terça-feira, 3 de outubro de 2017

Um Onassis na Baía de Guanabara

As barcas não são mais as mesmas. Nem o Rio, nem Niterói, nem o país, o mundo, muito menos nós, mas o fim da barca Rio-Niterói de madrugada deixou muita gente com saudade. Gente que estudava no Rio, ou trabalhava em compensação de cheques, telemarketing, enfim, a barca “do sereno” era um celeiro de casos. Muitos casos que renderam crônicas, artigos, contos.

Um grande amigo era um quase hippie, gente boa pra caramba e naquele final dos anos 70 vivia uma grande paixão. Um dia teve uma idéia. Afoito, corajoso, tocou a ideia em frente e, as 23 horas e 45 minutos de um sábado de meia lua, estavam ele, a paixão (que já alcançara a condição de namorada), duas garrafas de vinho branco, um edredon, travesseiros, taças de cristal e velas.

Ele conhecia um marinheiro, daqueles que acordavam os passageiros batendo com um jornal no encosto dos bancos de madeira quando a barca chegava. Meu amigo pagou a passagem, fez um sinal para o marinheiro amigo, entrou na barca, subiu e foi lá para a popa.

Assim que a barca saiu, ele fez pepé para a namorada e em seguida subiu no teto da embarcação. Esticaram o edredon, abriram o vinho, acenderam as velas, deitaram e passaram a noite ali, no teto da barca, sob o manto da meia lua, céu banhado de estrelas, brisa do mar, enfim, parecia Onassis com Jaqueline singrando no mar grego num mega iate. Rio, Niterói, Rio, Niterói, incontáveis vezes. Fizeram amor, deram gargalhadas, sem que os passageiros suspeitassem o que estava acontecendo lá em cima.

Quando o sol ameaçou surgir em Niterói, o casal desceu. O marinheiro amigo já não estava mais – certamente seu horário havia acabado. Deixaram a embarcação e ele, meu amigo, tirou uma única foto da proa de seu provisório ninho de amor. Foto que não mostra a ninguém. Em Niterói, foram a padaria extinta “Pão Quente”, tomaram café num copo só, juras de amor trocadas entre pequenos goles e fatias de queijo e presunto.

Terminava assim mais uma viagem da “barca do sereno”. Uma de muitas, muitíssimas, cujo segredo o mar, mesmo poluído, consegue guardar até hoje.