quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Bonnie



Quando o carro embicou naquela aldeia empoeirada, bela, paradisíaca, a cabeça moída e o corpo cansado agradeceram. De pés juntos. Era verão, um dos melhores verões da minha vida. Pelo menos até o verão seguinte.

Dias antes, o acaso me fez encontrar com três amigos, que foram promovidos a grandes amigos, numa rua qualquer naquela semana. Eu já andava de saco cheio dos ególatras, interesseiros, parasitas que só investem em amizade de conveniência achando que somos tolos. Naquela semana eu estava com a faca nos dentes.

Eles me convidaram desleixada e afetuosamente, “vamos passar o resto do verão naquela aldeia praiana. Alugamos uma casa lá e um dos caras não vai poder ir.”

Comuniquei as férias (vencidas) na empresa, passei em casa, amontei umas roupas. Partimos em dois carros, saindo por volta das 10 da noite, uma viagem que dura duas horas, levamos seis. Paramos em várias biroscas para bater papo. Eu não estava habituado com o saldo positivo de tempo. Naquela noite sobrava tempo, mas as vezes, no meio da conversa movida a gargalhadas sentia a incômoda presença do fantasma da culpa até lembrar que estava de férias.

Na reta final, quase chegando a aldeia, achei que um caminhão vinha em sentido contrário, mas era Vênus, linda, vaidosa, imponente no meio daquele céu azul petróleo banhado de estrelas. Vênus ficou em nosso horizonte alguns mágicos minutos, até dobrarmos a direita numa estrada secundária que levava diretamente a aldeia.

Chegamos e nem desfiz minha mala. Simples. Duas calças jeans, duas bermudas, camisetas, sandália, tênis, sunga, escova de dente, Omo, etc e lá no fundo, bem no fundo, a fita K7 com “Bonnie”, do Supertramp, que havia gravado há meses como uma espécie de mantra que estava perdido. Ela acabava e recomeçava, acabava e recomeçava. Peguei. Peguei e logo que coloquei a rede nos ganchos da varanda, liguei “Bonnie” num micro system de um dos amigos, no meio daquele resto de noite de um lado e início de amanhecer do outro, com direito a brisa soprando e ruído do mar de encontro as pedras perto dali.

Acordei com o sol na cara, quente, implacável. Eram umas 11 da manhã e quase me arrastando fui para o quarto onde liguei na tomada meu bravo ventilador Britania, que morava no porta malas do meu carro. Dormi. Dormi pra cacete.

A tarde, fomos almoçar numa birosca que servia o melhor e mais barato filé de cação da região, com arroz agulhinha e brócolis de acompanhamento. Dali, praia, mar translúcido, areia deserta. Um dos amigos tinha levado o seu pranchão de windsurf, um esporte que existiu entre os anos 80 e 2000, se não me engano. Pusemos a prancha no mar sem ondas, eles colocaram a vela e começaram a velejar. Não sei nem nunca soube velejar porque tenho preguiça de aprender, apesar de achar fantástico. Os caras eram feras e no fim da tarde pararam. Na beira d’água, tirei a vela da prancha, amarrei num pedregulho (como âncora) e deitei de barriga para cima, boiando como Zorba, o Grego.
As 11 da noite retornamos para a casa, a uns 60 metros dali. Eles pediram e para minha alegria dei play na fita de “Bonnie”, que rolou mais um tempão. 

Fizemos e devoramos um churrasco de picanha. Depois, de motos, fomos para uma espécie de centro da aldeia e entramos num dancing bem simples, com frequentadoras locais e também de fora, maioria de São Paulo e Minas.
No dia seguinte, sem dormir, peguei uma das motos e percorri a beira d’água por vários e incontáveis quilômetros, rumo ao norte. A culpa já tinha sido chutada e meu relógio de pulso guardei no porta luvas do carro, abandonado na garagem. Em algum lugar deserto parei, mergulhei, deitei na areia e dormi. Acordei com o sol quase se pondo. Mergulhei de novo. Depois, liguei a moto e retornei. 

E assim o verão “Bonnie” foi cavalgando. Tudo muito devagar. Dias depois já estávamos pretos por causa do sol, e barbudos por desleixo proposital. Numa das noites maravilhosas e transcedentais, quando todo mundo havia saído (com algumas outras garotas do dancing), preferi ficar sozinho.

Deitei a vela da prancha de windsurf no gramado, liguei “Bonnie” e mergulhei nas estrelas e satélites que passavam naquele impressionante firmamento que misturava azul petróleo com prata. “Deus existe”, pensei várias vezes. Pensei e prometi a mim mesmo mudar algumas coisas em minha vida. Alguns comportamentos. Não foi promessa, nem decisão radical. Um mero acordo meu com aquelas noites abençoadas que, de cara, me deram de presente três amigos extraordinários.

Em minha divagação (teria sido meditação?) excluí algumas manias que de fato foram deletadas, menos uma delas: não incomodar ninguém. Tinha essa mania. Tinha e tenho. Naquele mesmo verão fui sozinho a uma praia relativamente movimentada, peguei sol demais e acho que tive intermação. Sei que na hora em que fui mergulhar quase desmaiei e me afoguei. Ali mesmo, no raso. Mas com essa mania de não querer incomodar, não pedi socorro, não chamei ninguém, mas ainda assim fui visto por um gringo que me puxou pelo braço e me levou para a areia. Até hoje penso “será que se ele não tivesse me puxado eu teria me afogado por cerimônia?”. Nesse quesito, piorei, ando cada vez mais radical. Nem a hora pergunto. 

Já me perdi numa megalópole por horas por não perguntar nada a ninguém. Por isso, mesmo a pé, uso o aplicativo Waze. Não pergunto nada, não peço nada, não grito socorro para ninguém, não gosto de ganhar presente porque “dá trabalho a quem compra”. No entanto, quem me conhece diz que sou um mega solidário e prestativo, o que sou mesmo.

Passamos do final do verão lá naquela aldeia, como primatas. Uns 40 dias, não sei bem. Retornamos muito amigos. Um deles seguiu a pé para a Cordilheira dos Andes e o outro pegou um voo para o México, onde estava estudando os peiotes de Carlos Castaneda. Eu e o terceiro amigo ficamos por aqui mesmo e toda vez que nos encontramos falamos de “Bonnie”.

Como não?


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