segunda-feira, 25 de junho de 2018

Transe


Um amigo, giga intelectual, tem um Fusca 1982 parado na garagem de seu prédio, no Leblon. Ele me disse uma vez que o melhor carro do mundo é o táxi. Concordei. Quando vivia em Paris, anos 60/70, ele tinha um Citroen 2 CV, xodó dos existencialistas. Foi ele quem me apresentou a Oscar Niemeyer na célebre tarde em que o mestre da arquitetura decidiu almoçar num restaurante no Flamengo, Rio.

Pessoas assim mostram que esse papo de mundo obsoleto é e sempre foi uma grande babaquice, mas lamentavelmente muita gente é escrava da seita “se liga, se liga freguesia, celular é nas Casas Bahia.”

Em 1976 eu estava no MAM, Rio, cobrindo o velório de Di Cavalcanti. Era repórter da saudosa Rádio Jornal do Brasil AM, ícone do jornalismo. De repente entra Glauber Rocha. Suado, descabelado, com um outro cara com uma câmera Bolex de 16 mm. Maior escândalo. Glauber gritava “close na cara do defunto! Close na cara do defunto” e o cinegrafista praticamente trepava no caixão para arrancar o close da cara do Di Cavalcanti. 

Claro, fui falar com o Glauber que só conhecia das telas do cinema. Aos berros, olhou pra mim e vociferou “esse aí....o Di... nunca pintou modelinho de revista. Esse aí...o Di, nunca acreditou em arte obsoleta como a minha. Não é isso que falam de mim...hein?!?!”, me perguntou, olhos arregalados. Nada respondi porque ainda não tinha chegado a uma conclusão sobre “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na terra do Sol” que assisti, sem camisa (ar condicionado pifado), no Cinema Um na Prado Junior (Copacabana), lendária Pradão, que fez um Festival Glauber.

Para não variar o ar condicionado do cinema estava pifado, para não variar a maioria dos homens estava sem camisa, e para não variar uns cinco ou seis estavam só de cueca, um hábito totalmente glauberiano que virou norma naquela sauna.

No festival Bergman, e no Truffaut e no Godard, o traje cueca zazá começava a virar padrão naquele templo do novo cinema na Pradão, rua de belas putas populares. Um dia, um homem que se dizia gerente do cinema, de terno, gravata e advogado a tira colo, entrou, mandou acender as luzes para expulsar os seminus. Ninguém saiu, as luzes apagaram e a sessão continuou. Enterraram o assunto. O cara sumiu. O advogado também.

O consumismo nasceu obsoleto porque já carecia de um novo modelo para faturar. O sujeito compra um carro, paga 70 mil, fica todo satisfeito e no semestre seguinte mudam o farol, as lanternas e o câmbio. É trocar ou perder 80% na desvalorização. Em semanas seu “último tipo” passa a condição de ultrapassado. Incomodado, o ex feliz proprietário arranca sangue das vísceras e troca (perdendo um dinheirão) o “velho” por um novo que, seis meses depois sai de linha para dar lugar a um outro modelo. E por aí vai. Ladeira acima? Ladeira abaixo? Não sei. Não sou economista e muito menos veterinário para entender os pitís (não tem acento agudo no i) da sociedade emergente.

Quando começou aquela conversa sobre compra de aviões de caça para a FAB (Uber pago por nós para atender os vadios de Brasilia), o “muso” era o F-18. O Brasil comprou o Gripen, puro sangue da Suécia (negociata?). Os americanos matavam com fuzil AR-15, mas os russos ensinaram a fazer fuzis melhores lançando o ultra fashion AK-47 que tem um jeitão meio vintage. Deem uma olhada nele, atrás do inexistente Bin Laden. O AK é um fuzil autoral.

Segundo a Wikipidea foi inventado em 1942 por Mikhail Kalashnikov que morreu ano passado, um jovem sargento das forças blindadas soviéticas que levou um balaço em 1942 e, no estaleiro, inventou o AK, arma de grife que os traficantes do Rio cultuam como música de Pablo Vittar, ícone também do narcotráfico consentido. Ah, sim, lembrei do extinto (?) pagodeiro Belo, preso dentro de um armário, em casa, cheio de armas e drogas anos atrás. Que fim levou esse Boletim de Ocorrência? Tornou-se obsoleto?

É preciso estar muito atento e forte para não ceder a ditadura nada branda dos reaças que apregoam o estado obsoleto de ser. Até implantes dentários entraram nessa porque, dizem, o parafuso de titânio é melhor do que a coroa de ouro, li numa revista de inutilidades numa ante sala.

Será que um dia haverá homens e mulheres com a validade vencida? Por falar nisso, sabem o que um médico amigo me disse? Fazendo meia com o governo, laboratórios estão reduzindo de propósito a vida útil dos remédios para que a validade vença logo e o consumidor tenha que comprar o modelito em voga. Mais: ele me disse que muitos remédios vem com 28 comprimidos porque os laboratórios sabem que o médico vai prescrever para 30 dias e o infeliz do consumidor, no comprimido número 28, terá que comprar outra caixa.

É dose?

É. 

Já era.


domingo, 24 de junho de 2018

São João


Neste 24 de junho é comemorado o dia de São João, padroeiro de várias cidades, entre elas Porto Alegre e Niterói. Feriado municipal e pouquíssimos arraiais acontecendo. Não sei por que. Deixei de frequentar as poucas festas juninas por causa da lambança que andam fazendo na trilha sonora. Ao invés de canções tradicionais tocam esses entulhos como sertanejo universitário e até funk.

Tempos atrás almocei com o colega Eduardo Lamas no Centro do Rio e na volta, a caminho da estação do catamarã para Niterói, vi na Praça 15 um cartaz anunciando uma festa junina. Típica e tradicional. O desenho trazia uma fogueira, gente fantasiada e até os perigosos (e hoje inviáveis) balões. Embarquei e a meu lado sentou um sujeito que era a cara do Danny Devito: baixo, gordo, careca, que não largava o celular.

Fez várias ligações porque a linha caia. Ele orientava uma mulher do outro lado da linha que arrumava a sua mala. Foi gozado. Ele dizia “não, gravata não precisa, vou descansar...bota as duas escovas de dentes, muitas meias e cuecas de algodão porque lá faz frio...não, o casaco de courvin vou levar na mão caso esfrie no caminho. Ah, leva meu radinho” e assim o cara veio até Niterói falando, gesticulando, arfando.

Curioso, quando a embarcação atracou fiquei ouvindo a conversa sobre o tal fim de semana na serra que o cover do Devito ia ter. Devito que, lá pelas tantas, disparou: “não esqueça da minha roupa para o casamento na roça.” Onde seriam esses arraiais, num lugar frio, onde o nosso personagem cai na gandaia? Cara de pau, perguntei. Sorridente, ele respondeu “em Santa Maria Madalena, é claro. Onde mais?”.

Voltando ao cartaz da festa junina, mergulhei nos arraiais com fogueiras gigantescas, bandeirinhas, pau-de-sebo, comidas típicas, quadrilhas. Saudade daquele cheiro de lenha queimada, do som primitivo dos conjuntos autênticos tocando.

Fui a arraiais em Teresópolis, outro em Friburgo, mais um outro em Araruama, vários no Rio e em Niterói. Este ano vou correr atrás de pelo menos uma festa junina. Meu lado lúdico cobra, quase implora e merece. Com bombas, crianças a caráter e tudo mais.

Quem procura, acha. 


sábado, 23 de junho de 2018

Cariocas do Duo Santoro, José Staneck e Ana Letícia Barros brilham na Argentina neste domingo

Gêmeos violoncelistas, gaitista e percussionista apresentarão o espetáculo “Do Clássico à Bossa Nova”, em Córdoba, neste domingo, no Teatro Real. Como solistas da Orquestra Sinfônica Acadêmica de Córdoba, farão um concerto no dia 29 de junho e gravarão o CD “Brasil en Córdoba” entre os dias 25 e 28. 

Os irmãos violoncelistas cariocas Paulo e Ricardo Santoro (Duo Santoro), o gaitista José Staneck e a percussionista Ana Letícia Barros vão apresentar o espetáculo “Do Clássico à Bossa Nova”, buscando mostrar, através da fusão incomum entre violoncelos, harmônica e percussão, os dois lados da música brasileira: o erudito e o popular, com a sofisticação do samba e da bossa nova.

O quarteto se apresentará neste domingo, 24 de junho, no Teatro Real, reunindo, em um só programa, obras do cancioneiro popular, como “Lua Branca e Gaúcho” (Chiquinha Gonzaga), “Asa Branca” (Luiz Gonzaga), “Tico-Tico no Fubá” (Zequinha de Abreu), “Brasileirinho” (Waldir Azevedo), além de músicas consagradas de Tom Jobim (“Dindi”, “Garota de Ipanema” e “Chega de Saudade”). Do repertório erudito, vão apresentar “Cantiga e Desafio” (João Guilherme Ripper), “Modinha” (Francisco Mignone), “Ladeiras de Olinda” (Adriano Giffoni) e as famosas Bachianas de Heitor Villa-Lobos (“Bachianas Brasileiras” nº 4, nº 5 e nº 2 - O Trenzinho do Caipira).

Mais: acompanhados pela Orquestra Sinfônica Acadêmica de Córdoba, sob a regência do maestro Hadrian Avila, o quarteto fará também a gravação do CD “Brasil en Córdoba”, entre os dias 25 e 28 de junho, com apresentação final no dia 29, sexta-feira, às 20h, no Salón de los Pasos Perdidos. No programa, mais erudito, vão apresentar concertos de João Guilherme Ripper (“Duplum” – concerto para dois violoncelos e orquestra”, dedicado ao Duo Santoro), Radamés Gnattali (“Concerto nº 1 para harmônica e orquestra”) e Edmundo Villani-Côrtes (“Concerto para vibrafone e orquestra”), encerrando o programa com a “Sinfonietta Prima” de Ernani Aguiar.

Único duo de violoncelos em atividade permanente no Brasil, o Duo Santoro, formado pelos irmãos gêmeos Paulo e Ricardo Santoro, completa 28 anos de existência neste 2018, com dois CDs lançados dedicados à música brasileira erudita e popular, já tendo feito concertos por todo o Brasil, na República Dominicana e no Carnegie Hall de Nova York, com obras compostas especialmente para o Duo pelos mais importantes compositores brasileiros.

Na percussão, o Duo Santoro conta com o sotaque brasileiro de Ana Letícia Barros, professora de percussão e de música de câmara da Universidade Federal do Rio de Janeiro, já tendo ministrado aulas em diversas universidades nacionais e internacionais, tais como University of Georgia, Eastman School of Music e New York University.

Chamado de David Oïstrakh da harmônica pelo crítico francês Oliver Bellamy e comparado aos músicos Andrés Segovia e Mstislav Rostropovich por sua atuação no desenvolvimento e divulgação de seu instrumento pelo saudoso crítico Luiz Paulo Horta, José Staneck tem um estilo próprio onde elementos tanto da música de concerto quanto da música popular brasileira e do jazz se fundem a serviço de uma sonoridade e expressividade marcantes.

A busca do novo a cada dia, a procura de diferentes sonoridades e de novas formas de expressão: esta é razão para a formação deste inusitado quarteto. É exatamente esta fusão de estilos que aproxima os quatro artistas, numa verdadeira conversa musical valorizada pela riqueza tímbrica que resulta dos sons dos violoncelos com a harmônica e com a percussão, em concertos sempre com lotação máxima de público.

Programação:

Domingo, 24 de junho, às 20h, no Teatro Real, Córdoba, Argentina

DO CLÁSSICO À BOSSA NOVA
Duo Santoro (Paulo e Ricardo Santoro, violoncelos)
José Staneck (harmônica)
Ana Letícia Barros (percussão)

Programa:

João Guilherme Ripper - Cantiga e Desafio
Francisco Mignone - Modinha
Heitor Villa-Lobos - Prelúdio das Bachianas Brasileiras nº 4
Heitor Villa-Lobos - Ária das Bachianas Brasileiras nº 5
Heitor Villa-Lobos - Tocatta das Bachianas Brasileiras nº 2 (O Trenzinho do Caipira)
Adriano Giffoni - Ladeiras de Olinda
Chiquinha Gonzaga - Lua Branca e Gaúcho
Tom Jobim - Dindi
Tom Jobim - Garota de Ipanema
Tom Jobim - Chega de Saudade
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira - Asa Branca e Baião
Zequinha de Abreu - Tico-Tico no Fubá
Waldir Azevedo - Brasileirinho


De 25 a 28 de junho, gravação do CD “Brasil en Córdoba”

Orquestra Sinfônica Acadêmica de Córdoba
Hadrian Avila, maestro
Duo Santoro (Paulo e Ricardo Santoro), violoncelos
José Staneck (gaita)
Ana Letícia Barros (vibrafone)

Programa:

João Guilherme Ripper - Duplum, concerto para dois violoncelos e orquestra
Radamés Gnattali - Concerto nº 1 para harmônica e orquestra
Edmundo Villani-Côrtes - Concerto para vibrafone e orquestra
Ernani Aguiar - Sinfonietta Prima

Sexta-feira, 29 de junho, às 20h, no Salón de los Pasos Perdidos, Córdoba, Argentina

Orquestra Sinfônica Acadêmica de Córdoba
Hadrian Avila, maestro
Duo Santoro (Paulo e Ricardo Santoro), violoncelos
José Staneck (gaita)
Ana Letícia Barros (vibrafone)

Programa:

João Guilherme Ripper - Duplum, concerto para dois violoncelos e orquestra
Radamés Gnattali - Concerto nº 1 para harmônica e orquestra
Edmundo Villani-Côrtes - Concerto para vibrafone e orquestra
Ernani Aguiar - Sinfonietta Prima



sábado, 9 de junho de 2018

Desconsideração


Jamais a civilização teve tantos meios de comunicação disponíveis. Até ontem (1990) quem quisesse enviar uma mensagem confidencial escrita tinha que pegar papel, caneta, escrever, por no envelope, ir até a agência do correio, postar e esperar dias até que o destinatário recebesse. Uma carta do Rio para a Europa demorava de 10 dias a 15 para chegar. Em 1990 já havia fax, o pager (vulgo teletrim) que, em sua época, foram muito importantes. Em 1983, nos Estados Unidos, quem pagasse 20 mil dólares conseguia um telefone celular.

Hoje reina a fartura tecnológica. No mundo há 6 bilhões de linhas de celular, outros bilhões de usuários da internet. Os preços desabaram, o acesso continua cada vez mais fácil e a quantidade de aplicativos e programas impressiona. E-mail, SMS, Whatsapp, Skype, etc. etc. etc. muitos de graça.

E a contrapartida? Se a civilização nunca viu tanta fartura tecnológica em prol da sua comunicação, por outro lado a falta de consideração/educação parece imperar. Muita gente não responde e-mails, nem whatsapp, muito menos celular. Tenho um amigo que mandou uma mensagem profissional por e-mail e SMS para um sujeito (mensagem de interesse do sujeito, diga-se de passagem) há 20 dias e até agora está sem resposta.

Se no mundo profissional a coisa está a bangu, no pessoal não fica muito longe. Mensagens do tipo “quando chegar em casa me avisa, estou preocupado” podem ser respondidas no dia seguinte ou simplesmente ignoradas. A falta de consideração está comprovada até pela própria tecnologia. Uso um programa de envio de e-mails chamado Mail Chimp que depois da remessa informa quem abriu, quando, quem leu, quem não abriu e não leu, etc. Em média, apenas 10% abrem e lê a mensagem. Não recomento para quem sobre de rejeição crônica. 

O que não consigo entender é como gente que não se comunica acabe se envolvendo com tecnologia de comunicação, que, lógico, não é obrigatória. Tem quem quer. É mera falta desconsideração/educação? Ou é boçalidade mesmo?


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Leme

                                                                      A pedra 
                                                              O bandido

O lead da matéria do jornal Extra é claro:

“Em meados de abril, traficantes saíram encapuzados, do Chapéu-Mangueira, e entraram pela mata do vizinho Morro da Babilônia, no Leme. O objetivo era retomar a favela para o Terceiro Comando Puro (TCP).

Após uma troca de tiros, o grupo fugiu do local. Pouco mais de um mês depois, os criminosos do Comando Vermelho (CV) que haviam sido expulsos revidaram o ataque. A disputa pelo Morro da Babilônia, entretanto, é apenas uma envolvendo facções do tráfico e milicianos por territórios no Rio.
Levantamento feito pelo EXTRA com base em informações da PM e da Polícia 

Civil revela que, nos últimos três meses, 24 favelas estiveram envolvidas em 12 disputas territoriais espalhadas por 15 bairros do Rio.”

Tenho e mantenho laços afetivos com o Leme, bairro que está sendo destruído por essas guerras nos morros, quintais eleitorais da deputada Benedita da Silva (PT) que, curiosamente, não deu uma palavra sobre o assunto. Ela começou sua carreira política como vereadora, em 1982, com o lema “negra, mulher e favelada”, slogan da moda hoje.

As ruas do Leme estão desertas, triste, com medo. Os pescadores da pedra sumiram, bem como os namorados que gostam de trocar carícias naquele belo colchão público. Também era comum, depois do jantar, moradores darem uma volta pelo calçadão, crianças brincarem na areia, ao som do mar que embalou Nara Leão e Nelson Rodrigues. Os verdadeiros comando do Rio transformaram o bairro em zona proibida, graças a falta de governo.

Será que o Leme voltará a ser o Leme um dia?

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Who Came First


Escrevo ouvindo a edição especial extendida de 45 anos do álbum “Who Came First”, o primeiro solo de Pete Townshend. Gravado e lançado em 1972 (na verdade ele comemora 46 anos), é um álbum espiritual e surpreendente.

Eu passava férias e Teresópolis quando chegou a notícia, por amigos, do lançamento, mas não havia a menor esperança de que o álbum fosse lançado aqui. A indústria do disco brasileira, em sua lambança verde e amarela, tinha como hábito dar rasteiras no consumidor. Por exemplo, o lendário álbum duplo “Eletric Ladyland”, de Jimi Hendrix, saiu aqui com um disco só e com uma capa ridícula.

Lá em 72, a amiga Anete, uma judia antenada que conseguia não se sabe como edições da revista Melody Maker inglesa, leu uma resenha sobre “Who Came First” onde o autor falava da rica mistura de rock e folk. Daí a minha surpresa. Afinal, na liderança do The Who, Townshend vinha de uma avalanche de super lançamentos como “Tommy” (1969), “Live at Leeds” (1970) e “Who’s Next” (1971), com o peso característico da banda.

Outra surpresa: o disco saiu no Brasil e quase não acreditei quando os violões e guitarras (leves) de Townshend começaram a invadir o ambiente com canções que viraram clássicos. No encarte de papel vagabundo, a informação: “Um dólar de cada álbum vendido é doado à instituições de caridade.” Quando ouvi a faixa “Parvardigar” pela primeira vez me senti inundado de paz, não por razões esotéricas, mas pela beleza da música (por isso a coloquei lá em cima) e da letra.

Pete Townshend havia se tornado discípulo do indiano Meher Baba, impressionado com a sua história. A trajetória do líder espiritual tomou novos rumos a partir de dois acidentes automobilísticos que ocorreram em 1952, nos Estados Unidos e em 1956, na Índia. Por causa dos acidentes sua capacidade de caminhar ficou muito limitada e, em 1957, ele ficou completamente confinado a cadeira de rodas e, misteriosamente, se aprofundou mais ainda em sua fé. Morreu em janeiro de 1969 e seu túmulo em Meherabad é considerado local sagrado ainda hoje e se tornou um local de peregrinação.

Originalmente com nove faixas, a edição especial de “Who Came First” conta com 26 músicas, todas remasterizadas. Muitas são preciosas raridades que estavam nos arquivos como shows ao vivo que Townshend fez no túmulo de Meher Baba, mentor que que não chegou a conhecer pessoalmente.

Um álbum que comove, leva a devaneios suaves, um certo nó na garganta, especialmente em fases da vida quando a sensibilidade esta aflorada.

Fundamental ouvir.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Li milhares de vezes que o silêncio é um grande companheiro
Há dias ando calado, quieto
Tenho muito a dizer, mas pouco a falar
Faz bem
Ficar quieto
Mesmo com a alma inquieta
Alma inquieta não chega a ser uma novidade
Desde o dia em que nasci
Meditação
Já pensei em, fazer, mas não sei
Imagino que meditação é para os mais calmos
Não estou entre eles
Por enquanto
Dizem que a maioria tem cabeça feroz
Alucinadamente feroz
Não sei
Não tenho elementos para aferir
Mas há dias ando calado, quieto
Ponto.

sábado, 2 de junho de 2018

Capitanias hereditárias


Meritocracia. Bela palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político em campanha. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente , especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política. Isso sem falarmos do noves fora, da corrupção galopante.

Na música chega a ser bizarro. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por amebas da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Mas em geral não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é subjetiva, a coisa fica no zero a zero. No caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele, certamente, seria rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li tempos atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. 

Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filhinho de um amigão do pai da banda. Há, ainda, uma pseudo repórter de TV com sobrenome de diretor famoso que é uma ameba no ar, mas tem sobrenome de diretor famoso.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

Seria melancólico e não fosse escroque.