segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Fiador moral

O cara é baba-ovo, invejoso, rancoroso, arrivista e, dizem todas as  línguas, as más inclusive, é um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da fala as vezes nos metem em roubada.

Por uma questão cultural dizemos que “conheço” a quem vimos algumas vezes. Pior: em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomarmos o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação e posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalu e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo.

Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim.  Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não aguentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o ...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para a Zona Sul”.

Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo.

Esquisito pra caramba.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

VeloSes & FurioZos


Ontem
Hoje
Duas motocicletas de no máximo 150 cilindradas faziam zigue zague entre os carros na mau caráter estrada Rio-Manilha. Na moto de trás, preta, um adesivo branco, bem grande, colado no tanque de gasolina: “Velosez e Furiozos”. Assim mesmo, com o S no lugar do Z, Z no lugar do S e muito cocô de pombo na cabeça do famigerado piloto. Silencioso cortado foi substituído por dois canos de descarga que apelidei de “esporrers”.

Um deles quase arrancou meu espelho retrovisor e o sujeito do carro da frente xingou os dois motoboys (ambas as motos carregavam aqueles baús gigantes e maltrapilhos para entregas na garupa), que faziam a tradicional “saudação” empinando o dedo médio da mão.

Depois vieram outros, e outros, lá na frente uma moto estava caída no acostamento e uma ambulância do Samu atendia o sujeito que parecia bem. Enfim, as motocicletas de hoje que arrotam pelas ruas conduzidas por bípedes que ostentam Q.I. de protozoários nada tem a ver com aquelas do passado. Românticas, pinta de cafajestes de baixos teores, imortalizadas por Marlon Brando, James Dean, Evel Knievel.

Assisti ao filme “Easy Rider”, de 1969 (no Brasil chamou-se “Sem Destino”) no final de 1970 num cinema chamado Alvorada, em Teresópolis, que deixava menores de idade entrar. O filme acabou se tornando um clássico do chamado “road movie” e todos nós, adolescentes, vibramos no cinema com aquela viagem de Wyatt e Billy (Dennis Hopper e Peter Fonda) ao som de Jimi Hendrix, Steppenwolf e muitos outros.

A fumaça de maconha, cigarro com Melhoral, cherinho da loló e similares era tal que disseram que o lanterninha do cinema começou a recitar Alziro Zarur, botou o piru pra fora e começou a escrever seu nome com urina na parede lateral da sala.

O tempo voou e mais recentemente, num delicioso voo entre o Rio e Porto Alegre, vi o anúncio de uma moto Harley Davidson numa revista. Lembrei de “Easy Rider” e constatei que o filme nada mais é do que a saga de dois vagabundos, dois à toas, traficantezinhos de nona categoria, que passavam a vida levando cocaína, heroína e similares do México para Los Angeles e sonhavam passar o carnaval em Nova Orleans.

Suas motos eram aqueles modelos “chifrudos”, Harley Davidson com o garfo longo que bota a roda da frente bem longe. Uma marca que acabou se tornando sonho de consumo de todos nós, apesar de sabermos que aquela moto é uma bosta, derruba qualquer um, trucida a coluna vertebral, não faz curva, não freia, bebe como uma porca, não leva garupa, enfim, moto de cinema.

O chamado “charme transviado do motociclista” acabou virando essa cloaca urbana que está aí. Flanelinhas trepados em estrumes sobre rodas arriscam não só as suas vidas mas as nossas, sobem e descem de calçadas, em geral andam de chinelo (tipo Ryder), bermudão de surfista do Planalto, boné com a aba virada para trás no lugar do capacete, sem camisa, óculos escuros espelhados modelo 4 por 30 reais, cabelo a la Neymar e “tocando o terror” como dizem para os amiguinhos no final do dia.

Esses são motoqueiros. Eu fui motociclista. Até mais ou menos 2005 e minha última moto foi uma Suzuki DR 800 que adorava. Vendi porque perdi o medo dela. E quando o sujeito perde o medo de moto é melhor vender senão vai se acabar. Isso é regra e não exceção.

Gostava de rodar sozinho por aí já que como não sei montar barraca e arrumar mochila nunca pertenci aos grupos de duas rodas que viajam pelo país. E pegaria mal todo mundo acampado e eu em pousada.

Depois de muitos e muitos anos condenando aquele clone de George Bush que matou os personagens de Hopper e Fonda no final de “Easy Rider”, hoje eu entendo. Quando esses animais quase matam velhos e crianças nas calçadas, se metem entre os carros (o problema não é só um desses morrer, mas o problema eterno que causa ao motorista), enfim, são representantes (mal) motorizados da molambalização que a cada ano engole mais o Brasil, dá vontade de dar umas bofetadas.

Bofetadas que a tecla SAP dos reacionários dos EUA traduz para “tiro de escopeta 12 nos cornos”.

Como aquele que matou Wyatt e Billy.





sábado, 25 de fevereiro de 2017

A inveja é uma merda

“A galinha que cacareja demais é a primeira a ir pra panela” (ditado popular).

“Porque ela é linda e eu não?”; “Por que ele tem esse carro zero e o meu é tão velhinho?”; “por que ele mora tão bem e eu não?”; “por que ele está sempre saudável e eu vivo doente?”; “por que ele é sempre promovido e a empresa me ignora?”; “por que com ele as coisas sempre dão certo e comigo não?”; “por que o casamento dele é feliz e o meu não?”; “por que eles podem viajar sempre e eu não tenho condições”...

A inveja é da essência humana, informa uma corrente contemporânea do holismo. A princípio não é querer mal ao outro, mas desejar o que o outro tem, e segundo o holismo contemporâneo, é aí que mora o problema. Afinal, a energia psíquica de todos nós é uma só, e é neutra. Ela se torna positiva ou negativa de acordo com nossos direcionamentos, em especial o pensamento. Quem pensa negativo enfraquece, quem pensa positivo, fortalece.

Carl Jung revelou que a energia psíquica pode ser atingida de fora quando estamos frágeis (pessimistas, negativistas, mal humorados, reclamões). Ele diz que a inveja é o mais poderoso dos sentimentos negativos porque está além do ódio é movida pela cobiça. Mesmo que inconscientemente.

O holismo contemporâneo afirma que todos os seres humanos nutrem uma “quantidade” de inveja, mas é nos grandes “abismos sociais” que ela se manifesta de forma mais intensa, o que de acordo com os cientistas “é natural”. Uma pessoa que tem pouco conviver com quem tem bastante diariamente sente um mal tamanho que chega a danificar a sua própria saúde. Como uma esponja, tenta sugar os sucessos do outro. A inveja é uma das origens dos burgos da Europa antiga.

Por isso, muita gente bem sucedida existencialmente anda de carros simples, evita receber pessoas desconhecidas em casa (preferem restaurantes e outros lugares públicos), adota um estilo de vida que os americanos chamam de “low profile”.

Alguns terapeutas holísticos dizem que quando se torna inevitável conviver com invejosos mais críticos, fortalecer a própria energia psíquica é o único caminho, apesar da vítima dos nefastos desejos da inveja seja, a princípio, o próprio invejoso. Um fenômeno chamado “bumerangue”, mas sempre sobra alguma coisa para os invejados. 

É simples saber, basta comparar a quantidade de “incidentes e perdas em geral” ocorridos antes e depois do convívio com os invejosos.

Por que esse artigo hoje? Porque é carnaval e, segundo a moderna psicologia social, uma das razões das pessoas saírem dos burgos mascaradas pelas ruas da Europa antiga é que nobres, inventores, comerciantes e outros “invejados” só se permitiam se expor a inveja quando fantasiados, irreconhecíveis. Era quando se sentiam livres e os invejosos não notavam.


Em suma, a inveja é uma merda.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Carro pra que?



Encontrei o querido amigo Helinho em frente ao banco. Ele vinha pela calçada, me viu, abriu os braços, trocamos um longo abraço. Disse a ele que estava indo pagar o IPVA do carro porque o banco na internet tinha dado pau. Ele respondeu: “há mais de um ano que não sei que problema é esse.”

Economista bem sucedido, especializado em finanças pessoas e também terapeuta holístico, desde novo Helinho investe em qualidade de vida. Contou que há um ano e meio vendeu seu Honda Civic 2012 por R$ 50 mil e investiu muito bem o dinheiro (ele conhece esse caminho).

Nos dias úteis só usa os baratíssimos Uber X e Cabify e nos finais de semana fez um excelente negócio com uma locadora de automóveis. Um motorista deixa um Toyota Etios Hach completo, automático ("quando me sinto um burguês velho, peço com câmbio mecânico, mais esportivo rs") na garagem dele na sexta a tarde e busca na segunda. Num pacote especial de uso continuo a diária não chega a 100 reais.

Helinho conta, rindo, que “me tornei um minimalista e adoro esse carro, o Etios, que dirigi por uma semana na Turquia, quando havia Turquia. Adorei. Meu filho acha feio mas eu digo que “pra você é feio, mas pra mim é lindo e é Toyota”. Rápido, confortável econômico, espaço interno nota mil, não chama atenção dos bandidos como o Civic chamava, faz 11 km/litro de gasolina na cidade, pra que mais?”.

Num rápido levantamento de custos, ele constatou que o seu Honda Civic (“excelente carro”, ele comenta) consumia:

IPVA – R$ 2.600,00 – no Estado do Rio é mais caro.
Seguro – R$ 2.300,00 – no Estado do Rio é mais caro.
Combustível – R$ 700,00 por mês (média) – no Estado do rio é mais caro.
Pneus – R$ 1.200,00 a cada 60 mil quilômetros.
Revisões, óleo, pastilhas de freio, manutenção do ar condicionado, limpeza, imprevistos como retrovisor lateral quebrado por moto etc – R$ 3.000,00 ano (média).

Helinho não incluiu a desvalorização do carro, o estresse de dirigir nos constantes engarrafamentos, numa região tomada pela criminalidade, flanelinhas etc. o que ele chama de “prejuízo emocional”.

Total (média ) – R$ 15.500,00/ ano.

Em suas equações, Helinho percebeu que dá menos aporrinhação morar num imóvel alugado do que comprar. “Peguei a grana que pagaria num novo há 20 anos atrás, investi legal e acho que me dei bem. Hoje moro perto do mar, num amplo três quartos com varanda suítes e muito conforto. Todos os reparos ou qualquer serviço é pago pelo proprietário. Até recentemente alugava até os aparelhos de TV, mas deixou de valer a pena com a queda dos preços dos novos”.

As prioridades do Helinho são outras: viajar pelo mundo gastando o que tiver, um ótimo plano de saúde para a família, papo com os amigos em bons restaurantes, teatro, shows, cinema (paga meia porque tem mais de 60 anos), ginástica, boa alimentação, muita praia, papo para o ar e trabalho bom e pesado de segunda a quinta. “Como sou autônomo, abri mão da sexta, mas em alguns dias chego a ficar mais de 13 horas no escritório.  Crise econômica desafia a criatividade dos economistas”.

Em 2015, ele e a mulher voaram para São Francisco, Califórnia, alugaram um Mustang conversível vermelho (baratíssimo) e desceram até Los Angeles. “Meu amigo, foram quase três semanas de liberdade. Parávamos onde queríamos, usávamos motéis de estrada confortáveis e baratos, mas em Carmel, claro, ficamos quatro dias rodando pelos verdadeiros presépios que existem naquela região”.

Em Los Angeles devolveram o Mustang a filial da locadora e pegaram um voo para Nova Iorque onde ficaram mais 10 dias antes de retornarem ao Brasil. “Um prazer desses não tem preço. Estimula a gente chegar aqui e trabalhar mais, correr mais atrás brigar mais, e valorizar mais o ser do que o ter. Não tenho imóvel, não tenho carro, não tenho um monte de coisas porque não quero, e isso é muito bom”.

Nos despedimos. Antes de seguir, Helinho perguntou: “carro pra que?”. E a pergunta dele ecoa até agora.

Entrei no banco, para a facada do IPVA.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Somos todos impublicáveis

Faz sentido um sonho que tive, noites atrás. Muitas noites atrás. Muitas e muitas e muitas e muitas noites atrás. Provavelmente nem era nascido.
Sonhei com o filme “Beleza Americana” (está na Netflix), obra genial de Sam Mendes lançado em 1998, com Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch nos papeis principais. Bem, o filme mexeu tanto na minha vida (literalmente) que comprei uma cópia em DVD para assistir de novo de tempos em tempos. Mas não assisto porque muitas vezes é melhor deixar nossos baús trancados, calados, quietos.

A guinada existencial do personagem de Kevin me deixou boquiaberto dentro do cinema, onde permaneci uns cinco minutos depois que o filme acabou, completamente abobalhado, besteirão, queixo caído, vendo os créditos subirem na tela enquanto as pessoas saiam, com o capacete da minha Suzuki DR 800 no colo; tinha moto naquela época, mas motocicleta deixou de ser um veículo civilizado, segundo o regulamento.

Pou! No dia seguinte comecei a sentir os bons sintomas do filme e, mais uma vez, escrevi não sei onde (acho que foi no Estadão) que o cinema tem o poder de meter uma colher de sopa em nossas vísceras. O cinema, em muitos casos, faz o papel do inconsciente gente boa despejado em via pública.

Mas aí mora um problema: somos todos impublicáveis, diz o regulamento.
“Beleza Americana” me disse “larga essa vidinha e caia dentro com vigor, tesão e uma boa dose de irresponsabilidade”. Aquilo ficou martelando em minha cabeça (e a trilha sonora idem) e, meses depois, quando olhei para trás vi que também tinha dado uma guinada. E que a tal “vidinha” denunciada em silêncio pelo filme tinha sido substituída pelo vigor da tal dose de irresponsabilidade.
Respeitei a máxima de que todos somos impublicáveis e continuei a viver a nova vida calado. Que beleza.

O sonho que tive (concordo com C.G. Jung sobre os poderes dos sonhos e suas mensagens cifradas) não foi nada demais, mas para mim foi como se um torpedo de um submarino alemão singrasse o fundo do mar em direção a um porta-aviões americano, em 1944.

O que fazer? Acessei o You Tube e fiquei contemplando a beleza que é a instalação que o artista plástico Daniel Wurtzel fez, baseado na trilha sonora do filme. Imersão total. Beleza mais que americana.

Absoluta.

Agora é só ouvir os berros do inconsciente e seguir em frente. 

Calado, quieto.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Keith Jarrett, The Koln Concert

O disco instrumental que me deixou de joelhos na primeira vez que ouvi chama-se “The Köln Concert”, de Keith Jarrett, gravado no Opera House em Colônia, Alemanha, em 24 de janeiro de 1975. Ou seja, o concerto que virou disco (lançado em setembro de 1975) acachapante fez 40 anos.

Não conhecia bem Keith Jarrett. Só em 1981 ouvi “The Köln Concert”. Foi como se um tufão rompesse os meus rochedos emocionais. Todos eles. Era um LP duplo, importado (gravadora ECM, da Alemanha) que ouvi um dia inteiro em casa e numa cópia em fitinha K7 que fiz, a bordo de meu Fiat 147. O álbum vendeu quase quatro milhões de cópias e é o disco de piano-solo mais comercializado na história da música.

Até hoje esse disco me devasta. No melhor dos sentidos. A solidão do piano de Jarrett, totalmente entregue a música a ponto de gritar várias vezes ao longo do concerto é algo que não vai acontecer de novo. Por mais que seja desejado, planejado, ensaiado, “The Köln Concert” é um raio que não vai cair de novo no mesmo lugar. Aliás, em lugar nenhum. Nem que Keith Jarrett queira.  

A música arrasta os gênios. Jarrett se deixou arrastar naquela noite de 24 de janeiro de 1975 em Colônia, sem medir consequências. Li que a gravação do disco foi marcada por algumas confusões, pianos trocados, mas virou virou uma obra, tão profunda, visceral, fundamental que ganhou o reconhecimento mundial. Um disco que está muito à frente de 1975, de 2017, do ano 3000, porque flagra a essência da liberdade, um momento muito raro em todos nós.

Anos depois, eu iria participar de entrevista coletiva de Keith Jarrett no Rio que acabou sendo cancelada. Tinha (e tenho) muita vontade de falar de “The Köln Concert”, mas, como todo mundo sabe, o músico é encrenqueiro, daqueles que interrompem o concerto por causa do zumbido de uma abelha. Mesmo que a entrevista acontecesse, não daria para conversar sobre aquela distante noite de Colônia.

Amigos e colegas meus, que já estiveram com ele, dizem que Jarrett é arrogante, antipático e tal, mas é a tal história, o cara é gênio e gênio pode tudo. Pode? Pode sim, eu acho, ou como diria Caetano Veloso, “pode sim, ou não.” Fato é que se aquela entrevista tivesse acontecido eu tentaria não para falar da agenda de Jarrett naquele dia/semana/mês, e sim de Colônia, Alemanha, 24 de janeiro de 1975 por uma única razão: eu queria estar lá. Muito. 

Mas o poder do músico fez Colônia vir até mim (e a milhares de outros brasileiros) dentro deste álbum duplo de vinil, que guardei até 80 e tal. Depois comprei em CD que ouço nesse exato momento, com os olhos ardendo, a garganta levemente seca, porque é assim que a música determina que eu deva me emocionar. E a música pode tudo. Inclusive parir a abstração profunda e genial, para sempre genial de “The Koln Concert”, de Keith Jarrett.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

É verdade. Sim.

 Não foi a toa que chorei como uma ema no cinema assistindo "O Resgate do Soldado Ryan", de Steven Spielberg, em 1999. Vi no capitão John Miller, interpretado por Tom Hanks, um clone meu. Teria feito tudo o que ele fez, inicio, meio e fim, sem alterar nada. Nem um milímetro. O filme pode ser visto no You Tube, mas o ideal seria assisti-lo na telona do cinema, com um ótimo áudio.
Assisti "Até o Último Homem" dias atrás. Provavelmente foi o melhor filme que passou por mim desde janeiro de 2016. Apesar da história ser completamente diferente de "Soldado Ryan", há algumas conexões: a) são reais; 2) tratam da solidariedade.
"Até o Último Homem" foi dirigido por Mel Gibson e foi indicado ao Oscar em seis categorias, inclusive a de melhor filme.
Impressionante o ilimitado poder da fé de um homem, que ultrapassa a barreira do absurdo. Cercado de sangue, vísceras, pernas amputadas por bombas (não recomendo o filme as pessoas mais sensíveis), um homem que não encosta a mão em armas decide ir para a II Guerra Mundial disposto, somente, a ajudar. E, impressionante, acaba indo parar na sangrenta e histórica Okinawa (Japão), a maior batalha marítimo-terrestre-aérea da história, entre abril e junho de 1945.
O vendaval de absurdos ao longo do filme nos deixa abismados. Como aquilo tudo pode ter sido real? Como existem pessoas assim num planeta incendiado por nefastos? Como? Como? Como? Banhados pela comovente e caótica história, deslumbrante fotografia e efeitos especiais, e pelo som, até os mais descrentes acabam sucumbindo e se entregam a esperança.
O que mais me chocou positivamente no filme "Até o Último Homem" foi o fato daquela imensidão humana ter sido uma história real.
História real que precisa ser vista por todos.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Desconsideração

Um secular amigo não está entendendo nada. Muito menos eu. No auge da era da tecnologia da informação e seus tentáculos que permitem a comunicação instantânea entre pessoas, poucas vezes vi tanta falta de consideração cacarejando por aí.

Esse amigo estava fazendo as coisas dele e alguém ligou de uma empresa. Uma proposta de trabalho, a princípio bem legal para ambos. O cara que ligou pediu urgência, muita urgência, para que meu amigo fosse a uma reunião discutir o projeto, datas, grana e tudo mais. E assim foi. Digo, e assim não foi. Meu amigo tentou falar com ele umas três vezes para marcar a reunião que o outro pediu, mas o sujeito sumiu. Ele, sua urgência e a sua consideração.


Comigo coisas parecidas vem acontecendo há tempos. Por e-mail me encomendam trabalhos e depois...somem. Como se vivêssemos no tempo do rádio galena, sinal de fumaça ou coisa parecida. Também no terreno pessoal, eventualmente acontecem coisas bizarras e semelhantes. É o caso do lastimável, insuportável, chato pra cacete, inconveniente e boçal whatsapp, mas ruim com ele, pior sem ele. De vez em quando alguém bota lá "você sumiu!". Pergunto a mim mesmo: eu sumi? Que nada. É caô.


Há tempos estava de carro no bairro de São Francisco, em Niterói, à noite. Não gosto de conectar o celular ao 3G porque, além de ser uma bosta tenho o direito a ficar quieto de vez em quando, ouvindo minhas músicas. Horas depois, quando cheguei em casa (onde o wifi vive ligado) o whatsapp apitou. Um cara me dizia "não sei onde você está agora, mas não passe de jeito nenhum por São Francisco porque está havendo um tiroteio em Charitas e até já tacaram fogo em ônibus". Caramba, eu estava lá, só que do outro lado do bairro. Por que o cara não pegou o telefone me ligou e alertou? Porque na cabeça dele, meteu no tal do whatsapp é missão cumprida e o resto que se explôda (sei que não tem circunflexo no O). Nem imaginou que o meu whatsapp estava desligado.


A falta de consideração é hoje um elemento imperativo e generalizado. Sub-produto do egoismo atroz, da egolatria patológica, faz de muitas pessoas ilhas, cercadas de tecnologia de comunicação por todos os lados, mas afogada em apatia egocentrada. Se você não toma a iniciativa tudo some e tudo bem. Tudo bem?  Tudo bem é o cacete! Aí você nota que ninguém comenta nada em lugar nenhum: site, bog, rádios on line. Estão conectados? Estão. Não comentam por que? Não sei.


Uso uma plataforma de e-mails para informar sobre atualizações de minhas colunas, programa de rádio, etc. A plataforma vai informando quantos por cento abriram o e-mail, quem abriu, quando abriu, os que recusaram para você se aprimorar. Em média, sabe quantos abrem? 12%. Só isso. Ponho lá a mensagem "caso não queira mais receber essa mensagem me avise que tirou seu e-mail da lista", mas nem isso fazem. Um colega que enviava 3 mil e- mails a cada 15 dias comunicando sua ações tinha o índice de 14% de mensagens abertas. E também no caso dele, ninguém respondeu que queria o nome fora. Ele decidiu não mandar mais nada.


A boa notícia é que estou atento a desconsideração dos tempos modernos. A má notícia é que não vou desistir.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Bonzinho é o cacete!

Nós, brasileiros, não somos e nunca fomos bonzinhos. Fatos cotidianos como gente que taca fogo em gente, assassinatos de crianças e idosos, as duas privadas atiradas do alto de um estádio de futebol em Recife (uma pessoa morreu) dois anos atrás, linchamentos mostram que embaixo do chamado tecido social do Brasil, cultuado como bonzinho, reside ódio, rancor, atrocidade.

Em seu “Diário de Viagem”, o filósofo Albert Camus conta que quando esteve no Rio em 1949, ciceroneado pelo grande Abdias Nascimento, pediu para conhecer um centro de Umbanda. Era agosto, um agosto mais para verão do que para inverno. Abdias providenciou um táxi e foram, ele e Camus, em direção da Baixada Fluminense onde ficava o centro. Só que, no caminho, nas imediações da Praça da Bandeira, um caminhão atropelou e matou um homem.

Antes da ambulância, da polícia e dos bombeiros, um Camus boquiaberto viu chegar um grupo de pessoas que levantava o rosto do atropelado só para ter o prazer de ver a cara do morto. Horrorizado ele conta ainda que em seguida, “surgidos do nada”, pedaços de jornal e velas. O corpo foi coberto, as velas acesas e as pessoas em volta. De vez em quando um ia lá e levantava o jornal para ver a cara do morto. Camus não entendeu nada e Abdias não soube explicar.

A espécie humana é perversa, uma falha que veio surfando em nosso DNA. A audiência cavalar de programas mundo cão, em todo o mundo, é uma prova disso, mas aqui no Brasil o processo é mais descarado. Simulando horror, as pessoas se amontoam em frente a TV para ver como foi feito o buraco onde uma madrasta enterrou uma criança no sul. Chegam mais perto da TV para verem as imagens da privada atingindo e matando um torcedor de futebol no nordeste e fingem que se envergonham ao saberem que uma inocente, acusada de sequestradora, foi linchada por engano no Guarujá.

Contemplam a sua cota diária de horror, tomam um cafezinho e seguem para o lar onde, ainda na TV, pegam o controle remoto e passam a noite catando sangue.

Nos anos 1970 a atriz Kate Lyra (norte-americana, na época casada com o compositor e cantor Carlos Lyra) tinha um quadro de humor na TV cujo dobrão, debochado, era “brasileiro é tão bonzinho...”. Bonzinho é o cacete!