segunda-feira, 27 de março de 2017

Março

As trovoadas ainda existem e causam alívio enquanto leio os jornais que derramam baldes e mais baldes de desesperança. Com razão porque o momento é mesmo de desesperança já que aqueles senhores larápios afundaram o Brasil.

Em vez de alimentar o assunto, hoje preferi ouvir Neil Young no Spotify, que tem uma excelente qualidade de som. Não sei se chega ao nível do CD. Para mim, CD é a melhor mídia já inventada. Prático, não tem a famigerada agulha do vinil e seu irritante plec plec plec, não trava, não exige que eu levante para mudar de lado, dispensa lavagens, etc. No CD o som sai puro e me satisfaz plenamente.

Tanto que em mil novecentos e noventa e tal doei meus vinis (não eram poucos) para uma instituição de caridade. Amigos, colegas e conhecidos que cultuam o vinil ficam horrorizados quando conto essa história, mas fazer o que se o que resta nesse país (pelo menos por enquanto) é a liberdade de escolha?

Assisti Neil Young no Rock in Rio, show bombástico, ele empunhava sua lendária guitarra Gibson Les Paul preta, chamada “Old Black” safra de 1953, que não larga por nada. Show pesado, alto volume, distorcido, catártico, como eu estava naquele dia. Viajei horas até chegar ao Rock in Rio e consegui um lugar bem próximo ao palco porque esse negócio de ficar assistindo telão, na boa, prefiro em casa.

Lembro da expressão da plateia que não conhecia Young, muita gente mais nova, atônita, aplaudia boquiaberta a performance sempre comocional do músico, que lá pelas tantas, inesperadamente, começou a esfregar a guitarra contra o cabeçote de um dos amplificadores gerando sons difusos, alguma microfonia, caóticos.

Neil Young toca no computador enquanto lembro de uma manhã de 1981 ou 1982. O então presidente da Warner, André Midani, ligou convidando para uma sessão exclusiva do filme “Rust Never Sleeps”, um show completo de Neil Young extremamente bem feito. Foi numa cabine na Cinelândia, Rio.

O filme, apesar de sensacional, não foi exibido no Brasil por uma razão óbvia: na época, ninguém sabia quem era Neil Young. E a pergunta que me cai agora, bem mais forte do que a chuva é “será que hoje sabem de quem se trata?”. Pelo menos hoje existe Google, Yahoo, Bing.

Termino a audição e vejo o jornal em cima do sofá, exibindo mais lambanças da gangue do cerrado. Melhor jogar fora e sair para ver se b vem chuva porque circula um boato garantindo que a chuva ainda não foi roubada.