domingo, 9 de setembro de 2018

Cultura inútil?

No século passado existiu a Rádio Relógio. Situada na Taquara, Zona Oeste do Rio, hoje governada pelas milícias, a emissora tinha como áudio um bip a cada segundo e informes chamados “você sabia?”. Depois de um ou dois “você sabia?” o locutor dizia “Galeria Silvestre, a galeria da luz” e a voz da célebre locutora Iris Lettieri informava a hora certa.

Exemplos de “você sabia?”: “Você sabia que a mosca é um dos insetos mais ligeiros e que, se pudesse voar em linha reta, levaria apenas 28 dias para atravessar o mundo todo?; “Você sabia que o coração da baleia da Groelândia pode pesar até cinco toneladas? E que a palavra maricá tem origem no Tupi, e significa capim de espinhos?”; “Você sabia que a temperatura mais fria registrada na Terra foi de 89,2 graus Celsius negativos? Foi constatada na estação de pesquisa russa Vostok, na Antártida. Foi em 21 de julho de 1983”;  

Ouça um pouco. É só clicar no link:

Muita gente chamava a Rádio Relógio de cultura inútil, mas eu não achava, como ainda não acho. Ouvia direto na adolescência quando, às vezes, minha avó ia passar uns dias lá em casa. Ela ouvia rádio o dia inteiro (o que acabou me influenciando), especialmente a Rádio Relógio.

Sabe a frase histórica “este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade” que Neil Armstrong disparou logo depois de pisar na lua? Adaptei. “Um passo nulo para a humanidade, mas gigantesco para mim”. Foi o que pensei quando decidi finalmente arrumar a estante de livros, uma baderna total. Uma quantidade razoável, suficiente para me deixar completamente zonzo. Decidi, levantei e fiquei olhando os livros que aparecem (muitos vivem escondidos na parte de trás, inacessível) e na semana que vem vou arrumar tudo. Olhando para a estante, para os títulos, pensei “será que isso é cultura inútil?”.

Claro, há muitas biografias, muita música, política, filosofia, cinema, drogas (livros sobre peiote, LSD – do próprio Timothy Leary – metadona, etc), poesia, clássicos. Será que me empanturrei de cultura inútil ao longo do tempo nessa mistureba de estilos e propostas literárias? Definitivamente não. Os livros sobre drogas foram muito importantes nos 10 anos que levei escrevendo meu primeiro (e até agora único) romance chamado “5 e 15”. Uma segunda edição lancei ano passado pela Amazon e está aqui neste link gigante. É só clicar: https://www.amazon.com.br/5-15-Luiz-Antonio-Mello-ebook/dp/B01EP11OW2?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=5+e+15&qid=1536454543&s=STRING%28br-books-storename%29&sr=1-1&ref=sr_1_1

“5 e 15” conta a saga de um cientista e psiquiatra que busca de uma vacina contra as drogas pesadas, por isso os livros onde estudei as principais, incluindo cocaína, heroína e ópio. Muitos dos outros livros, direta ou indiretamente, me deram suporte ao longo de inúmeras situações na vida. Chama-los de cultura inútil, mais do que desrespeito, seria ingratidão.

Estou quase achando que cultura inútil não existe já que, se é útil para uma  única pessoa, deixa de ser inútil. Qual seria a antagonista, a cultura útil? A cultura da moda? A cultura in? A cultura de ocasião? A cultura formal? A cultura moralista? A cultura utilitária? Os preconceituosos, amargos e imbecis diziam que a contracultura dos beats e hippies era totalmente inútil porque levavam o nada ao lugar nenhum. Cultura, no mínimo, oportunista e interesseira.

Não vou defender a hipótese de que uma rádio que informa curiosidades seja parte de uma nova cultura midiática, mas chama-la de inútil seria exagero. Assim como o olhar enviesado que dei em minha estante de livros. Ainda há muito a dizer sobre esse vasto tema.

Ou não?


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