quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Eu confesso, Clarice


O valor do silêncio

Por Clarice Lispector

"Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. 

Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio." 

Clarice Lispector, Crônicas no 'Jornal do Brasil (1968)' 

Aqui nesta psicodélica cabana de minha crônica insignificância ouso compartilhar alguns draminhas pequenos burgueses com minha meia dúzia de quatro ou cinco leitores. Draminhas (ideal seria dramecos) que não interessam a ninguém.

Escrevo esta coluna sob o manto da mais severa, dura, moleca e (posso falar?) escrota das censuras: a autocensura. Um vulcão de cabeça para baixo que ocupa o meu âmago e entra em erupção de fora para dentro, fritando a alma imoral.

Trabalhei sob dura censura no regime militar, mas nunca fui preso, interrogado, molestado, perseguido político. Escrevi no Pasquim, no Opinião (ambos sob censura prévia) e vi os burocratas da polícia com canetas pilot riscando com azul e vermelho. Azul para matérias liberadas, vermelho para censuradas.
O Opinião pertencia ao empresário Fernando Gasparian e funcionava no Jardim Botânico. Uma vez ele foi reclamar que 90% de uma edição tinha sido censurada, inclusive a minha matéria sobre indígenas tratados como entulho na Casa do Índio, entidade assistencialista que funcionava (ou ainda funciona?) na Ilha do Governador. Em resposta ouviu um "f...da-se!".

Volta e meia o Opinião era apreendido. Com o Pasquim, a mesma coisa. Mas a minha insignificância era mais corajosa e eu ousava cuspir no olho dos meganhas tentando ir mais além. Não dava. A caneta vermelha era imperativa, degolava e fim de papo.
Eu era fichinha, estafeta das letras miúdas, "hippie de Vaz Lobo" como me chamava o grande e saudoso J.A. Xavier. Em compensação, quando liberado, escrevia sobre tudo, opinava livremente, enchia a bola, baixava o cacete.

Aqui nesta Coluna do LAM, não. Sou autocensurado do princípio ao fim. Acho que 1/1000000 do que realmente penso, acho, procuro, vejo, presumo, não publico porque posso ofender alguém, posso estar politicamente incorreto, posso não estar sendo de bom tom, posso....posso... não  posso nada.
Nem escrever sobre o nada consegui porque o nada é um conceito subjetivo tão amplo que, muitas vezes, atende a porradas e beijos com língua, simultaneamente. Algo como...como...como...



terça-feira, 28 de agosto de 2018

Overdose de informação


Tempos atrás assisti uma entrevista de Zuenir Ventura e Luiz Fernando Veríssimo no programa do Roberto D’Ávila, na Globonews. Os três concordaram que estamos vivendo uma overdose de informação que, segundo Zuenir, pode estar causando a sensação de déficit de atenção. Os três concordaram que por causa do imenso volume de informações acabam sem entender boa parte delas. Exaustão.

Sim, estou tendo déficit de atenção e, pelo que ouço, vejo e leio não estou sozinho. Percebo que somente na semana que passou pelo menos oito novos aplicativos foram atualizados ou lançados e, para não me desatualizar, estudei cada um deles depois que instalei. Ah, sim, minha câmera digital informa que tenho que atualizar o software de exportação de fotos.

Não tenho saco para pescaria, mas na Via Litorânea, que liga o Gragoatá à Boa Viagem, em Niterói, as pessoas pescam dia e noite. Pesca de caniço, isca, anzol. Eles param seus carros de frente (em geral esses carros tem adesivo com os dizeres do tipo “Estressou? Vá pescar”) e ficam horas e mais horas pescando. Eu adoraria ter saco para comprar um caniço, os anzóis, isca, pegar aquela tralha e ficar me cortando todo com faca mal amolada tentando pescar. Ia acabar tendo um ataque de ansiedade porque, definitivamente, os trabalhos manuais estão longe de meu menu de funcionamento.

Um amigo garante que a maioria dos pescadores de caniço usa a atividade como desculpa para sair de casa e ficar algumas horas descansando, contemplando o mar. Botam a isca no anzol, arremessam e ficam olhando para o horizonte, repousando, descansando sem ter que dar satisfações a ninguém porque, afinal de contas, não são loucos olhando para o nada e sim pescadores, entre aspas.

E vocês? Também estão sentindo essa overdose de informações? Em tudo, até em chave de hotel que agora é biométrica. Aí você começa a se habituar e inventam outro sistema. Música. Uso o programa Soul Seek para baixar, mas na hora de ouvir não tolero aquelas mini carrapetas que as pessoas enterram nos ouvidos. Estou para comprar um headphone confortável e ridículo, igual aos de jogadores de futebol metrossexuais mas...estou cansado. Quando sobra tempo eu tento me distrair.

Prometo a mim mesmo que não vou mais tentar aprender muita coisa, só o fundamental. Descansar a cabeça, como a garoupa suada do Erasmo Carlos.

Vamos ver se vai dar certo.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Chuva


Senti suas gotas roçarem a janela, temperatura de 22 graus. Chuva. Saí para pensar, pensar, pensar. Pensar em soluções, saídas, ou na possibilidade de não haver solução nenhuma diante de problemas amplificados pela aflição. 

Um bentevi bebia água numa pequena poça sob a amendoeira, resolvendo sua aflição imediata de maneira simples. Quer dizer, simples para quem assiste. Grande vitória para o bentevi voar vivo, pousar vivo numa árvore próxima, saltar vivo para os fios de um poste, pousar vivo na poça. Vivo, beber a água num ambiente hostil. 

Chuva, quase frio, calma que parece reinar na cidade, protegida da falsa e histérica euforia do verão e seus moedores de carne midiáticos.

Caminhei pelo bairro que, raro, estava sereno e vazio. Sem guarda chuva, senti a quase garoa cair sobre a cidade, repousando. Poucos carros, ônibus, ciclistas, pessoas nas calçadas; os bares relativamente vazios com uma meia dúzia bebendo cerveja e assistindo futebol na TV. Calma. 

É esse o dom do inverno. Calma. Calma e beleza porque a luz dos dias de inverno é belíssima.

Voltei a pensar, pensar, pensar. Pensar em soluções, saídas, ou na possibilidade de não haver solução nenhuma diante de problemas amplificados pela aflição de quem procura viver intensamente.

Seguir caminhado, por dentro do inverno.


terça-feira, 21 de agosto de 2018

Em algum lugar do passado

                                                    Óleo sobre tela. David Bowie.
Ontem, umas 11 da noite, um amigo ligou de um bar e passou o telefone para um amigo dele, que não conheço. Esse amigo falou que tivemos um amigo comum e quando me disse que era o Carlos fiquei muito emocionado.

Com a voz embargada, autêntica emoção, ele contou histórias, lances, relances, lembranças do Carlos, nosso amigo comum, que infelizmente morreu nos anos 1990. Uma das perdas mais sentidas que tivemos porque ele era muito especial, extremamente bom caráter, solidário, generoso, enfim, todas as qualidades não caberiam nesse relato. Uma vez eu disse que ele era um E.T., não pertencia a esse mundo, Carlos caiu na gargalhada.

O amigo do meu amigo, no bar, falou que muitas vezes o procurava para desabafar, falar da vida, das vitórias e não vitórias, celebrações e angústias. Eu disse a ele que também fazia isso, sem o menor constrangimento. Falamos do Carlos, dos seus irmãos e irmãs, da casa da mãe dele lá pelos lados de Friburgo e em menos de cinco 5 minutos já me próximo do desconhecido.

Desliguei o telefone e umas imagens surgiram rápido, especialmente os rios de Macaé de Cima, São Pedro da Serra e Lumiar, perto de Friburgo. Sempre que eu ia lá na volta comentava com ele, expondo meu plano de construir uma casinha lá em cima, o que acabou não acontecendo. Delírio oitentista.

Orei pelo Carlos, sua amizade, sua passagem aqui pelo planeta e sua abençoada presença na vida dos privilegiados que puderam conviver com a sua essência.


domingo, 19 de agosto de 2018

450.000


Há poucos dias esta Coluna atingiu 450 mil acessos. Média de 90 mil por ano, acho, porque a minha matemática sempre foi preguiçosa, torpe e não confiável. Fez bem a minha auto estima que vive uma fase de eclipse severo mas que, com certeza, irá passar. Ou passa o eclipse ou passo eu. Não importa.

Claro que 450 mil acessos não significam 450 mil pessoas já que muitas, felizmente, acessam a coluna várias vezes e, acho que o blogspot (plataforma do Google que utilizo) contabiliza todo mundo. Resumindo, se uma pessoa acessa cinco vezes vai registrar cinco acessos no contador. Eu acho.

Antes de escrever este artigo, dei uma olhada em vários textos e notei que não existe um padrão que faz esse ou aquele mais lido, apesar dos temas afetivos serem líderes no contador de acessos. Por exemplo, uma reflexão bem simples que escrevi sobre o amor (há uns dois anos) é uma das recordistas, provavelmente porque, sinceramente, abri o coração e as palavras e disse o que realmente sinto e penso. Por exemplo, escrevi que acredito em amor eterno, acredito em fidelidade, acredito em projetos existenciais entre amantes, casais, namorados, enfim, acredito plenamente no poder do amor e, sobretudo, no que escreveu Caetano, em “Paula e Bebeto”, eternizada por Milton Nascimento:

Vida vida que amor brincadeira, vera
Eles amaram de qualquer maneira, vera
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor vale amar

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá

Eles partiram por outros assuntos, muitos
Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito
Qualquer maneira que eu cante esse canto
Qualquer maneira me vale cantar

Eles se amam de qualquer maneira, vera
Eles se amam e pra vida inteira, vera
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá

O que não impede de ainda me surpreender com a letra de “Amor”, de João Ricardo e João Apolinário do maravilhoso Secos & Molhados, desde 1973, quando a música chegou a bordo do álbum de estreia do S&M.

Gostaria que escrever mais sobre o afeto, mas esta Coluna, eu acho, não segue nenhum padrão. Como agora, abro o editor de textos e quando o cursor começa a piscar escrevo, rascunhando, para depois fazer o copidesque. Poucas vezes sentei no computador pensando “hoje será sobre isso”, em geral é improviso mesmo. E talvez por isso muitos leitores digam que gostam e opinam aqui embaixo nos “comentários” que, acho, consegui configurar direito hoje. Espero que sim.

Parece que a Coluna tem cinco anos, não é?

       



sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Ouvindo estrelas


A Nasa vai lançar neste sábado a sonda espacial Parker Solar Probe, que se aproximará do Sol como nenhuma outra. Ela decolará da plataforma de lançamento de Cabo Canaveral (Flórida, EUA) e viajará através da atmosfera do Sol, a "somente" 6,2 milhões de quilômetros da superfície solar, a uma distância "sete vezes mais próxima" do que qualquer outra nave. Vendo imagens da sonda e da beleza do universo, minha memória voltou lá atrás.

O cheiro do mar misturado ao do óleo dos navios arrancam minha comoção pelos poros. Cheiro de minha infância, vivida entre sabiás, coleiros e muitos navios de guerra. Muitos. Meu pai à bordo deles. Hélices misturando o aroma de maresia com óleo combustível, a prudente lentidão da vida na pequena vila e também no convés cinza chumbo da nau gigantesca.

Há uns anos, fui a praia de Itaipu a noite e, boiando, fiquei olhando para o céu, aproveitando a onda de paz interior que naquela época me invadiu. Saudade, muita saudade. Da onda e da paz interior. Avistei um satélite artificial cumprindo a sua missão, em órbita constante singrando a Via Láctea. A emoção me tomou de novo, reforçada pela trilha sonora suave das ondas pequenas e distantes, desabando na areia.

O céu, em maio, em pleno outono, com cinco anos de idade fui levado por meu pai para a praia da vila onde vivi a infância. Todas as pessoas com binóculos, lunetas e até um telescópio diziam estar avistando o Sputnik 4, satélite artificial russo.

Não entendi porque o Sputnik que vi nas fotos da revista não tinha nada a ver com aquele minúsculo ponto luminoso, menor do que todas as estrelas, do que todos os coleirinhos que cantavam no alto dos ingazeiros e que cortava rápido, bem rápido, o céu. O Sputnik das fotos não era um ponto, mas uma pequena esfera de metal. Eu vi.

Meu pai explicou. Falou da distância, da luz do sol incidindo na esfera, falou do céu, das estrelas, falou de novo dos satélites artificiais, do seu brilho fixo, oposto ao cintilar eterno das estrelas. Falou, falou, falou e recitou um poema. Olavo Bilac:

"Ora direis ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Não entendi nada sobre a incidência da luz, o tamanho do Sputnik, gravidade, força, mas ali, naquela noite de 15 de maio de 1960, meu pai me ensinou a ouvir estrelas e a perceber os aromas do mar.

E nunca mais esqueci.

Meu irmão também não.




sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O livro de Eli


O filme se chama “O livro de Eli”. É de 2010, dirigido por  Allen HughesAlbert Hughes, protagonizado pelo sempre brilhante Denzel Washington. Assisti três vezes, duas no cinema e essa semana na Netflix.

Sou cristão, acredito em Deus e sempre que vejo o filme vislumbro o poder infinito da fé. Leio um resumo: Trinta anos depois da guerra ter dizimado o mundo, um guerreiro solitário chamado Eli caminha por horizontes arruinados dando esperança aos que restaram. Um outro homem compreende o poder de um livro que Eli carrega e está determinado a se apoderar dele. Eli arriscará a vida para proteger a sua carga preciosa e cumprir o seu destino de ajudar a restaurar a humanidade.

A carga emocional do filme é vasta, mergulha nos restos insanos do planeta Terra depois do fim e apesar de estar caminhando há três décadas transportando o livro, enfrentando todas a adversidades e o que há de mais bizarro, Eli não abre mão de um passo sequer. Segue em frente, coberto por sua fé.

Não é um filme carola, ao contrário, há muitas cenas de violência justificada que cada vez mais valorizam a importância do livro de Eli, de sua determinação, sua fé, sua coragem e a certeza de que mesmo depois do fim resta uma esperança.

Vale a pena ser assistir.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Rio, uma cidade proscrita

A choradeira das empresas turísticas do Rio tem razão quando culpam a crise econômica pela baixíssima ocupação dos hotéis. Pelo menos 13 já fecharam e, por exemplo, o Copacabana Palace está com magros 38% de ocupação, de acordo com o Ancelmo Gois em sua coluna de hoje, no Globo.

Só que as imagens que são geradas do Rio hoje para o exterior envolvem matança, fuzis, guerra aberta, descontrole da segurança pública, tudo aliado a uma prefeitura nefasta que largou a cidade a baderna geral. Crivella está acabando com tudo: hospitais, escolas, organização mínima do trânsito, áreas que já foram cultuadas como o Boulevard Olímpico.

Não duvido que o setor turístico tenha sido devorado pela crise econômica, mas vejo que a guerra civil na cidade e no Estado do Rio é a principal vilã na baixa de visitantes. Afinal, quem iria passar férias em Damasco, na Síria, Iraque, Afeganistão, Paquistão, etc? Em se tratando de imagem, o Rio está no mesmo patamar já que todas as notícias de barbárie que são veiculadas em TVs daqui também são exibidas lá fora, como os ataques terroristas no Ceará, a batalha entre traficantes e milicianos no Rio, enfim, boa parte do Brasil está sob o jugo de grupos terroristas.

Mais do que da beleza, o turismo vive da segurança pública. O turista quer fotografar com segurança sem ter seu equipamento roubado, quer sair a noite sem ser depenado ou morto, quer ir e vir. O Rio se tornou inviável turisticamente falando.

A solução seria novos governantes de qualidade, mas parece que não é isso que o eleitor quer. Vide Romário, líder nas pesquisas para governador do RJ.