sexta-feira, 30 de março de 2018

Minhas vidas no Jornal do Brasil


                                                               
Acabei de ler um livro fundamental: “Até a última página – uma história do Jornal” (Editora Objetiva, já está em todas as livrarias) do amigo Cezar Motta, colega e ex-chefe de reportagem nos grandes tempos de Rádio Jornal do Brasil, departamento de jornalismo.

Ao longo de 552 páginas, o Cezar não só conta, em detalhes, a história do JB entre 1891 e 2010 –  o jornal voltou as bancas no último 25 de fevereiro – como nos dá uma aula de História do Brasil, política, economia, contexto internacional. Lógico que me bateu uma enorme saudade.

Sou cria do que era chamado de Sistema JB, jornal e rádios JB AM, JB FM e Cidade. Comecei a trabalhar com 16 na Rádio Federal, primeira emissora de rock que funcionava em Niterói, comandada por Carlos Siegelman, Marcos Kilzer e Jorge Davidson. De lá fui para a Rádio Tupi AM onde estagiei dois anos na reportagem geral e também nos programas populares de Paulo Lopes e Paulo Barbosa.

A bordo do carro de reportagem da Super Rádio Tupi (chamava-se “Tupi Amigo Total”) conheci todas as favelas da época (1973) e nos dias em que estávamos sem notícia subíamos a avenida Brasil pela pista do canto até Santa Cruz. Sempre rendia uma matéria. Sempre. Cheguei a almoçar um belo pernil de porco num barraco que ficava numa palafita de uma das favelas vizinhas ao Caju porque a rádio deu um aparelho de audição a um ouvinte que morava lá, e eu fui entregar. Foi uma festa.

O meu vínculo afetivo profundo com o Jornal do Brasil vem da infância. Eu morava em Angra dos Reis e quando vínhamos para o Rio passávamos pela avenida Brasil. A Rio Santos não existia. Quando chegava no começo eu, garoto de uns 8 anos no banco de trás do Morris Oxford de meu pai, olhava para a obra de construção de um prédio gigantesco que tinha a imagem do célebre elefantinho, símbolo do Jornal do Brasil com os dizeres “aqui futura sede do JB”.

Saí da rádio Tupi e me apresentei na Rádio JB como estagiário. Esquelético, cabeludo, calça de veludo azul, fui recebido com um berro de “hippie aqui dentro, não!”, era o subeditor Oscar Barbosa que, em seguida (alívio) disse que era brincadeira.

Foi a minha primeira vida naquele belo “navio”, o prédio bilionário “ancorado” na avenida Brasil 500, hoje sede do Into. Entrei em meados de 74 como estagiário e meses depois fui promovido a repórter. Tinha 19 anos. Na chefia de reportagem o grande Cezar Motta e na direção do rádio jornalismo a inesquecível mestra Ana Maria Machado, escritora, hoje acadêmica da Academia Brasileira de Letras.

Como muitos,  me orgulhava de trabalhar naquele prédio onde aprendi muito, muito, muito. Logo entrei em contato com o Humberto Vasconcellos que era editor do Caderno B (rádio jornalismo e jornal ficavam no mesmo sexto andar) que me abriu espaço para escrever sobre alguns discos de rock
Pelo menos uma vez por semana saía uma matéria porque o Humberto tinha uma cabeça super aberta.

Em 1981 saí para começar o projeto da Rádio Fluminense FM e foi emocionante a torcida dos amigos e colegas da Radio e do JB e também, da Rádio Cidade, que pertencia ao grupo.

Em 1985, Flávio Pinheiro assumiu a editoria do Caderno B e me convidou para ser subeditor. Ele me disse “você terá carta branca, queremos um Caderno B com muito espaço para jovens e todas as suas manifestações e quero que você cuide dessa área”. Eram bons tempos.

O B contava com grandes caras como Arthur Dapieve, Jamari França e várias outras figuras de grosso calibre como Wilson Coutinho, especialista em artes plásticas, autor de uma matéria que deu capa no B, chamada o “O rastro Beat”, a influência dos beatniks dos anos 50 e 60 nas artes plásticas dos anos 80. Enfim, graças a confiança do Flávio Pinheiro (um cara muito especial), deu para fazer um bom trabalho na subeditoria.

Saí do JB quando José Roberto Marinho me convidou para fazer uma nova Rádio Globo FM. Recusei várias vezes, em vários almoços, expliquei a ele que o Sistema Globo de Rádio era conhecido como um serpentário e ele argumentou que sabia e que ia acabar com ele. Me convenceu. A desratização aconteceu depois. Fato é que me arrependi. O Sistema Globo de Rádio daquela época foi a pior empresa onde pisei ao longo da trajetória. Uma cordilheira de canalhas empistolados, invejosos, anões existenciais sabotavam o trabalho de pessoas sérias, mas resisti alguns meses até jogar a toalha, depois da emissora entrar no ar.

Fui chamado para assumir o jornalismo da Rádio Cidade (voltei a colaborar no Caderno B) e voltei para o “navio” da avenida Brasil, onde fiquei um tempo migrando em seguida para a Rede Manchete de TV, Estadão, etc etc etc.
Foram três as minhas vidas no Jornal do Brasil. Todas felizes e muito bem vividas. 

Agora, como colaborador do Caderno B novo JB, entro numa quarta vida que, espero, seja tão feliz como as outras três.