sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Ouvindo estrelas


A Nasa vai lançar neste sábado a sonda espacial Parker Solar Probe, que se aproximará do Sol como nenhuma outra. Ela decolará da plataforma de lançamento de Cabo Canaveral (Flórida, EUA) e viajará através da atmosfera do Sol, a "somente" 6,2 milhões de quilômetros da superfície solar, a uma distância "sete vezes mais próxima" do que qualquer outra nave. Vendo imagens da sonda e da beleza do universo, minha memória voltou lá atrás.

O cheiro do mar misturado ao do óleo dos navios arrancam minha comoção pelos poros. Cheiro de minha infância, vivida entre sabiás, coleiros e muitos navios de guerra. Muitos. Meu pai à bordo deles. Hélices misturando o aroma de maresia com óleo combustível, a prudente lentidão da vida na pequena vila e também no convés cinza chumbo da nau gigantesca.

Há uns anos, fui a praia de Itaipu a noite e, boiando, fiquei olhando para o céu, aproveitando a onda de paz interior que naquela época me invadiu. Saudade, muita saudade. Da onda e da paz interior. Avistei um satélite artificial cumprindo a sua missão, em órbita constante singrando a Via Láctea. A emoção me tomou de novo, reforçada pela trilha sonora suave das ondas pequenas e distantes, desabando na areia.

O céu, em maio, em pleno outono, com cinco anos de idade fui levado por meu pai para a praia da vila onde vivi a infância. Todas as pessoas com binóculos, lunetas e até um telescópio diziam estar avistando o Sputnik 4, satélite artificial russo.

Não entendi porque o Sputnik que vi nas fotos da revista não tinha nada a ver com aquele minúsculo ponto luminoso, menor do que todas as estrelas, do que todos os coleirinhos que cantavam no alto dos ingazeiros e que cortava rápido, bem rápido, o céu. O Sputnik das fotos não era um ponto, mas uma pequena esfera de metal. Eu vi.

Meu pai explicou. Falou da distância, da luz do sol incidindo na esfera, falou do céu, das estrelas, falou de novo dos satélites artificiais, do seu brilho fixo, oposto ao cintilar eterno das estrelas. Falou, falou, falou e recitou um poema. Olavo Bilac:

"Ora direis ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Não entendi nada sobre a incidência da luz, o tamanho do Sputnik, gravidade, força, mas ali, naquela noite de 15 de maio de 1960, meu pai me ensinou a ouvir estrelas e a perceber os aromas do mar.

E nunca mais esqueci.

Meu irmão também não.




sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O livro de Eli


O filme se chama “O livro de Eli”. É de 2010, dirigido por  Allen HughesAlbert Hughes, protagonizado pelo sempre brilhante Denzel Washington. Assisti três vezes, duas no cinema e essa semana na Netflix.

Sou cristão, acredito em Deus e sempre que vejo o filme vislumbro o poder infinito da fé. Leio um resumo: Trinta anos depois da guerra ter dizimado o mundo, um guerreiro solitário chamado Eli caminha por horizontes arruinados dando esperança aos que restaram. Um outro homem compreende o poder de um livro que Eli carrega e está determinado a se apoderar dele. Eli arriscará a vida para proteger a sua carga preciosa e cumprir o seu destino de ajudar a restaurar a humanidade.

A carga emocional do filme é vasta, mergulha nos restos insanos do planeta Terra depois do fim e apesar de estar caminhando há três décadas transportando o livro, enfrentando todas a adversidades e o que há de mais bizarro, Eli não abre mão de um passo sequer. Segue em frente, coberto por sua fé.

Não é um filme carola, ao contrário, há muitas cenas de violência justificada que cada vez mais valorizam a importância do livro de Eli, de sua determinação, sua fé, sua coragem e a certeza de que mesmo depois do fim resta uma esperança.

Vale a pena ser assistir.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Rio, uma cidade proscrita

A choradeira das empresas turísticas do Rio tem razão quando culpam a crise econômica pela baixíssima ocupação dos hotéis. Pelo menos 13 já fecharam e, por exemplo, o Copacabana Palace está com magros 38% de ocupação, de acordo com o Ancelmo Gois em sua coluna de hoje, no Globo.

Só que as imagens que são geradas do Rio hoje para o exterior envolvem matança, fuzis, guerra aberta, descontrole da segurança pública, tudo aliado a uma prefeitura nefasta que largou a cidade a baderna geral. Crivella está acabando com tudo: hospitais, escolas, organização mínima do trânsito, áreas que já foram cultuadas como o Boulevard Olímpico.

Não duvido que o setor turístico tenha sido devorado pela crise econômica, mas vejo que a guerra civil na cidade e no Estado do Rio é a principal vilã na baixa de visitantes. Afinal, quem iria passar férias em Damasco, na Síria, Iraque, Afeganistão, Paquistão, etc? Em se tratando de imagem, o Rio está no mesmo patamar já que todas as notícias de barbárie que são veiculadas em TVs daqui também são exibidas lá fora, como os ataques terroristas no Ceará, a batalha entre traficantes e milicianos no Rio, enfim, boa parte do Brasil está sob o jugo de grupos terroristas.

Mais do que da beleza, o turismo vive da segurança pública. O turista quer fotografar com segurança sem ter seu equipamento roubado, quer sair a noite sem ser depenado ou morto, quer ir e vir. O Rio se tornou inviável turisticamente falando.

A solução seria novos governantes de qualidade, mas parece que não é isso que o eleitor quer. Vide Romário, líder nas pesquisas para governador do RJ.


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Otimismo & Pessimismo


As redes socais, cada vez mais anti sociais, andam muito mal humoradas e pessimistas. Claro que os tempos estão instáveis, mas se todo mundo, em todos os tempos, fosse pessimista 24 horas por dia ninguém teria nascido. A começar por nós. O pessimismo crônico, assim como o mau humor, em geral são sintomas clássicos (eu diria óbvios) de depressão e ansiedade aguda que, de cara, levam diretamente a inapetência existencial.

Não é normal ser pessimista o tempo todo. Não é normal ser otimista o tempo todo. A leve e harmônica oscilação de humor rege a saúde do nosso sistema nervoso, ensina a boa medicina. Os negativistas, vulgo urubus, tem no pessimismo o início, o fim e o meio. O lema deles é o famigerado “nada será como antes” (cusp! saudosismo) e reclamar de tudo é a base. Reclamam do calor, do frio, da chuva, da falta de chuva, do trabalho, da falta de trabalho, do amor, do desamor, do céu, do inferno sem perceber sua palpável infelicidade. 
Sem que ninguém diga claramente “meu chapa, vá se tratar!”, porque ninguém está a fim de se aporrinhar. E recomendar um médico para um sujeito nesse estado pode parecer ofensa.

O otimismo comedido é um exercício, dizem os sábios. Viver com esperança (favor não confundir com a agoniante expectativa) é saudável. Enxergar a luz no fim do túnel como porta de saída (e não de entrada) é uma ginástica mental/emocional fundamental. Mesmo que ao nosso lado esteja um Hardy Har Har (personagem do desenho animado lá no alto) dizendo que a luz pode ser de um trem vindo ao contrário.

Aí ferrou.


sábado, 28 de julho de 2018

Mente caótica


Nossos predadores emocionais vivem nas savanas do inconsciente e mantém no topo da cadeia alimentar a ansiedade antecipatória, figurinha fácil no corredor da morte das penitenciárias onde a pena de morte é formal. No Brasil é informal. Há muitos relatos de condenados que ficaram ensandecidamente ansiosos para chegar o dia da execução, quando a ansiedade, parece, cessa.

Dormir mal, comer mal, falar mal, cansaço instalado no cotidiano, ansiedade antecipatória é capaz de levar o ser humano a milhares de abismos por minuto, numa tortura inominável que devora dias e noites, semanas, meses, anos, décadas.

Certa vez, lá na casa do cacete dos anos 70, fui me meter a fazer meditação transcendental na torpe tentativa de tentar reduzir a velocidade dos pensamentos caóticos. Baixei numa espécie de consultório em Copacabana, num prédio que se chama Edifício das Boutiques, na Santa Clara.

Apesar do tsunami de mulheres maravilhosas na fila do elevador, minha cabeça parecia uma Kombi capotando e pegando fogo na avenida Brasil. Não deu nem para apreciar a bundolaria feminina. Olhei, mas não apreciei.

O cara começou a sessão de meditação querendo que eu ficasse de pernas cruzadas, similar a posição de lótus, mas eu nunca consegui e não consigo até hoje. Acabei deitando de barriga para cima. Com a voz mansa ele fez uma contagem, disse um monte de coisas e na minha cabeça surgiam piranhas (peixes) comendo a minha mão num caixa de banco, incêndio no meu próprio corpo, afogamentos, enforcamento numa floresta devastada, em suma, a tal meditação conseguiu reunir o pior do pior e eu disse “para, meu amigo! Não aguento mais! Quanto é?, vou embora”. E fui.

No corredor do elevador fumei dois cigarros acendendo um no outro (na época eu fumava e todo mundo podia fumar em qualquer lugar, até dentro de aviões e berçários), andando de um lado para o outro como limpador de para brisas aflito até golfar na lixeira e, meio trôpego, deixar o edifício das Boutiques.

Eu tinha uma Brasília, carro de sucesso que a Volkswagen fabricou de 1974 até 1982 e a bordo, em alto volume, enchi a cara de Led Zeppelin como se fosse fogo paulista auditivo e as erupções de pensamentos hediondos deram uma serenada.

Dias depois encontrei um saudoso amigo, médico psiquiatra, numa fila de orelhão (telefones públicos que existiam até os anos 2000 quando começaram a ser extintos e hoje viraram raridades) e falei que estava completamente descacetado “a ponto de recorrer a meditação transcendental.” “Pior opção”, ele disse, “porque quando estamos sob violento estresse – que é o seu caso - a meditação piora tudo, amplifica. Gasolina em lareira. Não adianta tentar conter pensamentos através de mudanças de pensamentos.” Perguntei o que poderia resolver e ele, muito objetivo aconselhou “tomar ansiolítico e fazer psicanálise”. “Mas eu parei”, disse, “pois então retome já”, ele respondeu, “mas faça em grupo para ver que todo mundo sofre disso”, encerrou, antes me passando uma receita do hoje vintage Lexotan.

Foi quando ingressei na psicanálise e em várias outras terapias ortodoxas e heterodoxas (florais, unha de corvo ao suco, etc) que uso até hoje para conter a mente caótica. Não dá para conter 100% mas adquiri know how para negociar com ela.

Há uns cinco ou 30 anos atrás (não lembro) eu estava nadando a noite numa paradisíaca praia de Angra dos Reis quando o motor da mente caótica girou e comecei a pensar na música do filme “Tubarão” (“tan tan tan tan”), convencido que ia ser devorado por um ali mesmo. Apesar de pensar “não existe tubarão aqui, não existe tubarão aqui, não existe tubarão aqui” desesperado nadei até a praia e, quando cheguei, me joguei na areia. Acho que até suei no mar.
Um amigo disse, “caramba, você nada rápido pra cacete”, comentou, “e até parecia eu, ano passado, quando mergulhei a noite, fui até lá no fundo e lembrei daquela música do filme Tubarão, entrei em desespero e quase andei sobre a água. Nunca mais pisei na água a noite”.
“Pois é”, respondi.


domingo, 22 de julho de 2018

Isolado há 22 anos, índio tenta sobreviver

 
                                                                                 
Na mata no interior do estado de Rondônia, na Terra Indígena Tanaru, uma área florestal de uso restrito com 80 km² encravada entre cinco fazendas de pasto e agricultura mecanizada, o último sobrevivente de uma tribo indígena resiste ao contato com a civilização há 23 anos.

Após ver a família ser assassinada e os últimos membros da tribo dizimados por fazendeiros em 1995, o “índio solitário” trava uma batalha para sobreviver, longe dos fazendeiros e traficantes de madeira que mandam na região. Felizmente a Funai teve uma luz e, em 2015, demarcou a área de 8.070 hectares por mais dez anos.

Funcionários da Funai relatam que tentaram se aproximar do índio, mas foram afastados a flechadas. Desistiram e passaram a monitorá-lo a distância para preservar a sua vida.

Os interesses dos madeireiros, que dizimam a população indígena e devastam as florestas, são defendidos com déspota paixão por muitos parlamentares e por gente do governo. Afinal, jamais em tempo algum, os índios tiveram uma demarcação territorial decente, assunto que surge de quatro em quatro anos em período eleitoral.

Muitos oportunistas prometem essa demarcação, mas quando passa a eleição engavetam o assunto. Acham que tem mais o que fazer. Enquanto isso, índios acabam engolidos pela civilização e se tornam miseráveis nas periferias de várias cidades.

Até quando?

sábado, 21 de julho de 2018

Neste domingo, as 11 horas, Elaine Guedes na Sala Paschoal Carlos Magno, em Icaraí, Niterói


A cantora, compositora e musicista Elaine Guedes se apresenta neste domingo, dia 22, na Sala Paschoal Carlos Magno no Campo de São Bento, Icaraí, Niterói. O show é as 11 da manhã e faz parte do Projeto Arte na Rua, da Fundação e Arte de Niterói – FAN. Ela será acompanhada de Rubinho Jacob (violão) e Flávio Santos (percussão).

Se em Chico Buarque ouvimos “silêncios eloquentes e palavras cirúrgicas para momentos bons e horas más que a memória côa”, ingrediente da MPB dos anos 60, nesse show ele se reúne com a música afro-brasileira de Baden Powell, sem barreiras entre erudito e popular.

Elaine Guedes tem formação erudita e experiência na música popular brasileira, como backing vocal de Tim Maia, Benjor e Cassiano, e em seu trabalho autoral. Rubinho Jacob nasceu na percussão e a exerce no violão, elogiado por Ivan Lins como autor, cantor e violonista. A percussão de Flávio Santos também e muito conceituada.

Numa entrevista esta Coluna, Elaine comenta que “no início eu busquei a união desses dois autores e todos me disseram "não tem". O primeiro traço de união foi em Vinícius, parceiro dos dois. Então parti para as diferenças. Um, filho de intelectual e uma musicista, com excelente poder aquisitivo, o outro filho de sapateiro e violinista. Os dois tiveram influência do samba e muitos músicos importantes na própria casa, em rodas de música. Baden, com João da Baiana, Donga, Pixinguinha. Chico, morando na Europa, Vinícius, ainda diplomata, e sabe lá Deus quem mais. A sofisticação é marca registrada dos dois.”

No repertório  “Retrato em Branco e Preto”, “Samba do Perdão”, “Berimbau”, “Canto de Ossanha”, “A Rita”, “O Meu Amor”, “Com Açúcar e com Afeto”, Samba e Amor ente outras





sexta-feira, 20 de julho de 2018

O hóspede (II)


Falta de ar pelo amor partido, sem bilhete, 29 anos atrás. Leve asfixia, leve melancolia, leve arrependimento sob a garoa fina e quase fria. Ele mandara o amor partir. Partir reto, sem olhar para trás, sem derramar lágrima, sem se deixar levar pelas nuvens obscuras da desesperança. Cretina.

Chega ao topo da montanha bela e fria, quase no final da estreita estrada, a subida contornada por cerca viva que se transformava em um diário, onde letras, vírgulas, parágrafos pareciam incorporar os fios de metal entre os moirões. Piso de pedras. No final da subida um pátio, não muito grande, com antigas, muito antigas, marcas de pneus. Bem em frente, uma pequena casa de hóspede, em madeira e telha colonial.

O motor V8 silencioso do carro corta o silêncio opaco daquele lugar que já fora mágico, 29 anos atrás. Havia ecos, de vozes relembradas, remexidas, requentadas. Havia ecos de longos e apaixonados beijos entre os pinheiros que naquela manhã sem vento pareciam estafados, parados, quietos. Como ele.

Escadaria rústica bem à frente. Canil, horta, o pequeno curral, lembrança da canção do vento. A escadaria próxima ao pico do morro onde havia vida. Gado, cães, galos, noites, quintais. Havia vida, galochas, lama, tombos, gargalhadas, amor. Quatro letras que não choram, ele costumava dizer, 29 anos atrás.

Na descida, mais árvores, vento, curral, horta, canil, pátio, o rugido do motor V8 se confunde com o som ensurdecedor do silêncio. A esquerda, a casa. Grande, gentil, hospitaleira. A porta, a copa, a cozinha. Vazias. Nas paredes, manchas de quadros e armários que há tempos eram abertos e fechados frenética e alegremente. Depois da cozinha um pequeno banheiro e a sala de estar. Vazios.

Ecos do leve falatório. Que dia lindo; também acho; vou comprar os jornais; vai chover forte hoje, que bom; eu te amo; também te amo; para sempre; claro; bom dia, senhora; bom dia, senhor; bom dia, bom rapaz.

Colada a sala de estar o salão de jantar. Colonial como toda a casa. Também vazio. Mais ecos, muitos. Vozes, risos, planos, angústias, camaradagem, afeto, um choro de criança, o trote do cavalo manso, a brisa do amor perfeito, os sonhos, as memórias, as reflexões. O motor V8 em marcha lenta empurra o carro devagar em direção ao passado que o homem clama se fazer presente, mesmo que não existam ampulhetas invertidas nessa vida. Tosca, linda. Vida.

Janelões. Vista da mata, cheiro de eucalipto, chuva em terra molhada, alguma neblina, estrelas radiantes, luar, o som incessante do riacho que lembrava uma clave de sol.

Andar de cima. Mais quartos. Vazios. Sossego, canto da cigarra no fim de tarde. Brisa fria, fome, sono, sonhos, mais sonhos. Carro parado, motor V8 em marcha lenta, obediente.

Entra no carro, manobra, desce o caminho. Asfalto. O motor V8 ruge, o carro parte em alta velocidade. Alívio, angústia, terror, êxtase, o pé mais fundo no acelerador na grande reta, 230, 270 quilômetros por hora como se quisesse acelerar as partículas e voltar no tempo.

Tempo, aliado que faz esquecer, vilão que despeja lembranças. Tempo, vida, saudade do ferro velho existencial deixado lá, 29 anos atrás, fingindo que nada aconteceu. Mas tudo aconteceu. Só ele não percebeu.


quinta-feira, 19 de julho de 2018

Boa vontade


Hoje fui contemplado com a boa vontade de um sujeito que não conhecia. Podem até dizer que “ele não fez mais do que obrigação, trabalha para isso”, mas não é bem assim. Vivemos um momento estranho onde imperam a patada, a grosseria, o mau humor e vizinhos de porta da nefasta má vontade. Quando achamos um funcionário de uma empresa regido pela boa vontade muitas vezes impressiona.

Muitas empresas botam a culpa na crise e aumentam seus lucros investindo em mão de obra barata, desqualificada, logo imbecil e grosseira. Botam para trabalhar justamente no atendimento ao público que, em função de tudo o que está aí, também não cheira a Leite de Rosas. E aí vira o maior bala com bala. No entanto, por mais que seja desqualificada, incompetente e mal paga, uma pessoa de boa vontade tenta fazer o possível, enquanto o seu oposto despeja o impossível na nossa cara.

Exemplo: ontem um amigo contou que estava falando com o banco pelo telefone e uma mulher, grosseira, inchada de má vontade, disse a ele quase soletrando que não havia como resolver o assunto e ponto final. Nesse nível. Ele desligou e ligou de novo e quem atendeu não só pediu desculpas como resolveu o problema.

Muitas empresas e instituições pedem que a gente dê notas pela qualidade do atendimento prestado pelo funcionário. Apesar de desconfiar que ninguém vai ouvir a minha nota quando ligo, por exemplo, para a operadora de telefone (tem mais de 100 milhões de assinantes) dou nota máxima quando bem atendido e nota nenhuma quando não. Simplesmente desligo. Vai que um zero se acumula 
a outros e a pessoa, mesmo podre de humor, é demitida?
Reconhecer a boa vontade é mais importante do que esbofetear o oposto. Quem sabe elogiando, estimulando, reconhecendo poderemos sinalizar que ser cordial é o melhor caminho?

Não é?


quarta-feira, 18 de julho de 2018

O analfabeto político - Berthold Brecht (1898-1956 - eternamente atual)


O pior analfabeto
É o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.


terça-feira, 17 de julho de 2018

Concertos em memória de Sergio Roberto de Oliveira, nesta quinta e no dia 29

Um ano após a morte do compositor carioca, concertos reunirão notórios amigos do meio erudito, além do lançamento, no dia 19, do CD de estreia do T’Rio, formado por Cristiano Alves (clarinete), Fernando Thebaldi (viola) e Yuka Shimizu (piano).
                                                            Sergio Roberto de Oliveira

Há um ano, o compositor e produtor carioca Sergio Roberto de Oliveira morreu precocemente, aos 46 anos, em decorrência de um câncer, deixando como legado toda uma vida dedicada à música, com indicações ao Grammy Latino, centenas de obras compostas para diferentes formações, seja de câmara ou com orquestra, dezenas de CDs produzidos e lançados através de sua gravadora A Casa Discos.

Agora, neste mês de julho, além do lançamento do CD “O piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”, reunindo obras dos compositores tocadas pelas pianistas Miriam Grosman e Ingrid Barancoski, intérpretes e compositores de prestígio se reunirão em dois palcos cariocas para reviver suas composições e realizar uma grande homenagem ao saudoso amigo e profissional.

Dia 19 de julho, quinta-feira 

O primeiro espetáculo em sua memória vai acontecer exatamente após um ano de sua partida, dia 19 de julho, quinta-feira, na Sala Cecília Meireles. Uma de suas últimas composições, “Pangea” será apresentada pelo quarteto de clarinetas formado por Cristiano Alves, Igor Carvalho, Thiago Tavares e Tiago Teixeira, que, em seguida, apresentará duas peças de Francisco Mignone (“Valsa Improvisada” e “Valsa-Choro”).

Do CD “O Piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”, Miriam Grosman vai interpretar “Brasileiro”, obra de Sergio Roberto de Oliveira escrita para piano solo, e a pianista Ingrid Barancoski apresenta “Le Tombeau de Aleijadinho”, do compositor e maestro Ricardo Tacuchian. Obras de Villani-Côrtes, Jayoleno dos Santos, Raul do Valle, Didier Marc Garin e Alexandre Schubert integram ainda o variado programa.

Serão apresentados trechos da ópera “Na Boca do Cão”, escrita por Sergio Roberto de Oliveira já bastante debilitado, trazendo a frente a soprano Gabriela Geluda, com Ricardo Santoro (violoncelo), Leo Sousa (percussão) e Cristiano Alves (clarineta).

No mesmo dia, haverá o lançamento do CD “Trios Brasileiros”, do T’Rio, formado por Cristiano Alves (clarineta), Fernando Thebaldi (viola), Yuka Shimizu (piano). Juntos, vão tocar peças de Nestor de Hollanda, Liduino Pitombeira e Ricardo Tacuchian. que estão presentes no CD de estreia, também lançamento da A CASA Discos. 

Dia 29 de julho, domingo 

Com renda revertida para uma instituição de tratamento ao câncer, o palco da Sala Baden Powell receberá, no domingo, 29 de julho, às 15h, o segundo concerto em memória ao compositor tijucano.

O violonista Luis Carlos Barbieri abre o programa com “Umas Coisas do Coração”, obra que levou o compositor a ser indicado ao Grammy Latino em 2011. Os gêmeos Paulo e Ricardo Santoro (Duo Santoro) vão tocar “Aos Santos Oro”, escrita por Oliveira e dedicada aos irmãos. O duo formado pelo violonista Marco Lima e pela soprano Doriana Mendes vai interpretar “Canção do Dia de Sempre” e “A Canção que não foi escrita” (sobre poemas de Mário Quintana).

No final, Miriam Grosman apresenta “Brasileiro” e o mesmo quarteto formado por Geluda, Alves, Santoro e Souza encerra o programa com trechos da ópera “Na Boca do Cão”. 

Sergio Roberto de Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 1970, falecendo na mesma cidade em 2017, com 47 anos incompletos. Graduado em Composição pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), na classe de Dawid Korenchendler, teve, também uma orientação informal com Guerra Peixe. Sua carreira de compositor foi vertiginosa, principalmente depois que ele fundou um coletivo de compositores, intitulado Prelúdio 21, e que apresentava, mensalmente, uma estreia contemporânea de cada compositor, durante os últimos 10 anos de sua vida.

Sua produção cobriu desde peças para instrumentos solistas, conjuntos de câmara, música coral, música sinfônica e ópera. Importantes grupos camerísticos gravaram sua obra como o Quarteto Radamés Gnattali, Quinteto Lorenzo Fernandez, Trio Capitu, Trio Paineiras, Duo Santoro, Duo Bretas-Kevorkian, GNU, entre outros.

Sua obra Phoenix, para clarineta e orquestra, foi gravada pelo clarinetista Cristiano Alves, com a Orquestra Sinfônica Nacional, sob a regência do maestro Tobias Volkmann. Sua ópera de câmara, Na Boca do Cão, em parte escrita em seu leito de morte, teve uma vitoriosa temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, apresentando a soprano Gabriela Geluda.

Paralelamente à sua carreira de compositor, Sergio Roberto desenvolveu uma intensa liderança musical, promovendo festivais como a Bienal Música Hoje, proferindo palestras, inclusive no exterior, como nas universidades inglesas e americanas, ensaiando uma digressão no mundo do cinema com a direção do curta Ao Mar, em 2014,  ou criando a música para os filmes A dívida, que teve uma indicação no Festival Internacional de Cinema de Madri, na categoria de Melhor Música para Filme e no Filmmaker Festival of World, em Milão na categoria de trilha sonora. Obteve reconhecimento por seu trabalho com as duas indicações do Grammy Latino, respectivamente em 2011 e 2012, e a posição conquistada de Artist-in-Residence, na Duke University in North Caroline.

Outra audaciosa e vitoriosa realização de Sergio Roberto foi a fundação de A Casa Estúdio, em 1998, que já produziu cerca de 30 CDs dedicados à música brasileira contemporânea. Sua morte foi sentida por toda a comunidade musical brasileira e pela imprensa e várias homenagens foram realizadas em sua memória, na cidade onde nasceu e desenvolveu sua meteórica liderança e arte.

SERVIÇO 

Dia 19 de julho, quinta-feira – A Música de Sergio Roberto de Oliveira
Local: Sala Cecília Meireles

Horário:  20h

Ingressos: R$40,00 (inteira); R$20,00 (meia entrada)

Rua da Lapa, 47 - Lapa, Rio de Janeiro

Informações:  (21) 2332-9223

Ingressos à venda em breve na bilheteria da Sala Cecília Meireles ou através do site www.ingressorapido.com.br

Programa: 

Sergio Roberto de Oliveira – Pangea

Cristiano Alves, Igor Carvalho, Tiago Teixeira, Thiago Tavares - clarinetas

Francisco Mignone - Valsa Improvisada

Francisco Mignone - Valsa-Choro  Tiago Teixeira, clarone

Sergio Roberto de Oliveira - Brasileiro

Miriam Grosman, piano

Ricardo Tacuchian - Le Tombeau de Aleijadinho

Ingrid Barancoski, piano

Edmundo Villani-Côrtes - Luz

Jayoleno dos Santos - Sonata

Cristiano Alves, clarineta
Tamara Ujakova, piano

Raul do Valle - Sapucaia

Thiago Vieira, trompete

Alexandre Schubert - Outono
Thiago Vieira, flugelhorn
 Thalyson Rodrigues, piano

Didier Marc Garin - Da Caccia X
Pedro Bittencourt - sax-alto; Mariana Salles - viola; 

Liduino Pitombeira - Japan (Full Moon)

Ricardo Tacuchian - Suite das Águas (Da chuva)

Nestor de Holanda - Sábio em Sol (4o movimento)

 T'Rio

Cristiano Alves - clarineta; Fernando Thebaldi, viola; Yuka Shimizu - piano

Sergio Roberto de Oliveira - Na Boca do Cão (A menina movida a vida)

    Gabriela Geluda, soprano
    Cristiano Alves, clarineta
    Ricardo Santoro, violoncelo
    Leo Sousa, percussão

29/07, domingo – A música de Sergio Roberto de Oliveira

Local: Sala Municipal Baden Powell

Endereço: Av. N. Sra. de Copacabana, 360

Ingressos: R$ 20,00/ R$10,00

* A renda será revertida para uma instituição de tratamento ao câncer

Horário: 15 horas

Tel: 2547-9147

Classificação indicativa: Livre

Lotação: 500 lugares

Programa

Luis Carlos Barbieri, violão                        

Umas Coisas do Coração                                                                                                                                                              
Duo Santoro, violoncelos

Aos Santos Oro                                 

Duo Marco Lima, violão e                                      
Canção do Dia de Sempre    

Doriana Mendes, soprano                                        
A Canção que não foi escrita                                                                               
(sobre poemas de Mário Quintana)              

 Miriam Grosman, piano                                          
 Brasileiro       

Gabriela Geluda, soprano
A Menina Movida a Vida     

Cristiano Alves, clarineta
(da Ópera “Na Boca do Cão”)

Ricardo Santoro, violoncelo
Leo Sousa, vibrafone
                                  







segunda-feira, 16 de julho de 2018

Covardia


Ontem, domingo, eu postei uma divulgação do meu programa Torpedos de Itaipu, que vai ao ar na Rádio Oceânica FM, www.oceanicafm.radio.br.

Como a Janis Joplin abriu o programa e mais uma vez comovido com o maravilhoso documentário “Janis Joplin: Little Girl Blue”, de Amy J. Berg, que assisti de novo na Netflix, postei uma foto dela no Facebook de topless numa praia do Rio. Foto super manjada, clicada quando ela veio para cá no carnaval de 1970 fugindo do vício da heroína. No Brasil não havia essa droga fatal que acabou matando a cantora em outubro.

Em menos de cinco minutos recebi um comunicado do Facebook dizendo que além da postagem ter sido arrancada do ar por ferir o decoro deles, fui suspenso por três dias. Não posso postar nada até que a penitência chegue ao fim, uma condenação sem defesa, sem perguntas, sem questionamentos, unilateral, covarde, escroque. Se tivessem feito uma advertência teria trocado a foto já que os usuários de uma rede social devem seguir os seus regulamentos. Mas, não. Imediatamente fui degolado.

Esse fato ocorre numa fase em que não suporto mais a covardia, a manipulação de sentimentos, jogos de interesse, afeto utilitário, ostentação, temas que jamais tratei naquela rede social porque não interessa a ninguém. Aliás, tenho piedade dos comuns que acham que a suas vidas interessam ao público, sendo um comum e não um poderoso.

Como não tive a chance de comunicar que estou suspenso do Facebook no Facebook, informo aqui pela Coluna que, felizmente, tem leitores muito bacanas, sensíveis, bem informados.

Baixa taxa de hipocrisia.



sábado, 14 de julho de 2018

Memórias do "sexto Beatle"

                                                                           
Geoff Emerick é um inglês de 72 anos. Aos 16 anos, começou a trabalhar como assistente de engenharia de som nos estúdios Abbey Road e, ao lado de George Martin, o quinto Beatle, ele gravou a banda do parto até a pá de cal. Em “Revolver” passou a braço direito de Martin como engenheiro de som e foi promovido a sexto Beatle.

Seu despretensioso livro “Here, There and Everywhere – Minha vida gravando os Beatles”, lançado recentemente no Brasil, é um valioso testemunho de um homem que trabalhou em todas as gravações da maior banda da história do rock e viu e ouviu de tudo.

Com o fim do grupo, em 1970, ele fez a engenharia de som para álbuns antológicos como “Band of the Run”, do Wings (gravações na caótica, árida e infernalmente quente Lagos, na Nigéria, foram impressionantes), mas trabalhou também com Elvis CostelloSupertramp, Bad Finger, Cheap TrickNazarethChris BellSplit EnzTrevor RabinNick HeywardBig CountryGentle GiantMahavishnu OrchestraUltravoxMatthew FisherKate Bush, Jeff Beck e outros.

Lógico que os pesquisadores de Beatles e beatlemaníacos em geral já sabem de tudo, mas Geoff conta, por exemplo, que os Beatles tinham nojo, ódio, horror dos cultuados estúdios Abbey Road, segundo ele gigantescos caixotes com luz industrial, cheios de mofo, desconfortáveis, tecnicamente ultrapassados e de um baixo astral generalizado. Sua dona, a EMI, era um paquiderme muito parecido com as empresas estatais brasileiras. Cheia de regras, normas, regulamentos, mas andava se arrastando. O ódio dos Beatles foi tanto que sempre que podiam eles iam gravar no Trident ou no Olympic. O autor do livro diz que Abbey Road simboliza a pancadaria entre os quatro Beatles.

Por exemplo, o álbum “Abbey Road” ia se chamar “Everest”, mas o custo de levar a banda até o monte para fazer as fotos de capa e divulgação tornou o nome inviável. Foi quando Ringo Starr sugeriu algo do tipo “bota o nome disso aqui mesmo”, e nasceu o título Abbey Road. A sessão de fotos para a capa, ícone da cultura pop, durou 20 minutos. Como os músicos mal se falavam (Paul e George estavam a beira da porradaria) fizeram a foto ali mesmo, na rua. O fotógrafo Ian Macmillan foi chamado e eles saíram de repente num dia de sol. Muito simples, nada planejado.

Desde as primeiras gravações a relação entre Paul e George não era boa. Geoff narra que o guitarrista não sabia tocar direito e, por isso, Paul o substituiu em vários momentos. George ficou tão infeliz que passou a ser o último a chegar e primeiro a ir embora das gravações. Ele praticamente não participou de “Sgt. Pepper”. A tal ponto que quando John, Paul e Ringo terminaram a exaustiva gravação de “A Day in the Life”, no dia seguinte Lennon disse para Harrison “parabéns, George. Você perdeu a gravação de nossa melhor música”. O autor do livro diz que George viu nos instrumentos indianos uma fuga, uma forma de esconder sua condição de músico menor, mas reconhece que a partir do “Álbum Branco” ele amadureceu, evoluiu e se tornou um dos grandes guitarristas do mundo.

Por falar em “Album Branco”, o que não falta é bizarrice. Para não se verem, os Beatles gravaram em três estúdios da Abbey Road, cada um em um. Ringo ficava alternando. Poucas semanas antes, John e Yoko sofreram um grave acidente de carro na Escócia e quando chegou, o casal quis colocar a carcaça do carro destruído em frente a sua casa como uma escultura.

Geoff Emerick lembra que numa tarde, vários homens de macacão apareceram no estúdio um, onde os Beatles gravavam o “Álbum Branco”. Ninguém entendeu quando os homens transportaram um grande objeto embrulhado que acharam ser um piano. No uniforme deles constava a logomarca da 'Harrods', uma das maiores lojas de departamento do mundo onde se encontra de tudo, de picanha fatiada a calota de Kombi. Os homens desembrulharam uma...cama. Cama para Yoko Ono repousar por causa do acidente, colocada no estúdio. Como não desgrudava de John (Geoff conta que iam até ao banheiro juntos), ela recebia amigos de um lado enquanto os Beatles tentavam gravar do outro. O tormento Yoko Ono tem dezenas de episódios inacreditáveis.

Lennon estava viciado em heroína no “Álbum Branco”. Tanto que depois da gravação foi se tratar e durante o tratamento compôs “Cold Turkey”, apelido das crises de abstinência sem a heroína:

“(...) A febre é alta
Não consigo ver nenhum futuro
Não consigo ver nenhum céu
(...) Eu queria estar morto
(...) Meu corpo está doendo
(...) Não consigo ver corpo algum
(...) Me deixe em paz
(...) Meus olhos estão abertos
(...) Não consigo dormir
(...) Trinta e seis horas
Rolando de dor
Rezando para alguém
Me liberte novamente
(...) Oh, eu serei um bom garoto
Por favor, me faça bem
Prometo-lhe qualquer coisa
Me tire deste inferno

No meio das gravações do “Álbum Branco”, diante de tanto azedume, baixarias e falta de respeito entre os Beatles, Geoff Emerick se demitiu do disco. O único que foi tentar demovê-lo foi John, que quase implorou, falando da importância do engenheiro para a banda desde o início, etc. George Martin também tentou argumentar, mas não adiantou. Era uma quarta-feira e ele foi pescar. Só retornou a EMI na segunda feira para trabalhar com outros artistas. Muitos meses depois para salvar “Let it Be” e gravar “Abbey Road”. De vez em quando era chamado para resolver algum problema nas gravações de “Yellow Submarine”.

“Let it Be”. A EMI contratou Glyn Johns para produzir algumas faixas, mas não gostaram e ele foi demitido. George Martin, cada vez mais acuado, cansou de tentar apagar os incêndios. Foram gravar no estúdio Trident e semanas depois, quando ouviram as gravações em Abbey Road o som estava péssimo. Um desesperado Paul McCartney caçou Geoff Emerick que disse que muita coisa teria que ser refeita. Chamaram Phil Spector que tentou, tentou mas acabou arquivando “Let it Be” numa prateleira. Partiram para a gravação de “Abbey Road”, mas já sem Lennon. Geoff voltou a engenharia de som e salvou “Let it Be”, que acabou saindo antes de Abbey Road.

O livro traz, também, muitas informações técnicas importantes, pelo menos para mim. Por exemplo, antes de começar a gravar “Revolver” Geoff Emerick ele sugeriu que Paul McCarteney substituíssem seu baixo alemão Hofner, aquele com formato de violino, por um Rickenbacker, bem mais potente. Macca adorou e passou a usar o Backer nas gravações a partir dali. Ele diz que o empenho quase neurótico de Paul McCartney e o som do Rickenbacker fizeram com que os Beatles tivessem o melhor som de baixo em gravações de discos de rock.

O jornalismo chama de fonte primária pessoas que vivenciaram fatos. A história de Geoff Emerick é importante para quem gosta, conhece e até é fanático pelos Beatles. Um livro que testemunha a intimidade da banda genial que ajudou a mudar a história do Século 20.