sábado, 22 de setembro de 2018

Lunáticos sociais

                                                    Jean-Michel Basquiat

Perdeu, Baby

Esquecem que a verdade está longe, muito longe de ser absoluta. Atribuição divina, o absolutismo é incorporado pela patética e patológica onipotência dos lunáticos sociais e sua logorreia torpe, vulgo brain damage
Perdeu, baby.

Lunáticos sociais não acreditam que aqui se faz, aqui se paga. Acham que é verborragia de adesivos de nona categoria. Mas o pior, o fatal, é o desprezo a máxima que sentencia: aqui não se faz, mas aqui se paga, sim.
Perdeu, baby.

Esquecem que o limite do egocentrismo é uma muralha de chumbo, conhecida na vala incomum como perda total. Essa malta, a dos lunáticos sociais, cruza a existência jogando gente no esgoto, arrotando as tais verdades absolutas inexistentes, como se o E.T. de Varginha fosse a incorporação do Juízo Final.
Perdeu, baby.

Ignoram que o Juízo Final é quem anota, aponta, processa cada coração, cada grito, cada lágrima desprezada pelos lunáticos sociais, à bordo de sua mixaria existencial que chuta a compaixão, cospe na condolência, ri da piedade.
Perdeu, baby.

É quando o Juízo Final age. A seu modo. E derrama de seu seio iniludível as chamas do justiçamento, grava a ferro e fogo que aqui não se faz, mas aqui se paga sim.
Perdeu, baby.

A verdade segue relativa, a vida segue relativa, o vento sopra relativo, mas o Juízo Final, impávido colosso, anota, anota, anota anota, anota, anota...
Perdeu, baby.




sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Primavera: os molambeiros estão voltando


Andando pelo centro do Rio, destruído por crivella e seus asseclas, o cheiro de mijo não só incomodava como irritava. Coisa de molambeiro, bípede que não mora onde mija, não tem educação, qualquer relação afetiva com a cidade onde está e, por isso, cospe no chão, atira lata de cerveja junto ao meio fio, enfim, essa mamífero urbano deveria ser estudado em profundidade porque, diz a minha tosca intuição, que ele pode ser o tal elo perdido entre o homem e o porco.

O molambeiro não tem sexo, cor, classe social, nível de instrução. É uma bola de sebo rolando pelas cidades, saltitando merda para todos os lados e atualmente tem como veículo preferido a motocicleta, em geral equipada com um tal de baú onde alguns carregam cachaça, cheirinho da loló, crack e outros aditivos muito comuns a espécie. Se um dia a polícia fizer seis meses de asfixia (blitz permanente) nas motocicletas, a segurança pública vai melhorar muito porque além de baderneiros, escroques sociais, paladinos da imundície, muitos são bandidolas, trabalham para o tráfico, milícia e afins. Eles difamam os bons motociclistas, que usam moto para o trabalho, lazer civilizado. Em Bogotá (Colômbia) a prefeitura proibiu, poucos meses atrás, a circulação de motos de até 200 cilindradas com garupa. A bandidagem levou um tombo. No Brasil? Nada é feito.

Molambeiros gostam de andar em bandos e contrariando normas internacionais de segurança, andam de motocicleta sem camisa, calçando chinelos de dedo, capacetes idem, cano de descarga cortado (barulho infernal) e em zigue zague entre os carros.

Em Niterói, o point da molambada na primavera/verão é a praia de Itacoatiara, onde os molambeiros encontram molambeiras com quem copulam e perpetuam a espécie. Recentemente Itacoatiara virou moda entre eles e entrou na rota da barbárie desses animais que na primavera e verão, geralmente sem documentos, invadem o bairro fazendo enorme barulho, fazem xixi em qualquer tronco de árvore e enchem de cocô e latas de energético genérico na bizarra restinga da praia que tem mais de dois metros de altura, servindo de refúgio para os meliantes. Eles já invadiram Charitas, Adão e Eva, Itaipu, Flechas, Boa Viagem.

Na praia, fumando maconha malhada, jogam futebol (altinho) na beira d’água (velhos e crianças que se danem), dão saltos mortais as gargalhadas no mar onde mais uma vez aproveitam para fazer xixi e cocô aos gritos de “hahahaha....tá dominado, rapá....hahahahaha”. Na areia, funk, pagode e sertanejo aos berros naqueles equipamentos de som chineses, com porta USB por onde a diarreia musical transita.

Os moradores locais? Se borram de medo. Itacoatiara é bairro de classe média e um dia já foi o must do verão em Niterói, e como toda a classe média, tem pavor dessa molambada com cabelo à Neymar, moto na mão e muita bosta na cabeça. Os locais dizem que “os estrangeiros são perigosos e acham que a praia é deles”. Claro que a praia é deles. A praia, o bairro, a cidade, o país.
Fato é que cada vez mais zonzo com o cheiro de mijo, andando numa cidade que estupra com o IPTU, conta de luz, água, telefone, tenho que aturar esses molambos que em menos de duas horas defecam tudo. Uma eficiência rara.

Com certeza não ia acabar bem se eu pegasse um molambo desses defecando em frente a uma creche (para eles tanto faz). Aliás, é por isso que não tenho ido a praia sábado e domingo, onde a civilidade é minoria absoluta. 


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Absolutamente imperdível! The Fabulous Tropical Acoustic Band dia 30 no Teatro Ipanema


Como não estar lá?
Mas reserve o seu ingresso porque o teatro e pequeno.

A giga assessora de imprensa, Ana Paula Romeiro, me avisa:

Convidados muito especiais, que formam a The Fabulous Tropical Acoustic Band (The Fabulous TAB), vão fazer parte da comemoração dos 50 anos do Teatro Ipanema (viva ele!), no próximo dia 30 de setembro (domingo). O Teatro foi palco de resistência, criatividade, desbunde, quando o Rio era muito mais carioca e achava que a existência de um crivella da vida era conversa de bad trip de ácido.

A Fabulous TAB tem como integrantes a seguinte alcateia: Evandro Mesquita, Arnaldo Brandão, Dadi e Billy Forghieri. Juntos resgatam músicas dos anos 70, que tinham e têm o poder de mudar vidas, cidades, países. Canções que inspiraram gerações de músicos em todo mundo. The Fabulous TAB é pólvora dessa fogueira que continuará acesa por puro prazer de conexão com uma época mágica. 

A banda interpreta com versões acústicas e arranjos personalizados músicas de Pink Floyd, Bob Dylan, Rolling Stones, Bob Marley, The Who, Led Zeppelin, Hendrix, Ray Charles, JJ Cale, Otis Redding entre outros do mesmo naipe. Sentiram? 

É um reencontro de amigos com a mesma cumplicidade e sintonia musical e existencial.  Um show feito com muito prazer. The Fabulous TAB:

Evandro Mesquita: Ukulele, Harmônica e vocal.
Arnaldo Brandão: contra baixo e vocal
Billy Forghieri: teclados e vocal
Rogério Meanda: violão
Ralph Canetti: violão, Gaita e vocal
Mafram do Maracanã: Percussão
Alexandre Griva: Baterista
Dadi - Eduardo Magalhães: Violão e Guitarra
  
Serviço:
Comemoração dos 50 Anos do Teatro Ipanema.
EVANDRO MESQUITA & THE FABULOUS TAB
Data: domingo, 30 de setembro
Horário: 19h
Valor do Ingresso: R$ 60,00 inteira, R$ 30,00 meia
TEATRO IPANEMA
Telefone da Bilheteria: 2267-3750 e 3518.5220 (aberta 01h antes do espetáculo)
Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema – RJ - CEP: 22.420-040 –
Metrô: Estação Nossa Sra. da Paz – saída Rua Joana Angélica
§ Único: A Bilheteria do Teatro Ipanema é aberta de quinta a terça, sempre uma hora antes do início do espetáculo que estará em cartaz naquele determinado dia da semana.
Contatos do Teatro - José Carlos Della Vedova
Gestor e Diretor Executivo
+ 21 99306-0402                    



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Bananas ao vento


As notícias golfam do computador como tempestade de bigornas, foices, ferro de passar a carvão. É só pancada, baixo astral, coisa ruim, mas filosoficamente pensando no banheiro, fazendo barba de manhãzinha, lembro que até a anta do juízo final sabe que notícia ruim sempre frequentou o cardápio principal da família brasileira. Explica, mas não justifica. Sabemos disso. Fazer o que?

A primavera começa sábado. É uma estação meio dissimulada, não assume que é escrava do verão apesar das altas temperaturas, do asfalto mole. Mas, compensando, os shortinhos enfiados ganham as ruas mas só os invisíveis podem contemplar para não serem denunciados por assédio. Mais: por do sol deslumbrante, onibus apinhados com gente na capota, arrastões, brisa noturna nas areias desertas, pequenos impérios do coitus ininterruptos, como resumiu o baiano pai da tropicália quando cantou “Um poeta desfolha a bandeira/E eu me sinto melhor colorido/ Pego um jato, viajo, arrebento/Com o roteiro do sexto sentido/ Faz do morro, pilão de concreto/Tropicália, bananas ao vento.”

Em outubro tem eleição e muita gente acha que o fim do mundo será café pequeno perto da efeméride. Oportunista, o mercado financeiro e suas piranhas aumentam o dólar, derrubam a bolsa eufóricos, loucas, doidas, piranhas de terno, gravata e baby doll trancado no armário, ao lado do pote de cocaína de Vaz Lobo e da garrafa de Johnny Walker Blue de Pau Grande, RJ.

Os jornais anunciam que os corruptos vão ser os mais votados, como se fosse novidade. Os corruptos se elegem as gargalhadas porque compram os votos, como peruas de meia idade deslizando pelo VillageMall (a grafia é esta, village colado no mall). Esses políticos escolhem uma região, pagam a metade da bolada antes da eleição, e a outra metade quando ganham. Vai depender da contagem de votos. Há ainda os mais tímidos que preferem contratar traficantes de drogas e milicianos que fazem o serviço a maneira deles, sem expor diretamente o político, salve simpatia! não votou, morreu. Mas a primavera vem aí.

Depus as armas, não vou mais brigar mais com a primavera nem com o seu amante de beliche, o verão, já que me senti solitário demais no bloco do eu-amo-o-frio-do-inverno-especialmente-debaixo-do edredon-de-êxtases-da-loba. Parece que gostar de inverno não é de bom tom, especialmente aqui nesses trópicos surubáticos que fizeram Cristóvão Colombo fingir que não viu o Brasil para não ter que descobri-lo, debaixo daquele calor infernal. Deixou a bomba para Pedro Álvares Cabral (primeiro Cabral da dinastia de estupradores de cofres públicos) e foi descobrir a América do Norte, céu claro, 19 graus.

Esses dias, mais uma vez, houve um princípio de pancadaria em torno do velho tema urna-eletrônica-não-é-confiável, como se fosse possível urna confiável, seja eletrônica, de folha de banana, de papel higiênico Tico Tico, numa terra de assaltantes, náufragos e degredados que acabaram cruzando com a escória do Reino da Ibéria inventando o homo brasilis.

Pensei em escrever para Beto Guedes sobre “Sol de Primavera”. Começara essa crônica (???) com a música e depois com uma mistura de show da Xuxa com bacanal no reino encantado de Benfica, uma performance. Ia ficar botininho. Antes de começar o texto, um podcast com a voz tremula do bardo mineiro anunciando “quando entrar seteeeeembro/ e a boa nova andar nos caaaaampos/” que todo mundo ouvia de mãos dadas aplaudindo o por do sol do Arpoador, vulgo Arpex, chorando diante do belíssimo (é sim!”) poema do niteroiense Ronaldo Bastos que Guedes musicou. Abrir com essa música seria uma mensagem de amor, incentivando a coragem a bordo de frases de auto ajuda do tipo “quem tem Winston Churchill não teme vara no lombo”.

Olhar colírico/ Lirios plásticos do campo e do contracampo/ Telástico cinemascope teu sorriso tudo isso/ Tudo ido e lido e lindo e vindo do vivido/ Na minha adolescidade/Idade de pedra e paz (Veloso, Caetano - 1969).


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Corações nas trevas


Pense numa praia com o mar transparente, água quase morna, sem ondas. Pense na paz de espírito em sua mais profunda tradução. Pense na sensação de felicidade, realização, brisa de verão, no amor da sua vida a caminho. Pensou? Pois eu vivi nesse lugar durante muito tempo.

Ando escrevendo mal por causa da estafa, exausto, não durmo, como mal, fase totalmente “the dark side of the moon”. Não tem problema. Nenhum problema. Não vou pedir desculpas por estar escrevendo mal porque nunca me justifiquei quando escrevi bem. Longe de querer me comparar (era só o que faltava), no documentário “O Apocalipse de um Cineasta” (original “The Hearts of Darkness”), que mostra como como foi filmado o épico “Apocalypse Now” (vulgo “filme da minha vida”), Francis Ford Coppola diz no final que não gostou do filme.

O documentário revela os múltiplos esforços do diretor para trabalhar em meio a forças da natureza, destruindo cenários e enfrentando cansaço físico e mental, problemas de guerrilha nas Filipinas, orçamentos exacerbados (que já ultrapassavam milhões de dólares), descrença dos produtores, uma parada cardíaca sofrida pelo protagonista Martin Sheen, a personalidade arrogante de Marlon Brando, bebedeiras típicas de Dennis Hopper e demais excessos da Nova Hollywood. O documentário apresenta cenas capturadas secretamente por Eleanor Coppola, mulher de Francis, que observou de perto a entrega quase suicida do marido ao projeto, desacreditado no resultado depois de tantas adversidades no set, mas que ao final triunfou, conquistando crítica e público, além da Palma de Ouro e dos Oscars de Melhor Fotografia e Som. Nunca antes a frase dita pelo cineasta fez tanto sentido: “Meu filme não é sobre o Vietnã, ele é o Vietnã”.

A praia que citei no início foi uma longa pausa em meu apocalipse now, que pensei muitas vezes que fosse crônico. Não é. É cíclico. No momento estou dentro dele e por isso faço questão de lembrar dos dias em que pegava um colete salva vida, vestia, e ficava boiando a beira mar durante um longo tempo. Naquele mar especial, daquela praia especial, que foi destruída anos depois pelo vandalismo e pela falta de governo. Não fui mais lá. Não queria ver as pessoas pisoteando meus sonhos tatuados na areia.

O coração nas trevas deu lugar ao sol de meio dia, com direito a trilha de Egberto Gismonti e Naná Vasconcellos. Que disco! Parodiando Belchior, eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais e sonhava ser o Smooth Operator inventado por Sade, lá em 1984. Para quem? Para uma dama que estava a caminho e, quem sabe, dançaria uma valsa comigo ao som de canções mais do que românticas e malemolentes.

Esse flash back não significa que estou mal, lambendo cachorro suado pelas ruas. É uma espécie de instant karma que como as ondas de Nazaré (Portugal), olham para a cara do surfista e abrem o coração: “surfe-me ou te devoro”. E como não uso jet sky estou remando a prancha para, quem sabe, ultrapassar a arrebentação num swell gigante e descer os 23 metros de massa d’água. E, claro, mandar uma foto para ela.

Se não estivesse escrevendo mal diria que a arrebentação do mar em swell cabe perfeitamente numa metáfora de quatro letras: vida. Em muitos momentos passamos e em outros só há a opção de descer 23 metros de onda e acabar curtindo o que seria uma adversidade.

Não sei para que serve esse arremesso de letras e palavras contra a muralha do papel em branco, representado aqui por um retângulo digital e sua caneta tecnocrata, o cursor. Mas eu gosto. Sempre detestei máquina de escrever porque as vezes a fita de tinta embolava e cortava o impulso do texto, dando aquela parada quase brochante. Horrível. Isso sem falar da barulheira que me obrigava a parar, em casa, a meia noite. Escrever a mão era pior. Como comecei a trabalhar em jornal com 16 anos, em máquina de escrever, minha caligrafia se transformou numa manifestação anarquista de bêbado. Ninguém entendia. Nem eu. O computador me libertou.

Ontem à tarde, calor do cacete. A primavera, como sempre, vai entrar com o pé na porta. Pretendo voltar a ser um praieiro como sempre fui, mas infelizmente longe daquela minha praia que virou muquifo. Penso em frequentar Icaraí, como muitos moradores do bairro estão fazendo e quando consultei as tais “condições de balneabilidade” do Inea, Icaraí estava liberada. O problema que o Inea é do governo do estado, que está falido e não confio nas medições que, sem grana, devem ser totalmente à bangu.

No mais, feliz ano novo!






segunda-feira, 17 de setembro de 2018

São Paulo, 14 de outubro de 2018


Os paulistanos de bom gosto estão mais excitados do que cobra em areia quente. Afinal, no dia 14 de outubro (domingo), o australiano Nick Cave e sua banda The Bad Seeds volta a tocar em Sampa (depois de 30 anos) no Espaço das Américas, que fica na Barra Funda. Será uma apresentação única no Brasil e quem quiser assistir é bom correr porque os ingressos estão voando. Para comprar é só clicar aqui: http://www.ticketload.com/events/popload-gig-com-nick-cave-and-the-bad-seeds-sao-paulo-617

Aos 61 anos, Cave está no melhor momento de sua carreira. Ele é músico (piano, teclados, guitarra, violão), compositor, escritor, argumentista e, ocasionalmente, ator. É reverenciado por seu trabalho no rock,  onde aborda com coragem temas sensíveis e polêmicos como religiãomorteamorAmérica e violência.

Com 16 álbuns lançados desde 1984 ele luta pela qualidade musical, sempre preocupado com a saúde intelectual e emocional das novas gerações. Para ele, a música exerce um poderoso papel na formação das pessoas, principalmente a partir da adolescência.

Mais: no dia 30 de setembro (domingo) vão ser exibidos no Caixa Belas Artes Cultural, também de São Paulo, os filmes “Do You Love Me? - Especial Nick Cave", "20.000 Dias na Terra" e "One More Time with Feeling"!. Cave fez uma aparição em “Os Belos Dias de Aranjuez” do consagrado diretor alemão Win Wenders.

Apesar de ser o nome mais destacado do Bad Seeds, foi a banda que, tanto em estúdio como ao vivo, e com suas diferentes formações, transformou o cantor no artista que ele é hoje. Essa fusão de talentos e colaborações entre os músicos fez do Bad Seeds um dos grupos mais importantes de todos os tempos, lotando arenas pelo mundo. A discografia da banda é composta de diversos clássicos, como Push the Sky Away (2013), o confessional e doloroso The Boatman's Call (1997), Let Love In (1994) e o complexo Murder Ballads, de 1996, o de maior sucesso comercial e que contém suas composições mais famosas, como "Lovely Creature", "Henry Lee" e "Where the Wild Roses Grow", as duas últimas em duetos bem sucedidos com PJ Harvey e Kylie Minogue, respectivamente.

Já lançaram 16 álbuns, sendo o último o excelente Skeleton Tree, de 2016, carregado de letras que discutem perdas e luto e que serve de base para os shows intensos desta turnê. Dividindo-se atualmente entre relançamentos, trilhas e a turnê mundial, Nick Cave protagonizou ainda um filme que mostra na íntegra um dos seus shows mais emocionantes do ano passado, na Dinamarca. “Distant Sky” teve uma sessão única transmitida em vários cinemas do mundo, incluindo o Brasil. No ano passado, lançou a coletânea Lovely Creatures - The Best of Nick Cave & the Bad Seeds 1984 - 2014

Ver Nick Cave & The Bad Seeds ao vivo, pelo menos uma vez na vida, é uma experiência fundamental. 

domingo, 16 de setembro de 2018

Cena de Cinema


Lembro tão bem que sinto um nó na garganta. Depois de dois dias esperando uma ligação telefônica que não veio, fui ao cinema assistir “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg.

História real. Ao desembarcar na Normandia, no dia 6 de junho de 1944, o capitão Miller (Tom Hanks) recebeu a missão de comandar um grupo para o resgate do soldado James Ryan, o caçula de quatro irmãos; três haviam morrido em combate. Ryan estava dentro das linhas inimigas.

A medida em que o filme foi desfilando na telona comecei a me identificar muito com o capitão Miller e lá pelas tantas, no auge da história, o nó na garganta se tornou choro compulsivo, que consegui disfarçar bem. Eu acho. Quando o capitão Miller, já em agonia, disse para Ryan “faça por merecer!” (quem assistiu o filme sabe o peso dessa frase) meus olhos estavam desfocados de tantas lágrimas. Era 1999. Vi o capitão Miller em mim e me vi no capitão Miller. 

O Cinema, a Literatura, a arte em geral tem esse poder, essa magia, essa força que nos joga nas telas (e nas páginas) para onde transportamos nossos momentos e os vemos incorporados em outros. No dia do “Soldado Ryan” percebi que muita gente chorava diante da carga que o monumental Spielberg despejou na tela. Provavelmente muitos se sentiam o Ryan, ou a mãe dele, ou os irmãos.

Um dia desses criei uma micro coluna chamada Cena de Cinema, no Instagram e quem quiser conhecer é só entrar, acesso liberado. Nela, cito filmes que gostei, com data e diretor. Em alguns senti necessidade de publicar poucos detalhes e para a minha orgásmica surpresa notei que tem muita gente curtindo. O que era para durar um dia, acabou ganhando asas e publico até hoje.

Foi fazendo essa micro coluna digital que reafirmei o quanto o Cinema foi, é, e será importante nas nossas minha vidas. O Cinema transforma em imagem, áudio, movimento, muita coisa que sentimos (ontem e hoje) e vamos sentir, individual e coletivamente, passando a impressão de que a maioria dos temas mundiais, de novo individuais e coletivos, já foram colocados na telona. Foram ou vão ser. O Cinema é um gigantesco documentário sobre nós. Seja comédia, ação, drama, suspense, terror. Seja brasileiro, americano, europeu, asiático, mexicanos, do Oriente Médio.

Tempos atrás fui escalado para participar de uma entrevista coletiva com Catherine Deneuve no Copacabana Palace. Foi em 90 e tal. Ela era mais do que diva. Quando assisti “A Bela da Tarde” (de Luis Buñuel), um gigantesco ícone da minha adolescência, Catherine foi promovida a condição de concubina inconsciente e quando o carro de reportagem se aproximou do Copacabana Palace pensei “vai ser bom conhecê-la porque a verei de dia, normal, sem maquiagem de set de cinema, sem falas ensaiadas, não verei o mito e sim a pessoa.”

Errei.

Quando ela apareceu no salão, com aquele charmoso atraso de 20 minutos, eu vi a bela da tarde. Baixinho sussurrei “caramba”. Um colega do Estadão disse, não muito baixo, “eu não acredito”, todos estávamos aturdidos. Se não me engano ela veio ao Brasil divulgar “Genealogias de um Crime”, de Raúl Ruiz.
Éramos uns 15 jornalistas, a maiora mulheres e até ela sentar ostentando um belo e discreto (na medida) sorriso, ficamos mudos.Todos. Até que a entrevista começou, trivial, simples, “do que trata o filme?; onde foi feito?”, etc etc etc. Através de uma intérprete ela respondia calmamente, e como a entrevista era modelo americano (o jornalista fica de pé para fazer a pergunta) chegou a minha vez. “Como foi trabalhar com Buñuel?”, perguntei e sentei rápido. Ela deu um sorriso do tipo “não adianta, não me livro da bela da tarde), ela respondeu na maior elegância.

A entrevista acabou e eu, louco por um autógrafo, fiquei no dilema. Afinal, diziam que jornalista não aplaude nem pede autógrafos, mas o colega do Estadão foi lá e ela assinou. Outros tomaram coragem e, no bolo, também fui. Peguei o autógrafo que, boçalmente, perdi.

Concordo quando dizem que as pessoas não escrevem para que, e sim para quem. É uma delícia ter musa. Acho que em todas as artes é assim, Cinema inclusive. Pergunto: para quem Buñuel fez “A Bela da Tarde”. Para Silvia Pinal? Picasso, sabemos, pintou para Jacqueline Roque, Françoise Gilot e Dora Maar. John Lennon compôs e cantou para Yoko Ono.

Enfim, Cinema não é quase tudo. É tudo.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Liberdade: calça de veludo ou lorto de fora

                                                      Em novembro de 1937 os militares de Getúlio
                                                      Vargas incendiaram 1.694 livros de Jorge Amado numa                                                                                    praça proxima ao elevador Lacerda, em Salvador.

Mais cedo caminhava pela Gávea, olhei para o céu, para o sul e nem sinal de chuva. Foi quando lembrei que o famigerado Estado Novo do ditador Getúlio Vargas proibia a divulgação de temperaturas acima de 40 graus. Rádios e TVs que noticiassem que a máxima tinha atingido 40 graus e um décimo, em qualquer ponto do território nacional (inclusive na adorável Bangu), corriam o risco de serem multadas, ou cassadas. Por que? Porque naquela época a legislação trabalhista obrigava que todos os empregados fossem liberados quando a temperatura ambiente passasse dos 40 graus. Por isso, sempre fazendo meia com o poder, empresários foram a Brasília conversar e, em 1969, no bojo do AI-5, mantiveram a proibição getulista que, cínica, era “informal”. Informal é o cacete.

O site “Plenário MT” publicou um artigo, que comenta: “(...) Em 1955, com o clima político fervendo por causa da eleição de JK e de um movimento golpista para impedir sua posse, o filme “Rio 40 graus”, de Nelson Pereira dos Santos, foi censurado pelo então chefe de Polícia, um coronel, que proibiu a exibição da obra em todo o território nacional.

Além de acusado de promover “a desagregação do país”, por ser comunista e apresentar apenas os “aspectos negativos da capital brasileira”, “Rio 40 graus”, marco precursor do Cinema Novo, era chamado de “mentiroso” pelo militar, alegando que aqui a temperatura nunca ultrapassara 39 graus. O ato truculento e ridículo provocou uma das maiores ondas de protesto de artistas e intelectuais, liderados por Jorge Amado, enquadrado também por causa do seu clássico "Dona Flor e seus Dois Maridos", principalmente pelo triângulo amoroso formado por antagonistas: Vadinho, porrista, vagabundo, mulherengo e Teodoro, médico, sisudo, corretíssimo, recatado, do lar. A polícia achava que o trio era um atentado a moral e aos bons costumes.

A censura mudou de mãos mas continua aí. Nas redes sociais um censura o outro. Antes, décadas atrás, um brigava com o outro mas graças a um acordo “popular” as brigas diminuíram. Criaram o slogan meio machista (mas não sexista, senhores censores!!!!!!) “não se deve discutir política, religião e mulher. Acaba em pancadaria”. A “democracia” que vemos nas redes sociais é do tipo “você pode falar o que quiser desde que seja o que exijo ouvir.” Sim, o tom é autoritário. Da esquerda e da direita. Quando a censura atinge o topo da montanha de insanidades as pessoas se bloqueiam mutuamente, e fim de papo. Não sei que democracismo é esse.

São esses exemplos que me tornam cada vez mais radical na defesa do amplo, geral e irrestrito exercício da liberdade de expressão, de ação, de tudo. Liberdade não tem meio termo, água morna, acarajé sem pimenta, cerveja sem álcool. É calça de veludo ou lorto de fora. Por enquanto, o jornalismo brasileiro (livre das mordaças em 1985), vive em regime, em tese, de auto regulação já que não existe meia liberdade, 90% de liberdade, meia virgindade nem meia canalhice.

Poderosos tem a obsessão de nos empurrar a tal “regulação da mídia” que eles afirmam não ter nada a ver com censura. Como assim nada a ver? A imprensa livre dispensa regulação externa. Qualquer tipo de tentativa de controle, manipulação, freio, é censura. Até segunda desordem.

A liberdade voltou a pauta depois do atentado ao jornal francês Charlie Hebdo, lá em 2015, que tinha como um dos slogans “um jornal irresponsável”. Houve muita gritaria. Até o Papa Francisco se meteu no bate-boca, como mostra essa nota publicada pela BBC:

O papa Francisco defendeu o direito de expressão, mas disse ser errado provocar os outros ao insultar a religião alheia (...)
Para ilustrar seu ponto de vista, Francisco disse a jornalistas no avião papal que seu assistente poderia esperar um soco se ele xingar sua mãe.
"É normal. Você não pode provocar, não pode insultar a religião dos outros", disse ele.”

Santidade, discordo totalmente. A imprensa pode publicar o que quiser, inclusive xingar a mãe, desde que assuma as consequências judiciais, que fazem parte do chamado jogo democrático. Um jornalista mau caráter, safado, achacador, moleque, venal pode acusar alguém de corrupto, de pedófilo, de assassino, mas para isso terá que provar. Com relação a vítima, a legislação é farta. Um processo por calúnia, difamação e similares, rende gordas indenizações, prisão, desmentidos e uma série de outros efeitos punitivos que fazem os jornalistas pensarem duas vezes antes de apurarem mal uma informação. Mais: existem também penas gravíssimas para o caso de ofensa religiosa, racial e afins.

Se um muçulmano se sentiu ofendido pelo Charlie Hebdo em 2015, por exemplo, poderia ter entrado na Justiça alegando ofensa, discriminação, etc e não explodir o jornal matando gente. Em outras palavras, a tal regulação da mídia já existe e está em vigor no Judiciário de todos os países democráticos, entre eles o Brasil.

Logo, que as coisas continuem como estão. Que os meios de comunicação possam seguir livres para informar e, no caso de lambança, levarem um ferro da Justiça. Essa é a regra básica do jogo e assim deve prevalecer.




                                                    

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Classe mídia

Italo Campofiorito
                                                                   Citroen 2 cv

O amigo Ítalo Campofiorito, giga-intelectual (o mais visceral que conheço), tem um Fusca 1982 na garagem de seu prédio no Leblon. Ele me disse uma vez que o melhor carro do mundo é o táxi novo, com ar condicionado. Concordei. Quando vivia em Paris, anos 1970, ele tinha um Citroen 2 cv, xodó dos existencialistas; Jean Paul Sartre teve um, que acabou dando de presente para uma amásia.

Depois, Ítalo comprou um Renault Alpine, mas preservou o 2 cv até voltar para o Brasil. Foi esse meu lebloniano amigo quem me apresentou a Oscar Niemeyer, início dos anos 90, numa célebre tarde em que o mestre da arquitetura decidiu almoçar num restaurante no Flamengo, Rio. Depois do almoço, tive o privilégio de levar meu amigo e Oscar de carona para casa.

Ítalo foi da equipe que projetou e construiu Brasília com Oscar e Lúcio Costa, mas nem por isso abre mão do jeans, dos óculos de aro fino, da eterna aparência sarada de 70 e poucos anos de idade (acho que ele desligou seu taxímetro). Guarda frases geniais e que sempre que encontro com ele quase imploro para repetir, mas o meu amigo nunca se repete. Nunca. Tem um pacto eterno com o novo, tanto que é profundo conhecedor de Frank Zappa.

Esses homens mostram que esse papo de mundo obsoleto, obsoleto mundo é e sempre foi uma babaquice, mas lamentavelmente é assim que funciona uma gorda (obesa) fatia da classe média (ou será classe mídia?) ou a senha “se liga, se liga freguesia, celular é nas Casas Bahia” não teria se eternizado.

Em outubro de 1976, repórter da Rádio Jornal do Brasil, me mandaram cobrir o velório do pintor Di Cavalcanti no Museu de Arte Moderna. Cheguei lá com um gravador alemão Uher da rádio, fita de rolo, som puríssimo e muito utilizado para fazer cinema. Entrevistei várias pessoas, conversei com outras. De repente, do nada, surgiu Glauber Rocha. Descabelado, esbaforido, muito emocionado com uma câmera Bolex de 16 mm na mão. Como ele entrou gritando homenagens ao Di, de quem foi muito amigo, um certo rebuliço aturdiu o velório. Glauber gritava “close na cara do defunto! Close na cara do defunto” e o cinegrafista praticamente trepava no caixão para arrancar os closes da cara do Di Cavalcanti.

Claro, fui entrevistar o Glauber que eu não conhecia mas admirava muito, como admiro até hoje. Aos berros, ele me olhou dentro dos olhos e vociferou “esse aí....o Di... nunca pintou modelinho de revista. Esse aí...o Di, nunca acreditou em arte obsoleta como a minha. Não é isso que falam de mim...hein?!?!”, perguntou, olhos arregalados. Nada respondi. Lembrei de quando assisti “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na terra do Sol”. 

Estava sem camisa no Cinema Um na rua Prado Junior (Copacabana) que fez um Mostra Festival Glauber em 1975, por aí. Para não variar o ar condicionado do cinema estava pifado, para não variar a maioria dos homens estava sem camisa e para não variar uns cinco ou seis estavam só de cueca, um hábito totalmente glauberiano que virou norma naquela sauna. Nos festivais Bergman, Truffaut e Godard a cueca virou traje a rigor para a maioria dos encalorados frequentadores daquele templo do novo cinema na Pradão, rua de belas e muito populares prostitutas. 

Um dia, um homem que se dizia gerente do cinema, de terno, gravata e advogado a tira colo, entrou, mandou acender as luzes e tentou expulsar os seminus. Ninguém saiu, as luzes apagaram e a sessão continuou. Enterraram o assunto. O cara sumiu. O advogado também.

O consumismo nasceu obsoleto porque já carecia de um novo modelo para faturar. O sujeito compra um carro, paga 80 mil, fica todo satisfeito e no semestre seguinte mudam o farol, as lanternas e o câmbio. É trocar ou perder 80% na desvalorização. Em semanas seu “último tipo” passa a condição de ultrapassado. Incomodado, o ex-feliz proprietário arranca sangue das vísceras e troca (perdendo um dinheirão) o “velho” por um novo que, seis meses depois sai de linha para dar lugar a um outro modelo. E por aí vai. Ladeira acima? Ladeira abaixo? Não sei. Não sou economista e muito menos veterinário para entender os pitís (não tem acento agudo no i) da sociedade emergente crônica.

Com celulares, bolsas, ventiladores e ar condicionado é a mesma coisa. O modelito novo é o que vale. Se presta ou não é uma outra história.
Os americanos matavam no Vietnã com M-16, mas os russos ensinaram a fazer fuzis maiores lançando o ultra fashion AK-47 que tem um jeitão meio vintage. Dêem uma olhada nele, empunhado pelo garoto-propaganda e ator Osama Bin Laden. O AK é um fuzil autoral.

Segundo a Wikipédia foi inventado em 1942 por Mikhail Kalashnikov, que morreu em 2013 aos 94 anos. Ele era sargento das forças blindadas soviéticas quando levou um balaço em 1942. No hospital inventou o AK, arma de grife que os traficantes do Rio cultuam como a um disco de funk probidão.

Enfim, é preciso estar muito atento e forte para não ceder a ditadura nada branda dos reacionários que apregoam o estado obsoleto de ser. Até implantes dentários entraram nessa porque, dizem, o parafuso de titânio é melhor do que a coroa de ouro, como li numa revista de inutilidades sociais na antesala do meu dentista, que por sinal é um grande profissional e super gente boa.

Será que um dia haverá homens e mulheres com a validade vencida? Por falar nisso, sabem o que um médico amigo me disse? Que os laboratórios estão reduzindo de propósito a vida útil dos remédios para que a validade vença logo e o consumidor tenha que comprar o modelito em voga, já que não existe, por exemplo, antibiótico vintage. Mais: ele me disse que muitos remédios vem com 28 comprimidos porque os laboratórios sabem que o médico vai prescrever para 30 dias e o infeliz do consumidor, no comprimido número 28, terá que comprar outra caixa. 

É dose? É.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Varal de perversões inconscientes


Estava numa sala de espera lendo um artigo numa revista quase científica (placebo?) sobre a ansiedade, que segundo a publicação, "é um dos grandes males deste século XXI". Foi promovida. Até pouco tempo ansiedade era o mal do século. Daqui a 10 anos, dizem as revistas científicas puro sangue, o mal maior será a obesidade.

Entre os fatores que aumentam o estado descabelado do indivíduo está a preocupação. A palavra diz tudo: pré-ocupação. Sofrer por antecipação aumenta as dimensões dos problemas e ainda inventa novos ingredientes transformando o imaginário num caos. Um filminho onde reina a tragédia, o fracasso e outras percepções negativas que estão penduradas nesse varal de perversões inconscientes.

Uma piada que exemplifica bem é a do motorista da van. Ele dirigia calmamente numa noite deserta, transportando 15 freiras que voltavam de um colóquio e de repente um pneu furou. Encostou a van e verificou que o estepe também está furado. Desespero.

Sozinho, no escuro, boca seca, respiração ofegante, coração disparado, sensação de morte iminente não queria acreditar que estava naquela situação que o fazia responsável pela segurança e integridade de 15 freiras.

Alguns minutos depois surgiu um capiau puxando seu burro cheio de carga. O motorista da van perguntou "você sabe onde encontro um borracheiro?". O capiau coçou o queixo e apontou para uma luz distante. "Lá é a casa do borracheiro. É um homem meio invocado, mas é o único daqui".

O motorista da van, tomado pela preocupação ("é um homem meio invocado", havia dito o capiau), saiu andando em direção da luz, suor na testa, lábios secos, dormência nos braços. Foi no varal de perversões inconscientes e pensou "se ele abrir a porta com uma barra de ferro, eu dou um chute; "se ele abrir me xingando eu xingo ele também". Pensamentos e ideações só amplificavam o drama.

Andou, andou, andou, como um discípulo de Gandhi e ao chegar à casa, bateu na porta. Uma, duas, três vezes. A porta abriu e um sujeito disse apenas "boa noite". Tomado pelas perversões inconscientes, o motorista da van pegou o borracheiro pelos cabelos gritando "boa noite nada, seu safado, moleque", de deu-lhe uma surra sem mais nem menos. Não resolveu o problema do pneu e, pior, criou outro com a polícia.

Preocupação é viver uma situação supostamente ruim, no mínimo, duas vezes: antes e durante. Sabe o resultado de uma prova que vai sair daqui a 20 dias? Muitas vezes essa espera é mais torturante do que a prova em si e o resultado também. É o caso de quem tem medo de avião. Se disserem “você vai para o Japão daqui a oito meses”, a vítima da ansiedade antecipatória começa imediatamente a sofrer cada minuto, dia, semana, até o momento em que deixa a aeronave na chegada. Há anos atrás, fizeram uma pesquisa nas penitenciárias americanas e chegaram à conclusão que uma boa parte dos condenados que aguarda no chamado "corredor da morte" quer ser executado logo para cessar a agonia.

Qual é a solução para nos livrarmos de preocupações? Especialistas dizem que mudar o alvo do pensamento assim que bater a preocupação é um bom caminho, já que só conseguimos pensar em uma coisa de cada vez. Mas esses mesmos especialistas ressaltam que é um exercício árduo que exige muita dedicação e, em muitos casos, terapia. No caso do motorista da van, citado na piada, em vez de ir pensando na receptividade ruim do borracheiro, deveria ter imaginado outras coisas, olhar as estrelas, enfim, substituir os pensamentos negativos e liquidar as fantasias ruins e não ser engolido por elas a ponto de partir para o desatino.

A preocupação está em todos os seres humanos. O que varia é o peso delas em cada indivíduo. Quando era piloto de Fórmula 1, Nelson Piquet dormia no cockpit do carro minutos antes de ser dada a largada, o que provocava comentários generalizados. Na época ele dizia que relaxava "evitando pensar na corrida", principalmente na semana do grande prêmio. Sem dúvida, um raro privilégio.

Parece que esse papo de “um dia de cada vez” é bacana, mas como conseguir por na prática?


domingo, 9 de setembro de 2018

Cultura inútil?

No século passado existiu a Rádio Relógio. Situada na Taquara, Zona Oeste do Rio, hoje governada pelas milícias, a emissora tinha como áudio um bip a cada segundo e informes chamados “você sabia?”. Depois de um ou dois “você sabia?” o locutor dizia “Galeria Silvestre, a galeria da luz” e a voz da célebre locutora Iris Lettieri informava a hora certa.

Exemplos de “você sabia?”: “Você sabia que a mosca é um dos insetos mais ligeiros e que, se pudesse voar em linha reta, levaria apenas 28 dias para atravessar o mundo todo?; “Você sabia que o coração da baleia da Groelândia pode pesar até cinco toneladas? E que a palavra maricá tem origem no Tupi, e significa capim de espinhos?”; “Você sabia que a temperatura mais fria registrada na Terra foi de 89,2 graus Celsius negativos? Foi constatada na estação de pesquisa russa Vostok, na Antártida. Foi em 21 de julho de 1983”;  

Ouça um pouco. É só clicar no link:

Muita gente chamava a Rádio Relógio de cultura inútil, mas eu não achava, como ainda não acho. Ouvia direto na adolescência quando, às vezes, minha avó ia passar uns dias lá em casa. Ela ouvia rádio o dia inteiro (o que acabou me influenciando), especialmente a Rádio Relógio.

Sabe a frase histórica “este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade” que Neil Armstrong disparou logo depois de pisar na lua? Adaptei. “Um passo nulo para a humanidade, mas gigantesco para mim”. Foi o que pensei quando decidi finalmente arrumar a estante de livros, uma baderna total. Uma quantidade razoável, suficiente para me deixar completamente zonzo. Decidi, levantei e fiquei olhando os livros que aparecem (muitos vivem escondidos na parte de trás, inacessível) e na semana que vem vou arrumar tudo. Olhando para a estante, para os títulos, pensei “será que isso é cultura inútil?”.

Claro, há muitas biografias, muita música, política, filosofia, cinema, drogas (livros sobre peiote, LSD – do próprio Timothy Leary – metadona, etc), poesia, clássicos. Será que me empanturrei de cultura inútil ao longo do tempo nessa mistureba de estilos e propostas literárias? Definitivamente não. Os livros sobre drogas foram muito importantes nos 10 anos que levei escrevendo meu primeiro (e até agora único) romance chamado “5 e 15”. Uma segunda edição lancei ano passado pela Amazon e está aqui neste link gigante. É só clicar: https://www.amazon.com.br/5-15-Luiz-Antonio-Mello-ebook/dp/B01EP11OW2?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=5+e+15&qid=1536454543&s=STRING%28br-books-storename%29&sr=1-1&ref=sr_1_1

“5 e 15” conta a saga de um cientista e psiquiatra que busca de uma vacina contra as drogas pesadas, por isso os livros onde estudei as principais, incluindo cocaína, heroína e ópio. Muitos dos outros livros, direta ou indiretamente, me deram suporte ao longo de inúmeras situações na vida. Chama-los de cultura inútil, mais do que desrespeito, seria ingratidão.

Estou quase achando que cultura inútil não existe já que, se é útil para uma  única pessoa, deixa de ser inútil. Qual seria a antagonista, a cultura útil? A cultura da moda? A cultura in? A cultura de ocasião? A cultura formal? A cultura moralista? A cultura utilitária? Os preconceituosos, amargos e imbecis diziam que a contracultura dos beats e hippies era totalmente inútil porque levavam o nada ao lugar nenhum. Cultura, no mínimo, oportunista e interesseira.

Não vou defender a hipótese de que uma rádio que informa curiosidades seja parte de uma nova cultura midiática, mas chama-la de inútil seria exagero. Assim como o olhar enviesado que dei em minha estante de livros. Ainda há muito a dizer sobre esse vasto tema.

Ou não?


sábado, 8 de setembro de 2018

O homem que entrou de sunga na igrejinha da empáfia


Laurentino Gomes é um escritor best seller que está já atingiu a marca de um milhão e meio de livros vendidos. Não pratica literatura janota, empolada, de aglomerado que imita jacarandá. Muito menos provinciana que chamo de texto calça de tergal. Não fala difícil e nem usa fantasias inventadas pela cronicamente decadente aristocracia que baixou no Brasil quando a corte portuguesa fugiu de Napoleão (milhares de pessoas) e veio se esconder no Rio.

Laurentino Gomes é jornalista e historiador, e seu livro campeão de vendas chamado “1808” trata dessa vexatória fuga da corte e o impacto da chegada da por aqui. Em tempo, no livro lançado em 2007 e depois relançado numa nova edição de 2014, Laurentino já esculacha o estado do Museu Nacional, tipo “hoje abandonado, entregue as traças”. É quando ele aborda e dia a dia do vadio D. João VI no palácio que virou museu. Sob o título do livro, a frase: “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. 

Nessa era de chute entre as pernas, dedada nos olhos, cuspe na boca de brasileiros em brasileiros, é bom ler livros de qualidade que mostram e provam que o ódio coletivo, preconceito, pós conceitos, racismo, são velhas iguarias  no cardápio de rancores dos brasileiros, plebe submetida aos bacanais dos governantes que, sabendo manipular sua nossa sinuosa e mentirosa “índole cordial”, nos entubam de impostos, carestia, e gargalhadas de deboche até o talo.

Laurentino pertence a nova geração de historiadores, escritores e educadores que jogaram no lixo o corporativismo da empáfia. Eduardo Bueno e Leandro Narloch também estão no grupo. Laurentino usa linguagem informal, não constrói frases rebuscadas, inventadas no escurinho da balaustrada que esconde os intelectualóides, decadentes amarra cachorros das chamadas elites que comem baiacu e arrotam caviar.

Objetivo, baseado em farta pesquisa realizada em diversos países, ele escreveu, também,“1822”, sobre o nascimento do Brasil independente. Outro livraço. Subtítulo: “Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado”.

O homem que entrou de sunga na igrejinha dos insolentes e presunçosos, também lançou “1889”. Subtexto na capa: “Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”.

Até a chegada dos libertários como Laurentino Gomes, livros de História eram produzidos sob o manto do terror reverencial. A nova geração de historiadores abriu o baú, tacou naftalina dentro e libertou a nossa História que agora está aberta a visitação pública.  Sem rococós, adornos, leques de pena de pavão, o que é ótimo para todo mundo. Menos para eles, os altivos que ainda se deslocam pela penumbra, ardendo de leve desespero.

Claro que li e reli cada livro de Laurentino e semana passada mandei um e-mail pedindo a ele que lance mais. A qualidade do texto e da pesquisa seduz mesmo os mais eunucos dos eunucos culturais, ou livrofóbicos de amplo espectro. Ele não teve receio de falar das intimidades de D. João VI e muito menos de D. Pedro I, ou da personalidade golpista e arrivista de Carlota Joaquina, porque pesquisou fundo antes de sentar no computador para escrever.

Sim, temos mais um escritor que virou pop star. E isso é muito bom. 


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Mundo cão


Na boa, meu cotidiano não interessa a ninguém, mas algumas vivências quase bizarras devem despertar, no mínimo, a curiosidade de alguém. Mesmo porque, falando francamente, a minha biografia é tão inusitada que já me convidaram para coloca-la em livro. Eu ri e jamais levei a sério. Deve ter sido piada.

Sou jornalista há muito tempo, comecei com 16 anos em um jornal popular e de cara quase desisti quando um de meus chefes me mandou fazer uma reportagem tipicamente mundo cão. Puro sangue, desgraça, tragédia. Foi o caso de uma mulher enciumada, pilhada por uma vizinha fofoqueira, na Baixada Fluminense. A vizinha contou que o marido da mulher a estava traindo. Tomada pela insanidade, a mulher entrou em casa e viu o marido dormindo na sala. Aproveitou, pegou um facão e decepou o pênis do homem, tacou fogo e jogou no telhado. Um gato comeu um pedaço do que restou. Me mandaram fazer a matéria no local.

Foi quando peguei um ônibus, a barca e voltei para casa. Fazer obituário de trolha voadora definitivamente não estava em meus objetivos. Escrevi uma carta para o chefe comunicando que havia jogado a toalha, que não era esse tipo de jornalismo que queria, e por isso, voltei a estudar com a cabeça voltada para a medicina. Pedi para a empregada lá de casa entregar a carta, já que ela sempre ia ao Centro do Rio depois do trabalho degustar um cara casado. Ela achava que ninguém sabia. Aliás, até hoje não sei se era o homem ou ela que era casada. Quem sabe os dois. Ela pegou a barca e foi.

O que eu não esperava é que o tal chefe ligaria para a minha casa querendo conversar. Na minha família ninguém sabia que eu estava pulando a cerca, me enroscando com mídia, jornais, rádios e por isso dei sorte de atender o telefone. O chefe começou meio que brincando, agradecendo pela “bela portadora” que tinha levado a minha carta e disse que queria conversar. Fui lá na redação e voltei a trabalhar, mas na editoria de cidade (confesso que as vezes escrevia o horóscopo do jornal e gostava), mas, logicamente, sempre que acontecia uma tragédia monumental todo mundo entrava na história. Cobri várias.

É barra pesada cobrir dramas como a tragédia das serras aqui no Estado do Rio em 2011, quando 918 pessoas morreram por causa de uma chuva implacável que arrasou Petrópolis, Teresópolis, Friburgo e outras localidades. Cem pessoas desapareceram e 30 mil foram desalojadas. A cara dessas calamidades, desses monstros é hedionda. Você fica andando entre corpos, escombros, na esperança de poder dar uma boa notícia, mas nada (ou pouco) acontece. O ambiente é de um silêncio estranho, uma espécie de mormaço sonoro, eventual mente quebrado pelo barulho de uma pá ou picareta procurando alguém E a situação só piora, só se agrava, os saques, os crimes paralelos, as noites “dormidas” em cima de papelão e o desespero que transforma todos em saqueadores, já que a fome de sobrevivência é maior e muito mais avassaladora do que conceitos éticos.

O estranho é uma sensação que bate na gente de querer estar lá, mesmo em condições sub-humanas, para exercer o jornalismo. Quando o Japão sofreu aquele tisunami (a usina de Fukushima quase acabou com o Japão), o colega Roberto Kovalick, da TV Globo, também passou o maior sufoco quando resolveu chegar perto da usina interditada desrespeitando o bloqueio policial, com a diferença de não estar cercado por milhares de esfomeados dispostos a, literalmente, come-lo vivo em prol da sobrevivência.

Esse é o tipo de jornalismo é trágico, porém limpo, necessário, útil. Nada a ver com o mundo cão. Esse tipo de jornalismo informa, segura a ganância de algumas autoridades que só pensam em garfar verbas, enfim, é uma atividade bacana. No entanto, bandido detesta bons jornalistas, e também polícia, militares, juízes, políticos, taxistas, acho que todo mundo detesta bons jornalistas, aqueles que apuram, investigam, perguntam, insistem. Já os amadores são tão inofensivos como pompom com protex.

No caso é o mundo que está cão e não a máquina de escrever, o computador. O colega que chegou no local do pênis decepado contou que havia polícia para conter os populares que queriam ver o corpo do homem e, claro, o cadáver do bilau, mesmo carbonizado e quase todo comido pelo gato. Já foi provado que esse comportamento é da essência torta da raça humana; morbidez, atração por sangue, o modo vassoura de bruxa de ser. Quando ocorre uma tragédia, é normal que a polícia vá, os bombeiros, a defesa civil e até os jornalistas. Mas os à toas que só querem ver o morto para...para...para, sei lá, é da tal essência, mas não entendo.

Já cobri dezenas de velórios e enterros e no de Carlos Lacerda (ex-político do Rio) estava com vários colegas entre eles um que entrou na capela do São João Batista (Botafogo, Rio) e chegou junto ao caixão onde Lacerda estava sendo velado. De repente, o colega levantou um lenço que estava no rosto do morto, olhou para a cara dele e fechou de novo. Lá fora, assombrados, perguntamos por que ele tinha feito aqui. “Não sei explicar, foi uma atração incontrolável”, ele disse.

Entendeu?