sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Inveja - Rubem Alves


Gosto de tomates. Resolvi plantar uns tomateiros lá em Pocinhas do Rio Verde (MG). Amadureceu o primeiro tomate, todo vermelho, com exceção de um pontinho preto na casca. Nem liguei para o ponto preto. Colhi o tomate e me preparei para comê-lo. Dei a primeira dentada e cuspi. O que havia dentro dele era um verme branco, grande, enrugado, gordo por haver comido toda a polpa do tomate.

Foi essa a imagem que me veio à memória quando me preparava para falar sobre o mais terrível de todos os demônios. Ninguém suspeita. Ele vai comendo por dentro as coisas boas que crescem no nosso quintal. Eu sempre digo: demônios fazem ninhos no corpo. Cada um tem sua preferência. Neste caso a que me refiro, o demônio faz seu ninho nos olhos. E ele não gosta de coisas ruins e feias. Como o verme, ele prefere os tomates. Gosta de coisas bonitas. E o resultado é que, quando uma coisa bonita que cresce no nosso quintal (note bem: o demônio só faz sua obra no nosso quintal) é tocada pelo olho onde mora o verme ela imediatamente murcha, apodrece, cai. E aí vêm as moscas.

O demônio que se aloja nos olhos se chama inveja. Inveja vem do latim invidere que, segundo o dicionário Webster, quer dizer “olhar pelos cantos dos olhos”. Inveja não olha de frente. Quem olha de frente tem prazer no que vê. Quem olha de lado olha com olho mau.
Olho mau, olho gordo: muita gente tem medo desse olhar. Não precisa. O verme da inveja nunca faz nada com os tomates da horta alheia. Ele só come os tomates da horta da gente.

Explico. Fernando Pessoa diz que a inveja “dá movimento aos olhos”. Olho de inveja não olha numa direção só. Lembre-se do que eu disse: que o olho onde se aninha o verme da inveja só gosta de ver coisas bonitas. Então é assim que acontece. Eu tenho um belo tomate crescendo no meu quintal. É certo que não há vermes dentro dele. Vai dar uma deliciosa salada. Mas antes, vou mostrar o meu tomate para meu vizinho… Um pouco de exibicionismo faz bem para o ego. Mas aí eu olho para o quintal do vizinho. Ele também cultiva tomates. Vejo o tomate que cresce no tomateiro dele. Lindo! Vermelhíssimo, mais bonito que o meu. É nesta hora que o verme entra no meu olho. Meus olhos se movimentam. Voltam-se para o meu tomate que era minha alegria e orgulho. Já não é mais. Vejo-o agora mirrado, pequeno murcho. E ele corresponde: apodrece repentinamente e cai… Perdi o prazer da minha salada.

Esse movimento dos olhos é a maldição da comparação. Quando eu comparo o meu ‘bom-bom-mesmo-mais-que-suficiente-para-me-fazer-feliz” com o “bom” maior do outro, fico infeliz. E o que antes me dava felicidade passa a me dar infelicidade. Com a comparação tem início a infelicidade humana. Isso acontece com tudo. Comparo minha casa, meu carro, minhas roupas, meu corpo, minha inteligência e até mesmo meu filho.
Frequentemente os filhos são vítimas no jogo de inveja dos seus pais. Aquele meu filho, que é a minha alegria, delícia de criança, com um jeitinho só dele e que me encanta… Mas o filho do vizinho tira notas mais altas que o meu, é campeão de natação, é mais forte, mais alto e não é gordinho… Então, meu olho se movimenta e o verme se aninha. E se dá o mesmo com meu tomate: apodrece.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Conspiração do Silêncio - Alvaro Acioli*


Os juízos de valor e de razão deixaram de funcionar satisfatoriamente, no caos cotidiano, onde não se sabe o que está acontecendo.

Em todos os planos e lugares pessoas não se dão conta porque estão agindo dessa ou daquela forma ou se agredindo sem motivos aparentes.

Tudo sugere que estamos cercados por inexistentes, mortos-vivos que não conseguem conviver com os que exibem alegria ou encantamento ou um certo vitalismo juvenil com a existência.

E quanto maior é a necessidade desses inexistentes de nos plagiar maior é o impulso para nos agredir.
Em todos os tempos sempre foi difícil e até perigoso não ter o cheiro 
do bando.

Contra esses paranoicos do saber-poder eu lembro a máxima de Isaías Berlin:
"Nada é mais fatal do que as ideias únicas, mesmo as nobres, aquelas que se acredita fanaticamente.”

As certezas são sempre brutais e arrogantes e inspiram todas as formas de incivilidade.

Pense em tudo isso ao contracenar com o “não-si-mesmo” de seu chefe-mandarim, que se auto proclama donatário do Verdadeiro e da Razão.

Contra esse tipo só se aplica a conspiração do silêncio. Um faz-de-conta de não estar ali.

*Médico, Catedrático, editor do site Vitrine Global.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Rádio brasileiro perde Eduardo Andrews, o nosso "Professor"


Depois de longa e heroica luta contra as consequências de um AVC, o radialista Eduardo Andrews morreu hoje, nos deixando, todos, muito tristes. Ele faria 70 anos em dezembro. 

O Andrews foi uma das pessoas mais vibrantes e generosas que conheci e certamente está entre os mais competentes, apaixonados e atuantes profissionais de rádio no país.

Conhecido por todos nós como “Professor” ele revolucionou as FMs via Rádio Transamérica e não parou mais. Passou por várias emissoras, a sua inquietação em busca de novas propostas, novas revoluções não o deixava quieto. Como um raio, ele entrava em uma emissora, botava tudo no lugar (ou fora dele), turbinava a audiência e partia para outra.

Valeu, Andrews! Valeu mesmo! Pena que não trabalhamos juntos pois eu teria muito a aprender contigo.

Aqui, uma homenagem da Buster Comunicação e um papo dele com Fernando Morgado.

https://www.youtube.com/watch?v=_4wEOLw9z6c


https://www.youtube.com/watch?v=1gziTSghdJY

domingo, 13 de outubro de 2019

Bumerangues. Tomo I


# Concordo com o amolador de facas, parado ali na esquina. A canonização da Irmã Dulce é a única boa notícia do Brasil nessa maré de treva.  

# Tem razão. Essa coluna anda meio parada, mas vai voltar como aquele sabiá da música chata pra cacete de Chico Buarque e Tom Jobim que quase provocou o maior suicídio coletivo da história do ocidente em 1968, no Maracanãzinho. Mas o sabiá aqui da coluna está mais para sanhaço, aflito, ansioso, mas animado.

# Ultimamente sou todo ouvidos, coração e mente para o lorto da Rádio AONDA (www.radioonda.com.br ) minha e de meus sócios Marcelo Oliveira e Marcelo Siqueira. Essa Coluna aqui, que também é gostosa, anda enciumada e tal, mas a rabiola da ONDA transtorna qualquer mortal. Mas, o sabiá voltou. Eu acho.

# Não tenho entendido as notícias. Quer dizer que houve um derramamento de petróleo que está contaminando o nordeste todo e estão dizendo que é apenas de um navio? Nem cem Titanics causariam tamanha lambança.

# Invejável a capacidade de congestão alheia dos políticos brasileiros. Pega fogo na Amazônia e em 10 minutos os governadores chegam a Brasília caçar dinheiro. Agora com essa cagada do petróleo no nordeste o governador Sergipe apareceu na TV exigindo dinheiro. O problema é que Brasília arria a calcinha e dá.

# A imprensa é odiada pela esquerda, pela direita e pelo centro. Sinal de que a imprensa vai bem, obrigado.

# Ou, como disse Millor Fernandes: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”

# E assim cavalga a humanidade. Trecho de um artigo do escritor José Eduardo Agualusa, no Globo:

“Um escritor é convidado para conversar com estudantes de uma prestigiada escola particular, em São Paulo. Aceita. Ao chegar, tem a recebê-lo um grupo de professoras, simpáticas, mas parecendo um pouco aflitas. Dizem que gostariam de falar com ele antes do encontro com os estudantes. “Temos um pequeno problema com um dos seus romances”, explica a diretora, abrindo um livro e apontando uma passagem na qual um camponês faz sexo com um cabrito. “O senhor entende?”

O escritor não sabe o que dizer. Não esperava aquilo, mas sim, pode entender o desconforto. Antes que diga alguma coisa, uma das professoras adianta-se:

“É que não foi consensual, certo?”

“Não foi consensual?”, murmura o escritor, duvidando dos seus ouvidos.

A diretora, uma mulher magra, muito pálida, apoia a primeira:

“Não, não foi consensual! Ele nem sequer perguntou ao cabrito se queria fazer sexo…”(...)

“Um estupro!”, sentencia a diretora, indignada. (...)

Aqui, o artigo: https://glo.bo/33peRZZ

# É lógico que a censura do governo voltou, conforme foi anunciada na campanha presidencial pelo candidato que venceu com 1/3 a favor, 1/3 contra, 1/3 em cima do muro. Mas há uma censura nem um pouco velada que pune cidadãos que não rezam na cartilha do que Brizola chamou, muito bem, de “UDN de macacão”. Um comando que padroniza ideias.

Resumindo, por causa dessa milícia (que não é pequena), hoje não teriam existido Carlos Zéfiro, O Pasquim, Rádio Fluminense FM Maldita, Perdidos na Noite (programa hilário que lançou Faustão na TV), Mussum, Zacarias, Costinha...que merda, hein?



quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Talk show de Gilda Mattoso é sucesso em Niterói




Plateia lotada, muitas gargalhadas, alegria, inteligência, alto astral. O talk show  de Gilda Mattoso no palco do restaurante BemDito, na Praia de São Francisco, em Niterói, foi um sucesso. Merecido.

Jornalista, assessora de imprensa de grandes nomes da cultura brasileira, última companheira de Vinicius de Moraes, Gilda tem muitas histórias para contar, por isso o sucesso do show.

Seu livro “Assessora de Encrenca”, lançado em 2006 -prefaciado por Caetano Veloso com texto de contracapa de Pedro Almodovar - está esgotado, mas a boa notícia é que virá uma nova edição. Maravilha! Estamos precisando de histórias leves e inteligentes, de gente que trabalha muito pela cultura do país.

Fiquei muito feliz e honrado quando Gilda me convidou para ser o mestre de cerimônia do show de hoje. Emocionante quando subi no palco e vi rostos alegres, felizes de estar ali para ouvir as histórias da ilustre niteroiense com passaporte carioca.

Tudo começou quando ela, estudante de letras, trancou a matrícula na UFF e foi viver na Europa, primeiro na Inglaterra onde trabalhou numa das lojas mais sofisticadas de Londres – Smythson´s of Bond Street-  onde lidou com reis, rainhas, atores atrizes e jet setters do mundo todo.  Ela acha que foi lá que perdeu a síndrome da tiete.

De lá foi viver na Itália onde seguiu seus estudos de italiano e começou a trabalhar com Franco Fontana, empresário responsável pela entrada forte da MPB na Europa- Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Benjor, Maria Bethânia, MPB-4 foram alguns nomes lançados por ele em turnês por lá. E acima de todos, Vinicius de Moraes que, com Toquinho, fez várias turnês sob a produção de Franco. 

Na turnê de 77, que tinham Maria Creuza como companheira, Gilda se aproximou de Vinicius, que já havia conhecido em Londres e começou um flerte com ele que a incentivou a ir viver em Paris para aprimorar seu francês. Assim ela fez e passou a ser representante de Fontana em Paris e tiveram um ano – 78 – muito movimentado com shows de Elis,  Benjor, Jair Rodrigues e Maria Creuza, Caetano e Gal e logo a seguir, Vinicius, Tom, Toquinho e Miucha. 

O romance deslanchou de vez tanto que finda a turnê, Vinicius ficou morando com ela em seu pequeno apartamento de estudante que dividia com Ruth Washington, amiga de infância que estudava medicina em Paris.  Vinicius, adorou o período que passou lá mesmo dormindo em colchonete e sem espaço para nada.

De lá os dois foram a Nova York de Concorde passar o aniversário dele – 19/10 –voltaram para Paris e de lá Gilda fechou sua vida parisiense para continuar a viver com Vinicius, agora no Rio.  Daí até a morte do seu poeta, ela ficou dedicada exclusivamente a cuidar dele.  Logo depois de sua morte – 9/7/80 – Gilda foi chamada para trabalhar na gravadora dele –Ariola- Foi recomendada por Toquinho e Chico Buarque que viram nela potencial para lidar com artistas aqui e no exterior.  Nunca mais saiu do meio. 

Da Ariola ela foi chamada para a Polygram e desde 89, tem seu próprio escritório de RP/Assessora de Imprensa ao lado do sócio e compadre Marcus Vinicius que veio com ela da Polygram. Nesse período, é difícil dizer um artista do primeiro time da música brasileira que não tenha passado por seu escritório.  Além desses, trabalhou ainda com Sting(desde 87), Paco de Lucia, Placido Domingo e muitos outros que vieram ao Brasil e contrataram seus serviços.

Além da música Gilda também assessora outras artes onde se destaca o cinema tendo lançado todos os filmes de Cacá Diegues desde Tieta do Agreste(96), alguns de Andrucha Waddington, De Guel Arraes, Jorge Furtado, entre outros

Passou a fazer também assessoria internacional para artistas brasileiros sendo que acompanhou todas as turnês de Caetano Veloso de 89 a 2004 e desde então vem acompanhando Gilberto Gil pelo mundo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Da magia do King Crimson no Rock in Rio




                                                                   Robert Fripp








O King Crimson mexeu (mexe e vai mexer sempre) com muita gente. Meu interestrelar amigo Alvaro Luiz Fernandes me mandou vídeos direto do show do Rock in Rio ontem e me disse hoje que foi o melhor show da vida dele.

Outro grande e querido amigo, Hilário Alencar (conhece KC pra cacete!), que também esteve lá, cara a cara com os mestres, escreveu no Facebook:

“Hilário Alencar Eu fui, mas foi muito rápido, passou como uma respiração...quando me dei conta, tinha acabado...Suficiente pra sentir uma emoção diferente no que tange a música e o rock...uma sensação de respeito, admiração profunda e gratidão por poder finalmente estar ali, bem pertinho, ao vivo e a cores, em alto e bom som, assistindo aqueles monstros sagrados do rock progressivo, que por 45 anos curti e ainda curto, com deslumbre, encantamento e admiração.
O som estava ótimo. Mel Colins, saxofonista do CAMEL, Tony Levin, considerado por muitos como um dos maiores baixistas do prog, já o tinha visto tocando na banda do Peter Gabriel, e a classe do mestre, Mr. Robert Fripp...que elegância sonora! Quanta excelência...”

Excelência. Essa é a palavra, Hilário. Essa é a palavra.

Outro amigão, multimidia man, fotógrafo, Luck Veloso, que morou no RiR, entrou em contato: “LAM, fiz fotos do Crimson e sei que você curte”. Claro que pedi, envie por favor. E ele enviou, essas que ilustra essa emocionada Coluna.

Muito obrigado a vocês pelo carinho e amizade. Por que não fui? Porque sou um babaca e babacas tem que levar bola nas costas mesmo. Eu estava precisando do afeto de vocês. Aliás, quem não está?

Adriana Ninsk inaugura uma bela exposição na Sala de Cultura Leila Diniz

                                     Pop Icons - acrílica sobre tela colagem stencil carimbo posca 
                                         Caixas com instrumentos - colagem de  contas variadas tinta acrílica e purpurina 
Papel cansom 300 g aquarela ,carimbo e transfer de imagem com tíner 

Diva do blues/rock/country/folk brasileiro, cantora consagrada e aplaudida nos melhores palcos do país, Adriana Ninsk inaugurou uma exposição de pinturas, colagens, aquarelas e outros trabalhos belíssimos. Sim, ela também é uma brilhante artista plástica.

A exposição está um primor e tem curadoria de lu Valença. Chama-se “Classicus” e está na Sala de Cultura Leila Diniz (detalhes aqui https://bit.ly/2Mezv8k) da Imprensa Oficial - dirigida pela competente Renata Palmier - e  fica no Centro de Niterói.

Adriana expõe o seu inconsciente banhado de música e faz um culto aos gêneros que mais aprecia, com referências a vários artistas, instrumentos, momentos intimistas. Estão lá Billie Holiday, Eric Clapton, B.B. King, Rita Lee e outros. Vários trabalhos remetem a guitarras, violões, sax, além do corajoso experimentalismo que mistura fotografia e fios coloridos costurados. Um programa fundamental para quem aprecia a boa arte, emocional, visceral, forte, objetiva.

A exposição tem o apoio da RÁDIO AONDA.





quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Ecos da guerra fria

            "O imbecil e seu dinheiro tem sorte suficiente para ficar juntos em primeiro lugar". Gordon
          Gekko, personagem do flme ícone dos yuppies "Wall Street".       

O maior problema da guerra fria não é ser guerra. É ser fria.

Há exatos 50 anos, no dia 15 de agosto de 1969, começava o festival de Woodstock, que até o dia 18 reuniu cerca de meio milhões de pessoas para ouvir o bom rock e celebrar a paz.

Desde os anos 1940, Estados Unidos e União Soviética fomentavam a guerra fria, que teve o Vietnã como um dos chamados “atores”. Guerra fria é silenciosa, muda, não declarada, sorrisos de penumbra, insinuações, trejeitos, uma usina de códigos que o oponente precisa decifrar para achar que entendeu as mensagens.

Woodstock foi um manifesto contra as guerras, todas as guerras. A fria, inclusive. Um breve desabafo que durou três dias. No quarto dia, a maioria dos que nadaram nus, transaram a céu aberto, fumaram maconha, tomaram LSD e cantaram a liberdade, pegou carona de volta para chocar o ovo da serpente.

Os hippies de Woodstock criaram, pariram e alimentaram os yuppies, que no lugar de batas e miçangas exibiam BMWs; cabelo rente, corte de 100 dólares, terninho, muita cocaína, dança, vazio existencial.

Apelidaram os hippies de fools (imbecis), mas foram filhos deles. Alternância social, coisa da vida. Hippies eram inconscientemente predadores fracassados que arranjaram o discurso de paz e amor como alternativa de sobrevivência social. Melhor ser hippie do que um merda.

Paz a amor universais não existem no manual de funcionamento do Homem, onde guerras (fria, inclusive) são fartas.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Ganância, esperteza, fiasco. Festival que celebraria 50 anos de Woodstock é cancelado

Revista Exame online

O festival que celebraria, nos EUA, o 50º aniversário de Woodstock foi cancelado, anunciou um dos organizadores do evento, após uma série de problemas de produção.

“Lamentamos que uma série de contratempos tenham tornado impossível organizar o festival que imaginamos”, disse em um comunicado o produtor Michael Lang, cofundador do primeiro Woodstock.

Em 25 de julho, os organizadores haviam anunciado que o show seria realizado em Columbia, Maryland, depois de ter sido negada em repetidas ocasiões a autorização para fazê-lo em Vernon, no norte do estado de Nova York.

O primeiro lugar escolhido tinha sido Watkins Glen, no estado de Nova York, a 230 km do local original, situado em Bethel, no extremo sudoeste do estado. Mas não tinha o tamanho suficiente para a ambição dos organizadores, que anunciaram 150 mil espectadores.

No excelente artigo “O enterro de Woodstock” publicado no Globo deste domingo, a jornalista Harazim escreveu:

(...)“O projeto de agora acabou inviabilizado por brigas com investidores, pela dificuldade de obter um local — a versão de última hora do evento marcado para 16 de agosto ficaria espremida num anfiteatro com capacidade para míseras 30 mil pessoas —, pela desistência de nomes de peso como Miley Cyrus e Jay-Z, e pelo o cipoal de exigências contratuais da indústria do entretenimento.

Sinal dos novos tempos: como os artistas contratados já haviam recebido seus cachês (vários bem acima de US$ 1 milhão), os organizadores sugerem que doem pelo menos 10% do embolsado a alguma causa social. De preferência para a ONG HeadCount, que ajuda residentes nos Estados Unidos a obter um registro eleitoral e votar em 2020. Ou seja, nada a ver com a alegria sem selfies de outra era. Melhor não tentar ressuscitar o que é único. (...)

Não conseguiram obter a autorização para realizar o show neste antigo circuito de Fórmula 1, cujos proprietários finalmente exigiram o cancelamento do contrato.

Além da longa incerteza pelo local, houve dificuldades de financiamento. O principal sócio financeiro do projeto, Amplifi Live, retirou-se levando os 18 milhões de dólares que havia investido.

A empresa de produção contratada, Superfly, também se afastou, questionando a viabilidade do projeto. Também havia incerteza sobre a participação dos artistas anunciados no início do ano, incluindo Jay-Z, Miley Cyrus e Santana.

O evento estava programado para 16 a 18 de agosto.

sábado, 3 de agosto de 2019

Eu e A Brisa - Johnny Alf

Se a juventude que essa brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só
Pra ser um sonho

E aí, então, quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria

E depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, brisa, fica, pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar...

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

A busca do consenso médico Alvaro Acioli *


Não vivemos uma época de comportamento clássico. Muito ao contrário: os valores, a cada instante, estão sendo contestados ou transformados, numa mutação que origina uma soma incalculável de informações, na qual todos sofrem a sobrecarga do impacto com o novo e o inusitado.

Estamos vivendo, indiscutivelmente, num ambiente totalmente inesperado. O homem continua criando novas possibilidades de viver, sem desenvolver outras maneiras de pensar.

O simples está ficando cada vez mais complexo. As pessoas e as ideias estão envelhecendo numa velocidade inquietante.

Nesse momento histórico, o exercício da medicina também está enfrentando delicados problemas, conceituais e éticos, causados pelas novas tecnologias que diariamente são descobertas.

Os instrumentos e recursos usados na prática médica entram em obsolescência rapidamente. E isso faz com que as redefinições e reorientações tenham de ocorrer numa grande rapidez.
A atualização e a educação continuadas transformaram-se, como nunca aconteceu anteriormente, em necessidades fundamentais.

Por outro lado, a circulação virtual do noticiário científico surpreende agora o médico com uma soma avassaladora de pesquisas e descobertas. Essa fartura, paradoxalmente, está dificultando o exercício profissional.

Falta tempo hábil aos médicos para a avaliação crítica da grande massa de informações que recebem. Eles acabam obrigados a acompanhar somente os avanços relacionados ao seu campo de especialização. Como consequência, decisões que eram antes assumidas com tranquilidade, sem angústia, tornaram-se difíceis e penosas.

Por outro lado, a divulgação abusiva de pesquisas científicas (muitas delas em fase inicial) que os leigos não podem avaliar corretamente, aumenta a desinformação social. E, pior ainda, coloca o médico na obrigação de oferecer, a todo momento, respostas atualizadas, em todos os campos da medicina, mesmo aqueles situados fora de sua área específica de atuação.

Um volume extraordinário de pesquisas se converte em novos produtos que são produzidos quase simultaneamente. Mas a verificação das consequências dessas pesquisas viabilizadas não se faz com a mesma rapidez. Isso na realidade objetiva acaba aumentando o risco da prática médica.

Um notável esforço visando promover o aperfeiçoamento profissional e a complementação acadêmica, de todos os médicos, está sendo realizado pelas entidades de classe, as sociedades e organismos especializados, as Universidades e a imprensa especializada.

Mas a melhoria do consenso médico, indispensável para um exercício profissional mais seguro e competente, exige agora o engajamento apaixonado de todos os praticantes e cultores da ciência médica.

*Alvaro Acioli - mini currículo.

. Acadêmico Emérito da Academia de Medicina do Estado do Rio, ACAMED.
. Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (1957).
. Especialização em Psiquiatria pela Associação Médica Brasileiro (1970).
. Livre-Docente em Psiquiatria Clínica e Social pela Universidade Federal Fluminense (1975).
. Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Teresópolis.
. Professor de Neuropsiquiatria Infantil da UFF, de 1972 a 1996.
. Professor Convidado da Pós-Graduação da Faculdade de Medicina do Porto/Portugal.
. Membro Titular do Comitê Brasileiro para prevenção e Tratamento da Depressão (1987-1997).
. Cem monografias e trabalhos publicados, em revistas nacionais e internacionais.

terça-feira, 30 de julho de 2019

O início, o fim e o meio

                                                                    Vista aérea
                                                                 O outro lado
                                                                  Sequência

A primeira vez que vi essa imagem era muito pequeno.

Foi uma aparição para mim, uma coisa sobrenatural. As nuvens começaram a se dissipar de cima para baixo, descortinando a montanha devagar.

O espetáculo começou pela ponta.

E poucas horas depois, a montanha monumental podia ser vista, toda ela, o dedo indicador e o restante d mão.

Wikipédia informa que o Dedo de Deus é um pico com 1.692 metros de altitude e foi conquistado em 9 de abril de 1912 pelos montanhistas José Guimarães Teixeira, Raul Carneiro e os irmãos Américo, Alexandre e Acácio de Oliveira, todos de Teresópolis.

Desde a primeira aparição o Dedo de Deus não mais saiu de minha vida. Nos anos 1970, meus pais escolheram Teresópolis como segunda cidade e eu e meu irmão passamos muitas férias de verão por lá na adolescência.

Sempre ia ao Alto do Soberbo e ficava um bom tempo contemplando o Dedo de Deus, pedindo bençãos ao Senhor, para a família, para os amigos, para o mundo, para mim. Aquele pico tem uma energia muito forte, muito.

Teresópolis foi uma cidade adorável, linda, a vida noturna para a garotada era intensa, com dança, shows, praças cheias até alta madrugada de garotas e garotos tocando violão, dando gargalhadas. Havia o Higino, havia a Bowling, Iucas, Ingá, Caxangá.

Durante o dia, banhos de cachoeira na Cascata dos Amores, ou na piscina natural do Parque Nacional. Havia também cavalos para alugar, minigolfe, uns três cinemas bons, fliperama, kart, circo. O tempo voava em Teresópolis.

Nos anos 1980 a cidade foi entregue a mediocridade/vulgaridade administrativa.  Desprezível, ignóbil. Muitos prefeitos incultos, reacionários, imbecis, ladrões, sucatearam a cidade, incentivaram e venderam a cidade para a especulação imobiliária (levaram muito dinheiro) que dizimou matas e rios. Na mesma linha criminosa, liberaram geral e incentivaram a favelização geral,  absurda. Todos os morros (eram chamados de mirantes, no passado) hoje são comunidades dominadas por traficantes, etc etc etc.

Com a devastação, a temperatura da cidade subiu e hoje quem pode tem ar condicionado em casa. O nevoeiro comum nos fins de tarde desapareceu. Os bandoleiros que tomaram a cidade acabaram com a diversão, os cinemas fecharam, não há boates, não há cavalos para alugar, não há mini golf, não há nada para fazer. O único “evento” é o toque de recolher que o tráfico/milícias impõem.

A cidade envelheceu, apodrecieu e hoje é uma treva. A Cascata dos Amores, que virou um rio de cocô, hoje é ponto de encontro de funkeiros com sons nas alturas atormentando a vizinhança. Vizinhança? Que vizinhança? Quem tinha casas por ali vendeu, ou tenta vender.

O Dedo de Deus? Ainda está lá. Mas contemplá-lo exige muito cuidado porque até o Alto do Soberbo virou ponto de arrastões.



1550

                                       "Marabá", óleo de Antonio Parreiras
O jesuíta olhou para a minha cara com aquele semblante de verme, mandou que me jogassem nu sobre um tronco de pau brasil e me capassem. Acusado de poligamia, outono de 1550, o jesuíta decretou monogamia, “entendeu, índio pervertido?” ele berrou no centro da clareira, onde colonos e degredados eram pagos para rir e matar, naquele sul de Bahia e o primeiro passo para o fim.
“essas vergonhas de fora, penduradas...eu vi você em cópula com aquela moçoila que agora sangra e ri, à sombra daquela árvore; vi depois tu pegar a mãe dela e depois a irmã dela e depois...para! para! Para! Índio degenerado... a sua felicidade vai acabar me matando!”.

O jesuíta olhou para a minha cara com aquele semblante de verme e mandou que eu morresse. O sangue quente jorrava entre minhas pernas abertas sobre o tronco de pau brasil onde me caparam. Consegui ouvir os gemidos que o vento trazia da floresta; o choro das minhas viúvas; minhas filhas; minhas amantes. Gemiam a dor da partida, o fim da partilha sobre o tronco de pau brasil.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Afinal, o que é o filme “Aumenta que é Rock and Roll”, baseado no livro “A Onda Maldita”?


Diretor Tomás Portella vai exibir, no Lapa Café, um teaser de 15 minutos com cenas do filme.


                      Tomás Portella (a frente) e o elenco de "Aumenta que é Rock and Roll"                                                                             

Filmagem no Parque da Cidade - Niterói, RJ
Johnny Massaro interpreta "Luiz Antonio" e Marina Provenzzano
  a locutora "Alice"
Marcelo Oliveira, Marcelo Siqueira (ao meu lado), Cristiano Reis
(primeiro a esquerda) e um grupo de associados do Social Rock Club. Demais!


Nesta quarta-feira (depois de amanhã) as 19 horas, no Lapa Café (https://bit.ly/2Sx89gd) o cineasta Tomás Portella e eu estaremos batendo um papo sobre o filme “Aumenta que é Rock and Roll”, uma ficção de L.G. Bayão baseada em meu livro “A Onda Maldita – como nasceu a Fluminense FM (https://amzn.to/2JIG7LS).

O encontro é mais uma produção ação do Social Rock Club e da RÁDIO A ONDA – rock autêntico, www.radioaonda.com.br , e segundo o diretor Marcelo Oliveira “a proposta do SRC é debater, conversar, ouvir, ver o rock em todas as suas texturas e nuances. Esse filme vai ser um enorme sucesso e as pessoas estão ávidas por detalhes porque ele envolve a Maldita a rádio mais emblemática que tivemos”.

Para mim será uma ótima oportunidade para esclarecer que a história é uma ficção, uma bela e bem humorada invenção do escritor e roteirista L.G. Bayão, com base no meu livro. Aliás, sobre isso ele escreveu esse artigo no site da Rádio a Onda: https://bit.ly/2Y6HqIt

Tomás Portella mostrou mais uma vez porque é um dos mais brilhantes diretores de sua geração. O ritmo, a fotografia, a pegada do filme são totalmente novos. O filme é ágil, ansioso, criativo, maldito

No Lapa Café, o Tomás vai contar como foi misturar o livro, o roteiro do Bayão e transformar tudo isso, toda essa energia, num longa metragem.

Ele vai exibir um teaser de 15 minutos com cenas do filme.

Enfim, a noite vai ser boa!

P.S. – O Social Rock Club, a cada evento, cada workshop, documentário que produz, mostra a importância de um verdadeiro clube de rock. O SRC reúne pessoas que, em comum, tem o rock como paixão e muitas ideias, propostas, sugestões para

Os clubes são um importante pilar da democracia. A partir deles a sociedade civil desenha as suas entidades. Por isso sou fã do SCR que, entre outras coisas, viabilizou a nossa RÁDIO A ONDA. Para conhecer e se tornar sócio (vale muito à pena!) basta acessar https://bit.ly/2M5hR8s



domingo, 21 de julho de 2019

Canto III (trecho) Álvares de Azevedo

Eu amo a lua pálida, alta noite,
Quando tudo é silêncio —e desgarrado
Vago dos campos na mudez, sozinho,
Ao lânguido palor das luzes dela;
Sentindo o peito se enlevar sorvendo
Os hálitos da aragem que me envolve
Como braços de virgem: — Amo a lua...
Alvíssima passando entre o silêncio
Na fulgência do céu límpido e claro
Semeado d’ estrelas!

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A Rádio MEC é fundamental


O presidente Jair Bolsonaro decidiu tirar a Rádio MEC AM do ar. Dura até o mês que vem.

Dois ângulos dessa decisão: em se tratando de mercado, AM acabou. O sistema Globo de Rádio, por exemplo, devolveu todas as concessões de emissoras AM ao governo e, literalmente, demoliu as torres de transmissão.
Mas a MEC não é rádio de mercado. É rádio de educação. E as ondas médias (AM) são de longo alcance, chegam em áreas onde as FMs nem sonham. E nessas regiões há milhões de brasileiros que precisam de uma rádio de qualidade.

Por exemplo, uma FM com 10 kilowatts de potência pode chegar a 150 quilômetros em linha reta, mas o sinal cai onde há serras, montanhas morros. Uma AM de 50 kilowatts pode passar de 400 quilômetros, ondas muito mais altas. O som é aquela caixa de sapato que conhecemos.

Custam, em energia elétrica, manutenção, etc, mais do dobro de uma FM. Mas uma rádio do governo com o perfil da MEC não pode ver nisso despesa e sim investimento, contrapartida de nossos impostos. Um mês de MEC AM certamente deve custar menos do que 15 dias de mordomias, carros oficiais, jantares, viagens, para os três poderes da Corte.

Em sua coluna no Globo de hoje, Ancelmo Gois informa que a pianista Clara Sverner (82 anos), um ícone, tem reunido a nata da música clássica para debater a Rádio MEC e sugerem a criação de uma segunda FM. A primeira para música clássica, a segunda para a brasileira.

Acho ótimo.

Mas creio que a prioridade é salvar a FM que restou, antes que acabem com tudo e depois retomar o perfil de música clássica da MEC FM. 24 horas de música clássica, só música clássica.

Bom lembrar que em muitos países da Escandinávia acabaram as transmissões de rádio “pelo ar”. Só internet, através de wifi. Por aqui, transmissões pelo ar devem durar até 2025.

No máximo.


terça-feira, 9 de julho de 2019

Pescaria entre aspas


Na avenida Litorânea, que liga o Gragoatá à Boa Viagem, em Niterói, as pessoas pescam dia e noite. Pesca de caniço, isca, anzol. Param seus carros de frente (em geral esses carros tem adesivo com os dizeres do tipo “Estressou? Vá pescar”) e ficam horas e mais horas pescando.

Eu adoraria ter saco para comprar um caniço, os anzóis, a isca, pegar aquela tralha e ficar me cortando todo com faca mal amolada tentando pescar. Ia acabar tendo um ataque de ansiedade porque, definitivamente, os trabalhos manuais estão longe de meu menu de funcionamento. Odara discorda. Odara diz que meus trabalhos manuais são imprescindíveis. Odara é Odara.

Um amigo garante que a maioria dos pescadores de caniço está ali como desculpa para sair de casa e ficar algumas horas descansando, contemplando o mar, sem ninguém enchendo o saco. Botam a isca no anzol, arremessam e ficam olhando para o horizonte, repousando, descansando sem ter que dar satisfações, ninguém porque, afinal de contas, não são loucos olhando para o nada e sim pescadores, entre aspas.

Só que, garante o meu amigo, muitos nem anzol colocam. Figuração total. Em tempo meu amigo é psiquiatra.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Bossa

                                                              João Gilberto, Rio 1960         

Minha conexão com a bossa nova se deu em dois momentos: na infância, toda vez que a família vinha de Angra para Niterói (passava pelo Rio) de carro meu pai aumentava o volume do rádio. Tocava muita bossa nova na Rádio Jornal do Brasil, que ele ouvia sempre.

Ao som de bossa nova, digo, Bossa Nova (merece maiúsculas) o carro descia a Via Dutra, entrava na avenida Brasil e passava em frente a uma área enorme cheia de caminhões e máquinas, onde um gigantesco outdoor informava: “Aqui, a futura sede do Jornal do Brasil”. A logomarca do JB era um elefantinho.

As notícias da Rádio JB (que como o jornal, funcionava na avenida Rio Branco, 110) brotavam no alto falante do carro, seguidas de ótima música, em especial Bossa Nova. Foram registros muito fortes que só fui perceber muito mais tarde.

O Jornal do Brasil mudou-se para a avenida Brasil, 500, em 1972. Comecei a trabalhar lá, como repórter da Rádio JB AM, em 1974. Toda vez que entrava no prédio, olhava para o ponto da avenida Brasil onde, pequeno, avistava o tal outdoor nos tempos de Angra-Rio, e “ouvia” Bossa Nova. Começar a trabalhar no edifício do elefantinho foi a realização de um sonho, por sinal, o sonho e todo jornalista naquele tempo. A história impressionante do Jornal do Brasil foi contada por Cezar Motta no livro “Até e última página – uma história do Jornal do Brasil”; conheça aqui https://bit.ly/2XxCZ9s . A querida Belisa Ribeiro escreveu “Jornal do Brasil: História e memória”, detalhes aqui: https://bit.ly/2JixmIg .

A Bossa Nova voltou a me seduzir na segunda metade da década de 1980 graças ao convívio com o amigo e mestre Roberto Menescal. Ele era diretor artístico da gravadora Polygram e foi numa tarde chuvosa que, almoçando no Tarantella com ele, comentei que gostaria de fazer uma incursão profissional na Bossa, quem sabe produzindo alguns artistas novos, etc. “Não quero ficar estigmatizado como roqueiro”, eu disse.

O sábio Menescal deu um sorriso engraçado e disse “as pessoas me olham e só pensam na Bossa Nova e no “Barquinho” (https://bit.ly/2RZkKsq), não tem jeito. Comecei a curtir. Por isso, curta o rock. Curta muito esse estigma”. Nunca mais pensei no assunto, mas comecei mesmo a ouvir Bossa Nova com direito a livro de Ruy Castro na cabeceira.

Menescal é um dos pioneiros da Bossa Nova e, claro, conviveu muito com o João Gilberto, um músico que para mim é um grande enigma. Provavelmente por ignorância, não entendi – ou atingi – a sua propalada genialidade, não compreendi a sua maneira de cantar, como absorvi, por exemplo, a música eletroacústica de Karlheinz Stockhausen. Mas ele inventou a Bossa Nova e isso é mais do que suficiente. Não sou tosco. Muita gente achava graça de suas excentricidades, parar shows porque o ar condicionava incomodava, etc. 

Sempre achei uma chatice isso. Dele e de outro gigante, Keith Jarrett, que tinha mania de interromper concertos no meio porque alguém espirrava na plateia. Jarrett parou com isso nos anos 1990.

Eu queria escrever alguma coisa sobre o João Gilberto, um homem cultuado e admirado em todos os continentes, que representa um enorme salto cultural do Brasil, a partir do final dos anos 1950. Por isso, escrevo para desejar a ele Paz e Sossego, ao lado de Deus.             

             

Inveja - Rubem Alves

Gosto de tomates. Resolvi plantar uns tomateiros lá em Pocinhas do Rio Verde (MG). Amadureceu o primeiro tomate, todo vermelho, com exceçã...