sábado, 9 de junho de 2018

Desconsideração


Jamais a civilização teve tantos meios de comunicação disponíveis. Até ontem (1990) quem quisesse enviar uma mensagem confidencial escrita tinha que pegar papel, caneta, escrever, por no envelope, ir até a agência do correio, postar e esperar dias até que o destinatário recebesse. Uma carta do Rio para a Europa demorava de 10 dias a 15 para chegar. Em 1990 já havia fax, o pager (vulgo teletrim) que, em sua época, foram muito importantes. Em 1983, nos Estados Unidos, quem pagasse 20 mil dólares conseguia um telefone celular.

Hoje reina a fartura tecnológica. No mundo há 6 bilhões de linhas de celular, outros bilhões de usuários da internet. Os preços desabaram, o acesso continua cada vez mais fácil e a quantidade de aplicativos e programas impressiona. E-mail, SMS, Whatsapp, Skype, etc. etc. etc. muitos de graça.

E a contrapartida? Se a civilização nunca viu tanta fartura tecnológica em prol da sua comunicação, por outro lado a falta de consideração/educação parece imperar. Muita gente não responde e-mails, nem whatsapp, muito menos celular. Tenho um amigo que mandou uma mensagem profissional por e-mail e SMS para um sujeito (mensagem de interesse do sujeito, diga-se de passagem) há 20 dias e até agora está sem resposta.

Se no mundo profissional a coisa está a bangu, no pessoal não fica muito longe. Mensagens do tipo “quando chegar em casa me avisa, estou preocupado” podem ser respondidas no dia seguinte ou simplesmente ignoradas. A falta de consideração está comprovada até pela própria tecnologia. Uso um programa de envio de e-mails chamado Mail Chimp que depois da remessa informa quem abriu, quando, quem leu, quem não abriu e não leu, etc. Em média, apenas 10% abrem e lê a mensagem. Não recomento para quem sobre de rejeição crônica. 

O que não consigo entender é como gente que não se comunica acabe se envolvendo com tecnologia de comunicação, que, lógico, não é obrigatória. Tem quem quer. É mera falta desconsideração/educação? Ou é boçalidade mesmo?


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Leme

                                                                      A pedra 
                                                              O bandido

O lead da matéria do jornal Extra é claro:

“Em meados de abril, traficantes saíram encapuzados, do Chapéu-Mangueira, e entraram pela mata do vizinho Morro da Babilônia, no Leme. O objetivo era retomar a favela para o Terceiro Comando Puro (TCP).

Após uma troca de tiros, o grupo fugiu do local. Pouco mais de um mês depois, os criminosos do Comando Vermelho (CV) que haviam sido expulsos revidaram o ataque. A disputa pelo Morro da Babilônia, entretanto, é apenas uma envolvendo facções do tráfico e milicianos por territórios no Rio.
Levantamento feito pelo EXTRA com base em informações da PM e da Polícia 

Civil revela que, nos últimos três meses, 24 favelas estiveram envolvidas em 12 disputas territoriais espalhadas por 15 bairros do Rio.”

Tenho e mantenho laços afetivos com o Leme, bairro que está sendo destruído por essas guerras nos morros, quintais eleitorais da deputada Benedita da Silva (PT) que, curiosamente, não deu uma palavra sobre o assunto. Ela começou sua carreira política como vereadora, em 1982, com o lema “negra, mulher e favelada”, slogan da moda hoje.

As ruas do Leme estão desertas, triste, com medo. Os pescadores da pedra sumiram, bem como os namorados que gostam de trocar carícias naquele belo colchão público. Também era comum, depois do jantar, moradores darem uma volta pelo calçadão, crianças brincarem na areia, ao som do mar que embalou Nara Leão e Nelson Rodrigues. Os verdadeiros comando do Rio transformaram o bairro em zona proibida, graças a falta de governo.

Será que o Leme voltará a ser o Leme um dia?

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Who Came First


Escrevo ouvindo a edição especial extendida de 45 anos do álbum “Who Came First”, o primeiro solo de Pete Townshend. Gravado e lançado em 1972 (na verdade ele comemora 46 anos), é um álbum espiritual e surpreendente.

Eu passava férias e Teresópolis quando chegou a notícia, por amigos, do lançamento, mas não havia a menor esperança de que o álbum fosse lançado aqui. A indústria do disco brasileira, em sua lambança verde e amarela, tinha como hábito dar rasteiras no consumidor. Por exemplo, o lendário álbum duplo “Eletric Ladyland”, de Jimi Hendrix, saiu aqui com um disco só e com uma capa ridícula.

Lá em 72, a amiga Anete, uma judia antenada que conseguia não se sabe como edições da revista Melody Maker inglesa, leu uma resenha sobre “Who Came First” onde o autor falava da rica mistura de rock e folk. Daí a minha surpresa. Afinal, na liderança do The Who, Townshend vinha de uma avalanche de super lançamentos como “Tommy” (1969), “Live at Leeds” (1970) e “Who’s Next” (1971), com o peso característico da banda.

Outra surpresa: o disco saiu no Brasil e quase não acreditei quando os violões e guitarras (leves) de Townshend começaram a invadir o ambiente com canções que viraram clássicos. No encarte de papel vagabundo, a informação: “Um dólar de cada álbum vendido é doado à instituições de caridade.” Quando ouvi a faixa “Parvardigar” pela primeira vez me senti inundado de paz, não por razões esotéricas, mas pela beleza da música (por isso a coloquei lá em cima) e da letra.

Pete Townshend havia se tornado discípulo do indiano Meher Baba, impressionado com a sua história. A trajetória do líder espiritual tomou novos rumos a partir de dois acidentes automobilísticos que ocorreram em 1952, nos Estados Unidos e em 1956, na Índia. Por causa dos acidentes sua capacidade de caminhar ficou muito limitada e, em 1957, ele ficou completamente confinado a cadeira de rodas e, misteriosamente, se aprofundou mais ainda em sua fé. Morreu em janeiro de 1969 e seu túmulo em Meherabad é considerado local sagrado ainda hoje e se tornou um local de peregrinação.

Originalmente com nove faixas, a edição especial de “Who Came First” conta com 26 músicas, todas remasterizadas. Muitas são preciosas raridades que estavam nos arquivos como shows ao vivo que Townshend fez no túmulo de Meher Baba, mentor que que não chegou a conhecer pessoalmente.

Um álbum que comove, leva a devaneios suaves, um certo nó na garganta, especialmente em fases da vida quando a sensibilidade esta aflorada.

Fundamental ouvir.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Li milhares de vezes que o silêncio é um grande companheiro
Há dias ando calado, quieto
Tenho muito a dizer, mas pouco a falar
Faz bem
Ficar quieto
Mesmo com a alma inquieta
Alma inquieta não chega a ser uma novidade
Desde o dia em que nasci
Meditação
Já pensei em, fazer, mas não sei
Imagino que meditação é para os mais calmos
Não estou entre eles
Por enquanto
Dizem que a maioria tem cabeça feroz
Alucinadamente feroz
Não sei
Não tenho elementos para aferir
Mas há dias ando calado, quieto
Ponto.

sábado, 2 de junho de 2018

Capitanias hereditárias


Meritocracia. Bela palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político em campanha. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente , especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política. Isso sem falarmos do noves fora, da corrupção galopante.

Na música chega a ser bizarro. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por amebas da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Mas em geral não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é subjetiva, a coisa fica no zero a zero. No caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele, certamente, seria rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li tempos atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. 

Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filhinho de um amigão do pai da banda. Há, ainda, uma pseudo repórter de TV com sobrenome de diretor famoso que é uma ameba no ar, mas tem sobrenome de diretor famoso.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

Seria melancólico e não fosse escroque.