sexta-feira, 20 de julho de 2018

O hóspede (II)


Falta de ar pelo amor partido, sem bilhete, 29 anos atrás. Leve asfixia, leve melancolia, leve arrependimento sob a garoa fina e quase fria. Ele mandara o amor partir. Partir reto, sem olhar para trás, sem derramar lágrima, sem se deixar levar pelas nuvens obscuras da desesperança. Cretina.

Chega ao topo da montanha bela e fria, quase no final da estreita estrada, a subida contornada por cerca viva que se transformava em um diário, onde letras, vírgulas, parágrafos pareciam incorporar os fios de metal entre os moirões. Piso de pedras. No final da subida um pátio, não muito grande, com antigas, muito antigas, marcas de pneus. Bem em frente, uma pequena casa de hóspede, em madeira e telha colonial.

O motor V8 silencioso do carro corta o silêncio opaco daquele lugar que já fora mágico, 29 anos atrás. Havia ecos, de vozes relembradas, remexidas, requentadas. Havia ecos de longos e apaixonados beijos entre os pinheiros que naquela manhã sem vento pareciam estafados, parados, quietos. Como ele.

Escadaria rústica bem à frente. Canil, horta, o pequeno curral, lembrança da canção do vento. A escadaria próxima ao pico do morro onde havia vida. Gado, cães, galos, noites, quintais. Havia vida, galochas, lama, tombos, gargalhadas, amor. Quatro letras que não choram, ele costumava dizer, 29 anos atrás.

Na descida, mais árvores, vento, curral, horta, canil, pátio, o rugido do motor V8 se confunde com o som ensurdecedor do silêncio. A esquerda, a casa. Grande, gentil, hospitaleira. A porta, a copa, a cozinha. Vazias. Nas paredes, manchas de quadros e armários que há tempos eram abertos e fechados frenética e alegremente. Depois da cozinha um pequeno banheiro e a sala de estar. Vazios.

Ecos do leve falatório. Que dia lindo; também acho; vou comprar os jornais; vai chover forte hoje, que bom; eu te amo; também te amo; para sempre; claro; bom dia, senhora; bom dia, senhor; bom dia, bom rapaz.

Colada a sala de estar o salão de jantar. Colonial como toda a casa. Também vazio. Mais ecos, muitos. Vozes, risos, planos, angústias, camaradagem, afeto, um choro de criança, o trote do cavalo manso, a brisa do amor perfeito, os sonhos, as memórias, as reflexões. O motor V8 em marcha lenta empurra o carro devagar em direção ao passado que o homem clama se fazer presente, mesmo que não existam ampulhetas invertidas nessa vida. Tosca, linda. Vida.

Janelões. Vista da mata, cheiro de eucalipto, chuva em terra molhada, alguma neblina, estrelas radiantes, luar, o som incessante do riacho que lembrava uma clave de sol.

Andar de cima. Mais quartos. Vazios. Sossego, canto da cigarra no fim de tarde. Brisa fria, fome, sono, sonhos, mais sonhos. Carro parado, motor V8 em marcha lenta, obediente.

Entra no carro, manobra, desce o caminho. Asfalto. O motor V8 ruge, o carro parte em alta velocidade. Alívio, angústia, terror, êxtase, o pé mais fundo no acelerador na grande reta, 230, 270 quilômetros por hora como se quisesse acelerar as partículas e voltar no tempo.

Tempo, aliado que faz esquecer, vilão que despeja lembranças. Tempo, vida, saudade do ferro velho existencial deixado lá, 29 anos atrás, fingindo que nada aconteceu. Mas tudo aconteceu. Só ele não percebeu.


quinta-feira, 19 de julho de 2018

Boa vontade


Hoje fui contemplado com a boa vontade de um sujeito que não conhecia. Podem até dizer que “ele não fez mais do que obrigação, trabalha para isso”, mas não é bem assim. Vivemos um momento estranho onde imperam a patada, a grosseria, o mau humor e vizinhos de porta da nefasta má vontade. Quando achamos um funcionário de uma empresa regido pela boa vontade muitas vezes impressiona.

Muitas empresas botam a culpa na crise e aumentam seus lucros investindo em mão de obra barata, desqualificada, logo imbecil e grosseira. Botam para trabalhar justamente no atendimento ao público que, em função de tudo o que está aí, também não cheira a Leite de Rosas. E aí vira o maior bala com bala. No entanto, por mais que seja desqualificada, incompetente e mal paga, uma pessoa de boa vontade tenta fazer o possível, enquanto o seu oposto despeja o impossível na nossa cara.

Exemplo: ontem um amigo contou que estava falando com o banco pelo telefone e uma mulher, grosseira, inchada de má vontade, disse a ele quase soletrando que não havia como resolver o assunto e ponto final. Nesse nível. Ele desligou e ligou de novo e quem atendeu não só pediu desculpas como resolveu o problema.

Muitas empresas e instituições pedem que a gente dê notas pela qualidade do atendimento prestado pelo funcionário. Apesar de desconfiar que ninguém vai ouvir a minha nota quando ligo, por exemplo, para a operadora de telefone (tem mais de 100 milhões de assinantes) dou nota máxima quando bem atendido e nota nenhuma quando não. Simplesmente desligo. Vai que um zero se acumula 
a outros e a pessoa, mesmo podre de humor, é demitida?
Reconhecer a boa vontade é mais importante do que esbofetear o oposto. Quem sabe elogiando, estimulando, reconhecendo poderemos sinalizar que ser cordial é o melhor caminho?

Não é?


quarta-feira, 18 de julho de 2018

O analfabeto político - Berthold Brecht (1898-1956 - eternamente atual)


O pior analfabeto
É o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.


terça-feira, 17 de julho de 2018

Concertos em memória de Sergio Roberto de Oliveira, nesta quinta e no dia 29

Um ano após a morte do compositor carioca, concertos reunirão notórios amigos do meio erudito, além do lançamento, no dia 19, do CD de estreia do T’Rio, formado por Cristiano Alves (clarinete), Fernando Thebaldi (viola) e Yuka Shimizu (piano).
                                                            Sergio Roberto de Oliveira

Há um ano, o compositor e produtor carioca Sergio Roberto de Oliveira morreu precocemente, aos 46 anos, em decorrência de um câncer, deixando como legado toda uma vida dedicada à música, com indicações ao Grammy Latino, centenas de obras compostas para diferentes formações, seja de câmara ou com orquestra, dezenas de CDs produzidos e lançados através de sua gravadora A Casa Discos.

Agora, neste mês de julho, além do lançamento do CD “O piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”, reunindo obras dos compositores tocadas pelas pianistas Miriam Grosman e Ingrid Barancoski, intérpretes e compositores de prestígio se reunirão em dois palcos cariocas para reviver suas composições e realizar uma grande homenagem ao saudoso amigo e profissional.

Dia 19 de julho, quinta-feira 

O primeiro espetáculo em sua memória vai acontecer exatamente após um ano de sua partida, dia 19 de julho, quinta-feira, na Sala Cecília Meireles. Uma de suas últimas composições, “Pangea” será apresentada pelo quarteto de clarinetas formado por Cristiano Alves, Igor Carvalho, Thiago Tavares e Tiago Teixeira, que, em seguida, apresentará duas peças de Francisco Mignone (“Valsa Improvisada” e “Valsa-Choro”).

Do CD “O Piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”, Miriam Grosman vai interpretar “Brasileiro”, obra de Sergio Roberto de Oliveira escrita para piano solo, e a pianista Ingrid Barancoski apresenta “Le Tombeau de Aleijadinho”, do compositor e maestro Ricardo Tacuchian. Obras de Villani-Côrtes, Jayoleno dos Santos, Raul do Valle, Didier Marc Garin e Alexandre Schubert integram ainda o variado programa.

Serão apresentados trechos da ópera “Na Boca do Cão”, escrita por Sergio Roberto de Oliveira já bastante debilitado, trazendo a frente a soprano Gabriela Geluda, com Ricardo Santoro (violoncelo), Leo Sousa (percussão) e Cristiano Alves (clarineta).

No mesmo dia, haverá o lançamento do CD “Trios Brasileiros”, do T’Rio, formado por Cristiano Alves (clarineta), Fernando Thebaldi (viola), Yuka Shimizu (piano). Juntos, vão tocar peças de Nestor de Hollanda, Liduino Pitombeira e Ricardo Tacuchian. que estão presentes no CD de estreia, também lançamento da A CASA Discos. 

Dia 29 de julho, domingo 

Com renda revertida para uma instituição de tratamento ao câncer, o palco da Sala Baden Powell receberá, no domingo, 29 de julho, às 15h, o segundo concerto em memória ao compositor tijucano.

O violonista Luis Carlos Barbieri abre o programa com “Umas Coisas do Coração”, obra que levou o compositor a ser indicado ao Grammy Latino em 2011. Os gêmeos Paulo e Ricardo Santoro (Duo Santoro) vão tocar “Aos Santos Oro”, escrita por Oliveira e dedicada aos irmãos. O duo formado pelo violonista Marco Lima e pela soprano Doriana Mendes vai interpretar “Canção do Dia de Sempre” e “A Canção que não foi escrita” (sobre poemas de Mário Quintana).

No final, Miriam Grosman apresenta “Brasileiro” e o mesmo quarteto formado por Geluda, Alves, Santoro e Souza encerra o programa com trechos da ópera “Na Boca do Cão”. 

Sergio Roberto de Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 1970, falecendo na mesma cidade em 2017, com 47 anos incompletos. Graduado em Composição pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), na classe de Dawid Korenchendler, teve, também uma orientação informal com Guerra Peixe. Sua carreira de compositor foi vertiginosa, principalmente depois que ele fundou um coletivo de compositores, intitulado Prelúdio 21, e que apresentava, mensalmente, uma estreia contemporânea de cada compositor, durante os últimos 10 anos de sua vida.

Sua produção cobriu desde peças para instrumentos solistas, conjuntos de câmara, música coral, música sinfônica e ópera. Importantes grupos camerísticos gravaram sua obra como o Quarteto Radamés Gnattali, Quinteto Lorenzo Fernandez, Trio Capitu, Trio Paineiras, Duo Santoro, Duo Bretas-Kevorkian, GNU, entre outros.

Sua obra Phoenix, para clarineta e orquestra, foi gravada pelo clarinetista Cristiano Alves, com a Orquestra Sinfônica Nacional, sob a regência do maestro Tobias Volkmann. Sua ópera de câmara, Na Boca do Cão, em parte escrita em seu leito de morte, teve uma vitoriosa temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, apresentando a soprano Gabriela Geluda.

Paralelamente à sua carreira de compositor, Sergio Roberto desenvolveu uma intensa liderança musical, promovendo festivais como a Bienal Música Hoje, proferindo palestras, inclusive no exterior, como nas universidades inglesas e americanas, ensaiando uma digressão no mundo do cinema com a direção do curta Ao Mar, em 2014,  ou criando a música para os filmes A dívida, que teve uma indicação no Festival Internacional de Cinema de Madri, na categoria de Melhor Música para Filme e no Filmmaker Festival of World, em Milão na categoria de trilha sonora. Obteve reconhecimento por seu trabalho com as duas indicações do Grammy Latino, respectivamente em 2011 e 2012, e a posição conquistada de Artist-in-Residence, na Duke University in North Caroline.

Outra audaciosa e vitoriosa realização de Sergio Roberto foi a fundação de A Casa Estúdio, em 1998, que já produziu cerca de 30 CDs dedicados à música brasileira contemporânea. Sua morte foi sentida por toda a comunidade musical brasileira e pela imprensa e várias homenagens foram realizadas em sua memória, na cidade onde nasceu e desenvolveu sua meteórica liderança e arte.

SERVIÇO 

Dia 19 de julho, quinta-feira – A Música de Sergio Roberto de Oliveira
Local: Sala Cecília Meireles

Horário:  20h

Ingressos: R$40,00 (inteira); R$20,00 (meia entrada)

Rua da Lapa, 47 - Lapa, Rio de Janeiro

Informações:  (21) 2332-9223

Ingressos à venda em breve na bilheteria da Sala Cecília Meireles ou através do site www.ingressorapido.com.br

Programa: 

Sergio Roberto de Oliveira – Pangea

Cristiano Alves, Igor Carvalho, Tiago Teixeira, Thiago Tavares - clarinetas

Francisco Mignone - Valsa Improvisada

Francisco Mignone - Valsa-Choro  Tiago Teixeira, clarone

Sergio Roberto de Oliveira - Brasileiro

Miriam Grosman, piano

Ricardo Tacuchian - Le Tombeau de Aleijadinho

Ingrid Barancoski, piano

Edmundo Villani-Côrtes - Luz

Jayoleno dos Santos - Sonata

Cristiano Alves, clarineta
Tamara Ujakova, piano

Raul do Valle - Sapucaia

Thiago Vieira, trompete

Alexandre Schubert - Outono
Thiago Vieira, flugelhorn
 Thalyson Rodrigues, piano

Didier Marc Garin - Da Caccia X
Pedro Bittencourt - sax-alto; Mariana Salles - viola; 

Liduino Pitombeira - Japan (Full Moon)

Ricardo Tacuchian - Suite das Águas (Da chuva)

Nestor de Holanda - Sábio em Sol (4o movimento)

 T'Rio

Cristiano Alves - clarineta; Fernando Thebaldi, viola; Yuka Shimizu - piano

Sergio Roberto de Oliveira - Na Boca do Cão (A menina movida a vida)

    Gabriela Geluda, soprano
    Cristiano Alves, clarineta
    Ricardo Santoro, violoncelo
    Leo Sousa, percussão

29/07, domingo – A música de Sergio Roberto de Oliveira

Local: Sala Municipal Baden Powell

Endereço: Av. N. Sra. de Copacabana, 360

Ingressos: R$ 20,00/ R$10,00

* A renda será revertida para uma instituição de tratamento ao câncer

Horário: 15 horas

Tel: 2547-9147

Classificação indicativa: Livre

Lotação: 500 lugares

Programa

Luis Carlos Barbieri, violão                        

Umas Coisas do Coração                                                                                                                                                              
Duo Santoro, violoncelos

Aos Santos Oro                                 

Duo Marco Lima, violão e                                      
Canção do Dia de Sempre    

Doriana Mendes, soprano                                        
A Canção que não foi escrita                                                                               
(sobre poemas de Mário Quintana)              

 Miriam Grosman, piano                                          
 Brasileiro       

Gabriela Geluda, soprano
A Menina Movida a Vida     

Cristiano Alves, clarineta
(da Ópera “Na Boca do Cão”)

Ricardo Santoro, violoncelo
Leo Sousa, vibrafone
                                  







segunda-feira, 16 de julho de 2018

Covardia


Ontem, domingo, eu postei uma divulgação do meu programa Torpedos de Itaipu, que vai ao ar na Rádio Oceânica FM, www.oceanicafm.radio.br.

Como a Janis Joplin abriu o programa e mais uma vez comovido com o maravilhoso documentário “Janis Joplin: Little Girl Blue”, de Amy J. Berg, que assisti de novo na Netflix, postei uma foto dela no Facebook de topless numa praia do Rio. Foto super manjada, clicada quando ela veio para cá no carnaval de 1970 fugindo do vício da heroína. No Brasil não havia essa droga fatal que acabou matando a cantora em outubro.

Em menos de cinco minutos recebi um comunicado do Facebook dizendo que além da postagem ter sido arrancada do ar por ferir o decoro deles, fui suspenso por três dias. Não posso postar nada até que a penitência chegue ao fim, uma condenação sem defesa, sem perguntas, sem questionamentos, unilateral, covarde, escroque. Se tivessem feito uma advertência teria trocado a foto já que os usuários de uma rede social devem seguir os seus regulamentos. Mas, não. Imediatamente fui degolado.

Esse fato ocorre numa fase em que não suporto mais a covardia, a manipulação de sentimentos, jogos de interesse, afeto utilitário, ostentação, temas que jamais tratei naquela rede social porque não interessa a ninguém. Aliás, tenho piedade dos comuns que acham que a suas vidas interessam ao público, sendo um comum e não um poderoso.

Como não tive a chance de comunicar que estou suspenso do Facebook no Facebook, informo aqui pela Coluna que, felizmente, tem leitores muito bacanas, sensíveis, bem informados.

Baixa taxa de hipocrisia.



sábado, 14 de julho de 2018

Memórias do "sexto Beatle"

                                                                           
Geoff Emerick é um inglês de 72 anos. Aos 16 anos, começou a trabalhar como assistente de engenharia de som nos estúdios Abbey Road e, ao lado de George Martin, o quinto Beatle, ele gravou a banda do parto até a pá de cal. Em “Revolver” passou a braço direito de Martin como engenheiro de som e foi promovido a sexto Beatle.

Seu despretensioso livro “Here, There and Everywhere – Minha vida gravando os Beatles”, lançado recentemente no Brasil, é um valioso testemunho de um homem que trabalhou em todas as gravações da maior banda da história do rock e viu e ouviu de tudo.

Com o fim do grupo, em 1970, ele fez a engenharia de som para álbuns antológicos como “Band of the Run”, do Wings (gravações na caótica, árida e infernalmente quente Lagos, na Nigéria, foram impressionantes), mas trabalhou também com Elvis CostelloSupertramp, Bad Finger, Cheap TrickNazarethChris BellSplit EnzTrevor RabinNick HeywardBig CountryGentle GiantMahavishnu OrchestraUltravoxMatthew FisherKate Bush, Jeff Beck e outros.

Lógico que os pesquisadores de Beatles e beatlemaníacos em geral já sabem de tudo, mas Geoff conta, por exemplo, que os Beatles tinham nojo, ódio, horror dos cultuados estúdios Abbey Road, segundo ele gigantescos caixotes com luz industrial, cheios de mofo, desconfortáveis, tecnicamente ultrapassados e de um baixo astral generalizado. Sua dona, a EMI, era um paquiderme muito parecido com as empresas estatais brasileiras. Cheia de regras, normas, regulamentos, mas andava se arrastando. O ódio dos Beatles foi tanto que sempre que podiam eles iam gravar no Trident ou no Olympic. O autor do livro diz que Abbey Road simboliza a pancadaria entre os quatro Beatles.

Por exemplo, o álbum “Abbey Road” ia se chamar “Everest”, mas o custo de levar a banda até o monte para fazer as fotos de capa e divulgação tornou o nome inviável. Foi quando Ringo Starr sugeriu algo do tipo “bota o nome disso aqui mesmo”, e nasceu o título Abbey Road. A sessão de fotos para a capa, ícone da cultura pop, durou 20 minutos. Como os músicos mal se falavam (Paul e George estavam a beira da porradaria) fizeram a foto ali mesmo, na rua. O fotógrafo Ian Macmillan foi chamado e eles saíram de repente num dia de sol. Muito simples, nada planejado.

Desde as primeiras gravações a relação entre Paul e George não era boa. Geoff narra que o guitarrista não sabia tocar direito e, por isso, Paul o substituiu em vários momentos. George ficou tão infeliz que passou a ser o último a chegar e primeiro a ir embora das gravações. Ele praticamente não participou de “Sgt. Pepper”. A tal ponto que quando John, Paul e Ringo terminaram a exaustiva gravação de “A Day in the Life”, no dia seguinte Lennon disse para Harrison “parabéns, George. Você perdeu a gravação de nossa melhor música”. O autor do livro diz que George viu nos instrumentos indianos uma fuga, uma forma de esconder sua condição de músico menor, mas reconhece que a partir do “Álbum Branco” ele amadureceu, evoluiu e se tornou um dos grandes guitarristas do mundo.

Por falar em “Album Branco”, o que não falta é bizarrice. Para não se verem, os Beatles gravaram em três estúdios da Abbey Road, cada um em um. Ringo ficava alternando. Poucas semanas antes, John e Yoko sofreram um grave acidente de carro na Escócia e quando chegou, o casal quis colocar a carcaça do carro destruído em frente a sua casa como uma escultura.

Geoff Emerick lembra que numa tarde, vários homens de macacão apareceram no estúdio um, onde os Beatles gravavam o “Álbum Branco”. Ninguém entendeu quando os homens transportaram um grande objeto embrulhado que acharam ser um piano. No uniforme deles constava a logomarca da 'Harrods', uma das maiores lojas de departamento do mundo onde se encontra de tudo, de picanha fatiada a calota de Kombi. Os homens desembrulharam uma...cama. Cama para Yoko Ono repousar por causa do acidente, colocada no estúdio. Como não desgrudava de John (Geoff conta que iam até ao banheiro juntos), ela recebia amigos de um lado enquanto os Beatles tentavam gravar do outro. O tormento Yoko Ono tem dezenas de episódios inacreditáveis.

Lennon estava viciado em heroína no “Álbum Branco”. Tanto que depois da gravação foi se tratar e durante o tratamento compôs “Cold Turkey”, apelido das crises de abstinência sem a heroína:

“(...) A febre é alta
Não consigo ver nenhum futuro
Não consigo ver nenhum céu
(...) Eu queria estar morto
(...) Meu corpo está doendo
(...) Não consigo ver corpo algum
(...) Me deixe em paz
(...) Meus olhos estão abertos
(...) Não consigo dormir
(...) Trinta e seis horas
Rolando de dor
Rezando para alguém
Me liberte novamente
(...) Oh, eu serei um bom garoto
Por favor, me faça bem
Prometo-lhe qualquer coisa
Me tire deste inferno

No meio das gravações do “Álbum Branco”, diante de tanto azedume, baixarias e falta de respeito entre os Beatles, Geoff Emerick se demitiu do disco. O único que foi tentar demovê-lo foi John, que quase implorou, falando da importância do engenheiro para a banda desde o início, etc. George Martin também tentou argumentar, mas não adiantou. Era uma quarta-feira e ele foi pescar. Só retornou a EMI na segunda feira para trabalhar com outros artistas. Muitos meses depois para salvar “Let it Be” e gravar “Abbey Road”. De vez em quando era chamado para resolver algum problema nas gravações de “Yellow Submarine”.

“Let it Be”. A EMI contratou Glyn Johns para produzir algumas faixas, mas não gostaram e ele foi demitido. George Martin, cada vez mais acuado, cansou de tentar apagar os incêndios. Foram gravar no estúdio Trident e semanas depois, quando ouviram as gravações em Abbey Road o som estava péssimo. Um desesperado Paul McCartney caçou Geoff Emerick que disse que muita coisa teria que ser refeita. Chamaram Phil Spector que tentou, tentou mas acabou arquivando “Let it Be” numa prateleira. Partiram para a gravação de “Abbey Road”, mas já sem Lennon. Geoff voltou a engenharia de som e salvou “Let it Be”, que acabou saindo antes de Abbey Road.

O livro traz, também, muitas informações técnicas importantes, pelo menos para mim. Por exemplo, antes de começar a gravar “Revolver” Geoff Emerick ele sugeriu que Paul McCarteney substituíssem seu baixo alemão Hofner, aquele com formato de violino, por um Rickenbacker, bem mais potente. Macca adorou e passou a usar o Backer nas gravações a partir dali. Ele diz que o empenho quase neurótico de Paul McCartney e o som do Rickenbacker fizeram com que os Beatles tivessem o melhor som de baixo em gravações de discos de rock.

O jornalismo chama de fonte primária pessoas que vivenciaram fatos. A história de Geoff Emerick é importante para quem gosta, conhece e até é fanático pelos Beatles. Um livro que testemunha a intimidade da banda genial que ajudou a mudar a história do Século 20.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Por que não dissolver o Congresso Nacional?

O congresso nacional brasileiro não pode ser dissolvido porque a Constituição e o regime presidencialista não permitem. Em vários países desenvolvidos, quando o parlamento se corrompe, desagrada, joga contra os interesses da democracia, ele é dissolvido e outro é eleito em seu lugar.

Muitos políticos brasileiros se arrepiam com a ideia porque mantém o chamado estado democrático de direito como refém, uma princesa frágil que eles inventaram e que vive em uma redoma de corrupção no alto de um castelo de mordomias.

Essa semana soubemos que esse congresso, para cuidar de si mesmo, vai largar um rombo orçamentário de quase R$ 300 bilhões para o próximo governo. Querem que se dane o país, querem que nós, povo, nos lixemos. O negócio de muitos deles é praticar cada vez mais ilícitos, enriquecer e, no máximo, pegar uma pena de prisão domiciliar sem perda do mandato.

Nas últimas 48 horas, mais uma rasteira dos deputados. Vamos a notícia:

“Deputados aprovaram mudanças que reabriram a possibilidade de indicações políticas para cargos de direção nas empresas estatais.

Em 2016, deputados e senadores aprovaram a Lei de Responsabilidade das Estatais. Na época, uma resposta às denúncias de corrupção envolvendo empresas controladas pelo governo, como a Petrobrás. Um passo importante para profissionalizar a administração pública.

Na quarta-feira (11), deputados da comissão especial aprovaram mudanças na lei que são vistas como um retrocesso na caminhada para acabar com o apadrinhamento político nas estatais.

O texto volta a permitir que ocupantes de cargos em partidos políticos ou em campanhas eleitorais nos últimos três anos sejam indicados para as estatais. Volta a permitir também que parentes até terceiro grau de dirigentes de partidos, deputados, senadores, vereadores, ministros, secretários de estado e outras autoridades ocupem cargos nas empresas públicas.

O deputado José Carlos Araújo, do PR, que propôs a mudança, disse que a lei é muito rígida: “Contém critérios excessivamente restritivos para identificação e composição do conselho de administração e diretorias de empresas públicas e sociedade de economia mista e suas subsidiárias. O que não se apresenta razoável”, disse.
Como a votação foi terminativa, o projeto vai direto para o Senado. Só será votado no plenário da Câmara se houver um recurso.

Especialista em administração pública, o professor José Matias-Pereira, da UnB, disse a mudança para beneficiar políticos reduz a eficiência das estatais. “Se na hora de fazer as indicações, o privilégio não é o mérito e passa a ser o privilégio político, nós sabemos que essas empresas estão fadadas ao fracasso. E quando nós falamos que essas empresas estão fadadas ao fracasso, estamos falando de empresas que não vão cumprir o seu papel, que vão dar enormes prejuízos que o cidadão comum, lá na ponta, vai pagar através da contribuição dos seus impostos. Então, isso é algo que não se pode permitir”, afirmou.”

Um levantamento divulgado pela Ong Contas Abertas aponta que o orçamento do Congresso Nacional para o ano de 2018 chega a R$ 10,5 bilhões. Valor usado para manutenção dos 513 deputados federais e 81 senadores.

A Câmara dos Deputados tem um orçamento maior, de R$ 6,1 bilhões, que irá custear as despesas com os 513 parlamentares e mais 3.344 servidores ocupantes de cargos efetivos (concursados) e 12.456 servidores ocupantes de cargos em comissão (nomeados por autoridade competente, sem a necessidade de concurso público).

Então é isso.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Um mergulho interior do Papa Francisco


"Você pode ter defeitos, ser ansioso, e viver alguma vez irritado, mas não esqueça que a sua vida é a maior empresa do mundo. Só você pode impedir que ela vá em declínio. Muitos lhe apreciam, lhe admiram e o amam.

Gostaria que lembrasse que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, uma estrada sem acidentes, trabalho sem cansaço, relações sem decepções. Ser feliz é achar a força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor na discórdia. Ser feliz não é só apreciar o sorriso, mas também refletir sobre a tristeza. Não é só celebrar os sucessos, mas aprender lições dos fracassos. Não é só sentir-se feliz com os aplausos, mas ser feliz no anonimato. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões, períodos de crise.

Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista para aqueles que conseguem viajar para dentro de si mesmos. Ser feliz é parar de sentir-se vítima dos problemas e se tornar autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas conseguir achar um oásis no fundo da nossa alma. É agradecer a Deus por cada manhã, pelo milagre da vida. Ser feliz, não é ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si. É ter coragem de ouvir um "não". É sentir-se seguro ao receber uma crítica, mesmo que injusta. É beijar os filhos, mimar os pais, viver momentos poéticos com os amigos, mesmo quando nos magoam.

Ser feliz é deixar viver a criatura que vive em cada um de nós, livre, alegre e simples. É ter maturidade para poder dizer: "errei". É ter a coragem de pedir perdão. É ter a sensibilidade para dizer: "eu preciso de você". É ter a capacidade de dizer: "te amo". Que a tua vida se torne um jardim de oportunidades para ser feliz... Que nas suas primaveras sejas amante da alegria. Que nos seus invernos sejas amante da sabedoria. E que quando errar, recomece tudo do início. Pois somente assim será apaixonado pela vida. Descobrirá que ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Utilizar as perdas para treinar a paciência. Usar os erros para esculpir a serenidade. Utilizar a dor para lapidar o prazer. Utilizar os obstáculos para abrir janelas de inteligência. 

Nunca desista....Nunca  renuncie às pessoas que lhe amam. Nunca renuncie à felicidade, pois a vida é um espetáculo incrível".

Papa Francisco


terça-feira, 10 de julho de 2018

Pau de enchente

Bruce era um pau de enchente, rolando pela vida, batendo numa margem e na outra, afundando e flutuando como um caule de eucalipto no leito de um rio caudaloso. PhD em filosofia achava que o homem era uma flecha arremessada no universo, sujeito a rotas, desvios, vitórias e fracassos, ao sabor do destino. Bruce não agendava nada. Não programava, não projetava, não arquitetava, apenas vivia. Como um pau de enchente.

Seu nome fora inspirado em Bruce Wayne. O pai passou boa parte da adolescência assistindo Batman & Robin na TV e lia tudo sobre o homem morcego. Tinha álbuns, posters, figurinhas e até uma fantasia de Batman que adoraria usar todos os dias mas, diante do provável ridículo, vestia apenas no carnaval. Na época dizia que se tivesse um filho ele se chamaria Batman. Tornou-se um respeitado e famoso jurista e por isso batizou o filho de Bruce. Batman não seria de bom tom.

Bruce era considerado um gênio, mas diante do espelho se achava um fiasco. Aos 20 e poucos anos leu uma biografia dos Beatles e fixou-se em Yoko Ono, exatamente por ter sido ela, a seu ver, “o tiro do imponderável asfixiando o quarteto inglês”. Bruce adorava o imponderável e gostava de acreditar que Yoko acabou com os Beatles, apesar de, no íntimo, achar uma balela.

Por causa de Yoko Ono ficou dois anos procurando uma japonesa para namorar. Por causa de Yoko Ono achou, numa ida ao bairro da Liberdade, em São Paulo, onde numa casa de massagem erótica conheceu a sansei Íris, conhecida como Lígia, mas que como massagista usava o nome da viúva de John Lennon. Era parecida com Ono, muito parecida. Digamos que ficava na contramão do gosto comum, uma mulher exótica, misto de dominatrix, kamikaze e último samurai. Bruce se apaixonou. E ela por ele.

Numa tarde quente de quarta-feira ela perguntou se Bruce desejava que ela largasse a profissão. Bruce disse que não, acreditava que o verdadeiro amor está muito além e acima de 15 homens por dia numa cabine de lambris. “Se um dia você deixar de me amar e ao invés de me falar começar a dar sinais de You've Lost That Loving Feeling, vou ficar magoado, arrasado, triste”, ele disse.

- Prometo que caso aconteça falarei.
- Se não falar saberei, Íris. 

Deixou São Paulo e quando o avião taxiava a pista para decolar para o Rio, Bruce achou que não conseguiria suportar o mutismo afetivo de Íris. Uma vez lhe disseram que as orientais sentem caladas, mas ele tinha certeza que não. Durante a curta viagem concluiu que deveria libertar o pau de enchente que habita todos nós. Deixa chover, deixa rolar, o que vier está bom, o destino é soberano, etc etc, etc, como antes.

Como sempre Íris não fez contato. Um, dois, três dias. Bruce já estava habituado a ausência dela, mas até então padecia. Exclusão, rejeição, zero a esquerda. Mas, reincorporado pelo pau de enchente não só deixou rolar como rolou junto. Rolou, rolou, rolou até o outro fim de semana quando amigos o chamaram para fazer uma trilha de jipe de dois dias na região da cachoeira de Conde Deu, em Sumidouro, RJ. Trilha leve. O amigo de Bruce passou em frente ao prédio dele, na Gávea (RJ), exatamente as cinco e meia da manhã. Encontraram com outros 34 jipeiros na estrada e foram em frente. Muita diversão e gargalhadas. Leveza. Na trilha, Bruce pilotou metade do tempo, lamaçais profundos, riachos.

Na segunda-feira, viagem a trabalho. Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre. Habitou-se tanto ao mutismo de Íris que acabou esquecendo. Dela e deles dois. Dois meses depois, nem sombra, nem cheiro, nem a mais rasa lembrança.

Sumiram.

domingo, 8 de julho de 2018

Internet e a nova era do rádio


O carioca Ruy Jobim é um brilhante radialista, profundo estudioso do rádio e diretor geral da Escola de Rádio, referências na formação de novos profissionais. Para conhecer é só acessar https://www.escoladeradio.com.br/ .

Ruy e eu conversamos sobre o poder do novo rádio, chamado de webradio, que poderia estar substituindo as transmissões convencionais, especialmente em FM. Afinal, o rádio em AM reinou absoluto até os anos 1970, quando foi ceifado pelas FMs, com qualidade de som infinitamente melhor, novas gerações de programadores locutores e jornalistas.

No entanto, no Brasil as FMs pararam no tempo, por um lado tocam sucessos banais repetidamente de outro seguem o modelo “vitrolão”, descoberto pela Tamoio AM nos anos 1950. As FMs buscaram o comodismo, não investem no novo, optando pelo produto pronto, pasteurizado e muitas vezes de péssimo gosto.

Vamos ao papo com o Ruy Jobim.

- O avanço das rádios na internet no Brasil é um fato? Há dados objetivos a respeito desse crescimento?

R: Sim, é realidade. Precisamos de mais informações a respeito e alguma política para regulamentar. Ainda é uma área sem lei e as poucas rádios existentes esbarram no fato de curiosos e apaixonados estarem transmitindo apenas músicas de dentro de casa sem estrutura necessária para uma rádio ao vivo.

- Você acha que as webradios já ameaçam as FMs?

R: Tenho certeza que não. Ainda não chegamos a tanto. Sou consumidor assíduo de pesquisas a respeito de internet e fica claro que o melhor da web ainda esta por vir. Quanto às rádios web eu torço pelo crescimento e até por esta ameaça, porém ainda temos amadores e um streaming caro e nada confiável no país. Quando a coisa for mais profissional vamos passar a depender do artístico que precisa segmentar para sobreviver. Nada supera o conteúdo. Nada. Sempre será assim. No inicio da década de 80 a Fluminense FM conquistou incrível audiência por conta do conteúdo. A potência da emissora era fraca, mas era a única a transmitir uma programação diferenciada para a época.

- É possível saber, por alto, quantas webradios existem no Brasil?
R: Se alguém tiver esta resposta me diga. São números exponenciais. Na minha modesta opinião é isso que faz este estudo interessante. Quantas radiosweb são criadas por dia? Impossível saber. A pergunta seria "quantas realmente querem sobreviver?". Para vencer a barreira do amadorismo é preciso investimento em conteúdo e pessoal. As melhores ficarão.

- Existe uma estimativa de audiência de webradios no Brasil?  Os smartphones são os dispositivos mais usados?

R: Não temos essa informação do Ibope. A Crowley que afere as emissoras quanto a execução de músicas e comerciais também não. Marcelo Cabral que trabalha na instituição diz que é quase impossível saber.
Os smartphones fazem tudo, mas na minha percepção a audiência se volta para aqueles que estão trabalhando na web e ouvindo sua trilha sonora preferida em desktops ou notebooks. Os tempos mudaram e isso não é ruim. Apenas mudaram. Não há como comparar.

-  Quais as webradios do Estado do Rio que você destaca? Qual o perfil das programações?

R: Sou incapaz de citar uma ou outra. São muitas as opções. Comparo a um restaurante self service. Muita opção deixa você sem saber o que consumir. Ouço muito a Radiovitrola.net. Percebe-se que existe alma na produção e não algoritmos alienados colocando as músicas em sequência. Já recebeu alguns prêmios e foi indicada para outros. O perfil é para ouvintes com mais de 30 anos. Aquela música que não toca há anos no meio da programação está sempre me pegando de surpresa.

- Qual o perfil dos ouvintes? São os mais jovens, não há idade definida? Classe média ou as classes C e D também estão online?

R: Hoje são principalmente ouvintes das classes A e B que tem acesso as conexões mais potentes e que buscam outro tipo de conteúdo. Importante lembrar que diferente do rádio convencional as webradios falam com todo o Brasil e o mundo, o que as torna potencialmente fortes quando se pensa em abrangência de ouvintes.

- Por que a maioria das webradios não tem anúncios? Por isso muitas acabam deixando de existir.

R: Porque elas ainda não tem um modelo de negócio bem definido e tem dificuldades de apresentar números concretos para ajudar um anunciante a investir em  webradio, mas isso começará a mudar a medida que esse mesmo mercado perceba que as webradios são extremamente segmentadas e falam para todo o país.

- Os automóveis "consomem" muito a mídia rádio. Por que raramente vemos um motorista ouvindo webradio? É complicado?

R: Sim, é complicado por conta da questão do custo do serviço de internet cobrado pelas operadoras. Espero que os pacotes de dados fiquem mas baratos, assim poderá haver mudança nesse quadro.  Uma web rádio não "sai do ar" dentro de um túnel
como na rádio convencional. Isso pode fazer a diferença em uma cidade como o Rio de Janeiro.

- Ruy, o espaço é livre para fazer as chamadas "considerações finais", aspectos que não abordei.

R: Vejo as webradios como mais uma oportunidade de mercado para o rádio, possibilitando a criação de novas opções, mais segmentação, atendendo a públicos variados em potencial. O rádio convencional não acaba e sim ganha uma nova vertente que possibilita o infinito, criando uma nova linguagem ao falar com o Brasil e o mundo.

Escola de Rádio

A ER nasceu em 1994.

Muitos profissionais entraram no mercado de comunicação com nossa genética.
Antes era o rádio e o som. Hoje são as novas mídias em multitelas. Da paixão pelo rádio e pela comunicação surge a paixão por esse mundo plural e conectado. Surge a ER +
Por que agora o + em nossa marca?
O mais é plural, adiciona o vídeo, as lentes, a tecnologia que adiciona possibilidades na formação do comunicador.
Soma a edição de imagens, o cuidado com o texto, a opinião do comunicador, as redes sociais, somam também o marketing e o smartphone. Pense mais.

Nosso slogan: “o mercado de trabalho começa aqui”, se traduz através da prática com profissionais competentes que estão nas salas de aula, na sala virtual, na hora do café, nos corredores da ER+, em nossos estúdios de TV e nas ideias que somam. Somos também um produtora audiovisual.

Em 2013 nos tornamos Curso Técnico de Nível Médio que garante o registro profissional na antiga DRT (Delegacia Regional do Trabalho) atual SRTR (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego).

RUY JOBIM

“Nasci em maio de 1964 durante a revolução e desde muito cedo descobri o rádio como companheiro. Aos 7 anos imitava os comunicadores da Rádio Globo do Rio de Janeiro. Enquanto me preparava para a carreira militar, desejo de família, escondia o fone de ouvido nas aulas de física e matemática no Curso Tamandaré pré militar. Nessa época o sucesso eram as rádios Mundial e Tamoio. Todas em AM.
Em 1977 entrei em um estúdio de rádio pela primeira vez. Era a Rádio Cidade com Eládio Sandoval no estúdio em uma tarde quente no Rio. A turma da Cidade mudou o FM para sempre e mudaria também a vida do menino tímido de Copacabana. Em casa treinava leitura, operação e analisava o desempenho gravando minha voz. Tive como professora e fonoaudióloga a Dra Carolina Freitas, recomendada por meu amigo Fernando Mansur, na época locutor da Rádio Cidade FM.

Em 1983 quando recebi o certificado de conclusão do curso de locução ministrado por Hélio Tys e Guilherme de Souza, ambos da Rádio Globo, fui aprovado no teste da Rádio Roquette Pinto AM. Convidado para a Rádio Estácio, permaneci por poucos seis meses até aceitar o convite da Rádio Imprensa para ser o folguista da emissora. Era o locutor das madrugadas. Já estávamos em 1984 quando fui chamado para ser titular da Rádio Transamérica. Fui locutor, produtor, redator e coordenador da emissora até sair em 1990 quando me juntei à equipe de Eduardo Andrews no projeto da Rádio RPC FM. Era o locutor das manhãs.

Em 1992 fui para a Rádio Universidade FM (antiga Estácio FM) onde além de locutor, era também diretor da emissora e professor do curso de locução da Faculdade Estácio de Sá. Com a ideia de continuar o curso nasceu a Escola de Rádio em Botafogo com objetivo de formar profissionais para Rádio e TV.

Em 2004 inauguramos a Escola de Rádio no Largo do Machado. Com a facilidade da internet colocamos no ar a rádio web para ser campo de treinamento dos alunos que dirige. Em janeiro de 2012 realizei o sonho de ter mais espaço para os alunos mudando para um amplo espaço na rua Pedro Américo 147, no Catete.

Em 2004 fui convidado para a Rádio Paradiso FM inaugurando o projeto pioneiro de estúdios em shopping (FM Hall Rio Sul). Antes, em 1997 entrei no Sistema Globo de Rádio onde foi locutor da Globo FM e das edições da tarde do noticiário em rede nacional “O Globo no Ar” da Globo AM, saindo em julho de 2007.

Em 2009 realizamos a primeira edição do Prêmio Escola de Rádio com o produtor Paulo Lopez. O sucesso da votação levou 260 mil internautas ao site e mais de 600 radialistas ao Teatro Carlos Gomes.

Em Outubro de 2014 lancei meu primeiro livro “O Rádio era tão Romântico – As mudanças que o tempo trouxe”. Hoje me dedico ao mercado publicitário, palestras sobre o comportamento do rádio moderno e a direção da Escola de Rádio.

Em 2013 a Escola de Rádio recebeu o certificado do MEC - Secretaria de Educação (SEE) para tornar nossos cursos profissionalizantes (técnico de nível médio). Os alunos agora recebem o registro profissional no Ministério do Trabalho

Em 2017 com a explosão dos aplicativos e o novo marketing digital colocamos as ferramentas em uso. Esse trabalho nos ampliou nossa visão de mercado ao ponto de fazer uma mudança significativa na escola de Rádio. Nos tornamos ER+.

Por que agora o + em nossa marca?
O mais é plural, adiciona o vídeo, as lentes, a tecnologia que adiciona possibilidades na formação do comunicador. Soma a edição de imagens, o cuidado com o texto, a opinião do comunicador, as redes sociais, somam também o marketing e o smartphone.