sábado, 9 de junho de 2018

Desconsideração


Jamais a civilização teve tantos meios de comunicação disponíveis. Até ontem (1990) quem quisesse enviar uma mensagem confidencial escrita tinha que pegar papel, caneta, escrever, por no envelope, ir até a agência do correio, postar e esperar dias até que o destinatário recebesse. Uma carta do Rio para a Europa demorava de 10 dias a 15 para chegar. Em 1990 já havia fax, o pager (vulgo teletrim) que, em sua época, foram muito importantes. Em 1983, nos Estados Unidos, quem pagasse 20 mil dólares conseguia um telefone celular.

Hoje reina a fartura tecnológica. No mundo há 6 bilhões de linhas de celular, outros bilhões de usuários da internet. Os preços desabaram, o acesso continua cada vez mais fácil e a quantidade de aplicativos e programas impressiona. E-mail, SMS, Whatsapp, Skype, etc. etc. etc. muitos de graça.

E a contrapartida? Se a civilização nunca viu tanta fartura tecnológica em prol da sua comunicação, por outro lado a falta de consideração/educação parece imperar. Muita gente não responde e-mails, nem whatsapp, muito menos celular. Tenho um amigo que mandou uma mensagem profissional por e-mail e SMS para um sujeito (mensagem de interesse do sujeito, diga-se de passagem) há 20 dias e até agora está sem resposta.

Se no mundo profissional a coisa está a bangu, no pessoal não fica muito longe. Mensagens do tipo “quando chegar em casa me avisa, estou preocupado” podem ser respondidas no dia seguinte ou simplesmente ignoradas. A falta de consideração está comprovada até pela própria tecnologia. Uso um programa de envio de e-mails chamado Mail Chimp que depois da remessa informa quem abriu, quando, quem leu, quem não abriu e não leu, etc. Em média, apenas 10% abrem e lê a mensagem. Não recomento para quem sobre de rejeição crônica. 

O que não consigo entender é como gente que não se comunica acabe se envolvendo com tecnologia de comunicação, que, lógico, não é obrigatória. Tem quem quer. É mera falta desconsideração/educação? Ou é boçalidade mesmo?


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Leme

                                                                      A pedra 
                                                              O bandido

O lead da matéria do jornal Extra é claro:

“Em meados de abril, traficantes saíram encapuzados, do Chapéu-Mangueira, e entraram pela mata do vizinho Morro da Babilônia, no Leme. O objetivo era retomar a favela para o Terceiro Comando Puro (TCP).

Após uma troca de tiros, o grupo fugiu do local. Pouco mais de um mês depois, os criminosos do Comando Vermelho (CV) que haviam sido expulsos revidaram o ataque. A disputa pelo Morro da Babilônia, entretanto, é apenas uma envolvendo facções do tráfico e milicianos por territórios no Rio.
Levantamento feito pelo EXTRA com base em informações da PM e da Polícia 

Civil revela que, nos últimos três meses, 24 favelas estiveram envolvidas em 12 disputas territoriais espalhadas por 15 bairros do Rio.”

Tenho e mantenho laços afetivos com o Leme, bairro que está sendo destruído por essas guerras nos morros, quintais eleitorais da deputada Benedita da Silva (PT) que, curiosamente, não deu uma palavra sobre o assunto. Ela começou sua carreira política como vereadora, em 1982, com o lema “negra, mulher e favelada”, slogan da moda hoje.

As ruas do Leme estão desertas, triste, com medo. Os pescadores da pedra sumiram, bem como os namorados que gostam de trocar carícias naquele belo colchão público. Também era comum, depois do jantar, moradores darem uma volta pelo calçadão, crianças brincarem na areia, ao som do mar que embalou Nara Leão e Nelson Rodrigues. Os verdadeiros comando do Rio transformaram o bairro em zona proibida, graças a falta de governo.

Será que o Leme voltará a ser o Leme um dia?

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Who Came First


Escrevo ouvindo a edição especial extendida de 45 anos do álbum “Who Came First”, o primeiro solo de Pete Townshend. Gravado e lançado em 1972 (na verdade ele comemora 46 anos), é um álbum espiritual e surpreendente.

Eu passava férias e Teresópolis quando chegou a notícia, por amigos, do lançamento, mas não havia a menor esperança de que o álbum fosse lançado aqui. A indústria do disco brasileira, em sua lambança verde e amarela, tinha como hábito dar rasteiras no consumidor. Por exemplo, o lendário álbum duplo “Eletric Ladyland”, de Jimi Hendrix, saiu aqui com um disco só e com uma capa ridícula.

Lá em 72, a amiga Anete, uma judia antenada que conseguia não se sabe como edições da revista Melody Maker inglesa, leu uma resenha sobre “Who Came First” onde o autor falava da rica mistura de rock e folk. Daí a minha surpresa. Afinal, na liderança do The Who, Townshend vinha de uma avalanche de super lançamentos como “Tommy” (1969), “Live at Leeds” (1970) e “Who’s Next” (1971), com o peso característico da banda.

Outra surpresa: o disco saiu no Brasil e quase não acreditei quando os violões e guitarras (leves) de Townshend começaram a invadir o ambiente com canções que viraram clássicos. No encarte de papel vagabundo, a informação: “Um dólar de cada álbum vendido é doado à instituições de caridade.” Quando ouvi a faixa “Parvardigar” pela primeira vez me senti inundado de paz, não por razões esotéricas, mas pela beleza da música (por isso a coloquei lá em cima) e da letra.

Pete Townshend havia se tornado discípulo do indiano Meher Baba, impressionado com a sua história. A trajetória do líder espiritual tomou novos rumos a partir de dois acidentes automobilísticos que ocorreram em 1952, nos Estados Unidos e em 1956, na Índia. Por causa dos acidentes sua capacidade de caminhar ficou muito limitada e, em 1957, ele ficou completamente confinado a cadeira de rodas e, misteriosamente, se aprofundou mais ainda em sua fé. Morreu em janeiro de 1969 e seu túmulo em Meherabad é considerado local sagrado ainda hoje e se tornou um local de peregrinação.

Originalmente com nove faixas, a edição especial de “Who Came First” conta com 26 músicas, todas remasterizadas. Muitas são preciosas raridades que estavam nos arquivos como shows ao vivo que Townshend fez no túmulo de Meher Baba, mentor que que não chegou a conhecer pessoalmente.

Um álbum que comove, leva a devaneios suaves, um certo nó na garganta, especialmente em fases da vida quando a sensibilidade esta aflorada.

Fundamental ouvir.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Li milhares de vezes que o silêncio é um grande companheiro
Há dias ando calado, quieto
Tenho muito a dizer, mas pouco a falar
Faz bem
Ficar quieto
Mesmo com a alma inquieta
Alma inquieta não chega a ser uma novidade
Desde o dia em que nasci
Meditação
Já pensei em, fazer, mas não sei
Imagino que meditação é para os mais calmos
Não estou entre eles
Por enquanto
Dizem que a maioria tem cabeça feroz
Alucinadamente feroz
Não sei
Não tenho elementos para aferir
Mas há dias ando calado, quieto
Ponto.

sábado, 2 de junho de 2018

Capitanias hereditárias


Meritocracia. Bela palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político em campanha. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente , especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política. Isso sem falarmos do noves fora, da corrupção galopante.

Na música chega a ser bizarro. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por amebas da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Mas em geral não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é subjetiva, a coisa fica no zero a zero. No caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele, certamente, seria rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li tempos atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. 

Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filhinho de um amigão do pai da banda. Há, ainda, uma pseudo repórter de TV com sobrenome de diretor famoso que é uma ameba no ar, mas tem sobrenome de diretor famoso.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

Seria melancólico e não fosse escroque.


quarta-feira, 30 de maio de 2018

O homem que amava as mulheres

                                                                                   
François Truffaut (1932-1984), um gênio que deixou nesse  suburbano planetinha, moralista e cafajeste uma montanha de obras primas, entre elas “O Homem que Amava as Mulheres”, filme de 1977. É difícil e achar, mas está por aí nesses sites de filmes.

É a história de Bertrand Morane, um cara esquisitão de meia idade que tem obsessão por mulheres. Bertrand conquista, conquista, conquista compulsivamente mas vive afogado num oceano de sofreguidão, angústia, culpa e solidão.

Bertrand é interpretado pelo polonês Charles Denner, morto em 1995 com 67 anos. Truffaut subiu com apenas 52. Denner atua muito bem em “O Homem que Amava as Mulheres” e não foi à toa que ao longo de 30 anos foi requisitado também por  Louis MalleClaude ChabrolJean-Luc GodardCosta-GavrasClaude Lelouch.

Capaz de atirar de propósito o carro num poste e andar 300 quilômetros para conquistar uma mulher, Bertrand é neurótico radical sim, mas traz os traços muito comuns dos homens de meia idade que vivem saudavelmente, nadando contra as correntes da sociedade hipócrita que formam as classes média e rica. Os pobres? São muito mais livres, basta olhar.

Um dia desses vi uma malabarista de uns 20 e poucos anos num sinal de trânsito, batizado por São Paulo de semáforo. Shortinho enterrado, braços levemente tatuados, pearcing no nariz, em troca de uns trocados dos motoristas ela jogava três bastões de fogo para cima, para baixo, entre as virilhas e os manipulava com a intimidade das cortesãs do século XIX manuseando um robusto bacamarte.

Se Bertrand Morane estivesse ali daria um jeito de conseguir nome, telefone, endereço, CPF da malabarista, para caçá-la, abatê-la e depois ser mais uma vez acachapado pela ansiedade infinita dos infelizes e seus teoremas existenciais indecifráveis e irrealizáveis.

Como Nelson Rodrigues, Bertrand Morane era um doente, mas faz falta. O Bertrand que nos habita, asfixiado pelo torpe moralismo gerenciado pelos carrascos da liberdade comezinha, caiu em desuso no crepúsculo do século 20 quando o lema “é permitido proibir” ganhou as calçadas, avenidas, viadutos, lojas de calcinhas e sutiãs, bordéis.

O auto batizado “garanhão” de Bertrand, na verdade um paquerador radical, inconsequente e (repito) sofredor até a medula hoje é rotulado de “assediador” “impertinente”, “pervertido”, “tarado”, digno de ser “extirpado do meio social em nome da moral e dos bons costumes”.

“O Homem que Amava as Mulheres” poderia ser exibido em escolas para mostrar a face oculta da opressão e, de lambuja, que Sigmund Freud teve razão quando falou da projeção feminina esculpida pela figura da mãe. A mãe de Bertrand era prostituta e quando ele era adolescente a via desfilando de calcinha e sutiã pela casa, causando uma dor atroz. Mais: ele abriu suas gavetas e leu sua troca de correspondências com os machos, dezenas deles, e sempre o mandava levar cartas (para eles) ao correio. Bertrand as jogava fora.

Minha faculdade exibiu o filme em 1978, em pleno pátio, para quem quisesse assistir. Me disseram que lotou, mas eu não estava lá. Se a TV Brasil (estatal) fosse do Estado e não dos políticos passaria esse filme em horário nobre, mas não é da índole atual estimular o que agrega e sim o que racha, divide, mutila. Povo mutilado perde força e poder e, assim, o governo rouba mais à vontade.
Não sei onde encontrar “O Homem que Amava as Mulheres”, mas vale a pena correr atrás via Google, Bing e similares porque é preciso deixar claro para todo mundo que houve, sim, uma era onde a vida era mostrada, exibida, arreganhada sem pudores, censores, réguas, compasso.

A não-libidinagem explícita.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Machado, Capitu, Bentinho, Escobar e as fake news


Não adianta negar, a traição ainda é um dos maiores dramas afetivos da humanidade. Fico imaginado se, em 1899, existissem redes sociais e a suposta traição de Capitu, protagonista de “Dom Casmurro”, giga clássico de Machado de Assis, tivesse seus indícios e suspeitas de adultério vazados no Facebook, por exemplo. Ia ser um escândalo. Mas seria fake new?

Afinal, por mais que elementos óbvios levassem o leitor a pensar que houve realmente uma corneada histórica naquele romance, a narração do livro é toda feita por Bentinho, a suposta “vítima”.

Uma série de fatores subjetivos, mas esquisitos pra cacete, levaram Bentinho não só a pensar mas afirmar que seu amigo Escobar estivesse realmente se escalavrando com a bela Capitu, nas caladas.

Machado a construiu dissimulada, olhar de ressaca, com o lado B da vida totalmente desconhecido, caráter idem. “Não é possível afirmar, por meio da investigação das marcas textuais no romance, que Capitu tenha ou não tenha traído Bentinho”, explica Andrea de Barros, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, em entrevista ao site Super Interessante.

Desde que foi lançado, em 1899, até a década de 60, “Dom Casmurro” foi lido como as memórias de um homem desiludido por ter sido traído pela mulher e pelo melhor amigo. Bentinho, o narrador, conta a história do amor por Capitu e depois a dor pela traição dela com Escobar, diz ainda o site.

Mas, no início dos anos 60, essa leitura foi modificada com a ajuda da crítica norte-americana Helen Caldwell, que escreveu o livro “O Otelo Brasileiro de Machado de Assis”. “A partir da referência direta a Shakespeare e, especificamente, a “Otelo”Caldwell leu “Dom Casmurro” como as memórias narradas por um homem ciumento”, explica Antônio Sanseverino, professor do Instituto de Letras da UFRGS. A comparação com Otelo é justificada: o ciúme levou Otelo a dar ouvidos a Iago e acreditar na traição de Desdêmona, que era inocente. “A partir dessa relação, pode-se ler o romance como a escrita de Bento, homem ciumento e cheio de imaginação, que condena Capitu sem ter provas e vê, em seu filho Ezequiel, a imagem de Escobar”, diz Sanseverino.

Ou seja, muitas leituras foram feitas sobre o livro, mas nenhuma levou a uma conclusão definitiva sobre o possível adultério. O que se pode afirmar é que o narrador não dá voz para Capitu e, desde o início da narrativa, dá pistas que tentam fazer o leitor duvidar do caráter da personagem.

Permanece o enigma, 120 anos depois.




sábado, 26 de maio de 2018

Insônia


Ódio, não te conheço. Não sou santo, mas não te conheço. Conheço euforia, tristeza, raiva, conheço a “out estima”, a baixa estima, mas você, ódio? Não, não te conheço.

O ódio está no ar no planeta. A História sibila que todas as revoluções vitoriosas, batalhas e conquistas foram movidas pela fúria, ira, determinação. As que beberam a gosma verde do ódio fracassaram. Todas.

O ódio sempre perdeu. Hitler perdeu. Mussolini perdeu. Getúlio perdeu. E agora, o ódio que sustenta a mentira no Brasil também vai perder. Que mentira? A História dirá. Em breve porque tudo no Brasil é muito breve.

Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada. Longa madrugada pela frente. Não gosto de escrever e publicar quando estou emocionado e ontem passei o dia tomado por espessa neblina afetiva. Escrevo agora mas só vou publicar quando retornar do caos. Breve.

O amor é tão abissal que espanta até os nevoeiros. Só o amor consegue assolar os nevoeiros. Dizem. Nenhum intelectual explicou. Nenhum filósofo, sociólogo, antropólogo conseguiu encarar a distonia neuro não vegetativa do amor. Machado, o de Assis? Quase.

O que mais nos difere dos chamados irracionais é a consciência do afeto. Escrevi num trabalho de faculdade. O professor não gostou por achar...por achar...por achar...esqueci. Conversamos, ele disse que viveu uma experiência num lugar bem perto de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês a nota tinha subido para nove. Perguntei por que e a resposta veio vaga: “Realocação de novos conceitos”, ele disse.

Não quis reclamar porque estava apaixonado por uma garota (tínhamos 20 anos, ela e eu) e ingressava mais uma vez na ante sala do amor comocional, aquele que ignora os raios e vendavais e nos faz rolar por virtuais calçadas encharcadas as nove horas da noite. Era o que fazíamos. Vivi a ausência de explicações e, sobretudo, complicações. O amor jamais foi incondicional, papo de existencialista amador. O ser humano é condicional em sua essência.

Ela me elegeu o primeiro homem, a primeira cama. Um dia o destino nos chamou e no centro de uma praça e sussurrou que não ia rolar, não. E não rolou. Saímos da praça, eu a levei até a porta de casa em meu Karmann Guia TC 1975, bege, que toda a faculdade conhecia e venerava.

Ela desceu do carro, eu também, fomos até a portaria do prédio, nos olhamos (olhos marejados) sem nada dizer apenas ouvindo ao longe, baixinho, o rádio do Karmann Guia TC na Eldo Pop FM tocando o Renaissance. “At The Harbour”, a que ela mais gostava. Sincronicidade. E como a música é a minha linha de tempo e afeto, jamais desvinculei “At The Harbour” dela.

Ela entrou no prédio. Peguei o Karmann Guia TC e dei uma volta pela orla do Rio. Fui até o final do Leblon e voltei. Em Copacabana parei numa carrocinha da Geneal, comi duas mini pizzas olhando para o mar escuro e mexido, pensando naquela história de amor que havia acabado.

O amor sozinho não sustenta, Machado de Assis especulou no século 19. Nem quando ela me pediu desculpas em prantos consegui reverter aquela sensação estranha, um vácuo chamado “perdeu”. De mim para ela. Mão única. Amor condicional.

Ódio? Nenhum. Não conheço. Não conhecia. Não irei conhecer.


sexta-feira, 25 de maio de 2018

Guerrilheiros da Blitz comemoram 35 anos no Circo Voador

                               Festança vai ser nesse sábado, dia 26


O humor carioca não sucumbiu a Crivella, Pezão e Temer. Ainda bem. Com uma turnê pelos Estados Unidos mês que vem, show sob a lona do Circo Voador e lançamento do novo DVD a  Blitz se transformou numa bela tatuagem dos anos 80 que atravessa as décadas. Promete uma festa inusitada e sobretudo muito bem humorada nesse sábado (26) as 10 da noite no Circo Voador, comemorando os seus 35 anos de existência.

Mix de música, teatro, cinema, uma espécie de multitudo, a Blitz continua a surpreender por onde passa exatamente por não estar agarrada ao passado. A banda tem o passado como referência e não reverência. Em outras palavras, o grupo está longe de estar fazendo cover de si mesma.

No show, rock, pop, funk, reggae, samba, blues e outras surpresas, além do lançamento do DVD ‘Blitz no Circo Voador’ (Deck), o quarto do grupo, celebrando 35 anos de estrada, ainda no embalo da sua apresentação no mais recente Rock in Rio. Tudo regado a altíssimo astral, com o reforço de convidados como o Afroreggae, Alice Caymmi, George Israel e Milton Guedes.

O repertório do show inclui grandes sucessos e canções do álbum Aventuras 2”, lançado ano passado com participações dos Paralamas do Sucesso, Frejat, Arnaldo Brandão, George Israel e Dadi, assim como amigos de outras paragens como Seu Jorge, Sandra de Sá, Zeca Pagodinho, Alice Caymmi, Andreas Kisser, Pretinho da Serrinha e MC Cert.

A formação atual da Blitz já dura 10 anos e tem Evandro Mesquita (vocal, guitarra e violão), Billy Forghieri (teclados), Juba (bateria), Rogério Meanda (guitarra), Cláudia Niemeyer (baixo), Andréa Coutinho (backing vocal) e Nicole Cyrne (backing vocal).

A Blitz surgiu sob a lona do Circo Voador nos tempos de Arpoador, em 1982. Da plateia um fã gravou um pedaço do show num gravador K7 e levou para a Rádio Fluminense FM que tocou “Você não soube me amar” pela primeira vez, mesmo com o som precário.

Em julho daquele ano a banda gravou o compacto ‘Você não soube me amar’ que virou fenômeno e em três meses o single vendeu 100 mil cópias e atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas em plena recessão do Brasil na época. Na sequência, o primeiro LP ‘As Aventuras da Blitz’, com venda mais impressionante que a do compacto. 

A prova de rótulos, a Blitz nasceu no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, e logo ganhou capas de jornais e revistas de grande circulação. Com a chegada da Blitz a MPB nunca mais seria a mesma.

Serviço:

BLITZ - Lançamento do DVD  ‘Blitz no Circo Voador’

Data: Sábado, dia 26 de maio de 2018

Abertura da casa: 22h

Ingressos:

R$ 40 (meia-entrada para estudantes, menores de 21 anos e maiores de 60 anos)
R$ 40 (ingresso solidário válido com 1 kg de alimento)
R$ 80 (inteira)
2º lote
R$ 50 (meia-entrada para estudantes, menores de 21 anos e maiores de 60 anos)
R$ 50 (ingresso solidário válido com 1 kg de alimento)








terça-feira, 22 de maio de 2018

Saudade de quem nunca vi


Keith Emerson e Greg Lake formavam o monumental trio Emerson, Lake and Palmer. Carl Palmer o baterista, está em turnê mundial e na próxima sexta feira vai tocar no Vivo Rio. No dia seguinte no Teatro Municipal de Niterói. Ingressos aqui http://vivorio.com.br/?s=Carl+Palmer e aqui https://www.ingressorapido.com.br/event/6668/d/28133 .


Keith Emerson e Greg Lake morreram no mesmo ano, 2016. Ironia. Boçal ironia. Emerson em março, aos 71 anos, Lake em dezembro, aos 69 anos. Os dois se conheceram por volta de 1968, quando Greg cantava e tocava no King Crimson e Emerson era o tecladista do The Nice. Em 1970, convidaram Carl Palmer para a bateria e montaram o Emerson, Lake and Palmer.

Quando o Emerson morreu sofri como se tivesse perdido um amigo, apesar de nunca tê-lo visto. Quase não acreditei quando li a notícia sobre a partida do Lake. No mesmo ano? O que foi isso? Era também um amigo virtual.

Emerson, Lake e Palmer fizeram parte da trilha sonora da minha adolescência e ao longo de dias e noites ouvi até furar grandes álbuns (na época em vinil) como  “Pictures at an Exhibition”, Trilogy”, “Brain Salad Surgery”. Mais do que trilha sonora, o ELP me acompanhou em inúmeras situações da vida, boas e ruins. Os vinis rodavam fieis, independentemente do que eu estivesse sentindo.

Claro, os Beatles foram muito presentes (o rock que gosto é a partir de 1966), como The Who, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, mas o ELP “testemunhou” momentos existenciais muito especiais. Ouvindo “Trilogy” comecei a trabalhar em rádio (Federal, de rock, em 1973), ouvindo “Brain Salad Surgery” decidi abandonar o cursinho pré-vestibular para a medicina e estudar comunicação. 

Em outras situações existenciais os teclados geniais de Emerson, mais o baixo/guitarra robustos de Lake e a demolidora bateria de Palmer estavam lá comigo. Como amigos.

Por isso, esse vácuo quando os dois morreram. Um vácuo que permanece porque o ELP me leva ao passado, aos amigos do passado, a minha família do passado, as chuvas do passado, aos amores do passado a não solidão do passado.

É mais ou menos isso.




sexta-feira, 18 de maio de 2018

Cabeça contra o Muro


Noite dessas, perambulando pela internet, li alguma coisa sobre o Muro das Lamentações, em Jerusalém. Conheço algumas pessoas que foram lá e ficaram levemente horrorizadas vendo gente ululando e batendo com a cabeça no Muro. 

Não conheço a fundo a história do Muro, mas sei que é sagrado. E respeito tudo o que é sagrado porque sou cristão e mantenho com o desconhecido a mesma relação que mantenho com o mar: temor reverencial. Não me meto com o desconhecido porque não quero que ele se meta comigo.

Um frequentador de meu extinto fotolog estava se lamuriando com a falta disso, falta daquilo, que esse é o país do descaso, enfim, usou de suas prerrogativas tecnológicas para encher e chutar o saco da pequena multidão que frequentava o fotolog. Que por sinal não era meu. Fiz para a banda The Who e a seu criador Pete Townshend até hoje na ativa, cuspindo fogo pelo mundo com sua adolescente energia dos 73 anos e a seus fãs, a quem chamo de whozers.                                                    

A lamúria mata. Mata vaca, galinha, peixe-boi, piranha. Aliás, sugiro ao Ibama que a piranha seja promovida logo a condição de mamífero. Basta de hipocrisia. Lamentação compulsiva mata até o próprio pelo pubiano humano que trepa no chororô como cavalo de batalha e sai pela humanidade como um forno de microondas torrando a paciência alheia.

Independente da sua conotação histórica, o Muro das Lamentações é de extrema utilidade pública/emocional/existencial. Se o cara encosta, bate com a cabeça, soca, chuta, se roça nas pedras e depois taca álcool está no lugar certo. O que não suporto é lamentação crônica numa padaria, num ônibus, numa van, no nosso sistema auditivo.

É por essas e por outras que defendo a criação de réplicas reduzidas do Muro para serem espalhadas pelas cidades. Pequenos lugares onde o cidadão pare e descarregue toda a sua mágoa, o seu beicinho, o seu suposto fracasso existencial, cornofobia, enfim, descabele o fandango. Essas réplicas poderiam ser acolchoadas para o usuário bater com a cabeça, com a glande, dar chicotadas no próprio lombo, um vale tudo em prol da saúde pública. A Rádio Relógio dizia que quem bate a cabeça contra a parede queima 150 calorias por hora.                                                

Imagino o cara saindo de casa dizendo “vou até ali no Muro bater com a cabeça e já volto”, em vez de tostar, grelhar o seu entorno que somos nós. Ah, sim, os Muros públicos deveriam ter revestimento acústico para o usuário poder uivar, mugir, rugir, gralhar, gritar nomes livremente. Como palpiteiro, penso que iria fazer bem não somente a nós como ao próprio chafurdador de derrotas. Li no manual de meu carro que esbofetear metaforicamente melhora a pressão arterial, a pele fica mais lisa, enfim, como diria Lulu Santos, “tudo azul/todo mundo nu”.


Cultura inglesa



Conheci a bela Meghan Markle na série “Suits”, da Netflix, onde foi coadjuvante. Aos 36 anos ela vai casar com o príncipe Harry e segundo sites de fofocas os dois estão juntos há quase dois anos.

Meghan é uma californiana típica. Nasceu em Los Angeles era ativista social, liberada, feminista. Harry é um inglês característico da Corte; beberrão, à toa, amante de jogos de dardos, corrida de cachorros, torta de enguia, fã do humor quase ridículo de Monty Python, comédia inglesa que só os ingleses acham hilária.

Só uma paixão devastadora para fazer Meghan Markle trocar uma carreira ascendente no cinema, amigos antenados, vanguarda, pela vidinha bilionária e entediante da Coroa britânica, entre palácios, cerimônias, pompa e vazio.

A Inglaterra vitoriana, por exemplo, foi uma indústria de tarados, pervertidos e facínoras em geral, por isso as altas doses de moralismo e álcool para tentar manter o equilíbrio social. Até hoje.

Nesse sábado Mehan e Harry vão casar. Casamento de milhões de libras/euros. Centenas de cavalos adestrados, carros, milhares de seguranças, uma produção faraônica exibida em todo o mundo ao vivo pela TV. Assim manda a tradição inglesa: torrar dinheiro público indefinidamente em nome da robustez da Coroa que se acha o centro do mundo, como diz um amigo que morou lá.

Duas séries da Netflix abrem uma fresta de luz sobre a cultura inglesa: a espetacular “The Crown” conta a história da Rainha Elizabeth II e, na aba, fala da podridão e da politicália nos bastidores dos palácios. Já uma outra série, deste ano, chamada “Collateral”, aborda a xenofobia e egolatria inglesas diante da questão dos refugiados.

Bilhões de pessoas vão assistir ao casamento desse sábado no local e pela TV. A monarquia inglesa exerce um fascínio mundial inexplicável e até mortos de fome vão dar uma olhada na TV para conferir que os ricaços da ilha sabem mesmo fazer festa, principalmente com o dinheiro dos outros.

Curioso isso.





quarta-feira, 16 de maio de 2018

A vingança do bastardo


Saudade de livro é sempre boa. Por isso tenho procurado, inutilmente, em minha estante (onde tudo é uma enorme desordem alfabética) uma edição relativamente recente do melhor, absurdo, esculachado, politicamente incorreto e saudável livro dos anos 80. O clássico “A Vingança do Bastardo”, escrito pelo espírito de uma tal Eleonora V. Vorsky que baixou sobre o Alexandre Machado, escritor, roteirista e, na época, louco.

Na apresentação do livro, uma auto referência debochando da crítica:  "terrível, escatológico, nojento, nauseabundo, emocionante, divertidíssimo, acachapante, lírico, poético, medonho, esporrante de rir, abominável, cáustico, polêmico, essencial, virulento, dramático, meio mais ou menos, magnífico, detestável, erótico, perturbador, ingênuo, niilista, grandiloqüente, bacaninha, porreta, desavergonhado, pai d'égua, supercalifragilisticespialidoso!"

Texto de contracapa:

Ingredientes:

Os personagens da aventura:

- Levi: Herói ou covarde? Homem ou mulherzinha? Casado, solteiro ou tico-tico no fubá?

- Prima Roshana: Sua sede de sexo só era comparável à sua vontade de dar.

- Bel, a sereia: A beleza de seu corpo deixava os seres do fundo do mar todos molhadinhos.

- A jeba de Kowalsky: Para alguns, um monstruoso erro da natureza; para outros, uma dádiva dos céus.

As resenhas mais comportadinhas descrevem:

Publicada originalmente entre 1984 1987 no tablóide mensal “O Planeta Diário”, a obra foi editada em livro duas vezes. A “Vingança do Bastardo” conta as desventuras de Levy, o narrador, que é envolvido involuntariamente numa tempestuosa sequencia de eventos ao redor do mundo na companhia de sua prima Roshana, ninfomaníaca, zoófila, pedófila e espiã sedenta de sexo com qualquer mamífero disponível. O casal ainda teria a companhia de Bel, a Sereia e de Kowalsky, que se tornam personagens regulares na metade final da história, quando prima Roshana confessa que é escrava sexual do bastardo Levy. E gosta.

Além desses, entram e (geralmente de forma trágica) saem personalidades reais e fictícios como Simon Wiesenthal, Mike Nelson, Aarão Steinbruch, Henry Kissinger, Thomas Green Morton, Tutty Vasques, National Kid e os Detetives-Mirins, Anuar Kadhafi (grafado desta forma) e Kurt Waldheim.

Impiedosa parodia dos clichês da pulp fiction, com "açãoespionagemromancesexoficção-científicacatástrofehisteriapânico, correria, pisoteamento, massacre", o folhetim se tornou uma das maiores atrações do jornal e alçou Vorsky e sua personagem Prima Roshana a uma espécie de status de cult.

A revista Bula o elegeu um dos 10 livros mais engraçados da literatura brasileira. Leia: “A cela era de um escuro úmido e umbroso. O nome do escuro era Waltencir”. Assim começa a saga de vingança de Levy, sacaneado por todo mundo, mas especialmente por sua prima Roshana, que dá pra todo mundo, menos pra ele. Nada faz sentido na noveleta, mas você gargalha feito uma besta. “A Vingança do Bastardo” foi publicado originalmente em forma de folhetim no jornal “O Planeta Diário”. Eleonora V. Vorsky também atende por Alexandre Machado, que junto com a mulher, Fernanda Young, criou a série de TV “Os Normais”.

Li e reli várias vezes e como prima Roshana não quero parar, já que nos tempos de hoje que fedem a pijama e naftalina é impossível encontrar uma obra tão espetacular assim. Há vários exemplares a venda em www.estantevirtual.com.br, lançamento de 2007 (já esgotado) da Editora Desiderata. Se não achar o meu no meio nesse ninho de lontra que é a minha estante, vou comprar, reler e perder de novo.









segunda-feira, 14 de maio de 2018

Direito a ignorância


As chamadas novas gerações, por razões objetivas, estão desconectadas da chamada mídia formal. Garotas e garotos tem suas mídias próprias e, pelo que vejo, ouço, converso, frequentam-se mutuamente numa rica troca de ignorâncias. Ignorância no sentido literal, de ignorar. Neste caso, propositalmente. E daí?

A ignorância é um direito e se as novas gerações gostam de ler quinquilharias, preferem assistir you tubers, ouvir safadões, estão em seu pleno direito de surfar a liberdade a sua maneira. Quem sou eu para obrigar a ler Machado de Assis, ou sorver o texto de Clarice Lispector?

Quem sou eu para vociferar “vocês tem que assistir CNN, Al Jazeera, Globonews e não essa cisterna de purpurina tola e fútil dos you tubers”? Quem sou eu para clamar “ouçam a remixagem de Sgt Pepper dos Beatles, o melhor do Radiohead, ouçam Jimi Hendrix e não essas bostas que vocês espetam nos ouvidos com seus celulares.” Quem sou eu? Não sou ninguém.

Se as novas gerações não leem bem, escrevem mal, são ególatras ao extremo, são alienadas e vazias isso é um conceito meu. Ponto. E não deles. Ponto. A minha geração era cercada de brilhantes livros, jornais, revistas, filmes etc mas vestiu o pijama, passeia com o canário na gaiola pelas ruas de manhã, para numa padaria qualquer para beber coalhada e jogar conversa fora, literalmente). Depois, adestrada, volta para casa.

Liga o computador cheirando a naftalina e começa a lamuriar nas redes sociais, achando que as novas gerações tinham que estar participando deste momento histórico do Brasil, detonando Temer, Lula, etc etc etc. Reclamam que filhos e netos não conversam em casa. As vezes entro nas redes e digo “as novas gerações só querem uma coisa do Brasil: pular fora daqui”.

Há filhos e netos que entram porta a dentro com a cabeça enterrada no celular teclando com sua rede, trancam-se no quarto fazendo sabe-se lá o que on line e só saem para banho, comida e tosa, como um pet. Não querem saber quem governa o país, que país é (eles tem mais o que não fazer para pensar nisso), quem é quem na TV, não assistem a noticiários, não ouvem rádios. É só eu, eu eu, e a sua rede de contatos. E quando digo para os meus contemporâneos que isso não é problema nosso, eles gemem de horror.

Nos fins e de semana as novas gerações vão a festas de sua rede. Um ou outro bebe, um ou outro fuma, um ou outro toma MDMA (droga da moda, conhecida como Michael Douglas) um ou outro morre e na pré alvorada da onda da madrugada voltam para o seu minifúndio (casa dos pais), alguns com namoradas ou namorados e se embolam trancafiados em seu bunker/quarto, depósito de enigmas e tabus para uso pessoal e intransferível.

E daí?







quarta-feira, 9 de maio de 2018

400 cavalos


Vi um Ford Mustang GT vermelho, capaz de despejar 447 cavalos de potência, chegando a 279 km/h. Ele rastejava estava no para e anda de uma rua, para entrar no para e anda de uma avenida mais a frente. Seu motor V8 5.0 bebe 2,5 km/litro de gasolina nessas condições.

Mais. Para que um carro ter mais de 400 cavalos de potência desde que os governos descobriram nos radares de velocidade (vulgo pardais) uma boa fonte de grana. Usam como desculpa a preocupação com a segurança dos cidadãos, que todos nós sabemos que é puro deboche. Qualquer cidade vagabunda instala seus pardais em trechos de rodovias que passam por seus limites, alguns limitando em 40 km/h, em geral mal sinalizados. De propósito, para faturar.

Para piorar, a maioria das estradas está esburacada, mal sinalizada, pedestres, cavalos, jegues não tem como atravessar e o trânsito parece um rolo compressor passando sobre vidas a todo instante.

A ponte Rio-Niterói foi inaugurada em 1974 com três pistas de cada lado com o limite de velocidade em 120 km/h. Em janeiro o governo federal ligou os pardais na via que limitam a velocidade em 80 km/h, sempre em nome da “segurança do cidadão”. Tem gente padecendo de sono a 80 km/h na via durante a noite. O bom senso sugeria que para carros esse limite poderia ficar em 100 km/h e em 70 para ônibus e caminhões, vilões históricos daquela via. Mas, também lá, prevalece a esperteza estatal.

Por que ter um carro de 100 cavalos se nem metade da potência do motor pode ser usada? Exemplo: um Fiat Palio 1.6 tem 117 cv de potência e a 80 por hora está muito longe da velocidade e cruzeiro. Um Renault Sandero 1.6 tem 106 cv enquanto um Toyota Corolla 2.0 tem 154 e um Honda Civic, 155. 

Todos eles bebem muito nos congestionamentos crônicos das cidades brasileiras e a pergunta que fica é “vale a pena investir?”. O Brasil merece? Ou tornou-se, definitivamente, a terra do motor mil, vulgo 1.0?

Um exemplo de que o consumismo tem, literalmente, limites no terceiro mundo.