segunda-feira, 31 de julho de 2017

Holandeses do Focus vão tocar no Municipal de Niterói em setembro






Anote na agenda: dia 14 de setembro (quinta-feira), as 8 da noite o supergrupo holandês de rock progressivo Focus vai tocar no Teatro Municipal de Niterói, dentro de sua turnê mundial. A frente da atual formação, continua o fundador da banda, tecladista, flautista e cantor Thijs Van Leer e na bateria Pierre van der Linden, da formação clássica de 1971 em diante. Nas guitarras, Menno Gootjes e no baixo Udo Pannekeet. No repertório, clássicos como Hocus Pocus, Sylvia, Eruption, Focus 7 e Anonymus II.

Num show sempre eletrizante, Focus mistura vários estilos dentro do rock progressivo, entre eles a música fusion, também conhecida como jazz rock. Foi fundada em Amsterdã em 1969 por Thijs van Leer e até hoje está no topo. Suas composições instrumentais e improvisações mantém muitas influências da música clássica. Um exemplo é a referência à ópera de Monteverdi em "Eruption", faixa do álbum Moving Waves. Outra demonstração está na referência a Johann Sebastian Bach em "Carnival Fugue", do álbum Focus 3, ou ainda das referências ao Renascimento de "Anonymus II".

O show terá duas horas de duração e promete sacudir os esqueletos. A pegada roqueira dos holandeses é forte e os delírios de Van Leer na flauta misturados aos demolidores solos de bateria de Van der Linden são arrematados pela guitarra precisa e também anárquica de Gootjes. Um show sem firulas.
Objetivo, reto, inesquecível.

Os ingressos já estão a venda na bilheteria do Teatro ou aqui: 


Mais informações, telefone (21) 2620-1624.


sábado, 29 de julho de 2017

Fiador moral

O cara é invejoso, rancoroso, provinciano, arrivista e, dizem todas as línguas (as más inclusive), é um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da linguagem as vezes nos metem em roubada.

Em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomar o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação e posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Além de chato é esponja de problema. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalu e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo.

Mas não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim. Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não aguentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o Luiz Antonio...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para oFlamengo”.
Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo.


Esquisito isso.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

The Who em São Paulo será demais!

Desde que foi criado, em 1964, The Who sequer chegou perto do Brasil e a razão é simples: os empresários daqui achavam que a banda não tem público suficiente para dar lucro estrondoso. Não basta ter lucro. Tem que ser gigantesco. Os empresários que não levaram fé quebraram a cara.

No dia 21 de setembro, a banda vai tocar em Allianz Parque (Estádio Palestra Itália), em São Paulo e a lotação de 55 mil pessoas já está lotada. Neste momento, 16h45m de sexta-feira, dia 28 de julho, resta apenas 1% dos ingressos. Dia 26 o grupo se apresenta em Porto Alegre, com ingressos também esgotados. Detalhes aqui:  https://www.viagogo.com/br/Ingressos-Shows/Rock-e-Pop/The-Who-Ingressos?AffiliateID=49&adposition=1t1&PCID=PSBRGOOCONTHEWB278A2BEFFE-000000&AdID=193203739660&MetroRegionID=431&psc=&psc=&ps=mr-431&ps_p=0&ps_c=126020166&ps_ag=40522361445&ps_tg=kwd-304381530196&ps_ad=193203739660&ps_adp=1t1&ps_fi=&ps_fi=&ps_li=&ps_li=&ps_lp=1001650&ps_n=g&ps_d=c&gclid=Cj0KCQjwwevLBRCGARIsAKnAJvdJWinndZYqhx-zSQBbeu-2V_q7Rr_PzYvqpzbviPUCzV0wr4m4z74aAmGuEALw_wcB

Dia 23, o Who toca no shopping Rock in Rio, abrindo para o arroz de festa Guns & Roses, banda que nada, absolutamente nada tem a ver com o som/estilo/público e tudo mais dos britânicos. Guns & Roses que já esteve aqui oito vezes, sendo a última já apenas sete meses atrás no Engenhão. Mas o Guns é muito popular, tem público, gera muita grana.

O show de São Paulo vai entrar para a história. Para começar, São Paulo dá um banho de civilização em qualquer outra capital brasileira. Mais: o Who vai estar muito bem acompanhado pelo The Cult, que vai abrir seu show. A banda de Pete Townshend vai despejar o lendário peso de seu som num estádio compacto, com uma acústica muito melhor do que a do Rock in Rio. 

Se você não comprou o ingresso, vale tentar. Não deu? Tente os cambistas, vale tudo para assistir a melhor banda de rock em atividade no mundo. Uma passagem de ônibus Rio-São Paulo, por exemplo, custa em torno de R$ 100,00. Pegando meia noite, o magic bus chega a Sampa as seis da manhã. Dá para comer, dar um bom rolé na maravilhosa cidade, ir ao show, dormir nua pousada ali perto do estádio e voltar. Simples.

Confira o setlist:

1.   Set 1 (Tommy)
2.   Overture
3.   It's a Boy
5.   Sparks
7.   Christmas
8.   Cousin Kevin
11.     Fiddle About

12.     Pinball Wizard
13.     There's a Doctor
14.     Go to the Mirror!
16.     Smash the Mirror
17.     Underture
(Followed by a reprise of "It's a Boy")
18.     I'm Free
19.     Miracle Cure
20.     Sensation
21.     Sally Simpson
22.     Welcome
25.     Join Together
26.     Who Are You
27.     Love, Reign O'er Me
28.     Baba O'Riley

Formação original do Who: Pete Townshend (guitarras, violões, vocais), Roger Daltrey (vocais, gaita), John Entwistle (baixo e vocais) e Keith Moon (bateria. Entwistle morreu de cocaína em 2002 e Keith Moon de “over tudo”, em 1978. Perdas irreparáveis. Hoje, na bateria, está o sensacional Zak Starkey (filho de Ringo Starr) e no baixo o detonador Pino Palladino.
Pete Townshend arranjou um emprego para o irmão Simon, que toca uma guitarrinha base, e contratou tecladistas, coro e tudo mais. Preferia só os quatro, mas é isso aí.








quinta-feira, 27 de julho de 2017

Burcas na essência da mulher

Os nazistas se consideravam os politicamente corretos da Alemanha” - Leandro Narloch no livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”

Acho que foi ano passado. Um programa de TV de grande audiência, metido a politicamente correto, mostrou várias mulheres (algumas muito interessantes) se dizendo horrorizadas com as cantadas, piadas e “olhares mal intencionados” que “oportunistas” disparam contra as “mulheres de bem” que perambulam pelas ruas. O que está entre aspas foi dito pelos participantes do tal debate.

Para provarem o tal “crime”, copiaram o que eu já havia assistido num canal de boçalidades norte-americano. Instalaram uma câmera nas costas de uma mulher de shortinho jeans gostosíssima e as imagens “flagravam” os “meliantes”, “tarados”, “pervertidos” e afins olhando, contemplando, curtindo. Na sequência, cortaram para o estúdio onde os debatedores só faltaram pedir pena de morte a pedradas para os supostos pervertidos e suas “ofensas” contra as mulheres.

A mulher procura uma alimentação equilibrada, faz ginástica, vai ao cabeleireiro, se maquia, se depila, usa roupas sensuais, lê bons livros eróticos, quem sabe um filme mais ousado de vez em quando, em muitos casos busca terapias para se relacionar melhor com a sua liberdade interior, está cada vez mais culta e bem informada, enfim, tudo bem? Não. Não está tudo bem

Depois da revolução social do pós II Guerra que culminou com o início da libertação da mulher nos anos 1960, que acabou se consagrando nos anos 1980, mergulhamos no século 21 sob o signo do atraso. E mais uma vez a mulher paga a conta.

Esse papo na TV que mostrei lá em cima é uma amostra de que realmente vivemos tempos que clamam mulheres vestindo pijamas de flanela, calções brochantes, sutiãs coador de café e a criminalização radical dos prazeres “ocultos”, logo nefastos, bem como fantasias “imersas em devassidão” da mulher, eterna condenada a ser “recatada e do lar”, mãe, esposa, rainha do papai mamãe e das novelas.

Estou convencido desde a adolescência de que essa mulher carola, submissa, espetada nas cruzadas dos regulamentos moralóides não existe porque, queiram ou não os machistas mais primitivos, as fantasias da mulher estarão sempre a dois milhões de anos luz a frente das dos homens.

Não foram poucas as mulheres que concederam o privilégio de falar sobre repressão, ação, reação, liberdade, libertinagem, etc.. E muitas dizem que gostam de ser admiradas na rua, na livraria, no mercado, na praia, na padaria, no avião, na vida. Logo, esse moralismo do terceiro milênio, com um jeitão de Idade Média (ou seria Idade Mídia?) não encontra espaço na mulher que conseguiu romper com o machismo, com o atraso, com conceitos que fedem a naftalina enquanto apodrecem nos armários de vime dos conceitos e preconceitos.

Sei que é incorreto, mas quando cruzo com uma mulher gostosa na rua, olho. Meu inconsciente deve tramar algum macete pois nunca fui flagrado. Nunca. Lembrando que mulher gostosa não tem cor, altura, idade, peso, nada. Mulher gostosa é como música boa. Bate e fica. Não tem explicação. Em respeito jamais emiti qualquer som. Ainda assim, para evitar um desatino perante uma cavala bem assombrada, boto a mão na boca.

Ah, Drummond. Ah, grande Carlos Drummond de Andrade que em vez de assobiar “fiu fiu” escreveu o belo poema “A bunda, que engraçada” que lá pelas tantas se desmancha: “(...) A bunda basta-se/ Existe algo mais?/ Talvez os seios/ Ora - murmura a bunda - esses garotos/ ainda lhes falta muito que estudar/ A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio/ Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente(...)”

Jamais molestei, cantei, encoxei em ônibus/barca/metrô/avião/trem, enfim, só contemplei o que (não nego) é o maior patrimônio da Natureza, razão de viver, centro do Universo: a mulher. Olhar, sorver, contemplar sem atacar é um direito. Por isso, olho. Dos 18 aos 100 anos, mulher gostosa é mulher gostosa. Luis Buñuel não acreditava em “mulher sem bunda”. Muito menos eu, mestre. Existem belas bundas retas, retinhas. A de Catherine Deneuve, por exemplo, que mesmo arfando, suando, passando mal mesmo, consegui entrevistar nos anos 1990, é proprietária de uma. Belíssima.

Meu único acidente de trânsito foi uma varada na traseira de um caminhão que freou numa rua aqui da cidade. Uma diva saía de uma galeria como as lavas do Vesúvio inundando Pompeia. Zonzo, bati. Zonzo, confessei minha culpa. Zonzo, parti sem telefonar para o seguro, porque as companhias de seguro também não toleram a luxúria.

Certa vez escrevi que o brasileiro, elegantemente, cede a frente as damas em entradas de elevador, escadas de ônibus, portas de restaurantes não por educação, mas pela oportunidade de contemplar o dorso por três segundos. Já filosofava a extinta Rádio Relógio que o segundo é um milagre que não se repete e esses três segundos podem gerar euforia por horas.

Dias. Anos.



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sal da Terra

Ando cheio da palavra sustentabilidade, usada como galocha pela politicália em geral. Outra que não suporto mais é o tal do “foco”. Leio e ouço toda hora “meu foco está em...”; é dose.

Antes de sub celebridades em panfletos eleitorais oportunistas, pessoas que hoje são chamadas de ambientalistas foram tachadas de ecologistas nos anos 70. Fui um dos fundadores do M.O.R.E., Movimento de Resistência Ecológica que atuava basicamente em Niterói em plena ditadura.

Lembro de uma grande manifestação organizada por um colega jornalista, acho que em 1977, na área de Camboinhas, bairro da Região Oceânica de Niterói. Na época uma megaconstrutora estava tocando um projeto chamado “Cidade de Itaipu”.

Para “limparem” a área contrataram jagunços que torturaram e mataram pescadores, obrigados a “vender” suas casas. A lagoa de Itaipu estava ameaçada (hoje está praticamente morta), enfim, o megaprojeto teve que engolir uma manifestação com direito a presença do cientista Augusto Ruschi (1915-1986).

Dezenas de pessoas participaram da carreata e, lógico, havia policiais do sucessor do Dops, o também famigerado DPPS (Delegacia de Polícia Política Social) infiltrados fotografando todo mundo mas, ainda assim, consegui escrever uma longa matéria para o Pasquim (na época submetido a censura prévia) que até hoje não entendi como não foi degolada.

As manifestações, as matérias na grande mídia que seguiram o Pasquim acabaram detonando a tal “Cidade de Itaipu” e, em tese, a ecologia (hoje ambientalismo) venceu mais uma. Foi quando um mineiro de Belo Horizonte me procurou no Pasquim, que funcionava na rua Saint Roman, em Copacabana. Eu ia lá uma vez por semana e, inclusive, sem querer, presenciei a despedida de Ivan Lessa, em 1978, que jurou nunca mais pisar no Brasil embarcando para Londres. Ele morreu em 2012 com a promessa cumprida.

Mas voltando ao mineiro, ele queria mais detalhes sobre o nosso movimento que abateu a “Cidade de Itaipu” para conversar com o poeta Ronaldo Bastos sobre o assunto. Contei tudo o que sabia e o cara sumiu. Foi quando em 1981 uma música me chamou atenção. Chamou-se “O Sal da Terra”, que ouço neste momento com o coautor Beto Guedes enquanto escrevo.

Há quem diga que o tal mineiro que me procurou era amigo de Beto Guedes que escreveu “Sal da Terra” em homenagem ao meio ambiente. Não sei. Até estive com ele algumas vezes anos depois mas não confirmei a informação. O importante é que a música é linda, a letra fabulosa e toda luta sincera, honesta e justa vale a pena.


terça-feira, 25 de julho de 2017

E se liberarem todas as drogas no Brasil?



Nos Estados Unidos foi um fiasco. Entre 1920 e 1933 a lei seca só serviu para turbinar a corrupção e o banho de sangue. Em um primeiro momento, houve um grande apoio à medida mas, depois, o comércio e consumo ilegal de bebidas se tornaram corriqueiros, com o governo fazendo vista grossa, autoridades do legislativo e judiciário embolsando rios de dinheiro sujo. Traficantes e comerciantes ilegais, como Al Capone, em Chicago, montaram grandes esquemas que lucravam com o consumo ilegal. A Lei Seca só acabou no governo de Franklin Roosevelt.

O álcool provoca danos irremediáveis a saúde. O alcoolismo por si só é um drama mundial, inclusive no Brasil, país que abre as pernas para a propaganda desenfreada de álcool em horário nobre de TV, onde mulheres supostamente gostosas vendem cerveja. Ainda nas TVs e também no rádio e em todas as mídias, a figura do vinho, fantasiado de enologia, está presente no cotidiano da classe média, assim como a cachaça continua batendo recordes de vendas (fatura bilhões de reais por ano) em todas as classes e idades. Várias emissoras tem programas especializados em vinho e cerveja artesanal, ou seja, o consumo de álcool é abertamente estimulado.

O álcool é uma droga mais poderosa do que muitas outras. A novidade no Brasil é uma prima da metanfetamina chamada MDMA (conhecida pelo apelido de Michael Douglas), que está se embrenhando no famigerado tecido social. Os terroristas do tráfico armaram uma força tarefa para impregnar os jovens de MDMA, uma droga bem cara que proporciona uma excelente margem de lucro para os sicários. Sicários que distribuem amostra grátis em festas de jovens (público alvo), onde se infiltram com facilidade.

Será o momento de se pensar da liberação de todas as drogas no Brasil como forma de combate e, quem sabe, extermínio do tráfico? Vão dizer “ora, é um absurdo, as pessoas vão morrer de tanto cheiras e se injetar”. Será que vai morrer mais gente dos que os quase 70 mil assassinados por ano, 80% por causa do tráfico de drogas? Se um sujeito compra cocaína na farmácia, cheira tudo de uma vez só e morre? Já não acontece isso todos os dias com a venda ilegal? Se uma pessoa comprar uma caixa de Rivotril e tomar todos os comprimidos, também vai subir. E a criança que leva um tiro na cara no meio dessa guerra civil não declarada?

Liberar todas no Brasil as drogas é impossível porque o tráfico banca os poderosos. Poderosos que estão infiltrados em todas as esferas do poder. Mais: o terrorismo do tráfico sustenta uma cadeia policial/judicial/política que envolve milhares e milhares de pessoas que passam o dia e a noite sabendo que enxugam gelo mas recebem a sua grana em dinheiro, a vista.

Essa discussão de que maconha não faz mal, que isso ou aquilo não detonam a saúde, é mi mi mi da pequena burguesia? Qualquer droga faz mal, assim como qualquer birita detona o organismo. Além do mais, pergunto: se o ser humano não pediu para nascer ele pode escolher como morrer? Se der uma picada de heroína na veia e morrer não seria problema dele? 

É um assunto espinhoso, que mexe com moral, bons costumes, religião, mas também com o falso moralismo dos canalhas. Mas, em nome de uma relativa paz nas ruas acho que valeria a pena discutir essa liberação geral, sem exceções.


Ou não?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Jornalismo está virando central de boatos

Em tese, estagiário e o trainee de jornalismo são aprendizes. Em tese. Desde sempre e não somente quando foi inventado o curso superior de Comunicação Social no Brasil, em 1969.

Hoje, não é mais obrigado ter diploma para se fazer de jornalista. A coisa voltou aos tempos pré-1969, mas as empresas mais séras exigem que candidatos a estágio ou treinamento avançado estejam cursando uma faculdade.

Nos protocolos, na papelada, na teoria está tudo muito bonitinho mas, na realidade, estagiários e trainees viraram mão de obra barata, burros sem rabos que como paus de enchente zanzam de um lado e para o outro, perdidos nas redações da vida e a vítima é o leitor/ouvinte/telespectador/internauta.

A ignorância é um direito. Estudante ignorante é mais do que aceitável. Como o nome já diz ele ainda está estudando, aprendendo. Em tese, estagiários e trainees estão no mercado para errar. Errar, aprender e ser submetidos a rigorosa supervisão. Depois de serem exaustivamente treinados aí sim podem publicar suas primeiras matérias. No caso do jornalismo, a vivência, o dia a dia, a estrada, a experiência fazem a diferença.

Ninguém ensina um sujeito a: 1 – ser curioso; 2 – ser esperto; 3 – ser bom caráter; 4 – ser vibrante; 5 – ser humilde; 6 – ser solidário; 7 – ser equilibrado; 8 – ser inspirado; 9 – ser criativo; 10 – ser jornalista.

Hoje, há redações estão sob o comando de aprendizes comprometendo muitíssimo a qualidade da comunicação. O que lemos, ouvimos e assistimos de erros boçais por aí chega as raias do absurdo. Por exemplo, botam no ar notícias que ouvintes/leitores/etc enviam pelo whatsapp. Sim, o whatsapp virou fonte, como o Google. O jornalismo está virando central de boatos.

Um estagiário ou trainee no comando de uma redação (seja ela qual for) é como substituir Ruy Barbosa por um estudante de Direto num tribunal. Não é apenas temerário. É absurdo. Mídia lida com vidas, com gente, com instituições, poderes, governos. Mídia exige competência para falar e papas na língua para escrever, assim mesmo nessa ordem. Mídia exige ética. Ética que aprendemos muitas vezes através de erros lamentáveis que testemunhamos nas redações e que nos levam a pensar “por esse caminho não irei”.

Leio/ouço/assisto calamidades de gente que conhece os livros de ouvir falar e usa a internet como Juízo Final. Em vez de mera referência o Google virou fonte, verdade absoluta para muitos. 

Quando dou entrevistas (principalmente por telefone) fico apavorado porque, em algumas ocasiões, senti que do outro lado da linha o futuro colega não sabia quem sou, o que faço, o que fiz e só conhecia o motivo da entrevista meio que por acaso. Mandaram ele ligar e...e...e...


Dizem que esse quadro reflete a realidade deste novo e lamentável Brasil. Não sei, estou farto de teorias. Estagiários e trainees tem que voltar a condição de aprendizes, antes que as mídias sejam despejadas, definitivamente, na vala comum do desprezo, do esquecimento e da falência.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

O feitiço do sedã japonês

Impressionante. Praticamente todos os amigos e conhecidos que encontram perguntam “Cadê aquele Suzuki Baleno? Era único, o maior charme”. De pergunta em pergunta comecei a achar que me arrependi de tê-lo vendido. Como vendi para um conhecido, que como eu trata o carro a leite de cabra, fui sondá-lo sobre a possibilidade de recomprar. Mas o feitiço do sedã também pegou o novo dono que, vejam só, está procurando um outro Baleno no Mercado Livre. “Fiquei apaixonado pelo carro, quero ter mais um”. De fato, esse carro tem borogodó. Tanto para os donos como para conhecidos, colegas e amigos do dono.

Uma história que nasceu quase sob o manto do acaso. O sedã japonês verde escuro (idêntico ao da foto) estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Entrei disposto a comprar um SUV preto, tração 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile ou atravessar o deserto do Jalapão, norte do Brasil. O problema era vencer a preguiça. Eu sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando meu olhar bateu no sedã japonês. Esse feiticeiro de aço.

Levantei, olhei a frente, traseira, laterais. Abri o capô, motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV. 

Mudei de ideia. Em vez do SUV comprei o sedã japonês. No dia seguinte saí da loja, pus um CD no Kenwood de fábrica e zarpei. Fui até Barra do Sana e desci pela Serramar (na época lama pura) e retornei como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixei a BR 101 e decidi ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios de esgoto, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês passou. Com água na porta, muitas vezes boiando, sequer falhou. Dias depois, outro toró no Ingá, bairro de Niterói. Água na porta, o sedã boiou de novo e chegou a virar ao contrário. Mas não pifou.

De dois em dois anos pensava em troca-lo por carro um mais novo, mas me perguntava para que, se o carro até alma de jipe tinha. Num lugar chamado Engenho do Mato as vezes eu matava saudade dos ralis fazendo trilha com o sedã no lamaçal, alta velocidade. Impressionante. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que eu iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Eu e o sedã japonês já não sabíamos mais quem era quem. Ele é quase único porque só foi importado durante um ano. Era raro. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais...jamais traiu o seu DNA japonês.

Mas um dia...bem um dia surgiu um outro japonês. Novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também. Foi quando vendi o sedã japonês. Quase fiquei arrasado mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, tive certeza que meu grande amigo continuaria em boas mãos.

O novo japonês parece ter gostado de mim. Começamos a construir uma história bacana, leve, rápida, precisa, estável. Sem problemas. Como os carros japoneses e alemães. Mas, a saudade do sedã eventualmente me pega. E como o vi com o novo dono, reluzindo estacionando em frente a casa dele, a saudade rasgou. Decidi que, ano que vem, vou tentar recomprá-lo só para tê-lo por perto. Se bem que o cara não vai vender de volta mesmo.

Entenderam?



quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eternas Capitanias Hereditárias

Meritocracia. Linda palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente, especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política.

Na música, chega a ser engraçado. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por cupinchas  da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Em geral, não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é subjetiva, a coisa fica no zero a zero. Mas no caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele teria sido rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li semanas atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filho de um amigão do pai da banda. Que coisa.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

É melancólico.




sábado, 15 de julho de 2017

40 anos sem Big Boy

Big Boy morreu há 40 anos. Foi em 7 de março de 1977. Ele era asmático crônico e sempre andava com uma bombinha no bolso. Todo mundo o chamava de hipocondríaco e ele respondia, irônico, “quem é vivo sempre aparece”. Não bebia, não fumava e nem cheirava nada. Foi a São Paulo a trabalho e começou a passar mal no quarto do hotel. Quis o destino que, naquele dia, Big Boy não estivesse com bombinha nenhuma. Morreu.

Os 40 anos da morte do maior DJ do rádio brasileiro só não passou totalmente em branco porque o mega radialista Mauricio Valladares dedicou a Big Boy um farto e merecido espaço no programa "Baú da Globo" nos últimos domingos. Produzido por ele e pelo Centro de Documentação e Pesquisa do Sistema Globo de Rádio, "Baú da Globo" vai ao ar domingos, as 23 horas. 

Fora essa águia solitária, Big Boy foi desprezado. Razões compreensíveis. Nunca a mídia esteve tão imbecil, fútil e vazia como hoje, e a culpa não é da internet. Ninguém falou dos 40 anos de Big Boy porque 0,000000000000001% das redações sabem quem foi ele. Vivemos tempos de heróis fabricados pelos interesses pessoais de alguns profissionais de comunicação com C minúsculo. Até recentemente, jornalista que ganhava cachê de fonte era demitido. Hoje, jornalista entre aspas apresenta festinhas, seminários, congressos, organiza debates, dá palestras, pago por empresas e governos. Lógico que, em troca, além do cachê que recebe escreve agrados.

Além de ter revolucionado a extinta Rádio Mundial, AM oito-meia-zero, com aquele som horrível de caixa de sapado mas tão lúcida e inteligente como uma FM inexistente hoje, o extinto Big Boy inventou a extinta Eldo Pop em 1971. Uma rádio cuja programação era calcada no melhor do rock progressivo, mas rolava outras bandas também. Não tinha locução. A Eldo Pop era um computador do tamanho de uma geladeira que ficava cuspindo boa música 24 horas por dia no morro do Sumaré. Quando pifava (e era comum), Mario Henrique Peixinho pegava um carro e subia até lá para por no ar de novo. A Eldo Pop foi líder em audiência em FM e durou até Big Boy morrer. Saiu do ar em 78 e em seu lugar entrou a famigerada 98 FM.

Eu, meu irmão Fernando Mello e o amigo/irmão Marcio Paulo Maia Tavares ouvíamos a Eldo Pop o dia todo. Tínhamos praticamente decorado a programação baseada nas centenas de álbuns que Big Boy trazia dos Estados Unidos. Como não gavia locução as bandas não eram anunciadas. Acabaram virando um enigma, mito. Desvendar cada uma delas virou uma mania para os ouvintes.

Tenho certeza de que se não tivesse morrido Big Boy não deixaria a Eldo Pop acabar. Ele vivia as turras com o comando das rádios onde trabalhava, mas acho que tinha algum cacife lá dentro. Ele sempre dizia ao pessoal da rádio (não cheguei a ter contato com ele) que a Eldo era um diamante que estava sendo lapidado devagar e que iria revolucionar os anos 80. Não deu tempo.

Quando fui montar a Globo FM, em 1985, Peixinho me mostrou a discoteca da Eldo Pop. Intacta, toda em vinil. Claro que, manuseando aqueles discos, bateu um nó na garganta. Há 15 dias soube que a discoteca foi para o espaço. Ninguém sabe, ninguém viu. Em tempo: todo o arquivo precioso da Rádio Jornal do Brasil, ícone do radiojornalismo brasileiro, também foi jogado fora. O imbecilato goza vomitando ignorância digital por aí. O imbecilado produz áudio com som perfeito, cristalino, 5.1, mas burro, anêmico, boçal. A comunicação virou um asneirol vago.

Aqui, vinhetas da Eld Pop.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Lua de Neil Armstrong. Lua dos poetas.

A lua jamais deixará de ser a musa encantada dos poetas, mesmo depois que Neil Armstrong desceu do módulo lunar da missão Apolo 11 em 20 de julho de 1969 e pisou o solo lunar com sua bota prateada. 1969 foi um ano de muitas mudanças, entre elas o maior protesto contra a guerra do Vietnã reunindo meio milhão de pessoas em Woodstock. Esse ano foi tão significativo que, inspirado nele, Paul Auster escreveu o magistral “Palácio da Lua”, livro que devorei em dias noites.

Fui cedo para casa para assistir pela TV. Não lembro se foi uma transmissão ao vivo, mas sei que a narração era de Hilton Gomes, um célebre locutor. A imagem em preto e branco cheia de imperfeições me hipnotizou e quase não ouvi o pipocar dos fogos que algumas pessoas soltaram celebrando aquele momento. Um momento crucial na história de todos nós que algumas pessoas insistem em dizer que foi uma fraude, que o homem pisando na lua teria sido uma gravação simulada em estúdios. Que bobagem.

Na época, diziam que o fato do homem pisar na lua anularia seu poder poético. Não acho. A lua continua comovendo, mesmo depois de Neil Armstrong pisou na sua pele e revelou que o homem não conhecia a versão maior da solidão. Ele disse depois que “a solidão na lua é abissal...indescritível..absolutamente angustiante”.

E se a humanidade evoluiu, pelo menos cientificamente, devemos muito a desbravadores heroicos como Armstrong. Aliás, sugiro a todos que peguem nas locadoras o filme “Os Eleitos”, de Philip Kaufman que conta a história da corrida espacial de um jeito completamente diferente. O filme é baseado no livro de Tom Wolfe.

Neil Armstrong morreu em agosto de 2012 triste com o corte de verbas para o programa espacial e até se reuniu com Barack Obama para tratar do assunto. Obama explicou que é uma questão temporária mas, ainda assim, Armstrong não engoliu. Com razão.

Discreto, nunca transformou a sua grande viagem numa egotrip pessoal e, só eventualmente, dava uma ou outra palestra. Por tudo que representa e simboliza, por tudo que fez, Neil Armstrong, um ícone dos anos 60, deixa sempre muita saudade.

1969. Que ano.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Tolerância a intolerância

      Foto de Catherine Beranger

Sempre que há recessão e inflação, os sonhos, objetivos, planos, projetos de milhões de pessoas são engavetados, as contas do mês ficam mais difíceis de fechar, a insegurança atinge níveis quase insuportáveis, a esperança, a velha, boa, necessária esperança, parece querer bater asas e partir.

Também neste quesito o Brasil é um dos lugares mais existencialmente instáveis do planeta. O Brasil é pau de enchente, voo na neblina, roleta com mais de 200 milhões de fichas. Brasil é bala perdida. E foi a tolerância a intolerância que me convenceu a ficar no Brasil.

A tolerância a intolerância é intolerável, mas está presente até para quem não pode ou não quer ver. Nas ansiosas filas dos bancos, nos ônibus, aviões, na caminhada solitária das pessoas rumo ao trabalho, a escola, a consulta médica. Rumo ao nada, muitas vezes.

Exercitar a tolerância é mais do que fundamental, ensina a filosofia. Um exercício difícil, espécie de musculação existencial, vital, fundamental para que as pessoas possam conviver minimamente bem com elas mesmas e a partir daí com a sociedade. Ou seria camping?

A intolerância está presente nas ruas, no ambiente de trabalho, no supermercado, nas redes sociais, na podridão política. Nesse momento de crise, o radicalismo parece se impor ao bom senso e assistimos a um banho de sangue entre aspas entre pessoas que atiram até amizades de décadas no lixo em nome de convicções políticas dos outros, os políticos profissionais.

A sensação de “vão-se os dedos, ficam os anéis”, quando todo mundo bate em todo mundo defendendo políticos, políticas, governos, desgovernos, incha mais os bolsos deles, dos políticos e esvazia a esperança de criar uma nação mais equilibrada, mais generosa e até mais engraçada. Afinal, sem humor nada é possível.

Dizem que essa onda de tolerância a intolerância é passageira. Mas ela preocupa e pensamentos em plena hora da vadiagem, dos devaneios. Afinal, se brigar por nós exige limites, brigar por quem não merece parece ridículo.

Ou não?


Afinal, o que é o filme “Aumenta que é Rock and Roll”, baseado no livro “A Onda Maldita”?

Diretor Tomás Portella vai exibir, no Lapa Café, um teaser de 15 minutos com cenas do filme.                       Tomás Portella (a f...