terça-feira, 16 de outubro de 2018

Com supervisão de Amir Haddad, Betina Kopp estreia o solo "Beco" no Teatro da UFF, Niterói

                                  A artista reúne poesia, projeções, dança e música eletrônica no espetáculo  
                               Por Guilherme Scarpa, Dobbs Scarpa Assessoria de Comunicação
                                                       Betina Kopp, foto de Alexandre Grand

"Betina é uma menina bailarina, que vira serpentina e purpurina. É feminina, tem retina e vagina, escorrega como vaselina e incendeia como gasolina". Tal qual a forma como se coloca em sua própria poesia, a atriz e poeta Betina Kopp leva agora para o palco suas feminices e toda a sua pluralidade. O espetáculo "Beco", que gerou há quase dois anos um livro homônimo, estreia agora em outubro no Teatro da UFF, em Niterói, e reúne as obras mais emblemáticas da artista. 

Betina, que há 10 anos interpreta sua própria poesia e também a de autores consagrados pelos quatro cantos do mundo, une a experiência a projeções multimídia como cenário, dramaturgia e música eletrônica, a fim de conectar palavra, movimento e frequências. 

Com supervisão do mestre Amir Haddad e direção de Adressa Koetz, o solo amplifica questões da nossa contemporaneidade, caras não só para a artista, como o público em geral. "Falo do coração, desse percurso que contrai e expande. Falo das minhas inquietações, angústias cotidianas, realizações, a autoanálise, carências, prazeres. É muito feminino", descreve Betina.

Entre os poemas que estão no roteiro, ela destaca um dos mais recentes que escreveu, "Mulher Cavala", transformado em um batidão para o espetáculo. "Ninguém segura mais as mulheres. Não tenho medo do enfrentamento. É dar a cara a tapa. A 'Mulher Cavala' significa o pé na porta, cavalgar mesmo. Ela quer amar, ser livre, leve e compreendida, mas também quer ser pega, é uma troca: dominar e ser dominada", explica. 

A potente performance da artista, que a tornou singular entre os poetas contemporâneos, é descrita pelo escritor Tavinho Paes como "rascante". "Quando ela entra em cena e a atriz dá lugar à poeta, que trata as palavras como uma mãe amamentando e ninando um bebê, uma coisa fica absolutamente transparente: essa garota tem estilo e este estilo, além de suficiente para identificá-la onde quer que esteja se apresentando, seguramente é de uma originalidade à toda prova", avalia ele.

Para a diretora Adressa Koetz, o espetáculo Beco vai emocionar e também divertir. "O Amir (Haddad) está bem satisfeito com a nossa condução, que é uma grande parceria. Este trabalho é muito autoral, então me vejo como uma facilitadora. É mais lapidar, provocar, conduzir para chegarmos no melhor da Betina, que quem já conhece curte muito. É envolvente", conta Adressa. 

Sobre Betina

A atriz e poeta nasceu em Niterói, é formada na Casa da Artes de Laranjeiras (CAL), apresentou o programa Sensacionalista no canal Multishow. Atuou em novelas e programas da Rede Globo, Canal Brasil e TV Futura. No teatro, destacam-se “Diálogos com Lorca” dirigida por Lu Grimaldi, “Vão Paraíso” e “Escola de Molières” dirigida por Amir Haddad. Criou as performances Corpinturadas, Poesia Que Para (PQP), Poesia Para Degustar e Poiesis. Integra o coletivo Voluntários da Pátria, que já levou música e poesia para jovens de treze estados do país. 

Serviço:

17 e 18, 24 e 25 de outubro de 2018

Quartas e quintas – 20h

Teatro da UFF

Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí – Niterói/RJ

Ingressos: R$ 20 | R$ 10 (meia)

Classificação etária: 14 anos



O show de Nick Cave em São Paulo; relato do monumental Mauricio Valladares

Mauricio Valladares, produtor e apresentador de rádio, fotógrafo e DJ
criador do conceituado site www.roncaronca.com.br. Produz e apresenta
a edição de terças-feiras de "Em Cartaz", as 23 horas na Rádio
Globo FM.

clique avassalador de professor vidigas, THE butcher em candangolândia!

mas a situation é a seguinte, imagina você numa partida de futiba onde um dos times em campo terá como linha atacante: garrincha, puskas, van basten, maradona e edmundo… isso, massive attack com CINCO monstros para enfeitiçar seus olhos, arrancar sua língua pela orelha, para te levar ao prazer incomum. captou?

pois bem, transporte tudinho para um local abarrotado por uns sete mil espíritos em sintonia total com um palco habitado por jim, nick, george, warren, martyn, david e larry… percebeu?

foi isso que aconteceu, ontem, no espaço das américas (SP) na volta de nick cave & the bad seeds ao brasa, quase trinta anos depois… grosseria em dose industrial apoiada por repertório barra pesada e performance como poucas vezes temos a chance de testemunhar.

tendo as gavetas do roNca como referência, acho que a entrega de nick ao seu ofício no palco pode ser comparada ao desejo incontrolável de bruce springsteen em fazer amor com sua (dele) platéia… PQP, fueda!

já comentamos como o recente percurso de nick cave na música é algo sem muitos precedentes… de como ele superou tudo, de como conseguiu enfiar uma criação sônica foreta da massificação nas mentes de zilhões de novos ouvintes.

a audiência de ontem estava 1000% inserida na música das sementes… para mim, foi surpreendente a quantidade de gente cantando todas as músicas, palavra por palavra. o show levou por volta de duas horas e quarenta minutos, na maioria do tempo, eu tive pertinho (à esquerda) uma menina muito jovem (com a namorada) que chorou em várias canções, se requebrou, urrou, pulou e se despediu com o rosto de felicidade plena… à direita, um pouco mais distante, tinha uma outra, sozinha… cacilds, ela cantou TODAS as músicas, quietinha, paradinha, mergulhada na mais profunda parte da piscina… D+

no que entrei, hoje, no asa dura, de volta pro rio, quem passa por mim no corredor?

– hey, foi você que cantou todas as músicas de nick cave?

– hahaha… eu mesmo. adoro muito. sei tudo

“from her to eternity”, “jubilee street”, “tupelo”, “the mercy seat”, “red right hand”, “stagger lee” e a surpresa, na marra, de “jack the ripper” ficarão séculos e séculos ecoando pela minha existência… D+D+D+D+D+D+D+D+D+D+D+D+

sabe a sensação das coisas serem positivas? do mundo andar pra frente?

mas nem tudo foram flores no espaço das américas… pela primeira vez em sua vidinha, a coitada da xeretinha foi confiscada pela produção de um show (produção nick cave). até agora não entendi direito como aconteceu o fato e, na boa, prefiro não compreender o que levou a coitadinha da xerê a passar quase três horas isolada do mundo… parece piada mas é pura realidade… pelo andar da carrocinha rolou um mal entendido fuderoso envolvendo o credenciamento de fotógrafos com a produça do show (nick cave) que determinou que os retratistas teriam suas MEGA máquinas confiscadas após a única música autorizada a ser clicada e que, depois do árduo trabalho (!), seriam enxotados para as laterais do palco (na platéia) e ali ficariam, isolados (acredite!) até recuperarem suas ferramentas… hahahahahaha, que comédia.

ao saber desse mal estar, simplemente, comentei: “muito obrigado pela credencial mas eu não estou aqui apenas para fotografar. paguei o ingresso para me divertir vendo o show onde bem quiser e com quem quiser. portanto, não me interessa registrar uma música apenas (a primeira do show)… e se vocês estão proibindo a documentação profissional do show, fiquem sabendo que a pobrezinha da xerê está mil furos abaixo de 99% dos celulares aqui dentro”

nesse momento, brotou uma eficiente e simpática funcionária do espaço das américas super disposta a atenuar a nhaca… e conseguiu.

enfim, fui obrigado a me separar da chorosa xerê que soluçava: “nunca aconteceu isso com a gente”… e respondi: “meu amor, ja que estamos em são paulo, pense no ensinamento do grande boça – puta mundo injusto, meu”.

mas já está tudo certo… disse pra ela que nada irá substituir os cliques que deixamos de fazer mas que, entre mortos e feridos, esse 14 de outubro mostrou como não podemos viver separados

                                                  L O V E

                                                       ( :

                                           segura a viagem…

  1. Jesus Alone
  2. Magneto
  3. Higgs Boson Blues
  4. Do You Love Me?
  5. From Her to Eternity
  6. Loverman
  7. Red Right Hand
  8. The Ship Song
  9. Into My Arms
(Introduced as “a prayer to Brazil”)

  1. Shoot Me Down
  2. Girl in Amber
  3. Tupelo
  4. Jubilee Street
  5. The Weeping Song
(Nick walked in the crowd)
  1. Stagger Lee
(Audience members invited to the stage)
  1. Push the Sky Away
(Audience members on stage)
  1. Encore:

  2. City of Refuge
  3. The Mercy Seat
  4. Jack the Ripper
(First time played in 2018)

  1. Rings of Saturn
Note: Original setlist included Skeleton Key, Mermaids and Distant Sky as optional songs, as well as Jack the Ripper, which was played. Foi Na Cruz was attempted, but Nick Cave couldn’t remember the lyrics.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Obscuro objeto do desejo


Minha paixão por motocicletas não tem explicação, mas ela brotou como peiote nos desertos do México, logo que fui proibido de andar num ciclomotor de um amigo. A marca era Velosolex.

A preocupação dos meus pais fazia sentido por causa da minha irresponsabilidade em insanas acrobacias de bicicleta - com direito a visitas hospitalares com relativa frequência - aliada a uma suspeita de déficit de atenção. Soma-se a isso a fama de maluco que alguns vizinhos tentaram me jogar nas costas pelo conjunto da obra, especialmente o volume e o tipo de música que ouvia.

Proibida para mim como muitos filmes, músicas, livros, peças de teatro para todo mundo (era ditadura, etc) pouco a pouco a motocicleta foi se transformando em meu obscuro objeto do desejo, aqui uma homenagem inconsciente a Buñuel. A motocicleta tornou-se desejo tórrido, curiosidade vã pelo proibido como buraco da fechadura, casas de ópio, Carlos Zéfiro, mescalina de Dom Juan, personagem de Carlos Castaneda.

A medida em que fui voando mais e mais nos ciclomotores emprestados, um amigo de outro bairro ganhou uma Yamaha 125 zero KM, azul, na época importada do Japão (estamos em 70 e tal). Poucos anos depois ele bateu com a moto e partiu. Foi horrível.

Quando vi aquela Yamaha, o desejo me deu um solavanco. Queria voar naquela obra de arte da época, a qualquer preço. Tanto que propus um aluguel. Eu andaria duas horas em troca de um tanque de gasolina (uns 10 litros) e ó óleo da mistura do nervoso motor de dois tempos. O cara topou. Eu já colaborava para um jornal local que me rendia uma graninha razoável, que botei toda no estranho aluguel.

Sem lenço, documentos, capacete, de bermudas, menor de idade, senti coisas inconfessáveis montado naquela 125 (na época, o must) que voava baixo e, defeito maior, tinha um péssimo freio. Já havia lido que aquele modelo não era confiável, “meio vadia”, me disse um mecânico, mas eu relevei. Relevei até um mês depois, num fim de tarde quando saltava com ela sobre um pequeno morrote lá em Ponta Negra. Sem mais nem menos, a moto resolveu não freiar, rodou, embicou para um matagal e desabou num canal. Rolei para um matagal ao lado, sensação de pânico, sentindo que estava sendo esfolado.

Permaneci alguns segundos deitado, olhos abertos, pensando nas coisas de sempre: será que morri? Será que me arrebentei todo? E a moto, como estará?Levantei e manquei forte. A perna direita estava com um lanho de sangue, o braço direito também, raspão na testa, o que vulgarmente é conhecido como “escoriações generalizadas”. Mancando, fui ver a moto, emborcada no canal. Tanque arranhado, um amassado forte no paralama dianteiro e outros detalhes que só percebi depois.

Parou um carro na estrada. Polícia. Pediram os documentos da moto (zero), minha carteira de habilitação (zero), identidade (mostrei a carteira do colégio), eles gentilmente (não é deboche) me levaram até um pronto socorro (hoje rebatizado de pronto atendimento) onde fiz os curativos (um outro policial levava a moto) e depois me convidaram para ir a delegacia. Pediram o telefone de casa, para avisar a meus pais ou responsáveis. Descolori. Dei o telefone mas o policial não ligou, só me dava esporros em sequência.

Confesso que meu maior temor não era ir em cana e nem de causar aquela enorme decepção caso meus pais realmente fossem convocados para ir lá. O meu maior temor era a possibilidade de levar uma multa porque desde a tenra idade tenho horror de dar qualquer grana para o governo, da forma que for, uma pregação constante de meu avô, sócio do clube “se é governo, sou contra”, que me impregnou. Hoje piorou.

Depois da lição de moral e cívica, o policial resolveu me liberar e o mesmo sujeito que havia levado a moto para a delegacia a conduziria até a estrada, RJ – 106. Lá eu deveria subir na Yamaha e sumir.

Continua outro dia porque está grande demais.

domingo, 14 de outubro de 2018

Se eu fosse consultado - Carlos Drummond de Andrade

Crônica publicada no Jornal do Brasil
em 15 de abril de 1977
Fotos de Rogério Reis, feitas na casa de Drummond
                                    
       

Se me dessem a honra de ouvir-me sobre as reformas políticas, eu recomendaria uma ideia bem mais revolucionária do que as da própria Revolução. E muito mais salutar: a eleição integral, em que todos os brasileiros, mas todos, sem exceção das crianças, hoje tão sabidas, escolhessem seus representantes e dirigente, sob a forma de voto mental absoluto, sem papagaiadas formalísticas.

Os mandatos teriam a duração exemplar de 24 horas, o que eliminaria angústias e infartos, e poderiam ser, não digo cassados, pois julgo a expressão extremamente antipática, mas revogados, caso no fluir dos minutos o eleitor achasse que fizera má escolha. Em compensação, poderiam ser renovados na manhã seguinte e nas outras manhãs, sempre que o eleitor se mantivesse contente com os mandatários e não quisesse experimentar outros. Desta maneira teríamos a cada sol, ou a cada dia de chuva, governo e representação popular novos, que, se fossem ótimos, poderiam ser confirmados quando o galo cantasse outra vez (o galo ou a serraria do bairro), e, caso não dessem no couro, teriam feito o menor mal possível à mente do seu eleitor.

Já sei que impugnariam o meu projeto, apontando-lhe mil inconvenientes, entre os quais o de provocar a anarquia governamental e legislativa, pois não haveria um só presidente, e sim talvez milhões,  dada a tendência de muito eleitor a votar em si mesmo, o que se repetiria para a eleição para governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores. Podendo até dar-se o caso de um mesmo indivíduo eleger-se simultaneamente para todas essas funções. Como governar, como elaborar leis desta maneira?

Bem, eu já previa esta objeção principal, como tantas outras, e afirmo que a explanação da ideia fará com que ela rutile em seu justo e convincente esplendor. Os órgãos políticos assim constituídos não trariam a menor perturbação à vida do país. Pelo contrário, só poderiam ofertar-lhe benefícios, pela soma de boas influências de cada eleito, no ânimo de seu respectivo eleitor. 
A democracia funcionando dentro de nós, com eficácia, e não supostamente do lado de fora, sujeita a esbarrões e desvios. Nisso consiste a beleza do meu sistema. 

Eu, por exemplo, me daria o prazer, ou o privilégio, de ser governado em 1° de janeiro por mestre Alceu Amoroso Lima. Para renovação da alegria, meu presidente no dia 2 seria Maria Clara Machado (Que diabo, então mulher inteligente não pode assumir o posto?) Depois seria a vez de César Lates, Vinícius de Moraes, Paulo Duarte, Prudente de Morais, neto, essa folha-de-malva que se chama Henriqueta Lisboa, Aliomar Baleeiro, Luis da Camara Cascudo, Fayga Ostrower, Pedro Nava, Francisco Mignone, Enrico Bianco, Eliseth Cardoso, Orígenes Lessa, Fernanda Montenegro ... Tudo gente boa, de respeito. E de imaginação. Estes, e outros assim, os meus presidentes ao longo do ano. Meus vizinhos escolheriam os deles.

Ninguém brigando por motivo de ambição. Em santa paz, cada qual seria governado, orientado, instigado pela figura de sua dileção. Por serem de jurisdição limitada ao âmbito das pessoas que os elegessem, não colidiriam entre si tantos presidentes, situados na extensão infinita ( e mínima) de nossas preferências pessoais. Todos nós, eleitores, nos sentiríamos impelidos, na esfera individual, a fazer o melhor possível, sob esse comando abstrato. E vivendo e trabalhando cada um de nós ao influxo de tal regência moral, este seria um país que não precisaria criar calos nos pé e na alma para ir pra frente.

Bem, insistirão ainda os opositores: E quem governaria de fato o Brasil, quem faria leis para serem realmente executadas? Ora, pergunta vã. Se na prática tais poderes podem ser concentrados numa só pessoa, minha proposta consiste apenas em estender esta faculdade, no plano ideal, que também conta, a todos os integrantes da comunidade. Sem bulha nem ameaça à segurança nacional, e com plena consciência de todo mundo. 

Tolerância a intolerancia


A tolerância a intolerância é intolerável, mas está aí para quem não pode ou não quer ver. Nas ansiosas filas dos bancos, nos ônibus, aviões, na caminhada solitária das pessoas rumo ao trabalho, na escola, na consulta médica. Rumo ao nada, muitas vezes.

Exercitar a tolerância é mais do que fundamental, ensinam a filosofia (parceira invisível e milenar de todos nós), a psicologia, o bom senso. Um exercício difícil, espécie de musculação existencial, vital, fundamental para que as pessoas possam conviver minimamente bem com elas mesmas e a partir daí com a sociedade.

A intolerância está presente nas ruas, no ambiente de trabalho, no supermercado, nas redes sociais na internet, na política partidária. Nesse momento de crise, o radicalismo parece se impor ao bom senso e assistimos a um banho de sangue entre aspas entre pessoas que atiram até amizades de décadas no lixo em nome de convicções políticas dos outros, dos políticos profissionais.

A sensação de “vão-se os dedos, ficam os anéis” em redes sociais como o Facebook e Twitter, onde todo mundo bate em todo mundo defendendo políticos, políticas, governos, desgovernos, incha mais os bolsos deles, dos políticos, e esvazia a esperança de uma nação mais equilibrada, mais generosa e até mais engraçada. Afinal, sem humor nada é possível.

Dizem que essa onda de tolerância a intolerância é passageira. Até concordo, mas não nego que ela me preocupa e até ocupa meus pensamentos em plena hora da vadiagem, dos devaneios. Afinal, se brigar por nós exige limites, brigar por quem não parece ridículo.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Luz no fim do Túnel


Todo radical é pueril e não apenas imbecil como costuma ser tratado. O radicalismo faz parte da pós-adolescência imediata, quando queremos virar o ônibus, tacar fogo no mundo, lutar contra a sociedade construída, contra o capital, contra o governo, contra a família, contra tudo. Depois, a maturidade chega, toca a campainha, entra, senta numa poltrona pede um café e convida a pós-adolescência a se retirar. Ela, a maturidade, irá morar conosco o resto dos dias.

Hoje o Brasil está tomado pelo radicalismo de tal forma que o ódio impera. Ou a pessoa é de direita ou de esquerda, exatamente como era nos tempos de colégio, com uma drástica diferença: o maior e mais poderoso meio de comunicação da história da civilização, a internet, está amplificando e reverberando essa relação caótica entre as pessoas com milhares de giga tons de potência. Se você não quer confusão, a confusão entra no seu celular, tablet, computador. Pé na porta.

E muito negativismo, baixo astral, azedume. Concordo que o otimismo excessivo, esse modo Poliana de ser representa uma cerca queda de asa em direção a alienação diante da verdade. Logo, os tempos exigem equilíbrio, lembrar que o Brasil não está em crise, ele é a crise, e do caos fez-se o Cosmo (Carl Gustav Jung), não é?

Eu me recuso a pensar que não existe mais luz no fim do túnel. Eu me nego porque quis o destino que eu me apaixonasse por comunicação e informação desde garoto e por conta disso acabei fechando um pacto com os livros, jornais, revistas, internet, TV, rádio. E a história mostra que desde 1808 quando a Corte portuguesa fugiu de Portugal e se apossou do Rio só dá encrenca, protagonizada pela corrupção.

Como ioiô o Brasil já foi lá embaixo e voltou várias vezes, mas a luz do fim do túnel jamais apagou ou foi apagada. Crise com o fim da monarquia, crise com o começo da república, golpes de estado, tropas na rua, II Guerra, Getúlio se roçando em Hitler, Estado Novo, Jânio, renúncia, golpe em 64, turbo golpe em 68....blá blá blá.

De manhã pus no Facebook a linda foto que ilustra esse artigo, um túnel no final , túnel verde, de autor desconhecido, e algumas pessoas comentaram. Quis mostrar que não devemos nos render ao negativo, venha de onde vier, certos de que há conserto para tudo. Sabem o Ted Turner, magnata que criou a CNN e um monte de outras TVs? Ele conta no livro que conta história da CNN que tinha um iate com bandeiras de todas as cores, menos a branca. “Branca é de rendição e eu não me rendo”, ele disse.  Eu também não.

Logo, não venham querer levar o nossa luz no fim do túnel, e muito menos o túnel que faz parte da vida. Dou a maior força aos conhecidos que fugiram para o exterior, estão no seu direito de ir para onde quiserem. Muita gente esculhamba mas eu defendo porque ninguém é obrigado a permanecer num lugar que faz mal. Agora, também acho ridículo quando eles ficam lá de fora dando pitaco nos problemas daqui. Ou está fora, ou está dentro. Uma vez fora, a peteca fica aqui. E a luz do fim do túnel também.


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A morte e a morte dos museus - Claudio Valério Teixeira - Do Conselho Internacional de Museus (ICOM) - Da Associação Brasileira de Críticos de Arte (AICA)



Venho me dedicando à conservação de bens culturais há quarenta e quatro anos. Discípulo de Edson Motta e filho do criador do Museu Nacional de Belas Artes, o pintor Oswaldo Teixeira, este mundo da arte e dos museus sempre me cercou, posso mesmo dizer que vivi minha infância dentro de um museu. O incêndio do Museu Nacional, por conseguinte, inflamou minhas emoções. Naquele fatídico domingo, quando vi pela televisão as imagens do museu em chamas, senti uma mistura de ódio e vergonha. Mas, agora, não adianta lamentar.

Duas semanas antes, minha mulher e eu levamos nossos netos para conhecer o museu. De lá saí deprimido ao constatar o lastimável estado de conservação da edificação, que exibia flagrantemente a ameaça à integridade do público, dos profissionais que lá trabalhavam e do valioso acervo. Não é hora de procurar culpados; responsáveis somos todos nós, duzentos milhões de brasileiros, como bem disse Eduardo Bueno em depoimento veiculado em rede social.

O Museu Nacional morreu devido a um terrível acidente, um sinistro previsível. Nesta triste oportunidade, já que a precariedade e o descaso que caracterizam a história dos museus públicos brasileiros vieram à baila, já que as autoridades estão sendo cobradas pelas responsabilidades não cumpridas sobre a proteção de nossos bens culturais, é hora, também, de nos lembrarmos da morte de nossos museus estaduais, daqueles sob a tutela do estado do Rio de Janeiro.

No último governo de Sérgio Cabral, ex-governador encarcerado há quase dois anos, foram fechados o museu Carmem Miranda, que guardava o acervo da famosa cantora, um dos ícones de nossa brasilidade, e o Museu dos Teatros, que abrigava importante acervo relativo à dramaturgia brasileira e sua história. Extinguiu-se o Museu do Primeiro


Reinado, que protegia importante mobiliário do império e, pasmem, a planta original da Quinta da Boa Vista, de autoria de Auguste François Marie Glaziou; tudo isso deixado em comodato no Museu Nacional e, agora, perdido para sempre. Houve uma ideia estapafúrdia de se criar no local, antiga chácara da marquesa de Santos, o museu da moda, que nunca saiu do papel.

O Museu da Cidade, no parque da Cidade, que depois de anos fechado e abandonado, o estado cedeu para o município do Rio de Janeiro, transferindo sua responsabilidade, melhor dizendo, sua irresponsabilidade, segue desativado.

Em Niterói, fecharam ao público a Casa de Oliveira Viana, com importante biblioteca que, dizem, abre a pesquisadores com agendamento. O Museu Antônio Parreiras, há mais de seis anos fechado para obras, que começam e param repetidamente e nunca terminam, como uma ópera sem fim, e o público impedido de conhecer e contemplar a obra do notável paisagista brasileiro.

Convém citar a nova sede do Museu da Imagem e do Som, o colossal prédio na praia de Copacabana, exemplo máximo da ineficácia do estado e da má utilização de verbas públicas, até hoje aguardando esperada inauguração.

Dos museus do estado sobraram poucos; em Niterói, o Museu do Ingá, vivendo como diz a linguagem popular, a meia-boca, pouco foi fechado por falta de pagamento de luz. Este é o penoso panorama dos museus do estado do Rio de Janeiro, pouco lembrado, até a próxima tragédia. Se o Museu Nacional morreu devido a um sinistro, os museus do estado do Rio foram exterminados por vontade e decisão dos governantes.


Para complicar e mascarar a negligência, o governo federal, num arroubo político tardio e de consistência duvidosa, tenta impor uma agência de museus, numa ação mal dissimulada de interesse pelo patrimônio cultural e museológico, quando, na verdade, mais parece uma iniciativa de passar adiante a responsabilidade, de se ver livre do bem público.

Sabemos, desde sempre, que os museus federais vivem à míngua.
Podemos dizer, com raras exceções, que estão como no samba de Nelson
Sargento: “agoniza, mas não morre”. Mas, às vezes, morrem.