sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O voo crítico


Desculpe os garranchos. Você sabe que não escrevo a caneta há mais de 20 anos. Está escuro ainda. Você e nossas crianças dormem.

Ontem, na cama, vi seus olhos muito negros levemente marejados, fitando meu rosto. Destilavam uma dose de tensão, certamente porque hoje, mais uma vez, farei um voo crítico. Eu ia começar a explicar o inexplicável mas você pôs o dedo indicador em meus lábios. Não queria ouvir nada sobre voos críticos. Eu também não queria falar nada sobre voos críticos, mas fique certa de que não existe voo militar em missão que não seja muito crítico. Não minto, não omito.

Seus dedos estavam frios como na segunda noite que saímos, anos atrás. Você pegou na minha mão para atravessarmos uma tórrida avenida de Manhattan no auge do calor. Senti o seu suor. Depois, meio sem jeito, ensaiou me explicar porque de vez em quando gelava ao atravessar uma avenida movimentada. Eu disse que você não precisa me explicar nada. Só precisa sentir sem receios.

Com o passar do tempo, de voo crítico em voo crítico, você foi me convidando a precisar de você. E cada vez mais pegava em minha mão para atravessar as avenidas sinalizando que também é gostoso precisar de mim. Depois daquela festa engraçada que você fez com as suas amigas aqui em casa você chegou e disse “sabia que eu te amo?”. Eu não sabia, mas foi uma delícia ouvir. Nunca sei se sou amado e você sabe disso. Adoraria ouvir todo dia, toda hora. Mais ainda porque não havia nenhum voo crítico programado.

Pensei em deixar apenas um cartão. Mensagem curta. Mas os seus dedos frios de ontem, a sua incerteza, a sua presença me trouxeram um gigantesco orgulho. Orgulho de pertencer a sua vida, reafirmar a sua importância. Mesmo que seja breve. Relações também são voos críticos.

Quando nossos fios desencapados dão curto circuito e a gente se aborrece um com o outro - e os voos críticos já causaram alguns desses desentendimentos - o amor sempre impera. Não suporto ficar cinza com você, nem por cinco segundos. Parece que deixo de existir até a gente se olhar de novo.

A manhã está escura, neve lá fora e o voo será crítico. Confie nele, no destino, na nossa história e, se der, confie em mim porque amanhã ao meio dia estarei de volta para pegar você e as crianças no colo e, juntos, celebrarmos a chegada do novo ano. Aliás, hoje será o meu último voo crítico como Comandante. Não farei mais.

Presente de ano novo para nós.

Klint.