terça-feira, 7 de novembro de 2017

Meu sedã japonês é inspiração até para pesadelo

Esta noite sonhei com ele. Como manda a tradição, foi um pesadelo já que há muitos e muitos anos não lembro de ter tido um sonho, digamos, normal. Só pesadelos. Eu estava tendo a primeira sessão de análise e, no final, o analista pediu meu sedã japonês emprestado por uma semana para fazer uma viagem. Por alguma razão não consegui negar. Ele pediu, por favor, que eu combinasse onde deixar o carro com a sua irmã, que tinha um quiosque na praia de Charitas, onde os quiosques são lixo a céu aberto mas, misteriosamente, ninguém (nem o Judiciário) consegue mexer nos quiosqueiros.

Eu e Odara fomos lá. Eram duas as irmãs do analista, ansiosas com a chegada do meu sedã. Eu apenas recomendei que usassem gasolina aditivada V-Power, da Shell, porque o sedã era japonês mesmo, importado de lá. Eu tinha que deixar o carro rápido porque havia uma sessão com o psicanalista meia hora depois e o trânsito de Niterói, também em pesadelos, estava um caos. Apesar de não precisar passar pela rua Alvares de Azevedo, em Icaraí, a mais engarrafada do Brasil. De 6 da manhã a meia noite parada por falta de guardas.
Saí de lá reclamando com Odara. No fundo eu estava indignado, coração pesado, fulo da vida, mas por alguma razão não pude negar o pedido. Aí você, leitor, pensa “foi quando você acordou”. Nada disso. Emendei em mais dois pesadelos cotidianos sinistros.

A história. O sedã japonês é verde escuro e estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Entrei disposto a comprar um SUV 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile. O problema seria vencer a preguiça. Eu sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando meu olhar bateu no sedã japonês.

Levantei, olhei a frente, traseira, laterais. Abri o capô, motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV. 

Mudei de ideia. Em vez do SUV comprei o sedã japonês. No dia seguinte sai da loja, pus um CD no Kenwood de fábrica e zarpei. Fui até Barra do Sana e desci pela Serramar (na época lama pura) e retornei como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixei a BR e decidi ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios de esgoto, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês passou. Com água na porta, muitas vezes boiando, sequer falhou. Dias depois, outro toró no Ingá, bairro de Niterói. Água na porta, o sedã boiou de novo e chegou a virar ao contrário. Mas não pifou.

De dois em dois anos pensava em trocar o sedã japonês por um mais novo, mas me perguntava para que, se o carro até alma de jipe tinha. Num lugar chamado Engenho do Mato as vezes eu matava saudade dos ralis fazendo trilha com o sedã no lamaçal, alta velocidade. Impressionante. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que eu iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Eu e o sedã japonês já não sabíamos mais quem era quem. Ele é quase único porque só foi importado durante um ano. Era raro. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais...jamais traiu o seu DNA japonês.

Mas um dia...bem um dia surgiu um outro japonês. Novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também...foi quando vendi o sedã japonês. Fiquei arrasado mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, tive certeza que o meu grande amigo continuaria em boas mãos.

Meu irmão, Fernando de Farias Mello, me disse domingo que viu o sedã passar por ele, lindo, reluzente. A todo instante alguém diz “eu te vi na rua tal”, “vi seu carro naquela praça”, “vi...”. O sedã foi meu embaixador por 17 anos.

O novo japonês parece ter gostado de mim. Começamos a construir uma história bacana, leve, rápida, precisa, estável. Sem problemas. Como os carros japoneses e alemães. Mas, a saudade do sedã eventualmente me pega. Como há 15 dias eu o vi com o novo dono, parado num sinal, a saudade rasgou. Decidi que, ano que vem, vou tentar recomprá-lo só para tê-lo por perto.


Só que o novo dono me disse que...não vende de jeito nenhum e até pensa comprar um outro, idêntico. Como são raros, ele está correndo atrás.