terça-feira, 10 de julho de 2018

Pau de enchente

Bruce era um pau de enchente, rolando pela vida, batendo numa margem e na outra, afundando e flutuando como um caule de eucalipto no leito de um rio caudaloso. PhD em filosofia achava que o homem era uma flecha arremessada no universo, sujeito a rotas, desvios, vitórias e fracassos, ao sabor do destino. Bruce não agendava nada. Não programava, não projetava, não arquitetava, apenas vivia. Como um pau de enchente.

Seu nome fora inspirado em Bruce Wayne. O pai passou boa parte da adolescência assistindo Batman & Robin na TV e lia tudo sobre o homem morcego. Tinha álbuns, posters, figurinhas e até uma fantasia de Batman que adoraria usar todos os dias mas, diante do provável ridículo, vestia apenas no carnaval. Na época dizia que se tivesse um filho ele se chamaria Batman. Tornou-se um respeitado e famoso jurista e por isso batizou o filho de Bruce. Batman não seria de bom tom.

Bruce era considerado um gênio, mas diante do espelho se achava um fiasco. Aos 20 e poucos anos leu uma biografia dos Beatles e fixou-se em Yoko Ono, exatamente por ter sido ela, a seu ver, “o tiro do imponderável asfixiando o quarteto inglês”. Bruce adorava o imponderável e gostava de acreditar que Yoko acabou com os Beatles, apesar de, no íntimo, achar uma balela.

Por causa de Yoko Ono ficou dois anos procurando uma japonesa para namorar. Por causa de Yoko Ono achou, numa ida ao bairro da Liberdade, em São Paulo, onde numa casa de massagem erótica conheceu a sansei Íris, conhecida como Lígia, mas que como massagista usava o nome da viúva de John Lennon. Era parecida com Ono, muito parecida. Digamos que ficava na contramão do gosto comum, uma mulher exótica, misto de dominatrix, kamikaze e último samurai. Bruce se apaixonou. E ela por ele.

Numa tarde quente de quarta-feira ela perguntou se Bruce desejava que ela largasse a profissão. Bruce disse que não, acreditava que o verdadeiro amor está muito além e acima de 15 homens por dia numa cabine de lambris. “Se um dia você deixar de me amar e ao invés de me falar começar a dar sinais de You've Lost That Loving Feeling, vou ficar magoado, arrasado, triste”, ele disse.

- Prometo que caso aconteça falarei.
- Se não falar saberei, Íris. 

Deixou São Paulo e quando o avião taxiava a pista para decolar para o Rio, Bruce achou que não conseguiria suportar o mutismo afetivo de Íris. Uma vez lhe disseram que as orientais sentem caladas, mas ele tinha certeza que não. Durante a curta viagem concluiu que deveria libertar o pau de enchente que habita todos nós. Deixa chover, deixa rolar, o que vier está bom, o destino é soberano, etc etc, etc, como antes.

Como sempre Íris não fez contato. Um, dois, três dias. Bruce já estava habituado a ausência dela, mas até então padecia. Exclusão, rejeição, zero a esquerda. Mas, reincorporado pelo pau de enchente não só deixou rolar como rolou junto. Rolou, rolou, rolou até o outro fim de semana quando amigos o chamaram para fazer uma trilha de jipe de dois dias na região da cachoeira de Conde Deu, em Sumidouro, RJ. Trilha leve. O amigo de Bruce passou em frente ao prédio dele, na Gávea (RJ), exatamente as cinco e meia da manhã. Encontraram com outros 34 jipeiros na estrada e foram em frente. Muita diversão e gargalhadas. Leveza. Na trilha, Bruce pilotou metade do tempo, lamaçais profundos, riachos.

Na segunda-feira, viagem a trabalho. Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre. Habitou-se tanto ao mutismo de Íris que acabou esquecendo. Dela e deles dois. Dois meses depois, nem sombra, nem cheiro, nem a mais rasa lembrança.

Sumiram.