sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Carta de amor. Neste Natal dê um livro, qualquer livro, de presente. O mercado editorial precisa de uma força, urgente!


M. de memória
-  Paulo Leminski (1944-1989) -

Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

“As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas mídias sociais e vídeos, feitos de coração aberto, nos quais a sinceridade prevaleça, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial atenção a seus protagonistas mais frágeis, são mais que bem-vindos: são necessários. 

O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amor aos livros.” Luiz Schwarcz, editor e fundador da Companhia das Letras, citado pela brilhante Cora Rónai em sua coluna de ontem, no Globo.

Cora entrou na campanha e escreveu a sua “Carta de Amor” aos livros, citando dados positivos como o crescimento de editoras e livrarias menores, ao contrário das gigantes, templos da megalomania, que estão quebrando. Respondo com prazer ao chamado do Luiz Schwarcz e o exemplo da Cora para escrever a minha carta de amor aos livros.

Desde já autorizo a reprodução deste artigo em qualquer mídia, de preferência citando a fonte. Autorizo porque um país em crise com os livros está sob o risco concreto de falência absoluta. O livro é o princípio de tudo, bússola de civilização. Livros educam apontam, comprovam, livros alimentam o cinema, a música, as artes plásticas, o balé e, acima de tudo a Democracia.
Pergunto ao leitor: quando comprou o seu último livro? Pergunto mais: com que frequência vai a uma livraria (ou a internet) e adquire um livro? O livro sempre foi o motor do mundo, razão de existir da sociedade, do amor, da compreensão, da paz e também do drama, da angústia, da aflição. Tenho certeza de que qualquer tema, subtema, qualquer assunto, situação, sentimento, invenção, de todos os tempos, já foram tratados ou citados pelos livros.

A partir dos anos 1980/90 os livros se popularizaram muito. Se o brasileiro médio tinha cerimônia de entrar em uma livraria, que já foi um ambiente sisudo, sério, envernizado, diria quase constrangedor, graças a autores que se tornaram populares as livrarias foram invadidas por multidões de novos leitores. Novos leitores que começaram a encher bienais, encontros, debates, feiras de poesia. 

Boa parte dos brasileiros rasgou a cerimônia e conheceu o prazer quase indescritível de ler um livro, especialmente de papel. Tenho um leitor digital Kindle, que é ótimo, mas revezo com edições de papel. Preciso do cheiro, da textura, da tipologia, da capa, enfim, preciso do livro.

Na onda da popularização, muitas redes de livrarias exageraram, criando megalojas que passaram a vender quase tudo, inclusive livros, tornando-se impessoais, industriais. Este ano, estão fechando, especialmente no Rio de Janeiro e o mercado retoma o formato intimista. Nada substitui um livreiro, aquele que não empurra livros como meio quilo de pregos, ele conversa com o cliente, fala do autor, do tema, um exercício diário que ele pratica com prazer que acaba se transformando em lucro.

Enfim, eu ficaria aqui anos e anos explicando a importância dos livros e suas histórias, estórias, comédias, erotismo, mas não há limite. 

Felizmente.




quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O apoio de quem nunca vi


Hoje recebi esta mensagem:

“Olá! Com atraso, acabei de ler seu livro "A Onda Maldita". Que experiência boa a leitura para um pesquisador aspirante na área. Boa prosa. Bons casos. Honestidade e franqueza. A Maldita nasceu no mesmo ano que eu. É mais velha que eu, aliás. Poucos dias, mas é. Também sou de março de 1982.

Aprendi muito com seu relato. Tinha que tentar te encontrar e agradecer pela disposição em compartilhar aquelas vivências. Escrever é mesmo um ato de generosidade. Não sei se você vai ler isso. Mas sei que escrevi. Nem tudo que escrevemos quer ser lido, embora queira ser dito. Luiz Abrahão.”

Quero agradecer ao Luiz Abrahão pela mensagem que chegou como chuva no sertão seco. A mensagem de um leitor mostra valores, com a isenção e franqueza de um desconhecido que sabe quem somos baseado, apenas, no que fazemos.

Agradeço ao Luiz e também as outras pessoas que leem e ouvem o meu trabalho. Uma vez escrevi “desrespeitem a mim, mas não o meu trabalho” e lembro que teve uma boa repercussão. Quem escreve precisa ser lido. Aliás ser lido é o que nos faz escrever.  Por isso darei uma atenção especial a todos que enviam mensagens que, por sinal, jamais deixei de responder.

Escrevam. Sempre.


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Ao mestre com carinho


Leitores/ouvintes quase sempre tem razão quando opinam. Meu podcast, que se chama RockCast, não ficava num lugar só. Em três edições já foi colocado por mim em três links diferentes, o que irrita e confunde o ouvinte.

A boa notícia é que a partir do RockCast 3, que está online, isso não vai mais acontecer. Daqui para frente vou colocar todos no mesmo link, para o ouvinte participar mais, divulgar melhor, e baixar o dia que quiser. Você sabia? RockCast pode ser baixado de graça e o endereço fixo é este aqui (pode clicar) : https://www.podomatic.com/podcasts/luiz-antonio-mello80978/episodes/2018-11-26T05_11_16-08_00

É a minha primeira experiência em podcast, apesar do banho de éter que levei há umas semanas quando, pesquisando sobre essa mídia, li em vários sites que não tem quase nenhuma audiência. Insisti e fiz porque tenho algumas convicções, entre elas a certeza de que existe uma multidão que gosta de bons discos e bons artistas de rock. Por isso, resolvi despejar em podcasts curtos (de 10 a 16 minutos, no máximo) o que acho que sei sobre a história do rock e seus discos.

Especialistas dizem que podcasts necessitam de intensa e permanente divulgação e é o que tenho procurado fazer, sem torrar o saco das pessoas. Não gosto de nada invasivo, não ponho o link no whatsapp, faço alguns comentários no Facebook e disparo e-mails semanais. Não penso em conseguir dois milhões de cliques e nem transformar RockCast em celebridade. O meu negócio é passar adiante o que acho que sei.

Fora isso, sou muito persistente quando acredito em algo e, modéstia a parte, eu acredito muito no RockCast. Principalmente a partir do episódio 2, quando passou a contar com a voz de Juliana Demier na abertura e a mixagem, montagem, efeitos de Luck Veloso, diretor da Rádio Cult FM. Minha tenacidade tem algumas referências, sendo meu pai a principal. Sidney Poitier (91) está sempre presente por sua luta, força, insistência e, sobretudo, extremo talento.

Em 1963 ganhou o Oscar de melhor ator pelo filme “Uma voz nas sombras”, o primeiro de um ator negro, numa das fases mais sinistras da história do racismo norte-americano. Ele nadou contra a maré e conseguiu. Nosso RockCast também decidiu contrariar e partir para cima.

Ao mestre com carinho.


domingo, 25 de novembro de 2018

Nós e eles

Sarney, Tancredo e o sorriso do lagarto

                                                      The Kids Are Alright
                                                        (Pete Townshend)

I don't mind/Other guys dancing with my girl/That's fine/I know them all pretty well/ But I know sometimes/ I Must get out in the light/ Better leave her behind/ With the kids, they're alright
The kids are alright/ Sometimes/ I feel I gotta get away/ Bells chime/I know I gotta get away/
And I know if I don't/ I'll go out of my mind/ Better leave her behind/With the kids, they're alright/
The kids are alright/ I know if I go things would be a lot better for her/ I had things planned, but her folks wouldn't let her/ I don't mind/ Other guys dancing with my girl/ That's fine/I know them all pretty well/ But I know sometimes I/ Must get out in the light/ Better leave her behind/ With the kids, they're alright/ The kids are alright/ Sometimes/I feel I gotta get away/ Bells chime/I know I gotta get away/ And I know if I don't/ I'll go out of my mind/ Better leave her behind/With the kids, they're alright/ he kids are alright/ The kids are alright/ The kids are alright


As novas gerações, por razões objetivas, estão desconectadas da chamada mídia formal. Garotas e garotos tem suas mídias próprias e, pelo que vejo, ouço, converso, frequentam-se mutuamente numa rica troca de ignorâncias. Ignorância no sentido literal, de ignorar. Neste caso, propositalmente. E daí?

Para começar, penso que as novas gerações sempre tem razão e entende-las minimamente é tentar evitar ser chutado para fora da van da história. Ouvir filhos com atenção é conectar-se ao presente, o tempo deles, especialmente na adolescência, quando eles mesmos tentam escapar do maçarico da fase adulta que chega incendiando os portais da infância.

É quase inútil, mas vale tentar convencê-los (muitos, nem todos) que talvez fosse bom conhecer, também, outros tipos de músicas fora do eixo sertanejo industrial-pagode de merda- funk, etc. Quem sabe eles possam gostar de um blues? Um único blues. Quem sabe um Radiohead?

Paralelamente, a ignorância literal é um direito e se as novas gerações (muitos, nem trodos) gostam de ler quinquilharias, preferem assistir you tubers, ouvir safadões, estão em seu pleno direito de surfar a liberdade a sua maneira. Quem somos nós para obrigar a ler Clarice Lispector, assistir Cacá Diegues, ouvir Keith Jarrett? Não adianta vociferar “vocês tem que assistir CNN, Al Jazeera, Globonews e não essa cisterna de purpurina tola e fútil dos you tubers” porque não somos modelo de nada. Quem somos nós para reclamar (eles chamam de sofrência, neologismo que funde sofrimento com carência)“ouçam a remixagem de Sgt Pepper dos Beatles, ouçam Jimi Hendrix e não essas bostas que vocês espetam nos ouvidos com seus celulares.”

Se muitos das novas gerações não leem bem, escrevem mal, são ególatras ao extremo, alienados e vazios isso é um conceito nosso. Ponto. E não deles. Ponto. A minha geração era cercada de brilhantes livros, jornais, revistas, filmes etc mas vestiu o pijama, passeia com o canário na gaiola pelas ruas de manhã, entra numa padaria qualquer para beber coalhada e jogar conversa fora, literalmente. Depois, adestrada, volta para casa.

A minha geração até se rebelou no final dos 60, nos 70 e 80. Fomos para a rua, abaixo a ditadura, abaixo isso, abaixo aquilo, pedradas, gás lacrimogênio. Lemos tudo sobre Lamarca, Che, Ho Chi Minh (tive um canil com o nome dele), pedradas para lá, bombas para cá, assistimos a filmes “sinistros” como “Pra Frente Brasil”, de Roberto Farias, “Desaparecido”, de Costa Gavras, até o dia em que, isoladamente, pulei fora.

Um amigo guru me mostrou, por A mais B, que Tancredo Neves não valia nada, um velhaco, a ponto de se associar a Chagas (cusp!) Freitas e montar o PP, Partido Popular, em 1980 (um galpão que reunia a escória política nacional) que um ano depois vendeu para o PMDB. Escrevi que uma reunião no PP deveria sair na capa da revista Globo Rural porque mostra a involução dos suínos.

Sempre em nome do “pragmatismo político”, faminto de poder, Tancredo topou ter o velho cafajeste José Sarney como vice. O mineiro morreu sem tomar posse e virou santo, mas deixou o neto Aécio que mais tarde exibiu em dólares o DNA da família. Por isso, não participei de nada nas “Diretas Já”; de história em história, meu nojo por Tancredo e Sarney só aumentava, a ponto de eu achar que Figueiredo era melhor do que os dois. Não só achei como escrevi num jornal e quase fui apedrejado pelos escoteiros que se auto proclamavam “da esquerda pura, ética, limpa”, a mesma que hoje mora em jaulas por terem assaltado o país.

Logo que Brizola criou o PDT, assinei a ficha, abonada por meu querido e saudoso amigo João Sampaio. Cheguei a delegado do partido que tinha uma postura clara e radical em relação a alguns assuntos, em especial Lula. O que Brizola dizia de Lula nas plenárias do partido, tratado de moleque para baixo, era de uma lucidez impressionante. Nós, pedetistas, e eles, petistas, éramos inimigos ferrenhos. 

Porradaria um no outro (na fala e também no pedaço de pau, pedradas, socos na cara), rasgávamos bandeiras deles, eles as nossas e Brizola/Darcy Ribeiro faziam vista grossa. Saí do PDT há três anos porque os bons abandonaram o navio, escroques embarcaram e o partido sem Brizola se enrolou a ponto de hoje ser propriedade do calamitoso (estou sendo elegante) Carlos Lupi, ex-ministro do trabalho de Lula e Dilma.

Desgraças a Tancredo, o país foi governado pela seguinte confraria: José Sarney (eleição indireta, fez um rolo no congresso e ficou cinco anos no poder), Fernando Collor (eleição direta como todos a partir dele), Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso (dois mandatos),  Lula (dois mandatos), Dilma (quase dois mandatos, total de cinco anos e 243 dias), Michel Temer, vice de Dilma nos dois mandatos, e o próximo, Jair Bolsonaro.

Como reclamar das novas gerações se fizemos isso? Ainda assim, gente da nossa geração liga o computador cheirando a naftalina e começa a lamuriar nas redes sociais, achando que as novas gerações tinham que estar participando deste momento histórico do Brasil, detonando Temer, Lula, etc etc etc. Reclamam que filhos e netos não conversam em casa. As vezes entram nas redes e dizem “as novas gerações só querem uma coisa do Brasil: pular fora daqui”, eu respondo “e daí?”

Há muitos filhos e netos que entram porta a dentro com a cabeça enterrada no celular teclando com sua rede, trancam-se no quarto fazendo sabe-se lá o que on line e só saem para banho, comida e tosa, como um pet. Não querem saber quem governa o país, que país é (eles tem mais o que não fazer para pensar nisso), quem é quem na TV, não assistem a noticiários, não ouvem rádios. É só eu, eu, eu, e a sua rede de contatos. E quando digo para os meus contemporâneos que isso não é problema nosso, eles gemem de horror.

Nos fins de semana muitos das novas gerações vão a festas de sua rede. Uns bebem, uns fumam, uns tomam MDMA (droga fatal conhecida como Michael Douglas) um ou outro morre e na pré alvorada da onda da madrugada voltam para o seu minifúndio (casa dos pais), alguns com namoradas ou namorados e se embolam trancafiados em seu bunker/quarto, depósito de enigmas e tabus para uso pessoal e intransferível.

E daí?


sábado, 24 de novembro de 2018

Jornalismo sem partido?


Se o arquiteto do horror nazista, Joseph Goebbels, gênio de todos os males, vivesse no mundo atual estaria manipulando fartamente as redes sociais, programando milhares de robôs para disseminar o ódio a bordo de notícias falsas para “vender” o nazismo como solução para o planeta, nesse momento em que o mundo está em transe quase hipnótico.

Não que nunca tenha se odiado tanto por aqui, mas jamais houve tanta divulgação do ódio graças ao poder internet. Ódio viraliza, manda matar, santifica, mitifica, mistifica, endeusa, demoniza a cada segundo, em cada computador, celular, tablet. Bom deixar claro que a internet é o meio, não a mensagem, e jamais esqueço o que disse Darcy Ribeiro: “Depois da fala e da escrita a internet é a mais importante descoberta do Homem”.

No passado um jornalista quando saia para trabalhar era obrigado a deixar em casa suas preferências que, em caso de fanatismo (o que não é raro), torna o homem cego e surdo, mas mudo jamais, e é aí que reside o drama. Um jornalista que permitisse que suas crenças, paixões, fanatismos (religiosos, políticos, futebolísticos e tudo mais) interferissem numa notícia, numa manchete, numa chamada, estava fadado a ser demitido.

Todo mudou. Hoje, a imparcialidade é uma abstrata e cara peça de museu. Repórter opina, todo mundo opina. O problema é que que muitos opinam mal porque não tem conteúdo suficiente para opinar bem. Opinam sobre hospitais, música clássica e escotismo com a mesma cara de pau, tornando a mídia um asneirol, uma granja de bestices.

Há ainda os exibidos, placebos não jornalistas, praticantes da amostra grátis. Mantém colunas nos sites, jornais, rádio e TV de graça ou mediante merreca mensal onde fazem merchandising de si mesmo e de seus interesses, materiais e imateriais. Num conceituado jornal, duas imbecis se revezam semanalmente em uma importante editoria, vomitando boçalidades e, pior, graças ao lobby que conseguem fazer, ora babando o ovo de um artista, ora lambendo a logomarca de um supermercado, são sérias candidatas a Miss Vazio. Aplaudidas de quatro.

Escrever de graça, ou quase de graça, é bom para elas (se exibem, acabam ficando amiguinhas de subcelebridades), para o jornal (enonomiza) e o leitor, bem, o leitor que se dane. “Se quem escreve não sabe o que diz e quem lê não sabe o que lê fica tudo igual”, Nelson Rodrigues.

Outros opinam para fazer bonito com os colegas jornalistas que respondem “mandou bem!”.  Por mais que o jornalista diga no Facebook que X é um gênio, Y um injustiçado, Z um perseguido, calcado apenas nos seus achismos impulsionados pela ira, ele não pode expelir o que sente e pensa onde trabalha, mas expele e pensa o que sente onde trabalha, sim.

Alguns chamam esses jornalistas de “formadores de opinião”, uma expressão velha, ridícula, malcheirosa. Prefiro chamá-los de deformadores de opinião porque o que mais leio, assisto e ouço é ataque de pelancas. Por exemplo, acho admirável um colunista carioca que não se esconde, não sibila em subtextos, ele é petista mesmo, lulista mesmo, dilmista mesmo, “corruptista” mesmo e bota a cara todo o dia no jornal, enaltece, goza, beija os pés de seus heróis nos panfletos que publica em forma de coluna, mesmo que em uma postura meio puer. Tempo: "Puer Aeternus" é a frase latina para "Eterno Jovem". Na Psicologia Analítica Junguiana, exemplos do arquétipo pueril incluem a criança, um pré-adolescente e o adolescente. O termo também se aplica a mulheres, ocasião para a qual a terminologia Latina é "Puella".

Acho saudável os jornais manterem colunistas descaradamente defendendo o seu quintal, mesmo que sem argumentos sólidos, mesmo que por fanatismo, gratuito ou não. Da mesa forma que existem os lulistas, os bolsonaristas também se exibem como se a mídia fosse ringue daquela luta pansexual chamada de UFC e similares.

O problema é que essa zika midiádica contamina a reportagem, setor que deveria estar blindado, produzindo notícias puras sem qualquer preferência, ideologia, uma espécie de Jornalismo sem partido. Em tese, o repórter é um profissional que colhe a informação, apura exaustivamente e transforma em notícia. Ponto.

Mas alguns setores da mídia estão deixando rolar e, em muitos casos, além de opinar (e escrever mal) os repórteres emitem opiniões e alguns decidem fazer (mal) um romance. Começam a matéria sem ir direto ao assunto. Algo como “chovia fino na cidade vazia, onde alguns carros passavam raramente. Em frente ao prédio, o gramado deserto...blá blá blá...e lá dentro do prédio estava um preso chamado...”. E só aí, sei lá, na décima linha, começa a narrar o que aconteceu, muitas vezes utilizando dialetos próprios banhados de erros de português (nem o Word salva) .

Assusta o fato de ouvir em rádios que se dizem sérias comunicadores e repórteres iniciantes incitando a audiência para mandar notícias pelo whattsapp. É um perigo? É. Mas eles fazem. Todo o dia, toda a hora. Incentivados por empresas que contratam menos e pagam menos ainda. Em vez de buscar bons repórteres, rádios, muitos jornais e TVs abrem o whatsapp para o público o que é, claro, um forte estímulo para o surgimento de fake news. O povo não é obrigado a transmitir notícias. Ele transmite o que dizem, o que ouviu falar e, algumas vezes, o que viu.

O governo está emborcado no fracasso e o presidente nascido da parceria PT-PMDB tenta escapar da cadeia por causa de graves denúncias de corrupção. A oposição se estapeia, boa parte do Legislativo e do Judiciário idem. Muitos estão afogados até o queixo em dejetos morais e éticos. Onde isso vai parar? Onde? Mais do que desgovernado o Brasil tornou-se ingovernável e segundo uma conhecida derrotista profissional não há luz no fim do túnel a não ser a do trem vindo em sentido contrário.

E na internet, tome fake news fake news fake news fake news fake news fake news, a serviço do ódio, do sectarismo, do horror, da desunião, da falência múltipla da humanidade e o pior de tudo, na mão de amadores oportunistas.



quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Niterói 445 anos: Arariboia não foi um canalha


Em 22 de novembro de 1963, duas notícias abalaram o planeta: John Kennedy foi abatido com um tiro de fuzil em Dallas, morrendo em seguida; Niterói festejou intensamente a comemoração de seus 390 anos.

Hoje, a cidade comemora do seu jeito (calada) os 445 anos. Foi fundada pelo cacique Arariboia (“Cobra da Tempestade”), em 1573. Ele e parte da tribo temiminó vieram do Espírito Santo para ajudar os portugueses a expulsar os franceses do Rio e em troca ganhou a chamada “banda de lá”, ou “terras vermelhas”, hoje a nossa cidade.

Há quem afirme que Arariboia foi um canalha, que deu uma de mercenário ganhando para matar, por exemplo, índios tamoios contratados pelos franceses. Ora, claro que não. Se os tamoios eram contratados por franceses por que não se deixar contratar por portugueses? Além do mais, na época o clima era de bala com bala, digo, flecha com flecha voando baixo na Baia de Guanabara. Não dava para ficar avaliando o contexto coçando o saco embaixo de uma jaqueira. Além do mais, Arariboia é meu herói.

Coitado, o distraído militar português Estacio de Sá foi vítima de uma flecha perdida e tombou morto. A história oficial, como sempre, customizou a verdade e transformou o mero acaso em heroísmo: “Gravemente ferido por uma flecha envenenada indígena que lhe vazou um olho durante a Batalha de Uruçu-mirim, veio a falecer um mês mais tarde, provavelmente de septicemia decorrente do ferimento.”. Ou seja, tudo na história de Niterói é controverso, confuso.

As más línguas dizem que Estácio era uma espécie de Crivella, um inútil sobrinho de Mem de Sá (como Crivella é inútil sobrinho do aiatolá bispo macedo), medroso, cínico, nepotista, mentiroso e incompetente. Mentira. Crivella é muito menos do que isso e Estácio era sim, valentão, como diriam os espanhóis “picca de las galáxias”. Afinal, Estácio fundou o Rio de Janeiro e Crivella afundou em um ano e pouco de desgoverno. Para piorar anunciou que vai concorrer a reeleição em 2020.

Sobre Estácio, mais famoso como nome de universidade, eu vi (e você, já viu?) uma capela na Igreja de São Sebastião dos Frades Capuchinhos, no Rio, que traz na tampa do túmulo dele a inscrição: "Aqui jaz Estácio de Saa, 1o Capitam e Conquistador desta terra cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correa de Saa, seu primo, 2o Capitam e Governador, com suas armas e essa Capela acabou o ano de 1583." Não entendi absolutamente nada, mas refleti longamente a respeito.

O que se sabe sobre a fundação de Niterói é que foi o maior bundalelê, no bom sentido, apesar deste escriba desconhecer bundalelê no mal sentido. O capixaba Arariboia já estava de saco cheio de ser enrolado por Mem de Sá (uma espécie de Dilma/Temer de Portugal), que ficava na Ilha do Governador na base do “diga que estou em reunião, “que fui ali e já volto”, “mande voltar outro dia”, toda vez que Arariboia ia lá cobrar pelas terras vermelhas, as tais terras prometidas pela expulsão dos franceses.

Um dia, fulo da vida o cacique pegou sua canoa em São Lourenço dos Índios (onde morava, em Niterói), atravessou a Baía de Guanabara em tempo recorde, invadiu o palácio com uma borduna na mão e vociferou algo como, em português de hoje, “Mem, moleque, assina agora a posse das terras”. Mem, falo sério, se borrou todo de medo, com a borduna encostada no queixo, mandou pegarem o termo de posse e assinou.

Há muitos rumores afirmando que, injuriado, assim que Arariboia deixou seu gabinete Mem de Sá comentou “minha vingança será eterna”, e inventou o IPTU, ISS, ITBI, Contribuições de Melhoria, Taxas de Alvará/Licenciamento e Taxa de Coleta de Lixo, Taxa de Iluminação Pública e se mandou para Portugal, deixando mais de mil parentes, afilhados políticos e amarra cachorros com cargos comissionados (sem concurso). 

A enxurrada de impostos complicou muito a fundação de Niterói, que só aconteceu em 1573, por causa da quantidade de certidões negativas que o cacique teve que providenciar e uma enorme confusão com o nome da cidade.

Prevendo o surgimento da Cedae, o primeiro nome foi “Água Escondida”. Está nos livros: "Niterói" (anteriormente escrito "Nictheroy" ou "Nitheroy") era o nome indígena do porto da cidade do Rio de Janeiro por volta de 1554. Em 1834, o antigo topônimo indígena "Niterói" foi adotado como novo nome da até então "Vila Real da Praia Grande", quando esta se tornou a capital da Província do Rio de Janeiro. Sentiram o bundalelê?

Hoje, 445 anos depois, a iguaria mais rara pelas ruas da cidade é o niteroiense. Como tiê-sangue, jiboia, cachorro do mato e piranha, muitos, vários, milhares se mandaram de Niterói cidade, mas como hoje é dia de festa não é hora de tocar o lado B do nosso disco de vinil.

Não nasci aqui. Nasci no Rio, mas vim para cá com cinco dias. Em 1982, recebi do então vereador Sergio Marcolini, o título de Cidadão Niteroiense numa solenidade na Câmara dos Vereadores. Mesmo se não tivesse recebido, que mal há em não nascer em Niterói e escrever sobre Niterói? O atual prefeito nasceu em São Gonçalo e isso não muda nada. O cacique fundador nasceu no Espírito Santo, o resto era tudo portuguesada e esta Coluna é do Google, norte-americano. Ou seja, viva o bundalelê!

Viva Niterói!




quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues. Magistral!



                                                                           
Pode parecer lugar comum dizer que uma pessoa se superou. Não importa. Cacá Diegues não só se superou como mais uma vez inovou com o seu magistral “O Grande Circo Místico”, em cartaz nos melhores cinemas.

Para mim, valeu a pena esperar. Tentei assistir duas vezes, mas a lotação dos cinemas estava esgotada (que bom!). Nesta terça-feira comprei o ingresso de manhã pela internet e finalmente assisti, por sinal numa sessão que também estava esgotada. Fico muito feliz com esse sucesso mais do que merecido e recomendo a todos que assistam numa sala de cinema.

“O Grande Circo Místico” é cinema de arte de vanguarda, no sentido literal da expressão, brindado com uma plástica impressionantemente bela, trilha sonora, maravilhosa e uma história que é um verdadeiro poema brasileiro de luz, cor, choque, com uma leve camada de absurdo. Amores, dramas, antagonismos de cinco gerações de uma mesma família circense, da inauguração do Grande Circo Místico em 1910 aos dias de hoje. Celaví, o mestre de cerimônias que nunca envelhece, mostra as aventuras e os amores dos Knieps, do apogeu à decadência.

Cacá abriu um cofre de afetos, desafetos, nascimentos, ressurgimentos, severas adversidades existenciais, conflitos, amor, traumas, um oceano de situações que giram incessantemente sob a lona do Grande Circo Místico.

A indicação para o Oscar de 2019, além de justíssima, faz todo sentido porque “O Grande Circo Místico” mostra os poros do jeito brasileiro de sentir, olhar, sofrer, nossa maneira incansável de ver o mundo, as pessoas, as estrelas os cometas. Os cometas...que maravilha. Tudo sob o olhar firme e atento de um diretor que sempre esteve e se mantém muito a frente do nosso tempo e que é mestre em humanizar a farta tecnologia de audiovisual disponível.

O elenco é fabuloso, de extremo talento. Cacá Diegues deu o ritmo certo a história para apreciarmos as vidas exibidas na telona (repito: como faz bem ver este filme de Cinema num cinema) com calma, com direito a reflexão em tempo real, livres da correria.

Lógico que irei assistir “O Grande Circo Místico” outras vezes. E no cinema. Uma obra genial do grande Cacá Diegues, orgulho da nossa cultura que ele transforma em interplanetária.

Produção Executiva – Renata Almeida Magalhaes

Trilha sonora -  Chico Buarque e Edu Lobo

Elenco – Jesuíta Barbosa, Bruna Linzmeyer,  Rafael Lozano, Catherine Mouchet, Antônio Fagundes, Vincent Cassel, Mariana Ximenes, Marina Provenzzan, Juliano Cazarré, Flora Diegues, Luiza Mariani, Dawid Ogrodnik, Amanda Britto, Louise Britto, Albano Jerónimo, Daniela Faria, João Santos Silva, Nuno Lopes.




sábado, 17 de novembro de 2018

Impublicáveis


Faz sentido um sonho que tive, noites atrás. Muitas noites atrás. Muitas e muitas e muitas e muitas noites atrás.

Sonhei com “Beleza Americana”, filme de Sam Mendes lançado em 1998, com Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch nos papeis principais. O filme mexeu tanto na minha vida (literalmente) que comprei uma cópia em DVD para assistir de novo de tempos em tempos. Não assisto porque muitas vezes é melhor deixar nossos baús trancados, calados, quietos. Além do mais, esse DVD também sumiu da minha estante, onde atua um misterioso exterminador de Cultura.

A guinada do personagem de Kevin me deixou quase lacrimoso dentro do cinema, onde permaneci uns cinco minutos depois que o filme acabou, completamente abobalhado, besteirão, queixo caído, vendo os créditos subirem na tela enquanto as pessoas saiam, com o capacete da minha Suzuki DR 800 no colo; tinha motocicleta naquela época, mas motocicleta deixou de ser um veículo civilizado, segundo o regulamento da guerra civil, também conhecido como “perdeu. Larga a moto pra não tomar tiro na nuca.”

Dias depois comecei a sentir os bons sintomas do filme, que culminaram com uma ida a Igreja do Senhor do Bonfim, na Bahia. Na época escrevi (acho que foi no Estadão) que o cinema tem o poder de meter uma colher de sopa em nossas vísceras. O cinema, em muitos casos, faz o papel do inconsciente gente boa derramado em via pública.

Mas aí mora uma pergunta: somos todos impublicáveis? “Beleza Americana” disse “larga essa vidinha e caia dentro com vigor, tesão e uma boa dose de irresponsabilidade”. Irresponsabilidade, irresponsabilidade, irresponsabilidade, eco, eco, eco. Aquilo ficou martelando em minha cabeça (e a trilha sonora idem) e, meses depois, quando olhei para trás vi que também tinha dado uma guinada radical, que a tal “vidinha” denunciada em silêncio pelo filme tinha sido substituída pelo vigor da tal dose de irresponsabilidade, que alguns chamam de “elemento transgressor, “ ou “carcará que pega, não mata e come”.

Respeitei a pergunta - todos somos impublicáveis? - e continuei a viver a nova vida calado, mais convicto ainda de que nada podemos fazer para deter a carruagem do tempo, do vento, do destino. Nada podemos fazer. Não tempos tempo, só urgências. Não dá para deixar para hoje o que deveríamos ter feito ontem.

O sonho que tive foi como se um torpedo de um submarino alemão singrasse o fundo do mar em direção a um porta-aviões americano, em 1944.
O que fazer? Acessei o You Tube e fiquei contemplando a beleza que é a instalação que o artista plástico Daniel Wurtzel fez, baseado na trilha sonora do filme. Imersão total. Beleza mais que americana.

Absoluta.

Agora é só ouvir o sibilar do inconsciente e seguir em frente. 

Calado, quieto.


Quem sou eu?

Por Margarida Seco de Oliveira, psicóloga.

O questionamento sobre o sentido da vida surgiu em todas as religiões, em todas as culturas, em todos os continentes. Pensadores, filósofos, artistas sempre buscaram respostas para o que é oculto. Na adolescência essas questões existenciais são comuns, mas parecem diluir-se ao longo da vida adulta para depois, em alguns casos, ressurgir na velhice.

Todos os dias me autoquestiono e as respostas vão sofrendo alterações evolutivas ou involutivas, às vezes nem sei bem. Hoje, cheguei a outra pseudoconclusão: a integração do SER é mais importante e mais fácil do que o FAZER. Mas o sentido de vida altera-se perante cada ciclo.

O psiquiatra Flávio Gikovate diz que a vida não tem sentido nenhum, mas não é proibido dar-lhe algum através de um projeto pessoal e individual. Urge então que este projeto seja a fusão entre a ciência funcionalista que responde ao COMO, e, a filosofia, a arte e a espiritualidade que responde ao PORQUÊ! São polos opostos complementares, ambos necessários, mas de formas diferentes e em tempos intercalados.

Vamos imaginar uma ilha que simboliza o SER conhecimento, mas está rodeada de mar que simboliza o SER desconhecido. Logo o conhecimento é sempre incompleto e a busca é infinita, porque nada nos trás um equilíbrio definitivo, apenas temporário na escalada da evolução.

Quanto mais nos relacionamos mais possibilidades se apresentam. Mas objetivamente é necessário discernir o problema para procurar a solução fundamental. A passividade perante o próprio muro/barreira requer observação consciente, porque, “tudo um dia será nada, e esse nada, será o todo que toda a vida procuramos” (Paulo de Tarso Lima).

Liberdade é tomar consciência e assumir a autoria da sua própria existência, através da matriz criativa, que espalha beleza (= autoconhecimento), faz refletir, confronta, provoca convulsões na vida para que a revelação surja no momento mais fugaz. Ser do mesmo modo e fazer tudo de igual forma não é persistência é tacanhice mental, porque o que nasce acabado são as máquinas, o ser humano evolui e forma-se ao longo da vida através das suas interações com o microcosmos e macrocosmos.

A beleza (= autoconhecimento) existe para lutar contra a tragédia. Assim, a felicidade é a possibilidade de SER e esta é original e única, sendo que a missão é procurar ter uma visão verdadeira e bela de nós próprios. Imaginemos que vamos passear dentro de nós próprios, simbolicamente vamos subir a nossa montanha. O seu vale é verde e florido, com ar puro e pássaros que cantam, mas quanto mais subimos menos vegetação temos e o ar é mais rarefeito, mas o angulo de visão é cada vez maior. Quanto mais evoluímos, mais temos de nos esforçar porque teremos uma visão mais ampla que exige maior responsabilidade.

O grande catalisador do Homem são as situações de “crise”, quando tudo cai e fica só a substância pura e realmente essencial. A causa do sofrimento é a ignorância e a solução é a liberdade do autoconhecimento. A tristeza e a solidão, de que todos fogem, ou pelo menos tem dificuldade em conviver, são a ajuda interior tão esperada, que proporciona o luto para depois renascer. E o que interessa é o querer saber e não o saber tudo. Isso não existe.

Afinal, o que estou fazendo da minha vida enquanto a morte não chega?


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Médicos Cubanos


Os donos de Cuba abandonaram o programa “Mais Médicos”, do Brasil. Cuba chutou o balde, certamente intuindo que vai acabar a mamata de embolsar 70% do que ganham seus médicos aqui no Brasil. Os médicos recebem salário mensal de R$ 10.570, reajustado neste ano para R$ 11.520, mas ficam só com R$ 3 mil -- o resto fica com o governo de Cuba.

Em setembro de 2017 o jornal New York Times estampou a manchete “Médicos cubanos no Brasil se revoltam com Cuba: "Você se cansa de ser um escravo". A matéria assinada por Ernesto Londoño diz:

“Em um raro ato de desafio coletivo, dezenas de médicos cubanos que trabalham no exterior para ganhar dinheiro para suas famílias e seu país estão movendo processos judiciais para romper fileiras com o governo cubano, exigindo ser libertados do que um juiz chamou de "uma forma de trabalho escravo". Milhares de médicos cubanos trabalham no exterior sob contrato com as autoridades cubanas. Países como o Brasil pagam ao governo comunista da ilha milhões de dólares por mês para fornecer serviços médicos, o que efetivamente torna os médicos de Cuba sua exportação mais valiosa(...)

Mas os médicos recebem uma pequena parte desse dinheiro, e um número cada vez maior dos que estão no Brasil começou a se rebelar. No ano passado, pelo menos 150 médicos cubanos moveram ações em tribunais brasileiros para contestar o acordo, exigindo ser tratados como profissionais independentes, ganhando salários plenos, e não como agentes do Estado cubano.

"Quando você sai de Cuba pela primeira vez, descobre muitas coisas que não sabia", disse Yaili Jiménez Gutierrez, uma das médicas que moveu a ação.”

A medicina cubana estava entre as mais evoluídas e avançadas no mundo até o início dos anos 90, quando a União Soviética acabou e a ilha foi abandonada. Sem a bilionária mesada de Moscou, a economia faliu.

Exatamente no início dos anos 1990, o prefeito Jorge Roberto Silveira realizou, em Niterói, o “Encontro com Cuba”, uma maneira de agradecer a ilha pelo apoio técnico dado durante na epidemia de dengue hemorrágica. Cuba enviou vários médicos para cá.

Graças a experiência cubana, Niterói foi a primeira cidade a implantar o programa “Médico de Família”, módulos avançados que atendem a moradores de uma área. Cuba abriu suas portas para que os técnicos daqui aprendessem sobre o funcionamento do revolucionário programa que hoje não sei como está funcionando.

O grande articulador e produtor do “Encontro com Cuba” foi o saudoso e querido amigo Ney Sroulevich, um dos brasileiros que mais conheciam Cuba. Passava muitos meses por ano lá.

O Encontro foi uma explosão de sucesso. Réplicas de restaurantes famosos de Havana foram feitas, show de músicos de lá, palestra e debates com escritores, poetas, historiadores, apresentações de artistas, mostras com artistas plásticos, enfim o Encontro mobilizou e envolveu toda a cidade e eu, na época presidente da Fundação de Arte de Niterói, fiquei conhecendo dezenas de cubanos que participaram.

Apesar de temerem os agentes de segurança que vieram infiltrados na delegação eles diziam que estava na hora do regime em Cuba abrir responsavelmente a sua economia para que a população não continuasse passando fome, sem trabalho, sem itens básicos. Com o fim da mesada da União Soviética, Cuba ficou a deriva.

“O único setor que continua a funcionar é a medicina, pois o governo suspendeu investimentos em todas as áreas, menos nessa”, me disse uma grande historiadora de lá. Ou seja, mesmo quando a ilha afundou a sua medicina continuou a todo o vapor. Em tempo: muitos me disseram que boa parte da população não aguenta mais viver num regime opressor.

Não sei como estão as coisas hoje, 26 anos depois do “Encontro com Cuba”, mas se os cubanos do programa “Mais Médicos” fossem ruins já haveria escândalos e gritaria.

Um relato que o jornalista Cezar Motta postou no Facebook:

As coisas têm que ser chamadas pelo nome que têm e explicadas como são.

1) O programa dos médicos cubanos no Brasil era muito bom para as populações pobres que o Lula mentiu que tinha tirado da miséria. Mentira dele, como sempre. Os miseráveis brasileiros continuaram miseráveis. Mas claro que o Mais Médicos sempre foi bom para um mundo de brasileiros. A única assistência médica que jamais tiveram.

2) Os médicos cubanos são submetidos a um trabalho quase escravo: não podem escolher para onde vão e têm que entregar boa parte dos salários ao governo cubano. O acordo não impede legalmente que esses médicos tragam suas famílias. Mas, alôô, Cuba é uma ditadura! Nem sempre o que vale é a lei. E mais: o que sobra do salário deles aqui é muito pouco pra viver dignamente com uma família;

3) Por que eles, se pudessem, trariam filhos pra regiões brasileiras miseráveis, sem ensino público decente e sem qualidade de vida? Não trariam. Ninguém traria.

4) Eu vi os hipócritas sindicalistas médicos brasileiros indignados. Corporativistas! Nunca se manifestaram sobre os péssimos serviços que seus colegas prestam aos pobres brasileiros nos nossos horríveis hospitais públicos. Tudo cada vez pior.

5) Fui a Cuba em fevereiro último e voltei com dois médicos cubanos que vinham para o Mais Médicos. Iam para o interior da Amazônia, para onde nenhum médico brasiliero jamais iria. Nem com os ótimos salários que alguns governos ofereceram há alguns anos a brasileiros recém-formados. Ambos intimidados, os médicos cubanos companheiros de viagem. Um branco e um negro, com idade entre 35 e 40 anos.

Acabei perguntando: Podem trocar de cidade depois de algum tempo, se quiserem? "Não". Têm mulher e filhos? "Sim". Podem trazê-los? "Não".









quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Submergir


As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem. Submergir é proteção. Para submarinos e para todos nós.

“Sai, sai do sereno menino”, diz a canção que alerta que “sereno pode fazer mal”. Uma tradução urbana do ato de submergir. Se bem que não sinto o sereno há muitos anos. Nem ele, nem a garoa, nem a neve de Itatiaia.

Itatiaia foi onde passei um dos melhores fins de semana de minha vida e a pior Semana Santa. “A vida é assim”, dizia Zora Yonara, astróloga do rádio e sua voz enigmática com eco alertando: “pisciano, você tem pela frente uma sequência de vitórias esplendorosas. Insista, pisciano!”.

A submersão é vital para a sobrevida. Basta ter ar suficiente e muita humildade. Castrar os ventos tortos da arrogância, deixar nossa nau existencial largada no fundo do mar, ao lado dos polvos e dos peixes abissais.

Os tímidos vivem nos bancos de areia, cercados de corais. Parados, prestando atenção nos praticantes de evasão de privacidade (essa é do Tutty Vasquez) que exibem sua anêmica minúscula burguesia nas redes sociais do gênero “estou tão feliz nessa foto, tão feliz que se me assoprar eu caio no chão e choro”. 
Ahhhh, o blefe das redes sociais. Ahhhh, o blefe das redes. Ahhhh, o blefe das sociedades. Ahhh, o blefe crônico da humanidade.

Submergir faz bem a saúde. Mesmo quando o oponente lança bombas de profundidade que fazem nosso casco mugir como o touro do Apocalipse.

Quem sabe submergir se esconde nas montanhas de pedra submarinas. Pouca luz, nenhum som, motores desligados. Esperar a tormenta passar. Um, 12, 30, 600 dias. Submarinos atômicos. Autonomia. Falo de nós, longa autonomia. Falo da sociedade, aguda dependência.

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem e que as galinhas morrem por cacarejarem depois do ovo. Não é o caso do bicho-preguiça mergulhado em seu mutismo, espatifado até por skate. 
Não fala, mas não corre.

Correr ou falar?

Opção?

Sem dúvida a terceira.

Submergir.

Ou: em dia de temporal de faca não se senta na janela.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Celacanto Provoca Maremoto

                                                                    Ele começou
                                                                O Rio gostou
                                                                 Celacanto existe

Quarenta anos depois, ano passado descobri o mistério daquele saudoso grafite que tomou conta do Rio, do país, mundo afora. Li, com satisfação, esse artigo de Cris K que revela o autor da proeza. O colega jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C@T. Em tempo: celacanto existe. É um peixe que vive nas profundezas abissais. Agora, vamos ao artigo revelador:

Em 1977, um estranho e intrigante grafite começou a aparecer aqui e ali nos muros de Ipanema, no Rio de Janeiro: CELACANTO PROVOCA MAREMOTO. Com o passar do tempo, foi pipocando em outros lugares e, do Rio, chegou à América do Norte e Europa. Mas até hoje seu significado e propósito continuam um mistério.

Entretanto, tal assunto não será mais um mistério para os nossos leitores. O autor do CELACANTO PROVOCA MAREMOTO é o jornalista carioca Carlos Alberto Teixeira(C@T).

A origem de tudo passa pelo seriado chamado National Kid, exibido na década de 60, propaganda dos produtos National, que depois virou Panasonic. Um dos episódios era sobre os seres abissais, e um deles era o peixe chamado celacanto.

Num dado momento, o Dr. Sanada, que era um dos personagens maléficos, dizia: “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO”. E não provocava nada, quem provocava era um submarino chamado Guilton, que tinha uma boca com uma lâmina dentro, uma viagem completa.

Este negócio ficou na cabeça de Carlos até 1977, quando ele bolou no caderno um grafismo de "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO" circundado por uma moldura com uma seta, que caía em uma gota com dois tracinhos ao lado, mostrando que ela estava "tremendo":

Aquele era apenas o início. O próprio Carlos conta como a brincadeira foi crescendo e como ficou famosa a ponto de aparecer em noticiários da época:

- Um dia, após a aula, peguei giz e enchi a sala com tal representação. Era na parede, era no quadro-negro, era no chão, no teto, enfim, enchi a sala de aula e aquele negócio virou um símbolo. Na época eu tinha 17 anos, e fazia esse grafismo com giz em tapume de obra, o que gerava um contraste legal do giz branco com a madeira de coloração escura. Depois, comecei a comprar Pilot (caneta hidrocor, conhecida como pincel atômico). Ensinei alguns amigos a fazer a pichação CELACANTO PROVOCA MAREMOTO, pois havia um estilo que indicava que era eu quem estava fazendo, e não uma mera cópia (havia gente que copiava e dava para perceber que não eram da minha linhagem).

O grande salto foi usar spray e aí começou a se formar uma equipe que chegou a totalizar 25 pessoas, com gente pichando até em Washington e em Paris. Como era um trabalho que a gente fazia na madrugada, havia muita pichação na zona sul do Rio, em Ipanema, Leblon e Copacabana. Por ser uma região de gente muito cabeça, as pessoas começaram a perguntar: Ah, Celacanto, o que será isso?

Na mesma época, havia uma outra pichação, o Lerfá Mu, uma coisa de maconha. Tanto eu quanto esse Lerfá Mu estudávamos na PUC do Rio, e começamos uma batalha nos banheiros, que ficavam totalmente rabiscados: eu ofendendo o Lerfá Mu, ele respondendo... Até que um dia surgiram outros pichadores na área do Jardim Botânico e Leblon lutando contra o Celacanto e o Lerfá Mu, o que ocasionou uma aliança entre nós dois. Nos banheiros da PUC marcamos um encontro numa esquina de Copacabana. Para nos reconhecermos mutuamente, deveríamos ir com um chapéu ou com uma vassoura um guarda-chuva. Eu fui de chapéu e ele de vassoura guarda-chuva; nos reconhecemos e nos abraçamos e tal. Há alguns anos, soube que o Guilherme - autor do Lerfá Mu - faleceu de cirrose hepática.

A imprensa começou a investigar as pichações, afirmando que o CELACANTO era um código de encontro entre traficantes, imagina. Outros afirmavam que eram mensagens de extraterrestres, pois naquele tempo, e até hoje, é difícil encontrar uma pichação que seja uma frase, e ali havia um período completo, sujeito, verbo e objeto. Geralmente o cara botava o nome, ou um grafismo só, ou uma sigla, e essa frase, justamente por ser uma oração completa, despertava a curiosidade das pessoas.

Com a intensa especulação dos repórteres sobre "o que será?", "quem será", o então prefeito da cidade, o falecido Marcos Tamoio, instituiu uma multa exorbitante para aqueles que fossem apanhados pichando. Os moradores da Tijuca pegaram um dos pichadores que tinha um dos grafites mais lindos, o Megalodon (com o desenho de um tubarão), encheram o cara de porrada, deixaram-no de cueca e picharam-no todinho, largando o rapaz do meio da rua.

Meu pai trabalhava no Jornal do Brasil e uma das repórteres procurava descobrir que era o Celacanto. Meu pai chegou pra mim e disse: Carlos, não é uma hora boa para você aparecer? Aí você passa a ser domínio público, é visto como uma figura interessante e, quem sabe, escapa dessa multa, caso te peguem numa dessas aí de noite. Os meus pais sempre foram contra essa história de pichação, ficavam preocupados, mas eu fazia mesmo, não tinha jeito. Resultado: Topei, a repórter foi lá em casa, tirou fotos e publicou uma entrevista com meu nome, idade, o que eu fazia (na época eu cursava Física) e tudo o mais. Então eu saía na rua e era reconhecido, olha lá o Celacanto e o meu ego explodia... Pichei mais um tempo e aí fui diminuindo, pois precisava começar a ter que estudar mais para a faculdade (que era uma dureza) até que terminei abandonando o grafite.

Uns dez anos depois, recebi um telefonema:

- É você o Carlos Alberto Teixeira?

- Sim, sou eu mesmo.

- O autor do Celacanto?

- Exatamente.

- Ah, nós precisamos da sua ajuda.

- O que que foi?

- Precisamos que você faça o grafite de um cenário do programa da Angélica, na TV Manchete.

- Olha, eu faço, o preço é tanto...

Eu dei um preço exorbitante, os caras toparam, pedi um monte de material e eles me pegaram em casa numa tarde de sábado, me levando para uma estação de trem em Niterói. Ó, é aqui, você pode pichar à vontade. Fiquei pichando lá até a madrugada, uma beleza, tenho até fotos disso, e acabei ganhando dinheiro como artista plástico. Tenho o recibo lá em casa até hoje, "Carlos Alberto Teixeira, artista plástico", graças ao CELACANTO PROVOCA MAREMOTO.

Aí começaram a surgir pessoas dizendo ah, eu inventei o Celacanto. Eu ficava olhando pra pessoa e dizia "escuta, inventou nada, quem inventou fui eu", e os caras diziam "ah, desculpa, eu não sabia". Encontrei uns três caras afirmando que criaram o Celacanto e eu ia lá para conferir e os desmascarava, já que eles não tinham argumentos: "criou onde?", "desde quando?", "onde surgiu?" e ninguém sabia.

Eu pichava só tapume e parede. Jamais pichei pedra, monumento ou árvore. Eu só pegava lugares escolhidos a dedo, como na "saída" de curvas, por exemplo: quando o cara saía da curva de São Conrado, lá na Barra, dava de cara com uma casa onde tinha a inscrição do Celacanto bem no centro, o que causava uma impressão boa. Agora, qual o motivo disso aí? No meu caso, eu acho que sempre tive uma ânsia por comunicação, por passar uma mensagem, e o Celacanto foi isso, foi algo tão bem feito na época que ficou famoso e não tem ninguém do pessoal da década de 70, da zona sul do Rio, que não se lembre do "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO".