quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Liberdade de Imprensa

Começo com uma citação de Millor Fernandes: ''Jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados''.

1 – sem liberdade de imprensa a democracia não sobrevive; 2 – nunca existiu, existe ou existirá imprensa imparcial. Obs: imprensa que eu digo são jornais, revistas, sites, radios, TVs.

Comecei no jornalismo em 1973 como estagiário de uma rádio popular que era líder de audiência naquela época, e aprendi muito a apurar na difícil área de polícia. Vi cenas impressionantes na redação daquela rádio. Impressionantes e bizarras. Nenhum dos profissionais, dos mais graduados aos amarra cachorros como nós tinha militância política. No mercado a rádio era chamada de alienada e diretoide.

A censura funcionava a todo vapor e nas reportagens de rua (eu passava seis horas por dia nelas, nos carros da rádio) não podíamos descrever detalhes da miséria de um local para não ofender o milagre brasileiro. Certa vez fui fazer uma matéria numa favela que lembra a da Maré de hoje e a ideia era atravessar as pinguelas nas palafitas e conversar dentro do barraco quase flutuante de uma família com oito pessoas e uma enorme porca, deitada na sala.

Ia dar uma boa matéria mas a redação passou um rádio informando que os caras da censura tinham recomendado “narrativa com discrição”, ou seja, sem muita realidade. Comecei a falar, não disse nada sobre palafitas, esgoto, falei da família por alto, da porca com humor, do viver numa espécie de brejo. Mesmo assim a rádio tomou uma advertência do governo (isso era grave) por causa da menção a porca

Bom, depois fui para outras mídias, rádios (como jornalista) jornais alternativos como Pasquim e Opinião, do Fernando Gasparian (ultra esquerda, pela primeira vez trabalhei com um da polícia a meu lado), Caderno B do Jornal do Brasil já percebendo que em todos esses ambientes todo mundo era de esquerda. Assisti a memoráveis quebra paus no Lama’s entre trotkistas, stalinistas e maoístas e a ofensa máxima entre eles era xingar de pequeno burgues. Não prestava. A porrada comia, fisicamente.

Naquele tempo O Globo era de extrema direita e os colegas que lá trabalhavam eram patrulhados por nós (sim, eu me incluo) apesar de sabermos que Roberto Marinho contratava comunistas e para protegê-los.

Os caras com quem acho que aprendi a fazer jornalismo eram feras, liam obras complexas, eram de uma esquerda intelectualizada, encorpada, disposta a tudo para implantar no Brasil a tão sonhada, por eles, “ditadura do proletariado”. Todos defendiam essa linha e nas poucas conversas que presenciei nunca ouvi falar em democracia, o que só fui dar valor mais tarde.

Profissionais da pesada (como eu admirava aqueles jornalistas que nem coragem de chamar de colegas eu tinha) que nas redações da vida nos treinavam muito claramente: “repórter vai lá, pega a notícia, ouve as duas ou demais partes, apura tudo direito e volta. Repórter não tem opinião. Repórter transporta opinião dos entrevistados”. Ouvi a recomendação dezenas de vezes de vários desses gigantes e isso acabou virando um mantra. Hoje, quando qualquer um escreve o que quer, chuta o que bem entende, não consigo me libertar do lead e do sublead. O que é? Leia aqui, por favor: https://www.estadao.com.br/manualredacao/esclareca/leads

Aqueles mestres ensinaram a várias gerações a praticar reportagens imparciais, mas o jornalismo imparcial não existia. Eles mesmo escreviam artigos sentando o pau, disparando opiniões, pontos de vista, tudo o que nós, repórteres, não podiamos fazer sob pena de demissão. Um deles reuniu uns quatro ou cinco novatos e nos disse “um dia vocês vão aprender a bater, como bater, em quem bater, mas por enquanto vocês estão colhendo notícias.”

Eu não sabia que iria me transformar num batedor até começar a trabalhar no Pasquim, vendo Ivan Lessa, Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis, Millor Fernandes incendiando o mundo no salão do segundo andar onde resolviam como seria o jornal da semana. Sempre conversando com o hoje amigo Ricky Goodwin, responsável pela captação e edição final de todas as antológicas entrevistas do Pasquim e que é da minha geraçao. Eu só tinha ido lá para sugerir uma pauta sobre uma canalhice que o então Chagas Freitas fez e queria dar a minha opinião. Não só esperei um não como um esporro também. Mas Ziraldo respondeu “vai lá, senta o pau, mas tem que ser agora por causa do fechamento”. Sentei na máquina de Nelma, saudosíssima secretária do jornal, irmã de todo mundo e me vi cuspindo fogo, metendo a porrada num artigo intitulado “Chagalhagem”.

Entreguei a Felix de Athaíde, confuso intelectual mas com um texto fantástico, para revisar. Ele fez uns pequenos reparos e quando terminou olhou para mim e disse “ora, temos aqui um lacerdinha”. Carlos Lacerda era um brejo de polêmicas, portanto eu não sabia se o apelido estava me sacaneando. Tanto que já tinha chegado lá embaixo (escadaria gigantesca da casa até a rua Saint Roman, em Copacabana) mas subi tudo de novo e falei com Nelma: preciso falar com o Felix. “Preciso saber o que significa Lacerdinha para você”. Ele riu e disse “Lacerda foi um escroto mas o texto dele era fulminante. Ele trucidava um presidente em 10 linhas, tanto que um mosquitinho de verão que entra nos olhos e arde se chama Lacerdinha. Bom...fique tranquilo. Eu disse que você bate bem”.

Voltado ao começo, os meios de comunicação são empresas que visam o lucro. Há algumas décadas os donos, além de empresários, eram apaixonados por seus jornais: Samuel Wainer, Nascimento Brito, Carlos Lacerda, Roberto Marinho, os Mesquita Neto e muitos outros. A paixão politica até os levou para o abismo as vezes, mas sempre em nome de suas convicções e, por que não, interesses. Aí...bem aí vieram os herdeiros…

Pelo que testemunhei, senti, observei e aprendi, ''Jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados'', como disse o Millor. Uma coisa é você ler uma pancada com a elegância e sapiência de Elio Gaspari, mas na página seguinte é o duro ler ataque de pelancas de imbecis desqualificados e exibidos que ostentam por aí. Mas isso é outro assunto.












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