terça-feira, 29 de maio de 2018

Machado, Capitu, Bentinho, Escobar e as fake news


Não adianta negar, a traição ainda é um dos maiores dramas afetivos da humanidade. Fico imaginado se, em 1899, existissem redes sociais e a suposta traição de Capitu, protagonista de “Dom Casmurro”, giga clássico de Machado de Assis, tivesse seus indícios e suspeitas de adultério vazados no Facebook, por exemplo. Ia ser um escândalo. Mas seria fake new?

Afinal, por mais que elementos óbvios levassem o leitor a pensar que houve realmente uma corneada histórica naquele romance, a narração do livro é toda feita por Bentinho, a suposta “vítima”.

Uma série de fatores subjetivos, mas esquisitos pra cacete, levaram Bentinho não só a pensar mas afirmar que seu amigo Escobar estivesse realmente se escalavrando com a bela Capitu, nas caladas.

Machado a construiu dissimulada, olhar de ressaca, com o lado B da vida totalmente desconhecido, caráter idem. “Não é possível afirmar, por meio da investigação das marcas textuais no romance, que Capitu tenha ou não tenha traído Bentinho”, explica Andrea de Barros, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, em entrevista ao site Super Interessante.

Desde que foi lançado, em 1899, até a década de 60, “Dom Casmurro” foi lido como as memórias de um homem desiludido por ter sido traído pela mulher e pelo melhor amigo. Bentinho, o narrador, conta a história do amor por Capitu e depois a dor pela traição dela com Escobar, diz ainda o site.

Mas, no início dos anos 60, essa leitura foi modificada com a ajuda da crítica norte-americana Helen Caldwell, que escreveu o livro “O Otelo Brasileiro de Machado de Assis”. “A partir da referência direta a Shakespeare e, especificamente, a “Otelo”Caldwell leu “Dom Casmurro” como as memórias narradas por um homem ciumento”, explica Antônio Sanseverino, professor do Instituto de Letras da UFRGS. A comparação com Otelo é justificada: o ciúme levou Otelo a dar ouvidos a Iago e acreditar na traição de Desdêmona, que era inocente. “A partir dessa relação, pode-se ler o romance como a escrita de Bento, homem ciumento e cheio de imaginação, que condena Capitu sem ter provas e vê, em seu filho Ezequiel, a imagem de Escobar”, diz Sanseverino.

Ou seja, muitas leituras foram feitas sobre o livro, mas nenhuma levou a uma conclusão definitiva sobre o possível adultério. O que se pode afirmar é que o narrador não dá voz para Capitu e, desde o início da narrativa, dá pistas que tentam fazer o leitor duvidar do caráter da personagem.

Permanece o enigma, 120 anos depois.