segunda-feira, 23 de abril de 2018

Santos Dumont e as asas da loucura


Recomendo o livro “Asas da loucura: a extraordinária vida de Santos-Dumont”, do inglês Paul Hoffman. A grande loucura do pai da aviação era o céu que, desde pequeno, não cansava de contemplar na fazenda do pai, milionário, no interior de São Paulo. O livro conta que o pequeno Alberto Santos-Dumont observava as aves voando e, muito curioso, queria saber como, já imaginando que um dia os homens também poderiam estar no céu.

Seus pais estranhavam o comportamento daquele menino magro, pequeno, que vivia isolado, a ponto de ler toda a biblioteca da fazenda. Cresceu sem desvendando os mistérios da ciência por conta própria.

Milionário de berço, sua vida em Paris, anos depois (não vou estragar a narrativa do autor dizendo como ele foi parar lá) foi marcada por bons e importantes amigos. Um deles, Gustave Eiffel, o projetista da torre que, por sinal, morava lá num pequeno apartamento no segundo andar. O sonho de Santos Dumont (concretizado várias vezes) era dar uma volta de balão na Torre Eiffel.

Outra figura de sua roda de amigos foi Louis François Cartier que, mobilizado por uma conversa com Dumont a respeito da dificuldade de consultar a hora lá nas alturas, inventou, para ele, o relógio de pulso. Amado pela Europa, herói nacional na França que parecia um pop star, Santos Dumont transformou o relógio de pulso em moda mundial e deu no que deu.

Ele era boêmio. Virava noites no Maxim’s, onde na esquina do século 19 com o 20, o consumo da recém lançada heroína, pelo químico Felix Hoffman em 1897, cocaína, bolas e ópio estavam no auge entre intelectuais. 
Santos-Dumont agradecia mas descartava. Seu negócio era com o céu e com a elegância. 

Usava o tradicional chapéu panamá, vestia cortes caríssimos feitos por renomados alfaiantes. Vaidoso, andava e voava impecável. Era um gourmet e adorava almoçar, por exemplo, um filé de linguado acompanhado de iguarias raras (pratos montados por grandes chefs) sempre com champanhe de ótima safra, de preferência na cesta dos balões. Nos longos voos ele armava a “mesa” no fundo da cesta e comia ao sabor do vento.

Muitos diziam que era louco. Não era. Perfeccionista, ele acompanhava a construção de seus projetos pessoalmente, subvertendo a física e muitas vezes a matemática. Ao contrário de, pelo menos, 200 equivocados que tentaram voar colando penas de ganso nos corpos e se atiraram de lugares bem altos, morrendo espatifados, Dumont arriscava baseado em seus cálculos. Caiu muitas vezes, mas era sortudo. Aliás, gostava de desafiar superstições como, voar no dia 13, especialmente se fosse uma sexta feira.

O Brasil tem muitos heróis. Penso que Santos-Dumont seja o maior deles por quebrar vários paradigmas universais. Na verdade ele inventou não só a aviação mas implantou, na Europa, o conceito de revoluções crônicas em oposição a letargia do conservadorismo. Lógico, não foi detalhar o fim da história, mas aqueles que pensam que ele teria ficado deprimido com o uso dos aviões na I Guerra Mundial, a princípio não. Foi dele a ideia de usá-los para bombardear submarinos inimigos já que, como observou, “do alto o mar fica bem mais transparente”.

Mais tarde, conta o livro, Dumont passou a sofrer com a matança proporcionada pelos aviões e, também por isso, mergulhou na depressão. Ele se achava responsável pelas mortes por ter inventado o avião e cegou a procurar líderes dos países em guerra para tentar convencê-los a parar. Não adiantou.


sábado, 21 de abril de 2018

Esperança & Expectativa


Um abismo profundo separa o significado prático e filosófico de esperança e expectativa. Recentemente, Lobão levantou essa lebre num show. Começou a falar sobre o significado (e as significantes) das duas expressões, mas a falta de educação da ruidosa e irritante plateia não deixou o lobo uivar até o final do raciocínio.

Esperança é o possível, expectativa é o ideal, que não existe. Felizmente mantenho um pacto com a esperança desde a hora em que nasci. Com a expectativa, não. Relação zero.

A expectativa é parente próxima da ansiedade, da correria, da falta de ar, faz nossos pés molharem em Manaus quando ainda está chovendo em Porto Alegre. Já a esperança é centrada, amena, racional. A esperança faz projetos, enquanto a expectativa cisma.

Não corro, não fujo, parto para cima com todas as forças disponíveis e depois, atento, aguardo a hora da colheita deixando o destino trabalhar. Pilhar o tempo todo, insistir, forçar a barra, chutar portas, em geral levam ao desespero sob o manto da expectativa. Em todos os setores da vida.

Há milhares de anos, os asiáticos costumam escrever que o silêncio é uma forma de comunicação. Pode até ser, mas não sou asiático, sou latino. Logo, não comunicou nada disse. Quando os sinais não veem (ou vão e não voltam), nada aconteceu. A esperança ensina que se não há declaração de amor ou declaração de guerra, não existe uma coisa nem outra. Cínica, a expectativa insiste que nem sempre os sentimentos emitem sinais. Como mente essa senhora, que eventualmente se traveste de tola.

Desde o dia em que Lobão tentou falar sobre expectativa e esperança no tal show, mas acabou atrapalhado por galinhas, codornas e barangas da plateia, o tema ficou perambulando por mim. O que acabou me levando ao passado, a uma longa tarde que passei na casa do Lobo quando ele morava no alto da Estrada das Canoas, em São Conrado, Rio. Falamos muito sobre o flagelo da culpa. Culpa, ela mesma, a canalha que não nos deixa olhar no espelho mesmo quando somos totalmente inocentes.

Gerar expectativas leva a culpa. Falar de esperança, não. A expectativa é volátil, enganadora e induz suas vítimas a impregnar a humanidade de promessas enquanto prepara uma desculpa para se livrar da situação. A esperança resolve, a expectativa tenta se livrar. Esperança leva a reflexão, a expectativa traz a insônia. Esperança não teme o início, o fim, o meio.

A escolha é nossa.



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Impávido

                                   Óleo sobre tela, Oliver O. Oliver, Paris 1932

Esquecem que a verdade está longe, muito longe de ser absoluta. Atribuição divina, o absolutismo é incorporado pela patética e patológica onipotência dos lunáticos sociais e sua logorreia torpe, vulgo brain damage

Perdeu, baby.

Lunáticos sociais não acreditam que aqui se faz, aqui se paga. Acham que é verborragia de adesivos de nona categoria. Mas o pior, o fatal, é o desprezo a máxima que sentencia: aqui não se faz, mas aqui se paga, sim.

Perdeu, baby.

Esquecem que o limite do egocentrismo é uma muralha de chumbo, conhecida na vala incomum como perda total. Essa malta, a dos lunáticos sociais, vulgo brain damage, cruza a existência jogando gente no esgoto, arrotando as tais verdades absolutas inexistentes, como se o E.T. de Varginha fosse a incorporação do Juízo Final.

Perdeu, baby.

Ignoram que o Juízo Final é quem anota, aponta, processa cada coração, cada grito, cada lágrima desprezada pelos lunáticos sociais, vulgo brain damage, à bordo de sua mixaria existencial que chuta a compaixão, cospe na condolência, ri da piedade.

É quando o Juízo Final age. A seu modo. E derrama de seu seio iniludível as chamas do justiçamento, grava a ferro e fogo que aqui não se faz, mas aqui se paga sim.

A verdade segue relativa, a vida segue relativa, o vento sopra relativo, mas o Juízo Final, impávido colosso, anota, anota, anota anota, anota, anota.....

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O sucesso do livro “1973- o ano que reinventou a MPB”

                                                                                 
Ceio Albuquerque



“1973- o ano que reinventou a MPB”, de Célio Albuquerque 431 páginas) vai virar série do Canal Brasil, já em produção. Maravilha!

O excelente livro é um sucesso da Sonora Editora, do pesquisador musical Marcelo Froes e é leitura fundamental para quem se interessa por música brasileira de qualidade. Cada autor conta como um álbum (LP na época) foi feito. Como, quem, onde. Está tudo lá.

O livro chegou num momento especial, difícil, complicado, bizarro da música brasileira que está assolada pela molambalização, baixaria e outros conceitos ainda menos dignos.

Lembrar de épocas como 1973 foi uma grande sacada do Célio, um viciado em qualidade como todos os ensaístas que estão à bordo deste livro. Ou seja, a necessidade de conhecer a fundo ou de relembrar bons momentos, faz de “1973- o ano que reinventou a MPB” uma iguaria necessária nesses tempos de fome de qualidade musical que estamos vivendo.

Bom saber que houve um tempo que mostrou que é permitido criar, ousar, delirar, surfar as ondas da qualidade musical, sem medo, sem jabá, sem baixaria.

Célio Albuquerque está de parabéns pela organização do livro, cujos textos são extraordinários. Marcelo Froes merece aplausos por ter colocado a sua Sonora editora à frente deste ousado movimento (sim, o livro é sobre um “movimento” com nome de ano, 1973), em tempos de arrego editorial.

Best seller. “1973- o ano que reinventou a MPB” está “condenado” a se tornar um, apesar de não ser de autoajuda ou de baixa literatura.


terça-feira, 17 de abril de 2018

Refratações (palavra inexistente) e a pancadaria entre Freud e Jung

Jung (a esquerda, sentado na escada), Freud (calção quadriculado a direita) e dois amigos numa casa de banho turco

Prólogo – “Minha ideia sobre Deus está formada pela profunda convicção emocional da presença de uma força racional superior, que se revela no incompreensível do universo” (Albert Einstein); “Não posso dizer “eu creio”. Eu sei! Tive a experiência de ter sido capturado por algo mais forte do que eu, algo a que as pessoas chamam Deus” (Carl Gustav Jung). 

A partir dessa experiência abissal, Jung descobriu o poder do espírito e a sua relação com o mentor Sigmund Freud, que já vinha se despedaçando ruiu de vez. Contam os livros que os dois estavam numa cabine de trem, em 1914, indo para Hamburgo. Jung já não suportava mais o que teria chamado de “reducionismo materialista e sexista” de Freud. Esse, por sua vez, também sentia náuseas quando o discípulo falava de inconsciente coletivo, Anima, Animus, espíritos... Foi aí que um destemperado Freud, na cabine do trem, teria gritado “fique então com esse lixo, essa lama que são os seus espíritos”.

Com o rompimento definitivo em 1914, quando Jung largou a presidência da recém criada Associação Psicanalítica Internacional, começou a guerrilha de quase xingamentos depreciadores de ambos os lados. (...) Os críticos do exagero da sexualidade na obra do pai da psicanálise fingem esquecer Freud e Jung tinham o mesmo sonho inicial, o falo. Sexo incendeia paixões. Sexo conecta paixões ao amor. Sexo mantem o amor eterno. Ou não?

Fiz psicanálise freudiana (até a alta), existencialista (interrompida porque o terapeuta desistiu desse caminho e viramos amigos) junguiana (me dei alta), voltei para a freudiana (nova alta), Gestalt e agora faço uma terapia incisiva bastante e interativa. Descobri que avalanches inconscientes, caos, angústias, memórias, sonhos e reflexões não tem alta. Por que? Porque a alta da vida é a morte.

Apesar de analisado desde a adolescência, jamais em tempo algum abri mão da minha visceral, radical, inquestionável fé em Deus. Jamais! E os meus analistas nunca me questionaram a respeito. Ninguém me ensinou a crer em Deus. Ninguém. Simplesmente aconteceu, como um vendaval, uma chuva de outono, enfim, Deus está em meu cotidiano como a água, o sono, a comida, o afeto.

Sobre Deus, quando estou batendo papo e meus interlocutores começam a detona-Lo, fico quieto. É automático. Quando reparo, estou olhando para uma bela mulher, lembrando de uma música, enfim, me abstraio como se queimasse um fusível interno.

Tempos atrás dois amigos (um religioso, o outro ateu) batiam boca no Velho Armazém, antigo bar da orla de São Francisco (Niterói, não Califórnia), que infelizmente fechou, por causa do tema “por que Deus deixa acontecer as guerras?”. Aquilo não ia prestar e, de fato, vários chopes depois tive que intervir antes que rolasse grossa pancadaria ali mesmo.

Eles se desculparam, sugeri que mudássemos de assunto mas, na boa, minha noite deu uma amargada, tanto que fui o primeiro a pedir a conta e voltar para casa. No caminho de volta pensei que até os livrotes vagabundos tricotam freneticamente sobre o renascimento de nações que foram dizimadas por guerras. Inglaterra, Alemanha, Itália, China, Japão. A Coréia do Sul, depois de ser destruída nos anos 50/60, passou todo mundo e hoje é o país-modelo em educação. Isso sem falar em tecnologia, distribuição de renda, etc.

Já aqui no Brasil...bom na Câmara dos Deputados, que nós elegemos, a prioridade máxima continua sendo aumentar o faturamento. Deles. Li também que, além da podóloga e da consulta médica, subiu tudo. Normal, não é?

Apelo aos antropólogos e outros ólogos. Se o Brasil tivesse encarado guerras tudo mudaria ou nada mudaria? Sabe aquela antiga teoria de que o ser humano só cresce com dor, sob tensa, densa, intensa crise?? Ela se aplica a nações? O Vietnã viveu em guerra de 1910 a 1975. Japão invadiu, França invadiu, Estados Unidos invadiram. Só na guerra contra os Estados Unidos morreram 1 milhão e 500 mil vietnamitas que, em nenhum momento, largaram o osso. Foram até o fim e botaram os americanos pra fora com memoráveis chutes na bunda. Hoje o Vietnã já é quase um “tigre asiático”, com índices econômicos invejáveis, educação, saúde, etc.                                               

Parto de um princípio de que a culpa não é de quem faz, mas de quem deixa fazer. Exemplo: se puserem um caixa eletrônico no alto do Pão de Açúcar a culpa será do banco ou da prefeitura? Com a passividade popular e eleição é a mesma coisa. A passividade popular homologa os desvios. As eleições sacramentam. Em outras palavras, qualquer pau de enchente que esteja no poder num regime democrático, o aval (culpa) é nosso.

Não vou citar exemplos de outros países que venceram o arbítrio/corrupção/canalhice porque todos (sem exceção) usaram a truculência. Mussolini foi pendurado num poste, americanos jogaram coquetéis molotov em postos de gasolina que aumentaram preços no crash de 1929, enfim, não encontro um exemplo de vitória popular que não passe pela luta. Física. Logo, como sou pacifista, fecharei a cisterna.                                    

Não estou defendendo ninguém e muito menos atacando. Estou apenas refratando diante do que vejo, sinto. E o que a História me conta, sussurrando de madrugada, é que por coincidência os povos regidos por fanatismos religiosos são os mais manipulados e miseráveis.

Os povos da Índia e África, em sua maioria, são hordas de mortos-vivos dopados por crenças fanáticas que não deixam enxergar que os seus governos roubam, matam, achacam, em nome desse mesmo fanatismo.

Para mim nada é possível sem Deus. Querem saber? Para mim tudo é impossível sem Deus. Não tenho lastro teológico algum para afirmar que Deus discorda do fanatismo religioso, mas tenho o direito de imaginar que Ele não concorda. Fanatismo paralisa, enlouquece, dopa. Fanatismo quando decreta que orelhão é sagrado os seguidores batem palmas quando o Estado não instala orelhão nenhum.

Fanatismo quando determina que peixe é sagrado seus seguidores autorizam o Estado a não investir nada em indústria pesqueira. Mao Tse Tung radicalizou quando sentenciou que “a religião é o ópio do povo”. A religião não, mas o fanatismo, mais do que o ópio, é pior do que heroína.

Por que somos tão submissos? Faltou guerra? Faltou o olhar do invasor dentro da nossa casa citando Renato Russo : “eu sou a sua morte/ vim de fazer companhia”? De vez em quando vejo carros com adesivos “Basta isso”, “Basta aquilo”. Bastar como? Como se “basta” a lambança? Como se basta o arbítrio, a corrupção, tráfico de vidas?  Out-estima, digamos.

Fato é que a gemedeira e a vitimologia continuam por aí. Continuamos pagando a tal taxa de “assinatura” dos telefones, engolindo o “matematicalogismo” que aumenta planos de saúde, luz e salários de deputados. Qual é o critério? A submissão? Qual é a saída? Quem é o inimigo, quem é você?

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Não falou, não disse


Em 1969, Honduras e El Salvador entraram em guerra por causa de uma partida de futebol que valia uma vaga para a Copa de 70. Honduras venceu por um a zero, o povo de El Salvador foi para as ruas e a confusão terminou em guerra. Guerra não declarada.

Há anos, muitos anos, havia problemas entre os dois países, mas que não eram ditos. E o ser humano, até segunda desordem, só entende o que é dito, de preferência clara e nitidamente. No caso, a panela de pressão (no fogo) entre os dois países chegou a tal nível de silêncio que explodiu.

Não nasci para viver situações como essa. Jamais seria ministro do tse (assim mesmo, em minúsculas) para ser obrigado a entender o subtexto de um colega de toga ameaçando (com sinais) com a degola via radicalismo islâmico (“ira do profeta”) um sujeito não citado que o teria envolvido na Lava Jato. Para mim não disse nada.

Se não me mandarem a merda, não irei. Se não me disserem pode entrar, não entrarei. As insinuações da política e sua sub linguagem deformada e esquizofrênica do gênero “Excelência, por obséquio vá tomar no c...” não estão no meu cardápio de entendimento.

Dizem que o que nos difere dos primatas é a fala. Se o sujeito diz “declaro aqui nesta corte (em minúsculas) que vou degolar Fulano de Tal por ter dito isso e mais aquilo de mim” é papo de humano. Agora, insinuar citando iras e similares, nada disse.

Romeu e Julieta foram pra Bicas, MG, por falha na comunicação. Marco Antonio perdeu 400 navios e o Império Romano porque tentou decifrar os enigmas e sub textos da sinuosa Cleópatra, que em suma queria dizer “perdeu, meu chapa”, mas não disse.

Honduras e El Salvador não declararam guerra. Ficaram quietas, magoadinhas, fazendo beicinho na penteadeira do quarto achando que uma estava entendendo a fúria silenciosa da outra. Bastou uma merreca de jogo de futebol para explodir tudo.

Ou seja, meritíssimos, meretrizes, celacantos em geral: quem nada fala, nada diz. 


sábado, 14 de abril de 2018

Redentor


Setecentos e nove metros de altura.

A vida ruge baixo, lá embaixo, abaixo de linha do Equador. Parto, infância, adolescência, vida. Avista-se tudo, olho nu, nas fronteiras aéreas que demarcam a existência.

Traço, montanha, lago, mar. Imenso, profundo, imundo mar. Norte, sul, leste, oeste, quadrantes existenciais em recorte, expostos à nitidez da baixa umidade relativa.

Gargalhadas, gritos, sussurros, de ontem, anteontem, passado, futuro. Detidos naquele amplo espaço. Soberbo e minúsculo ao pé da estátua; pulsar de cidades, fazendas, favelas, praias, até onde a vista alcança. Olho nu. Até onde a vista descansa. Tele objetivamente.

O futuro joga as cartas. Destino a leste, de onde sopra a brisa. Suave e fresca. 

Ao pé da estátua em pedra sabão, a mulher chora e implora sob o rosto de pedra imponente, decente, que avista adiante, olho por olho, dente por dente. Futuro. Sol, chuva, orvalho, vendaval, tempestade.

Abaixo, aviões, drones, helicópteros. O som do silêncio e o clamor abafado da angústia. Beijo na boca, bangue bangue, ansiedade máxima, o cochilo do miserável sob a marquise. Sob nós, tudo aberto, tudo certo, como as veias de uma América, condenada, para sempre, Latina.

Nos braços e cabeça, para-raios. Para nós e para Ele. O guardião e a força que ninguém explica, energia que sossega, aquieta, estanca o ir e ver enlouquecido das preocupações trafegando por nossas artérias e becos. O guardião para tudo. 

O guardião pode tudo.

Ali perto, ou logo abaixo, ou mais adiante, ou na linha do horizonte, as árvores são devoradas para ceder espaço para o metro quadrado desonestamente caro, especulado. Inversão térmica. Inversão ética. O guardião sabe que tem chovido menos, terra seca, ganância. O guardião sabe que o fim dessa história é o recomeço.

Ação, reação. Motosserra, estiagem, seca, inversão térmica, colapso caos, morte, recomeço. Ele sabe. Calado.

Setecentos e nove metros de altura.


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Stanley Clarke


Stanley Clarke é um gigante sagrado, o melhor baixista em atividade no planeta. Assisti duas vezes, primeira fila e saí desnorteado. Toca jazz tradicional com o chamado “baixo de pau” (baixo acústico), rock, música fusion, R&B e sua impressionante agilidade e precisão transformam o contrabaixo principal em guitarra solo.

Quando mergulha no jazz rock nos discos o seu baixo agudo (um som só dele) sola e vários outros, acústicos, elétricos, que ele mixa fazem médios, graves, base etc. Ele faz do baixo guitarra. 

Clarke nasceu em 1951 na Filadélfia. Aprendeu a tocar baixo por acidente no colégio, quando chegou atrasado no dia em que seriam distribuídos instrumentos musicais para o aprendizado dos alunos, e o único que sobrou foi o baixo acústico.

Em 1971, mudou-se para Nova York onde começou a trabalhar com muitos músicos famosos como Horace Silver, Art Blakey, Dexter Gordon, Gato Barbieri, Joe Henderson, Chick Corea, Pharoah Sanders, Gil Evans e Stan Getz.

Durante os anos 70, Clarke tocou na banda Return to Forever, liderada pelo pianista e tecladista Chick Corea. O Return tornou-se uma das mais importantes bandas de  jazz fusion e seus vários álbuns foram aplaudidos de pé pelo público e crítica. Nessa época começou sua carreira solo, como fez o colega Jaco Pastorius. Os álbuns mais populares do baixista são Stanley Clarke (1974), Journey to Love (1975), e School Days (1976).

Ele formou o Animal Logic com o baterista Stewart Copeland, (mais fundou The Police), e a compositora e vocalista Deborah Holland. Outros projetos importantes com outros músicos: Jeff Beck, (1979) Ron Wood's New Barbarians, (1981, 1983, 1990) Clarke/Duke Project with George Duke, (1984) Miroslav Vitouš,[2] (1989) Animal Logic Stewart Copeland, (1993–94), um grupo Larry Carlton, Billy Cobham, Najee & Deron Johnson, (1995) The Rite of Strings with Jean-Luc Ponty and Al Di Meola and (1999) e Vertu’ com Lenny White and Richie Kotzen.

Em turnê está sempre tocando com seus colegas: em 2005, com Béla Fleck e Jean-Luc Ponty, ganhou o Jammy Award de "Turnê do Ano"; em 2006, pela primeira vez em quinze anos, Stanley e seu amigo George Duke saíram em turnês por mais de 40 cidades, alcançando o Top 20 com a música "Sweet Baby"; em 2007, fez vários shows nos EUA, Europa e América do Sul com Al DiMeola e Jean-Luc Ponty. Gravou a faixa "Hey Hey" no álbum Pipes of Peace (1983) de Paul McCartney.






quarta-feira, 11 de abril de 2018

Novas patrulhas


Começo chamando a Wikipédia:  

“Patrulha ideológica ou patrulhamento ideológico é uma expressão cunhada pelo cineasta Cacá Diegues, em 1978. Designa uma organização informal de pessoas unidas por laços ideológicos ou religiosos que tem por objetivo de impor seus ideais a outro grupo de pessoas, munindo-se de discursos, protestos e reivindicações. Essa atividade se caracteriza por uma vigilância constante do público alvo.

Em agosto de 1978, o filme Chuvas de Verão, de Cacá Diegues, foi recebido com frieza pela crítica, que já tinha desancado Xica da Silva, o filme anterior do diretor. Na sequência, Diegues concedeu uma longa entrevista à jornalista Póla Vartuck, publicada no jornal O Estado de S. paulo sob o título "Cacá Diegues: por um cinema popular, sem ideologias", na qual denunciou as "patrulhas ideológicas".

Elas seriam integradas por jornalistas ligados ao Partido Comunista Brasileiro - então clandestino - que teriam a "missão" de denegrir produtos culturais não alinhados a um certo padrão considerado politicamente correto por esses grupos formadores de opinião.

A polêmica que se seguiu mobilizou os meios intelectuais brasileiros da época e rendeu o livro Patrulhas Ideológicas, de Carlos Alberto M. Pereira e Heloisa Buarque de Hollanda (Brasiliense, 1980). No livro, há uma nova entrevista de Diegues, na qual ele define melhor o modus operandi das patrulhas: "O que existe é um sistema de pressão, abstrato, um sistema de cobrança. É uma tentativa de codificar toda manifestação cultural brasileira. Tudo o que escapa a esta codificação será necessariamente patrulhado".

Com a impressionante evolução da tecnologia da Comunicação, que tornou possível, por exemplo, que um indivíduo com um celular no banheiro de sua casa no Rio, converse com alguém em Moscou, de  1978 para cá as patrulhas se expandiram radicalmente. Além da ideológica, existem patrulhas existenciais, politicamente corretas, sexuais, étnicas, gastronômicas, etecetera .

No brejo da política o pau sempre comeu entre esquerda e direita. PTB versus UDN, Arena versus MDB, mas agora, turbinadas pelas redes sociais as pessoas se agridem, se “matam”, de ofendem, se cospem. E a culpa não é das redes, que são apenas o meio, a mídia. Se elas existissem nos anos 1950 também se tornariam poços de ódio.

No entanto há um dado novo, que já incomodava muito o Cacá Diegues lá em 1978, conforme revela a Wikipédia. Hoje temos que conviver com a ditadura do politicamente correto, que o filósofo Luiz Felipe Pondé, que em seu livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, afirma que era a base do nazismo.

A patrulha ideológica é um dos braços do politicamente correto, praga que cada vez mais acinzenta a paisagem, fulmina o bom humor coletivo, pune quem tem opiniões contrárias a seus mandamentos e em alguns casos defende a corrupção política partidária.

Até quando?


terça-feira, 10 de abril de 2018

Sozinho não dá (2)


Sozinho não dá por um monte de motivos, a começar pelo Homem, que desde que era símio, é um bicho de bando. Por isso costumo dizer que trabalhar sozinho exige um esforço monumental.

Como sou freelancer, a maior parte do tempo fico sozinho diante do computador. Volta e meia dou uma saída, tomo um café na esquina, bato um papo, passo na banca de jornais (fundamental) e volto.

Já me habituei, mas o grande esforço é que num trabalho solitário não posso contar com opiniões, observações, críticas e elogios de ninguém. Sou eu e eu. E quando bate uma dúvida no caso de um texto, só me resta deixá-lo decantando para reler horas depois. Essa releitura, depois que perdemos o contato com o texto por horas, leva a muitas correções, realinhamentos, novas abordagens.

Não nego que sinto falta da redação de jornal, radio, TV, onde a minha geração não só compartilhava o trabalho mas também a vida, o cotidiano, opiniões eram trocadas e muitas vezes (muitas!) a conversa esticava num bar.

Quantas e quantas vezes enchemos mesas no Lamas, restaurante no Flamengo que era pista de pouso de jornalistas. Gargalhei muito naquelas mesas, ouvi e participei de discussões ferozes, volta e meia, tarde da madrugada, alguns mais alterados etilicamente iam partir para a pancadaria corporal na calçada mas a turma do deixa pra lá não deixava.

Dez anos atrás trabalhei numa redação onde somente eu e um outro colega éramos da mesma geração. Não senti sequer sinais de boemia, de esculacho, garotada politicamente correta que, em compensação, apurava mal, escrevia mal, não tinha ideia do que já aconteceu no país e no mundo porque não lia livros e (pasme!) nem jornais. Pois é, gerações de jornalistas que não leem jornais. Não vai aqui uma crítica, mas uma observação. Daí textos que revisei falando de “o trânsito segue parado” (valeu a lembrança, Romildo!) e outras calamidades.

Mas bem ou mal era uma redação e eles me tratavam como um igual. Mais: pediam opinião e quando eu dava um meio esporro, na base da suavidade, senti que eles agradeciam. Da mesma forma, eu pedia a opinião deles.

Trabalhando sozinho, quem vai me dar um meio esporro se determinado texto ou programa de rádio estiver caminhando pelo acostamento, correndo o risco de cair no abismo? Ninguém.

Também no trabalho, sozinho não dá.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Por que Torpedos de Itaipu?



Tenho muito orgulho dos meus livros, que perambulam pelos hemisférios, continentes, países, cidades, vilas, praias. São oito os que já publiquei e penso em escrever mais um este ano. Meu receio é essa transição do papel para o digital. Não sei qual formato adotar. Enfim, melhor deixar a ideia decantar, flutuar.

Um desses livros se chama “Torpedos de Itaipu”, que publiquei nos anos 1990. Foi editado pela Artware, de Alberto Magalhães, com capa e desenhos internos do Renato Bittencourt. O livro foi inspirado na praia de Itaipu, situada na Região Oceânica de Niterói-RJ, que durante muitos anos frequentei porque, além de linda, Itaipu tem uma energia diferente, extremamente positiva. As praias são como cachorros, são elas que escolhem os “donos”. Itaipu me escolheu.

O livro é totalmente vadio, os temas são livres e até libidinosos. Se fosse lançado hoje seria pendurado em poste, fuzilado e trucidado em pedaços pela ditadura do politicamente correto. Na época não havia essa facção neo nazista de uniformizar tudo, padronizar tudo, achatar tudo, ditar regras, ditar hinos, gritos, ditar dogmas, conceitos, preconceitos. Como o mundo anda imbecil.

Ano passado em homenagem a Itaipu daqueles anos e ao livro que publiquei batizei com o nome de “Torpedos de Itaipu” o programa que produzo e apresento na Rádio Oceânica FM (105,9 para quem está na Região Oceânica de Niterói), emissora que você pode ouvir agora acessando www.oceanicafm.radio.br , 24 horas no ar. Torpedos vai ao ar as quintas e domingos, 22 horas.

O programa já está em sua semana 26 e dei um cavalo de pau no conceito dele, como você pode perceber na edição que disponibilizo ali em cima em podcast. Está mais livre, mais vadio, mais Itaipu.

Conto com a sua audiência e principalmente com a sua opinião. É só escrever para torpedosdeitaipu@gmail.com

domingo, 8 de abril de 2018

O que é que a boiada tem?


Minha única incursão na pecuária é quando me atraco com uma picanha ou mignon num bom restaurante. Desde que não seja Friboi ou qualquer bosta produzida pela JBS. Por motivos alheios a minha boca cheia d’água desde janeiro estou longe das carnes, de qualquer tipo.

Tentei até arriscar no mercado de ações, muitos anos atrás, quando fui um dos 20 mil babacas que comprar Certificados de Investimento Coletivo (CICs)* de uma empresa que vendeu mais boi de papel do que boi de fato, o que chamei numa reportagem que publiquei em São Paulo de “Boi sem mugido”.

O presidente das Fazendas Reunidas Boi Gordo, o empresário Paulo Roberto de Andrade, jura que vai pagar a todo mundo. Todos, menos a mim cujo certificado estava naquela Kombi que fazia uma mudança minha, foi roubada no caminho e depenada. Os ladrões levaram meus discos, livros, títulos de cidadania, e meu diploma de conclusão do Jardim de Infância, a fase mais feliz que vivo nas escolas.

Curiosamente os pan corruptos irmãos sertanojos Joesley e Wesley Batista chupam grana de bois. Chupam, lavam, fraudam.

O Grão Mor da corrupção no Estado do Rio, o procriador da família Picciani (curte uma prisão domiciliar), professor de roubalheira generalizada de Sérgio Cabral (em cana), comparsa de Paulo Melo( em cana) e do quase membro vitalício do Tribunal de Contas do Estado, escrotóide Edson Albertassi(em cana), também é cafetão do gado.

Quer dizer, o Grão Suíno Picciani usava o seu exército de chifrudos, espalhados em várias e milionárias fazendas para todo o tipo de tramoias, inclusive presidir a Alerj, um puxadinho que mantinha no centro do Rio, habitado por suínos de várias espécies que trabalham pelo mal do serviço público. Um puteiro (no mau sentido) de verbas púbicas como revelou a. Mediante algumas dezenas de milhões de reais, Picianni, Paulo Melo e o escrotóide Edson Albertassi empresas deram um rombo de bilhões ao Estado do Rio. 

Conclusão: o estado faliu.

Mas e o fascínio pelo boi que os corruptos tem? O que será? O que é que a boiada tem?

* Minha única aventura no cassino chamado bolsa de valores foi quando, assistindo TV, vi Amaral Gurgel perguntando: “Se Henry Ford te chamasse para ser sócio, você seria?”. E convidou para a compra de ações para financiar o carro BR 800.

Eu e meu saudoso amigo Alex Mariano, fera também em mercado financeiro, compramos. 

O BR 800 foi lançado. Dias depois a Fiat acabou com ele lançando o Uno Mille. A Gurgel faliu e minhas ações foram para Bicas, MG. Nunca mais olhei nem para o site da bolsa de valores.




sábado, 7 de abril de 2018

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                                  "Do caos fez o Cosmo". Carl Gustav Jung

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Por que rezar? - Nizan Guanaes



Texto de Nizan Guanaes, renomado e brilhante publicitário brasileiro e empresário na área de Comunicação.

"Inspirado por Abilio Diniz e pelo meu personal trainer, comecei a rezar todas as manhãs. Leio os jornais e depois rezo.

No início, foi como começar a correr e fazer exercícios, uma decisão intelectual, um gesto de disciplina, que você faz por obrigação e pouco prazer.

Mas, aos poucos, aquilo foi virando um oásis neste momento atribulado que, como qualquer empresário brasileiro, eu vivo.

Esta é uma crise brava, em que você tem que fazer sacrifícios para salvar o todo e vencer a crise. Um momento duro, de decisões duras, mas decisões necessárias e inadiáveis.

Neste momento, é preciso pedir a sabedoria que o jovem Salomão pediu a Deus. A sabedoria que David, o estadista, pediu tanto a Deus.

Só mesmo Deus vai nos dar, por meio de seu Espírito Santo, as virtudes que não temos. No meu caso, por exemplo: paciência, sabedoria, parcimônia.

David diz nos seus lindos Salmos que o Senhor salva o homem e a besta. Tem uma besta no homem. E, se deixar a besta solta numa crise como essa, a besta desembesta.

Não rezo para ser santo. Rezo para ser homem, para ser humano. No sentido divino dessa palavra: ser um líder humano, um profissional humano, um marido humano, um pai humano.

Humano como Francisco, o Papa, que ao escolher seu nome já apontou o caminho. Que em dois anos tirou a Igreja Católica do intramuros do Vaticano e a trouxe de volta aos homens e às mulheres do mundo todo e de todas as fés.

Minha amiga Arianna Huffington, uma das empresárias e mulheres mais interessantes destes tempos modernos, me ensinou a prestar mais atenção em meditação em seu novo livro, “A Terceira Métrica”, publicado no Brasil pela editora Sextante.

Nos Estados Unidos, só se fala em “mindfulness”, em meditação. Até no Massachusetts Institute of Technology, o famoso MIT, meca mundial da tecnologia, se fala disso.

Roberto Zeballos, que é um dos médicos mais modernos do Brasil, fala muito em meditação.

Rezar é meditar. E fortalece muito o empresário. É bom para quem tem fé, é bom para quem quer ter fé, é bom para quem quer ter paz, é bom para quem quer ter foco e discernimento.

Quando você reza ou medita, você foca, concentra, reúne forças, toma o controle da sua vida. Você toma o controle da besta, como a inveja, a usura, o olho gordo, a pequenez, o medo e os instintos animais que existem em cada um de nós.

Sem a oração e a meditação a gente desembesta a fumar, a beber, a tomar Rivotril. Desembesta a sofrer e a passar as noites acordado. Desembesta a pensar com o fígado em vez de pensar com a cabeça, com o coração e com a alma.

A besta é uma má pessoa e um péssimo empresário. Rezar é o meu antídoto contra ela.

A oração torna todo dia o dia 25 de dezembro. Por meio da oração nasce a cada dia um menino Jesus em nós. Rezar é um Natal na alma!
Acreditar em Deus evita que a gente se ache Deus. E evita que a gente seja movido pela besta que está no homem.

É por isso que, a cada manhã e a cada noite, eu rezo. Não para ser santo, como disse, mas para não ser besta. Para ser homem.

Provisória e linda


As montanhas nevadas são mágicas. Mágica utopia. Poucos sobem porque poucos desciam, anos atrás. Eterna cicatriz.

Cabul com C, 3,6 milhões de habitantes, espalhados e escondidos por 700 quilômetros quadrados. Kabul com K está nos livros. Linda, suave, lúdica como as pipas, milhares de pipas que meninos, meninas, homens feitos empinam em todos os lugares.

No pequeno quarto, iluminado por um abajur, lê-se que Cabul tem mais de 3.500 anos de idade; foi disputada por muitos impérios por sua localização estratégica, no meio das rotas comerciais da Ásia Central e Meridional.

Há paz em Cabul, apesar das recentes e turbulentas invasões. Em 1979, sangrou na invasão da União Soviética que ocupou o país por 10 anos, até ser vencido pelos afegãos.

O Império do Medo é aqui, desde antes de Alexandre, O Grande. Com a retirada das tropas soviéticas, guerra civil. Cabul foi dominada pelos talibãs e, finalmente, ocupada pela Otan em 2001.

Desde 2003 a cidade vem se reconstruindo, devagar como a sua longa história. As novas gerações acreditam que a reconstrução pode ser definitiva, os mais velhos, calados, rugas de sol marcando o rosto, sabem que Cabul é tão provisória quanto a vida. Por isso, bela, cobiçada, destruída, reconstruída, bela, cobiçada, destruída, reconstruída...

Os talibãs agem menos, mas agem. Mas não dá para fugir, deixar a paz interior que resiste ao cheiro de pólvora e enxofre, casas, vilas bairros arrasados.
Acreditar em Cabul é acreditar na vida. Provisória e linda. Há amor, há inocência, há pureza, há afeto, há gente. Há bombas, há tiros, há açoites. Mas há Cabul.

O diário registra cinco anos de andanças em trilhas possíveis, onde se cruza com gente risonha, alegre, mesmo que faltem dentes, ou uma perna, um braço. Não falta força.

Cabul existe porque Cabul resiste. As pipas coloridas das crianças e de muitos homens feitos são uma amostra. Uma amostra que mesmo frágil o papel fino consegue voar, alto, imponente, contra o vento.

Como Cabul.

Como a vida.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

A onda que se ergueu no mar – dedicado (mais uma vez, que bom!) a querida amiga Gilda Mattoso

Gilda Mattoso com o nosso grande amigo Luiz Carlos Lacerda, cineasta
                                                        Ipanema e Leblon, início dos anos 60

Hoje, 5 de abril, deveria ser feriado em São Sebastião do Rio de Janeiro e em Niterói. Afinal é aniversário da querida amiga Gilda Mattoso, a mais carioca das cariocas, niteroiense de batismo, mulher do mundo. Reza a lenda que tem mais de 40 passaportes cheios.

Meu presente é esse texto que publiquei aqui ano passado. Afinal nada é mais bossa nova do que a Gildinha.

"No dia em se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céu azul, mar limpo e seis meses de verão". (Ruy Castro).

Em tempos de cólera faz bem a alma ler "A onda que se ergueu no mar", um livro antigo do Ruy Castro (é de 2001), um verdadeiro poema para o Rio de Janeiro que amo, mas que não conheci pela mais inquestionável das razões: não era nascido.

A personagem principal dessa obra é a bossa nova, movimentação cultural que surgiu numa fase do Brasil encravada entre o suplício representado pela era varguista, a boçalidade janista, o baixo astral apático do janguismo e o golpe de 1964. Coisa linda era o Rio nos anos 1950, início de 60. Coisa maravilhosa era a bossa nova, capaz de ver mais beleza onde de fato já havia beleza, a contemplação dos olhos verdes da morena e seu biquíni "ousado" em 1960, que hoje daria para fazer um paraquedas. 

A bossa nova acabou porque seu muso era o Rio. E o Rio cidade maravilhosa, sol, céu, sul, faliu no final dos anos 70. Virou um amontoado disforme, portador de anemia cultural grave. A bossa nova acabou porque seu muso, aquele Rio de Janeiro, não mais existe. A ponto de eleger prefeito um bispo da igreja universal!!!! O que estaria sentindo o genial e saudosíssimo (como faz falta ao mundo!) Vinícius de Moraes e o amigo Tom Jobim?

Não li esse livro na época que saiu, apesar de ter ido ao lançamento só para dar um abraço no Ruy Castro. Ele me olhou fixo, não me reconheceu no ato, mas depois lembrou de um repórter da lendária da Rádio JB em 1974, magro pra cacete, cabelos encaracolados na altura dos ombros, roqueiro, que uma vez acendeu um cigarro dele. Esse repórter era eu. Ruy era repórter do Jornal do Brasil e, ele não sabia, era um dos meus ídolos porque tinha acesso aos bossanovistas, apesar de detestar rock, até hoje. 

Ruy detestava rock mas me respeitava ao perceber que amo também bossa nova e seus personagens, principalmente Vinícius de Moraes, que entrevistei ao longo de duas horas por volta de 1977. Foi uma aula de vida, generosidade, cumplicidade, inteligência, nacionalismo e carioquice. Sua morte precoce me deixou devastado. Muito mais do que quando Elvis partiu. Não li "A onda que se ergueu..." naquela época porque optei por sorvê-lo bem devagar um dia. E esse dia chegou.

Minha relação com o Rio daqueles tempos é tão comocional que numa noite, lendo o livro, uma lágrima escorreu de meu olho esquerdo. Emoção vadia. Bateu saudade de meu tio Evaldo, irmão de minha mãe, que também era enfronhado entre os bossanovistas e mais tarde tropicalistas. Tio Evaldo era pura vanguarda, pura arte, puro bom gosto e quando ia lá em casa eu o enchia de perguntas. Sim, foi ele quem me "aplicou" de bossa nova.

Quando conheci meu padrinho de estúdio*, Roberto Menescal, em 1984, chutei os protocolos e pedi: 1 - um autógrafo; 2 - que um dia fôssemos ao Veloso (bar) e, lá, tirássemos uma foto abraçados. Queria ter comigo a lembrança de um dos pais da bossa no bar-berço da bossa nova. Um dia fomos, hora do almoço, o garçom tirou a foto na mesa onde Vinícius, Tom e Menescal costumavam sentar. A foto ficou linda, linda, mas na famigerada mudança (lambança) de endereço que fiz ela se perdeu. Mas, não quero embaçar o astral, falar da bela foto perdida e da mudança que não quis fazer. Há muito o que falar do Menescal. Muito. E escreverei um dia desses.

Sobre "A onda que ergueu no mar", aqui vai um texto da editora Companhia das Letras:

"As andanças de Tom Jobim pelo mundo; o longo verão de Brigitte Bardot em Búzios; a  trágica história de Orlando Silva; as vidas paralelas de Dick Farney e Lucio Alves; céus e mares de Johnny Alf e João Donato; samba e swing no Beco das Garrafas; com Nara Leão em Copacabana; ao redor do pijama de João Gilberto - em A onda que se ergueu no mar, 

Ruy Castro conta novas histórias da música que voltou para conquistar uma nova geração.
Hoje ela talvez seja mais ouvida do que em 1961, em salas de concerto, teatros, boates, bares, clubes, escolas, estádios, sem esquecer os elevadores e as salas de espera, os comerciais e as trilhas de filmes e novelas. Em discos também: nunca se ouviu tanta Bossa Nova em São Paulo, Nova York, Paris, Sydney, Tóquio. E quem se dispuser a entrar em todos os sites brasileiros e internacionais dedicados à Bossa Nova, arrisca-se a morrer de velhice antes de sequer arranhar a superfície.

Com Chega de saudade, de 1990, Ruy Castro foi um dos responsáveis por essa volta. Mas ali a história se encerrava por volta de 1970, quando a Bossa Nova foi dada como morta. 

Ruy mergulhou de novo no assunto - mas agora para falar da volta de uma música que, como as ondas, só esperava o momento de dar de novo à praia."


* Padrinho de estúdio é a pessoa que apresenta um estúdio de gravação a um produtor de primeira viagem. Quando dirigiu a gravadora Polygram (hoje Universal), Menescal contratou Celso Blues Boy por meu intermédio, mas colocou uma condição: que eu produzisse o disco. Eu disse que nunca tinha produzido um disco e Menescal (otimista visceral) mandou "ora, você tira de letra, nasceu em rádio". Topei. Ele me levou ao monumental estúdio Um da Polygram (24 canais em 1984), olhou para o engenheiro, técnicos e disse "esse é o Luiz Antonio Mello que vai produzir o Celso Blues Boy". E foi embora! Segurando as gargalhadas. Querem saber? Ele fez bem. Aprendi produção fonográfica fazendo e me orgulho muito de "Som na Guitarra", álbum de estreia do Blues Boy.