segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O rastro beat e o jornal que inventamos na Rádio Fluminense FM


Em 1984 eu e um amigo desde a adolescência, Jorge Roberto Silveira, nos encontramos para um papo. Ele estava querendo fazer um jornal de rock, mas não só de música rock. Abordaria o conceito, o jeito rock de viver, pensar, desejar. Fiquei empolgado. Sempre achei que um tabloide mensal, com boas sacadas, desenhado mergulhado na vanguarda espontânea (sem modismos), texto transgressor, artigos livres que podiam tratar de tudo o que povoava o arquipélago do rock. O país que clamava por novidades naquele momento de abertura geral.

Depois de várias de conversa, Jorge e eu decidimos, mesmo, fazer o jornal, articulado com a Rádio Fluminense FM. Ficamos de pensar em nomes, preparamos uma carta pedindo licença a revista Rolling Stone de San Francisco, Califórnia, para replicar alguns artigos, enfim, começamos a nos organizar. Convidei Maurício Valladares para fazer todas as fotos de capa. Via Maurício, conheci o designer Ricardo leite, responsável pelo visual ultramoderno do jornal e alguns colaboradores de fora.

Batizamos o jornal de “Rock Press” e entre os colaboradores, convidei o saudoso Wilson Coutinho, na época crítico de arte do Jornal do Brasil e também professor de Filosofia. Ofereci um espaço livre. Ele topou e em dois dias me mandou um artigo descabelantemente bom chamado “O rastro beat”. Ele achava, como eu, que havia muitas conexões das artes plásticas da década de 80 com as propostas da geração beat, nos anos 40 e 50. O texto parecia uma flecha. Pelo que lembro, nutrido por vírgula, ponto e vírgula, quase sem parágrafo, uma aflição do gênero “não posso parar porque começo a pensar”.

O departamento de jornalismo da rádio podia escrever a vontade. Os produtores também. A nossa ideia era fazer um cozido antropofágico chupando o sangue da Tropicália misturando a intensa, lancinante, incessante seiva morna jorrando pelo acúmulo de desejos das conas de “On The Road” (detalhes em http://colunadolam.blogspot.com/2018/10/geracao-beat.html) de todas as maneiras possíveis. Todas. Um vento forte, meio Bukowski.

O jornal foi nascendo. A alma começou a tomar forma. Empolgado escrevi três artigos em formato de minissérie sobre limites infinitos da libido feminina. O primeiro episódio se chamou “Fronteiras Aéreas”, outro episódio batizei de “Seiva dos Delírios” e um terceiro chamado “Doença Industrial” dava umas estocadas no ciúme, hediondo sentimento que na época eu achava uma doença, patologia afetiva grave, toda essa massa misturada a ondas de músicas cujos trechos das letras eu ia salpicando ao longo dos textos. Hoje penso que ciúme e sua vizinha de porta, inveja, são piores que patologias afetivas graves.

Joguei tudo fora. Ficou muito ruim. Achei que ninguém entenderia uma minissérie em três capítulos publicados no mesmo jornal, texto disforme, empenado, expondo neuroses agudas mas, sinceramente, gostosas.

Muita gente disse não, que eu não deveria jogar fora, que era uma proposta nova, revolucionária. Argumentei que jornal era Comunicação e em Comunicação quando quem escreve acha confuso quem lê não entende nada. Mas, francamente, o maior problema é que muitas histórias eram reais e os personagens estavam vagando por aí. Seria uma traição. Todo bacanal é feito por anônimos. Joguei fora porque acabei externando a face oculta de luas alheias, mesmo sem identificar as luas, as alheias e, lógico, as conas envolvidas e desenvolvidas.

A primeira edição ficou pronta, acho que é essa que ilustra este artigo. A foto espetacular e enigmática de Maurício Valladares é de Caetano Veloso num show, jogando um lençol branco sobre si. Fizemos uma boa campanha publicitária na Rádio Fluminense FM e o primeiro número do Rock Press vendeu pra caramba. Fomos a Belo Horizonte, divulgamos e todas as mídias rock de lá, avisamos a Porto Alegre, São Paulo e o jornal virou um frisson. Anunciantes queriam reservar espaço a tendência era de que o Rock Press se tornasse mais do que viável.

Não serei humilde. Rock Press foi o melhor jornal de rock e afins dos anos 1980, apesar de ter durado pouco tempo, uns seis números, ou oito, ou dez. Por que? Porque um cara que se achava dono da Rádio Fluminense ficou com ciúme, aquela praga, aquela anomalia parida pela inveja, insegurança, radioatividade emocional, perda total, Chernobil existencial. Estava com ciúmes do sucesso do jornal que, de fato, nasceu dentro da rádio. Ele queria participar ($$$), mas em vez de chamar para conversar começou a enviar memorandos babacas coagindo os textos de publicidade do nosso jornal. Mesmo assim não fiz a caveira do infeliz com o verdadeiro o dono da rádio.

A pressão, a quase perseguição, a injustiça com molho de ingratidão me fez brochar, bem ao gênero Tudo se Transformou do Paulinho da Viola. Gememos juntos, todos nós, num botequim barato nas cercanias da rodoviária de Niterói quase cantando ela declarou recentemente/Que ao meu lado não tem mais prazer, uma perda total com estilo. Irrecuperável como toda a perda total. Se o sujeito que se achava o dono da Fluminense, onde nos descabelávamos (porque queríamos) 15 horas por dia, tentava matar um jornal exigindo o que a escrotália chama de “contrapartida”, tudo se transforma. Para o mal.

O rastro beat de Wilson Coutinho me fez acordar cedo no dia seguinte, tomar um café reforçado, pegar a motocicleta e sair. Com destino. Fui a casa do Jorge, expliquei tudo e ele, com a sua invejável sensibilidade, me disse “melhor parar porque conheço você e conheço o cara que se acha o dono da rádio. Com o tempo as reações dele vão piorar, você vai bater de frente e sair da rádio. Avise a ele que o jornal vai parar. Daqui a uns meses vou conversar com ele”. Foi o que fiz naquele dia. Escrevi um memorando para o cara que que se achava dono da rádio com o seguinte texto: “Rock Press acabou. Grato, Luiz Antonio Mello. P.S. – Hoje vou gozar as férias atrasadas e já estou resolvendo com o departamento do pessoal”. Foi um único texto beat envolvendo o Rock Press que me permiti escrever.

Claro, avisei a equipe, agradeci, as pessoas entenderam e depois de fechar essa tampa fui viver minhas férias, num misto de pousada e pensão em Cachoeiras de Macacu. Explico. Na manhã seguinte, pus a mala no carro e rumei para Nova Friburgo onde passaria alguns dias, quem sabe semanas. Parei em Cachoeiras de Macacu (pé da serra de Friburgo) para fazer xixi num posto de gasolina e vi um tiê sangue (símbolo maior da minha infância) pousar no alto de um bambuzal, ao lado do restaurante onde eu comia uma feijoada. Perguntei ao garçom sobre a região, ele disse que “é linda, tem Boca do Mato, tem cavalo, tem lindas garotas, tem...”. Fiquei.

Fui para a tal pousada/pensão, aluguei um quarto com banheiro com vista para o rio (veria outros tiês?) e, o mais importante, concordavam que eu escrevesse a máquina. Naquela tarde mesmo ocupei a tal suíte, bojei na cama de mola deliciosa e acordei umas sete da noite e me ofereceram sopa. Não gosto de sopa, perguntei se havia algo menos caseiro, disseram que no dia seguinte fariam carne. Agradeci, peguei o carro e fui parar lá naquele restaurante do tiê sangue. Comi um prato feito gostoso e fui caminhar na área. Achei um orelhão, liguei para Friburgo e avisei a quem tinha que avisar que não iria mais porque, a linha caiu e eu não tinha mais ficha.

Fui a uma espécie de baile numa casa por ali, festa animada, cheguei na pousada/pensão as seis da manhã e dormi até as duas da tarde. Banho, almoço, papel na máquina e comecei a escrever meu livro beat. Escrevi direto, até as nove da noite. Não precisei escrever a noite. Outro banho e saí para encontrar com uma amiga nova que conheci na festa da noite anterior. Ela morava na área mas eu tinha uma certa vivência com minhocas, gente da terra e em geral isso dá confusão. Eu disse “quero ir a sua casa conhecer a sua família”, ela meio que subiu nos cascos, ensaiou empinar, eu expliquei carinhosamente que se não fosse a casa dela rapidamente para ser apresentado a família, ia embora. Ela perguntou “posso ir lá antes para avisar”, eu respondi “claro, espero aqui”.

Meio aflita ela foi e voltou com um belo sorriso, no belo rosto. Eu podia ir lá. Fui, ela me apresentou a mãe, ao pai (cara fechada, normal), a irmã e a uma prima, que como insiste a nossa tradição, era uma uma iguaria, uma delícia como toda prima. A mãe estava animada, ofereceu um café, bebi, sentei numa poltrona, disse nome, endereço e quando o pai perguntou “o que você veio fazer nesse fim de mundo?” expliquei que ia escrever um livro, “trabalho nessa empresa” (mostrei uma carteira funcional), e ele, mais a vontade, engatou “e o que você pretende...” a mãe interrompeu, “quer outro café, Luiz?”, mas ele não arremeteu “o que você pretende com Fulana?”, respondi francamente “nada, não tenho ideia do que pode acontecer”. Ele se mexeu na poltrona, me olhou e mandou “então por que você quis ver conhecer a gente?”. Encerrei “para ter certeza que ela não é casada, porque mulher casada pra mim é homem”. Ele disse “muito bem”. Não entendi, mas levantei, apertei a sua mão, agradeci a mãe, a irmã da garota, a prima delícia e saí. A garota veio comigo dizendo que não entendeu nada, eu disse que há muita coisa na vida que a gente não precisa entender, mas que ninguém na família dela poderia me chamar de canalha depois que fui lá, luz na cara, mostrei documentos, tomei café e o escambal.

Fui a festa (todos os dias tinha festa, menos domingo), ela voltou em casa e retornou com a prima. Não fingi que não entendi. Elas pediram bebida, no ouvido dela falei (não cochichei) “se beber, estou fora.” Ela me pegou pelo braço, visivelmente com raiva e perguntou “você está pensando que sou criança?” respondi “não porque vi a sua carteira de identidade”, “então por que não posso beber?", indagou”, expliquei “porque você vai beber e vai fazer coisas que amanhã irá dizer que foi culpa da bebida, que não lembra de nada, como se álcool fosse motor de arranque de tesão”. Ela não entendeu.

Voltamos a dançar os três, por sinal uma ótima rodada de Berry White, gosto dele. Uns caras com carinhas de mau que estavam lá na noite anterior continuaram me olhando, o que é normal; inveja, ciúme, cornofobia, essas patologias incuráveis. Acho que eles viram que na noite anterior eu estava sentado quieto numa mesa de canto, bebendo coca cola com gelo e que ela, a garota, se chegou e sentou. E daí? O problema não era daqueles playboys, misto de jagunços com bonecos de vitrine de casas pernambucanas.

Eram umas duas da madrugada. Paguei a conta e me despedi dela. Ela falou em esticada. Claro que gostei, mas expliquei “só se você falar com a sua mãe e ela deixar”. Em geral mãe e filha se estapeiam oralmente de hora em hora, mas são grandes cúmplices e inventam boas histórias para o pai, que finge que engole. Gostei da proposta dela mais pelo fato de me sentir desejado. O episódio do Rock Press atirou a minha baixa estima no limbo.

Cheguei na pousada/pensão e comuniquei que talvez recebesse visitas. Uma mulher no balcão disse tudo bem. Paguei uma diária extra, ela pôs o dinheiro na gaveta. Subi. Vinte minutos depois, ela e a prima entraram no quarto.

Peguei no sono quando estava amanhecendo, pássaros cantando, caminhões abastecendo no posto a distância. Olhei para o lado e contemplei o que tinha que contemplar com a ajuda da luz da manhã, pensei...melhor não falar. Dormi de novo e acordei meio dia. Sozinho no quarto.

Almocei, peguei o carro, comprei minha cota diária de cigarro (três maços, que absurdo) fui até Boca do Mato, vi o rio, vi as árvores, senti o cheiro de eucalipto, mas nem desci do carro. Preguiça e medo de onça, disseram que havia muitas por ali.

Voltei para a pousada/pensão, retomei o livro, dessa vez até as 10 da noite direto. Só parei porque as duas chegaram. Que beleza. No meio da noite perguntaram o que eu estava escrevendo, li umas quatro páginas e elas pareceram gostar, apesar da rebelião dos advérbios, greve de concordância, ausência de parágrafos, pontos, vírgulas.

Assim passei 14 dias e meio. Terminei o livro e fui a casa dela (s) a noite. Bati na porta, a mãe abriu sorrindo (bom sinal) falei boa noite para o pai, tomei o café. Ele perguntou “você ainda está por aqui?”, respondi “não senhor, vim aqui porque tenho que ir a Friburgo amanhã e quero convidá-la (s) para ir comigo”. A mãe achou ótimo. Dei boa noite e saí.

As 10 e meia da noite elas apareceram na nossa cama e depois de tudo que fizemos comuniquei que iria embora no dia seguinte, depois de Friburgo. A reação foi triste. Preferia apanhar. Não gosto de achar que causei tristeza em mulher. Mas isso não azedou nossas incursões interiores mútuas, ao contrário, o quesito despedida deu um gás maior. Acordei espatifado, deliciosamente doído, fiz a mala, paguei a conta, pus gasolina no carro e fomos, os três, almoçar em Friburgo. Andam nas calçadas friburguenses notei que elas chamavam atenção da homarada e provisoriamente possessivo dei umas rosnadas. Do lado de fora telefonei de um orelhão, acertei umas coisas.

Acabamos de almoçar, tomamos café, apesar de não beber entornei uma tacinha de licor de pêssego que, elegantemente golfei no banheiro. Saímos, demos uma volta de carro na cidade e descemos a serra. Parei em Cachoeiras de Macacu, elas desceram perguntaram se eu voltaria, eu disse que sim. Me deram uns beijos e saí em direção a Niterói. Parei adiante e voltei. Subi para Friburgo, do orelhão avisei que havia chegado. Hospedado, terminei o livro e desci para Niterói 15 dias depois. Um mês depois, relendo o original já revisto do meu livro beat na barca Rio-Niterói, achei...uma merda. Joguei no mar e acendi um cigarro. Cremei o livro.

Entrei no carro, beijos friburguenses, saí pensando, desci a serra. Vou me demitir da rádio depois do Rock in Rio. em janeiro de 85, decidi. E foi o que aconteceu.

Veio um vento e me levou.



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