quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A crianças estão bem


Decidi opinar porque está havendo muita injustiça e preconceito com as novas gerações, que alguns chamam de alienadas, vazias, fúteis, cabeças de vento, acomodadas.

Não é verdade.

Todo mundo já passou pela adolescência. E o que é a adolescência? Um HD vazio, com infinitos gigabytes, registrando tudo que está à sua volta. Tudo! O bom, o mau e o feio. A adolescência e a pós-adolescência são uma fase experimental imposta pela natureza para que os filhotes atravessem a transição criança-adulto querendo saber. Há muito deslumbramento, decepção, dor e, lógico, radicalismo e oposição. O adolescente obediente “bovino” e cordato não está bem. Posso falar? Não é um adolescente normal. Adolescente tem que dar trabalho, tem que provocar, tem que irritar, tirar do sério.

Ele acha que tem (e tem mesmo) o direito de levar a vida que acha certa. Cabe aos adultos, adultos cujo diploma existencial só irão receber quando aquela senhora com uma foice na mão e capote na cabeça vai tocar a sua campainha para buscá-los, insistentemente tentar conversar com o adolescente.

Os adolescentes de hoje estão vivendo uma das eras mais tumultuadas de todos os tempos. A tecnologia transformou a revolução do pós II Guerra em fichinha. A fartura tecnológica está substituindo tudo. Os jornais de papel, a música, a literatura, os telefones de Graham Bell, os táxis, os discos, os vídeos, a TV, o Rádio, a medicina, a veterinária, a engenharia e...as famílias. Nada hoje é igual ao que era 15 anos atrás.

Ontem eu me peguei colocando meu “livro” para carregar na tomada. Meu Kindle, leitor digital de livros sem papel que precisa de carga como os celulares. No olho dessa gigantesca revolução, que está acabando até com os carros com o motorista, estão os adolescentes.

Eles aprendem com o novo mundo que podem dormir com namoradas e namorados em casa, que podem passar o fim de semana longe de casa, vivem se falando pelo whatsapp em códigos que só eles entendem, e tem uma consciência dos perigos muito maior do que nós tínhamos quando tínhamos nossos 16 anos. Mais: sua visão de democracia, etnia, diversidade é muito própria. Nossos preconceitos? Sem cerimônias eles atiram pela janela.

Estive no show do The Who, no Rock in Rio, num dia com 100 mil pessoas, e vi bandos e mais bandos de garotos e garotas de 16, 17, 20, 25, 30 anos. Não houve uma briga, uma bebedeira, nem sombra de qualquer confusão. Estavam lá ouvindo o que gostam de ouvir, curtir e assistir o que acham interessante e ponto. Lembrei de uma música do próprio Who, de 1965, chamada “The Kids are Alright” (“As crianças estão bem”), cujo autor, o genial Pete Townshend, tinha 17 anos quando compôs. Um adolescente falando com seus pares:

Eu não me importo
Se outros caras que dançam com minha garota
Isso é bom
Eu conheço todos eles muito bem
(...)
As crianças estão bem 

As vezes
Eu sinto que tenho que fugir
Eu sei que tenho que fugir
Vou sair da minha cabeça
As crianças estão bem

Eu não sei se seria melhor para ela
Eu planejava as coisas, mas os caras não a deixavam

Eu não me importo
Se outros caras que dançam com minha garota
Isso é bom
Eu conheço todos eles muito bem

Por mais que ocorram as revoluções, os filhotes tem os pais e similares como referências. Se os pais de uma criança de três anos ouvem funk vagabundo, é lógico que futuramente essa informação vai entrar no HD do adolescente. E isso vale para tudo. Pais que quase se beijam com frequência, ou se estapeiam, pais que jogam lixo na rua, jogam em lixeiras, fumam, não fumam, bebem, não bebem, são preconceituosos, são liberais, se drogam, não se drogam. Tudo isso é referência para o filhote até a puberdade quando surge no horizonte furacão da rebeldia e ele vai adquirir novos hábitos. Mas inconscientemente não apagará as referências de mãe, pai e similares. Os submissos, os que não questionam a sua primeira autoridade (a família) provavelmente terão que se contentar com a mesmice existencial e, quem sabe, cantar “Como Nossos Pais” no futuro.

Mas a rebeldia, o estado de "ser do contra" o confronto dura poucos anos pois, em breve, a maioria deles se torna amigo de pais, mães e similares. E os papéis quase se invertem. Jovens adultos, os ex-adolescentes se tornam o ponto avançado, a figura que puxa ensinamentos do futuro e repassa para os pais, que já não tem mais saco para saber navegar na Deep Web, decodificar gírias, conhecer os ritmos do momento.

Em suma, a fonte ainda é a base de tudo. E a base se manifesta pela contemplação dos garotos e garotas e não pelas nossas supostas ordens, pelo autoritarismo. Enfim, é um tema vasto, complexo, que pretendo continuar abordando num outro dia.


The Kids Are Alright!