segunda-feira, 2 de abril de 2018

Canecão continua jogado no lixo

Coluna do Ancelmo Gois, O Globo, hoje 02-04-2018






O abandono do Canecão voltou à tona graças a Ancelmo Góis, sábado, quando publicou uma nota em sua coluna dizendo que o Ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, não tem muita culpa pela situação e que a responsabilidade é da UFRJ, que mantém o local abandonado há sete anos. O ministro prometeu salvar o Canecão quando tomou posse, mas a UFRJ não larga o osso. Não sei sabe por que.

Segundo O Globo de tempos atrás, em reportagem de Luiz Fernando Vianna a Associação dos Docentes da UFRJ (Adufrj), cuja diretoria tem filiados a partidos como PCB, PSTU e PSOL, é contra a parceria com setores privados e pede um projeto cultural para a cidade com cara própria. Já o Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFRJ — cujo leque partidário inclui PT, PDT e PSB — está afinado com a Adufrj e diz que basta "vontade política" para dinheiro federal ser injetado no Canecão. Há quem considere saudável a abertura nos fins de semana para eventos comerciais, mas todos defendem controle público, para que eventuais receitas externas fiquem na UFRJ. Ou seja, sugerem um modelo falido como o da extinta União Soviética.

A célebre e casa noturna carioca, depois de um longo processo judicial, foi devolvida a sua dona a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela mesma, que não consegue manter dignamente sequer o Hospital do Fundão, que é seu, onde profissionais de saúde padecem para conseguir trabalhar. A incompetência ampla, geral e irrestrita da UFRJ (que no passado foi lendária), antes conhecida apenas em seu campus, graças a lambança do Canecão se tornou pública.

Mais lambança. Nenhum artista, das centenas (não é exagero) que passaram pelo palco daquela meca do show brasileiro (e mundial), inaugurada em 1967, teve a dignidade de protestar. Muitos artistas consagrados pensam no próprio rabo, exibicionismos politiqueiros, saldos bancários, e deixam o resto (Canecão inclusive) no brejo, quase sendo abocanhado pela especulação imobiliária. Que vergonha! Em paralelo, os políticos – em geral mamíferos de faro extremamente oportunista – ignoram o a situação da casa de show que já foi a mais importante do Rio e onde se realizaram pelas manifestações democráticas.

A UFRJ deveria tirar a máscara, a cara de pau e entregar o Canecão para quem sabe trabalhar com entretenimento. É só fazer uma licitação honesta e escolher empresas ou pessoas idôneas que saibam fazer gestão de entretenimento com competência, lisura, ética. Mais: a UFRJ poderia, ainda, embolsar uma boa e honesta grana para ajudar o cronicamente moribundo hospital do Fundão.

A reportagem de Luiz Fernanda Vianna, intitulada “Fechado há 15 meses e nas trevas, Canecão procura nova luz” dizia que “só há três focos de luz no Canecão: dois sobre o palco e um à esquerda de quem entra naquela que, até ser fechada, em outubro de 2010, era a mais famosa casa de shows do país. O desligamento quase completo da energia é necessário, pois as infiltrações tornam o espaço vulnerável a curtos-circuitos — como já aconteceu. Chuvas fortes provocaram a queda de telhas, molharam o célebre salão e vêm derrubando o revestimento acústico de polipropileno, origem do forte cheiro de mofo.” (...)

Dona do terreno, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiu reavê-lo em 2010, após longa batalha judicial com o empresário Mario Priolli, que fundou o Canecão em 1967 e era inquilino da instituição. Mas ainda não superou dois empecilhos à reabertura: os problemas judiciais de Priolli e as divergências internas quanto a como geri-la.

Quando a Justiça determinou a reintegração de posse, o empresário paulistano, neto de italianos, foi embora e deixou para trás mesas, cadeiras, o sistema de ar-condicionado e outros bens (depauperados). Eles foram penhorados como garantia, já que são muitas as dívidas de Priolli. Enquanto as pendengas não forem resolvidas, a UFRJ não pode usar os equipamentos nem se desfazer deles.”

Papo aqui, papo ali, muita enrolação, e o Canecão jaz apagado, largado, chutado para escanteio. Até quando?