segunda-feira, 6 de março de 2017

Amor

“O medo de amar é o medo de ser livre”. Gravada em 1978, a canção de Beto Guedes com letra de Fernando Brant reflete a mais pura e, para alguns, brutal realidade. Só resta saber se esse amor que a bela música descreve, o que dá medo, é consciente ou inconsciente. Em outras palavras, será que existe alguém que teme o amor, sabe disso e nada faz?

Certa vez disseram que “o amor é brega”. Claro que é, mas e daí? Como será viver sem amor, atravessar o deserto existencial sem um copo d´água, uma brisa? Como seria viver sem jamais ter sentido o amor? Falo do amor consequência da paixão entre duas (ou mais) pessoas.

Por isso gostei tanto do filme “On The Road”, que Walter Salles dirigiu mas cometeu o desatino de batizar de “Na Estrada”, em vez de usar o nome do livro de Jack Kerouac que, com sabedoria, transportou para o Cinema. É um ácido filme de amor sim, por que não? Desde que li “On The Road” em três momentos especiais de minha vida senti a presença do amor da primeira a última página.

Que tipo de amor? O amor caos, o amor clamado, implorado, quase ausente. Amor desespero, amor sublime, amor angústia, amor proibido, amor rastejante, amor anfetamina, amor álcool, amor, amor, amor. Nem sei se Kerouac soube que escreveu tão bem sobre o amor que Walter Salles filmou.

Um amigo define “Django Livre”, de Tarantino, como um filme de amor. Especialmente do alemão Dr. King Schultz pela negra Broomhilda, amada por Django. Um movimento afetivo sutil; o fato do alemão, pouco a pouco, ir se apaixonando por ela com base nas histórias que o ex-escravo vai contando.

O amor é um sentimento absolutamente necessário para todos os seres e mora aí meu grande questionamento em relação a igreja católica. Estudei em colégio católico. Homens de batida amargos, complexados, rancorosos, acabavam descarregando nos alunos todas as suas frustrações, o seu não viver, quase inexistência social. 

Daqueles religiosos, todos abandonaram a batina e passaram a amar, casar, ter filhos. Encontrei vários ao longo dos anos e no lugar da truculência seca da desidratação afetiva, vi homens mais tolerantes, generosos, bem humorados.

Concordo com Caetano quando, na magistral “Paula e Bebeto” que ele compôs, Milton Nascimento canta “qualquer maneira de amor vale à pena”. No início dos anos 70, auge da adolescência, uma namorada me disse algo parecido quando nos beijávamos e sussurrávamos segredos no alto de uma pedra na praça Ginda Bloch, em Teresópolis, ouvindo sem parar “That´s Way”, do Led Zeppelin. Que som. A letra não trata de amor especificamente, mas a música é amor em estado líquido. Como é o caso da fabulosa e acrilírica “Love Reign O´er Me”, The Who. Amor em letra e música. Tema infinito enquanto dura, o amor voltará a essa página.

Com certeza.