segunda-feira, 25 de março de 2019

A internet não é o único algoz dos jornais de papel


Não culpo a internet pelo ocaso dos jornais de papel. A internet é parte disso, claro, mas a incompetência, o desleixo e a arrogância são os maiores vilões. O experiente jornalista J.R. Guzzo definiu bem:
                                                   

O Rio teve mais de 60 jornais diários (matutinos e vespertinos), com milhares de leitores, mas que por má gestão e desvario político, muitos sucumbiram, mas outros surgiram. Afinal, o carioca e o paulistano sempre foram ávidos por notícias

O que a internet fez? Criada em 1999, a internet logo começou a gerar conteúdo produzido pelos próprios internautas, muitos sem nunca ter chegado perto do jornalismo. Foi a primeira onda de boatos, fake news e similares.

Os jornais e revistas começaram a fazer os seus sites gerando conteúdo mas, seguindo uma trágica tradição; demitiu bons e experientes jornalistas optando por mão de obra barata, logo, desqualificada. Poderiam ter feto o contrário, investir pesado em grandes nomes, grandes matérias, mostrar para o novo mundo WWW que “é melhor e mais seguro ler aqui onde só há profissionais”. É lógico que os leitores iriam aderir.

Há dias, depois de mais uma tentativa, o Jornal do Brasil parou, de novo, de circular com a sua versão impressa. Durou um ano. No dia em que foi lançado, um domingo, a tiragem desse novo JB esgotou e foram rodadas mais duas extras para atender a demanda. O Rio recebeu com festa o seu herói do passado que...não tinha nada a ver com o herói do passado. Não vou detalhar, mas garanto que a culpa não foi da internet. Ficou comprovada a existência de uma demanda reprimida que o jornal frustrou. Se tivesse seguido uma linha editorial próxima ao do velho JB, teria se firmado como opção e com bons anunciantes.

Cezar Motta, lançou, ano passado, “Até a Última Página – uma história do Jornal do Brasil” (Companhia das Letras) um profundo relato sobre o nascimento, glória e morte da primeira encarnação Jornal do Brasil, um dos mais importantes jornais da América Latina durante décadas.

O jornalista passou anos pesquisando, entrevistou dezenas de pessoas e escreveu um livro fundamental para a história do jornalismo brasileiro, eterno refém de seus donos. “Coronéis” que usam as letras em prol de suas negociatas. Lourenço Cazarré escreveu no Correio Brasiliense em abril do ano passado:

“De acordo com a pesquisa de Cezar Motta, o Jornal do Brasil — que sabia estar condenado ao desaparecimento caso não obtivesse canais de televisão, como seu mega-adversário O Globo — morreu vítima de terremotos econômicos (crise do petróleo e maxidesvalorização do cruzeiro), aventuras brancaleonescas (criação de uma indústria papeleira), gestão mais que temerária e muita, muita empáfia. Nos seus anos de esplendor, era quase uma estatal com funcionários em excesso e muito desperdício.”

Pesquisando sobre o fim de outros grandes jornais brasileiros, os atestados de óbito revelam os mesmos motivos: ganância, vaidade, má gestão, desvios na linha editorial, donos metendo a mão em benefício próprio. Ou seja, a internet foi um "plus".

Aproveito e pergunto ao leitor aqui desta Coluna o que ele está achando da qualidade do jornal que lê hoje. As matérias são bem feitas? Há variedade de temas? Os assuntos são de seu interesse? O nível de imparcialidade é bom? A qualidade dos textos satisfaz? Os articulistas escrevem bem, tem opiniões interessantes?

No meu caso, há anos assino um jornal diário na versão digital e estou quase cancelando. A cada dia tenho a sensação de que estou fora do público alvo do jornal, focado fofocas, subcelebridades, inchado de anônimos articulistas que não conheço, escrevendo o óbvio, e, o pior, sem reportagens. Pois é, o jornal que pago para receber online pouco a pouco - cada vez mais raquítico - publica menos reportagens sobre o Estado do Rio e o Brasil, dando prioridade aos “currais” de colunas. Eles acham que reportagem custa caro.

Não me interessa a opinião de quem não conheço, de quem não tem referência jornalística ou de quem escreve para si mesmo. Diante desse quadro, concluo que leio, no máximo, 10% do jornal. Está assim porque a culpa é da internet? Claro que não. A internet virou uma boa desculpa para encobrir a estupidez.




domingo, 24 de março de 2019

Acessos a esta coluna caem 70%


Prólogo:

O número de acessos a esta Coluna desabou nas últimas semanas, coisa de 70%, segundo a necessária frieza dos números.
Mudei a abordagem e muitos leitores bateram asas. Faz sentido.
Passei a praticar textos abstratos do gênero “eu não entendi nada, por isso parei de ler”, mas nada posso fazer.

Nada posso fazer quando dou sinal verde as mudanças e elas assumem as letras que digito que, de fato, levam a mensagens inconscientes. Mas jamais inconsistentes.

Desejo boa viagem aos 70% que desembarcaram e muito conforto e prazer para quem fica e, também, para quem vai chegar.

Será que vai chegar mais alguém?

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Perda de tempo é luxúria. No mal sentido. Perda de tempo é cremar vida no incinerador e ver da chaminé a fumaça branca rumar para o mar. Contrariada.

A dor não merece sequer uma quitinete no nosso passado. Dor é dor, que asse no infinito. A perda de tempo, como a dor, fere a constituição existencial de cada um e de outras vítimas que vivem entorno. Entorno de nós e em torno da perda do nosso tempo. Mas nossa perda de tempo é unicista e intransferível, logo, perde tempo no entorno de nossa perda de tempo quem quer.

“Levanta e morre!”, ordena a coragem diante do suor frio, boca seca, rosto pálido, lábios colados do covarde. O covarde sabe que não há outra saída. É levantar e morrer. De tanto viver. Mas finge que não é bem assim, que há uma alternativa pelo acostamento, quem sabe por cima da grama. Esquece o covarde que a vida não é teatro e nem cinema, não tem ensaio, não tem coxia, não tem camarim , muito menos maquiagem. Levanta e anda!

A perda de tempo é crime inafiançável; prisão perpétua. Pijama listrado, naftalina, barba por fazer, melancolia. Não é assim!, grita a vida; não é assim!, grita a morte. Levanta e morre! Levanta e corre! Levanta!
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Caetano Veloso:

O sol nas bancas de revista/Me enche de alegria e preguiça/Quem lê tanta notícia/Eu vou/Por entre fotos e nomes/Os olhos cheios de cores/O peito cheio de amores Vãos/ Eu vou/Por que não, por que não.

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Albert Camus:

"Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.

A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.

O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é havê-las cometido...é sim não poder voltar a cometê-las.

Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.

Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.

Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.

O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio...

Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.

Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.

A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.

Nada passa mais depressa que os anos.

Quando era jovem dizia:

“verás quando tiver cinqüenta anos”.

Tenho cinqüenta anos e não estou vendo nada.

Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.

A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.

Sempre há um menino em todos os homens.

A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.

Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.

Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.

Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.

Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los."

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A inquietude da falta de tempo incendeia fronteiras. Impossível viver o tempo que nos resta em Nazaré, Santa Mônica, Cornualha, Miami Beach. O tempo que nos resta vai findar. Breve.

Nazaré, Santa Mônica, Cornualha, Miami Beach não permitem validades vencidas, mesmo com pijama lustrado, atenolol e a naftalina das previdências sociais.

O prazer só reconhece viço, exuberância, tesão. O prazer só acata o “levanta e vive!”. O prazer não suporta cansaço, barba branca, saudade do último trem.

Que já se ouve a distância.





sábado, 23 de março de 2019

The Who, a voracidade criativa de um cara e uma banda que jamais se rendem

                                        Pete Townshend. Foto de Fernando Mello, Londres, 1981













                     
                                 
Não tenho a mínima ideia de quantas vezes ouvi a ópera rock “Tommy”, do The Who. Milhares, milhares, mas cada audição me mostra algo novo. Na sexta-feira, assisti ao musical inglês no Vivo Rio, uma montagem de “Tommy” para teatro que está em cartaz há 25 anos em Londres. https://bit.ly/2UWNwe0  . Tudo novo, de novo.

Como se sabe, em suma, Tommy é um menino que fica cego, surdo e mudo por trauma. Seu pai, piloto da RAF, foi dado como morto na II Guerra e a mãe casou-se com um outro homem. Uma noite, Captain Walker, pai de Tommy, reaparece em casa. Sobreviveu ao acidente aéreo. Vê a mulher com o outro, os dois brigam, Captain Walker leva um golpe na cabeça com um abajur e cai morto. O pequeno Tommy, 10 anos, assistiu tudo.
Mãe e padrasto pressionam o garoto: “você não viu nada, não ouviu nada, não vai dizer nada a ninguém”. Ele fica cego, surdo e mudo.

Pete Townshend tinha 23 anos quando compôs Tommy. Vai fazer 74 em maio. Começou a compor compulsivamente sem suspeitar que estava escrevendo a primeira opera rock da história, muito antes de “Hair”, “Jesus Cristo Super Star”.

Quando The Who começou a gravar (a versão original de “Tommy” saiu em 1969 - https://bit.ly/2WgHRiY ) a gravadora tentou abortar mas o contrato havia sido bem amarrado pelo produtor Kit Lambert (morto em 1981). O álbum saiu e, fora Townshend e Lambert, que tinham certeza do sucesso, ninguém entendeu a explosão no mercado.

Vendendo milhões de discos, The Who fez a primeira turnê de “Tommy” que culminou com o antológico show na Universidade de Leeds que virou o melhor álbum de rock gravado ao vivo de todos os tempos: “Live at Leeds”. Antes, a banda mostrou parte da ópera no festival de Woodstock e num concerto avassalador no festival da Ilha de Wight, em 1970. Veja aqui: https://bit.ly/1d8FkjL .

Depois de “Tommy”, Townshend escreveu a segunda ópera rock, chamada “Lifehouse” que ninguém entendeu na época e ela foi abandonada. O musico entrou em profunda depressão por causa disso, mesmo depois que “Who’s Next” (com os “restos” de “LifeHouse”) foi eleito “álbum do século” pela crítica britânica.  https://bit.ly/2uniHDqIncansável, Townshend escreveu “Quadrophenia” (o disco da minha vida), lançada pelo The Who em 1973. https://bit.ly/2WjXeXX

Este ano, a banda lança o primeiro disco de inéditas desde 2006, sem dois músicos originais: o baterista Keith Moon (morto em 1978) e o baixista John Entwistle (morto em 2003). Mais: 5 de novembro Pete Townshend lançará mais um romance, ““The Age of Anxiety” (“A era da Ansiedade”). 

O livro fala de duas famílias londrinas ao longo de duas gerações e o caos de suas vidas. “Há dez anos, decidi criar uma obra que combinasse ópera, instalação de arte e romance”, disse o músico. “De repente aqui estou com um romance pronto para publicar. Sou um leitor ávido e gostei muito de escrevê-lo. Eu também estou feliz em dizer que há uma música finalizada, pronta para ser lançada e apresentada.”


Em 2020, The Who volta para a estrada em nova turnê mundial. Será que o Brasil vai ser incluído na agenda?

quinta-feira, 21 de março de 2019

Cassiano


Três e 14 da madrugada. Acordo mansamente, sem sobressaltos, apesar do pesadelo. Desde a adolescência só tenho pesadelos. Sonho bom? Raro. Bom, acordo as três e 14 como se fosse seis da manhã para um triatleta.

Rondo pela casa, ligo a TV e compro um travesseiro num programa de vendas pelo telefone. Segundo o comercial, o tal travesseiro é um néctar de penas de ganso capaz de corrigir todos os problemas de coluna.

O locutor diz que com esse travesseiro temos um sono “reparador”. Só não prometeu que acordamos ao som de canários belgas porque a empresa fica aqui no Brasil, onde a natureza está em rápida extinção.

Garantiu que quem não ficasse satisfeito com o travesseiro teria seu dinheiro de volta. Os caras são craques. Três e 14 de um dia de semana é o momento ideal para veicular um anúncio de travesseiro. Liguei, passei o número do cartão de crédito.

Tem gente que fica muito angustiada quando acorda no chamado “meio da noite”. Como para mim é rotina, não sinto nada. Apenas uma certa impaciência, apesar da calma da madrugada, telefones mudos, celular calado, o famigerado whatsapp quieto. Tanto que já escrevi até aqui se interrupção.

Já li e ouvi muito sobre o chamado relógio biológico. Aparentemente durmo mal, mas uma vez li numa revista de ante sala que o tipo de sono que tenho se chama “flash”. Durmo e acordo várias vezes. De fato não é tão bom quanto o sono sem escalas, aquele que , dizem que existe, você deita a meia noite e acorda as oito na mesma posição, que nem me lembro mais como é.

Mas o fato das comunicações estarem a disposição de madrugada me trouxe esse vício. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona.

Meu relógio biológico é oportunista e prático. Em geral durmo cedo sexta e sábado para, quem sabe, atravessar o dia seguinte na praia. E praia vou o ano inteiro porque concluí que não existem praias feias com chuva, com tempo nublado ou em plena tempestade. Correção: ia a praia o ano inteiro. Não tenho ido.

As praias são lindas de qualquer jeito. Em Itaipu quando chove e o vento traz aquela bruma branca ela parece com a costa da Escócia, que conheço via cinema. Nos dias frios, de céu azul profundo, lembra a Indonésia.

Já sob tempestade lembra a capa de “Love Over Gold”, um dos grandes discos do Dire Straits. É por isso que tenho certeza de que Itaipu é a mais gostosa das filhas de Ryan.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado, eu sou estressado. Já me chamaram de masoquista, que despendo muita energia, etc. Anos atrás experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. Nunca me senti tão mal na vida. Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, porra que depressão! Isso sim é masoquismo.

No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, cobertor das Casas Pernambucanas, e no radinho toca “A Lua e eu”, de Cassiano; “quando olho no espelho/estou ficando velho e acabado...”.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. José Maria Monteiro de Barros (saudade desse meu amigo) me fez observar com calma as aves e mamíferos. Fora as criaturas da noite, todos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio na Wikipédia que os primeiros homens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 17 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite tem que se habituar com dois sons altamente melancílicos: 1) Caminhão de leite; 2) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2) Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível

Já tentei acertar meu relógio biológico para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade. De 1974 a 1976 trabalhei no horário das 5 da manhã ao meio dia. Jornalismo tem dessas coisas. Uma ótima oportunidade para acertar o tal relógio. Não deu. 

Chegava em casa, tomava um banho, almoçava e dormia até as seis da tarde. A noite caia na gandaia, ou ia para a faculdade, que era mais ou menos a mesma coisa. Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas da madrugada numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. 

Relógio biológico não é atômico e muito menos um Rolex automático. O meu é um paraguaio, desses de camelô. E com licença que já são quatro da matina e preciso tomar um banho.


quarta-feira, 20 de março de 2019

Lancinantes dormências

                                                                "Marabá", de Antonio Parreiras. 1911.

As massas polares que frequentam o outono agarram o azul mais profundo do céu infinito, realçam o verde das árvores, visitam as ocas de nossas reflexões, olhar levemente crítico; “o que estou fazendo neste filme?”.

Reflexões as vezes se enroscam em crises existenciais, mar de marolas que engrossa, engrossa e de repente vira anunciando as ressacas. Ressacas, irmãs do inverno, das pedras e conchas geladas, vento soprando de leste, amor sem tempos de cólera.

O suor da liberdade mergulha em trilhas áridas e sofridas que graças à luz do outono parecem jogar a favor. Nada contra a primavera e o verão, mas o calorão mata de horror as reflexões plácidas.
Caos.

As notícias dos últimos dias não tem combinado com a beleza das folhas molhadas ou com o orvalho que molha as calçadas. O noticiário dos sites, jornais, revistas, TVs dá vontade de parar de querer saber o que está (ou não) acontecendo. Aí, o sonho:

O jesuíta olhou para a minha cara com aquele semblante de verme, mandou que me jogassem nu sobre um tronco de pau brasil e me capassem. Acusado de poligamia, outono de 1550, o jesuíta decretou monogamia, “entendeu, índio pervertido?” ele berrou no centro da clareira, onde colonos e degredados eram pagos para rir e matar, naquele sul de Bahia e o primeiro passo para o fim.
“essas vergonhas de fora, penduradas...eu vi você em cópula com aquela moçoila que agora sangra e ri, à sombra daquela árvore; vi depois tu pegar a mãe dela e depois a irmã dela e depois...para! para! Para! Índio degenerado... a sua felicidade vai acabar me matando!”.

O jesuíta olhou para a minha cara com aquele semblante de verme e mandou que eu morresse. O sangue quente jorrava entre minhas pernas abertas sobre o tronco de pau brasil onde me caparam. Consegui ouvir os gemidos que o vento trazia da floresta; o choro das minhas viúvas; minhas filhas; minhas amantes. Gemiam a dor da partida, o fim da partilha sobre o tronco de pau brasil.

A dor de querer saber compensa mais do que a dormência da ignorância, por si só, boçal, totalmente boçal que nos engessa numa redoma de lata sem o menor sentido.

Fundamental continuar querendo saber e, ao mesmo tempo, contemplar o azul profundo do céu levemente gelado do outono que desperta sentimentos profundos, belos e, por que não, alguns nós na garganta.

E o vento sopra, leva o orvalho, as luzes, o azul do céu de outono, todo prazer que houver nessa vida.

Amém.


segunda-feira, 18 de março de 2019

Atentados não deveriam ser divulgados


Macabra notoriedade. Esse é o objetivo número um de quem comete atentados e massacres em todo o mundo, tanto que a maioria grava as imagens dos atos e incentivam outras pessoas a cometer o crime.

Se todos os meios de comunicação parassem de divulgar esses atos, eles sofreriam uma queda. Há evidências da eficiência dessa medida como, por exemplo, no futebol europeu. Desde que as emissoras de TV decidiram não mais exibir imagens de torcedores que invadem os campos o número de ocorrências quase zerou.

No Brasil, um acordo informal veta a divulgação de casos de suicídio o que também provocou uma queda. Ou seja, se episódios de terrorismo, atentados, massacres não ganhassem mais espaço na mídia, com certeza eles iriam diminuir e, quem sabe, zerar em muitos casos.

O problema é conter o apetite insaciável da mídia mundo cão e o dinheirão que fatura dos anunciantes.


Desejo


Minha paixão por motocicletas não tem explicação, como toda paixão. Ela brotou como peiote nos desertos do México logo que fui proibido de andar num ciclomotor de um amigo. A marca era Velosolex.

A preocupação dos meus pais fazia sentido por causa da minha infinita irresponsabilidade em insanas acrobacias de bicicleta - com direito a visitas hospitalares com relativa frequência - aliada a uma suspeita de déficit de atenção. Soma-se a isso a fama de maluco que alguns vizinhos tentaram me jogar nas costas pelo conjunto da obra, especialmente o volume e o tipo de música que ouvia. E ouço.

Proibida para mim como muitos filmes, músicas, livros, peças de teatro para todo mundo, pouco a pouco a motocicleta foi se transformando em meu obscuro objeto do desejo, aqui uma homenagem inconsciente a Buñuel. A motocicleta tornou-se desejo tórrido, curiosidade vã pelo proibido como buraco da fechadura, vizinha sem calcinha encerando a sala, casas de ópio, Carlos Zéfiro, mescalina de Dom Juan, personagem de Carlos Castaneda.

A medida em que fui voando mais e mais nos ciclomotores emprestados, um amigo de outro bairro ganhou uma Yamaha 125 zero KM, azul, na época importada do Japão (estamos em 70 e tal). 

Quando vi aquela Yamaha, o desejo me deu um solavanco. Queria voar naquela obra de arte da época, a qualquer preço. Tanto que propus um aluguel. Eu andaria duas horas em troca de um tanque de gasolina e ó óleo da mistura do apoplético motor de dois tempos. O cara topou. Eu já escrevia em um jornal local que me rendia uma graninha razoável, que botei toda no estranho aluguel.

Sem lenço, documentos, capacete, de bermudas, menor de idade, senti coisas inconfessáveis montado naquela 125 (na época, o must) que voava baixo e, defeito maior, tinha um péssimo freio. Já havia lido que aquele modelo não era confiável, “meio vadia”, me disse um mecânico, mas eu relevei. Relevei até um mês depois, num fim de tarde quando saltava com ela sobre um pequeno morrote lá em Ponta Negra, Maricá. Sem mais nem menos, a moto resolveu não frear, rodou, embicou num matagal e desabou no canal. Rolei até um matagal ao lado, sensação de pânico, percebendo que estava sendo esfolado.

Permaneci alguns segundos deitado, olhos abertos, pensando nas coisas de sempre: será que morri? Será que me arrebentei todo? E a moto, como estará? Levantei e manquei forte. A perna direita estava com um lanho de sangue, o braço direito também, raspão na testa, o que vulgarmente é conhecido como “escoriações generalizadas”. 

Mancando, fui ver a moto, emborcada no canal. Tanque arranhado, um amassado forte no para lama dianteiro e outros detalhes que só percebi depois.

Um carro parou na estrada. Polícia. Pediram os documentos da moto (zero), minha carteira de habilitação (zero), identidade (mostrei a carteira do colégio), eles gentilmente (não é deboche) me levaram até um pronto socorro (hoje rebatizado de pronto atendimento) onde fiz os curativos (um outro policial levava a moto) e depois me convidaram para ir a delegacia. Pediram o telefone de casa, para avisar a meus pais ou responsáveis. Descolori. Dei o telefone, mas o policial não ligou, só me dava esporros em sequência. Melhor assim.

Confesso que meu maior temor não era ir em cana e nem de causar aquela enorme decepção caso meus pais realmente fossem convocados para ir lá. O meu maior temor era a possibilidade de levar uma multa porque desde a tenra idade tenho horror de ser forçado a dar qualquer grana para o governo, da forma que for, uma pregação constante de meu avô, sócio do clube “se é governo, sou contra”, que me impregnou. Hoje piorou.

Depois da lição de moral e cívica, o policial resolveu me liberar e o mesmo sujeito que havia levado a moto para a delegacia a conduziria até a estrada, RJ – 106. Lá eu deveria subir na Yamaha e sumir.

Continua outro dia porque está grande demais.


domingo, 17 de março de 2019

Parabéns pela nova vida


Hoje começa um novo ano e os novos caminhos se abrem a sua frente.

O céu limpo, claro, o luar emana os ecos de Deus nas montanhas celebrando o seu dia. O melhor dia, de todos os dias.

Novos rumos encharcados de saúde, banhados de prosperidade, amor, prazer desmedido, merecido, belo.

No seu dia, o seu desejo é uma ordem.

E todos os seus desejos, abençoados, se realizam a partir da zero hora quando sua nova e merecida vida inicia.

Determinada por Deus. Abençoada por Deus.

Verás que a felicidade não tem limite quando todos os momentos de sua existência ganharem um novo significado; felicidade plena.

Parabéns pelo novo ano.

Parabéns pela nova vida.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Guadá, o rei dos jornais


Quem mora em Niterói com certeza já cruzou com ele nas ruas, especialmente nos fins de semana. Há muitos anos o nosso Guadá distribui os principais jornais da imprensa alternativa da cidade. São vários, de todos os estilos e tendências.

Como são todos gratuitos, ele sabe exatamente onde está o leitor para cada jornal, em que banca, condomínio, padaria, farmácia, de qualquer bairro. Onde tiver leitor o Guadá vai atrás.

Muito querido, popular, onde para o carro junta logo uma rodinha com os assuntos do dia, principalmente política local. É quando ele se transforma em ouvidor, anotando sugestões, reclamações, temas que ele leva para os jornais que muitas vezes transformam em matérias.

Apesar de ter virado uma cidade com mais de meio milhão de habitantes com encontros, conversas, afetos entre as pessoas cada vez mais raros, Guadá consegue resgatar um pouco dessa tradição, o saudável bate papo entre estranhos.

Ernesto Guadalupe é meu amigo há décadas, desde os tempos de colégio. Estudamos no Instituto Abel (La Salle) e ainda garoto ele já estava envolvido com a comunicação entre o grêmio estudantil, C.E.I.A., e os alunos. Era o cara mais bem informado do colégio, sabia tudo sobre os professores, projetos de construção de novos laboratórios, mudanças nas grades de matérias, enfim, ele era um verdadeiro repórter circulando pelo Abel captando notícias.

Nos anos 1990 nos reencontramos no jornal Opinião, do saudoso e combativo jornalista Carlos Silva, que funcionava num conjunto de salas na avenida Amaral Peixoto, bem no Centro. Eu escrevia a última página, em geral de humor, e Guadá comandava a distribuição do jornal por toda a cidade.

Algumas vezes, a tiragem passou dos 100 mil exemplares, um desafio que ele enfrentava com o maior prazer. Ele gosta de jornal, gosta de notícia, gosta de gente e é um excelente profissional.

Fundou a sua empresa, Distribuidora Guadalupe, que distribui impressos e também aluga carros especiais para casamentos, por exemplo. Os telefones são (21)9-8111-0289(Vivo) e (21)96474-3808(Nextel).

Uma figura rara que decidiu levar a vida literalmente em movimento, conectando pessoas, notícias, distribuindo amizade, generosidade e, claro milhares de jornais.

Grande Guadá!

Hidrante ao alho e óleo


Almoço em vários lugares. Não tenho muitos hábitos, costumes, lógica. Nessa época do ano a potência do ar condicionado é mais importante do que o sabor da comida.

Fui a um self service (grande invenção), a comidarada estava ótima, mas o ar condicionado fraco, baforada de bode. Declinei. Saí em busca de outro e achei um bem frio nas redondezas, mulheres de casaquinho. Mulheres são friorentas, adoram casaquinhos e guarda chuva. Comida média, mas que maravilha de ar condicionado. Que maravilha. O frio torna o paladar mais pragmático e as nações mais civilizadas, mas isso é outro papo.

Entrei, fiz o prato, sentei já fazendo um relaxamento mental pois teria que ir ao banco em seguida. Tenho fobia de banco. Com exceção do dinheiro, banco tem tudo o que detesto: fila, calor, mau humor, incompetência, má vontade, etc.

Como devagar porque já tive pressa e quase me ferrei todo no passado. Comi mentalizando o mar, o céu, meia dúzia de sabiás, inserindo a logomarca do banco na imagem para associar aquela bosta, digo, aquela instituição a coisas agradáveis. Pavlov (ele mesmo, o Ivan) andou fazendo isso com cachorro inventando a psicologia cognitiva comportamental que, dizem, é muito eficaz no combate a dengue existencial, fobias, T.O.C. e similares.

Apesar de meu esforço, da minha concentração, da minha boa vontade, depois do almoço caminhei devagar, entrei no banco e o ar condicionado dos caixas eletrônicos estava desligado. Eu só precisava cadastrar de novo o celular naquele aplicativo que eles inventaram para demitir gente, lucrar mais e atrapalhar a nossa vida. 

Entrei numa lacraia gigantesca, fila venezuelana em Roraima, e quando chegou a minha vez chamei o “posso ajudar”, o cara que em tese fica ali ajudando. Fiz todas as operações, mas na hora de finalizar o caixa eletrônico reiniciava. O pior foi o “posso ajudar?” chegar para mim e dizer “você tem que sair da fila porque daqui a pouco vão reclamar”, como se eu estivesse ali brincando de vídeo game. Coitado.

Sem saber cuspiu na cara de um mandril e recebeu de volta toda a minha ira fóbica bancária com juros de 400% ao mês. Sorte que o povo me apoiou; “é isso mesmo! As máquinas não imprimem”, “é isso mesmo, o caixa recusa a minha senha e depois bloqueia a conta”, “é isso mesmo, o gerente está sempre almoçando e o cliente que se dane”. Apavorado, “posso ajudar?” foi lá dentro e chamou o gerente, enfim, foi a maior confusão, mas como um gorila amestrado numa exposição de canários consegui manter a calma.

Como diria Maria Bethania, refeito podes crer, depois liguei para o bankfone para falar com o tal departamento de tecnologia (deve ficar na Nasa) e a mocinha disse “boa tarde, em que posso te ajudar hoje?”. Respondi por reflexo: “se não fizer merda já estará ajudando muito”.

Antes, no restaurante, para evitar pensar no banco, reparei no que as pessoas estavam comendo. Quanta mudança. Todo mundo pegando leve, bebendo água, mate, guaravita, comendo muito pouco, se atracando com brócolis, quiabo, jiló, ou seja, a filosofia vegana já conquistou boa parte da classe média.

No passado bem recente, comia-se hidrante, trilho, pedrinhas portuguesas no almoço, bebendo caipirinha, cerveja, lama asfáltica, torta alemã de sobremesa. Muitos terminavam e voltavam para o trabalho como bolas de sebo rolando no asfalto quente, pressão arterial no pico do Corcovado, glicose de 500 e varada. Sem falar do festival de pelancas suadas, inchaços na perna, respiração ofegante, enfim, gente de 30 com corpinho de 110.

Apoio radicalmente os veganos e afins. Basta de toxinas, gordura. Podemos comer coisas muito leves como produtos orgânicos apesar de caros pra cacete. Já vi Papai Noel virar faquir com aquela dieta da Herbalife, cada vez mais academias de ginástica são abertas, multidões correndo por aí, gente trocando carro e ônibus por bicicleta, enfim, mudou o conceito nutricional. E tem que ser assim. Ou melhor. Deve ser assim porque vida e uma só. Para que se embolar com uma feijoada terça-feira podendo poupar o organismo com legumes, folhas, palmito, grelhados?

Tudo bem, enquanto houver Skiny há esperança.


quarta-feira, 13 de março de 2019

Honra ao Mérito


Essa é a folha de rosto da minha primeira Carteira de Trabalho, onde no dia 12 de setembro de 1973 foi assinada pela primeira vez.

Comecei cedo, muito cedo e até hoje estou na trincheira mostrando todos os dias que, para mim, esse documento é o mais importante de todos. Mais importante até do que a Certidão de Nascimento.

Não pedi para nascer, mas como nasci, logo que pude pedi para trabalhar. Essa carteira tem a minha história, em siglas, iniciais, códigos, uma espécie de DNA de meus valores.

Folheei e as outras duas dando uma olhada em minha trajetória. Muita história. Lembro de muitas, não lembro de várias, mas sempre soube e sei que o trabalho simbolizado por essa carteira é minha essência de vida.

Por isso digo, repito, bato na tecla que prefiro que me esculachem do que ao meu trabalho. Apesar de modesto, até demais (há quem confunda com servidão) sempre busco a quase perfeição quando me é entregue uma missão. Para mim trabalho é uma missão que quando é cumprida é devidamente paga. Dinheiro é a única ferramenta que do capitalismo para reconhecer o trabalho. Medalhas, títulos, faixas, troféus? Não pagam o IPTU e muito menos o plano de saúde.

Quando olhei para essa e outras Carteiras de Trabalho senti orgulho. Lendo aqueles documentos vejo que não fiz pouco e pela quantidade/qualidade de promoções funcionais acho que mandei muito bem em áreas como o jornalismo, produção de rádio, TV, etc.

De vez em quando é bom bater palmas para o espelho. Bom para a auto estima.


terça-feira, 12 de março de 2019

Morcega ao vento, gente jovem reunida


Me disseram que ninguém ouve podcast porque é chato, complicado de manejar, enfim, “podcast já foi”, sentenciam uns conhecidos.

Mesmo assim escolhi a natimorta (?) mídia para fazer umas experiências, curtas experiências, que ressaltam a importância cada vez maior da fala, do conteúdo, das opiniões, emoções e ideias, nas plataformas sonoras. A música? Também, 30% mais ou menos. Quem quer mais ouve Spotify, procede?

Tenho feito as experiências lá em “Zarabatanas”, uma quitinete digital que montei no SoundCloud. Para ouvir é só clicar aqui: https://soundcloud.com/user-810093288

A fala é livre, os temas também, a abordagem é quase jocosa em alguns casos, mas o que me interessa mesmo é a opinião de vocês, que estão na outra banda do satélite.

Decidi centrar “Zarabatanas” na área que mais gosto, Cultura, onde me sinto a vontade como um golfinho em Miami. Não uso texto, parto para o improviso, eventualmente insiro uma trilha sonora e a coisa flui.

Pretendo continuar, claro. Mas preciso urgentemente da opinião de vocês.

Pode ser?

segunda-feira, 11 de março de 2019

Hoje, terça, em Niterói, mulheres vão expôr a série "Oníricas". Um ponto muito longe da curva...ainda bem

                                            "Unafraid to Be Vulnerable", de Luiza Scarpa                                                                                 
Hoje, terça-feira, 12 de março, às 19h, vale muito a pena ir até a Sala José Cândido de Carvalho para conhecer a exposição “Oníricas”. A Sala fica na sede da Fundação de arte de Niterói, rua Presidente Pedreira 98, Ingá, Niterói.

Dez mulheres do “Feminino na Arte”, vão expor obras inspiradas no “universo” onírico, misterioso e fascinante, muito bem navegado por grandes nomes da ciência como o psiquiatra Carl Gustav Jung.

O público vai poder ver obras variadas, entre desenho, colagem digital, pintura, fotografia e técnica mista, como aquarelas feitas com água do mar.

A mostra é composta pelas artistas Ana Luiza Moraes, Bruna Pelúcia, Graci Kaley, Josiana Oliveiras, Karenina Marzulo, Luiza Scarpa, Mariana Rocha, Marcelle Fagundes, Nicole Peixoto e Vanessa Ximenes.

“Oníricas” remete aos sonhos, à fantasia, a algo que foge do ‘mundo real’. Elas, oníricas. Os trabalhos selecionados, de alguma forma, levam a um mundo fantástico. Os espectadores podem se distanciar de suas realidades e se mergulhar num quadro a quadro para outras dimensões como lhe aprouverem. “Nos distanciamos do mundo real, abraçamos sonhos e concretizamos em trabalhos artísticos a criação individual de cada universo que compõe essa exposição”, explica Karenina Marzulo, umas das participantes da mostra. 

Mais sobre ‘Do Feminino na Arte’:

Do Feminino na Arte é uma iniciativa que visa evidenciar a produção artística de Mulheres, por meio de eventos, exposições e outras formas de divulgação da Arte.

Na faculdade de Belas Artes da UFRJ, as artistas Karenina Marzulo e Lud Lov viram o desejo comum de realizar uma exposição somente de Artistas Mulheres. Em 2013, Karenina deu prosseguimento a ideia e realizou a primeira exposição coletiva.

‘Corpos Partidos’ tratava, em suma, da cobrança social sobre os corpos femininos e as consequências disso para as mulheres e para sociedade como todo. Ela foi apresentada no Instituto Cultural Germânico de Niterói com uma ótima repercussão e receptividade do público.

Posteriormente expuseram na Galeria de Arte Sala Djanira e no SESC Ramos com a mostra “Latinas” no qual cada artista foi convidada a representar artisticamente uma mulher latina importante no intuito de homenageá-la e apresentá-la ao grande público. No SESC Engenho de Dentro apresentaram “Ilustradoras! Exposição Coletiva” e finalmente, em 2019, retornam a Niterói na Fundação de Artes de Niterói – Sala José Cândido de Carvalho, agora, com a curadoria da artista Desirée Monjardim com a exposição “Oníricas”.

A cada edição ‘Do Feminino na Arte’ é feita uma seleção de artistas cujos trabalhos são afeitos ao tema proposto. Como há uma dificuldade de se ter incentivos artístico-culturais a cada evento são pensadas maneiras para materializar os mesmos. “Somos Artistas, somos Mulheres e entendemos o nosso papel como resistência. 
Resistência da arte. Resistência feminina. Essas são as nossas motivações ao encararmos tantas dificuldades e desafios de nos mantermos como referência independente e estar cada vez mais divulgando trabalhos de artistas mulheres e contribuindo com a movimentação cultural no Estado do Rio, quem sabe, posteriormente, a âmbito nacional”. (Karenina)

SERVIÇO:

Exposição “Oníricas”, de dez artistas mulheres do ‘Feminino na Arte’
Curadoria: Desirée Monjardim
Abertura: 12 de março, terça-feira, às 19h
Visitação: de 13 de março a 13 de maio de 2019, sempre de segunda a sexta, das 9h às 17h
Local: Sala José Cândido de Carvalho
EndereçoRua Presidente Pedreira, 98, Ingá, Niterói-RJ
Informações: (21) 2719-6939/ 2719-9900
Entrada gratuita




domingo, 10 de março de 2019

Papo de domingo: Jorge Dodge


Na minha adolescência o Brasil produzia os “monstros” com motor V8, rápidos, desafiadores, irresponsáveis. Eu sonhava com o americano Mustang (Ford) e também o com o seu arquirrival Camaro (Chevrolet). No Brasil meu delírio maior era ter um Dodge Charter R/T, o que acabou acontecendo décadas depois.

No início deste século 21, vinha de moto por uma avenida e na frente de uma agência ele me chamou atenção. Era um Dodge Charger R/T bege com capota marrom (semelhante ao da foto) com uma inscrição no parabrisa: “Carro de colecionador”.

Detesto marrom, cor de caixão e cocô, mas aquilo ali era uma exceção rara. Dei a volta no quarteirão, parei, desci da moto e fui ver o Charger. Inteirinho, ano 1978, interior bege e marrom, motor LA 318 fabricado, acho, no Canadá. Foi paixão explosiva e imediata, daquelas que nos tornam precipitados e levemente imbecis. Por isso, me fiz de racional e disse ao vendedor que voltaria no dia seguinte.

De manhã, estava lá. Fui com a minha namorada porque mantenho o saudável hábito de sempre pedir a opinião da mulher em relação a tudo; mulher tem a mais aguçada intuição entre todos os mamíferos.

O gerente da agência, Claudinho, pôs o carro na rua e fiz um pequeno test drive com aquele trovão. De tanto ler, conhecia todos os detalhes, prós e contras. Prós, o motor, acabamento do interior, design. Contra: praticamente não tinha freio (eram freios a lona nas quatro rodas), bebia mais do que vários gambás juntos (na cidade uns 4 km/litro) e a porta quando batia podia decepar dúzias de dedos dos passageiros do banco de trás, caso apoiassem a mão na moldura da janela.

Perguntei a namorada “e aí, gostou?”, ela concentrada respondeu com um desanimado “é, né?”. E argumentou certeira e objetiva, adereços que os sonhadores não conhecem. Perguntas básicas: “onde você vai parar esse carro que tem cinco metros de comprimento? Será que é fácil achar peças? E mecânicos? Não acha que está caro demais?”. Eu, mudo, ouvi e depois de uns minutos dei razão e fomos embora.

Ela percebeu que eu não conseguia dormir. Parecia um limpador de parabrisa na cama, levantando para beber água, fazer xixi, sabe como? Foi quando ela atirou no cerne da questão: “não para de pensar no carro, né?”. Confessei que não parava mesmo não, ela acendeu o abajur e me convenceu a comprar o Dodge. “Você sempre falou desse carro, uma vez em São Paulo quase foi atropelado atravessando uma rua para ver um...ah, se não der pé, vende”.

No dia seguinte, pou! Levei o Dodge, da agência direto para uma oficina de canos silenciosos. Pus dois escapamentos esportivos, um em cada saída de descarga e saí de lá parecendo o cometa Halley, com o corpo todo arrepiado com o rosnado do motor, lembrando de Steve McQueen em “Bullitt”. O vruuuuuuum daquele motor com o escapamento esportivo era maravilhoso, mas tinha um problema: chamava a atenção. E eu não gosto de chamar a atenção.

Como era raridade, deixava o Charger na garagem (todo mundo olhava) e só depois de meia noite saia para dar uma volta porque não tinha trânsito, ruas livres. Em um desses passeios, numa avenida absolutamente deserta, acelerei forte, o bicho urrou, decolou e no final da reta freei mas não tinha freio. Quente demais. Reduzi de quarta para a segunda e primeira marchas tentando controlar aquele animal quando (ufa!) consegui parar. Milagre, tenho certeza, pois um muro me esperava.

No dia seguinte, banho de óleo na garagem. Levei num mecânico de motor V8 que me indicaram, ele pôs o Charger no elevador, olhou e deu o veredicto: estouraram seis buchas. Perguntei “buchas”? Ele me levou até debaixo do carro e eram pequenos artefatos de borracha tampando componentes na parte debaixo do motor. Perguntei se ele tinha para vender e, na sinceridade, proferiu “só o Jorge Dodge”. Fica onde?, indaguei. “Na favela da Maré. Compra as buchas e traz para mim que ponho. São baratas, aproveita e compra as 13 logo porque vivem estourando. Mas vá com esse carro para o pessoal saber que você vai no Jorge Dodge, entendeu?”. Entendi.

Trabalhei até umas 9 da noite, depois fui para a casa da namorada falando como quem não quer nada “amanhã de manhã vou dar um pulinho na Maré”. Ela deu outro tiro certeiro: “o carro, né?”. Respondi “É, coisa à toa, mas só vende lá”.

De manhã rolou um princípio de incêndio entre nós. Ela queria ir comigo de qualquer maneira e eu, paternal, argumentava “não precisa, não precisa...”, mas ela foi e  gostei. Além do mais ela craque em mapas. Sim, usamos um mapa da Quatro Rodas para achar o lugar.

Entrei na Maré numa boa, bem devagar, muito devagar, perguntando onde era o “Jorge Dodge" e as pessoas informavam. Quinze minutos depois, cheguei. Escrito a mão na quase fachada estava lá “Jorge Dodge bar, prato feito, peças de carros e fiado só no vizinho” (a pontuação é minha).

Me apresentei, ele muito gente boa elogiou “que caranga, hein meu chapa”, apresentei a namorada, ele cumprimentou “prazer, madame” e falei das buchas. Ele disse “isso é assim mesmo, senta aí no bar que vou lá buscar”. Sentamos. Uma Kombi parou com dois ou três caixotes, um senhor bem bêbado sentado num banquinho de madeira comentou sarcástico “esses são os fornecedores de peças de carro...hahaha...só porque sou velho e bêbado acham que sou babaca.” Abelhudo mandei um “por que?”, e o bluesman (parecia mesmo) “ora, meu filho, é tudo roubado.” Minha namorada riu, mas não foi de nervoso. Depois me disse que riu da cara que fiz.

Jorge Dodge fez uma promoção boa, 26 buchas, hoje cada uma custaria 5 reais, ele fez por 3. Levei. Entramos no carro e fiz um verdadeiro rali para sair do lugar. Queria entregar ao mecânico e fazer logo o serviço porque levava latas de óleo na mala do carro. Motor vazando, tinha que completar o óleo toda hora.

Deixamos na oficina e saímos. Fomos trabalhar. No dia seguinte carro OK, mão de obra uma facada, mas fazer o que? Dois dias depois, sábado, íamos a um aniversário em Botafogo com amigos. “Que tal irmos de Dodge?”, a namorada respondeu que tudo bem. Fomos.

De fato, o carro parecia uma caravela andando pelas ruas e teve a delicadeza de ferver o motor no Túnel Santa Bárbara. Barulho ensurdecedor dos carros passando, um outro motorista chamou o reboque, confusão, a namorada se recusou a ir no carro dos amigos queria ficar e ficou.

O reboque deixou naquele recuo na boca do túnel em Laranjeiras e eu fiquei de voltar segunda-feira para buscar. “Tem que ser hoje, não pode dormir carro aqui.”, disse o funcionário. Depois do aniversário, voltamos para lá, chamei um reboque particular (carro dessa idade não tem seguro), morri numa grana e deixei nas imediações da oficina de V-8. Ninguém rouba.

Segunda-feira fui lá. Empurraram o carro até a porta da oficina. “Estourou uma mangueira do radiador”, disse o dono, “e pelo visto o burrinho de freio também”. Pedi para trocar a mangueira (ufa!, ele tinha uma lá) e quando ficou pronto levei o carro para a garagem e abandonei. Desilusão, decepção, dor de corno.

Dois meses depois anunciei, pedindo um pouco mais do que paguei por ele para compensar as despesas. Um cara de São Paulo ligou e fechamos o negócio, sem choro. Dois dias depois, conforme o combinado, ele apareceu num Alfa Romeo 156 seguida de um caminhão reboque. Comentei “coisa linda o seu carro” e ele respondeu “mas é uma bosta”, e riu.

Ele era colecionador e perguntou logo “quantas buchas do motor trocou?”, e riu; “ferveu muito?” riu de novo. “Vou comprar porque relíquia não pode andar muito, entende? Tem que ficar quieto na garagem, sair para ir a um encontro de colecionadores, leilão, alugar para novela, cinema, tudo perto. É um ancião, entende? Vai para São Paulo de reboque porque não aguenta, entende?”.

Quando vi o Dodge ir embora em cima do reboque senti...posso falar?...senti um enorme alívio. Imediatamente liguei para a namorada, quase gritei “vendi o Dodge!” e a noite fomos comemorar.



A internet não é o único algoz dos jornais de papel

Não culpo a internet pelo ocaso dos jornais de papel. A internet é parte disso, claro, mas a incompetência, o desleixo e a arrogância sã...