domingo, 30 de setembro de 2018

O filme acabou


Contam os tiranossauros que até uns 20 anos atrás existiu um bípede mamífero, que também já virou petróleo, chamado lanterninha. Ele habitava as salas de cinema, com uma lanterna na mão, fiscalizando e chamando a atenção de quem não andava na linha, jogava galinha viva para o alto, copulava animadamente entre as fileiras de cadeiras ou conseguia penetrar na sala escura arrombando a porta de saída. O lanterninha era um guarda noturno da noite virtual das salas de cinema e foi extinto pelo competente e sempre alerta, obediente, positivo operante autopoliciamento imposto pela sociedade dita contemporânea e suas várias patrulhas espalhadas por aí.

O rico portifólio de lendas urbanas cariocas (queimaram esse portifólio? Por onde anda?) conta uma célebre história que muitos juram que teve como palco a sala escura do cinema Comodoro, na Tijuca. Andei frequentando meio que compulsoriamente o Comodoro por duas razões: namorei uma tijucana na adolescência que, linda e inteligente, merecia os dois ônibus e uma barca que eu pegava para ir e mais dois ônibus e uma barca para voltar, totalizando umas três horas de viagem. No começo foi como todo começo. Praça Sanz Peña, cachorro quente, sorvete, discretos amassos atrás de uma banca de jornal fechada e, reação vulcânica, pegávamos outro ônibus e íamos namorar no Comodoro sem sequer saber que filme estava passando. Menores de idade, sabíamos que o porteiro e o lanterninha do cinema eram menos repressores e fingiam que não sabiam que éramos menores de idade e deixavam entrar.

Lembra que escrevi lá em cima que andei frequentando meio que compulsoriamente o Comodoro por duas razões? A outra razão é que estudava Comunicação Social na Estácio que ficava mais ou menos lá perto. Muitas vezes arranjava uma carona em frente ao Jornal do Brasil (trabalhei anos do Departamento de Jornalismo da Radio JB) que me deixava nas imediações do cinema. Uma dessas caronas quem me deu foi o Zózimo, ele mesmo, Zózimo Barroso do Amaral lendário colunista que dizia, sério, estar visitando “uma iguaria na Tijuca”. E numa das vezes que me deixou em frente ao cinema, comentou “uma escapada nesse Comodoro com a coisinha até que é uma boa ideia...”.

Ir ao cinema dependia...na verdade não dependia de nada. Muitas vezes, em vez de pegar outro ônibus no Comodoro e partir para a faculdade (meu trabalho acabava as 19:30 e as aulas começavam as 19:00, ou seja, já estava atrasado) baixava um “hoje não” e entrava no cinema. Até hoje agradeço a Estácio por ter me apresentado ao Comodoro, onde vi uma montanha de filmes que foram fundamentais em minha formação existencial e, posso falar?, intelectual.

No final do curso, numa dessas decisões de última hora, entrei no cinema e estava passando “Em Algum Lugar do Passado”, de Jeannot Szwarc, com musicão acachapante de John Barry. Com o andar do filme fui afundando na cadeira de tanta emoção, numa noite em que o lanterninha não precisou trabalhar. O filme era mais forte do que tudo. No final eu estava pronto para uma crise de choro quando, bruscamente, assim que o filme acabou acenderam as luzes. Muita gente enxugava os olhos e eu flagrado por aquele lumiar artificial repentino, engoli as emoções como sonrizal sem água.

Na saída encontrei com um dos mais lúcidos (???), inteligentes e tresloucados cronistas do Rio, Carlinhos de Oliveira (assinava com pompa José Carlos de Oliveira, diariamente no JB) que vivia lutando contra o alcoolismo que o perseguia desde a encarnação anterior, diziam as péssimas línguas. Seria ele? Um cara que tinha pinta, roupa e alma de Zona Sul, ali na Tijuca? Dia de semana? Cedo da noite? Vi que era porque, como um tiro de fuzil, ele andou reto, reto, reto até um bar onde pediu dois martelos (doses de cachaça).

Fui atrás e quando cheguei no balcão do botequim disse “trabalho na Radio JB, que também fica no sexto andar”. Pedi uma meia Malzbier para me enturmar, apesar de não gostar de bebida nenhuma (acabei golfando no banheiro). Carlinhos tinha a tecla “Gonzaguinha” e era só apertar para ele se tornar rancoroso, azedo, amargo, negativista, como o próprio cantor rancor. Ele fez uma cara de contrariado, mas a minha ideia não era tietar e nem fazer social.
Eu só queria saber o que ele tinha ido fazer na Tijuca já que mulher não era motivo pois o mantra cantado no Jangadeiro, power point das cabeças bebantes dizia que Carlinhos não come ninguém porque mulher não gosta de homem mal humorado.

Como acho que todo sado também é maso decidi das uns coices ao léu e Carlinhos começou a dar assunto. Já bêbado (com um martelo apenas; com o tempo baixam as doses sobem os porres e, segundo Jaguar, “é quando já estamos surfando no juízo final”) disse que estava tentando escrever sobre um cara que ia assistir a todas as sessões de “Em Algum Lugar do Passado”, em todos os cinemas possíveis, para afogar uma dor de corno. Naquela semana o sujeito estava se metendo no Comodoro, mas ele, Carlinhos, não conseguia localizar para conversar e fazê-lo personagem de uma crônica. Aquela noite seria a última tentativa porque “eu tenho mais o que não fazer”, esbravejou o ébrio cronista. Até perguntei “se eu achar o cara, quer que te avise?”. Delicado, Carlinhos rosnou “não”. Pensei “ah é, meu chapa, quer entubar um robalo? Pois sou repórter você, não...”.

Comecei a caçar o cara e a gostar da história do homem que ia afogar dor de corno com overdose de cinema, apesar de, no íntimo, acreditar (hoje mais ainda) que música, cinema, livros e praia curam qualquer doença. No dia seguinte, mais cedo, fui ao Comodoro, conversei com o pessoal procurando saber se havia um sujeito que ia a quase todas as sessões de “Em Algum Lugar do Passado”, etc etc etc. O porteiro ficou de ver mas o lanterninha, que passava por perto, ouviu e sussurrou no canto do meu ouvido: “a informação tem recompensa? O cara fez merda? É coisa com a polícia?”. Eu disse que não, que era curiosidade minha, mostrei a carteira de jornalista mas garanti dois mistos quentes e bebida “a seu critério”. O lanterninha disse que já havia notado "um cara estranho" e que me ligaria assim que ele voltasse ao cinema.

Dois dias depois, a secretária da redação da Rádio JB chamou alto “Luiz Antonio, linha A. É o lanterninha do cinema Comodoro”. Atendi, ele disse que o cara tinha acabado de entrar no cinema e que o filme sairia de cartaz em pouco tempo. Eu tinha um programa jornalístico na Rádio JB chamado “Vida no Rio” só entrevistando pessoas bizarras vivendo situações surreais, numa cidade cada vez mais boçal etc. Logo, minha pauta era livre. Peguei um gravador, saí. Táxi e cinema Comodoro. 

Cheguei, filme já começado, o lanterninha apontou “é aquele lá na frente, bem no meio do cinema”. Cinema vazio, quatro e pouco da tarde. Sentei perto e fiquei observando. O sujeito mantinha as mãos no queixo, de vez em quando pegava um lenço no bolso da camisa, enxugava os olhos e voltava com as mãos no queixo. Faltavam uns 20 minutos para o filme terminar ele olhou para os lados e começou a sacolejar na cadeira, bronha provavelmente e logo depois ficou quieto, relaxado na cadeira. Não se mexeu mais.

O filme acabou, mas ele não levantou. Nem eu. O lanterninha se aproximou e no meu ouvido comentou “agora ele vai ficar assim, meio dormindo até começar a outra sessão. Se eu for lá ele vai implorar para deixar assistir mais uma. Vai assim até a última sessão. Aí, na última sessão, eu tento acordar, digo que o filme acabou, ele levanta e sai chorando”.

Voltei na última sessão, dei a grana do lanche para o lanterninha e na saída cerquei o suposto voyeur, prevendo uma explosão e até agressão física. Quando eu disse “sou jornalista da radio tal e queria conversar contigo...”, ele me olhou, olhos inchados e disse “ainda bem”. Não entendi, mas fui para aquele botequim do Carlinhos onde sentamos numa mesinha de madeira velha com toalha quadriculada de plástico.

Professor do ensino médio, bom em literatura, boa fala, ele concordou em contar desde que eu me comprometesse a publicar o nome dele e da mulher que “me atirou no precipício”. Topei e disse que o texto sairia no Pasquim mas sem complicar perguntei logo: “por que você assiste “Em Algum Lugar do Passado” todos os dias, todas as horas?”. Ele respondeu claramente: “porque eu preciso me convencer que um amor quando acaba não tem volta. Esse filme é certeiro. O personagem perde a personagem porque ela não existe, logo o amor também não. Mas com medo de que no final os dois acabassem reatando, eu nunca assisto até o fim...eu me masturbo antes do fim e durmo...aí vem o lanterninha e diz “o filme acabou”. Eu finjo que não entendo e ele repete “o filme acabou”. Peço para repetir, de novo “o filme acabou”. Eu saio dali martelando “o filme acabou”, “o filme acabou”, “o filme acabou”, eu me convenço. Fico mais aliviado, não dou nenhum espaço para a maldita esperança porque o meu filme com aquela mulher acabou mesmo, mas a esperança insiste em rebobinar.

Perguntei se aquele ritual estava fazendo efeito, ele disse “com certeza, agora a esperança só volta dois dias depois. Antes logo que saia a esperança me torturava com aquela conversa “tudo vai dar certo, tudo será como antes” e tome sofrimento, tristeza. A tendência é que, de “filme acabou” em “filme acabou”, minha doença desapareça. Conversamos um bom tempo.

Agradeci. Ele perguntou se eu iria publicar eu disse que a chefia ia dar uma avaliada. Mas naquele momento decidi não escrever nada para não reativar a esperança, logo, a doença daquele homem, que já estava quase curado. Jamais comentei o assunto com Carlinhos de Oliveira que, acho, ficou sem saber até a sua morte em 1986. 

Quando o seu filme acabou.






sábado, 29 de setembro de 2018

Brasileiro não sabe votar


Preconceito e lenda quando se juntam explode tudo. Inventaram que o brasileiro não sabe votar porque em muitos cargos eletivos (todos?) há porcos e ratos em profusão. Uma verdadeira infestação. Inventaram que brasileiro não sabe votar porque parece que justifica a imundície, quando sabemos que é pura balela.

O brasileiro sabe votar, sim. Trabalhador, esperto, inteligente, inventor do mito internacional chamado jeitinho, o brasileiro vota em quem dá mais para o país, para o estado, para a cidade, e, em muitos casos, quem dá mais para ele. Muitos brasileiros vendem o seu voto. E daí? Só copiam o que veem na TV; políticos metendo a mão, indo em cana, para logo em seguida ganhar a liberdade graças a carcereiros de grife.

Existe um bando de medíocres que fede a intelectuais que atravanca a evolução do Brasil desde 1808. Esse bando é metido a corretinho cheio de regulamentos, ética de bordel, frases feitas. Como não produz nada (morcega em cargos púbicos) o bando de parasitas passa dias e noites policiando a vida alheia, checando quem agiu como xenófobo, hidrófobo, a bordo de uma soberba que garante o status de “camburões eleitorais”.

Imbecis, esquecem de olhar para a própria rosca e de tanto policiar, perseguir, ofender, julgar, condenar acabam dando uma eleição de presente para os Crivellas da vida porque em vez de divulgar seu candidato (também ameba, diga-se) gastaram toda a energia esculachando o bispo de merda. Quando o bispo de merda venceu, o bando repetiu o mantra “brasileiro não sabe votar”.

Há quem não saiba votar por causa desse bando que, fingimos que não sabemos, também vende votos na base da pressão, do terror. Muitos deles estão enrolados até o talo em caixa dois, corrupção, mas em bloco tentam desmoralizar o fato, taxando de golpe. O brasileiro que não sabe votar não entende quando vai preso por roubar uma galinha e o bando continua livre cacarejando na TV, depois de assaltar galinheiros inteiros. Indignada e calada a maioria silenciosa vai votar em quem der mais e ponto final. Ou então num conhecido, indicação de amigo, por aí vai.

Não existe pecado onde reina a esbórnia.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Sopa de cabeça de bode

Não adianta, minha amiga. Não é para entender o título que os Stones deram ao álbum lançado em agosto de 1973. “Goats Head Soup”, que nada mais é do que Sopa de cabeça de bode.

Ia escrever sobre “'Tropicalinha, Caetano e Gil para Crianças” de Pedro Henrique Lopes com direção de Diego Morais, um musical que adoraria levar minhas filhas e filhos, mas como não os tenho dá vontade de pegar uma criança emprestada para me acompanhar. Estou muito a fim de ver. Mas a minha timidez não permite que eu entre num teatro sozinho para assistir a um musical para crianças.

Mas pelo que li, é bom. Sinopse: Tropicalinha mostra como a amizade e parceria profissional entre dois músicos deram origem à criação de um movimento cultural que influenciou e influencia até hoje as mais diversas manifestações artísticas. Em cena, o Reino de Pindorama, governado por uma rainha autoritária que toma o poder e baixa decretos proibindo a música e as cores no lugar. Dois amigos, Cae e Gil, se unem para trazer sons e cores de volta ao reino, em alusão ao movimento tropicalista.

Deve ser legal. Um amigo me conta que a sua super sobrinha foi e adorou. Ela tem dois anos e meio, mas é esperta e inteligente pra cacete. Se esbaldou também em “Beatles para crianças”, onde uma banda toca Beatles na real, maior pauleira, nenhuma versão “infantiloide” e as crianças deliraram. Deliraram porque elas curtem cores e sons livres e talvez entendam como ninguém o verdadeiro significado da enigmática Sopa de cabeça de bode, senha stoneana.

Aias, se alguém nesse coliseu de leitores puder tirar uma dúvida, agradeço. Sempre li (não li nem leio pouco sobre Tropicália) que a ditadura obrigou Caetano e Gil a raspar a cabeça quando estavam presos no quartel de Deodoro, em 1969, para não dizerem que foram violentado etc. De fato não foram já que a violência maior estava justamente na prisão por “ofender o hino nacional” além de fazer música, cores, gestos livres. Vamos a dúvida. 

Os livros dizem que eles não rasparam a cabeça, especialmente quando foram ao programa do Chacrinha para mostrar que estava “tudo bem”. Foram lá, cantaram e voltaram para a cadeia do Exército. Só que me garantiram recentemente que os dois foram raspados, sim. Alô, Marineca! Alô, Gildinha! Alô, Marcelão Fróes! Alô, Nélio Rodrigues, Célio Albuquerque, Carlos Calado, Chris Fuscaldo, Caíque Fellows, qual foi a real?

Isso aí.



segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Whatsapp


Jamais a civilização dispôs de tantos meios de comunicação como hoje. Ao mesmo tempo, jamais se comunicou tão mal e porcamente. A comunicação que sempre estreitou as pessoas hoje levanta muralhas, alimenta afetos digitais, sem alma, sem voz, sem nada.

Quando os homens se comunicavam com sinais de fumaça, trocavam muitas informações. Depois, na Grécia antiga, um papel que passava de mão em mão de vizinhos de vilas, falando das notícias de cada um, acabou criando o jornal impresso, consagrado por Gutenberg quando inventou a imprensa no século 13. Pombo correio, carta, telegrama, rádio galena, telefones antigos, a comunicação era pobre em tecnologia e rica em conteúdo, as pessoas aproveitavam o que podiam para se expressar.

Há anos o novo homem elegeu o whatsapp meio de comunicação que, as vezes, chamo carinhosamente de meio de descomunicação. A culpa não é de quem inventou, lógico que não, mas do abuso (previsto) por parte de muitos usuários.

Como muitos não sabem escrever decentemente, mensagens truncadas acabam gerando mal entendidos e até rompimentos. Lembro que em 2015 um executivo fez uma campanha para divulgar um importante congresso no Rio, que trouxe centenas de pessoas de bom tom. Conversando o tempo todo pelo whatsapp ele dava ordens para a equipe, pautava tarefas, enfim, o cara só existia digitalmente. Pensou numa campanha para divulgar o congresso baseada numa frase: “Brasil, país das picanhas e caipirinhas”. Afinal viria, como veio, muito gringo. Só que na hora de enviar a mensagem para os publicitários, via whatsapp naturalmente, o corretor ortográfico da engenhoca entrou em cena e a frase saiu assim: “Brasil, país nas piranhas e caipirinhas”. Foi um vexame nacional. Os publicitários acharam que o sujeito tinha tido “uma ideia transgressora, ousada, genial” e por isso mandaram imprimir tudo. Na verdade, o que se descobriu depois, é que parte deles sequer leu o tal “zap” e outro grupo achou que era piranhas mesmo.

Há dias encontrei um quase amigo que me cumprimentou efusivamente (estranhei) e foi logo dizendo “me separei da Fulana”. Casamento de uma varada de anos, todo mundo achava que eram siameses inseparáveis, rolava o maior link. Claro que devo ter feito uma expressão de susto, mas ele logo atacou “foi tranquilo, tudo muito civilizado, praticamente resolvido pelo whasapp. Me assustei, “vocês terminaram um casamento de quase 20 anos pelo whasapp?” e ele emendou que “não foi bem assim, foi quase, começamos a falar que não dava mais pelo whatsapp e a conversa foi indo, indo e terminamos numa boa”.  Na verdade, ele se apaixonou por uma mulher 30 anos mais nova e de whatsapp em whatsapp em uma semana resolveu tudo.

Muita gente é demitida pelo whatsapp, outros são promovidos, médicos dão consulta e até saiu nos jornais a mensagem digital do veterinário para o dono de um cachorro que estava internado em sua clínica. “Infelizmente o seu cão veio a óbito. Favor passar aqui para acertar honorários e cremação. Att Dr. Beltrano”. Pior: o dono do cachorro respondeu e acabou negociando preços e tudo mais por onde? Pelo whatsapp.

Há inúmeros mal entendidos, em geral por culpa de usuários fracos em texto e também por causa do corretor. O cara pergunta “você acha que eu devo tomar essa atitude?”. Só que, ainda respondendo a uma conversa anterior, o interlocutor diz “corno merece ir pro cacete”. Em seguida a tentativa de emenda “estava respondendo ao papo anterior, sobre Dom Casmurro, não falei de você.” 

Não adiantou, foi bloqueado. Vida que segue, nas coxas digitais.
Conheço um sujeito que acompanhou toda a construção de sua casa em Angra pelo whatsapp. E se orgulhava. Ia lá muito de vez em quando. Claro, muitas relações começam no virtual e acabam no real, algumas do real migram para o virtual. Tudo isso num aplicativo que não permite sequer que a pessoa dê um tempo. Não pode. É ficar ou sair fora. Piadinhas disparadas as 3 da manhã por boêmios e boêmias, outras disparadas as 7 por madrugadores, aí você tira o som daquilo mas não adianta. É bom dia, boa tarde, boa noite, feliz dia das ostras, etc.

Ate quando?


domingo, 23 de setembro de 2018

Grades invisíveis (?)


Estou relendo “O Homem e seus Símbolos” (1875-1961), clássico do psicanalista Carl Gustav Jung, que aborda em profundidade a questão dos arquétipos, delírios, possibilidades, barreiras existenciais, o poder esclarecedor dos sonhos. Jung rompeu com seu mentor, Freud, que via no sexo a causa (direta ou indireta) de todas a neuroses. Jung não concordava, tinha uma visão mais voltada para o trabalho do inconsciente, onírica, etc. Mas, posso falar? Leigo que sou, desde a adolescência usuário de psicanálise de várias escolas, sempre achei que neste quesito Freud tinha razão. O sexo é a essência da vida. Ponto. 
Dele depende, inclusive, a sobrevivência do amor. Ponto.

O maior feirão de fantasias da história da civilização está a poucos centímetros de pelo menos quatro bilhões de pessoas que acessam a internet. Ofertas, propostas, convites, tentações. Por outro lado, o medo, o travamento do politicamente correto, os regulamentos, a castração e, em oposição, a obsessão de querer realizar o impossível, o utópico, o inatingível.

Em 1970, David Crosby compôs uma canção chamada “Triad” sobre um menage a trois. Um cara e duas mulheres. Desde o quilometro zero da civilização, menage a trois é a fantasia de bilhões de pessoas, seja no formato homem/mulher/mulher, como na configuração mulher/homem/homem. Sempre existiu. Em especial na Roma antiga.

O erro é que contrariando a sua natureza, tem gente que se atira nessa experiência e sabe-se lá como saem do outro lado. Em geral espatifados, moídos, detonados. Dois filmes do genial Luis Buñuel deixam essa questão do extremismo existencial (?) bem clara: “A Bela da Tarde”, de 1967, e “O Fantasma da Liberdade”, 1974.                                                       

As toneladas de liberdade oferecidas pelo computador a poucos centímetros pode reacender aquela equação levantada pela psicanálise tradicional: repressão=pervesão=psicopatia social. Pode reacender, ou não? Em muitos casos, as fantasias não realizadas (sexuais ou não) se transformam em patologias porque, até segunda desordem, nosso inconsciente detém o comando de boa parte de nossas ações ou das “não ações” e como, em tese somos saudáveis, temos a “obrigação” de decidir o que o se deve fazer e, sobretudo, o que não fazer. Viver fantasias? Qual o problema? Ser obrigado a realizá-las? Que problemão.

Fantasia é fantasia. Por que temê-la? Exemplo: paixão platônica, sentimento alimentado por “prováveis possibilidades” que concretamente não existem. Que mal há em acordar e dormir pensando numa pessoa que sequer conhecemos? Mal nenhum. Desde que saibamos tratar-se de uma fantasia.

Quando uma fantasia começa a se vestir de neurose é melhor abrir a porta e convidá-la a se retirar porque a partir daí entram os perversos personagens, padecimento, escárnio, loucura. Como a cabeça de Cinderela na hora em que a carruagem virou abóbora.

Conviver com fantasias parece ser saudável desde que não se transforme em mania, obsessão, neura. Podemos ter fantasias consumistas como um apartamento de 20 suítes de frente para o mar, um Aston Martin na garagem, tudo bem. O problema é abandonar a vida real trocando-a por um sonho que tem o aroma típico dos pesadelos. O pesadelo de se sentir na obrigação de concretizar fantasias impossíveis.

Quem se permite sonhar, divagar, especular, fantasiar provavelmente não terá confrontos com a sanidade. Os que forçam a barra e resolvem realizar coisas que estão muito acima de sua capacidade de digestão, estão fadados ao sofrimento, condenados a viver atrás das grades invisíveis (?). E os que ficam horrorizados com as suas fantasias, sejam de consumo, de viagem (passar férias na Síria, por exemplo, só para dar uma de exótico descolado), de relações afetivas/sexuais também vão se ver nus diante da loucura.

O fantasma da liberdade cavalga em todos nós. Seja num punk junkie, numa mulher rica que realiza a fantasia de se tornar prostituta de bordel depois do almoço (“A Bela da Tarde”), seja naqueles que acham que fantasias devem se tornar fatos “custem o que custar”.

Como se não custassem nada.


sábado, 22 de setembro de 2018

Lunáticos sociais

                                                    Jean-Michel Basquiat

Perdeu, Baby

Esquecem que a verdade está longe, muito longe de ser absoluta. Atribuição divina, o absolutismo é incorporado pela patética e patológica onipotência dos lunáticos sociais e sua logorreia torpe, vulgo brain damage
Perdeu, baby.

Lunáticos sociais não acreditam que aqui se faz, aqui se paga. Acham que é verborragia de adesivos de nona categoria. Mas o pior, o fatal, é o desprezo a máxima que sentencia: aqui não se faz, mas aqui se paga, sim.
Perdeu, baby.

Esquecem que o limite do egocentrismo é uma muralha de chumbo, conhecida na vala incomum como perda total. Essa malta, a dos lunáticos sociais, cruza a existência jogando gente no esgoto, arrotando as tais verdades absolutas inexistentes, como se o E.T. de Varginha fosse a incorporação do Juízo Final.
Perdeu, baby.

Ignoram que o Juízo Final é quem anota, aponta, processa cada coração, cada grito, cada lágrima desprezada pelos lunáticos sociais, à bordo de sua mixaria existencial que chuta a compaixão, cospe na condolência, ri da piedade.
Perdeu, baby.

É quando o Juízo Final age. A seu modo. E derrama de seu seio iniludível as chamas do justiçamento, grava a ferro e fogo que aqui não se faz, mas aqui se paga sim.
Perdeu, baby.

A verdade segue relativa, a vida segue relativa, o vento sopra relativo, mas o Juízo Final, impávido colosso, anota, anota, anota anota, anota, anota...
Perdeu, baby.




sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Primavera: os molambeiros estão voltando


Andando pelo centro do Rio, destruído por crivella e seus asseclas, o cheiro de mijo não só incomodava como irritava. Coisa de molambeiro, bípede que não mora onde mija, não tem educação, qualquer relação afetiva com a cidade onde está e, por isso, cospe no chão, atira lata de cerveja junto ao meio fio, enfim, essa mamífero urbano deveria ser estudado em profundidade porque, diz a minha tosca intuição, que ele pode ser o tal elo perdido entre o homem e o porco.

O molambeiro não tem sexo, cor, classe social, nível de instrução. É uma bola de sebo rolando pelas cidades, saltitando merda para todos os lados e atualmente tem como veículo preferido a motocicleta, em geral equipada com um tal de baú onde alguns carregam cachaça, cheirinho da loló, crack e outros aditivos muito comuns a espécie. Se um dia a polícia fizer seis meses de asfixia (blitz permanente) nas motocicletas, a segurança pública vai melhorar muito porque além de baderneiros, escroques sociais, paladinos da imundície, muitos são bandidolas, trabalham para o tráfico, milícia e afins. Eles difamam os bons motociclistas, que usam moto para o trabalho, lazer civilizado. Em Bogotá (Colômbia) a prefeitura proibiu, poucos meses atrás, a circulação de motos de até 200 cilindradas com garupa. A bandidagem levou um tombo. No Brasil? Nada é feito.

Molambeiros gostam de andar em bandos e contrariando normas internacionais de segurança, andam de motocicleta sem camisa, calçando chinelos de dedo, capacetes idem, cano de descarga cortado (barulho infernal) e em zigue zague entre os carros.

Em Niterói, o point da molambada na primavera/verão é a praia de Itacoatiara, onde os molambeiros encontram molambeiras com quem copulam e perpetuam a espécie. Recentemente Itacoatiara virou moda entre eles e entrou na rota da barbárie desses animais que na primavera e verão, geralmente sem documentos, invadem o bairro fazendo enorme barulho, fazem xixi em qualquer tronco de árvore e enchem de cocô e latas de energético genérico na bizarra restinga da praia que tem mais de dois metros de altura, servindo de refúgio para os meliantes. Eles já invadiram Charitas, Adão e Eva, Itaipu, Flechas, Boa Viagem.

Na praia, fumando maconha malhada, jogam futebol (altinho) na beira d’água (velhos e crianças que se danem), dão saltos mortais as gargalhadas no mar onde mais uma vez aproveitam para fazer xixi e cocô aos gritos de “hahahaha....tá dominado, rapá....hahahahaha”. Na areia, funk, pagode e sertanejo aos berros naqueles equipamentos de som chineses, com porta USB por onde a diarreia musical transita.

Os moradores locais? Se borram de medo. Itacoatiara é bairro de classe média e um dia já foi o must do verão em Niterói, e como toda a classe média, tem pavor dessa molambada com cabelo à Neymar, moto na mão e muita bosta na cabeça. Os locais dizem que “os estrangeiros são perigosos e acham que a praia é deles”. Claro que a praia é deles. A praia, o bairro, a cidade, o país.
Fato é que cada vez mais zonzo com o cheiro de mijo, andando numa cidade que estupra com o IPTU, conta de luz, água, telefone, tenho que aturar esses molambos que em menos de duas horas defecam tudo. Uma eficiência rara.

Com certeza não ia acabar bem se eu pegasse um molambo desses defecando em frente a uma creche (para eles tanto faz). Aliás, é por isso que não tenho ido a praia sábado e domingo, onde a civilidade é minoria absoluta. 


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Absolutamente imperdível! The Fabulous Tropical Acoustic Band dia 30 no Teatro Ipanema


Como não estar lá?
Mas reserve o seu ingresso porque o teatro e pequeno.

A giga assessora de imprensa, Ana Paula Romeiro, me avisa:

Convidados muito especiais, que formam a The Fabulous Tropical Acoustic Band (The Fabulous TAB), vão fazer parte da comemoração dos 50 anos do Teatro Ipanema (viva ele!), no próximo dia 30 de setembro (domingo). O Teatro foi palco de resistência, criatividade, desbunde, quando o Rio era muito mais carioca e achava que a existência de um crivella da vida era conversa de bad trip de ácido.

A Fabulous TAB tem como integrantes a seguinte alcateia: Evandro Mesquita, Arnaldo Brandão, Dadi e Billy Forghieri. Juntos resgatam músicas dos anos 70, que tinham e têm o poder de mudar vidas, cidades, países. Canções que inspiraram gerações de músicos em todo mundo. The Fabulous TAB é pólvora dessa fogueira que continuará acesa por puro prazer de conexão com uma época mágica. 

A banda interpreta com versões acústicas e arranjos personalizados músicas de Pink Floyd, Bob Dylan, Rolling Stones, Bob Marley, The Who, Led Zeppelin, Hendrix, Ray Charles, JJ Cale, Otis Redding entre outros do mesmo naipe. Sentiram? 

É um reencontro de amigos com a mesma cumplicidade e sintonia musical e existencial.  Um show feito com muito prazer. The Fabulous TAB:

Evandro Mesquita: Ukulele, Harmônica e vocal.
Arnaldo Brandão: contra baixo e vocal
Billy Forghieri: teclados e vocal
Rogério Meanda: violão
Ralph Canetti: violão, Gaita e vocal
Mafram do Maracanã: Percussão
Alexandre Griva: Baterista
Dadi - Eduardo Magalhães: Violão e Guitarra
  
Serviço:
Comemoração dos 50 Anos do Teatro Ipanema.
EVANDRO MESQUITA & THE FABULOUS TAB
Data: domingo, 30 de setembro
Horário: 19h
Valor do Ingresso: R$ 60,00 inteira, R$ 30,00 meia
TEATRO IPANEMA
Telefone da Bilheteria: 2267-3750 e 3518.5220 (aberta 01h antes do espetáculo)
Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema – RJ - CEP: 22.420-040 –
Metrô: Estação Nossa Sra. da Paz – saída Rua Joana Angélica
§ Único: A Bilheteria do Teatro Ipanema é aberta de quinta a terça, sempre uma hora antes do início do espetáculo que estará em cartaz naquele determinado dia da semana.
Contatos do Teatro - José Carlos Della Vedova
Gestor e Diretor Executivo
+ 21 99306-0402                    



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Bananas ao vento


As notícias golfam do computador como tempestade de bigornas, foices, ferro de passar a carvão. É só pancada, baixo astral, coisa ruim, mas filosoficamente pensando no banheiro, fazendo barba de manhãzinha, lembro que até a anta do juízo final sabe que notícia ruim sempre frequentou o cardápio principal da família brasileira. Explica, mas não justifica. Sabemos disso. Fazer o que?

A primavera começa sábado. É uma estação meio dissimulada, não assume que é escrava do verão apesar das altas temperaturas, do asfalto mole. Mas, compensando, os shortinhos enfiados ganham as ruas mas só os invisíveis podem contemplar para não serem denunciados por assédio. Mais: por do sol deslumbrante, onibus apinhados com gente na capota, arrastões, brisa noturna nas areias desertas, pequenos impérios do coitus ininterruptos, como resumiu o baiano pai da tropicália quando cantou “Um poeta desfolha a bandeira/E eu me sinto melhor colorido/ Pego um jato, viajo, arrebento/Com o roteiro do sexto sentido/ Faz do morro, pilão de concreto/Tropicália, bananas ao vento.”

Em outubro tem eleição e muita gente acha que o fim do mundo será café pequeno perto da efeméride. Oportunista, o mercado financeiro e suas piranhas aumentam o dólar, derrubam a bolsa eufóricos, loucas, doidas, piranhas de terno, gravata e baby doll trancado no armário, ao lado do pote de cocaína de Vaz Lobo e da garrafa de Johnny Walker Blue de Pau Grande, RJ.

Os jornais anunciam que os corruptos vão ser os mais votados, como se fosse novidade. Os corruptos se elegem as gargalhadas porque compram os votos, como peruas de meia idade deslizando pelo VillageMall (a grafia é esta, village colado no mall). Esses políticos escolhem uma região, pagam a metade da bolada antes da eleição, e a outra metade quando ganham. Vai depender da contagem de votos. Há ainda os mais tímidos que preferem contratar traficantes de drogas e milicianos que fazem o serviço a maneira deles, sem expor diretamente o político, salve simpatia! não votou, morreu. Mas a primavera vem aí.

Depus as armas, não vou mais brigar mais com a primavera nem com o seu amante de beliche, o verão, já que me senti solitário demais no bloco do eu-amo-o-frio-do-inverno-especialmente-debaixo-do edredon-de-êxtases-da-loba. Parece que gostar de inverno não é de bom tom, especialmente aqui nesses trópicos surubáticos que fizeram Cristóvão Colombo fingir que não viu o Brasil para não ter que descobri-lo, debaixo daquele calor infernal. Deixou a bomba para Pedro Álvares Cabral (primeiro Cabral da dinastia de estupradores de cofres públicos) e foi descobrir a América do Norte, céu claro, 19 graus.

Esses dias, mais uma vez, houve um princípio de pancadaria em torno do velho tema urna-eletrônica-não-é-confiável, como se fosse possível urna confiável, seja eletrônica, de folha de banana, de papel higiênico Tico Tico, numa terra de assaltantes, náufragos e degredados que acabaram cruzando com a escória do Reino da Ibéria inventando o homo brasilis.

Pensei em escrever para Beto Guedes sobre “Sol de Primavera”. Começara essa crônica (???) com a música e depois com uma mistura de show da Xuxa com bacanal no reino encantado de Benfica, uma performance. Ia ficar botininho. Antes de começar o texto, um podcast com a voz tremula do bardo mineiro anunciando “quando entrar seteeeeembro/ e a boa nova andar nos caaaaampos/” que todo mundo ouvia de mãos dadas aplaudindo o por do sol do Arpoador, vulgo Arpex, chorando diante do belíssimo (é sim!”) poema do niteroiense Ronaldo Bastos que Guedes musicou. Abrir com essa música seria uma mensagem de amor, incentivando a coragem a bordo de frases de auto ajuda do tipo “quem tem Winston Churchill não teme vara no lombo”.

Olhar colírico/ Lirios plásticos do campo e do contracampo/ Telástico cinemascope teu sorriso tudo isso/ Tudo ido e lido e lindo e vindo do vivido/ Na minha adolescidade/Idade de pedra e paz (Veloso, Caetano - 1969).


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

São Paulo, 14 de outubro de 2018


Os paulistanos de bom gosto estão mais excitados do que cobra em areia quente. Afinal, no dia 14 de outubro (domingo), o australiano Nick Cave e sua banda The Bad Seeds volta a tocar em Sampa (depois de 30 anos) no Espaço das Américas, que fica na Barra Funda. Será uma apresentação única no Brasil e quem quiser assistir é bom correr porque os ingressos estão voando. Para comprar é só clicar aqui: http://www.ticketload.com/events/popload-gig-com-nick-cave-and-the-bad-seeds-sao-paulo-617

Aos 61 anos, Cave está no melhor momento de sua carreira. Ele é músico (piano, teclados, guitarra, violão), compositor, escritor, argumentista e, ocasionalmente, ator. É reverenciado por seu trabalho no rock,  onde aborda com coragem temas sensíveis e polêmicos como religiãomorteamorAmérica e violência.

Com 16 álbuns lançados desde 1984 ele luta pela qualidade musical, sempre preocupado com a saúde intelectual e emocional das novas gerações. Para ele, a música exerce um poderoso papel na formação das pessoas, principalmente a partir da adolescência.

Mais: no dia 30 de setembro (domingo) vão ser exibidos no Caixa Belas Artes Cultural, também de São Paulo, os filmes “Do You Love Me? - Especial Nick Cave", "20.000 Dias na Terra" e "One More Time with Feeling"!. Cave fez uma aparição em “Os Belos Dias de Aranjuez” do consagrado diretor alemão Win Wenders.

Apesar de ser o nome mais destacado do Bad Seeds, foi a banda que, tanto em estúdio como ao vivo, e com suas diferentes formações, transformou o cantor no artista que ele é hoje. Essa fusão de talentos e colaborações entre os músicos fez do Bad Seeds um dos grupos mais importantes de todos os tempos, lotando arenas pelo mundo. A discografia da banda é composta de diversos clássicos, como Push the Sky Away (2013), o confessional e doloroso The Boatman's Call (1997), Let Love In (1994) e o complexo Murder Ballads, de 1996, o de maior sucesso comercial e que contém suas composições mais famosas, como "Lovely Creature", "Henry Lee" e "Where the Wild Roses Grow", as duas últimas em duetos bem sucedidos com PJ Harvey e Kylie Minogue, respectivamente.

Já lançaram 16 álbuns, sendo o último o excelente Skeleton Tree, de 2016, carregado de letras que discutem perdas e luto e que serve de base para os shows intensos desta turnê. Dividindo-se atualmente entre relançamentos, trilhas e a turnê mundial, Nick Cave protagonizou ainda um filme que mostra na íntegra um dos seus shows mais emocionantes do ano passado, na Dinamarca. “Distant Sky” teve uma sessão única transmitida em vários cinemas do mundo, incluindo o Brasil. No ano passado, lançou a coletânea Lovely Creatures - The Best of Nick Cave & the Bad Seeds 1984 - 2014

Ver Nick Cave & The Bad Seeds ao vivo, pelo menos uma vez na vida, é uma experiência fundamental. 

domingo, 16 de setembro de 2018

Cena de Cinema


Lembro tão bem que sinto um nó na garganta. Depois de dois dias esperando uma ligação telefônica que não veio, fui ao cinema assistir “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg.

História real. Ao desembarcar na Normandia, no dia 6 de junho de 1944, o capitão Miller (Tom Hanks) recebeu a missão de comandar um grupo para o resgate do soldado James Ryan, o caçula de quatro irmãos; três haviam morrido em combate. Ryan estava dentro das linhas inimigas.

A medida em que o filme foi desfilando na telona comecei a me identificar muito com o capitão Miller e lá pelas tantas, no auge da história, o nó na garganta se tornou choro compulsivo, que consegui disfarçar bem. Eu acho. Quando o capitão Miller, já em agonia, disse para Ryan “faça por merecer!” (quem assistiu o filme sabe o peso dessa frase) meus olhos estavam desfocados de tantas lágrimas. Era 1999. Vi o capitão Miller em mim e me vi no capitão Miller. 

O Cinema, a Literatura, a arte em geral tem esse poder, essa magia, essa força que nos joga nas telas (e nas páginas) para onde transportamos nossos momentos e os vemos incorporados em outros. No dia do “Soldado Ryan” percebi que muita gente chorava diante da carga que o monumental Spielberg despejou na tela. Provavelmente muitos se sentiam o Ryan, ou a mãe dele, ou os irmãos.

Um dia desses criei uma micro coluna chamada Cena de Cinema, no Instagram e quem quiser conhecer é só entrar, acesso liberado. Nela, cito filmes que gostei, com data e diretor. Em alguns senti necessidade de publicar poucos detalhes e para a minha orgásmica surpresa notei que tem muita gente curtindo. O que era para durar um dia, acabou ganhando asas e publico até hoje.

Foi fazendo essa micro coluna digital que reafirmei o quanto o Cinema foi, é, e será importante nas nossas minha vidas. O Cinema transforma em imagem, áudio, movimento, muita coisa que sentimos (ontem e hoje) e vamos sentir, individual e coletivamente, passando a impressão de que a maioria dos temas mundiais, de novo individuais e coletivos, já foram colocados na telona. Foram ou vão ser. O Cinema é um gigantesco documentário sobre nós. Seja comédia, ação, drama, suspense, terror. Seja brasileiro, americano, europeu, asiático, mexicanos, do Oriente Médio.

Tempos atrás fui escalado para participar de uma entrevista coletiva com Catherine Deneuve no Copacabana Palace. Foi em 90 e tal. Ela era mais do que diva. Quando assisti “A Bela da Tarde” (de Luis Buñuel), um gigantesco ícone da minha adolescência, Catherine foi promovida a condição de concubina inconsciente e quando o carro de reportagem se aproximou do Copacabana Palace pensei “vai ser bom conhecê-la porque a verei de dia, normal, sem maquiagem de set de cinema, sem falas ensaiadas, não verei o mito e sim a pessoa.”

Errei.

Quando ela apareceu no salão, com aquele charmoso atraso de 20 minutos, eu vi a bela da tarde. Baixinho sussurrei “caramba”. Um colega do Estadão disse, não muito baixo, “eu não acredito”, todos estávamos aturdidos. Se não me engano ela veio ao Brasil divulgar “Genealogias de um Crime”, de Raúl Ruiz.
Éramos uns 15 jornalistas, a maiora mulheres e até ela sentar ostentando um belo e discreto (na medida) sorriso, ficamos mudos.Todos. Até que a entrevista começou, trivial, simples, “do que trata o filme?; onde foi feito?”, etc etc etc. Através de uma intérprete ela respondia calmamente, e como a entrevista era modelo americano (o jornalista fica de pé para fazer a pergunta) chegou a minha vez. “Como foi trabalhar com Buñuel?”, perguntei e sentei rápido. Ela deu um sorriso do tipo “não adianta, não me livro da bela da tarde), ela respondeu na maior elegância.

A entrevista acabou e eu, louco por um autógrafo, fiquei no dilema. Afinal, diziam que jornalista não aplaude nem pede autógrafos, mas o colega do Estadão foi lá e ela assinou. Outros tomaram coragem e, no bolo, também fui. Peguei o autógrafo que, boçalmente, perdi.

Concordo quando dizem que as pessoas não escrevem para que, e sim para quem. É uma delícia ter musa. Acho que em todas as artes é assim, Cinema inclusive. Pergunto: para quem Buñuel fez “A Bela da Tarde”. Para Silvia Pinal? Picasso, sabemos, pintou para Jacqueline Roque, Françoise Gilot e Dora Maar. John Lennon compôs e cantou para Yoko Ono.

Enfim, Cinema não é quase tudo. É tudo.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Liberdade: calça de veludo ou lorto de fora

                                                      Em novembro de 1937 os militares de Getúlio
                                                      Vargas incendiaram 1.694 livros de Jorge Amado numa                                                                                    praça proxima ao elevador Lacerda, em Salvador.

Mais cedo caminhava pela Gávea, olhei para o céu, para o sul e nem sinal de chuva. Foi quando lembrei que o famigerado Estado Novo do ditador Getúlio Vargas proibia a divulgação de temperaturas acima de 40 graus. Rádios e TVs que noticiassem que a máxima tinha atingido 40 graus e um décimo, em qualquer ponto do território nacional (inclusive na adorável Bangu), corriam o risco de serem multadas, ou cassadas. Por que? Porque naquela época a legislação trabalhista obrigava que todos os empregados fossem liberados quando a temperatura ambiente passasse dos 40 graus. Por isso, sempre fazendo meia com o poder, empresários foram a Brasília conversar e, em 1969, no bojo do AI-5, mantiveram a proibição getulista que, cínica, era “informal”. Informal é o cacete.

O site “Plenário MT” publicou um artigo, que comenta: “(...) Em 1955, com o clima político fervendo por causa da eleição de JK e de um movimento golpista para impedir sua posse, o filme “Rio 40 graus”, de Nelson Pereira dos Santos, foi censurado pelo então chefe de Polícia, um coronel, que proibiu a exibição da obra em todo o território nacional.

Além de acusado de promover “a desagregação do país”, por ser comunista e apresentar apenas os “aspectos negativos da capital brasileira”, “Rio 40 graus”, marco precursor do Cinema Novo, era chamado de “mentiroso” pelo militar, alegando que aqui a temperatura nunca ultrapassara 39 graus. O ato truculento e ridículo provocou uma das maiores ondas de protesto de artistas e intelectuais, liderados por Jorge Amado, enquadrado também por causa do seu clássico "Dona Flor e seus Dois Maridos", principalmente pelo triângulo amoroso formado por antagonistas: Vadinho, porrista, vagabundo, mulherengo e Teodoro, médico, sisudo, corretíssimo, recatado, do lar. A polícia achava que o trio era um atentado a moral e aos bons costumes.

A censura mudou de mãos mas continua aí. Nas redes sociais um censura o outro. Antes, décadas atrás, um brigava com o outro mas graças a um acordo “popular” as brigas diminuíram. Criaram o slogan meio machista (mas não sexista, senhores censores!!!!!!) “não se deve discutir política, religião e mulher. Acaba em pancadaria”. A “democracia” que vemos nas redes sociais é do tipo “você pode falar o que quiser desde que seja o que exijo ouvir.” Sim, o tom é autoritário. Da esquerda e da direita. Quando a censura atinge o topo da montanha de insanidades as pessoas se bloqueiam mutuamente, e fim de papo. Não sei que democracismo é esse.

São esses exemplos que me tornam cada vez mais radical na defesa do amplo, geral e irrestrito exercício da liberdade de expressão, de ação, de tudo. Liberdade não tem meio termo, água morna, acarajé sem pimenta, cerveja sem álcool. É calça de veludo ou lorto de fora. Por enquanto, o jornalismo brasileiro (livre das mordaças em 1985), vive em regime, em tese, de auto regulação já que não existe meia liberdade, 90% de liberdade, meia virgindade nem meia canalhice.

Poderosos tem a obsessão de nos empurrar a tal “regulação da mídia” que eles afirmam não ter nada a ver com censura. Como assim nada a ver? A imprensa livre dispensa regulação externa. Qualquer tipo de tentativa de controle, manipulação, freio, é censura. Até segunda desordem.

A liberdade voltou a pauta depois do atentado ao jornal francês Charlie Hebdo, lá em 2015, que tinha como um dos slogans “um jornal irresponsável”. Houve muita gritaria. Até o Papa Francisco se meteu no bate-boca, como mostra essa nota publicada pela BBC:

O papa Francisco defendeu o direito de expressão, mas disse ser errado provocar os outros ao insultar a religião alheia (...)
Para ilustrar seu ponto de vista, Francisco disse a jornalistas no avião papal que seu assistente poderia esperar um soco se ele xingar sua mãe.
"É normal. Você não pode provocar, não pode insultar a religião dos outros", disse ele.”

Santidade, discordo totalmente. A imprensa pode publicar o que quiser, inclusive xingar a mãe, desde que assuma as consequências judiciais, que fazem parte do chamado jogo democrático. Um jornalista mau caráter, safado, achacador, moleque, venal pode acusar alguém de corrupto, de pedófilo, de assassino, mas para isso terá que provar. Com relação a vítima, a legislação é farta. Um processo por calúnia, difamação e similares, rende gordas indenizações, prisão, desmentidos e uma série de outros efeitos punitivos que fazem os jornalistas pensarem duas vezes antes de apurarem mal uma informação. Mais: existem também penas gravíssimas para o caso de ofensa religiosa, racial e afins.

Se um muçulmano se sentiu ofendido pelo Charlie Hebdo em 2015, por exemplo, poderia ter entrado na Justiça alegando ofensa, discriminação, etc e não explodir o jornal matando gente. Em outras palavras, a tal regulação da mídia já existe e está em vigor no Judiciário de todos os países democráticos, entre eles o Brasil.

Logo, que as coisas continuem como estão. Que os meios de comunicação possam seguir livres para informar e, no caso de lambança, levarem um ferro da Justiça. Essa é a regra básica do jogo e assim deve prevalecer.




                                                    

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Classe mídia

Italo Campofiorito
                                                                   Citroen 2 cv

O amigo Ítalo Campofiorito, giga-intelectual (o mais visceral que conheço), tem um Fusca 1982 na garagem de seu prédio no Leblon. Ele me disse uma vez que o melhor carro do mundo é o táxi novo, com ar condicionado. Concordei. Quando vivia em Paris, anos 1970, ele tinha um Citroen 2 cv, xodó dos existencialistas; Jean Paul Sartre teve um, que acabou dando de presente para uma amásia.

Depois, Ítalo comprou um Renault Alpine, mas preservou o 2 cv até voltar para o Brasil. Foi esse meu lebloniano amigo quem me apresentou a Oscar Niemeyer, início dos anos 90, numa célebre tarde em que o mestre da arquitetura decidiu almoçar num restaurante no Flamengo, Rio. Depois do almoço, tive o privilégio de levar meu amigo e Oscar de carona para casa.

Ítalo foi da equipe que projetou e construiu Brasília com Oscar e Lúcio Costa, mas nem por isso abre mão do jeans, dos óculos de aro fino, da eterna aparência sarada de 70 e poucos anos de idade (acho que ele desligou seu taxímetro). Guarda frases geniais e que sempre que encontro com ele quase imploro para repetir, mas o meu amigo nunca se repete. Nunca. Tem um pacto eterno com o novo, tanto que é profundo conhecedor de Frank Zappa.

Esses homens mostram que esse papo de mundo obsoleto, obsoleto mundo é e sempre foi uma babaquice, mas lamentavelmente é assim que funciona uma gorda (obesa) fatia da classe média (ou será classe mídia?) ou a senha “se liga, se liga freguesia, celular é nas Casas Bahia” não teria se eternizado.

Em outubro de 1976, repórter da Rádio Jornal do Brasil, me mandaram cobrir o velório do pintor Di Cavalcanti no Museu de Arte Moderna. Cheguei lá com um gravador alemão Uher da rádio, fita de rolo, som puríssimo e muito utilizado para fazer cinema. Entrevistei várias pessoas, conversei com outras. De repente, do nada, surgiu Glauber Rocha. Descabelado, esbaforido, muito emocionado com uma câmera Bolex de 16 mm na mão. Como ele entrou gritando homenagens ao Di, de quem foi muito amigo, um certo rebuliço aturdiu o velório. Glauber gritava “close na cara do defunto! Close na cara do defunto” e o cinegrafista praticamente trepava no caixão para arrancar os closes da cara do Di Cavalcanti.

Claro, fui entrevistar o Glauber que eu não conhecia mas admirava muito, como admiro até hoje. Aos berros, ele me olhou dentro dos olhos e vociferou “esse aí....o Di... nunca pintou modelinho de revista. Esse aí...o Di, nunca acreditou em arte obsoleta como a minha. Não é isso que falam de mim...hein?!?!”, perguntou, olhos arregalados. Nada respondi. Lembrei de quando assisti “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na terra do Sol”. 

Estava sem camisa no Cinema Um na rua Prado Junior (Copacabana) que fez um Mostra Festival Glauber em 1975, por aí. Para não variar o ar condicionado do cinema estava pifado, para não variar a maioria dos homens estava sem camisa e para não variar uns cinco ou seis estavam só de cueca, um hábito totalmente glauberiano que virou norma naquela sauna. Nos festivais Bergman, Truffaut e Godard a cueca virou traje a rigor para a maioria dos encalorados frequentadores daquele templo do novo cinema na Pradão, rua de belas e muito populares prostitutas. 

Um dia, um homem que se dizia gerente do cinema, de terno, gravata e advogado a tira colo, entrou, mandou acender as luzes e tentou expulsar os seminus. Ninguém saiu, as luzes apagaram e a sessão continuou. Enterraram o assunto. O cara sumiu. O advogado também.

O consumismo nasceu obsoleto porque já carecia de um novo modelo para faturar. O sujeito compra um carro, paga 80 mil, fica todo satisfeito e no semestre seguinte mudam o farol, as lanternas e o câmbio. É trocar ou perder 80% na desvalorização. Em semanas seu “último tipo” passa a condição de ultrapassado. Incomodado, o ex-feliz proprietário arranca sangue das vísceras e troca (perdendo um dinheirão) o “velho” por um novo que, seis meses depois sai de linha para dar lugar a um outro modelo. E por aí vai. Ladeira acima? Ladeira abaixo? Não sei. Não sou economista e muito menos veterinário para entender os pitís (não tem acento agudo no i) da sociedade emergente crônica.

Com celulares, bolsas, ventiladores e ar condicionado é a mesma coisa. O modelito novo é o que vale. Se presta ou não é uma outra história.
Os americanos matavam no Vietnã com M-16, mas os russos ensinaram a fazer fuzis maiores lançando o ultra fashion AK-47 que tem um jeitão meio vintage. Dêem uma olhada nele, empunhado pelo garoto-propaganda e ator Osama Bin Laden. O AK é um fuzil autoral.

Segundo a Wikipédia foi inventado em 1942 por Mikhail Kalashnikov, que morreu em 2013 aos 94 anos. Ele era sargento das forças blindadas soviéticas quando levou um balaço em 1942. No hospital inventou o AK, arma de grife que os traficantes do Rio cultuam como a um disco de funk probidão.

Enfim, é preciso estar muito atento e forte para não ceder a ditadura nada branda dos reacionários que apregoam o estado obsoleto de ser. Até implantes dentários entraram nessa porque, dizem, o parafuso de titânio é melhor do que a coroa de ouro, como li numa revista de inutilidades sociais na antesala do meu dentista, que por sinal é um grande profissional e super gente boa.

Será que um dia haverá homens e mulheres com a validade vencida? Por falar nisso, sabem o que um médico amigo me disse? Que os laboratórios estão reduzindo de propósito a vida útil dos remédios para que a validade vença logo e o consumidor tenha que comprar o modelito em voga, já que não existe, por exemplo, antibiótico vintage. Mais: ele me disse que muitos remédios vem com 28 comprimidos porque os laboratórios sabem que o médico vai prescrever para 30 dias e o infeliz do consumidor, no comprimido número 28, terá que comprar outra caixa. 

É dose? É.