domingo, 25 de novembro de 2018

Nós e eles

Sarney, Tancredo e o sorriso do lagarto

                                                      The Kids Are Alright
                                                        (Pete Townshend)

I don't mind/Other guys dancing with my girl/That's fine/I know them all pretty well/ But I know sometimes/ I Must get out in the light/ Better leave her behind/ With the kids, they're alright
The kids are alright/ Sometimes/ I feel I gotta get away/ Bells chime/I know I gotta get away/
And I know if I don't/ I'll go out of my mind/ Better leave her behind/With the kids, they're alright/
The kids are alright/ I know if I go things would be a lot better for her/ I had things planned, but her folks wouldn't let her/ I don't mind/ Other guys dancing with my girl/ That's fine/I know them all pretty well/ But I know sometimes I/ Must get out in the light/ Better leave her behind/ With the kids, they're alright/ The kids are alright/ Sometimes/I feel I gotta get away/ Bells chime/I know I gotta get away/ And I know if I don't/ I'll go out of my mind/ Better leave her behind/With the kids, they're alright/ he kids are alright/ The kids are alright/ The kids are alright


As novas gerações, por razões objetivas, estão desconectadas da chamada mídia formal. Garotas e garotos tem suas mídias próprias e, pelo que vejo, ouço, converso, frequentam-se mutuamente numa rica troca de ignorâncias. Ignorância no sentido literal, de ignorar. Neste caso, propositalmente. E daí?

Para começar, penso que as novas gerações sempre tem razão e entende-las minimamente é tentar evitar ser chutado para fora da van da história. Ouvir filhos com atenção é conectar-se ao presente, o tempo deles, especialmente na adolescência, quando eles mesmos tentam escapar do maçarico da fase adulta que chega incendiando os portais da infância.

É quase inútil, mas vale tentar convencê-los (muitos, nem todos) que talvez fosse bom conhecer, também, outros tipos de músicas fora do eixo sertanejo industrial-pagode de merda- funk, etc. Quem sabe eles possam gostar de um blues? Um único blues. Quem sabe um Radiohead?

Paralelamente, a ignorância literal é um direito e se as novas gerações (muitos, nem trodos) gostam de ler quinquilharias, preferem assistir you tubers, ouvir safadões, estão em seu pleno direito de surfar a liberdade a sua maneira. Quem somos nós para obrigar a ler Clarice Lispector, assistir Cacá Diegues, ouvir Keith Jarrett? Não adianta vociferar “vocês tem que assistir CNN, Al Jazeera, Globonews e não essa cisterna de purpurina tola e fútil dos you tubers” porque não somos modelo de nada. Quem somos nós para reclamar (eles chamam de sofrência, neologismo que funde sofrimento com carência)“ouçam a remixagem de Sgt Pepper dos Beatles, ouçam Jimi Hendrix e não essas bostas que vocês espetam nos ouvidos com seus celulares.”

Se muitos das novas gerações não leem bem, escrevem mal, são ególatras ao extremo, alienados e vazios isso é um conceito nosso. Ponto. E não deles. Ponto. A minha geração era cercada de brilhantes livros, jornais, revistas, filmes etc mas vestiu o pijama, passeia com o canário na gaiola pelas ruas de manhã, entra numa padaria qualquer para beber coalhada e jogar conversa fora, literalmente. Depois, adestrada, volta para casa.

A minha geração até se rebelou no final dos 60, nos 70 e 80. Fomos para a rua, abaixo a ditadura, abaixo isso, abaixo aquilo, pedradas, gás lacrimogênio. Lemos tudo sobre Lamarca, Che, Ho Chi Minh (tive um canil com o nome dele), pedradas para lá, bombas para cá, assistimos a filmes “sinistros” como “Pra Frente Brasil”, de Roberto Farias, “Desaparecido”, de Costa Gavras, até o dia em que, isoladamente, pulei fora.

Um amigo guru me mostrou, por A mais B, que Tancredo Neves não valia nada, um velhaco, a ponto de se associar a Chagas (cusp!) Freitas e montar o PP, Partido Popular, em 1980 (um galpão que reunia a escória política nacional) que um ano depois vendeu para o PMDB. Escrevi que uma reunião no PP deveria sair na capa da revista Globo Rural porque mostra a involução dos suínos.

Sempre em nome do “pragmatismo político”, faminto de poder, Tancredo topou ter o velho cafajeste José Sarney como vice. O mineiro morreu sem tomar posse e virou santo, mas deixou o neto Aécio que mais tarde exibiu em dólares o DNA da família. Por isso, não participei de nada nas “Diretas Já”; de história em história, meu nojo por Tancredo e Sarney só aumentava, a ponto de eu achar que Figueiredo era melhor do que os dois. Não só achei como escrevi num jornal e quase fui apedrejado pelos escoteiros que se auto proclamavam “da esquerda pura, ética, limpa”, a mesma que hoje mora em jaulas por terem assaltado o país.

Logo que Brizola criou o PDT, assinei a ficha, abonada por meu querido e saudoso amigo João Sampaio. Cheguei a delegado do partido que tinha uma postura clara e radical em relação a alguns assuntos, em especial Lula. O que Brizola dizia de Lula nas plenárias do partido, tratado de moleque para baixo, era de uma lucidez impressionante. Nós, pedetistas, e eles, petistas, éramos inimigos ferrenhos. 

Porradaria um no outro (na fala e também no pedaço de pau, pedradas, socos na cara), rasgávamos bandeiras deles, eles as nossas e Brizola/Darcy Ribeiro faziam vista grossa. Saí do PDT há três anos porque os bons abandonaram o navio, escroques embarcaram e o partido sem Brizola se enrolou a ponto de hoje ser propriedade do calamitoso (estou sendo elegante) Carlos Lupi, ex-ministro do trabalho de Lula e Dilma.

Desgraças a Tancredo, o país foi governado pela seguinte confraria: José Sarney (eleição indireta, fez um rolo no congresso e ficou cinco anos no poder), Fernando Collor (eleição direta como todos a partir dele), Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso (dois mandatos),  Lula (dois mandatos), Dilma (quase dois mandatos, total de cinco anos e 243 dias), Michel Temer, vice de Dilma nos dois mandatos, e o próximo, Jair Bolsonaro.

Como reclamar das novas gerações se fizemos isso? Ainda assim, gente da nossa geração liga o computador cheirando a naftalina e começa a lamuriar nas redes sociais, achando que as novas gerações tinham que estar participando deste momento histórico do Brasil, detonando Temer, Lula, etc etc etc. Reclamam que filhos e netos não conversam em casa. As vezes entram nas redes e dizem “as novas gerações só querem uma coisa do Brasil: pular fora daqui”, eu respondo “e daí?”

Há muitos filhos e netos que entram porta a dentro com a cabeça enterrada no celular teclando com sua rede, trancam-se no quarto fazendo sabe-se lá o que on line e só saem para banho, comida e tosa, como um pet. Não querem saber quem governa o país, que país é (eles tem mais o que não fazer para pensar nisso), quem é quem na TV, não assistem a noticiários, não ouvem rádios. É só eu, eu, eu, e a sua rede de contatos. E quando digo para os meus contemporâneos que isso não é problema nosso, eles gemem de horror.

Nos fins de semana muitos das novas gerações vão a festas de sua rede. Uns bebem, uns fumam, uns tomam MDMA (droga fatal conhecida como Michael Douglas) um ou outro morre e na pré alvorada da onda da madrugada voltam para o seu minifúndio (casa dos pais), alguns com namoradas ou namorados e se embolam trancafiados em seu bunker/quarto, depósito de enigmas e tabus para uso pessoal e intransferível.

E daí?


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