segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, ano 50

                                                                       A festa do lançamento
Há 50 anos nasceu o álbum que mudou a vida do mundo todo, menos a minha (?). Oitavo álbum dos Beatles, “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Bandfoi parido nos estúdios Abbey Road, em Londres, no dia 1 de junho de 1967. No estúdio ao lado, o Pink Floyd gravava seu álbum de estreia, “The Piper at the Gates of Dawn”.

Na nossa rua em Icaraí (bairro da extinta Niterói), estávamos todos na puberdade existencial, social, sexual e musical e quando o “Sgt. Pepper’s” saiu no Brasil, com aquele vinil vagabundo que parecia uma calcinha de seda (no mau sentido), capa nas coxas, caro pra cacete e tudo mais, percebemos (bando de crianças) que os Beatles tinham dado um cavalo de pau.

Quando “Sgt. Peppe’rs” pousou no meu toca discos, quase chorei de emoção. Mas chorar para mim sempre foi difícil. Hoje é impossível. A cada faixa as emoções me inundavam, senti saudade de um futuro que não sabia qual era e de uma cidade chamada Londres que não conhecia. Minha amada mãe percebeu que eu, que tinha a rua como primeira casa, agora vivia trancado no quarto ouvindo o que ela chamava de “música linda”.

Me ouvindo esculachar a edição brasileira do disco, ela fez uma surpresa. Acionou minha madrinha Alita (perdão, perdão, perdão por minha ausência nos seus últimos dias, minha madrinha) que morava em Copacabana, que foi a Modern Sound, comprou o “Pepper’s” importado e fez chegar a minha casa. Presente para meu irmão e para mim.

Quando eu e César (meu irmão, conhecido como Fernando Mello, já que se chama Fernando César) ouvimos pela primeira vez não acreditamos: 1 – que um disco pudesse ter um som tão bom; 2 – que o Brasil pudesse ser um país tão merda também no quesito qualidade industrial.

Comecei a tocar contrabaixo por causa de “Sgt. Pepper’s” (algum professor melhor do que o Macca?) sem saber que o resto do mundo estava fazendo a mesma coisa. Ia para o colégio pensando em “Getting Better”, Fixing a Hole”, “Sgt. Pepper’s, “Lovely Rita”, “Withing You Without You”. Chegava, almoçava, ouvia o disco e ia fazer o que tinha que fazer.

Foi mais ou menos nessa época, 1967, que de tanto ser chamado de “bom garoto, uma alma linda, amigo e solidário”, percebi que não passava de um babaca, tolo, otário, panaca, daqueles que pediam para ir ao zoológico só para ver passarinhos que foram meus amigos de infância: tiê-sangue, canário da terra, coleiro, saíra, todos em viveiros gigantes. 

Numa dessa visitas, com o colégio, levei o toca discos Belair só para ouvir “Sgt. Pepper’s” (o nacional, não o importado) contemplando os passarinhos. Uns alunos mais velhos, de outras turmas, de sacanagem chutaram meu toca discos, que não quebrou. Mas o vinil andou como uma roda e foi parar longe. Poderia ter chamado um inspetor do colégio, mas delação era falta de caráter e não babaquice.

Mais tarde, comprei fluido de isqueiro e incendiei as pastas escolares dos quatro, utilizando a velha “bomba relógio” na hora do recreio, enquanto eles batiam em crianças menores no pátio; uma guimba de cigarro acesa, espetada a ela um palito de fósforo colado a um pequeno frasco de fluido de isqueiro. Era só acender, sair e esperar 5 minutos e pou! E foi o que aconteceu. Eles perderam todos os livros, cadernos, anotações que estavam em suas pastas só porque chutaram o toca discos de um babaca no jardim zoológico. Dois perderam o ano e nunca ninguém soube quem foi o autor do justiçamento.

Meu tio Evaldo, irmão do meio de minha mãe, também se encantou com “Sgt. Pepper’s”, e um dia lá em casa disparou um míssil que até hoje frequenta meu inconsciente: “Sobrinho, você não tem nada a ver com o Brasil. Nada. Pense em ir viver no exterior. Sobrinho, você é a cara de Nova Iorque, Los Angeles, Londres. No futuro dê um jeito de fazer intercâmbios e fique por lá. Faça isso! Não digo só pela música, mas por sua personalidade, o seu perfil, entende?”. Eu disse que sim, mas não havia entendido nada.

Amigo dos tropicalistas, tio Evaldo sabia que a chaleira estava quente politicamente por aqui e que “Sgt. Pepper’s” havia influenciado diretamente o movimento, em especial Gilberto Gil, Jorge Mautner e Torquato Neto. Pode ser que tio Evaldo tenha me alertado, “cai fora para não ir em cana pensando e sentindo o que você pensa e sente”. Um ano depois, 13 de dezembro de 1968, o AI-5 atirou o Brasil nas trevas, vieram a tortura, o desaparecimento de pessoas, a mordaça geral, mais tarde a abertura, eleições diretas, a vitória da liberdade, Collor, Itamar, FHC e, de novo ditadura, tão ou mais daninha e ladra, a ditadura sindical que, como não se bastasse, inventou essa ameba chamada Temer.

Tio Evaldo tinha razão. Eu deveria ter me mandado, mas, como já disse, sempre fui um babaca. E viva os 50 anos de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” !