terça-feira, 7 de março de 2017

"Decepcionistas"

As recepcionistas de salas de espera são espécie em extinção. Nos anos 80 tentaram substituí-las pelas secretárias eletrônicas. Não deu certo. Hoje, segunda década do século 21, assistimos a proliferação das “decepcionistas”, que assombram muitas e muitas salas de espera pelo país.

Em geral, as “decepcionistas” são grossas, carrancudas e amargas, desde o instante em que ligamos para um profissional (de qualquer área) para marcar um encontro/reunião/consulta até o momento em que damos de cara com a medusa em questão. Um dia antes, de má vontade, ela telefona para confirmar o encontro e ai daquele que não confirmar. “Não poderei ir amanhã”, confessa a vítima. A resposta vem como um dardo: “só tenho (assim, na primeira pessoa) daqui a dois meses.”

Além da grosseria, outro ponto em comum entre ela é o frio. Nós, que em geral pagamos o encontro/reunião/consulta com o (a) chefe da “decepcionista”, saímos de um sol de 50 graus somos obrigado a encarar uma sala de espera quase quenter porque a “decepcionista” sente muito frio. Tempos atrás pedi “a senhora pode aumentar o ar condicionado?”. O bugre atacou “não, aqui está muito frio. O senhor vem da rua, mas sou eu aqui fico aqui o dia inteiro”. Para não perder a cabeça e, principalmente, a consulta, fiquei quieto.

Quando você liga em março querendo agendar uma consulta, por exemplo, a “decepcionista” atende com aquela voz de tédio e azedume e pergunta, secamente, “é plano?”. Você diz que é (plano de saúde para elas é crime) e ela não esconde o êxtase ao informar “para plano, consulta só em julho”. Atônito, você rebate “mas ainda estamos em março” e ela encerra: “e daí?”, tipo “quem manda aqui sou eu, meu chapa” e, na verdade, é parece que é a pura verdade. Quem manda naquele terreiro é mesmo a “decepcionista”, que acha que plano de saúde é de graça.

Os casos são muitos. O sujeito chega a uma consulta marcada para as 14 horas e a sala de espera está mais cheia do que van Copacabana-Central do Brasil, as 6 da tarde. Um enigma. É a “decepcionista” que enche a sala de propósito ou é a chefia que manda? O sujeito espera uma hora e é atendido. O chefe da “decepcionista” manda ele marcar uma outra consulta na saída, ele marca para o dia tal, do mês tal, as 16 horas. Chega as 16h30m, sala de espera lotada, o cara das 15h30m sequer foi atendido e a “decepcionista”, com TPM mental, coça a virilha e dispara: “o senhor está atrasado, vai ter que marcar nova consulta”. A vítima tenta argumentar “mas a pessoa que está antes de mim nem foi chamada...” e a ema do apocalipse despeja “não interessa, está atrasado, tem que marcar outra consulta”.

Não esqueço, ano passado, numa sala de espera (a maioria é feia, iluminada com luz de lavandaria, cadeiras mais duras que pau de enchente, o que agrava a situação), um sujeito de terno que não aguentou a patada de uma “decepcionista” dessas. Ele disse “a senhora sabe o que é Google? Se não sabe, saiba que o Google já inventou carro que anda sozinho, enfermeiro robô, bancário de alumínio e vai chegar o dia que em seu lugar vai estar sentado um androide educado, minha filha”. Levantou e saiu. Sorte, porque ter a coragem de chamar uma “decepcionista” de minha filha é beijar boca de cobra.

Senti vontade de aplaudir, mas e a vingança da bastarda? Não quis arriscar.