesmo.

Relógio biológico não é atômico e muito menos um Rolex automático. O meu é um paraguaio, desses de camelô. E com licença que já são quatro da matina e preciso rever “Apocalypse Now Redux, no DVD.

sábado, 3 de junho de 2017

50 anos sem Luz Del Fuego: "Para a fome, temos o pão. Para a sede, a água. Para a imoralidade, a nudez!"

                                              








Dia 17 de julho, não serão lembrados os 50 anos da revolucionária Luz del Fuego. Por que? Ela foi uma das mulheres mais politicamente incorretas, logo livres e libertárias, do planeta. Luz Del Fuego era o nome artístico da capixaba Dora Vivacqua, que faria 100 anos em fevereiro deste ano. 

Foi naturistaatrizescritora feminista. Destacou-se como pioneira na implantação do naturismo no Brasil entre os anos 1940 e 1950, fundadora do primeiro reduto naturista da América Latina e a primeira nudista brasileira. É também reconhecida por sua contribuição na luta pela emancipação das mulheres.

Os dias de hoje não comportam uma Luz Del Fuego. Ela brutalmente assassinada na Ilha do Sol, perto de Paquetá. Tinha 50 anos. Hoje, com certeza com certeza os corretinhos de plantão da esquerdose nacional iriam apedrejar na mídia a mulher que gostava de andar nua, se sentia livre e liderava o feminismo autêntico e não fashion no país. Para “piorar”, era bonita e gostosa.

Gostaria muito de ter entrevistado essa mulher rara. Sua biografia conta que ela estreou oficialmente como artista e dançarina em 1944, com espetáculos por ela idealizados — como a própria afirmou, uma vez mais à revista Carioca, àquele ano —, intitulados Tentação de EvaLenda da cobra grandeBaile de CleópatraMacumba para prender um amorFrevo — uma mistura de dança e mímica — Batuque e Cocktail, para além de Noturno Carioca, este escrito por Ary Barroso.

A sua primeira exibição no teatro de revista ocorreu em agosto do mesmo ano, na peça Tudo é Brasil. Em 1945, a dançarina exibiu-se em casas de espetáculos pelo Panamá, Uruguai e Buenos Aires, e em 1946, estreou nos cinemas nacionais, na produção No Trampolim da Vida, em que apresentou "números excitantes com cobras vivas", nas palavras de um repórter do periódico A Scena Muda, em dezembro de 1946.[No ano seguinte, embarcou em uma excursão por Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde se apresentou em danceterias noturnas por três meses.

Fundadora do naturismo no Brasil, ela defendia lá nos anos 40:" Adão e Eva andavam nus. Quando se nasce, não se traz roupa sobre o corpo. As vestes são artifícios dos quais os homens se valem para encobrir coisas naturais". De volta ao Brasil, em 1948, a dançarina começou a expor seus ideais e tentou resgatar a prática dos primeiros habitantes do Brasil, muito comum em países europeus desde 1903. Com a publicação do livro A Verdade Nua, que vendeu milhares de exemplares em apenas quatro dias, ela lançava a teorização do movimento naturista brasileiro e defendia o nudismo das acusações de imoralidade. Num trecho da obra, escreveu: "Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder".

Em 1949, iniciou uma série de espetáculos pelas danceterias do Norte e Nordeste do país, tendo sido impedida de apresentar-se pelas autoridades no Maranhão e submetida a restrições em Fortaleza. Embora não dominasse habilmente a dança nem a atuação, Luz del Fuego conquistou imensa popularidade com os seus espetáculos pelo país.

Apesar de não usar o nome de batismo, a família Vivacqua ficou furiosa com a profissão escolhida por Dora, especialmente o seu irmão Attilio, que fora eleito senador e considerava a associação prejudicial à imagem como político. Numa entrevista com a Revista do Rádio, em 1950, del Fuego apontou os seus familiares como os seus principais "perseguidores", enfatizando Attilio, que se utilizava do cargo para impedi-la de exibir-se em teatros e danceterias. Em 1951, fundou Naturalismo, a primeira revista do país a exibir genitálias em suas publicações, que teve 21 edições até 1954.

Sofreu pesada repressão num Brasil, àquela época, nem sequer era permitido o uso de maiô de duas peças nas praias e as suas ideias e apresentações trouxeram-lhe vários problemas, como acusações de atentado ao pudor e aos "bons costumes", diversas multas e intimações a delegacias.

Numa atuação em São Paulo, em 1951, por exemplo, foi detida durante o espetáculo devido aos seus trajes e acabou por ser multada, embora tenha declarado: "Nunca me apresentei tão vestida no palco!". Numa de suas passagens por Belo Horizonte, em 1952, causou alvoroço entre a população e recebeu ordens do prefeito para deixar a cidade imediatamente. Em 1953, um grupo católico de Juiz de Fora, liderado pelo bispo Dom Justino José de Sant'Ana, da arquidiocese local, conseguiu fazer com que as autoridades não a permitissem apresentar-se no município.

Casos semelhantes foram registrados noutras regiões, como em Sergipe e Valença, tendo sido, em ambas, impedida de atuar. Também em 1953, foi detida e condenada a seis meses de prisão por atentado ao pudor e desacato à autoridade em uma festa carnavalesca, mas absolvida, e orientada a submeter-se a exames de sanidade mental por um representante do Ministério Público, em 1955, que sugeriu o seu internamento em um manicômio. Os métodos que utilizava para promover as suas ideias, como uma aparição no Viaduto do Chá, em São Paulo, fantasiada de Iemanjá e completamente sem roupas, ou apresentações seminua em carros abertos na Avenida Atlântica, no Rio, em que dançava e exibia as serpentes aos que ali estivessem presentes, também resultaram em detenções.

Tentou lançar-se na carreira política com a fundação do Partido Naturalista Brasileiro, em 7 de setembro de 1949, que defendia o estabelecimento de espaços públicos nos quais famílias pudessem criar uma relação harmoniosa com a natureza totalmente despidos e cujo slogan, "Menos roupa e mais pão! Nosso lema é ação!", repercutiu em todo o país.

A naturista o promovia durante as suas excursões pelo país, distribuindo panfletos com as escritas: "Para a fome, temos o pão. Para a sede, a água. Para a imoralidade, a nudez!". O partido conseguiu 50 mil assinaturas apoiando-o, mas não foi registrado devido à perda dos documentos, como revelou a própria Luz, em setembro de 1950: "Já estava quase registrado meu partido. Para que ele fosse realmente forte, eu queria obter a adesão de um grande figurão da política. Por isso, dirigi-me ao senhor Salgado Filho, que me recebeu muito bem, dizendo que ia entender-se com o senador Getúlio Vargas para esse fim. Na última viagem que ele empreendeu ao Sul, levou consigo o meu memorial que continha as 50 mil assinaturas de adeptos do P.N.B. Faça ideia, agora, como sofri, quando tive notícia do trágico desastre em que pereceu o senador Salgado Filho, pois, como sabia, o documento assinado pelos meus eleitores também havia sido queimado no horrível desastre...". Embora se tenha noticiado aquilo à época, sabe-se, hoje, que foi Attilio quem pôs fim aos documentos.

Luz del Fuego recebeu convites para excursionar pelos Estados Unidos e pela Europa, bem como para realizar um espetáculo para o Rei Faruk do Egito. Além disso, continuou a destacar-se nos palcos de teatros como o Recreio — com as suas apresentações baseadas no folclore brasileiro —, o República e o Follies. Para O Nu Através dos Tempos, que estreou em 1951, no República, por exemplo, a dançarina atraiu 293 975 espectadores em apenas um mês. Sobre o espetáculo, um repórter do periódico A Manhã declarou: "De há muito o Teatro República não registra sucesso igual!". Luz e Elvira Pagã foram chamadas "as responsáveis por provocar verdadeiras explosões de gargalhadas" pelo Diário da Noite, em referência ao êxito Balança Mas Não Cai, do Teatro Carlos Gomes. O sucesso também lhe permitiu protagonizar os filmes Folias Cariocas e Não Me Digas Adeus, fê-la estampar a capa da revista americana Life e consagrou-a como uma das vedetes mais populares de sua época no Brasil, de modo que repórteres da Revista de Copacabana descreveram-na como "um dos nomes de maior evidência do mundo artístico brasileiro". Em 1959, após quatro meses a atuar em outro êxito, Mulher... Só Daquele Jeito, no Teatro Carlos Gomes, recebeu propostas para realizar apresentações em Las Vegas, nos Estados Unidos, remuneradas com mil dólares diários — à época, cerca de 150 mil cruzeiros.

Quando A Verdade Nua foi lançado, as autoridades brasileiras conservadoras logo trataram de eliminar quaisquer sinais da publicação nas livrarias, e a obra passou, então, a ser comercializada somente por reembolso postal.

Todo o dinheiro arrecadado com as vendas seria utilizado para a fundação do reduto naturalista que Luz del Fuego tanto almejava. Na primeira metade dos anos 1950, a atriz obteve uma autorização da Marinha do Brasil para viver na ilha Tapuama de Dentro, que possui mais de oito mil metros quadrados, e a rebatizou de Ilha do Sol. Lá, fundou o Clube Naturalista Brasileiro, em 1951, o primeiro do gênero na América Latina e sobre o qual mantinha rígido controle, não permitindo a entrada de bebidas alcoólicas, proferir palavrões nem a prática de relações sexuais na colônia, distinguindo nitidamente o conceito de naturalismo. Também não era permitida a entrada de menores de idade e, caso uma pessoa fosse comprometida, o parceiro tinha de estar ciente de sua visita à ilha. Luz promovia a prática de atividades esportivas, como vôlei, banhos de sol e mar, e encenava peças teatrais e filmes — em geral, documentários sobre as colônias nudistas europeias. Pela iniciativa, recebeu uma carta dos organizadores da Confederação Nudista da América do Norte, em 1952, dando parabéns.

A Ilha do Sol não foi incluída na lista dos roteiros turísticos do Rio de Janeiro, mas tornou-se extremamente popular e atraiu, inclusive, personalidades do cinema americano, como Errol FlynnLana TurnerAva GardnerGlenn FordBrigitte Bardot e Steve McQueen. Segundo o Correio da Manhã, mais de três milhões de mineiros visitaram a ilha. O local foi incluído nos registros da Federação Internacional Naturalista da Alemanha e conseguiu 240 sócios, e todos que desembarcassem na ilha só poderiam ficar se estivessem totalmente nus.

Nos anos 1960, Luz del Fuego foi morar na Ilha do Sol. Àquela altura, com mais de 40 anos de idade, ela não atraía mais o interesse de homens influentes como antes e passava por dificuldade financeiras. Entre 1960 e 1961, atuou em Carnaval da Ilha do Sol, no Teatro João Caetano, com Wilza Carla e Costinha, e, em 1962, apresentou-se em Campos do Jordão e recebeu propostas para excursionar pela América do Sul.

Afastou-se dos teatros de revista nesse mesmo ano, retornando somente em 1964 com espetáculos em São Paulo. Numa entrevista concedida à Revista do Rádio, em 1965, Luz afirmou ter-se ausentado dos teatros para dedicar-se à reforma da Ilha do Sol, com a qual gastou trinta milhões de cruzeiros em construções, inclusive de um restaurante nudista. "Quando comprei e fui morar na Ilha do Sol, aquilo não passava de um recanto deserto, dentro da Baía de Guanabara. Não havia nenhuma casa. Dediquei-me, então, à construção de várias moradias, permanecendo ali meses seguidos sem vir ao Rio", justificou ela.

A artista pretendia reabrir a ilha em março para os festejos do Quarto Centenário do Rio. Ainda àquele ano, a dançarina estrelou Boas em Liquidação, com Sônia Mamede, no Teatro Rival, que registrou boa bilheteria, e foi convidada pela Federação Internacional de Nudistas para viajar à Alemanha, onde concorria ao título de "Mais Bela Nua do Mundo".

Em outubro de 1965, Luz queixou-se à polícia da visita de bandidoses à Ilha do Sol, como os irmãos pescadores Alfredo Teixeira Dias e Mozart "Gaguinho". Meses depois, del Fuego dirigiu-se novamente às autoridades e denunciou-os pela prática de ações criminosas na região, inclusive pelo assassinato de um outro pescador, tendo informado à polícia o local onde Alfredo estava escondido Na noite de 19 de julho de 1967, uma quarta-feira, Alfredo convocou o irmão para ir à Ilha do Sol para conversar com Luz, porém, revelou durante o percurso que a pretendia assassinar para vingar-se da artista.

Quando a dupla chegou à Ilha, os cães da dançarina fizeram alarde e ela apareceu em seguida, portando um revólver. Alfredo, então, disse-lhe que a embarcação por ela utilizada para transporte is ser roubada e a convenceu de ir com ele atrás dos "criminosos". Ao se afastarem da ilha, ele desferiu-lhe violento golpe na cabeça, que a fez cair. Em seguida, abriu-lhe o abdome com um facão. Os dois retornaram à ilha, onde encontraram o caseiro Edgar Lira e com ele fizeram o mesmo. Alfredo e Mozart, então, amarraram os corpos a pedras, lançaram-nos ao mar e depois retornaram à ilha para saquear a residência da vítima.

O desaparecimento de del Fuego repercutiu nos noticiários de todo o país e chegou a ser encarado como um golpe de publicidade por alguns meios de comunicação. Al hipótese foi descartada após o delegado Rui Dourado, da Terceira Delegacia Distrital, encontrar, no dia 23, a residência da artista revirada e com objetos de valor roubados. Os policiais fizeram as buscas pela Ilha do Sol, Niterói e por ilhas vizinhas, onde acreditavam estar escondido Mozart, o segundo suspeito, que havia assaltado a residência da naturista três vezes, e à procura de dois pedreiros que trabalhavam para Luz e haviam desaparecido após o acontecido.

No dia 25, a embarcação da dançarina foi encontrada próxima à Ilha do Braço Forte por portuários, que perceberam nela manchas de sangue e resolveram comunicar às autoridades. Também os familiares da nudista afirmaram, nesse mesmo dia, não saber onde ela estava. Cada vez mais convencidos de que a atriz havia sido assassinada, os policiais iniciaram buscas pelo mar.

Os corpos de del Fuego e de Edgar foram encontrados apenas em 2 de agosto. A cerimônia fúnebre da artista ocorreu no dia seguinte, no cemitério São João Batista, e foi realizada por amigos e alguns familiares; Edgar foi sepultado no dia 4.