domingo, 24 de setembro de 2017

The Who enlouquece o Rock in Rio

Primeira página hoje, domingo, 24 de setembro

                                     Daltrey e Townshend em noite iluminada                                                                       
Zak Starkey e o padrinho Keith Moon

Aos 52 anos de idade a mais importante banda veterana da história do rock em atividade, a inglesa The Who, fez um dos mais espetaculares shows de sua rica biografia no Rock in Rio na noite de ontem, onde 100 mil pessoas (a maioria não conhecia o grupo) acabaram se rendendo a fúria juvenil do líder e guitarrista Pete Townshend (72 nos), do vocalista Roger Daltrey (73 anos) e do baterista herói Zak Starkey (52 anos).

The Who tocou em todos os festivais fundamentais da história do rock: Monterey Pop (1967), Woodstock (1969), Isle of Wight (1970), Live Aid (1985) e muitos outros. Continua tocando sem parar em grandes arenas. Mas chegar num país onde jamais pisou e encarar 100 mil pessoas, das quais, seguramente, 70% não o conheciam foi um grande desafio. Desafio vencido com colossais doses de talento, coragem, volume lancinante da guitarra de Townshend, enfim, um trem bala que enlouqueceu a plateia logo na primeira música, o clássico “I Can’t Explain”. Uma plateia com 50% de mulheres, publico historicamente avesso ao Who.

As pessoas não conhecem The Who porque não tinham e nem tem como. O grupo só teve metade de uma música tocando nas chamadas rádios de sucesso do país, até a chegada da Fluminense FM, em 1982. "Behind Blue Eyes" foi programada por algumas emissoras que ceifavam a parte quando ela acelera. As emissoras tinham ódio de rock e lembro de um colega locutor de ponta numa FM líder nos anos 70 ter sido punido com uma advertência formal e ameaça de demissão por ter tocado "See Me Feel Me", do The Who, em seu horário. Na Fluminense FM The Who tocava normalmente em sua programação e ajudou muito a difundir a banda por aqui. Entre as emissoras alternativas, a grande Rádio Federal AM, que viveu entre 1971 e 1972, tocou muito Who. Atualmente, as FMs do Rio desprezam The Who, preferindo tocar "esculacho music" ou futilidades sonoras. Mas como a decadente FM está no fim de sua vida (está sendo engolida pelas rádios na internet) isso pouco importa. No Brasil há excelentes emissoras online que tocam The Who, especializadas ou não, como a Rádio Cult, Oceânica FM, Rock FM, Vitrola.Net e outras, que apesar de terem FM no nome estão apenas na Web.

Pete Townshend disse, recentemente, que “minhas letras, o som rascante do Who, o alto volume, acabam atraindo mais homens para os concertos. Em geral as primeiras filas são tomadas por homens e aqui e ali há uma ou outra mulher”. Mais um tabu quebrado no Rock in Rio, quando as mulheres acabaram gritando e cantando mesmo sem saber direito, surpreendendo a banda. A maioria das mulheres na faixa de 20 a 30 anos. “I can’t explain”, diria Townshend. Eu, muito menos.

Antes de mais nada, vamos ao setlist da banda na noite de ontem, quando tocou quase duas horas:

1 - "I Can't Explain"
2 - "Substitute"
3 - 'Who Are You"
4 - "The Kids are Alright"
5 - "I Can See For Miles"
6 - "My Generation"
7 - "Behind Blue Eyes'
8 - " Join Together"
9 - “You Better You Bet”
10 - "I'm One"
11 - "5:15"
12 - "Love Ain't for Keeping"
13 - "Amazing Journey"
14 - "Sparks"
15 - "Pinball Wizard"
16 - "See Me, Feel Me/Listening To You"
17 - "Baba O'Riley"
18 - "Won't Get Fooled Again"

Desde o início, The Who toca em volume altíssimo e por isso entrou para o Guiness, o livro dos recordes. Em alguns shows o som quase se equiparava a de um Boeing 777 decolando, como foi o caso de um show em Toonto, no Canadá, em 1977 quando mais uma vez Pete, Roger e John(Entwistle) romperam os tímpanos e foram parar no hospital. Aliás, Pete Townshend sofre com graves problemas no sistema auditivo e já passou por várias cirurgias. Ele usa quatro aparelhos para surdez, dois em cada ouvido. Roger Daltrey, idem. Os saudosos Keith Moon e John Entwistle também estavam surdos. No Rock in Rio, mesmo a mais de 100 metros do palco, muita gente tentou tampar os ouvidos e alguns, experientes em se tratando da banda, levaram protetores de ouvidos para lá. Townshend explica que “o alto volume é parte do nosso processo criativo. O alto volume provoca ondas sonoras diferentes, provoca feedbacks riquíssimos”.

O monumental baterista Zak Starkey tem uma história bem interessante. Filho de Ringo Starr, ele foi afilhado de Keith Moon, o maior baterista de rock de todos os tempos, morto em 1978, aos 31 anos. Quando Zak fez 11 anos, Moon deu a ele uma bateria. O garoto começou a tocar, ensaiar, evoluiu e no ano 2000 foi chamado para tocar no Who. O que notei ontem foi que Zak aprendeu tão bem a lição do mestre Moon que está chegando muito perto dele com o seu jeito implacável e livre de tocar. Pete Townshend disse que “acho tanto Moon como Zak gênios, cada um no seu estilo”. Quem viu o show ontem (de preferência lá no Rock in Rio), pode confirmar o extraordinário talento do músico, que faz parte do grupo que não teme ousar, não gosta de “bateria econômica” e muito menos de vassourinhas.

Na segunda guitarra está Simon Townshend, irmão 15 anos mais novo de Pete. Nos anos 80 ele tentou carreira solo gravando alguns discos, mas só se firmou em 2006 quando foi convidado para produzir o álbum “Endless Wire”, último álbum de inéditas da banda e começou a tocar no Who.

Pete Townshend postou quarta-feira o Facebook que pretende entrar num período sabático para criar “algo realmente novo, revolucionário, que eu não sei bem o que é ainda.” No entanto, em sua mensagem, não fica claro se The Who vai parar ou vai prosseguir em sua turnê mundial que já dura alguns anos. Quem sabe, voltar ao Brasil em 2018. O importante é que o Rio e o Brasil, pela TV, ficaram conhecendo a fúria criativa e genial do The Who, o que repercutiu imediatamente nas redes sociais onde a banda virou assunto da noite de ontem.

Sei que muita gente está arrependida de não ter ido assistir no Rock in Rio, alegando, com razão, o desconforto da operação gigante que significa ir ao festival. De fato é extremamente cansativo, mas, para mim e outras milhares de pessoas, valeu a pena. Claro, ver pela TV também tem suas vantagens mas o som que como raios e trovoes invade as nossas almas e nos leva a um estado emocional absolutamente inexplicável, só ao vivo.

Valeu!

P.S. - Agradecimento comovido a essas pessoas muito especiais que compartilharam este momento único comigo: meu irmão Fernando Mello, meu amigo-irmão André Valle e a amiga eterna e muito querida Liliane Yusin.