quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Caros amigos, onde quer que estejam

Meus amigos são como os amigos de muita gente. Com o passar do tempo, cada um toma um rumo no mundo, na vida, no tempo, nessa maravilhosa bruma chamada existência. Alguns me disseram que também sigo rotas muitas vezes impossíveis de serem seguidas. Será? Pode ser. Não sou dono de verdade alguma.

Meus amigos são quase exatamente iguais a foto que pus ali em cima. Um emaranhado de trilhos aparentemente absurdos, mas certos de suas origens e destinos.

Fato é que não vejo a maioria dos meus amigos há bastante tempo. De vez em quando entro em contato, eles comigo, como vai, vai bem? E aí, o que tem feito? Sabem como é? Conversa de amigo de “meu chapa”, “meu camarada” e rola o tempo, passa a estrada, passam os desvios, os amigos lá, sempre lá. É só precisar e eles aparecem, rapidamente. Meus amigos são pessoas muito especiais.

Pode ser impressão minha, mas a cada ano a gente se distancia mais. Motivos diversos. Mas fica a certeza de que quando precisar, meus amigos aparecem e, logicamente, eu também me junto a eles se precisarem de mim. É só chamar.

Eu ia escrever uma mensagem de fim de ano para eles e para vocês, leitores. Leitores que conheço, que não conheço, mas que estão juntos desta Coluna em busca da felicidade ampla, geral e irrestrita, como aquela anistia de 1979 que, felizmente, aconteceu.

A mensagem deu lugar a este texto, não sei por que. Deixei rolar. Estava sentado no sofá pensando em amigos, histórias, fatos, fotos, momentos, gargalhadas, lágrimas e bateu saudade. Saudade absurda de todos os meus amigos, ao mesmo tempo. Não, não são muitos. Os de fé são poucos.

Na hora da saudade entra até gente que não conheço e conversei dentro de avião, ônibus, metrô, barca, trem. Conversa solta, livre, sincera, bonita, como as amizades. Como a neve gelada do hemisfério norte e a garoa morna do hemisfério sul nesta época do ano. Época de refletir, refratar e, sim, tentar matar a saudade dos amigos. Mesmo aqueles que estão tão distantes que parecem invisíveis.

A mensagem? Escreverei outro dia, quem sabe?


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Rio Show



Sininho – Acorda! Já são sete e meia e o encontro em Vargem Grande começa as nove. Não quero atrasar.

Ben-Hur – Mas hoje é meu aniversário...e tenho um evento importante.

Sininho – Frescura, Ben-Hur. Aniversário é um dia como outro qualquer. Levanta, vai. Levanta aí!

Ben-Hur – Pensei em almoçar com você, meus filhos...

Sininho -  Aqueles dois parasitas? Fala sério, Ben-Hur! Quem pariu Matheus que o embale; essas duas amebas são problema da mãe deles, aquela intelectualzinha de merda. Além do mais eles nem vão lembrar que é seu aniversário...se toca homem. Olha, eu não quero chegar atrasada ao evento das trutas em Vargem Grande.

Ben-Hur – Trutas?

Sininho – Te falei ontem, te falei anteontem, porra. Evento das trutas chinesas amestradas, só vai gente chique.

Ben-Hur – Vai até que horas?

Sininho – Termina meio dia, mas de lá vamos direto para Santa Teresa...

Ben-Hur – Como assim?

Sininho – Não tem como assim, Ben-Hur. Daqui vamos para Vargem Grande. De lá para Santa Teresa e depois direto para Grumari.

Ben-Hur – Fazer o que?

Sininho – Inauguração da exposição de instalações invisíveis de Julieto Di Capri.

Ben-Hur – Quem?

Sininho – Você está cada vez mais lamentável...Julieto Di Capri é o must do must na Europa hoje. Foi capa da Forbes, capa do Le Monde, capa da Quem, capa da Caras, capa da Globo Rural. Às vezes acho que você é débil mental.

Ben-Hur – Mas isso vai até que horas...hoje eu tenho um evento.

Sininho – Vai até a hora que eu quiser.

Ben-Hur – Melhor parar ali para por gasolina.

Sininho – Impressionante...

Ben-Hur – Eu te disse que esse carro chinês é ruim, mas você...

Sininho – Joga na minha cara, covarde! Diz que eu achei bonitinho e você comprou. Quem manda ser babaca?

Ben-Hur – Que horas são?

Sininho - Esqueceu o relógio de novo? Que coisa...quinze para meia noite.

Ben-Hur – Estou atrasado para o evento importante...

Sininho – Daqui não saio. Di Capri ficou todo feliz quando me viu...só tem gente bonita, descolada...vai você, eu me viro sozinha.

Ben-Hur – Tudo bem. Até mais.

Sininho – Como assim, tudo bem e até mais?? Hein? Ben-Hur! Ben-Hur, cadê você? Você nunca disse isso…

Meia noite e meia – Ben-Hur ao evento importante. Chega a pequena capela, enfeitada com luz de velas, ao lado da cachoeira. Chegou a tempo. Cerca de 20 pessoas, amigas, muito amigas.

Meia noite e quarenta e cinco – Amanda entra na capela, braço dado com o irmão.

Uma hora – O juiz considera Amanda e Ben-Hur casados.

Três e quarenta – O avião começa a taxiar. Ben-Hur e Amanda se beijam de novo.

Quatro horas – senhores passageiros com destino...


Dias depois – Walfrido, da seguradora Boas Novas, toca a campainha. A diarista abre a porta da casa de dois andares.

Walfrido – Dona Sininho, por favor.

Diarista – Quem deseja?

Walfrido – Seguradora Boas Novas.

Sininho – Sim...

Walfrido – Trouxe esse carro chinês por ordem do senhor Ben-Hur.

Sininho – Aquele moleque, canalha, escroque...sumiu há dias e ainda tem coragem de mandar esse chinês de lata. Patife, venal...que eu amo tanto...amo tanto...Seu Walfrido, onde ele está?

Walfrido – Assine aqui. Por favor, madame.

Sininho – Mas, e ele?

Walfrido – Deixou esse envelope. Disse que dentro tem um papel com nome e endereço do advogado que vai resolver tudo.

Sininho – Só isso?

Walfrido – Tenha um bom dia.

Sininho – Bandido! Bandido nefasto que...eu amo, eu quero, eu preciso como o ar da noite...água do mar...Ben-Hur, volta meu Ben-Hur.

Diarista – Dona Sininho...ai, meu Deus...quer que eu chame um médico? Hein, 
Dona Sininho? Dona Sininho, acorda! Já são sete e meia!

Sininho - Hoje não é um dia como outro qualquer...











segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Aposentados

A última vez que os dois se encontraram foi numa agência do INSS. Estavam sentados aguardando senhas para serem atendidos e é lógico que se reconheceram. Foram vizinhos da adolescência até os 20 anos quando os roteiros existenciais mudaram seus trajetos. E trejeitos.

Valdo e Alcides iam dar entrada na aposentadoria e cada um segurava uma pasta cheia de papéis minuciosamente organizados. Conversavam amenidades. Saudade da rua onde moraram, de um parque, amigos comuns, os que morreram, os que sobreviveram, pipas, balões, o nado, festas juninas, namoradas. Tinham a mesma idade, mas Alcides desde novo era recatado e moralista enquanto Valdo, sempre que podia, pulava o muro de um sobrado para namorar uma arrumadeira.

O assunto não veio à tona, mas Alcides sempre censurou Valdo. Por sua vez, Valdo fingia que não sabia que o amigo o achava “tarado”, “má companhia”, “matador de aulas”, “alma perdida” etc.

Tudo quase resolvido na Previdência, onde deram entrada nos pedidos de aposentadoria, os dois mais uma vez se separaram e passaram mais uns bons de 10 anos sem notícias mútuas. Até o domingo, numa padaria num bairro distante. Valdo tinha levado uma das netas para fazer prova do Enem e decidiu esperá-la. Deixou o carro num estacionamento e foi tomar café na padaria.
Sentado numa mesinha, perto da porta, viu a confusão. A polícia tinha acabado de invadir a casa de um pedófilo. Em seu quarto, acharam uma criança que estava desaparecida, centenas de fotos, vídeos, aquele quadro hediondo.

Valdo resolveu ir ver o que estava acontecendo e seu queixo quase caiu quando reconheceu Alcides. Era ele o pedófilo. Justo ele, Alcides, o moralista, o bom samaritano, membro da TFP- da tradição, família e propriedade, o homem que achava Valdo um perdido.

- Me tira daqui, Valdo! Eles vão me matar!

Alcides reconheceu Valdo que não conseguia esconder o horror. Mesmo assim ajudou a polícia a afastar a pequena multidão que queria linchar Alcides, um velho decrépito, obeso, inchado, provavelmente alcoólatra que nada tinha a ver com o homem bem vestido de anos atrás na agência da Previdência.

Advogado bem sucedido, Valdo prometeu a Alcides que iria a delegacia depois que sua neta acabasse a prova do Enem, mas quando a doce Camila de 18 anos deixou o portão da faculdade onde fizera a prova e se atirou nos braços do avô, emocionada porque tinha ido bem na prova, Valdo decidiu não mais defender Alcides.

Foi a delegacia comunicá-lo. Numa sala reservada, ambos conversaram.

- Não vou defendê-lo porque um monstro como você não pode circular livremente.

- A culpa é da aposentadoria, Valdo! Eu juro que é! Naquele dia na agência você disse que ia se aposentar mas não iria parar de trabalhar porque se parasse de trabalhar iria morrer ou adoecer...lembro bem que eu respondi que tudo o que queria era vestir um pijama listrado, comprar um canário, uma gaiola e não fazer nada...no máximo jogar uma peteca.

- Aqui está o seu hediondo prontuário...culpa da aposentadoria...aquele papo de “cabeça vazia é oficina do coisa ruim”...vejamos, há 20 anos atrás você foi acusado de estuprar a primeira criança nas imediações do sindicato que presidia.

- Eu fui inocentado! Eu fui inocentado!

- Foi inocentado porque esses dois políticos aqui entraram no circuito temendo que você falasse de uma operação financeira ilegal que o seu sindicato estava fazendo para eles.

- Eu fui inocentado!

- Cale a boca! Todo o homem não imbecil sabe que parar de fazer as coisas, “encostar” como dizia uma gíria antiga, adoece e mata, mas não adoece o caráter. Você sempre foi podre, Alcides, mas escondia esse esgoto no moralismo, na UDN de macacão que é o seu partido político, mania de acusar as pessoas de vagabundas das elites. Você teve uma única namorada, com quem casou e se vangloriava disso, se achava um exemplo de comportamento, mas já estava no desvio como mostram essas suspeitas aqui. Foi quando sua mulher fugiu de casa enojada. Você conseguiu enganar até o dia que se aposentou e parou. Quando parou o seu lixo boiou publicamente.

- Eu fui inocentado!

- Se eu pudesse te matava, Alcides, mas não sou assassino. Sou “tarado”, lembra? Sou “má companhia”, “matador de aulas”, “alma perdida”, lembra? Mas não sou assassino.

- Eu fui inocentado! Não me abandone.

Valdo levantou e deixou a delegacia. Os programas de TV estilo mundo cão massacravam Alcides, pediam pena máxima para ele.

Como era previsto por todo mundo, Alcides foi encontrado morto na cela na manhã do dia seguinte. Ao ouvir a notícia no rádio, a caminho do escritório, Valdo lembrou de Alcides.


“A culpa é da aposentadoria!”.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

“1973- o ano que reinventou a MPB”, de Célio Albuquerque vai virar série do Canal Brasil


“1973- o ano que reinventou a MPB”, de Célio Albuquerque 431 páginas) vai virar série do Canal Brasil, já em produção. Maravilha!

O excelente livro foi lançado pela Sonora Editora, do pesquisador musical Marcelo Froes e é leitura fundamental para quem se interessa por música brasileira de qualidade. Cada autor conta como um álbum (LP na época) foi feito. Como, quem, onde. Está tudo lá.

O livro chegou num momento especial, difícil, complicado, bizarro da música brasileira que está assolada pela molambalização, baixaria e outros conceitos ainda menos dignos.

Lembrar de épocas como 1973 foi uma grande sacada do Célio, um viciado em qualidade como todos os ensaístas que estão à bordo deste livro. Ou seja, a necessidade de conhecer a fundo ou de relembrar bons momentos, faz de “1973- o ano que reinventou a MPB” uma iguaria necessária nesses tempos de fome de qualidade musical que estamos vivendo.

Bom saber que houve um tempo que mostrou que é permitido criar, ousar, delirar, surfar as ondas da qualidade musical, sem medo, sem jabá, sem baixaria.

Célio Albuquerque está de parabéns pela organização do livro, cujos textos são extraordinários. Marcelo Froes merece aplausos por ter colocado a sua Sonora editora à frente deste ousado movimento (sim, o livro é sobre um “movimento” com nome de ano, 1973), em tempos de arrego editorial.

Best seller. “1973- o ano que reinventou a MPB” está “condenado” a se tornar um, apesar de não ser de autoajuda ou de baixa literatura.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

32 de dezembro

Segunda-feira anormal como outra qualquer.

Entra no ônibus pensando no nada ignorando o falatório em volta. Para, anda, para, anda.

De propósito desce fora ponto, entra no bar “Do Nunca”. Bebe leite morno, não paga e sai. Reto. Reto. Reto.

No trabalho, muitas horas extras. 31 de dezembro. Projetos, softwares, alguns risos aflitos das secretárias tramando o reveillon com amigas no celular.

Sete da noite. Só na corporação. Mesas desarrumadas, uma ou outra cadeira fora do lugar, ar condicionado central no máximo. Só na corporação. Vidros duplos a prova de som, potentes computadores de última geração processando projetos, inventos, planilhas, manuais, procedimentos.

Nove da noite. Pega o telefone. Não há para quem ligar. Desliga. Senta em frente ao computador principal. Procedimento previsto para as nove da noite ali, três da tarde lá. Lá, Los Angeles, L.A. 

Enter. OK.

Onze da noite. Duplo procedimento. Demorado. Complicado. Cinquenta e sete minutos. 

Enter. OK.

Onze e cinquenta e oito da noite. Silêncio. Os dois seguranças na sexta ronda de rotina entram no salão. Desejam feliz ano novo.

Meia noite e cinco. Deixa o prédio e caminha entre o estrondo e as luzes dos fogos de artifício. Pessoas gritam nas janelas, celebrando o que acham que precisam celebrar.

Meia noite e vinte e três. Táxi.

Uma e doze da madrugada. Desce do táxi.

Uma e vinte da madrugada. Outro táxi.

Vinte horas e quinze minutos. Entra na casa. Velha conhecida. Bate o portão com as filhas gêmeas penduradas no pescoço.


Enter. OK.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Homem que Amava as Mulheres

                                                                         
François Truffaut (1932-1984) era um gênio e deixou nesse planetinha suburbano, moralista e cafajeste uma montanha de obras primas, entre elas “O Homem que Amava as Mulheres”, filme de 1977. É difícil e achar, mas está por aí.

O filme conta a história de Bertrand Morane, um cara de meia idade que tem obsessão por mulheres. Bertrand conquista, conquista, conquista compulsivamente mas vive afogado num oceano de sofreguidão, angústia, culpa e solidão.

Bertrand é interpretado pelo polonês Charles Denner, morto em 1995 com 67 anos. Truffaut nos deixou com apenas 52. Denner atua muito bem em “O Homem que Amava as Mulheres” e não foi à toa que ao longo de 30 anos foi requisitado também por  Louis MalleClaude ChabrolJean-Luc GodardCosta-GavrasClaude Lelouch

Capaz de atirar de propósito o carro num poste e andar 300 quilômetros para conquistar uma mulher, Bertrand é neurótico radical sim, mas traz os traços muito comuns dos homens de meia idade que vivem saudavelmente, nadando contra as correntes da sociedade hipócrita que formam as classes média e rica. Os pobres? São muito mais livres, basta olhar.

Um dia desses vi uma malabarista de uns 20 e poucos anos num sinal de trânsito, batizado por São Paulo de semáforo. Shortinho enterrado, braços levemente tatuados, pearcing no nariz, em troca de uns trocados dos motoristas ela jogava três bastões de fogo para cima, para baixo, entre as virilhas e os manipulava com a intimidade das cortesãs do século XX manuseando um robusto bacamarte.

Se Bertrand Morane estivesse ali daria um jeito de conseguir nome, telefone, endereço, CPF da malabarista, para caçá-la, abatê-la e depois ser mais uma vez acachapado pela ansiedade infinita dos infelizes e seus teoremas existenciais indecifráveis e irrealizáveis.

Como Nelson Rodrigues, Bertrand Morane era um doente, mas faz falta. O Bertrand que nos habita, asfixiado pelo torpe moralismo gerenciado pelos carrascos da liberdade comezinha, caiu em desuso no crepúsculo do século 20 quando o lema “é permitido proibir” ganhou as calçadas, avenidas, viadutos, lojas de calcinhas e sutiãs, bordéis.

O auto batizado “garanhão” de Bertrand, na verdade um paquerador radical, inconsequente e (repito) sofredor até a medula hoje é rotulado de “assediador” “impertinente”, “pervertido”, “tarado”, digno de ser “retirado do meio social em nome da moral e dos bons costumes”.

“O Homem que Amava as Mulheres” poderia ser exibido em escolas para mostrar a face oculta da opressão e, de lambuja, que Sigmund Freud
teve razão quando falou da projeção feminina esculpida pela figura da mãe. A mãe de Bertrand era prostituta e quando ele era adolescente a via desfilando de calcinha e sutiã pela casa, causando uma dor atroz. Mais: ele abriu suas gavetas e leu sua troca de correspondências com os machos, dezenas deles, e sempre o mandava levar cartas (para eles) ao correio. Bertrand jogava fora.

Minha faculdade exibiu o filme em 1978, em pleno pátio, para quem quisesse assistir. Me disseram que lotou, mas eu não estava lá. Se a TV Brasil (estatal) fosse do Estado e dos políticos passaria esse filme em horário nobre, mas não é da índole atual estimular o que agrega e sim o que racha, divide, mutila. Povo mutilado perde força e poder e, assim, o governo rouba mais à vontade.

Não sei onde encontrar “O Homem que Amava as Mulheres”, mas vale a pena correr atrás via Google, Bing e similares porque é preciso deixar claro para todo mundo que houve, sim, uma era onde a vida era mostrada, exibida, arreganhada sem pudores, censores, réguas, compassos, não-libidinagem explícita.


domingo, 19 de novembro de 2017

Uma “re-resenha” do magistral show de Paulinho Guitarra no Teatro Municipal de Niterói, dedicada a um grande vacilo meu

                        Paulinho com a Diva Adriana Ninsk. Foto do mestre Luiz Edmundo Castro
                          Paulinho, aos 13 anos, em sua primeira banda, "Os Adolescentes".Ele é o segundo da direita para a esquerda com Oldair, Dutra e Luiz Carlos Britto.

Aqui no sertão da minha suave ignorância em informática intuí que existe um componente ilógico nesse mundo binário. Desculpa de ineptos? Pode ser. Explico:

Cheguei do show do grande Paulinho Guitarra no Teatro Municipal de Niterói (parabéns pela esplendida programação, Marilda Ormy), na última quinta a noite, com a alma lavada. Teatro lotado, música plena no ar. Nas primeiras horas de sexta, dia 17, abri esta plataforma do Blogger e digitei direto no sistema uma resenha sobre o show. Sim, isso não se faz, deve-se escrever num editor de textos e depois migrar para o Blogger, mas eu estava ansioso, queria compartilhar logo com todo mundo a alegria de ter assistido a um dos melhores shows que assisti na vida, já que Paulinho Guitarra está entre os melhores do mundo.

Como sempre, postei e compartilhei no Facebook. Beleza. Na mesma hora, dezenas de comentários de pessoas que também assistiram, todos no maior astral, na maior alegria, chamando o show de “fabuloso”, “grandioso”, “genial”. E assim foi até a tarde de sábado, ontem, quando postei no Facebnook a chamada para o meu artigo semana no site Coluna do Gilson, do amigo Gilson Monteiro.

Devo ter feito alguma lambança porque quando pus a chamada no ar derrubei uns quatro artigos do Blogger, inclusive a resenha do show do Paulinho que, o vacilão aqui, decidiu escrever direto, e não no word para caso de necessidade.

Mas, querem saber? Uma boa oportunidade para revelar mais uma vez a minha emoção diante do show maravilhoso que reuniu quase 25 músicos se revezando no palco que foram ao Teatro Municipal abraçar e tocar com o Paulinho Guitarra pelos 62 anos de vida e 50 como músico.

Afinal, ele inventou uma música nova, uma inédita maneira de tocar guitarra absolutamente a prova de rótulos. Foi um show-baile-aula de música com direito a músicas de seu novo álbum que vem aí que vai se chamar “Baile na Suméria”, que foi também o nome do show.

Demais! Desculpem o vacilo (foi mal, Paulinho, foi mal Jane Lapa!) e postem, por favor, seus comentários de novo já que, como na música, o jornalismo também tem seus remixes. Prometo não mexer (rs).

Uma boa semana!

sábado, 18 de novembro de 2017

Solidão

Saudade, velho amigo.

Não adianta fugir, correr, pular cercas. Ela é o maior desafio existencial da espécie humana. Solidão. Por mais que saibamos se tratar da condição humana básica e que em muitos casos se apresenta como um agudo sentimento passageiro, a solidão é impiedosa. Machuca, fere, marca. Musa de milhares de canções, filmes, poemas, livros.

Saudade, velho amigo.

Flagelo dos que não suportam conviver com suas ebulições interiores, ignorando a regra, provada e comprovada, de que o homem é o mais solitário dos mamíferos. Por mais solidário que às vezes demonstre parecer.

Saudade, velho amigo.

A solidão exige muita resistência, criatividade, autocompreensão. Os que se tornam reféns deste deserto que ora se apresenta como fato consumado, ora como circunstância de momento, cai nos braços da culpa, que, dizem, é bem pior. É fato que todos os seres humanos eventualmente estejam nas garras da solidão.

Saudade, velho amigo.

Transformá-la em criação é o desafio. Desafio possível.

Saudade, velho amigo.

O solitário latino, por inúmeras razões socioculturais, parece padecer mais. Ninguém sabe ao certo por que a solidão, apesar de voraz, é imprecisa. Muito imprecisa. E nos pega sem dia e hora desmarcados.


Saudade.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Ives Gandra: ‘Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?’

Artigo do jurista Ives Gandra publicado no Estadão


Meu Nome é: Ives Gandra da Silva Martins. Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos. 

Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna). Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que eles ocupassem em 05 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado, e ponham passado nisso.

Assim, menos de 450 mil índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também por tabela – passaram a ser donos de mais de 15% de todo o território nacional, enquanto os outros 195 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% do restante dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados. Aos ‘quilombolas’, que deveriam ser apenas aqueles descendentes dos participantes de quilombos, e não todos os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição Federal permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito. 

Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef o direito de ter um Congresso e Seminários financiados por dinheiro público, para realçar as suas tendências – algo que um cidadão comum jamais conseguiria do Governo! Os invasores de terras, que matam, destroem e violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que este governo considera, mais que legítima, digamos justa e meritória, a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse ‘privilégio’, simplesmente porque esse cumpre a lei.. 

Desertores, terroristas, assaltantes de bancos e assassinos que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de R$ 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos. E são tantas as discriminações, que chegou a hora de se perguntar: de que vale o inciso IV, do art. 3º, da Lei Suprema? Como modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade, em terra de castas e privilégios, deste governo.


O que é que a boiada tem?

O que é que a boiada tem?

Minha única incursão na pecuária é quando me atraco com uma picanha ou mignon num bom restaurante. Desde que não seja Friboi ou qualquer bosta produzida pela JBS.

Tentei até arriscar no mercado, muitos anos atrás, quando fui um dos 20 mil babacas que comprar Certificados de Investimento Coletivo (CICs)* de uma empresa que vendeu mais boi de papel do que boi de fato, o que chamei numa reportagem em São Paulo de “Boi sem mugido”.

O presidente da Presidente da Fazendas Reunidas Boi Gordo, o empresário Paulo Roberto de Andrade jura que vai pagar a todo mundo. Todos, menos a mim cujo certificado estava naquela Kombi que fazia uma mudança minha, foi roubada no caminho e depenada. Os ladrões levaram meus discos, livros (de vinil não liguei, mas todos os meus CDs foi demais!), títulos de cidadania, diploma do jardim de infância e os cacetes.

Curiosamente os pan corruptos  irmãos sertanojos Joesley e Wesley Batista chupam grana de bois. Chupam, lavam, fraudam, etc.
O Grão Mor da corrupção no Estado do Rio, o cabeça da família Picciani, professor de roubalheira generalizada de Sérgio Cabral, comparsa de Paulo Melo e do quase membro vitalício do Tribunal de Contas do Estado, escrotóide Edson Albertassi, também é cafetão do gado.

Quer dizer, o Grão Suíno Picciani usa o seu exército de chifrudos, espalhados em várias e milionárias fazendas para todo o tipo de tramoias, inclusive presidir a Alerj, um puxadinho que mantem no centro do Rio, habitado por suínos de várias espécies que trabalham pelo mal do serviço público. Um puteiro (no mau sentido) de verbas púbicas como a mais recente descoberta da PF. Mediante algumas dezenas de milhões de reais, Picianni, Paulo Melo e o escrotóide Edson Albertassi empresas deram um rombo de R$ 280 BILHÕES no Estado do Rio. 
Conclusão: o estado faliu.

Mas e o fascínio pelo boi que os corruptos tem? O que será? O que é que a boiada tem?

* Minha última aventura no cassino chamado bolsa de valores foi quando, assistindo TV, vi Amaral Gurgel perguntando: “Se Henry Ford te chamasse para ser sócio, você seria?”. E convidou para a compra de ações para financiar o carro BR 800.
Eu e meu saudoso amigo Alex Mariano, fera também em mercado financeiro, compramos. 
O BR 800 foi lançado. Dias depois a Fiat acabou com ele lançando o Uno Mille. A Gurgel faliu e minhas ações foram para Bicas, MG. Nunca mais olhei nem para o site da bolsa de valores.



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Seu Ladrão

Seu Ladrão militava na camelotagem do Centro do Rio. Cabelos e barbas brancas, caloteiro profissional, era cumprimentado com nojo pela freguesia que ao abordá-lo soltava o dobrão: “Fala seu Ladrão, escroto filho da puta!”.

Em sua banca, Seu Ladrão vendia óculos falsificados, carregadores de celulares (também produzidos por aí), relógios. Faturava mais no conserto de objetos. Por exemplo se alguém levava óculos comuns com um pequeno problema, Seu Ladrão com mãos de mágico safado dava um jeito de dar uma “perda total”. Vendia novos para o incauto e depois consertava os óculos que foram falsamente condenados para revender.

Mentiroso, inventou que foi parido no Nordeste e atirado num Pau de Arara aos 11 anos de idade. O pau de arara teria capotado em Campos dos Goytacazes e de lá, recolhido por uma família, ele veio para o Rio onde começou a trabalhar como michê nas imediações do Passeio Público. Mentira. Seu Ladrão foi parido no Rio Comprido e foi vendido para uma família da Tijuca. Desde criança roubava compulsivamente até ser flagrado mexendo numa caixa de abotoaduras douradas do padrasto. Esbofeteado, foi chutado para a rua e se juntou a um bando de pivetes no Catete.

Um aliciador o levou para a camelotagem. Começou vendendo pilhas descarregadas, pólvora granulada para fazer cabeça de nego, cheirinho da loló e outras iguarias ilegais. Ganancioso, deu um telefonema anônimo de um orelhão para a polícia informando que seu superior (o aliciador) tinha estoque de drogas ilegais numa garagem no Catumbi. A polícia estourou a boca e, para alegria de Seu Ladrão, seu aliciador foi morto na troca de tiros.

Não gostava de ficar parado na banca, temendo levar uma surra de surpresa. Por isso percorria suas cinco filiais, que roubou de outros camelôs. Enquanto caminhava (sempre de camisa vermelha) era cumprimentado pelo povo. “Boa tarde, larápio”, “Fala, moleque!”, “Teus ovos tão assando, escrotão” e por aí ia. 

O único que o tratava cordialmente era o gerente do banco onde Seu Ladrão acumulava uma riqueza, fruto de anos e anos de trambiques, tráfico, delações e até sequestros de cachorrinhos de raça de velhinhas de Copacabana.

Um dia, Seu Ladrão percorria o Centro da cidade maravilhosa e quando deu por si estava no buraco do Lume. Contemplou o panorama de concreto e aço e disse para si mesmo “Ladrão, tu é foda”. Um segundo depois, levou um tiro na nuca, a queima roupa. Um escoteiro que o seguia tinha vindo do Rio Grande do Sul especialmente para fazer justiça com as próprias balas.

O corpo de Seu Ladrão rolou na calçada. O escoteiro abriu a braguilha, mijou no rosto do que restou do camelô e seguiu em frente. Fogos, aplausos, assobios, a multidão ensandecida comemorava o fim de uma era. Diz a lenda que o corpo de Seu Ladrão foi recolhido muitas horas depois por um caminhão de lixo porque, cinco anos antes, ele havia roubado arcadas dentárias no IML para revender para assassinos de aluguel. Ninguém no IML quis dar entrada no corpo.

Seu Ladrão não imaginava que seu próximo passo na vida seria um tiro na nuca dado por um escoteiro. Afinal, estava quase conseguindo virar parlamentar.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

15 de novembro

Uma nova corrente de historiadores está botando os pombos nos telhados certos. Entre eles, destaca-se o jornalista e historiador Laurentino Gomes que escreveu o clássico “1889 – Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”.

É o último livro da trilogia sobre o Brasil do século XIX, iniciada com as obras "1808" e "1822", que contam o período de transição do Brasil da colônia para a república, começando com a transferência da corte portuguesa para o Brasil no ano de 1808, depois com a independência no ano de "1822" e, por fim, com a proclamação da república no ano de 1889.

Até ler “1889” eu achava o marechal Deodoro um patife. Depois de ler Laurentino e outros historiadores vi que o marechal era paranoico, ditatorial e de extrema incompetência. Tanto que, aos trancos, conseguiu se pendurar no poder por apenas dois anos, de 1889 a 1891.

Um aspecto interessante desse torpe “herói” brasileiro foi o fato de ser um monarquista radical, que se dizia amigo de Pedro II, a quem devia favores. Disse o marechal que ”quero acompanhar o caixão do velho imperador.”

Detesto a monarquia. Detesto a República, cujos 128 anos de total inutilidade e roubalheira são lembrados hoje, é lógico, por um feriado. A República, a partir de Deodoro, sempre foi vadia. A República sabe que o marechal estava doente em casa no dia anterior, 14 de novembro de 1889. Lauretino Gomes escreveu que os próprios republicanos, para forçar a barra, inventaram que Pedro II tinha dado ordem para matar o marechal. Não colou.

Os republicanos precisavam convencer Deodoro a romper de vez os laços com a monarquia. Valeram-se de outra notícia, essa verdadeira, pois chegou-se a enviar telegrama oficial nesse sentido. Quintino Bocaiuva e o Barão de Jaceguai mandaram um mensageiro a Deodoro para informar-lhe que o novo primeiro ministro, escolhido por Pedro II, seria Gaspar Silveira Martins, odiado por Deodoro por terem disputado a mesma mulher na juventude. Gaspar ganhou a mulher. Vingativo, Deodoro foi convencido a derrubar o regime.

E assim cavalga o Brasil, desde a chegada do grão-mestre da canalhice, D. João VI, escorraçado por Napoleão em 1808. Ele trouxe a Corte para o Rio de Janeiro e, num dos primeiros atos, inventou o Banco do Brasil que funcionava como um cofre pessoal, pagando suas esbórnias e as da Corte como um todo. Mas isso é outra história.

Ou melhor, estória.



segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Referências

Desde 1.500 vivemos momentos de crise nos serviços no Brasil. Isso atinge tanto as pessoas jurídicas como as físicas. Há tempos, uma senhora (leitora aqui da Coluna) perguntou qual é a minha TV por assinatura. Respondi. Ela emendou com uma segunda pergunta do tipo “você acha boa, recomentaria?”. Respondi, francamente, que não recomendo serviços a ninguém porque não confio.

Ela compreendeu mas ficou meio encafifada, por isso insisti para que não pensasse que eu estava de má vontade. Mais: sugeri (como sugiro aos leitores) que ela acessasse o site www.reclameaqui.com.br que concentra boa parte das reclamações sobre empresas de todos os gêneros, de smartphones a lambanças de prefeituras, passando por supermercados, farmácias, TVs por assinatura, internet. 

No ano passado, um vizinho perguntou qual é a minha internet em banda larga. Disse, mas também não recomendei porque está cada vez mais difícil darmos referências numa terra onde a qualidade dos serviços oscila como montanha russa. 

A coisa chegou num ponto que não recomendo, sequer, colegas para emprego porque o último que indiquei, recém-formado, que trabalhou como trainee numa empresa onde eu era sênior, e que eu julgava exemplar, foi para a companhia que indiquei e começou a faltar, chegar atrasado, vacilar no texto, sei lá o que deu no cara.

Esse caos nos serviços gerou uma situação incomoda, chata. Temos vontade de ajudar, indicar, mas depois corremos o risco de estarmos atrapalhando muito mais do que ajudando. Portanto, o negócio é ser franco e bater o pé: não indico de jeito nenhum.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sexólogos, a praga

Não sou desses que acham que o mundo está cada vez mais imbecil. Prefiro buscar caminhos mais saudáveis. Mas, depois que acabaram com o curso superior de jornalismo, qualquer parasita escreve o que bem desentende, onde quer, a preços módicos, ou de graça, ou até pagando. 
Dá de tudo. De falsos psicanalistas a podólogos picaterosos, passando por filósofos de porta de termas, chefes (xom X) de cozinha, enólogos de refresco de uva vagabunda.

Um sabujo desses fatura alto quando escreve uma coluna em jornais/revistas/sites de grande circulação ou faz comentários em programas de TV.  Vários deles (digo, sem susto, que é a maioria) até pagam para aparecer porque cada leitor gera, pelo menos, mil outros fregueses em potencial capazes de pagar valores até 50 vezes maior por uma consulta com o meliante. Só porque ele “escreve no jornal”, “aparece na TV”, “tem um super site na internet”, “fala no rádio”.

Uma outra espécie de golpista se juntou aos outros, o famigerado sexólogo. A praga se espalhou rápido pelos jornais, TV, sites onde os abutres da cona gélida e de glande flácida seduzem e conquistam a sua freguesia. Como a maioria não sabe escrever, paga a profissionais de comunicação para produzir textos que usem e abusem da força de expressão, de preferência forçando a barra para temas populares como “mulher ejacula, sim”, “amor e sexo são dois rios diferentes”, “cuidado, aquecimento pode engravidar!” e por aí vai, sempre ladeira (e nível) abaixo.

A vítima preferencial é o adolescente, que desde que o mundo é mundo é um desinformado. Todo mundo será, é ou já foi adolescente um dia e sabe que a sociedade costuma confundi-lo com os imbecis. E é justamente nessa brecha de ignorância, angústia e eclipse de conhecimento que agem os chupistas da sexologia (ou seria sexismo?), que traficam conselhos na mídia sabendo que é apenas o início. Sabem que, em seguida, as vítimas iludidas, dopadas pelo poder da comunicação, vão ligar em massa para seus escritórios marcando consultas, passando antes por uma livraria para comprar o décimo quinto livro do “especialista” sobre o mesmo tema, mas com título diferente e texto reescrito por profissionais de comunicação.

Soube um dia desses que uma suposta sexóloga que engana milhões de pessoas num programa popular de TV, já está cobrando 1.500 reais por uma consulta. O mais grave é que, me informaram, não há mais horário até fevereiro ou março. Um “sexólogo” que disse no rádio semana passada (eu estava num Uber e ouvi) que masturbação “pode fazer bem ou pode fazer mal, por isso deve-se procurar um especialista”, ou seja ele mesmo (detentor da verdade absoluta), cobra 800 reais por consulta com um plus a mais: o “tratamento” é pré-pago e dura, no mínimo, 10 consultas. O freguês terá que desembolsar 8 mil reais, em três vezes sem juros no cartão de crédito.

O mais grave é que tudo isso é feito a luz do dia, numa sociedade que tem mecanismos de controle em tese eficazes como, por exemplo, os Conselhos Regionais de Psicologia ou a Sociedade Brasileira de Psicanálise, entidades que podem confirmar se o doutor Fulano sabe diferenciar Sigmund Freud de uma geladeira Electrolux ou que a sexóloga Sicrana do Tal pode tecer comparações úteis entre um peixe elétrico e um clitóris avantajado.

É bom lembrar aos adolescentes que a sabedoria popular e o Kama Sutra (deem um Google, por favor) sabem há milênios que existem clitóris com 10 centímetros, conas que jorram como chafarizes e que a lei básica da vida, logo também do sexo, está numa definição nada erudita de Carl Gustav Jung (merece um outro Google): “Ninguém é igual a ninguém. A vida é diferente para cada ser desse estranho planeta. Ninguém sonha igual, pensa igual, ama igual.” Entro no vácuo de Jung: logo, sexólogos são picaretas, sim.

Problemas de disfunção erétil, um bom urologista resolve, como psiquiatras, psicólogos, psicanalistas (de excelente formação) podem resolver questões como o apagão da libido. Em homens e mulheres. Mas aí entra um problema de nossa cultura judaico cristã, o complexo de culpa, o tal constrangimento diante do óbvio. Achamos que é “falta de educação” perguntar a um médico, ou a um psicólogo, dentista seja o que for, onde ele estudou, que cursos de aperfeiçoamento fez, uma atitude que os picaretas amam, já que se alimentam da ignorância alheia.

Fuja das bruxarias, de todas, entre elas a “sexologia” (repito, seria sexismo?) praga que não para de se reproduzir como uma espécie de dengue genital, em garotos e garotas, homens e mulheres que poderiam estar bem melhor se buscassem fontes de informação mais qualificadas, bons livros, ótimos profissionais (lembro que sexólogo é uma mera grife, derivada da psicologia) e, sobretudo, aprender a viver a vida plenamente.

Apesar da “sexologia”.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Celacanto Provoca Maremoto

Celacanto, o grafite
                                                                       Celacanto, o peixe

Quarenta anos depois, finalmente descobri o mistério daquele saudoso grafite que tomou conta do Rio, do país, mundo afora. Li, com satisfação, esse artigo de Cris K que revela o autor da proeza. O colega jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C@l. Em tempo: celacanto existe. É um peixe que vive nas profundezas abissais. Agora, vamos ao artigo revelador:

Em 1977, um estranho e intrigante grafite começou a aparecer aqui e ali nos muros de Ipanema, no Rio de Janeiro: CELACANTO PROVOCA MAREMOTO. Com o passar do tempo, foi pipocando em outros lugares e, do Rio, chegou à América do Norte e Europa. Mas até hoje seu significado e propósito continuam um mistério.

Entretanto, tal assunto não será mais um mistério para os nossos leitores. O autor do CELACANTO PROVOCA MAREMOTO é o jornalista carioca Carlos Alberto Teixeira (C@T).

A origem de tudo passa pelo seriado chamado National Kid, exibido na década de 60, propaganda dos produtos National, que depois virou Panasonic. Um dos episódios era sobre os seres abissais, e um deles era o peixe chamado celacanto.

Num dado momento, o Dr. Sanada, que era um dos personagens maléficos, dizia: “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO”. E não provocava nada, quem provocava era um submarino chamado Guilton, que tinha uma boca com uma lâmina dentro, uma viagem completa.

Este negócio ficou na cabeça de Carlos até 1977, quando ele bolou no caderno um grafismo de "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO" circundado por uma moldura com uma seta, que caía em uma gota com dois tracinhos ao lado, mostrando que ela estava "tremendo":

Aquele era apenas o início. O próprio Carlos conta como a brincadeira foi crescendo e como ficou famosa a ponto de aparecer em noticiários da época:
- Um dia, após a aula, peguei giz e enchi a sala com tal representação. Era na parede, era no quadro-negro, era no chão, no teto, enfim, enchi a sala de aula e aquele negócio virou um símbolo. Na época eu tinha 17 anos, e fazia esse grafismo com giz em tapume de obra, o que gerava um contraste legal do giz branco com a madeira de coloração escura. Depois, comecei a comprar Pilot (caneta hidrocor, conhecida como pincel atômico). Ensinei alguns amigos a fazer a pichação CELACANTO PROVOCA MAREMOTO, pois havia um estilo que indicava que era eu quem estava fazendo, e não uma mera cópia (havia gente que copiava e dava para perceber que não eram da minha linhagem).

O grande salto foi usar spray e aí começou a se formar uma equipe que chegou a totalizar 25 pessoas, com gente pichando até em Washington e em Paris. Como era um trabalho que a gente fazia na madrugada, havia muita pichação na zona sul do Rio, em Ipanema, Leblon e Copacabana. Por ser uma região de gente muito cabeça, as pessoas começaram a perguntar: Ah, Celacanto, o que será isso?

Na mesma época, havia uma outra pichação, o Lerfá Mu, uma coisa de maconha. Tanto eu quanto esse Lerfá Mu estudávamos na PUC do Rio, e começamos uma batalha nos banheiros, que ficavam totalmente rabiscados: eu ofendendo o Lerfá Mu, ele respondendo... Até que um dia surgiram outros pichadores na área do Jardim Botânico e Leblon lutando contra o Celacanto e o Lerfá Mu, o que ocasionou uma aliança entre nós dois. Nos banheiros da PUC marcamos um encontro numa esquina de Copacabana. Para nos reconhecermos mutuamente, deveríamos ir com um chapéu ou com uma vassoura um guarda-chuva. Eu fui de chapéu e ele de vassoura guarda-chuva; nos reconhecemos e nos abraçamos e tal. Há alguns anos, soube que o Guilherme - autor do Lerfá Mu - faleceu de cirrose hepática.

A imprensa começou a investigar as pichações, afirmando que o CELACANTO era um código de encontro entre traficantes, imagina. Outros afirmavam que eram mensagens de extraterrestres, pois naquele tempo, e até hoje, é difícil encontrar uma pichação que seja uma frase, e ali havia um período completo, sujeito, verbo e objeto. Geralmente o cara botava o nome, ou um grafismo só, ou uma sigla, e essa frase, justamente por ser uma oração completa, despertava a curiosidade das pessoas.

Com a intensa especulação dos repórteres sobre "o que será?", "quem será", o então prefeito da cidade, o falecido Marcos Tamoio, instituiu uma multa exorbitante para aqueles que fossem apanhados pichando. Os moradores da Tijuca pegaram um dos pichadores que tinha um dos grafites mais lindos, o Megalodon (com o desenho de um tubarão), encheram o cara de porrada, deixaram-no de cueca e picharam-no todinho, largando o rapaz do meio da rua.

Meu pai trabalhava no Jornal do Brasil, um dos mais importantes do Rio, e uma das repórteres procurava descobrir que era o Celacanto. Meu pai chegou pra mim e disse: Carlos, não é uma hora boa para você aparecer? Aí você passa a ser domínio público, é visto como uma figura interessante e, quem sabe, escapa dessa multa, caso te peguem numa dessas aí de noite. Os meus pais sempre foram contra essa história de pichação, ficavam preocupados, mas eu fazia mesmo, não tinha jeito. Resultado: Topei, a repórter foi lá em casa, tirou fotos e publicou uma entrevista com meu nome, idade, o que eu fazia (na época eu cursava Física) e tudo o mais. Então eu saía na rua e era reconhecido, olha lá o Celacanto e o meu ego explodia... Pichei mais um tempo e aí fui diminuindo, pois precisava começar a ter que estudar mais para a faculdade (que era uma dureza) até que terminei abandonando o grafite.

Uns dez anos depois, recebi um telefonema:

- É você o Carlos Alberto Teixeira?

- Sim, sou eu mesmo.

- O autor do Celacanto?

- Exatamente.

- Ah, nós precisamos da sua ajuda.

- O que que foi?

- Precisamos que você faça o grafite de um cenário do programa da Angélica, na TV Manchete.

- Olha, eu faço, o preço é tanto...

Eu dei um preço exorbitante, os caras toparam, pedi um monte de material e eles me pegaram em casa numa tarde de sábado, me levando para uma estação de trem em Niterói. Ó, é aqui, você pode pichar à vontade. Fiquei pichando lá até a madrugada, uma beleza, tenho até fotos disso, e acabei ganhando dinheiro como artista plástico. Tenho o recibo lá em casa até hoje, "Carlos Alberto Teixeira, artista plástico", graças ao CELACANTO PROVOCA MAREMOTO.

Aí começaram a surgir pessoas dizendo ah, eu inventei o Celacanto. Eu ficava olhando pra pessoa e dizia "escuta, inventou nada, quem inventou fui eu", e os caras diziam "ah, desculpa, eu não sabia". Encontrei uns três caras afirmando que criaram o Celacanto e eu ia lá para conferir e os desmascarava, já que eles não tinham argumentos: "criou onde?", "desde quando?", "onde surgiu?" e ninguém sabia.


Eu pichava só tapume e parede. Jamais pichei pedra, monumento ou árvore. Eu só pegava lugares escolhidos a dedo, como na "saída" de curvas, por exemplo: quando o cara saía da curva de São Conrado, lá na Barra, dava de cara com uma casa onde tinha a inscrição do Celacanto bem no centro, o que causava uma impressão boa. Agora, qual o motivo disso aí? No meu caso, eu acho que sempre tive uma ânsia por comunicação, por passar uma mensagem, e o Celacanto foi isso, foi algo tão bem feito na época que ficou famoso e não tem ninguém do pessoal da década de 70, da zona sul do Rio, que não se lembre do "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO".