quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Saudade do amigo Alex

              Alex Mariano, na sala de produção da Rádio Fluminense FM. Foto de Mauricio Valladares

Dia 22 foi aniversário de um amigo muito querido e saudoso, Alex Mariano. Infelizmente não tenho uma agenda com essas datas importantes e soube do aniversário por uma grande amiga e minha grande dentista Elizabeth Marques, Marquinha, praticamente uma irmã dele.

Marquinha e Ana, viúva do Alex, foram comemorar a data do aniversário e, se eu soubesse, claro, estaria lá. Não no lugar preferido dele, o “Velho Armazém”, em São Francisco, que fechou há uns anos. Ali nos encontrávamos rigorosamente de 15 em 15 dias, as 7 da noite. Batíamos papo, ríamos pra caramba e umas nove e pouco ia um para cada canto. Ele fez 65 anos e com certeza foi uma das figuras mais importantes de minha existência.

Vivia uma fase brilhante, lembrou a Marquinha. Sim, confirmei, nunca, desde o início dos anos 1970, quando nos tornamos amigos, eu o vi tão feliz e realizado. Com os filhos Lívia, Guilherme e Carolina, com Ana que ele chamava “mulher da minha vida” com a sua loja Fenix que ia muito, muito bem. Alex (que 80% da cidade chama de Mariano) estava muito feliz.

Foi na frente de sua Fenix que em 6 de agosto de 2013 ele foi assassinado por dois bandidos que já haviam tentado assaltar a loja na semana anterior. Eles voltaram, renderam Alex na calçada e quando anunciaram o assalto ele perguntou “de novo?”. Os assassinos acharam que era afronta, atiraram e mataram, sangue frio, na frente de todo mundo. Uma funcionária da loja, amante de um dos assassinos, tinha informado tudo: rotina dele, rotina da loja, onde guardavam o dinheiro. Tudo. Foi assim que perdemos o Alex. Em tempo: os dois e a mulher foram presos. Tudo num dia de semana, cinco e meia da tarde, numa das principais ruasa do Centro de Niterói, Visconde de Sepetiba, a 200 metros do prédio da prefeitura.

Ontem, eu disse a Marquinha que queria muito prestar mais uma homenagem ao Alex e ela ficou de ver com a Ana uma noite em que possamos bater um papo. Não, nada de tristeza e melancolia, pois ele foi uma das pessoas mais debochadas, irônicas e irreverentes, tanto que não afasto a hipótese dele sem querer ter usado um tom irônico na pergunta “de novo?”.

Eu era amigo do irmão caçula dele, Marcos Mariano Franco, que Alex chamava de “Bilú”. Um dia fui a casa (1971-72, por ai) dele e ouvi o som da opera rock Tommy do The Who. Marcos disse “é meu irmão ouvindo”. Me apresentou nos tornamos amigos imediatamente. Depois, ele e Sergio Marcolini alugaram um sobrado na rua Maricá, no Pé Pequeno (Niterói), e fui morar lá com eles. Mais ou menos 1976. Fotógrafo, com um excelente equipamento, laboratório em casa, fez ótimas fotos mas, misteriosamente, abandonou a fotografia dois anos depois. Nunca quis falar do assunto que era a sua paixão.

Estudávamos na Estácio, no Rio Comprido, e ele sempre teve motocicleta. Numa ida, sete da noite, pegou a sua Yamaha 200, passou lá em casa, subi na garupa e fui para a faculdade. No meio do vão central da ponte o motor começou a falhar. Lembro que vinha um ônibus gigantesco da Itapemirim colado na gente e eu ainda levantei os braços. Paramos bem junto a mureta para meu desespero (sofro de fobia de altura), vi o Alex sacudindo a frente da moto, batendo com ela no chão. “É magneto...é só bater que ele volta...”. Voltou e fomos embora.

O inusitado era seu sócio. Quando estava montando a Fluminense FM encontrei com ele na praia, perguntei o que estava fazendo e convidei para ser produtor. Gostava de tropicalismo, de marginais como Sergio Sampaio, mas reconhecia que não era especialista em música.  Mas a sua capacidade de gestão, uma antagonista visão cartesiana em preto e branco da rádio, o transformou num dos grandes críticos do que fazíamos. Brigamos algumas vezes por causa disso, mas logo que saí reconheci do seu grande valor.

Depois da rádio, fofoqueiros, intrigueiros, safados, vagabundos, mega venenosos conseguiram que eu e Alex ficássemos sem nos falar por alguns anos. Mas acabamos zerando tudo.

Quero dar parabéns a ele pelo aniversário, com a promessa que irei, sim, homenageá-lo um dia desses com Marquinha e Ana.


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

41

A lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma oficial das cidades medíocres. Atravessar o asfalto lamacento sem ser morto por ônibus, carro, van, moto, bicicleta, que desafiam o excesso de leis e a malemolência das autoridades, só pode ser milagre.

Na calçada esburacada e estreita, pessoas cabisbaixas tentam caminhar e sobreviver sob marquises que parecem em péssimo estado, fiações elétricas que lembram pedaços de bombril nos lixões. Cada passo um suspiro. Cada passo uma lambança. Cada passo um milagre. Cada passo uma sobrevivência.

O carteiro conversa animado com o guarda de trânsito apesar das cartas atrasadas e do trânsito engarrafado. Afinal está calor e o celular do guarda não para de tocar. São dois supostos agentes da cidadania que, curiosamente, desprezam os cidadãos. Vontade de dar uma pedrada em ambos, mas o calor não permite.

Na esquina amontoada de pedestres congestionados, o dono do bar coloca mesinhas na calçada. Dane-se é o lema. Dane-se! Fiscal é uma iguaria barata. Dane-se o pedestre, a idosa, o carrinho com bebê, dane-se o cego. Cerveja, espeto de carne de gato, farofa. Viva o bacanal urbano!

O ônibus apinhado parece trem da famigerada Índia, onde os desgraçados que pagam não tem direito a ar condicionado. E daí?, inquerem os donos dos ônibus que sabem que mandam na cidade. Os bólidos superlotados tiram fino da calçada e ai daquele que perder o equilíbrio e cair. Morre e o corpo fica por ali mesmo, fritando, até se fundir com o chorume e a lama asfáltica.

Os prédios monumentais não param de subir, fabricando sombras, arrancando árvores. Tem 15, 17, 22 andares, fabricando covas com 10 metros, e olhe lá. E daí? Os especuladores também mandam na cidade.

O menor abandonado levanta a camisa para dizer que não está armado e começa a fazer uma espécie de malabarismo com três batatas quando o sinal fecha. Quem não paga ele manda a merda, cospe no carro, as vezes chuta a lataria e fica tudo por isso mesmo porque é proibido reagir. A ordem e engolir, entubar, arregar, rastejar.

E a lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma das cidades medíocres.

A 41 graus.

sábado, 27 de outubro de 2018

A última entrevista do mago Frank Zappa





Do site Whiplash:

“Essa entrevista foi realizada pela revista playboy em 1993, no ano em que Frank Zappa faleceu, vítima de câncer de próstata. Na entrevista, Zappa não se mostrou abatido pela doença e esclareceu questões sobre suas músicas e sobre sua carreira. O texto original está no link ao final. A entrevista foi dividida em partes para não ficar cansativa.”

Playboy: Você disse uma vez que seu emprego é "extrapolar tudo para o mais extremo do absurdo". Isso ainda é verdade?

Frank Zappa: É um dos meus empregos. Eu acho que era o meu principal emprego naquele tempo. Mas sim. Eu gosto de levar as coisas para o mais extremo do ridículo porque é lá, no ridículo, que está o tipo de entretenimento que eu aprecio.

Playboy: É frustrante as pessoas não entenderem isso?

Frank Zappa: o X da questão é: se isso te diverte, legal. Aproveite. Se não, que se foda, eu faço isso pra me divertir. Se eu gosto, eu gravo. Se mais alguém gostar, é um bônus.

Playboy: O quanto é importante ofender pessoas?

Frank Zappa: Você quer dizer...se eu acordo e digo: "Acho que vou ofender alguém hoje"? Eu não faço isso. Eu não escrevo mais letras, mas eu ofendo mais com a música em si, eu coloco acordes que eu gosto, mas muitas pessoas querem um ritmo onde eles possam dançar; eles ficam doidos para querer meter o bedelho nas minhas músicas. Algumas pessoas não gostam, o que é legal pra mim.

Playboy: Você certamente ofendeu alguém com o Phi Zappa Krappa poster.

Frank Zappa: Provavelmente. Mas e daí?

Playboy: E quanto as bizarrices dos seus dias do Mothers Of Invention. Como o famoso concurso de nojeiras?

Frank Zappa: Nunca participei de concurso de nojeira. Foi um rumor. Alguém deve ter imaginado demais. Deve ter viajado na maionese. O rumor é que eu comi merda no palco. Muitas pessoas ficaram muito desapontadas porque eu nunca fiz isso. Não havia nada de concurso de nojeira.

Playboy: Outro rumor é de que você mijou no palco....

Frank Zappa: Eu nunca coloquei meu pau pra fora no palco e nem ninguém da minha banda. A gente tinha uma girafa empalhada com rodinhas e com uma máquina de sorvete gigante. Embaixo dela tinha uma bomba de cereja. Foi assim que celebramos o quatro de julho de 1967. Alguém balançou a bandeira e atingiu a bomba de cereja. A bomba voou pela bunda da girafa. O cara que estava atrás apertou o botão e a bomba estourou por todo palco. Por algum motivo, isso divertiu o público.

Playboy: Então a girafa era apenas uma extravagância?

Frank Zappa: Arte teatral.

Playboy: Para entreter ou só para aliviar o tédio?

Frank Zappa: Havia um terceiro fator também. Havia uma máquina de sorvete na bunda da girafa, não tinha? A gente estava fazendo a antiga tradição da arte Dada. O mais absurdo, o que eu mais gostava.

Playboy: Os títulos dos seus discos e canções são obras de arte também.

Frank Zappa: Bem, você tem que dar um nome pra eles. Então por que não "engraçados"?

Playboy: Como Burnt Wenny Sandwich?

Frank Zappa: Eu ainda como burnt wenny sandwiches. É uma das melhores coisas da vida ou, no mínimo, é um bom almoço. Você pega uma salsinha com um garfo, queima ela no fogão e coloca dois pedaços de pão nela e de volta ao trabalho.

Playboy: Você também usou suas canções para fazer ataques políticos. Você fez "Rhymin´ man" pro Jesse Jacson. O que te deixou tão irritado?

Frank Zappa: Um artigo levantou algumas questões sobre se o Martin Luther King tinha morrido ou não nos braços do Jesse. Houve relatos que diziam que o Jackson passou a mão dele no sangue do King ou que até mesmo pegou sangue de galinha e esfregou na camisa, camisa a qual nós vestimos depois que ele voltou pra mídia. Então eu fiz a música sobre a ideia de comunicação através de historinhas de terror, as quais o Jackson faz muito bem. Mas me levaram a mal. Eu não digo que todas ideias do Jackson são ruins; eu concordo com algumas. Mas eu não acho que o Jesse Jackson seja a pessoa certa para executa-las. Eu não quero ver pessoas religiosas em escritórios, trabalhando para outro patrão.

Playboy: Você também atacou o cirurgião Everett Koo em uma canção.

Frank Zappa: A HBO transmitia algo como "Dr Koop Responde Suas Perguntas Sobre Aids". Nesse programa, eu vi ele explicando como a AIDS veio do macaco verde para à população. Ele especulou que um nativo queria comer um macaco verde, cortou o dedo e o sangue dele se misturou com o do macaco. O resto você já sabe, foi passando de sangue em sangue. O que eu quero dizer é que isso foi a merda mais ridícula que eu já ouvi. Isso se parece com contos de fada dos irmãos Grimm. E o Koop parecia um personagem de desenho animado com aquele uniforme e tudo mais. Antes do Ronald Reagan, onde já seu viu um cirurgião vestido que nem o cara do Katzenjammer Kids?

Playboy: Por causa de canções como "Dinah Moe Hummm (eu só tenho 40 doláres que dizem que você não vai conseguir me fazer gozar)", "He´s so Gay" e muitas outras, você foi acusado de ser sexista, misógino e homofóbico.

Frank Zappa: Algumas pessoas não entendem a piada. Em geral, eu era um inimigo conveniente e eles podiam expor suas causas me perseguindo. Mas eu não sou anti-gay. Quando Ross Perot anunciou que estava concorrendo à presidência, eu queria que ele escolhesse Barney Frank como candidato a vice-presidente. Ele é um dos caras mais representativos do congresso. Ele é um grande modelo para os jovens gays.

Playboy: Mas você foi criticado por causa de "Bobby Brown" e "He´s so gay".

Frank Zappa: Fui, mas veja, eu sou uma espécie de jornalista. Eu tenho direito de dizer o que quero sobre qualquer assunto. Se você não tem senso de humor então foda-se.

Playboy: Foi o que você disse quando foi atacado pela liga de Anti-Difamação por "Jewish Princess" (patricinha judia)?

Frank Zappa: Eles queriam convencer o mundo de que não existem patricinhas judias, mas, sinto muito, os fatos falam por si só. Eles me pediram para eu me desculpar e recusei. Eu ainda tenho a carta deles pendurada na parede. Eles fizeram um estardalhaço quanto a isso. Mas foi tempestade em copo da água. Eles queriam dar a impressão de que aqui, no mundo do rock, esse "radical anti-Semita" estava sujando a reputação de todos os judeus. Ora, eu não inventei o conceito de uma patricinha judia. Elas existem, então eu escrevi uma canção sobre elas. Se não gostam, e daí? Os italianos têm patricinhas também.

Playboy: Existem fatos ou motivos por trás dos assuntos que você resolve atacar?

Frank Zappa: Tanto faz, eu estou com raiva o tempo todo. Eu gosto de coisas que funcionam. Se não funciona, a primeira coisa que você deve perguntar é: por que? Se não funciona e você sabe por que, então você precisa perguntar: "Por que ninguém faz nada quanto a isso?" O governo, as instituições. O sistema educacional do país está completamente fodido.

Playboy: Fodido como?

Frank Zappa: As escolas não prestam por que os livros não prestam. Eles ainda estão na época do George Washington e do cherry tree e do "Eu não posso mentir". Os livros são redigidos por comitês que cedem a pressão de grupos republicanos que fazem cada aspecto da história ser vista pelo ponto de vista fascista. Quando você manda seus filhos para escola, é com isso que eles lidam. As crianças são presenteadas com estes documentos, parte de uma indústria milionária que é absolutamente fraudulenta. A cabeça das crianças fica tão amontoada com esse monte de mentiras que quando elas saem da escola, eles saem despreparados para tudo. Não sabem ler, não sabem escrever, não conseguem pensar. Não falam sobre o abuso infantil ou das qualidades das escolas.




Pau de enchente


Bruce era um pau de enchente, rolando pela vida, batendo numa margem e na outra, afundando e flutuando como um caule de eucalipto no leito de um rio caudaloso. PhD em filosofia achava que o homem era uma flecha arremessada no universo, sujeito a rotas, desvios, vitórias e fracassos, ao sabor do destino. Bruce não agendava nada. Não programava, não projetava, não arquitetava, apenas vivia. Como um pau de enchente.

Seu nome fora inspirado em Bruce Wayne. O pai passou boa parte da adolescência assistindo Batman & Robin na TV e lia tudo sobre o homem morcego. Tinha álbuns, posters, figurinhas e até uma fantasia de Batman que adoraria usar todos os dias mas, diante do provável ridículo, vestia apenas no carnaval. Na época dizia que se tivesse um filho ele se chamaria Batman. Tornou-se um respeitado e famoso jurista e por isso batizou o filho de Bruce. Batman não seria de bom tom.

Bruce era considerado um gênio, mas diante do espelho se achava um fiasco. Aos 20 e poucos anos leu uma biografia dos Beatles e fixou-se em Yoko Ono, exatamente por ter sido ela, a seu ver, “o tiro do imponderável asfixiando o quarteto inglês”. Bruce adorava o imponderável e gostava de acreditar que Yoko acabou com os Beatles, apesar de, no íntimo, achar uma balela.

Por causa de Yoko Ono ficou dois anos procurando uma japonesa para namorar. Por causa de Yoko Ono achou, numa ida ao bairro da Liberdade, em São Paulo, onde numa casa de massagem erótica conheceu a sansei Íris, conhecida como Lígia, mas que como massagista usava o nome da viúva de John Lennon. Era parecida com Ono, muito parecida. Digamos que ficava na contramão do gosto comum, uma mulher exótica, misto de dominatrix, kamikaze e último samurai. Bruce se apaixonou. E ela por ele.

Numa tarde quente de quarta-feira ela perguntou se Bruce desejava que ela largasse a profissão. Bruce disse que não, acreditava que o verdadeiro amor está muito além e acima de 15 homens por dia numa cabine de lambris. “Se um dia você deixar de me amar e ao invés de me falar começar a dar sinais de You've Lost That Loving Feeling, vou ficar magoado, arrasado, triste”, ele disse.

- Prometo que caso aconteça falarei.
- Se não falar saberei, Íris. 

Deixou São Paulo e quando o avião taxiava a pista para decolar para o Rio, Bruce achou que não conseguiria suportar o mutismo afetivo de Íris. Uma vez lhe disseram que as orientais sentem caladas, mas ele tinha certeza que não. Durante a curta viagem concluiu que deveria libertar o pau de enchente que habita todos nós. Deixa chover, deixa rolar, o que vier está bom, o destino é soberano, etc etc, etc, como antes.

Como sempre Íris não fez contato. Um, dois, três dias. Bruce já estava habituado a ausência dela, mas até então padecia. Exclusão, rejeição, zero a esquerda. Mas, reincorporado pelo pau de enchente não só deixou rolar como rolou junto. Rolou, rolou, rolou até o outro fim de semana quando amigos o chamaram para fazer uma trilha de jipe de dois dias na região da cachoeira de Conde Deu, em Sumidouro, RJ. Trilha leve. O amigo de Bruce passou em frente ao prédio dele, na Gávea (RJ), exatamente as cinco e meia da manhã. 

Encontraram com outros 34 jipeiros na estrada e foram em frente. Muita diversão e gargalhadas. Leveza. Na trilha, Bruce pilotou metade do tempo, lamaçais profundos, riachos, a vida como ela é.

Na segunda-feira, viagem a trabalho. Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre. Habitou-se tanto ao mutismo de Íris que acabou esquecendo. Dela e deles dois. Dois meses depois, nem sombra, nem cheiro, nem a mais rasa lembrança.

"Sumiram-se".


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Voar, voar, voar...

                                                   Navio tortyo, avião torto, quem é o bêbado?
Viajar é maravilhoso. Alguém duvida? Conhecer o mundo pessoalmente, cultura, mares, praias, andar na rua à toa as 2 da manhã, é tudo delicioso. As melhores paixões são as que acontecem em viagens, é como se um raio atingisse o coração de ambos, que durante dias e dias, perambulando naquele agarramento, acham que se passaram anos. Mas...bom, não é por nada não; tem sempre um mas. Mas, quando chega o dia do retorno é bom deixar a paixão lá, sob o risco de duplo estranhamento. Quando pisa aqui ela diz que se apaixonou por um homem que não existe, ele diz coisa parecida. Forçam a barra, um quesito que homem é mais resistente, até chegar a quarta-feira de cinzas da viagem. 

Sozinho, o sujeito levanta e faz a barba cantando “ela declarou recentemente que a meu lado não tem mais prazer”, do mestre Paulinho da Viola. Perda total, e há quem acredite que desejo de mulher tem remendo. Não tem. Acabou chorare (Novos Baianos), pior que secador queimado.

Viajei muito a trabalho, adoro aviões, mas os meus maiores inconvenientes sempre foram a famigerada mala, a fila no aeroporto, a tortura de esperar avião atrasado, parece um pedágio, uma punição do tipo “ah, é? Vai viajar, pois então toma!”. Aí vem o embarque, a mala vai no bagageiro do avião e quando chega no destino, mais espera, aquele carrossel cheio de bagagens, menos a sua. Sempre parece que é a última. Mas vale a pena.

Andei pensando em ir a Londres, que não conheço. Por que não conheço? Nunca quis conhecer. Apesar de um vínculo musical (único vínculo, nada mais me atrai) com aquela cidade, rock and roll e tal, o ambiente anda estranho. Uma dupla sertaneja brasileira tocou no Royal Albert Hall!!, ele mesmo, o RAH, fundado em 1871. Sertanejos também profanaram o Abbey Road Studios, onde os Beatles gravaram todos os seus discos. Shows? Só coisa que não gosto. Pior, Londres dorme cedo. Não sou radical como um colega jornalista que escreveu um dia “Londres é boa para você fazer 50 selfies e pegar o trem de volta para Paris”.

De fato, Paris é Paris. Espero que a boemia tenha sobrevivido porque vivemos uma era estranha, refém do terrorismo, totalmente “tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar” e há maus humorados que dizem que está rolando flanelinha, batedores de carteira, bla bla bla. Meu amigo, sair do quinto mundo para ser assaltado em Paris é até bom. Complicado é sair daqui para Margarita, Venezuela, comer reboco de parede, escovar dentes com os dedos, implorar por um copo d’água e ainda ser obrigado a se ajoelhar para monumentos dos quatro déspotas: Simon Bolivar, Hugo Chaves, Nicolas Maduro e Oliver Stone, diretor de cinema, amiguinho dos ditadores.

E tome trem, que beleza. Alemanha (huummm, quantos prazeres existem na Alemanha), Holanda, Espanha (outra maravilha, terra de afeto quente), enfim na Europa só há outra exceção além de Londres, a Itália. Não tenho o menor tesão de conhecer. Por que? Não sei, talvez briga de santo.

Sair de Nova Iorque com um Mustang alugado e ir parar na Califórnia é mais do que um sonho. São cinco mil quilômetros, uma viagem para fazer com calma e, quem sabe, terminar em São Francisco, bela cidade, cultura do quarto milênio.

Antes de me alongar (tem sido um hábito desagradável) quero dizer que adoro viajar, mas tenho pré-condições: como não dou nas poltronas da econômica tenho que dar um jeito de viajar na classe executiva; levar uma bolsa de mão cheia de camisetas, calças jeans e tênis para guardar dentro do avião e escapar do carrossel dos aeroportos; minha companheira de viagem deve avaliar em fazer o mesmo, mas se não quiser tudo bem; ao chegar, guardar tudo no armário e ir lavando nas máquinas automáticas; não comprar nada, etc.

O mundo a nossos pés, digo, aos pés de quem tem bala na agulha. Melhor uma semana fazendo tudo do que um mês duro, sem poder fazer nada. São regrinhas que fazem valer a pena pegar o Uber, ir para o aeroporto, fazer check in, esperar sentado seis horas, depois...

Boa viagem.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Jorge Dodge



Sempre fui muito apaixonado por automóveis e na minha adolescência o Brasil produzia os “monstros” com motor V8, rápidos, desafiadores, irresponsáveis. Eu sonhava com o americano Mustang (Ford) e também o com o seu arquirrival Camaro (Chevrolet). No Brasil meu delírio maior era ter um Dodge Charter R/T, o que acabou acontecendo.

No início deste século 21, eu vinha por uma avenida e na frente de uma agência ele me chamou atenção. Era um Dodge Charger R/T bege com capota marrom (semelhante ao da foto) com uma inscrição no parabrisa: “Carro de colecionador”.

Dei a volta no quarteirão e fui ver o Charger. Inteirinho, ano 1978, interior bege e marrom, motor LA 318 fabricado, acho, no Canadá. Foi paixão explosiva e imediata, daquelas que nos tornam precipitados e levemente imbecis. Por isso, dei uma de racional e disse ao vendedor que voltaria no dia seguinte.

De manhã, estava lá. Fui com a minha namorada porque tinha o saudável hábito de pedir a sua opinião, e mulher tem a mais aguçada intuição entre todos os mamíferos. O dono da agência pôs o carro na rua e fiz um pequeno test drive com aquele trovão. De tanto ler, conhecia todos os detalhes, prós e contras. Prós, o motor, acabamento do interior, design. Contra: praticamente não tinha freio (eram freios a lona nas quatro rodas), bebia mais do que vários gambás juntos (na cidade uns 4 km/litro) e a porta quando batia podia decepar
dúzias de dedos dos passageiros do banco de trás, caso apoiassem a mão na moldura da janela.

Perguntei a namorada “e aí, gostou?”, ela concentrada respondeu com um desanimado “é, né?”. E argumentou com dados reais, objetivos, coisas que os sonhadores não pensam. Fez perguntas básicas: “onde você vai parar esse caro que tem cinco metros de comprimento? Será que é fácil achar peças? E mecânicos? Não acha que está caro demais?”. Eu, mudo, ouvi e depois de uns minutos dei razão a ela e fomos embora.

Ela percebeu que eu não conseguia dormir. Parecia um limpador de parabrisa na cama, levantando para beber água, sabe como? Ela atirou no cerne da questão: “não para de pensar no carro, não é?”. Confessei que não parava mesmo não, ela acendeu o abajur e me convenceu a comprar o Dodge. “Você sempre falou desse carro, uma vez em São Paulo quase foi atropelado atravessando uma rua para ver um...ah, se não der pé, vende”.

No dia seguinte, pou! Levei o Dodge, da agência direto para uma oficina de canos silenciosos. Pus dois escapamentos esportivos, um em cada saída de descarga e saí de lá parecendo o cometa Halley, com o corpo todo arrepiado com o rosnado do motor, lembrando de Steve McQueen em “Bullitt”. O vruuuuuuum daquele motor com o escapamento esportivo era maravilhoso, mas tinha um problema: chamava a atenção. E eu não gosto de chamar a atenção.

Como era raridade, deixava o Charger na garagem (todo mundo olhava) e meia noite saia para dar uma volta pequena. Em um desses passeios, numa avenida absolutamente deserta, acelerei forte, o bicho urrou, decolou e no final da reta freei mas não tinha freio. Quente demais. Reduzi de quarta para a segunda e primeira marchas tentando controlar aquele animal quando (ufa!) consegui parar. Milagre, tenho certeza, pois um muro me esperava.

No dia seguinte, banho de óleo na garagem. Levei num mecânico de motor V8 que me indicaram, ele pôs o Charger no elevador, olhou e deu o veredicto: estouraram seis buchas. Perguntei “buchas”? Ele me levou até debaixo do carro e eram pequenos artefatos de borracha tampando componentes do motor. Perguntei se ele tinha para vender e, na sinceridade, proferiu “só o Jorge Dodge”. Fica onde?, indaguei. “Na favela da Maré. Compra as buchas e traz para mim que ponho. São baratas, aproveita e compra as 13 logo porque vivem estourando. Mas vá com esse carro para o pessoal saber que você vai no Jorge Dodge, entendeu?”. Entendi.

Trabalhei até umas 9 da noite, depois fui para a casa da namorada (morava mais lá do que na minha; até Zappa, meu cachorro, ficava lá), falando como quem não quer nada “amanhã de manhã vou dar um pulinho na Maré”. Ela deu outro tiro certeiro: “o carro, né?”. Respondi “É, coisa à toa, mas só vende lá”.

De manhã rolou um princípio de incêndio entre nós. Ela queria ir comigo de qualquer maneira e eu, paternal, argumentava “não precisa, não precisa...”, mas ela foi e eu gostei porque éramos companheiros pra caramba e ela craque em mapas. Sim, usamos um mapa da Quatro Rodas para achar o lugar.

Entrei na Maré numa boa, bem devagar, muito devagar, perguntando onde era o “Jorge Dodge" e as pessoas informavam. Quinze minutos depois, cheguei. Escrito a mão na quase fachada estava lá “Jorge Dodge bar, prato feito, peças de carros e fiado só no vizinho” (a pontuação é minha).

Me apresentei, ele muito gente boa elogiou “que caranga, hein meu chapa”, apresentei a namorada, ele cumprimentou “prazer, madame” e falei das buchas. Ele disse “isso é assim mesmo, senta aí no bar que vou lá buscar”. Sentamos. Uma Kombi parou com dois ou três caixotes, um senhor bem bêbado sentado num banquinho de caixote ao lado comentou “esses são os fornecedores de peças de carro...hahaha...só porque sou velho e bêbado acham que sou babaca.” Abelhudo mandei um “por que?”, e o bluesman (parecia mesmo) “ora, meu filho, é tudo roubado.” Minha namorada riu, mas não foi de nervoso. Depois me disse que riu da cara que fiz.

Jorge Dodge fez uma promoção boa, 26 buchas, hoje cada uma custaria 5 reais, ele fez por 3. Levei. Entramos no carro e fiz um verdadeiro rali para sair do lugar. Queria entregar ao mecânico e fazer logo o serviço porque levava latas de óleo na mala do carro. Motor vazando, tinha que completar de óleo sempre.

Deixamos na oficina e saímos. Fomos trabalhar. No dia seguinte carro OK, mão de obra uma facada, mas fazer o que? Dois dias depois, sábado, íamos a um leilão de arte em Botafogo com amigos. “Que tal irmos de Dodge?”, a namorada respondeu que tudo bem. Fomos.

De fato, o carro parecia uma caravela andando pelas ruas e teve a delicadeza de ferver o motor no Túnel Santa Bárbara. Barulho ensurdecedor dos carros passando, um outro usuário chamou o reboque, confusão, a namorada se recusou a ir no carro dos amigos queria ficar e ficou.

O reboque deixou naquele recuo na boca do túnel em Laranjeiras e eu fiquei de voltar segunda-feira para buscar. “Tem que ser hoje, não pode dormir carro aqui.”, disse o funcionário. Depois do leilão, voltamos para lá, chamei um reboque particular (carro dessa idade não tem seguro), morri numa grana e deixei nas imediações da oficina de V-8. Ninguém rouba.

Segunda-feira fui lá. Empurraram o carro até a porta da oficina. “Estourou uma mangueira do radiador”, disse o dono, “e pelo visto o burrinho de freio também”. Pedi para trocar a mangueira (ufa!, ele tinha uma lá) e quando ficou pronto levei o carro para a garagem e abandonei. Desilusão, decepção, dor de corno.

Dois meses depois anunciei, pedindo um pouco mais do que paguei por ele para compensar as despesas. Um cara de São Paulo ligou e fechamos o negócio, sem choro. Dois dias depois, conforme o combinado, ele apareceu num Alfa Romeo 156 seguida de um caminhão reboque. Comentei “coisa linda o seu carro” e ele respondeu “mas é uma bosta”, e riu. Ele era colecionador de carros, perguntou logo “quantas buchas do motor trocou?”, e riu; “ferveu muito?” riu de novo. “Vou comprar porque relíquia não pode andar muito, entende? Tem que ficar quieta na garagem, sair para ir a um encontro de colecionadores, leilão, alugar para novela, cinema, tudo perto. É um ancião, entende? Vai para São Paulo de reboque porque não aguenta, entende?”.

Quando vi o Dodge ir embora em cima do reboque senti...posso falar?...senti um enorme alívio. Imediatamente liguei para a namorada, quase gritei “vendi o Dodge” e a noite fomos comemorar.




Eduardo Lamas lança seu terceiro livro, “Contos da Bola”

                                                                           
Embora a criatividade seja uma característica das mais valorizadas por torcedores e comentaristas esportivos, quando o futebol sai dos campos para as páginas de um livro, na maioria das vezes trata muito mais a bola com o pragmatismo dos fatos do que fazendo as jogadas lúdicas da ficção.

Em tabelinha com a imaginação, até para misturá-la com episódios verídicos, alguns históricos para o futebol brasileiro e até mundial, o escritor e jornalista Eduardo Lamas escreveu os “Contos da Bola”, e-book que está sendo lançado pela Biblioteca Digital do Futebol Brasileiro, selo eletrônico da editora LivrosdeFutebol.

A obra foi lançada originalmente pela Amazon©, para Kindle© (o consagrado e-reader da poderosa loja norte- americana), mas poderá ser lida também em computadores, tablets e celulares), ao custo de U$5 (cinco dólares), com a possibilidade de o leitor optar pela obra impressa (preço sob consulta). Posteriormente, a obra será lançada em ePub, pela Digitaliza Brasil, que também distribui outras obras da LivrosdeFutebol.

Contos da Bola é o décimo primeiro e-book da coleção Biblioteca Digital do Futebol Brasileiro e o terceiro do autor Eduardo Lamas, seu primeiro a abordar o mundo do futebol.

— São "causos" de clássicos importantes ou peladas das várzeas, narrados sempre de forma saborosa — garante Cesar Oliveira, editor da LivrosdeFutebol.

Na apresentação do livro, Eduardo Lamas lista os locais que o inspiraram a criar as 19 histórias relatadas com dramaticidade, humor e muitas vezes pondo personagens fictícios em situações inusitadas dentro de fatos históricos:

“As experiências vividas em peladas de rua, no colégio, em campinhos de terra ou (pouca) grama ou mesmo no quarto ou na sala de casa; em “jogos contra” nos mais variados campos e quadras; nas arquibancadas, geral, cadeiras e tribuna de imprensa do Maracanã e de outros estádios, alguns bem acanhados; nas redações; na cobertura jornalística in loco de tantas partidas, das menos importantes a grandes decisões, e a – permitam-me – fértil imaginação fizeram a criança crescer e se desenvolver para finalmente entrar em campo”.

O prefácio é assinado pelo jornalista, radialista e escritor Alexandre Araújo, do consagrado Pop Bola. Ele não poupou elogios ao autor:
“Habilidoso, criativo e dono de uma visão de jogo digna de um camisa 10, neste “Contos da bola”, Eduardo Lamas deita e rola em divertidos e fantásticos “causos” do futebol, tabelando de primeira com o leitor”.

O autor:

Escritor e jornalista, Eduardo Lamas foi Destaque Especial em três categorias (conto, poesia e crônica) do “IV Concurso Literário A Palavra do Séc. XXI", em 2001. É autor da peça “Sentença de Vida”; dos livros “Profano Coração” e “O Negro Crepúsculo”, e do blog eduardolamas.blogspot.com

É idealizador, pesquisador, redator e roteirista do projeto “Jogada de Músi- ca”, que foi quadro na “Rádio Globo” e dá nome a uma coluna homônima no site do “Pop Bola”. Entre 1988 a 2013, trabalhou como jornalista em diversos veículos de comunicação, entre eles “Jornal dos Sports”, Agência “O Globo”, “O Globo Online”, Revista e Agência “Placar”, “Lance Multimí- dia”, “O Fluminense”, “Jornal do Brasil” e “Globoesporte.com”.

Entre 2012 e 2016, atuou como empresário nos ramos cultural e de comunicação, e atualmente é sócio-diretor da empresa Estação Pró-Vida – Saúde, Arte e Desenvolvimento Humano.

Mais informações:
Cesar Oliveira livrosdefutebol@gmail.com (21)988-592-908
Eduardo Lamas edulamasneiva@gmail.com (21)985-197-127




 






terça-feira, 23 de outubro de 2018

Começam as gravações do filme sobre a Rádio Fluminense FM, uma ficção baseada em meu livro

                                                                           
                                              Cópia fiel da faixa do segundo aniversário                                                                                 
                                                                      Tomás Portela                                                                                     
                                                                        Renata Almeida Magalhães                                                                                   
Diogo Dahl
L.G. Bayão
Johnny Massaro, eu e Marina Pazzano
Ontem, segunda, começaram no Teatro Rival (Cinelândia, Rio) as filmagens de “Aumenta que é Rock and Roll”, uma ficção baseada em meu livro “A Onda Maldita – como nasceu a Rádio Fluminense FM”, no período de 1982 a 1985. A produção geral é de Renata Almeida Magalhães, produção executiva de Diogo Dahl (ambos da Luz Mágica Produções), roteiro de L.G. Bayão e direção de Tomás Portela. A direção musical ficou comigo.

Para começar, é muito estranho ver um ator fazendo o papel de você. Não falo de qualquer ator. Falo do magistral Johnny Massaro. Hoje, vendo sua atuação, parecia um raio conectando 2019 a 1982. Um cara de 20 e poucos anos que consegue mostrar meus cacoetes, modo de falar, modo de andar, humores, quando eu também tinha 20 e poucos anos. Sei, o cara é bom, estuda, mas mesmo assim é uma boa sensação de estranheza.

Johnny captou o incômodo, a quase angustia do personagem em declarar uma paixão pela locutora (ficção) interpretada pela Marina Pazzini. Ele expõe publicamente minhas ansiedades, a pressa em querer me declarar logo para uma mulher como se fosse a última e até ataque de pânico. Eu sei, li no roteiro, mas uma coisa é o texto a outra é a interpretação de um grande ator dirigido por um super diretor.

É uma coisa meio mediúnica*, tão impressionante que em determinando momento saí e fui até o Amarelinho tomar uma Coca Cola Zero com uma enorme vontade de (posso falar?) comemorar muito, encher a cara, mergulhar na boemia roqueira que ainda resiste em alguns becos no centro do Rio de Janeiro.

No Rival fui recebido com extremo carinho por todos, em especial os mais novos que compõem a equipe, loucos para saberem o que eram os anos 80, a rádio, a política na época e, claro, a música, o cinema, a vida. Tomás fez uma roda com toda a equipe em frente ao palco e todos me homenagearam com uma longa salva de palmas, justamente numa fase em que estava precisando. Posso falar? (2), foi o maior reconhecimento que tive como pessoa e como profissional em todos os tempos. Nenhum troféu, medalha, disco de platina valeu mais do que aquela reação, aqueles olhares curiosos, aquela energia positiva, livre, disposta a tudo pelo filme, pela rádio.

Quando os atores que fizeram Paralamas e Legião começaram a “tocar” vi um cinegrafista e duas ou três figurantes chorando. Depois o cinegrafista disse a um colega que estava do meu lado que tinha “saudade desse tempo, apesar de não ter vivido nesse tempo”. Entendi porque é o que mais ouço por aí. As figurantes, que formavam o grupo da plateia do show, me disseram que estavam muito emocionadas por participarem de um filme cuja história é muito maior e muito mais importante do que elas achavam. E agradeceram. Elas estão na faixa dos 20 a 25 anos, estudam, querem ser atrizes e no final disseram que “adoraria ser locutora dessa rádio caso ela ainda existisse porque não eram só vozes e nem só música que vocês tocavam, vocês trabalhavam com a alma”.

Na verdade, a Fluminense FM 1982-1985 é uma rádio que não acabou. Virou um satélite. Natural. Sua fala, sua escrita, sua personalidade, sua música, continuam ecoando forte, especialmente em tempos de vazio existencial, social, político e vasta crise. Crise que atiça, dá coragem, faz evoluir, cair para cima.

O filme vai mostrar o que vimos, ouvimos, soubemos, mas o que mais valeu, para milhares e milhares de pessoas, foi sentir o astral de uma rádio que nasceu para gerar prazer. Muito prazer. E o filme será fantástico para quem ouviu falar mas não ouviu a magia da Maldita.

* Quero me desculpar sincera e profundamente com todos os kardecistas por insanidades que disse num papo privado semana passada. Fui injusto, ofendi, peguei pesado e peço perdão.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Ficção



A nova edição de meu primeiro romance vai muito bem, obrigado. Chama-se “5 e 15 – Rock Romance” e está sendo bem recebido desde o que lancei. O que é? Depois de uma longa, profunda e (por que não?) sofrida pesquisa, comecei a escrever "5 e 15 - Rock Romance". O livro é uma ficção, mas desde que comecei a pensar nele acreditei em Crimson, psiquiatra e cientista obcecado em descobrir uma substância capaz de livrar os seres humanos da dependência química de drogas pesadas. Em especial cocaína e heroína.

Em minha pesquisa, entrevistei grandes psiquiatras, visitei clínicas e muitos fatos narrados no livro aconteceram. O caso do homem que transformou o corte de suas unhas sua linha do tempo, um outro que se achava um pássaro. Algumas situações afetivas também.

Por que o carro, com marca e modelo? Porque tive um e foi nele que viajei para alguns lugares para caçar subsídios para o livro. Livro que é uma homenagem aos amigos, conhecidos e vários ídolos que as drogas pesadas mataram. O ano de 1980 é o marco zero de "5 e 15", quando, diz a gíria, começou a "nevar" no 
Brasil, ou seja, a cocaína imperou.

Liliana de La Torre e André Valle foram as primeiras pessoas a acreditar no livro. Liliana tem a minha eterna gratidão. Através da sua Tech & Mídia ela editou a primeira versão (impressa) em 2006. A nova edição, que foi lançada em versão digital na Amazon (conheça clicando aqui: http://j.mp/lam_5_15  está muito, muito diferente e contou com o suporte de Philippe Mello, sobrinho e afilhado, craque em gestão e ideias, típicas e atípicas.

Continuo acreditando no sonho de Crimson, no poder da ciência  associado ao amor. Caso contrário, não investiria 12 anos de vida neste trabalho.

P.S. - Doctor Jimmy existiu. Foi um amigo e saudoso terapeuta que revolucionou todos os conceitos da psicologia, mas não deixou registro de seu método revolucionário.