sábado, 17 de março de 2018

41


A lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma oficial das cidades medíocres. Atravessar o asfalto lamacento sem ser morto por ônibus, carro, van, moto, bicicleta, que desafiam o excesso de leis e a malemolência das autoridades, só pode ser milagre.


Na calçada esburacada e estreita, pessoas cabisbaixas tentam caminhar e sobreviver sob marquises que parecem em péssimo estado, fiações elétricas que lembram pedaços de bombril nos lixões. Cada passo um suspiro. Cada passo uma lambança. Cada passo um milagre. Cada passo uma sobrevivência.

O carteiro conversa animado com o guarda de trânsito apesar das cartas atrasadas e do trânsito engarrafado. Afinal está calor e o celular do guarda não para de tocar. São dois supostos agentes da cidadania que, curiosamente, desprezam os cidadãos. Vontade de dar uma pedrada em ambos, mas o calor não permite.

Na esquina amontoada de pedestres congestionados, o dono do bar coloca mesinhas na calçada. Dane-se é o lema. Dane-se! Fiscal é uma iguaria barata. Dane-se o pedestre, a idosa, o carrinho com bebê, dane-se o cego. Cerveja, espeto de carne de gato, farofa. Viva o bacanal urbano!

O ônibus apinhado parece trem da famigerada Índia, onde os desgraçados que pagam não tem direito a ar condicionado. E daí?, inquerem os donos dos ônibus que sabem que mandam na cidade. Os bólidos superlotados tiram fino da calçada e ai daquele que perder o equilíbrio e cair. Morre e o corpo fica por ali mesmo, fritando, até se fundir com o chorume e a lama asfáltica.

Os prédios monumentais não param de subir, fabricando sombras, arrancando árvores. Tem 15, 17, 22 andares, fabricando covas com 10 metros, e olhe lá. E daí? Os especuladores também mandam na cidade.

O menor abandonado levanta a camisa para dizer que não está armado e começa a fazer uma espécie de malabarismo com três batatas quando o sinal fecha. Quem não paga ele manda a merda, cospe no carro, as vezes chuta a lataria e fica tudo por isso mesmo porque é proibido reagir. A ordem e engolir, entubar, arregar, rastejar.

E a lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma das cidades medíocres.

A 41 graus.