domingo, 30 de abril de 2017

Belchior – 26/10/1946 – 30/04/2017

                                                        
As palavras sumiram, mas vou tentar escrever.

Belchior foi o compositor brasileiro que mais ouvi nos anos 1970, quando já não havia galos, noites e quintais como ele bem anunciara. Assisti a vários show, fiz pelo menos cinco entrevistas importantes com esse cearense que chegou ao centro do palco brasileiro ao lado de Fagner, Ednardo e outros.

Há alguns anos optou pelo sumiço. Radical. Desapareceu até ser localizado por um programa de TV que, covarde, o chamou de ladrão em rede nacional. Belchior teve que sair do auto exílio (um direito de todos nós) para defender a sua honra. Voltou a submergir por razões que só ele sabia (e daí?). No palco que ele ajudou a brilhar, subiram as piranhas, sertanejos, funkeiros e barangas como Karol com K, Anitta, Ludmila, Wesley Safadão e outros parasitas do famigerado show business, vulgo mar de merda.

Com tantos escrotos na planície, o raio foi levar belchior. Morto por causa do rimpimento da artéria aorta. Viveu apoiado apenas pelos fãs que viram nele um artista que soube transformar em diamantes musicais as nossas angústias e dores cotidianas.

Difícil acreditar, mas Belchior morreu. Ele mesmo, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Provavelmente será “homenageado” pelo mesmo bando de abutres que o chamou de ladrão e o atirou no limbo. Hipocrisia, mau caratismo, cinismo dão audiência, especialmente num domingo quando os escrotos e larápios nacionais que assaltaram os cofres do país começam a fazer as malas para se mandar. O STF vai soltar todo mundo, mas o raio caiu sobre Belchior.

Hoje, mais do que nunca, não haverá galos, noites e nem quintais.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Brasil, não tenho mais tempo

Brasil, não tenho mais tempo. O meu tempo passa cada vez mais veloz entre os ponteiros de segundos. Meus impostos, taxas, tarifas, contribuições, óbulos, encargos, ônus estão rigorosamente em dia, bem como todas (TODAS) as minhas obrigações morais e cívicas para contigo.

Mame à vontade, Brasil. O sangue é teu.

Brasil, o meu tempo voa e não pode se dar ao luxo de contemplar o seu, lento, re
dundante, atolado, preguiçoso, corrupto, venal. Meu tempo é para o trabalho, para a minha saúde, para o amor, já que não tive tempo de pular fora antes. Se fosse antes, estaria longe, em outro lugar, sorvendo outros tempos. Mas você não me deu tempo, Brasil. Tive que ficar.
Brasil, nas ruas há sempre carnavais, micaretas, grevistas vagabundos sustentados por nós. Hoje haverá mais, no interior e nas capitais, mas não irei ver porque não quero. Não quero e não tenho tempo. Tenho muito trabalho a fazer, apesar de você, tenho muita história para contar, apesar de você, tenho muito mar para abraçar e beijar, apesar de você.

Brasil, divirta-se, mas não me convide. Você tentou, mas não roubou o meu tempo. Pelo menos ele, não. E não me chame para apartar briga de ratos. Não me presto a isso.


Enquanto houver tempo, não.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Aureliano

Pacato cidadão, exímio pagador de impostos, funcionário público federal concursado com 30 anos de repartição, eleito funcionário do mês 87 vezes, quatro filhos homens com curso superior completo, morador de Copacabana, Aureliano levava a vida como ela é.

Leitor voraz de Nelson Rodrigues, Rubem Braga e Monteiro Lobato, dizia ao espelho que não, mas se identificava, sim, com alguns personagens de Rubem Fonseca, em especial O Cobrador. Aureliano falava pouco, mas ajudava muito. Ajudou o porteiro do prédio onde morava a casar, ajudou a pagar o tratamento dentário do dono de um bar, onde diariamente, pontualmente as 7 da manhã, tomava uma garrafa Caracu com ovo cru. Em seguida, corria nove quilômetros pela orla.

No metrô, seu único “desvio moral”: lia Cassandra Rios, François Rabelais, Charles Bukowski, e outros, escondendo as capas. Quando o metrô chegava ao Centro, ele guardava os livros em sua pasta lacrada. No trabalho, todos gostavam de Aureliano, apesar de nunca terem presenciado um sorriso seu. Seu ar era sério, mas sereno, e quando surgia algum documento que exigia seus dados pessoais, ele descrevia seu estado civil como hediondo.

Ao longo do tempo ajudara ($) o ascensorista, o chefe de serviços gerais, duas telefonistas e até um superior seu. A todo instante era abordado por colegas mais novos que queriam tirar dúvidas. Aureliano parava o que estava fazendo para ajudar, pacientemente.

Não tinha telefone em casa e era o único na repartição sem celular. Na repartição, no prédio e provavelmente no quarteirão. Várias vezes indagado por que não tinha celular, ele respondia “assunto meu”. Em compensação, em sua mesa de trabalho o telefone não parava de tocar.

Filho 1 – Pai, que horas você vai depositar aquele dinheiro na minha conta? O plano de saúde de Berenice (esposa) vence hoje.

Filho 2 – Pai, vou viajar com Clarinha amanhã. Não esquece de deixar o dinheiro da gasolina e da nossa estadia no meu escaninho.

Filho 3 – Pai, realmente decidi que é melhor trocar de carro. Um zero KM sai bem mais em conta do que um usado. O cara da agência só está me esperando pagar o sinal para fechar o negócio. Dá para fazer aquele empréstimo consignado aí pela repartição?

Filho 4 – Pai, não esquece de pagar meu aluguel. A conta do supermercado está com o porteiro aí da repartição. Aumentou porque semana que vem é aniversário da minha sogra e vamos fazer uns queijos e vinhos na casa dela.

Todos os dias, sem falta, os filhos ligavam com as suas demandas. Ligavam porque Aureliano não permitia que fossem a sua casa. Como também não ia a casa deles, não se viam há muitos anos. Aureliano não reclamava porque achava que “quem pariu Mateus que o embale”. 

Apesar de formados, os quatro não trabalhavam. Oficialmente, Aureliano atribuía a falta de emprego da prole a crise econômica, falta de sorte, etc. Mas no íntimo, na hora em que bebia sua Caracu com ovo cru ou corria na orla pensava, cheio de culpa “parasitas, filhos da puta. Petistas escrotos. Sanguessugas, sevandijas, zânganos...só matando”. Pensava e se arrependia, pensava e se arrependia, pensava e se arrependia. E ia mais além: “filhos daquela porra, esperar o que?”. Mas ninguém sabia quem era “aquela porra”. Ninguém.

Apesar de ter dado “de presente” os apartamentos aos quatro filhos, Aureliano não tinha imóvel algum. Preferia morar de aluguel baseado em pensamentos terríveis. “Vai que um dia eles entram na justiça, vendem meu imóvel para comprar quatro motocicletas e me botam para morar na rua”.

Mas aquele 11 de setembro foi diferente. Como sempre Aureliano saiu de casa para tomar sua Caracu com ovo cru. O faxineiro pediu alguns reais para... o porteiro pediu dinheiro para...uma carta da receita federal mandava ele comparecer para... a caminho do trabalho um morador de rua espetou uma faca no seu pescoço exigindo...no metrô um arrastão levou sua pasta com tudo, inclusive os livros...no trabalho os quatro filhos, pelo telefone, pediam antecipação do 13º. (eles recebiam 13º. do pai)...Aureliano desceu para almoçar na Pensão Pinguim, como fazia há décadas, e teve a visão monumental. Nos aparelhos de TV das vitrines das lojas, imagens mostravam jatos de passageiros derrubando as Torres Gêmeas, em Nova Iorque.

Trinta dias se passaram. Filhos 1, 2, 3 e 4, desesperados, insistiam para que a polícia desse notícias do pai. O dinheiro estava acabando e pelo visto teriam que cometer o absurdo de ter que trabalhar. Na portaria do prédio de Aureliano, as contas dos filhos se amontoavam. O porteiro, aflito, perguntava por ele aqui e ali porque queria comprar um forno de micro-ondas. O jornaleiro não sabia o que fazer com três edições de segunda mão de Cassandra Rios que acabara de chegar. Aquele miolo de Copacabana só falava no sumiço de Aureliano, o “bom homem”, o “bom samaritano”, o “amigo de fé, irmão camarada”.

Na repartição, o baque. Cadê Aureliano? O serviço estava atrasado, os novatos perdidos, a chefia sem ter a quem pedir dinheiro, o bando do sindicato não sabia de quem cobrar o jabá, o diretor apelou para Brasília mas ninguém sabia de nada. Não estava em hospitais, nem no IML, nem nos lixões da cidade e muito menos no Paraguai, disneylandia de degredados em geral.

Um ano, dois anos, três anos, quatro anos. Cadê Aureliano?

Cadê?





terça-feira, 25 de abril de 2017

A esquerda que conheci

Minha adolescência mesclou terror e êxtase e apesar de ter começado a escrever em jornais aos 15 anos, política era um tema distante, proibido. A ditadura estava no auge (anos 70) e ninguém explicava o que estava acontecendo para nos resgatar do estranho planeta da alienação ideológica.

Os professores de História do Brasil paravam em Getúlio Vargas, como se o Brasil tivesse sido parido em 1500 e abduzido em 1954. Havia curiosidade com relação a aquele mormaço provocado pelo silêncio imposto pela ditadura. Ainda assim, não consegui me informar mais, apesar de saber o que significava a pichação “fora comunas” em alguns muros da cidade.

Quando comecei a trabalhar na grande mídia aos 16 anos, mantive os primeiros contatos com pessoas ligadas à esquerda. A carnifica no país seguia seu curso macabro e, por isso, minha cautela era máxima, apesar de nunca ter exercido militância. Qualquer uma. No entanto, me encantei com o ideário da esquerda, principalmente a chamada esquerda radical, que pegou em armas, assaltou bancos.

O ideário esquerdista dizia que “os fins justificam os meios”, e, sinceramente, quando comecei a escrever no Pasquim e Opinião (dois jornais ultra esquerdistas) onde defendia não explicitamente a necessidade de uma revolução popular para instaurar a ditadura do proletariado. Sim, assim como todos os movimentos de esquerda, em especial os radicais, a palavra democracia não era citada. O modelo era, basicamente, o cubano, com fartas doses de maoismo, stalinismo, trotskismo. Gente de direita era tratada como déspota.

Acreditei que assaltos a bancos eram necessárias “expropriações revolucionárias”, que os sequestros eram uma forma de “capitalizar e socializar o movimento”. Contraditoriamente, apreciava o radicalismo de esquerda e a proposta hippie em sua receita de paz e amor, tratada como alienante. Pela esquerda.

Com o avanço do tempo, além de defender a ditadura do proletariado acreditei que só Estado poderia resolver as mazelas do mundo. Defendi em artigos, discussões, bate bocas, a estatização de tudo. Bancos, supermercados, empresas de ônibus, escolas, clínicas, hospitais. O Estado estatizante seria soberano e o ideário esquerdista era claro ao afirmar que aqueles que roubassem dinheiro público seriam devidamente “justiçados”, ou seja, eliminados.

Com o passar do tempo, a esquerda foi se deformando. Coincidentemente (?) tornei-me democrata ferrenho e não engoli quando o ideário purista e limpo começou a dar lugar ao “pragmatismo” inventado pelos oportunistas e larápios em geral. Comecei a romper com o esquerdismo quando o novo (?) trabalhismo surgiu à bordo do recriado PTB e do PT. O primeiro nascia fisiológico e até a medula, apesar de alguns bons quadros filiados a ele e o PT, quase imediatamente após a sua criação, foi tomado por parasitas do movimento sindical. O MDB se esfacelou. Tancredo Neves, hoje santinho de cabeceira dos novos esquerdistas, criou em 1980 o famigerado Partido Popular (com anuência do general Figueiredo), um ajuntamento de escroques do naipe de Chagas Freitas, ex-governador do Rio.

Veio a redemocratização, com Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. Alguns grandes nomes da esquerda que conheci foram presos por corrupção. Sorte minha que larguei o balaio lá por 1978 quando o jornalismo me levou a ter contato com as mais variadas matizes da escrotidão política. Corria o risco de: 1 – padecer de tanta decepção e desilusão; 2 – tentar explicar a corrupção, ato inexplicável por si só.

Democrata, hoje não sou esquerda, muito menos direita. Leio, vejo, constato gente imbecil e pobre de espírito chamando os outros de “alienados” em nomes de devaneios oportunistas e espúrios que justificam o assalto ao Estado como necessidade.

Meu dilema. A esquerda que conheci já era uma caixa de gordura totalitária e ladra nos anos 70, disfarçada de reino moralista, ou a falência ética veio depois?


segunda-feira, 24 de abril de 2017

O castigo de Sísifo

Não tenho vocação para Sísifo e seu castigo, apesar de já ter dito por aí que o trabalho é a minha razão de viver. Sem exagero. Filei essa afirmação do lendário jornalista Samuel Wainer, pai de meu saudoso amigo Samuca, cuja autobiografia se chama “Minha Razão de Viver” e continua a venda nas boas livrarias. Estou pegando fôlego, alugando coragem para reler “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus que foi um herói de minha pós-adolescência, se é que isso existe. Mas coragem não é uma casaca que você entra numa loja e aluga para usar num batizado, casamento, funeral. Coragem anda por aí.

Estou assistindo na Netflix a série “Breaking Bad” (não recomendável para quem procura kkkkkkk) e a partir do quinto episódio comecei a dar razão ao professor Walter White e a sua opção pelo lado B. Meu lado B (quem não tem?) já me convidou para assaltos a bancos estatais e outras barbáries.

Neste exato momento passo por um abissal conflito. Além de apoiar o professor Walter White, meu lado B começa a me convencer de que não há mais nada a perder e que meu erro foi ter revelado outros impulsos deste mesmo lado B lá pelos anos 1980, 1990. De fato não há mais nada a perder e, como o castigo de Sísifo, a afirmação vai e volta, vai e volta.

Levemente transtornado, saí de manhã para ajustar os óculos, que estavam escorregando pelo nariz. Fui na rua Gavião Peixoto, em Icaraí, onde em frente ao número 113 (funcionava uma loja da Ortobom), perto da Pereira da Silva, numa calçada muito estreita um “morador de rua” (definição dos politicamente corretos) e seus quatro cachorros raivosos e imundos decidiram se fixar, obrigando os pedestres a andarem pela rua. No auge de uma crise, pensando no castigo de Sísifo, provavelmente de cabeça baixa, não reparei que já estava chegando bem perto do homem e seus cães. Já ia desviar e andar pela rua quando o sujeito vociferou “vai pela rua!”. Não prestou.

Em questão de segundos reações subiram a mente como larva vulcânica: “vou chutar os cornos desse sujeito”; “que porra é essa de me mandar andar na rua?”; “pago IPTU e Guarda Municipal não existe”; “transformar cachorro em mendigo é sacanagem, vou soltar todos”. E por aí foi até uma senhora se aproximar do sujeito com um embrulho de comida e farta quantidade de ração para os cães. Ou seja, a culpa não é do cara mas dessa hipocrisia pequeno burguesa, etc etc etc.

Fui em frente lembrando que no horário da manhã meu humor fica imprestável. Antes do meio dia, vejo uma cena dessas como “um malandro se aproveitando de cachorros para achacar a multidão”. Já por volta das 2 ou 3 horas da tarde, pode ser que eu veja a mesma cena como “cachorros sendo cuidados por um morador de rua, vítima dessa sociedade desumana e ególatra”.

Enquanto isso, em “Breaking Bad”….


domingo, 23 de abril de 2017

Hóspede

Quase no final da estreita estrada, a subida contornada de cerca viva. Piso de pedras. No final da subida um pátio, não muito grande, com antigas, muito antigas, marcas de pneus. Bem em frente, uma confortável suíte para o hóspede, em madeira e telha colonial.

Depois da suíte, uma escadaria rústica bem à frente. Canil, horta, um pequeno curral, pinheiros muito altos sentindo a canção do vento. A escadaria terminava próximo ao pico do morro.

Na descida, mais árvores, o vento, o curral, a horta, o canil, o pátio, o som do silêncio. A esquerda, a casa. Grande, gentil, hospitaleira. A porta, a copa, a cozinha. Vazias. Nas paredes manchas de armários que há tempos eram abertos e fechados frenética e alegremente. Depois da cozinha um pequeno banheiro e a sala de estar. Vazios.

Ecos do leve falatório. Colada a sala de estar o salão de jantar. Também vazio. Ecos. Vozes, risos, planos, angústias, camaradagem, afeto.

Janelões. Vista da mata, cheiro de eucalipto, de chuva em terra molhada, alguma neblina, estrelas radiantes, luar.

Andar de cima. Mais quartos. Vazios. O sossego parecia o canto da cigarra no fim de tarde. Brisa fria, fome, sono, sonhos.


Descendo os degraus, as duas salas desertas, a copa, a cozinha, o pátio, as antigas marcas de pneus. A subida se fazia descida, contornada de cerca viva, que levava ao quase final da estreita estrada.

sábado, 22 de abril de 2017

"Descomunicação"

Jamais a civilização teve tantos meios de comunicação disponíveis. Até “ontem” (1990) quem quisesse enviar uma mensagem confidencial escrita tinha que pegar papel, caneta, escrever, por no envelope, ir até a agência do correio, postar e esperar dias até que o destinatário recebesse. Uma carta do Rio para a Europa demorava 10 dias para chegar. Em 1990 já havia fax, mas todo mundo podia ler o que estava escrito. Havia também o pager que, em sua época, foi importante. Em 1983, nos Estados Unidos, quem pagasse 20 mil dólares conseguia um telefone celular.

Hoje reina a fartura tecnológica. No mundo há bilhões de linhas de celular, outros bilhões de usuários da internet. Os preços desabaram, o acesso continua cada vez mais fácil e a quantidade de aplicativos e programas impressiona. E-mail, SMS, Whatsapp, Facebook com voz, etc. etc. etc. muitos de graça.

Ótimo. E a contrapartida? Se a civilização nunca viu tanta fatura tecnológica em prol da sua comunicação, por outro lado a falta de consideração/educação parece imperar. Muita gente não responde e-mails, nem whatsapp, muito menos celular. Tenho um amigo que mandou uma mensagem profissional por e-mail e SMS para um sujeito (mensagem de interesse do sujeito, diga-se de passagem) há 20 dias e até agora está sem resposta.

Se no âmbito profissional a coisa está a bangu, no pessoal não fica muito longe. Mensagens do tipo “quando chegar em casa me avisa, estou preocupado” podem ser respondidas no dia seguinte ou simplesmente ser ignoradas. A falta de consideração está comprovada até pela própria tecnologia. Uso um programa de envio de e-mails que depois da remessa diz quem abriu, quando, quem leu, quem abriu e não leu, etc. Não recomento para quem sobre de rejeição crônica. 

Eventualmente envio e-mails para um grupo informando sobre a atualização de meu podcast Uivo e sabem qual o percentual máximo de pessoas que abrem? Catorze por cento! Um dado que me deixaria bolado não fossem alguns colegas que usam o mesmo programa e dizem que o percentual é o mesmo.

O que não consigo entender é porque gente que não se comunica se envolve com programas de comunicação, que, lógico, não são obrigatórios. Tem quem quer. É mera falta desconsideração/educação? Ou é mera boçalidade mesmo?



quinta-feira, 20 de abril de 2017

A onda que se ergueu no mar – dedicado a querida amiga Gilda Mattoso

"No dia em se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céu azul, mar limpo e seis meses de verão". (Ruy Castro).

Em tempos de cólera faz bem a alma ler "A onda que se ergueu no mar", um livro antigo do Ruy Castro (é de 2001), um verdadeiro poema para o Rio de Janeiro que amo, mas que não conheci pela mais inquestionável das razões: não era nascido.


A personagem principal dessa obra é a bossa nova, movimentação cultural que surgiu numa fase do Brasil encravada entre o suplício representado pela era varguista, a boçalidade janista, o baixo astral apático do janguismo e o golpe de 1964. Coisa linda era o Rio nos anos 1950, início de 60. Coisa maravilhosa era a bossa nova, capaz de ver mais beleza onde de fato já havia beleza, a contemplação dos olhos verdes da morena e seu biquíni "ousado" em 1960, que hoje daria para fazer um paraquedas. 


A bossa nova acabou porque seu muso era o Rio. E o Rio cidade maravilhosa, sol, céu, sul, faliu no final dos anos 70. Virou um amontoado disforme, portador de anemia cultural grave. A bossa nova acabou porque seu muso, aquele Rio de Janeiro, não mais existe. A ponto de eleger prefeito um bispo da igreja universal!!!! O que estaria sentindo o genial e saudosíssimo (como faz falta ao mundo!) Vinícius de Moraes e o amigo Tom Jobim?

Não li esse livro na época
que saiu, apesar de ter ido ao lançamento só para dar um abraço no Ruy Castro. Ele me olhou fixo, não me reconheceu no ato, mas depois lembrou de um repórter da lendária da Rádio JB em 1974, magro pra cacete, cabelos encaracolados na altura dos ombros, roqueiro, que uma vez acendeu um cigarro dele. Esse repórter era eu. Ruy era repórter do Jornal do Brasil e, ele não sabia, era um dos meus ídolos porque tinha acesso aos bossanovistas, apesar de detestar rock, até hoje. Ruy detestava rock mas me respeitava ao perceber que amo também bossa nova e seus personagens, principalmente Vinícius de Moraes, que entrevistem ao longo de duas horas por volta de 1977. Foi uma aula de vida, generosidade, cumplicidade, inteligência, nacionalismo e carioquice. Sua morte precoce me deixou devastado. Muito mais do que quando Elvis partiu. Não li "A onda que se ergueu..." aquela época porque optei por sorvê-lo bem devagar um dia. E esse dia chegou.

Minha relação com o Rio daqueles tempos é tão comocional que na noite
numa noite, lendo o livro, uma lágrima escorreu de meu olho esquerdo. Emoção vadia. Bateu saudade de meu tio Evaldo, irmão de minha mãe, que também era enfronhado entre os bossanovistas e mais tarde tropicalistas. Tio Evaldo era pura vanguarda, pura arte, puro bom gosto e quando ia lá em casa eu o enchia de perguntas. Sim, foi ele quem me "aplicou" de bossa nova.

Quando conheci meu padrinho de estúdio*, Roberto Menescal, em 1984, chutei os protocolos e pedi: 1 - um autógrafo; 2 - que um dia fôssemos ao Veloso (bar) e, lá, tirássemos uma foto abraçados. Queria ter comigo a lembrança
 de um dos pais da bossa no bar-berço da bossa nova. Um dia fomos, hora do almoço, o garçom tirou a foto na mesa onde Vinícius, Tom e Menescal costumavam sentar. A foto ficou linda, linda, mas na famigerada mudança (lambança) de endereço que fiz ela se perdeu. Mas, não quero embaçar o astral, falar da bela foto perdida e da mudança que não quis fazer. Há muito o que falar do Menescal. Muito. E escreverei um dia desses.

Sobre "A onda que ergueu no mar", aqui vai um texto da editora Companhia das Letras:


"As andanças de Tom Jobim pelo mundo; o longo verão de Brigitte Bardot em Búzios; a  trágica história de Orlando Silva; as vidas paralelas de Dick Farney e Lucio Alves; céus e mares de Johnny Alf e João Donato; samba e swing no Beco das Garrafas; com Nara Leão em Copacabana; ao redor do pijama de João Gilberto - em A onda que se ergueu no mar, 

Ruy Castro conta novas histórias da música que voltou para conquistar uma nova geração. 
Hoje ela talvez seja mais ouvida do que em 1961, em salas de concerto, teatros, boates, 
bares, clubes, escolas, estádios, sem esquecer os elevadores e as salas de espera, os comerciais e as trilhas de filmes e novelas. Em discos também: nunca se ouviu tanta Bossa Nova em São Paulo, Nova York, Paris, Sydney, Tóquio. E quem se dispuser a entrar em todos os sites brasileiros e internacionais dedicados à Bossa Nova, arrisca-se a morrer de velhice antes de sequer arranhar a superfície.

Com Chega de saudade, de 1990, Ruy Castro foi um dos responsáveis por essa volta. Mas ali a história se encerrava por volta de 1970, quando a Bossa Nova foi dada como morta. 

Ruy mergulhou de novo no assunto - mas agora para falar da volta de uma música que, como as ondas, só esperava o momento de dar de novo à praia."


* Padrinho de estúdio é a pessoa que apresenta um estúdio de gravação a um produtor de primeira viagem. Quando dirigiu a gravadora Polygram (hoje Universal), Menescal contratou Celso Blues Boy por meu intermédio, mas colocou uma condição: que eu produzisse o disco. Eu disse que nunca tinha produzido um disco e Menescal (otimista visceral) mandou "ora, você tira de letra, nasceu em rádio". Topei. Ele me levou ao monumental estúdio Um da Polygram (24 canais em 1984), olhou para o engenheiro, técnicos e disse "esse é o Luiz Antonio Mello que vai produzir o Celso Blues Boy". E foi embora! Segurando as gargalhadas. Querem saber? Ele fez bem. Aprendi produção fonográfica fazendo e me orgulho muito de "Som na Guitarra", álbum de estreia do Blues Boy.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Cachorro em apartamento

Andando pelas ruas vejo dezenas de pessoas com cachorros na coleira, algumas levando nas mãos um saquinho plástico para por as fezes. Noto que a maioria dos cães é obesa por motivos óbvios. Vivem trancados em apartamento, vida sedentária, e por mais que seus donos os ame não conseguem dar ao cão a necessária, fundamental vida ao ar livre. Sofrem os cachorros (que também tem muitas doenças de pele por causa da falta de sol, de rolar na grama, etc), sofrem os donos.

Decidi
não ter mais cachorro em apartamento por causa do meu melhor amigo, um basset (razão social dachshund) quase idêntico a esse da foto, que morava comigo, há anos. Comprei o cão porque o sol da manhã entrava pela sala onde morávamos. Para melhorar, havia uma varanda onde, imaginei, Titã (esse era o nome dele) poderia curtir o calor (bassets sentem muito frio) do sol, o vento e um pedaço de céu.

Nunca havia imaginado que as três necessidades do melhor amigo do homem são: 1 - o dono; 2 - o dono; 3 - o dono. Não importa se não há sol, não há céu, não há chuva, não há comida. Titã só queria saber de mim, numa postura devocional comovente e quase inacreditável. Claro que eu o amava, muito, e fingia que não via, na calada da noite, ele saltar devagarinho para cima da cama e se aninhar no edredon, perto de meus pés.

Eu tinha um jipe com capota de lona, uma Toyota amarela e todos os sábados, domingos e feriados, lá íamos eu e Titã (em pé na porta do carona- lógico que com a coleira amarrada- olheiras voando ao vento) para
a praia de Itaipu. Soltava o Titã no estacionamento ele ia voando para a areia e me esperava no bar do Neno (razão social Sabino´s Bar). Quando se certificava que eu realmente ia ficar por ali, ele saia para ver os seus amigos, vira-latas da praia (tinha reforço de vacina por causa disso) e também namoradas com quem nunca conseguia cruzar por causa das penas curtas.

Itaipu toda conhecia Titã, e meus amigos adoravam ficar com ele. Titã pegou horror ao mar por culpa da espuma de uma onda que o pegou quando ele tinha quatro meses. Traumatizou. A noite (sempre a noite), voltávamos para casa e ele, cansado, ia deitado no chão do carro. Em casa, banho, comida e ele ia para
o sofá. Eu voltava para a rua, retornando lá pelas cinco da manhã.

O problema era de segunda a sexta. Eu tinha que trabalhar e por mais que a diarista levasse Titã à rua de manhã e a tarde, ele queria o dono. Por isso, quando eu saia (sempre com o coração na mão) não resistia ao seu olhar triste, orelhas e rabos caídos como se perguntasse "você vai me deixar aqui por que?".


Com o tempo achei que era extremo de egoismo manter o Titã naquele regime de solidão.
A diarista também ia embora e ele ficava em casa só. Tinha brinquedos, tinha varanda, mas não tinha o dono. E quando eu chegava a noite era uma festa, ela voava pela casa, parecia um passarinho saltando de um sofá para o outro e logo íamos para a rua. Ele também gostava da noite e num canto lá eu o soltava da coleira.

No dia seguinte, mais sofrimento: dele e meu. Foi quando racionalmente (caramba, como me custou) eu entreguei Titã a diarista, que morava numa casa com quintal, tinha netos pequenos, enfim, o terror da solidão não iria mais assolar o Titã. Mas e eu? E Itaipu? Orientado por especialistas, dei o Titã e não o procurei mais. Como ele já gostava muito da diarista podia fazer melhor a tal da "transferência" e parece que foi isso que aconteceu porque ele durou quase 15 anos, segundo ela, feliz.

Hoje, vendo os cachorros de apartamento encoleirados pelas ruas,  pergunto. É justo? 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Frente fria


Roubaram o frio?

Como incêndio em campos sem centeio, corre a lenda que amanhã uma frente fria vai chegar ao Estado do Rio. Ninguém sabe ao certo porque as chamadas “moças do tempo” dos noticiários de TV resolveram complicar tudo. Ao invés de dizerem “vai chover e a temperatura deverá chegar aos ...graus”, ficam de devaneios, para mim, inúteis. Não quero saber o que é zona de convergência. Quero saber por que as frentes frias sumiram do RJ há anos. Aliás, uma boa matéria para as “moças do tempo” correrem atrás.

A intuição e meus pesadelos vomitam e dizem que quando a Amazônia foi vendida no mercado negro e passou a ser desmatada impiedosamente, tudo mudou. Soma-se a isso o fim da mata atlântica e o surgimento de uma região metropolitana que pode ser resumida como um conjunto de favelas salpicado de raras ilhas de verde”. Quer prova? Dê um Google e veja imagens de satélites. Mais: quando viajar de avião, olhe o Rio de cima. É uma visão trash.

Os capos de ontem e hoje da Corruptolandia fizeram da Amazônia um bom negócio. Para eles. Corrompem até a alma indígena fornecendo computadores e celulares conectados a internet a tribos aculturadas pela lambança. Transformam floresta em pastos, campos. Destroem rios, lagos, animais. A Amazônia deveria ser guardada por tropas da ONU.

Frente fria. Como era comum no Rio. Frente fria da boa, com direito a bruma, chuva leve constante, frio, muito sereno, nessa época do ano acompanhada de ressacas que faziam o mar invadir. Víamos o que sobrou da natureza respirar, um alívio que nos contagiava.

E pelo visto, está tudo muito bom. Está tudo muito bem.




domingo, 16 de abril de 2017

Jornalismo molambo

Foi em 2009 que resolveram acabar com a obrigatoriedade do diploma de curso superior para quem quisesse virar jornalista. Isso significa que, a partir daí, qualquer um pode se travestir de profissional da comunicação e sair cometendo matérias por aí, muitos sob a alcunha de “blogueiro”. Apuração? Para que se existe o Google? Que é tratado por eles como fonte de verdades absolutas e não ferramenta de busca.

O que sei é que algumas empresas sérias ainda exigem o diploma, mas, por outro lado, outras querem que se dane. Qualquer um entra, escreve o que quer e que se exploda a humanidade. Concordância? Estilo? Gramática?. Adereços. Um colega, na mesa de um bar mês passado, afirmou que da falta do filtro (curso superior) nasceu o jornalismo molambo que é mal apurado, mal escrito, irresponsável, ignorante, boçal, etc. 

O esbaforido colega diz que “esse filtro não tem nada a ver com a qualidade dos cursos que, sabemos, são uma merda, mas pela dificuldade de entrar na faculdade por causa de vestibular, Enem, o escambau. Isso inibia muita gente que decidia não militar mais em comunicação. Agora, entra qualquer um. Não digo que virou bordel porque bordel exige qualificação das profissionais.” Claro, falta ainda um ingrediente precioso que transbordou até o ano 2000: coleguismo. Nas redações, ninguém dedurava ninguém (crime hediondo), o carreirismo era considerado obra nefasta e o arrivismo condenava a morte. Hoje, em algumas redações, vale a lei "melhor do que um chefe só o próximo" e as delações, rasteiras, camas de gato parecem rotina.

O jornalismo molambo está na maioria das mídias. Lemos, ouvimos, assistimos a alguma barbaridades como, por exemplo, o uso da expressão “segue em...”. Explico. Um cantor popular hospitalizado, segundo a molambada “segue internado”. Como assim? Pior: “o trânsito segue parado na avenida Atlântica”.

Banhado de saudade (confesso), leio uma biografia que retrata um tempo especial do jornalismo brasileiro. O livro “Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança: Uma Biografia de Zózimo Barrozo do Amaral “, escrito pelo grande colega Joaquim Ferreira dos Santos, uma viagem pela vida do colunista dos anos 60 aos 90, passando pelo entorno dele. Quando terminar a leitura publicarei aqui uma resenha.

Entre as características do jornalismo molambo, está também a mania de romancear as matérias. Exemplo. “Papa Francisco chega ao Rio”. Até recentemente havia a lei do lead e do sub lead. O jornalista abria a reportagem resumindo a história nas cinco primeiras linhas. Exemplo: “O Papa Francisco chegou ao Rio ontem as 10 da manhã. Do aeroporto pegou um helicóptero...”. O sub lead , com até 10 linhas, dava mais alguns detalhes a mais. Exemplo; “O Papa foi recebido por várias autoridades. O esquema de segurança...”. E depois dele, o corpo de matéria.

O jornalismo molambo acabou com o lead e com o sub lead. No lugar dele, em muitos casos, aparece a famigerada “romanceada”. Aproveitando o Papa, um exemplo: “A manhã estava linda no Rio. Temperatura seguia amena, trânsito seguiu tranquilo por causa do feriado decretado...”, e assim vai até a linha 20 quando, finalmente a matéria começa a falar do papa. Poucos leitores resistem e largam o jornal.

Essa romanceada era uma enrolação que Joaquim lembra em “Enquanto Houver Champanhe...” que os velhos jornalistas batizaram de “nariz de cera”. Ele conta:

O Diário Carioca era o melhor lugar para quem queria mexer com as teias de aranha do jornalismo. Chega de beletrismo! Chega de nariz de cera!, aquela ridícula abertura de texto que custava a entrar no assunto! Para se falar de um choque de automóveis na Rio Branco, antes se anunciava o crescimento vertiginoso da frota na cidade! Chega também de ponto de exclamação!! (...)”

Ou seja, hoje o jornalismo molambo utiliza recursos considerados velhos e decadentes no início dos anos 60. Fico imaginando se acabassem com a exigência do curso superior de medicina, ou de engenharia, o de f´sica nuclear, ou de...


terça-feira, 11 de abril de 2017

Machado e Camus

Há uma ponte, digo, uma pinguela muito vagabunda que liga o caos de Machado de Assis ao caos de Albert Camus. Relendo "Ressurreição" (de 1872) e "A Mão e a Luva" (de 1874) estou diante de um Machado domando as implosões afetivas de homens inseguros, loucos, inviáveis. Machado é um abissal conhecedor da alma masculina e é reconhecido mundialmente por isso, mas sua genialidade permite que ele transforme os dramas cotidianos do afeto em petecas. Albert Camus, argelino mal resolvido, francês não assumido, derrotista crônico, também se relaciona intimamente com o caos, mas ao contrário de Machado, ele prefere insuflar, abanar a chama, soprar, confundir. "O Mito de Sísifo" faz sentido na mitologia grega, mas como livro capota no confusionismo da penumbra existencialista que ele, Camus, açoitava muito bem. Homens e mulheres são tratados como rivais por Machado em vários momentos, sendo o mais clássico e explosivo "Dom Casmurro"e o suposto (e não suposto) triângulo condenado que mantém nos vértices Capitu, Bentinho e Escobar. Dizem que "Dom Casmurro" é o auge de Machado. Discordo. O bruxo do Cosme Velho* jamais em tempo algum escreveu algo não genial. Sua vida literária é uma infinita sucessão de auges. Albert Camus também (honra seja feita), em especial quando escreveu "O Estrangeiro" que lançou em 1942 e explodiu corações e mentes ocidentais. Até hoje.  Antes, pode nem ter percebido mas em "Núpcias, o Verão" (1939) , textos de juventude, expôs um erotismo delicioso e raro na sequidão intelectual desses teóricos existenciais, de onde arrancamos, pela raiz: “O sol e o vento falam apenas de solidão”;  “Não ser amado é apenas questão de pouca sorte; mas não ser capaz de amar é uma desgraça.”; “O sangue e os ódios descarnam o próprio coração; a longa reivindicação da justiça esgota o amor que, no entanto, foi o que lhe deu origem.” Há uma ponte, digo, uma pinguela muito vagabunda que liga o caos de Machado de Assis ao caos de Albert Camus. 

Bruxo do Cosme Velho é um epíteto consagrado a Machado de Assis. O termo ganhou força no meio literário quando Carlos Drummond de Andrade publicou o poema: "A um bruxo, com amor", no qual o poeta fez referência à casa (número 18) da rua Cosme Velho, situada no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, onde morou Machado de Assis. O poema toma a casa como ponto de partida, como um passaporte para a proximidade com Machado, e, a partir daí, faz um "passeio" pela obra do autor, do geral ao particular, sem, para tanto, manifestar uma loa ao homenageado, mas uma admiração profunda e respeitosa ao "bruxo".



segunda-feira, 10 de abril de 2017

Agências reguladoras, as madames do cerrado

O governo não tem lastro moral para nos propor sacrifício algum. O terror do “não haverá dinheiro para pagar aposentadorias” não abala porque sobra dinheiro para sustentar parasitas no congresso nacional (em minúsculas), nas dezenas de milhares de cargos comissionados (cabides) e em outros luxos que a Nova Roma de Commodus (aquele que enterrou o império romano) não abre mão. Acabar com ministérios, secretarias, institutos, fundações inúteis e seus custos estratosféricos nem pensar. Gera conflito com a famigerada “base aliada”, os inimigos pagos. Meter a mão na previdência é mais commodus, digo, cômodo.

Paridas nos anos 1990 na melhor das intenções (há quem diga que Al Capone era bem intencionado) se auto definem como aliadas do povo, como está no site do governo:

As agências reguladoras foram criadas para fiscalizar a prestação de serviços públicos praticados pela iniciativa privada. Além de controlar a qualidade na prestação do serviço, estabelecem regras para o setor.

É como se os ministérios, secretarias, fundações, institutos, empresas, bancos e tudo mais do governo não fossem suficientes. Tinham que criar mais tetas e bocas, turbinadas pela luxúria vil do petismo e afins nos últimos 12 anos. Por enquanto, são essas as madames do cerrado:

Anatel - Telecomunicações
Aneel – Energia Elétrica
Ancine – Cinema
Anac – Aviação Civil
Antaq – Transportes Aquaviários
Antt – Transportes Terrestres
ANP – Petróleo
Anisa – Vigilância Sanitária
ANS – Saúde Suplementar
ANA - Águas

Acabar com as agências e voltar ao que era antes (atribuição dos ministérios da área) mexe com poderosos do naipe de Ed Cunha que mesmo da cadeia manipula.


Melhor mexer na previdência.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Égua de Paquetá

Quando fui a ilha de Paquetá pela primeira vez, não passava de um bronheiro mirim de 12 anos, leitor voraz dos catecismos de Carlos Zéfiro e Cassandra Rios, nutrientes de meu modesto balaústre. Como muitos garotos de minha geração (que não é a tal geração de José Mayer) fui um perseguidor implacável de empregadas domésticas, roqueiro iniciante e muito curioso.

Aos 12 anos tive a primeira crise de angústia. Foi em Paquetá, mais precisamente junto ao muro da casa de José Bonifácio. Perdi o ar, senti vontade de vomitar, sensação de leve vertigem, morte iminente e a questão:”será que vou morrer agora?”. Vomitei loucamente.

Era excursão de colégio e um dos professores quase gritou “você está amarelo!”. Tentei disfarçar, tentei dissimular e, felizmente, o nó na garganta, uma brutal vontade de chorar, impediu que eu balbuciasse a mais remota das frases. Provavelmente iria falar besteira.

Depois de arfar muito, saí andando, fingindo que estava tudo bem, o professor perguntou “melhorou?” eu disse que sim e a excursão prosseguiu, mas fiquei para trás. Disse ao professor que precisava descansar, ficar sentado num caixote de “manzanas argentinas” embaixo de uma árvore. Ele concordou. “Fique aí, mas não saia para lugar nenhum. Voltamos logo”.

Muito calor, mormaço, foi quando vi uma égua pastando bem perto. Pangaré, coitado, escrava das charretes que agora foram abolidas. Pensei em montar, sair pela ilha como um Zorro bem resolvido, mas é lógico que não poderia. Ou poderia?

Josélia disse que sim. Josélia, uma garota de uns 17 anos, muito morena, magra, cabelos enrolados na altura dos ombros, descalça, vestido de chita desbotado, abaixo dos joelhos, dizia que era filha da dona da égua. Insinuante, perguntou “você quer?”.

Eu ainda estava mal, mas queria. Queria qualquer coisa que Josélia me desse. Qualquer coisa. Até chute na cara. Mas ela não queria me dar, queria alugar. Alugar a égua da mãe. Disse que a sela estava atrás do muro da casa de José Bonifácio, o freio também. Freio do cavalo, não o meu.

Assim que o pessoal se afastou, Josélia pulou o muro de volta. Muro da casa de José Bonifácio. Vi a sua calcinha, branca, provavelmente de algodão, mas foi só um flash. Montei na égua mas, desorientado pelos workshops de Zéfiro e Cassandra, me fiz de vítima, cara de coitado e pedi para ela ir comigo. E ela foi. Montou na minha garupa de onde chamou o pangaré pelo nome. Não lembro o nome.

A égua não marchava, só trotava. Delícia. Delícia sentir os peitinhos de Josélia nas minhas costas, recém-nascidos, rumo a alvorada de sei lá onde. Eu já não sabia quem era quem; quem era égua, quem era Josélia, quem era eu. Mas sabia que a turma (e os professores) voltariam logo. Foi tudo muito rápido.

Deixei a égua parar embaixo de uma amendoeira, me virei e agarrei Josélia. Ela não refugou. Um longo beijo acompanhado de mãozadas mal distribuídas, mas quase na altura do obscuro objeto do meu desejo, Josélia mandou tirar. A mão. Tirei, insisti, tirei, insisti, insisti, insisti, arfando Josélia pulou da égua, levantou o vestido perto da calçada, saltou uma cerca e, do outro lado, ficou nua e determinada comandou: “vem, meu jegue”.

Louco, voei da égua, pulei a cerca e ouvi os berros chamando meu nome. Era o professor. Josélia já tinha posto a mão, eu já tinha posto a mão, o mundo girava, mas eu teria que...refugar.

O professor me inquiria como um sargento alemão. Disse que eu estava com a aparência pior. Disse que eu precisava ir ao médico. Disse, disse, disse e a turma se fez em grupos.

Como um eunuco ermo, avistei a égua longe. Pastando junto a calçada. Josélia devia estar por ali, como sempre esteve.

Semanas depois, num sábado, disse que iria a Modern Sound, em Copacabana, comprar discos. Na estação mudei para a barca de Paquetá, onde o tempo não passava e eu latejava alucinado. Latejo que só Josélia dissipou. Uma. Duas. Seis vezes.

Noite alta, barca de volta, pernas tremendo, paixão vulcânica, até quando eu estaria escravizado por aquela mulher? Em casa, desculpas vãs, levemente imbecis, “isso não se faz, sumir sem avisar”, disseram. Concordei. E me auto exilei no quarto, auge da noite de sábado, lembrando de Josélia que me fez o mais Zéfiro dos Carlos por longos e longos sábados na ilha de Paquetá.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Armas

Melhor depôr as armas.

Telefonei e expliquei que o boleto não havia chegado. Mal humorada (segunda-feira é um péssimo dia para que não gosta do que faz), ela cortou. “Nós enviamos o boleto”. Corte. “Estou informando que não recebi e não que a senhora não enviou.”. Entendeu. “Enviaremos uma segunda via”.

O PM mandou encostar. “Documentos”. Na sequência.“Mostre o IPVA pago”. Saio do carro. O PM afirma que “o senhor estava em alta velocidade”. Não havia nenhum radar, mas optei por não questionar. “Sim, estava rápido sim”, disse. O PM explicou que “pode dar multa e tirar pontos da carteira”. Concordei. Perguntou “o senhor está com alguma urgência?”. Respondi, “Não senhor”. “Por que essa velocidade?”, ele quis saber. “Não sei”, respondi. “Pode ir embora, mas na próxima vez vou mandar rebocar”.

Chamei o garçom. O ar condicionado do restaurante está fraco. “Vou olhar”, ele disse. Voltou dizendo que estava normal. Agradeci, levantei e saí. Almocei em outro lugar.

O flanelinha me mandou dar a volta por trás do carro que ele estava achacando. O carro dava ré e poderia me atingir. Ignorei. O flanelinha gritou “ei!, porra!” O cara do carro o esculacha: “ele está certo. A preferência é do pedestre”. Saí, voltei e havia confusão. Polícia inclusive. O flanelinha teria chutado o cachorrinho de uma menina de 12 anos. Na pequena multidão ouvi alguém dizer “dá vontade de passar fogo nessa bandidagem”. Por desacato, o flanelinha levou cacetadas na bunda e foi levado para a delegacia.

O mico atravessava a praça no alto de uma árvore. Um homem me diz “tem que matar, isso transmite febre amarela”. Não respondi. Uma senhora ao lado rebateu: “não, meu senhor, os macacos não transmitem eles só contraem a doença”. Grosseiro, o homem disparou: “a senhora é médica?”. Não, eu leio jornal.

Na fila do posto de saúde o homem tenta falar com o médico: “doutor, doutor!”. Espere a sua vez, respondeu, azedo, o médico. O homem esperou alguns minutos e voltou a chamar. “Fique no lugar e não me atrapalhe”, respondeu, mal humorado, o médico. Chegou a vez do homem da fila. O médico pergunta, “o que o senhor queria falar?”. O homem pergunta “o senhor chegou naquele Honda prata mais cedo?”. O médico, “sim, e daí”? . É que estavam roubando o carro e eu tentei te avisar, mas agora é tarde. 

Melhor depôr as armas. As coisas se resolvem de qualquer maneira.