quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Classe mídia

Italo Campofiorito
                                                                   Citroen 2 cv

O amigo Ítalo Campofiorito, giga-intelectual (o mais visceral que conheço), tem um Fusca 1982 na garagem de seu prédio no Leblon. Ele me disse uma vez que o melhor carro do mundo é o táxi novo, com ar condicionado. Concordei. Quando vivia em Paris, anos 1970, ele tinha um Citroen 2 cv, xodó dos existencialistas; Jean Paul Sartre teve um, que acabou dando de presente para uma amásia.

Depois, Ítalo comprou um Renault Alpine, mas preservou o 2 cv até voltar para o Brasil. Foi esse meu lebloniano amigo quem me apresentou a Oscar Niemeyer, início dos anos 90, numa célebre tarde em que o mestre da arquitetura decidiu almoçar num restaurante no Flamengo, Rio. Depois do almoço, tive o privilégio de levar meu amigo e Oscar de carona para casa.

Ítalo foi da equipe que projetou e construiu Brasília com Oscar e Lúcio Costa, mas nem por isso abre mão do jeans, dos óculos de aro fino, da eterna aparência sarada de 70 e poucos anos de idade (acho que ele desligou seu taxímetro). Guarda frases geniais e que sempre que encontro com ele quase imploro para repetir, mas o meu amigo nunca se repete. Nunca. Tem um pacto eterno com o novo, tanto que é profundo conhecedor de Frank Zappa.

Esses homens mostram que esse papo de mundo obsoleto, obsoleto mundo é e sempre foi uma babaquice, mas lamentavelmente é assim que funciona uma gorda (obesa) fatia da classe média (ou será classe mídia?) ou a senha “se liga, se liga freguesia, celular é nas Casas Bahia” não teria se eternizado.

Em outubro de 1976, repórter da Rádio Jornal do Brasil, me mandaram cobrir o velório do pintor Di Cavalcanti no Museu de Arte Moderna. Cheguei lá com um gravador alemão Uher da rádio, fita de rolo, som puríssimo e muito utilizado para fazer cinema. Entrevistei várias pessoas, conversei com outras. De repente, do nada, surgiu Glauber Rocha. Descabelado, esbaforido, muito emocionado com uma câmera Bolex de 16 mm na mão. Como ele entrou gritando homenagens ao Di, de quem foi muito amigo, um certo rebuliço aturdiu o velório. Glauber gritava “close na cara do defunto! Close na cara do defunto” e o cinegrafista praticamente trepava no caixão para arrancar os closes da cara do Di Cavalcanti.

Claro, fui entrevistar o Glauber que eu não conhecia mas admirava muito, como admiro até hoje. Aos berros, ele me olhou dentro dos olhos e vociferou “esse aí....o Di... nunca pintou modelinho de revista. Esse aí...o Di, nunca acreditou em arte obsoleta como a minha. Não é isso que falam de mim...hein?!?!”, perguntou, olhos arregalados. Nada respondi. Lembrei de quando assisti “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na terra do Sol”. 

Estava sem camisa no Cinema Um na rua Prado Junior (Copacabana) que fez um Mostra Festival Glauber em 1975, por aí. Para não variar o ar condicionado do cinema estava pifado, para não variar a maioria dos homens estava sem camisa e para não variar uns cinco ou seis estavam só de cueca, um hábito totalmente glauberiano que virou norma naquela sauna. Nos festivais Bergman, Truffaut e Godard a cueca virou traje a rigor para a maioria dos encalorados frequentadores daquele templo do novo cinema na Pradão, rua de belas e muito populares prostitutas. 

Um dia, um homem que se dizia gerente do cinema, de terno, gravata e advogado a tira colo, entrou, mandou acender as luzes e tentou expulsar os seminus. Ninguém saiu, as luzes apagaram e a sessão continuou. Enterraram o assunto. O cara sumiu. O advogado também.

O consumismo nasceu obsoleto porque já carecia de um novo modelo para faturar. O sujeito compra um carro, paga 80 mil, fica todo satisfeito e no semestre seguinte mudam o farol, as lanternas e o câmbio. É trocar ou perder 80% na desvalorização. Em semanas seu “último tipo” passa a condição de ultrapassado. Incomodado, o ex-feliz proprietário arranca sangue das vísceras e troca (perdendo um dinheirão) o “velho” por um novo que, seis meses depois sai de linha para dar lugar a um outro modelo. E por aí vai. Ladeira acima? Ladeira abaixo? Não sei. Não sou economista e muito menos veterinário para entender os pitís (não tem acento agudo no i) da sociedade emergente crônica.

Com celulares, bolsas, ventiladores e ar condicionado é a mesma coisa. O modelito novo é o que vale. Se presta ou não é uma outra história.
Os americanos matavam no Vietnã com M-16, mas os russos ensinaram a fazer fuzis maiores lançando o ultra fashion AK-47 que tem um jeitão meio vintage. Dêem uma olhada nele, empunhado pelo garoto-propaganda e ator Osama Bin Laden. O AK é um fuzil autoral.

Segundo a Wikipédia foi inventado em 1942 por Mikhail Kalashnikov, que morreu em 2013 aos 94 anos. Ele era sargento das forças blindadas soviéticas quando levou um balaço em 1942. No hospital inventou o AK, arma de grife que os traficantes do Rio cultuam como a um disco de funk probidão.

Enfim, é preciso estar muito atento e forte para não ceder a ditadura nada branda dos reacionários que apregoam o estado obsoleto de ser. Até implantes dentários entraram nessa porque, dizem, o parafuso de titânio é melhor do que a coroa de ouro, como li numa revista de inutilidades sociais na antesala do meu dentista, que por sinal é um grande profissional e super gente boa.

Será que um dia haverá homens e mulheres com a validade vencida? Por falar nisso, sabem o que um médico amigo me disse? Que os laboratórios estão reduzindo de propósito a vida útil dos remédios para que a validade vença logo e o consumidor tenha que comprar o modelito em voga, já que não existe, por exemplo, antibiótico vintage. Mais: ele me disse que muitos remédios vem com 28 comprimidos porque os laboratórios sabem que o médico vai prescrever para 30 dias e o infeliz do consumidor, no comprimido número 28, terá que comprar outra caixa. 

É dose? É.


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