segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Whatsapp


Jamais a civilização dispôs de tantos meios de comunicação como hoje. Ao mesmo tempo, jamais se comunicou tão mal e porcamente. A comunicação que sempre estreitou as pessoas hoje levanta muralhas, alimenta afetos digitais, sem alma, sem voz, sem nada.

Quando os homens se comunicavam com sinais de fumaça, trocavam muitas informações. Depois, na Grécia antiga, um papel que passava de mão em mão de vizinhos de vilas, falando das notícias de cada um, acabou criando o jornal impresso, consagrado por Gutenberg quando inventou a imprensa no século 13. Pombo correio, carta, telegrama, rádio galena, telefones antigos, a comunicação era pobre em tecnologia e rica em conteúdo, as pessoas aproveitavam o que podiam para se expressar.

Há anos o novo homem elegeu o whatsapp meio de comunicação que, as vezes, chamo carinhosamente de meio de descomunicação. A culpa não é de quem inventou, lógico que não, mas do abuso (previsto) por parte de muitos usuários.

Como muitos não sabem escrever decentemente, mensagens truncadas acabam gerando mal entendidos e até rompimentos. Lembro que em 2015 um executivo fez uma campanha para divulgar um importante congresso no Rio, que trouxe centenas de pessoas de bom tom. Conversando o tempo todo pelo whatsapp ele dava ordens para a equipe, pautava tarefas, enfim, o cara só existia digitalmente. Pensou numa campanha para divulgar o congresso baseada numa frase: “Brasil, país das picanhas e caipirinhas”. Afinal viria, como veio, muito gringo. Só que na hora de enviar a mensagem para os publicitários, via whatsapp naturalmente, o corretor ortográfico da engenhoca entrou em cena e a frase saiu assim: “Brasil, país nas piranhas e caipirinhas”. Foi um vexame nacional. Os publicitários acharam que o sujeito tinha tido “uma ideia transgressora, ousada, genial” e por isso mandaram imprimir tudo. Na verdade, o que se descobriu depois, é que parte deles sequer leu o tal “zap” e outro grupo achou que era piranhas mesmo.

Há dias encontrei um quase amigo que me cumprimentou efusivamente (estranhei) e foi logo dizendo “me separei da Fulana”. Casamento de uma varada de anos, todo mundo achava que eram siameses inseparáveis, rolava o maior link. Claro que devo ter feito uma expressão de susto, mas ele logo atacou “foi tranquilo, tudo muito civilizado, praticamente resolvido pelo whasapp. Me assustei, “vocês terminaram um casamento de quase 20 anos pelo whasapp?” e ele emendou que “não foi bem assim, foi quase, começamos a falar que não dava mais pelo whatsapp e a conversa foi indo, indo e terminamos numa boa”.  Na verdade, ele se apaixonou por uma mulher 30 anos mais nova e de whatsapp em whatsapp em uma semana resolveu tudo.

Muita gente é demitida pelo whatsapp, outros são promovidos, médicos dão consulta e até saiu nos jornais a mensagem digital do veterinário para o dono de um cachorro que estava internado em sua clínica. “Infelizmente o seu cão veio a óbito. Favor passar aqui para acertar honorários e cremação. Att Dr. Beltrano”. Pior: o dono do cachorro respondeu e acabou negociando preços e tudo mais por onde? Pelo whatsapp.

Há inúmeros mal entendidos, em geral por culpa de usuários fracos em texto e também por causa do corretor. O cara pergunta “você acha que eu devo tomar essa atitude?”. Só que, ainda respondendo a uma conversa anterior, o interlocutor diz “corno merece ir pro cacete”. Em seguida a tentativa de emenda “estava respondendo ao papo anterior, sobre Dom Casmurro, não falei de você.” 

Não adiantou, foi bloqueado. Vida que segue, nas coxas digitais.
Conheço um sujeito que acompanhou toda a construção de sua casa em Angra pelo whatsapp. E se orgulhava. Ia lá muito de vez em quando. Claro, muitas relações começam no virtual e acabam no real, algumas do real migram para o virtual. Tudo isso num aplicativo que não permite sequer que a pessoa dê um tempo. Não pode. É ficar ou sair fora. Piadinhas disparadas as 3 da manhã por boêmios e boêmias, outras disparadas as 7 por madrugadores, aí você tira o som daquilo mas não adianta. É bom dia, boa tarde, boa noite, feliz dia das ostras, etc.

Ate quando?


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