sábado, 31 de março de 2018

Bonnie

Clique aqui e ouça Bonnie: https://www.podomatic.com/podcasts/luizantoniomello/episodes/2017-09-20T08_11_18-07_00

Quando o carro chegou naquela aldeia empoeirada, bela, paradisíaca, a cabeça moída e o corpo cansado agradeceram. De pés juntos. Era verão, provavelmente o melhor verão de minha vida. Pelo menos até o verão seguinte.

O acaso me fez encontrar com três amigos, que foram promovidos a grandes amigos, numa rua qualquer naquela semana. Eu já andava cheio dos ególatras, interesseiros, parasitas que só investem em amizade de conveniência achando que somos babacas. Tudo bem, eventualmente sou um babaca mesmo, mas naquela semana eu estava com a faca nos dentes.

Eles me convidaram desleixada e afetuosamente, “vamos passar o resto do verão naquela aldeia praiana. Alugamos uma casa lá e um dos caras não vai poder ir.”

Comuniquei as férias (vencidas) no trabalho, passei em casa, amontei umas roupas. Partimos em dois carros, saindo por volta das 10 da noite, uma viagem que durou umas seis horas pois paramos em várias biroscas para bater papo. Eu não estava habituado ao saldo positivo de tempo. Naquela noite sobrava tempo, mas as vezes, no meio da conversa movida a gargalhadas sentia a incômoda presença do fantasma da culpa até lembrar que estava de férias.

Na reta final, quase chegando a aldeia, achei que um caminhão vinha em sentido contrário, mas era Vênus, linda, vaidosa, imponente no meio daquele céu azul petróleo banhado de estrelas. Vênus ficou em nosso horizonte alguns mágicos minutos, até dobrarmos a direita numa estrada secundária que levava diretamente a aldeia.

Chegamos e nem desfiz minha mala. Simples. Duas calças jeans, duas bermudas, quatro camisetas, sandália, tênis, sunga, escova de dente, Omo, etc e lá no fundo, bem no fundo, a fita com “Bonnie”, do Supertramp, que havia gravado há meses como uma espécie de mantra e estava perdida. Ela acabava e recomeçava, acabava e recomeçava. Peguei. Peguei e logo que coloquei a rede nos ganchos da varada, liguei “Bonnie” num micro system de um dos amigos, no meio daquele resto de noite de um lado e início de amanhecer do outro, com direito a brisa soprando e ruído do mar de encontro as pedras perto dali.

Acordei com o sol na cara, quente, implacável. Eram umas 10 da manhã e quase me arrastando fui para o quarto onde liguei na tomada meu bravo ventilador Britania, que morava no porta malas do meu carro. Dormi. Dormi pra cacete.

A tarde, fomos almoçar numa birosca que servia o melhor e mais barato filé de cação da região, com arroz agulhinha e brócolis de acompanhamento. Dali, praia, mar translúcido, areia deserta. Um dos amigos tinha levado o seu pranchão de windsurf, um esporte que existiu entre os anos 80 e 2000, se não me engano. Pusemos a prancha no mar sem ondas, eles colocaram a vela e começaram a velejar. Não sei nem nunca soube velejar porque tenho preguiça de aprender, apesar de achar fantástico. Os caras eram feras e no fim da tarde pararam. Na beira d’água, tirei a vela da prancha, amarrei num pedregulho (como âncora) e deitei de barriga para cima, boiando como Zorba, o Grego.

As 11 da noite retornamos para a casa, a uns 60 metros dali. Eles pediram e para minha alegria dei Play na fita de “Bonnie”, que rolou mais um tempão. Fizemos e devoramos um churrasco de picanha. Depois, em duas motos fomos para uma espécie de centro da aldeia e entramos num dancing bem simples, com frequentadoras locais e também de fora, maioria de São Paulo e Minas.

No dia seguinte, sem dormir, peguei uma das motos e percorri a beira d’água por vários e incontáveis quilômetros, rumo ao norte. A culpa já tinha sido chutada e meu relógio de pulso guardei no porta luvas do carro, abandonado na garagem. Em algum lugar parei, mergulhei, deitei na areia e dormi. Acordei com o sol quase se pondo. Mergulhei de novo. Depois, liguei a moto e retornei. 

Quando cheguei próximo a casa, notei um movimento extra. Algumas garotas que estavam no dancing na noite anterior resolveram nos visitar e, de topless, animadas, falavam, gargalhavam, beijavam.

E assim o verão “Bonnie” foi cavalgando. Tudo muito devagar. Dias depois já estávamos pretos por causa do sol, e barbudos por desleixo proposital. Numa das noites maravilhosas e transcendentais, quando todo mundo havia saído (com algumas outras garotas do dancing), preferi ficar sozinho.

Deitei a vela da prancha de windsurf no gramado, liguei “Bonnie” e mergulhei nas estrelas e satélites que passavam naquele impressionante firmamento que misturava azul petróleo com prata. “Deus existe”, pensei várias vezes. Pensei e prometi a mim mesmo mudar algumas coisas em minha vida. Alguns comportamentos. Não foi promessa, nem decisão radical. Um mero acordo meu com aquelas noites abençoadas que, de cara, me deram de presente três amigos extraordinários.

Em minha divagação (teria sido meditação?) excluí algumas manias que de fato foram deletadas, menos uma delas: não incomodar ninguém. Tinha essa mania. Tinha e tenho. Naquele mesmo verão fui sozinho a uma praia relativamente movimentada, peguei sol demais e acho que tive intermação. Sei que na hora em que fui mergulhar quase desmaiei e me afoguei. Ali mesmo, no raso. Mas, com essa mania de não querer incomodar, não pedi socorro, não chamei ninguém, mas ainda assim fui visto por um gringo que me puxou pelo braço e me levou para a areia. Até hoje penso “será que se ele não tivesse me puxado eu teria me afogado por cerimônia?”. Creio que sim. Pior é que ando cada vez mais radical. Nem a hora pergunto. 

Já me perdi em São Paulo por horas por não perguntar nada a ninguém. Por isso, até a pé uso o aplicativo Waze. Não pergunto nada, não peço nada, não grito socorro para ninguém, não gosto de ganhar presente porque “dá trabalho a quem compra”. No entanto, quem me conhece diz que sou um mega solidário e prestativo, o que sou mesmo.

Passamos do final do verão lá naquela aldeia, como primatas. Uns 40 dias, não sei bem. Retornamos muito amigos. Um deles seguiu a pé para a Cordilheira dos Andes e o outro pegou um voo para o México, onde estava estudando os peiotes de Carlos Castaneda. Eu e o terceiro amigo ficamos por aqui mesmo e toda vez que nos encontramos falamos de “Bonnie”.

Como não?



sexta-feira, 30 de março de 2018

Minhas vidas no Jornal do Brasil


                                                               
Acabei de ler um livro fundamental: “Até a última página – uma história do Jornal” (Editora Objetiva, já está em todas as livrarias) do amigo Cezar Motta, colega e ex-chefe de reportagem nos grandes tempos de Rádio Jornal do Brasil, departamento de jornalismo.

Ao longo de 552 páginas, o Cezar não só conta, em detalhes, a história do JB entre 1891 e 2010 –  o jornal voltou as bancas no último 25 de fevereiro – como nos dá uma aula de História do Brasil, política, economia, contexto internacional. Lógico que me bateu uma enorme saudade.

Sou cria do que era chamado de Sistema JB, jornal e rádios JB AM, JB FM e Cidade. Comecei a trabalhar com 16 na Rádio Federal, primeira emissora de rock que funcionava em Niterói, comandada por Carlos Siegelman, Marcos Kilzer e Jorge Davidson. De lá fui para a Rádio Tupi AM onde estagiei dois anos na reportagem geral e também nos programas populares de Paulo Lopes e Paulo Barbosa.

A bordo do carro de reportagem da Super Rádio Tupi (chamava-se “Tupi Amigo Total”) conheci todas as favelas da época (1973) e nos dias em que estávamos sem notícia subíamos a avenida Brasil pela pista do canto até Santa Cruz. Sempre rendia uma matéria. Sempre. Cheguei a almoçar um belo pernil de porco num barraco que ficava numa palafita de uma das favelas vizinhas ao Caju porque a rádio deu um aparelho de audição a um ouvinte que morava lá, e eu fui entregar. Foi uma festa.

O meu vínculo afetivo profundo com o Jornal do Brasil vem da infância. Eu morava em Angra dos Reis e quando vínhamos para o Rio passávamos pela avenida Brasil. A Rio Santos não existia. Quando chegava no começo eu, garoto de uns 8 anos no banco de trás do Morris Oxford de meu pai, olhava para a obra de construção de um prédio gigantesco que tinha a imagem do célebre elefantinho, símbolo do Jornal do Brasil com os dizeres “aqui futura sede do JB”.

Saí da rádio Tupi e me apresentei na Rádio JB como estagiário. Esquelético, cabeludo, calça de veludo azul, fui recebido com um berro de “hippie aqui dentro, não!”, era o subeditor Oscar Barbosa que, em seguida (alívio) disse que era brincadeira.

Foi a minha primeira vida naquele belo “navio”, o prédio bilionário “ancorado” na avenida Brasil 500, hoje sede do Into. Entrei em meados de 74 como estagiário e meses depois fui promovido a repórter. Tinha 19 anos. Na chefia de reportagem o grande Cezar Motta e na direção do rádio jornalismo a inesquecível mestra Ana Maria Machado, escritora, hoje acadêmica da Academia Brasileira de Letras.

Como muitos,  me orgulhava de trabalhar naquele prédio onde aprendi muito, muito, muito. Logo entrei em contato com o Humberto Vasconcellos que era editor do Caderno B (rádio jornalismo e jornal ficavam no mesmo sexto andar) que me abriu espaço para escrever sobre alguns discos de rock
Pelo menos uma vez por semana saía uma matéria porque o Humberto tinha uma cabeça super aberta.

Em 1981 saí para começar o projeto da Rádio Fluminense FM e foi emocionante a torcida dos amigos e colegas da Radio e do JB e também, da Rádio Cidade, que pertencia ao grupo.

Em 1985, Flávio Pinheiro assumiu a editoria do Caderno B e me convidou para ser subeditor. Ele me disse “você terá carta branca, queremos um Caderno B com muito espaço para jovens e todas as suas manifestações e quero que você cuide dessa área”. Eram bons tempos.

O B contava com grandes caras como Arthur Dapieve, Jamari França e várias outras figuras de grosso calibre como Wilson Coutinho, especialista em artes plásticas, autor de uma matéria que deu capa no B, chamada o “O rastro Beat”, a influência dos beatniks dos anos 50 e 60 nas artes plásticas dos anos 80. Enfim, graças a confiança do Flávio Pinheiro (um cara muito especial), deu para fazer um bom trabalho na subeditoria.

Saí do JB quando José Roberto Marinho me convidou para fazer uma nova Rádio Globo FM. Recusei várias vezes, em vários almoços, expliquei a ele que o Sistema Globo de Rádio era conhecido como um serpentário e ele argumentou que sabia e que ia acabar com ele. Me convenceu. A desratização aconteceu depois. Fato é que me arrependi. O Sistema Globo de Rádio daquela época foi a pior empresa onde pisei ao longo da trajetória. Uma cordilheira de canalhas empistolados, invejosos, anões existenciais sabotavam o trabalho de pessoas sérias, mas resisti alguns meses até jogar a toalha, depois da emissora entrar no ar.

Fui chamado para assumir o jornalismo da Rádio Cidade (voltei a colaborar no Caderno B) e voltei para o “navio” da avenida Brasil, onde fiquei um tempo migrando em seguida para a Rede Manchete de TV, Estadão, etc etc etc.
Foram três as minhas vidas no Jornal do Brasil. Todas felizes e muito bem vividas. 

Agora, como colaborador do Caderno B novo JB, entro numa quarta vida que, espero, seja tão feliz como as outras três.



quinta-feira, 29 de março de 2018

“Janis: Little Girl Blue”, ótimo filme, está na Netflix


A diretora e roteirista Amy J. Berg acertou em cheio. O filme "Janis: Little Girl Blue", está na Netflix, revela novos vértices da personalidade cronicamente carente, rejeitada, complexa da maior cantora de blues contemporâneo, a texana de Port Arthur Janis Joplin.

O grande diferencial para outros filmes sobre Janis está na impressionante quantidade de cartas, fotos, áudios, filmes e vídeos inéditos, que são apresentados ao público em enxurrada. O documentário é diferente porque não trata a plateia como iniciados em Janis, ou em blues rock mas, ao mesmo tempo, consegue satisfazer os conhecedores ao se manter distante óbvio.

A plateia se comove quando o filme mostra, por exemplo, a capa de um jornal de alunos do colégio onde Janis estudou em Port Arthur quando menina e adolescente. Os alunos a elegiam "o homem mais feio do ano". Isso mesmo: homem. A humilhação foi suficiente para faze-la chorar em público pela primeira vez, segundo revela um amigo daqueles tempos.

Rejeição afetiva, simpatia, carisma, a voz que desnorteou o mundo, a bebida, as drogas, em especial a heroína que matou a cantora em 4 de outubro de 1970, sozinha num quarto de hotel em Los Angeles. O filme é pontuado pelas inúmeras cartas que Janis enviou para a sua família, para mim uma novidade. Não pensava que o contato com a sua "casa" fosse tão intenso. 

Depoimentos de jornalistas, produtores, amigos, músicos da banda que a revelou (Big Brother and Holding Company), chegadas e partidas de amores que sucumbiam diante da heroína. Seu último grande amor, um americano que conheceu no carnaval do Rio de Janeiro, em 1970, para onde Janis veio fugindo da heroína, mostra uma brutal ironia do destino.

Vale a pena assistir, ouvir, sentir e entender Janis Joplin.

Verdade, mentira, realidade, ficção


                                              

Algumas pessoas perguntam sobre a veracidade do que escrevo aqui. Respondo que tem de tudo; realidade pura, ficção delirante; muita verdade, mas, certeza absoluta, nada de canalhice, embalagem básica da mentira.

A crônica anterior a esse texto (leia ali embaixo), chamada “Tempero da Somália” é totalmente híbrida. A pensão existiu em uma época, o japonês em outra, mas o seu apelido não era Tijolo e sim Pau de Pombo. Na verdade ele era um quase japa que veio de São Paulo, mas trabalhava num restaurante nas imediações de Benfica, Rio.

“Tempero da Somália”, a pensão, é inspirada em um restaurante a quilo onde, no desespero, de vez em quando almoço. O lugar é quente pra cacete, o que altera o humor das pessoas, empilhadas umas sobre as outras disputando milímetros. E como mais 90% dos comensais tem quase 100 anos berra-se muito. Quase todos estão surdos. A minha audição, de tanta música gritante, começou a patinar mas até hoje não me disseram que falo alto. Ainda.

O sujeito que anda de bicicleta latindo existe. Ontem mesmo eu o vi numa rua de Icaraí (Niterói) latindo loucamente, suando e tomando uma chuva cusparadas de passageiros de ônibus. Lembro dos tempos em que tinha um Gurgel (jipe) dos anos 80, branco, conversível. Quando andava sem a capota, os passageiros de ônibus jogavam tudo em cima de mim, tangerina, jornais embolados, pilha usada, cigarro aceso e chovia cuspe. Jeitinho brasileiro.

Na crônica “Tempero da Somália” morre gente. Pura ficção. A pensão que cito na zona portuária existiu naqueles morrotes que cercam a região mais promíscua da Praça Mauá, Rio, e lá em cima existia a pensão Pinguim, baratíssima, quente pra caramba e o dono, que não era japonês, dizia que era alérgico a vento justificando a falta de ventiladores. Ou seja, está tudo conectado, mas vem de épocas totalmente distintas.

No caso de “Mente Caótica”, que escrevi e publiquei anteontem, é tudo verdade. Claro, em alguns momentos carreguei nas tintas para ficar mais interessante, mas rigorosamente todos os fatos que narro aconteceram, já que todo mundo tem história bizarra para contar. Afinal quem nunca achou uma casca de banana na bolsa em uma sala de espera de hospital?

Quem sabe um dia desses, conto essa.


quarta-feira, 28 de março de 2018

Tempero da Somália


Na zona portuária só existiam duas estações: quente e muito quente. O fedor das vielas era nostálgico, subidas e descidas com paralelepípedos, bicheiros, anões vendendo bilhetes de loteria (diziam que anão dava sorte) e no alto da ladeira, fincada numa calçada quase destruída ficava a pensão “Tempero da Somália.”

Na porta, um quadro negro vertical escrito a giz exibia o cardápio do dia. Mocotó, feijoada, dobradinha e uma vez por mês rabada com agrião. O ambiente era pesado, todo mundo com o olhar suspeito, calombos na cintura. Armas.

No verão, mais de 40 graus e o dono era alérgico a vento e frio. O dono era um neto de japonês que chegou ao Brasil fugido das Filipinas. Como era ilegal pagava propina todo o mês para se manter intocável.

Era conhecido como Tijolo, apesar de não ter mais de 1m58, magrinho, não falava com ninguém, não esboçava qualquer expressão. Só aceitava dinheiro e não dava troco porque para ter troco tinha que ir a banco e ir a banco como ilegal era um risco. Chamavam de Tijolo porque logo que chegou num navio panamenho se hospedou um cortiço nas imediações do porto. Todos os dias as sete da manhã, meio dia, seis da tarde e meia noite, um homem de bicicleta passava pela viela latindo alto, muito alto. Ninguém mexia com ele porque dava trabalho. Mas Tijolo não suportava ser acordado pelos latidos e, numa manhã, esperou o homem atrás de um poste e deu várias tijoladas na cara, nuca, genitália. Matou o homem. Gastou sua já parca reserva financeira subornando a polícia.

Abriu “Tempero da Somália” com o dinheiro de dois sujeitos que não conhecia mas que precisavam de um refúgio eventual. Tijolo nunca quis saber porque, de vez em quando, os dois entravam na Somália esbaforidos e se escondiam num banheirinho escuro, nos fundos. Todos os comensais fingiam que não viam.

Perguntaram a Tijolo, sem falar Tijolo porque Tijolo não gostava que o chamassem de Tijolo, por que o nome “Tempero da Somália”. O que diz a mitologia da região é que após ouvir a pergunta, Tijolo começou a vomitar e, aos prantos, entrou no banheirinho chorando chorando chorando e só saiu no dia seguinte. Os frequentadores diziam que “deve ser dor de corno”, mas por via das dúvidas nunca mais ninguém perguntou nada.

Alheio as brigas dentro do estabelecimento, com navalhadas, facadas e punhaladas (Tijolo proibia tiros para não atrair polícia), ele ficava junto a uma caixa de manzanas argentinas que funcionava como caixa. Lia edições atrasadas do Asahi Shimbun enquanto o sangue muitas vezes espirrava nas paredes, que depois dos duelos Tijolo obrigava o vencedor a limpar e também se livrar do corpo.

Alguns anos depois, quatro homens assaltaram um banco e foram almoçar. “Tempero da Somália” estava fechada. A notícia se alastrou, muita especulação. Tijolo morto? Tijolo preso? Tijolo...uns diziam que Tijolo fora visto num Armazém do porto onde teria embarcado num navio para Mogadíscio, já outros garantiam que ele tinha ido para a Praça 15 onde pegou uma barca para Paquetá.


terça-feira, 27 de março de 2018

Mente caótica


Nossos predadores existenciais vivem nas savanas do inconsciente e mantém no topo da cadeia alimentar a ansiedade antecipatória, figurinha fácil no corredor da morte das penitenciárias onde a pena de morte é formal. No Brasil é informal. Há muitos relatos de condenados que ficaram ensandecidamente ansiosos para chegar o dia da execução, quando a ansiedade, parece, cessa.

Dormir mal, comer mal, falar mal, cansaço instalado no cotidiano, ansiedade antecipatória é capaz de levar o ser humano a milhares de abismos por minuto, numa tortura inominável que devora dias e noites, semanas, meses, anos, décadas.

Certa vez, lá na casa do cacete dos anos 70, fui me meter a fazer meditação transcendental na torpe tentativa de tentar reduzir a velocidade dos pensamentos caóticos.

Baixei numa espécie de consultório em Copacabana, num prédio que se chama Edifício das Boutiques, na Santa Clara. Apesar do tsunami de mulheres maravilhosas na fila do elevador, minha cabeça parecia uma Kombi capotando e pegando fogo na avenida Brasil. Não deu nem para apreciar a bundolaria feminina. Olhei, mas não apreciei.

O cara começou a sessão de meditação querendo que eu ficasse de pernas cruzadas, similar a posição de lótus, mas eu nunca consegui e não consigo até hoje. Acabei deitando de barriga para cima.
Com a voz mansa ele fez uma contagem, disse um monte de coisas e na minha cabeça surgiam piranhas (peixes) comendo a minha mão num caixa de banco, incêndio no meu próprio corpo, afogamentos, enforcamento numa floresta devastada, em suma, a tal meditação conseguiu reunir o pior do pior e eu disse “para, meu chapa! Não aguento mais! Quanto é?, vou embora”. E fui.

No corredor do elevador fumei dois cigarros acendendo um no outro (na época eu fumava e todo mundo podia fumar em qualquer lugar, até dentro de aviões e berçários), andando de um lado para o outro como limpador de para brisas aflito até golfar na lixeira e, meio trôpego, deixar o edifício das Boutiques rumo ao trabalho de repórter na Rádio Jornal do Brasil.

Eu tinha uma Brasília, carro de sucesso que a Volkswagen fabricou de 1974 até 1982 e a bordo, em alto volume, enchi a cara de Led Zeppelin como se fosse fogo paulista auditivo e a erupção de pensamentos hediondos deu uma serenada.

Dias depois encontrei um saudoso amigo, médico psiquiatra, numa fila de orelhão (telefones públicos que existiam até os anos 2000 quando começaram a ser extintos e hoje viraram raridades) e falei que estava completamente descacetado “a ponto de recorrer a meditação transcendental.” “Pior opção”, ele disse, “porque quando estamos sob violento estresse – que é o seu caso -a meditação piora tudo. Joga gasolina em lareira. Não adianta tentar conter pensamentos através de mudanças de pensamentos.” Perguntei o que poderia resolver e ele, muito objetivo aconselhou “tomar ansiolítico e fazer psicanálise”. “Mas eu parei”, disse, “pois então retome já”, ele disse, “mas faça em grupo para ver que todo mundo sofre disso”, encerrou, antes me passando uma receita do hoje vintage Lexotan.

Foi quando ingressei na psicanálise e em várias outras terapias ortodoxas e heterodoxas (florais, unha de corvo ao suco, etc) que uso até hoje para conter a mente caótica. Não dá para conter 100% mas adquiri know how para negociar com ela.

Há uns cinco ou 30 anos atrás (não lembro) eu estava nadando a noite numa paradisíaca praia de Angra dos Reis quando o motor da mente caótica girou e comecei a pensar na música do filme “Tubarão” (“tan tan tan tan”), convencido que ia ser devorado por um ali mesmo. Apesar de pensar “não existe tubarão, não existe tubarão, não existe tubarão” desesperado nadei até a praia e, quando cheguei, me joguei na areia. Acho que até suei no mar.

Um amigo disse, “caramba, você nada rápido pra cacete”, comentou, “e até parecia eu, ano passado, quando mergulhei a noite, fui até lá no fundo e lembrei daquela música do filme Tubarão, entrei em desespero e quase andei sobre a água. Nunca mais pisei na água a noite”.

“Pois é”, respondi.


sábado, 24 de março de 2018

Fúria e Ódio


Está no dicionário:

Fúria: exaltação violenta de ânimo; ira, raiva, cólera.

Ódio: aversão intensa ger. motivada por medo, raiva ou injúria sofrida; odiosidade.

Muito se fala numa era de ódio no Brasil, representada pela estapeamento político, principalmente nas redes sociais, em especial no Facebook onde grupos rivais se matam mutuamente.

Não concordo que seja ódio e sim fúria. Afinal, no início da República o brasileiro já dizia que não se deve discutir política e futebol porque dá briga. E dá mesmo. Chamar essas reações de ódio é pesar a mão.
Ódio e inveja são os sentimentos mais nefastos do ser humano e, no caso, há sim uma minoria que em nome de uma paixão política passa a odiar os contrários. Mas a maioria sente fúria. Pergunte a seus pais ou avós como era nos tempos de PTB versus UDN. Se existisse Facebook as agressões de petebistas contra udenistas e vice e versa seriam em quantidade muito maior e bem mais sangrentas do que hoje.

Conheço gente tranquila, equilibrada pessoalmente que se transforma em bestas irracionais quando provocada numa rede social. Creio que o fato de estar em contato virtual com o outro, a pessoa se sente a vontade para exagerar, ofender profundamente, difamar, o que, se fosse pessoalmente, acabaria em briga muitas vezes fatal.

Nos tempos em que batia boca no Facebook (pela inutilidade óbvia abandonei a prática), uma vez fui provocado por um conhecido na vida real que começou a me instigar, politicamente. Até que me irritei e parti para o contra ataque, dizendo coisas horríveis sobre ele e suas crendices políticas. No final, um bloqueou o outro e assim ficou. Meses depois encontrei com ele num shopping e tomamos um café como se nada tivesse acontecido, mas no Facebook continuamos mutuamente bloqueados.

Explica mas não justifica, mas a maioria silenciosa no Brasil sempre foi racista, homofóbica, xenófoba. Não falam nada, ficam quietos alimentando (aí sim) o seu ódio pelos grupos sociais que não toleram. Vai demorar para essa maioria silenciosa deixar de ser maioria e muitos menos de silenciosa.

É aí que mora o verdadeiro perigo.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Me rendi aos discos voadores

            As bolas que vimos eram vermelhas e não laranjas como essas. Eram muito parecidas
             só que eram muito maiores e aos milhares subindo em alta velocidade para o céu     

Já era hora de reavaliar algumas opiniões relacionadas a Ovnis. Sei que é politicamente incorreto, mas prefiro chamá-los de discos voadores.

Nunca havia visto e também nunca acreditei neles. Mesmo nos anos 80 quando estava na praia de Itaipu com Steve Hackett, Hilário Alencar, Selma Boiron e Carlos Lacombe, e vimos, todos, milhares de gigantescas bolas vermelhas subindo para o céu, em silêncio profundo, durante quase um minuto e ninguém entendeu. Não sei se Selma e Hilário lembram da visão. O grito aflito, extasiado do Steve (“Fly saucers! Fly saucers!”) não me sai da lembrança.

Anteontem, o produtor Steve Altit, responsável pela vinda de Steve Hackett ao Brasil (toca hoje, sexta, no Vivo Rio e amanhã, sábado, no especialíssimo Teatro Municipal de Niterói) me ligou. Eram umas duas da tarde, ele estava no aeroporto (acho que no sul) com o músico. Altit me perguntou “é verdade que vocês viram discos voadores em Niterói lá por 1983? O Steve (Hackett) está falando nisso direto” e passou o telefone para ele. “Olá Luiz, how are you?”, mas a ligação caia e o grande Altit combinou com ele de nos encontrarmos no camarim depois do show.

Nunca aceitei a visão que tivemos, mas apesar de ter formulado milhões de hipóteses não cheguei a remota conclusão do que teria sido. Na época, voltei a Itaipu, conversei com locais, falei com o saudoso médico, hipnólogo e perito e em Ovnis, Dr. Silvio Lago, que se ofereceu para fazer uma regressão com o grupo e a partir de nosso relato, buscar uma explicação. Gênio, ele usava a hipnose para verificar se relatos de pessoas que diziam ter visto discos voadores eram reais ou algum tipo de ilusão, e mandava os resultados para a Nasa. Optei por não fazer a regressão e nem falar com ninguém.

Pior. Meu ceticismo em relação ao assunto radicalizou de tal maneira que as pessoas que comentavam comigo sobre o fato (saiu em jornais) só me ouviam debochar e até fazer uma comparação grosseira: “disco voador é como patrocínio eu já vi, mas não acredito”, e encerrava o assunto. Achava que naquela noite de inverno, bela e fria, todos nós sofremos algum tipo de surto psicótico.

Ontem, depois da ligação do Steve, finalmente me rendi explicitamente as evidências. Afinal, um inglês cosmopolita que dá voltas ao mundo o tempo todo até hoje comenta um fato que se passou há mais de 30 anos. Foi muito impactante para ele, para os amigos que lá estavam e agora, admito, foi impactante e muito emocionante para mim também.

Por isso, pensando bem, peço desculpas a quem crê em Ovnis pelos anos que passei esculachando o assunto. Claro, esculachando de modo irônico, debochado, mas esculacho é esculacho. Aproveito o embalo e peço desculpas também aos budistas por tudo que andei dizendo e fazendo ao longo do tempo (sem detalhes).

Aceito a aparição de Itaipu, aceito que vi sim discos voadores, que lamentei não estar com uma câmera fotográfica, que aquela imagem sobrenatural me fez bem, me banhou de encantamento, que por alguma razão eu quis suprimir da minha história. Da mesma forma quando quase quebrei uma imagem ligada ao budismo (sem querer) e não pedi desculpas a quem crê. Peço agora.

Todo mundo sábado no Municipal de Niterói para o brilhante show do Steve Hackett.






quarta-feira, 21 de março de 2018

As crianças tem razão


Está havendo muita injustiça e preconceito com as novas gerações, que alguns chamam de alienadas, vazias, fúteis, cabeças de vento, acomodadas.

Não é verdade.

Todo mundo já passou pela adolescência, um gigantesco HD vazio registrando tudo que está à sua volta. Tudo. O bom, o mau e o feio.

A adolescência e a pós-adolescência são uma fase experimental imposta pela natureza para que os filhotes atravessem a transição criança-adulto querendo saber.

Há muito deslumbramento, decepção, dor e, lógico, radicalismo e oposição. O adolescente obediente “bovino” e cordato não está bem. Posso falar? Não é um adolescente normal. Adolescente tem que dar trabalho, tem que provocar, tem que irritar, tirar do sério.

Ele acha que tem (e tem mesmo) o direito de levar a vida que acha certa. Cabe aos adultos insistentemente tentar conversar com o adolescente.
Os adolescentes de hoje estão vivendo uma das eras mais tumultuadas de todos os tempos. A tecnologia transformou a revolução do pós II Guerra em fichinha. A fartura tecnológica está substituindo tudo, especialmente as famílias. Nada hoje é igual ao que era 15 anos atrás.

Hoje ligo o meu “livro” na tomada para carregar; um Kindle, leitor digital de livros sem papel que precisa de carga como os celulares. No olho dessa gigantesca revolução, que está acabando até com os carros com motorista, estão os adolescentes.

Eles aprendem com o novo mundo que podem dormir com namoradas e namorados em casa, que podem passar o fim de semana longe de casa, vivem se falando pelo whatsapp usando códigos que só eles entendem, e tem uma consciência dos perigos muito maior do que nós tínhamos quando tínhamos nossos 16 anos. Mais: sua visão de democracia, etnia, diversidade é muito própria. Nossos preconceitos? Sem cerimônias, eles atiram pela janela.

Estive no show do The Who, no Rock in Rio, num dia com 100 mil pessoas, e vi bandos e mais bandos de garotos e garotas de 16, 17, 20, 25, 30 anos. Não houve briga, nem bebedeira, nem sombra de qualquer confusão. Estavam lá ouvindo o que gostam de ouvir, curtir e assistir o que acham interessante e ponto. Lembrei de uma música do próprio Who, de 1965, chamada “The Kids are Alright” (“As crianças estão bem”), cujo autor, o genial Pete Townshend, tinha 17 anos quando compôs. Um adolescente falando com seus pares:

Eu não me importo
Se outros caras que dançam com minha garota
Isso é bom
Eu conheço todos eles muito bem
(...)
As crianças estão bem 

As vezes
Eu sinto que tenho que fugir
Eu sei que tenho que fugir
Vou sair da minha cabeça
As crianças estão bem

Eu não sei se seria melhor para ela
Eu planejava as coisas, mas os caras não a deixavam

Eu não me importo
Se outros caras que dançam com minha garota
Isso é bom
Eu conheço todos eles muito bem

Por mais que ocorram as revoluções, os filhotes mantém os pais e similares como referências. Se os pais de uma criança de três anos ouvem funk vagabundo, é lógico que futuramente essa informação vai entrar no HD do adolescente. E isso vale para tudo. Pais que quase se beijam com frequência, ou se estapeiam, pais que jogam lixo na rua, jogam em lixeiras, fumam, não fumam, bebem, não bebem, são preconceituosos, são liberais, se drogam, não se drogam. Tudo isso é referência para o filhote até a puberdade quando surge no horizonte o furacão da rebeldia e ele vai adquirir novos hábitos.

Mas inconscientemente não apagará as referências de mãe, pai e similares. Os submissos, os que não questionam a sua primeira autoridade (a família) provavelmente terão que se contentar com a mesmice existencial e, quem sabe, cantar “Como Nossos Pais”, de Belchior, no futuro.

Mas a rebeldia, o estado de "ser do contra", o confronto, duram poucos anos pois, quando adultos, a maioria se torna amigos de pais, mães e similares. E os papéis quase se invertem. Jovens adultos, os ex adolescentes se tornam o ponto avançado, a figura que puxa ensinamentos do futuro e repassa para os pais, que já não tem mais saco para saber navegar na Deep Web, decodificar gírias, conhecer os ritmos do momento.

Em suma, a fonte ainda é a base de tudo. E a base se manifesta pela contemplação dos garotos e garotas e não pelas nossas supostas ordens, via autoritarismo. Enfim, é um tema vasto, complexo, que pretendo continuar abordando num outro dia.




terça-feira, 20 de março de 2018

A eterna magia do Circo Voador


Hoje o Caderno B, do Jornal do Brasil, publicou uma matéria minha sobre o show do grande Lô Borges, no Circo Voador. Será nessa sexta-feira na “Nave” (apelido do Circo), onde Lô Borges e banda irão gravar um DVD com as músicas do lendário “Disco do Tênis” (1972) e também das nove músicas dele que estão no mítico “Clube da Esquina”, do mesmo ano.

Não tenho dúvida de que o Circo Voador é o melhor espaço cultural do Rio. Certamente do país. Segundo um viajado amigo meu, do mundo.
Cúmplice da cultura de qualidade, desde 1982 a "Nave" apresenta uma programação imbatível, linkada com o novo mas valorizando, também os momentos antológicos, mágicos.

O Circo é mágico. Tem em sua essência a alma inquieta, rebelde, risonha e tudo mais da Maria Juçá, uma amiga que os ventos do destino puseram em meu caminho na segunda metade dos anos 1970. Ela trabalhava no Jornal do Brasil, eu na Rádio Jornal do Brasil.

No início dos anos 80 eu saí da Rádio JB para fazer a Fluminense FM e ela deixou o jornal para fazer o Circo Voador. Fluminense e Circo formaram uma dupla imbatível que demoliu o conceito de “noite do Rio”. Demoliu e construiu outro.

No Circo Voador da Lapa, na sua primeira encarnação magnificamente mambembe, assisti a vários shows com gente pendurada na estrutura. E, na maior moral, a também estourada Juçá pegava o microfone e abria o verbo na base do “desce dai, rapá! Tá pensando o que?”

Escrevendo a matéria sobre o show do Lô Borges muitas lembranças flutuaram entre mim e a tela do computador. Noites e mais noites e mais noites e mais noites na “Nave”, onde degustei cada segundo, cercado de amigos.

Amigos como um deles que durante antológico show de Zé da Gaita tocando The Who (o show se chamou “Zé Who”) gritou no meu ouvido algo como “guarde esse momento. Guarde porque isso é histórico e eterno”. De fato, foi.
Atualmente o Circo está lindo, abriga uma tribo de garotos e garotos incendiários sob o manto da Maria Juçá, porque só ela tem capacidade de tocar a “Nave”. Ninguém mais.

Só ela consegue formular e executar a equação que funde bom gosto, modernidade, cultural atemporal e livre, para um público na faixa dos 25, 30 que celebram a vida ao lado de quem tem 50, 60.

Todos irão superlotar a “Nave” sexta-feira para alegria desse Rio combalido, chutado, escarrado por um triplo comando – municipal, estadual e federal - de (desculpem) merda.

Viva Maria Juça! Viva o Circo Voador!

Sempre!

P.S. – Escrevo ouvindo King Crimson Live in Chicago, em 28 de junho do ano passado. Está no Spotify.






13:15

O que se comenta é que o verão está fazendo as malas e pega o ônibus espacial, rumo ao hemisfério norte, as 13:15.

Aqui no sertão fluminense passamos o último dia de verão sufocados por uma sensação térmica de 44 graus. Vi muita gente reclamando nas ruas, um mau humor generalizado e em vários lugares até os apegados flanelinhas sumiram. 

Essa segunda-feira foi um dia especial para mim. Bandidos invadiram a minha conta bancária, levaram uma grana do especial, fizeram empréstimo, fizeram TED, DOC e o escambau. Entrei em desespero.

Fiquei de uma da tarde as sete da noite tentando que o banco me devolvesse o que os bandidos roubaram, que na verdade era do próprio banco em oito golpes de dois segundos cada, entre 12 e 13 horas. Estancou porque eu quase enlouqueci recebendo os SMSs e liguei para o banco, que bloqueou a minha conta. Cancelei reuniões importantes, mas o que fazer? Uma familiar muito querida sofreu o mesmo golpe semana passada.

O banco reconheceu a falha, cobriu a minha conta (deixo sempre com cem reais), mas para isso peguei uma varada de Ubers indo e voltando e só as 19 horas fui ao caixa eletrônico e reativei tudo, com novas senhas etc. Mas, são 3 e 15 da madrugada e provavelmente não vou conseguir dormir. Foi o maior estresse.

Nesta terça um técnico irá reformatar meu computador apesar de eu já ter decidido não usar mais o famigerado bankline. Agora só caixa eletrônico. O banco é metido a tecnocrata e quanto mais engenhoquinhas cibernéticas inventa mais as fraudes acontecem.

Voltando ao meu zigue zague pelo sertão há muito tempo não via gente cobrindo a cabeça com jornal e hoje vi. Embaixo de uma marquise, taxistas disputavam espaço com camelôs e comentavam que “esse calor está de matar passarinho em pleno voo.” De fato, os passarinhos sumiram.

Em tempo: já notaram que os pardais desapareceram aqui da região metropolitana do Rio, vulgo sertão fluminense? Alguém sabe por que? Se souber, por favor me diga.

Climatempo diz que vai chover nesta terça, primeiro dia do outono. Detalhes: “O outono começa ainda com sol forte, mas pancadas de chuva de curta duração podem cair durante a tarde e à noite, mas sem causar muitos transtornos. Amanhã, quarta-feira, a frente fria avança e todo o Grande Rio entra em alerta para chuvas intensas e volumosas. Os temporais podem se prolongar até quinta-feira.”

Desvio. Alguém deve se lembrar de um bloquinho retangular cheio de linhas, números e códigos. Cada folha se chamava cheque e o tal bloquinho tinha o nome de talão. No século 20, ele valia como dinheiro. Era só preencher e pagar quase tudo. Não estou mentindo.

Os bancos aproveitaram a onda da internet e, para lucrarem mais, desmoralizaram o tal do cheque (substituído por cartão de débito, etc) e pouco a pouco vão extinguindo a profissão de bancário. Ninguém aceita mais cheques e os bancários muito em breve vão estar batendo papo com os dinossauros nos confins da pré história.

Esse desvio foi para dizer que verão é como cheque pré-datado. Você passa hoje para descontarem daqui a dois meses, acha que vão esquecer mas no dia certo, pou!, ele bate na conta. Em dezembro, janeiro e boa parte de fevereiro o comentário geral era que “o verão está camarada, não ligou o maçarico, as temperaturas estão até humanas”. Era um pré-datado que bateu na nossa conta neste março.

Que calor!







segunda-feira, 19 de março de 2018

Pau de enchente


Bruce era um pau de enchente, rolando pela vida, batendo numa margem e na outra, afundando e flutuando como um caule de eucalipto no leito de um rio caudaloso. PhD em filosofia achava que o homem era uma flecha arremessada no universo, sujeito a rotas, desvios, vitórias e fracassos, ao sabor do destino. Bruce não agendava nada. Não programava, não projetava, não arquitetava, apenas vivia. Como um pau de enchente.

Seu nome fora inspirado em Bruce Wayne. O pai passou boa parte da adolescência assistindo Batman & Robin na TV e lia tudo sobre o homem morcego. Tinha álbuns, posters, figurinhas e até uma fantasia de Batman que adoraria usar todos os dias mas, diante do provável ridículo, vestia apenas no carnaval. Na época dizia que se tivesse um filho ele se chamaria Batman. Tornou-se um respeitado e famoso jurista e por isso batizou o filho de Bruce. Batman não seria de bom tom.

Bruce era considerado um gênio, mas diante do espelho se achava um fiasco. Aos 20 e poucos anos leu uma biografia dos Beatles e fixou-se em Yoko Ono, exatamente por ter sido ela, a seu ver, “o tiro do imponderável asfixiando o quarteto inglês”. Bruce adorava o imponderável e gostava de acreditar que Yoko acabou com os Beatles, apesar de, no íntimo, achar uma balela.

Por causa de Yoko Ono ficou dois anos procurando uma japonesa para namorar. Por causa de Yoko Ono achou, numa ida ao bairro da Liberdade, em São Paulo, onde numa casa de massagem erótica conheceu a sansei Íris, conhecida como Lígia, mas que como massagista usava o nome da viúva de John Lennon. Era parecida com Ono, muito parecida. Digamos que ficava na contramão do gosto comum, uma mulher exótica, misto de dominatrix, kamikaze e último samurai. Bruce se apaixonou. E ela por ele.

Numa tarde quente de quarta-feira ela perguntou se Bruce desejava que ela largasse a profissão. Bruce disse que não, acreditava que o verdadeiro amor está muito além e acima de 15 homens por dia numa cabine de lambris. “Se um dia você deixar de me amar e ao invés de me falar começar a dar sinais de You've Lost That Loving Feeling, vou ficar magoado, arrasado, triste”, ele disse.

- Prometo que caso aconteça falarei.
- Se não falar saberei, Íris. 

Deixou São Paulo e quando o avião taxiava a pista para decolar para o Rio, Bruce achou que não conseguiria suportar o mutismo afetivo de Íris. Uma vez lhe disseram que as orientais sentem caladas, mas ele tinha certeza que não. Durante a curta viagem concluiu que deveria libertar o pau de enchente que habita todos nós. Deixa chover, deixa rolar, o que vier está bom, o destino é soberano, etc etc, etc, como antes.

Como sempre Íris não fez contato. Um, dois, três dias. Bruce já estava habituado a ausência dela, mas até então padecia. Exclusão, rejeição, zero a esquerda. Mas, reincorporado pelo pau de enchente não só deixou rolar como rolou junto. Rolou, rolou, rolou até o outro fim de semana quando amigos o chamaram para fazer uma trilha de jipe de dois dias na região da cachoeira de Conde Deu, em Sumidouro, RJ. Trilha leve. O amigo de Bruce passou em frente ao prédio dele, na Gávea (RJ), exatamente as cinco e meia da manhã. Encontraram com outros 34 jipeiros na estrada e foram em frente. Muita diversão e gargalhadas. Leveza. Na trilha, Bruce pilotou metade do tempo, lamaçais profundos, riachos.

Na segunda-feira, viagem a trabalho. Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre. Habitou-se tanto ao mutismo de Íris que acabou esquecendo. Dela e deles dois. Dois meses depois, nem sombra, nem cheiro, nem a mais rasa lembrança.

Sumiram.






domingo, 18 de março de 2018

Mundo em transe


Se o arquiteto do horror nazista Joseph Goebbels, gênio de todos os males, vivesse no mundo de hoje estaria utilizando fartamente as redes sociais, programando milhares de robôs para disseminar notícias falsas (fake news) aos milhões para “vender” o nazismo como solução para a salvação do planeta, nesse momento em que o mundo está em transe, quase hipnótico.

É dele a frase “de tanto se repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade". O planeta está mergulhado em dúvidas, desconfianças, ódio. O Brasil mais ainda.

Não que nunca tenha se odiado tanto por aqui, mas jamais houve tanta divulgação do ódio graças a internet. Ódio viraliza, manda matar, santifica, mitifica, mistifica, endeusa, demoniza a cada segundo, em cada computador, celular, tablet.

No passado um jornalista quando saia para trabalhar era obrigado a deixar em casa suas opções políticas que, em caso de fanatismo (o que não é raro), torna o homem cego e surdo, mas mudo jamais, e é aí que reside o drama. Um jornalista que permitisse que suas crenças, paixões, fanatismo (religiosos, políticos, futebolísticos e tudo mais) interferisse numa notícia, numa manchete, numa chamada estava fadado a ir para a rua.

Nos meios de comunicação sérios (há vários) a regra continua em vigor. Por mais que o jornalista diga no Facebook que X é um gênio, Y um injustiçado, Z um perseguido, calcado apenas nos seus sentimentos impulsionados pela ira, ele não pode vomitar o que sente e pensa onde trabalha.

A melhor vacina contra as fake news são os sites de meios de comunicação confiáveis, em geral pagos.

Em 17 de junho de 2009, por oito votos a um, os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que o diploma de jornalismo não seria mais obrigatório para exercer a profissão. Até hoje não cheguei a uma conclusão se isso tem ou não a ver com a desmoralização de parte da comunicação, mas assusta o fato de ouvir em rádios que se dizem sérias comunicadores e repórteres iniciantes incitando a audiência para mandar notícias pelo whattsapp. É um perigo? É. Mas eles fazem. Todo o dia, toda a hora. Incentivados por empresas que contratam menos e pagam menos ainda. Em vez de contratar bons repórteres, rádios, muitos jornais e TVs abrem o whatsapp para o público o que é, claro, um forte estímulo para o surgimento de fake news.

Na noite de 1 de Maio de 1945, Goebbels mandou chamar um dentista das SS, Helmut Kunz, para injetar morfina em seus seis filhos para que ficassem inconscientes quando, em seguida, lhes fosse dada uma ampola de cianeto. Segundo o testemunho do dentista, ele administrou a morfina, mas foi sua mulher Magda e o SS-Ludwig Stumpfegger, o médico pessoal de Hitler, quem lhes deu o cianeto. Morreram os seis. Oito e meia da noite, Goebbels e Magda saíram do bunker e foram para o jardim da Chancelaria, onde se suicidaram. Goebbels matou Magda e depois ele próprio.

Voltando ao início desse artigo, vamos supor que esse genocida e o nazismo estivessem vivos atualmente. Sua prioridade seria a manipulação da internet e ferramentas como whatsapp (e outras) para disseminar mentiras, ódio e fanatismo, ameaçando todo o planeta. O mundo vive uma tamanha confusão que abre espaço para carniceiros como Hitlers, Mussolinis, Francos, Salazares, etc.

O Brasil mais ainda. O governo está afogado em graves denúncias de corrupção, a oposição também, boa parte do Legislativo e do Judiciário idem. Muitos estão afogados até o queixo em dejeto moral e ético. Onde isso vai parar? Onde? Mais do que desgovernado o Brasil tornou-se ingovernável e não há luz no fim do túnel a não ser a do trem vindo em sentido contrário. Desculpem o clichê.

E na internet, tome fake news fake news fake news fake news fake news fake news, a serviço do ódio, do sectarismo, do horror, da desunião, da falência múltipla da humanidade.

Alguém é capaz de prever o final desse filme?


sábado, 17 de março de 2018

41


A lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma oficial das cidades medíocres. Atravessar o asfalto lamacento sem ser morto por ônibus, carro, van, moto, bicicleta, que desafiam o excesso de leis e a malemolência das autoridades, só pode ser milagre.


Na calçada esburacada e estreita, pessoas cabisbaixas tentam caminhar e sobreviver sob marquises que parecem em péssimo estado, fiações elétricas que lembram pedaços de bombril nos lixões. Cada passo um suspiro. Cada passo uma lambança. Cada passo um milagre. Cada passo uma sobrevivência.

O carteiro conversa animado com o guarda de trânsito apesar das cartas atrasadas e do trânsito engarrafado. Afinal está calor e o celular do guarda não para de tocar. São dois supostos agentes da cidadania que, curiosamente, desprezam os cidadãos. Vontade de dar uma pedrada em ambos, mas o calor não permite.

Na esquina amontoada de pedestres congestionados, o dono do bar coloca mesinhas na calçada. Dane-se é o lema. Dane-se! Fiscal é uma iguaria barata. Dane-se o pedestre, a idosa, o carrinho com bebê, dane-se o cego. Cerveja, espeto de carne de gato, farofa. Viva o bacanal urbano!

O ônibus apinhado parece trem da famigerada Índia, onde os desgraçados que pagam não tem direito a ar condicionado. E daí?, inquerem os donos dos ônibus que sabem que mandam na cidade. Os bólidos superlotados tiram fino da calçada e ai daquele que perder o equilíbrio e cair. Morre e o corpo fica por ali mesmo, fritando, até se fundir com o chorume e a lama asfáltica.

Os prédios monumentais não param de subir, fabricando sombras, arrancando árvores. Tem 15, 17, 22 andares, fabricando covas com 10 metros, e olhe lá. E daí? Os especuladores também mandam na cidade.

O menor abandonado levanta a camisa para dizer que não está armado e começa a fazer uma espécie de malabarismo com três batatas quando o sinal fecha. Quem não paga ele manda a merda, cospe no carro, as vezes chuta a lataria e fica tudo por isso mesmo porque é proibido reagir. A ordem e engolir, entubar, arregar, rastejar.

E a lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma das cidades medíocres.

A 41 graus.