quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Bonnie


https://www.podomatic.com/podcasts/luizantoniomello/episodes/2017-09-20T08_11_18-07_00

Quando o carro chegou naquela aldeia empoeirada, bela, paradisíaca, minha cabeça moída e o corpo cansado agradeceram. De pés juntos. Era verão, provavelmente o melhor verão de minha vida. Pelo menos até o verão seguinte.

O acaso me fez encontrar com três amigos, que foram promovidos a grandes amigos, numa rua qualquer naquela semana. Eu estava de saco cheio de ególatras, interesseiros, gente que só investe em amizade de conveniência achando que somos babacas. Tudo bem, eventualmente sou um babaca mesmo, mas naquela semana eu estava com a faca nos dentes. Os caras me convidaram desleixada e afetuosamente, “vamos passar o resto do verão naquela aldeia praiana. Alugamos uma casa lá e um dos caras não vai poder ir.”

Como estava cheio e detesto o verão na cidade, comuniquei as férias (vencidas) no trabalho, passei em casa, peguei o carro, e fui, sem maiores expectativas. 

Partimos em dois carros, saindo por volta das 10 da noite, uma viagem que durou umas seis horas pois paramos em várias biroscas para bater papo. Eu não estava habituado ao saldo positivo de tempo. Naquela noite sobrava tempo, mas as vezes, no meio da conversa movida a gargalhadas senti a incômoda presença do fantasma da culpa até lembrar que estava de férias.

Na reta final, quase chegando a aldeia, achei que um caminhão vinha em sentido contrário, mas era Vênus, linda, vaidosa, imponente no meio daquele céu azul petróleo banhado de estrelas. Vênus ficou em nosso horizonte alguns mágicos minutos, até dobrarmos a direita numa estrada secundária que levava diretamente a aldeia.

Chegamos e nem desfiz minha mala. Simples. Duas calças jeans, duas bermudas, quatro camisetas, sandália, tênis, sunga, escova de dente, Omo, etc e lá no fundo, bem no fundo, a fita com “Bonnie”, do Supertramp, que havia gravado há meses como uma espécie de mantra e estava perdida. Ela acabava e recomeçava, acabava e recomeçava. Peguei. Peguei e logo que coloquei a rede nos ganchos da varada, liguei “Bonnie” num micro system de um dos amigos, no meio daquele resto de noite de um lado e início de amanhecer do outro, com direito a brisa soprando e ruido do mar de encontro as pedras perto dali.

Acordei com o sol na cara, quente, implacável. Eram umas 10 da manhã e quase me arrastando fui para o quarto onde liguei na tomada meu bravo ventilador Britania, que morava no porta malas do meu carro. Dormi. Dormi pra cacete.

A tarde, nós quatro fomos almoçar numa birosca que servia o melhor e mais barato filé de cação da região, com arroz agulhinha e brócolis de acompanhamento. Dali, fomos para a praia, mar translúcido, areia deserta. Um dos amigos tinha levado o seu pranchão de windsurf, um esporte que existiu entre os anos 80 e 2000, se não me engano. Pusemos a prancha no mar sem ondas, eles colocaram a vela e começaram a velejar. Não sei nem nunca soube velejar porque tenho preguiça de aprender, apesar de achar fantástico. Os caras eram feras e no fim da tarde pararam. Na beira d’água, tirei a vela da prancha, amarrei num pedregulho (como âncora) e deitei de barriga para cima, boiando como Zorba, o Grego.

As 11 da noite retornamos para a casa, a uns 60 metros dali. Eles pediram e para minha alegria dei Play na fita de “Bonnie”, que rolou mais um tempão. Fizemos e devoramos um churrasco de picanha. Depois, em duas motos e, dois em cada uma, fomos para uma espécie de centro da aldeia e entramos num dancin' bem simples, com frequentadoras locais e também de fora, maioria de São Paulo e Minas.

No dia seguinte, sem dormir, peguei uma das motos e percorri a beira d’água por vários e incontáveis quilômetros, rumo ao norte. A culpa já tinha sido chutada e meu relógio de pulso guardei no porta luvas do carro, abandonado na garagem. Em algum lugar parei, mergulhei, deitei na areia e dormi. Acordei com o sol quase se pondo. Mergulhei de novo. Depois, liguei a moto e retornei. Quando cheguei próximo a casa, notei um movimento extra. Algumas garotas que estavam no dancin' na noite anterior resolveram nos visitar e, de topless, animadas, falavam, gargalhavam, beijavam na boca e nos degustavam com apetite e prazer.

E assim o verão “Bonnie” foi cavalgando. Tudo muito devagar. Dias depois já estávamos pretos por causa do sol, e barbudos por desleixo proposital. Numa das noites maravilhosas e transcendentais, quando todo mundo havia saído (com algumas outras garotas do dancing), preferi ficar sozinho.

Deitei a vela da prancha de windsurf no gramado, liguei “Bonnie” e mergulhei nas estrelas e satélites que passavam naquele impressionante firmamento que misturava azul petróleo com prata. “Deus existe”, pensei várias vezes. Pensei e prometi a mim mesmo mudar algumas coisas em minha vida. Alguns comportamentos. Não foi promessa, nem decisão radical. Um mero acordo meu com aquelas noites abençoadas que, de cara, me deram de presente três amigos extraordinários.

Em minha divagação (teria sido meditação?) excluí algumas manias que de fato foram deletadas, menos uma delas: não incomodar ninguém. Tinha essa mania. Tinha e tenho. Naquele verão mesmo fui sozinho a uma praia relativamente movimentada, peguei sol demais e acho que tive intermação. Sei que na hora em que fui mergulhar quase desmaiei e me afoguei. Ali mesmo, no raso. Mas, com essa mania de não querer incomodar, não pedi socorro, não chamei ninguém, mas ainda assim fui visto por um gringo que me puxou pelo braço e me levou para a areia. Até hoje penso “será que se ele não tivesse me puxado eu teria me afogado por cerimônia?”. Creio que sim. Pior é que ando cada vez mais radical. Nem a hora pergunto. 

Já me perdi em São Paulo por horas por não perguntar nada a ninguém. Por isso, até a pé uso o aplicativo Waze. Não pergunto nada, não peço nada, não grito socorro para ninguém, não gosto de ganhar presente porque “dá trabalho a quem compra”. No entanto, quem me conhece diz que sou mega solidário e prestativo o que sou mesmo.

Passamos do final do verão lá naquela aldeia, como primatas. Uns 40 dias, não sei bem. Retornamos muito amigos. Um deles seguiu a pé para a Cordilheira dos Andes e o outro pegou um voo para o México, onde estava estudando os peiotes de Carlos Castanheda. Eu e o terceiro amigo ficamos por aqui mesmo e toda vez que nos encontramos falamos de “Bonnie”.

Como não?