terça-feira, 28 de novembro de 2017

Rio Show



Sininho – Acorda! Já são sete e meia e o encontro em Vargem Grande começa as nove. Não quero atrasar.

Ben-Hur – Mas hoje é meu aniversário...e tenho um evento importante.

Sininho – Frescura, Ben-Hur. Aniversário é um dia como outro qualquer. Levanta, vai. Levanta aí!

Ben-Hur – Pensei em almoçar com você, meus filhos...

Sininho -  Aqueles dois parasitas? Fala sério, Ben-Hur! Quem pariu Matheus que o embale; essas duas amebas são problema da mãe deles, aquela intelectualzinha de merda. Além do mais eles nem vão lembrar que é seu aniversário...se toca homem. Olha, eu não quero chegar atrasada ao evento das trutas em Vargem Grande.

Ben-Hur – Trutas?

Sininho – Te falei ontem, te falei anteontem, porra. Evento das trutas chinesas amestradas, só vai gente chique.

Ben-Hur – Vai até que horas?

Sininho – Termina meio dia, mas de lá vamos direto para Santa Teresa...

Ben-Hur – Como assim?

Sininho – Não tem como assim, Ben-Hur. Daqui vamos para Vargem Grande. De lá para Santa Teresa e depois direto para Grumari.

Ben-Hur – Fazer o que?

Sininho – Inauguração da exposição de instalações invisíveis de Julieto Di Capri.

Ben-Hur – Quem?

Sininho – Você está cada vez mais lamentável...Julieto Di Capri é o must do must na Europa hoje. Foi capa da Forbes, capa do Le Monde, capa da Quem, capa da Caras, capa da Globo Rural. Às vezes acho que você é débil mental.

Ben-Hur – Mas isso vai até que horas...hoje eu tenho um evento.

Sininho – Vai até a hora que eu quiser.

Ben-Hur – Melhor parar ali para por gasolina.

Sininho – Impressionante...

Ben-Hur – Eu te disse que esse carro chinês é ruim, mas você...

Sininho – Joga na minha cara, covarde! Diz que eu achei bonitinho e você comprou. Quem manda ser babaca?

Ben-Hur – Que horas são?

Sininho - Esqueceu o relógio de novo? Que coisa...quinze para meia noite.

Ben-Hur – Estou atrasado para o evento importante...

Sininho – Daqui não saio. Di Capri ficou todo feliz quando me viu...só tem gente bonita, descolada...vai você, eu me viro sozinha.

Ben-Hur – Tudo bem. Até mais.

Sininho – Como assim, tudo bem e até mais?? Hein? Ben-Hur! Ben-Hur, cadê você? Você nunca disse isso…

Meia noite e meia – Ben-Hur ao evento importante. Chega a pequena capela, enfeitada com luz de velas, ao lado da cachoeira. Chegou a tempo. Cerca de 20 pessoas, amigas, muito amigas.

Meia noite e quarenta e cinco – Amanda entra na capela, braço dado com o irmão.

Uma hora – O juiz considera Amanda e Ben-Hur casados.

Três e quarenta – O avião começa a taxiar. Ben-Hur e Amanda se beijam de novo.

Quatro horas – senhores passageiros com destino...


Dias depois – Walfrido, da seguradora Boas Novas, toca a campainha. A diarista abre a porta da casa de dois andares.

Walfrido – Dona Sininho, por favor.

Diarista – Quem deseja?

Walfrido – Seguradora Boas Novas.

Sininho – Sim...

Walfrido – Trouxe esse carro chinês por ordem do senhor Ben-Hur.

Sininho – Aquele moleque, canalha, escroque...sumiu há dias e ainda tem coragem de mandar esse chinês de lata. Patife, venal...que eu amo tanto...amo tanto...Seu Walfrido, onde ele está?

Walfrido – Assine aqui. Por favor, madame.

Sininho – Mas, e ele?

Walfrido – Deixou esse envelope. Disse que dentro tem um papel com nome e endereço do advogado que vai resolver tudo.

Sininho – Só isso?

Walfrido – Tenha um bom dia.

Sininho – Bandido! Bandido nefasto que...eu amo, eu quero, eu preciso como o ar da noite...água do mar...Ben-Hur, volta meu Ben-Hur.

Diarista – Dona Sininho...ai, meu Deus...quer que eu chame um médico? Hein, 
Dona Sininho? Dona Sininho, acorda! Já são sete e meia!

Sininho - Hoje não é um dia como outro qualquer...