quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Walter


Não acredito que o carnaval (prefiro com c minúsculo) seja um estado de espírito. Se fosse, o Estado do Rio passaria a chamada “folia de Momo” comendo naftalina debaixo da cama já que estamos numa guerra civil descontrolada. Com que estado de espírito ir para a rua fantasiado para mergulhar na alegria, mesmo a copulsória?

O carnaval é uma decisão. Claro que há os que não gostam, os que tem ojeriza, horror, mas por mais que as ruas estejam sitiadas romper o medo, a fobia, a estagnação é mais do que necessário.

O bom dos blocos é que, em geral, as pessoas vão quase “blindadas” com amigos, colegas, conhecidos, praticando a melhor das terapias (chamo de “ruaterapia”) que é peitar (sem confrontar) a lógica do medo e viver o tempo que resta para cada um com o mínimo de prazer.

Por mais que haja bombas, terrorismo, caos, as crianças do Afeganistão continuam soltando pipas (cafifa em Niterói, papagaio em São Paulo), as feiras continuam funcionando, a cantoria nas noites de Cabul estão lá, enfim, por mais que a situação esteja dramática, afegãos (como os paquistaneses e vietnamitas) acham que a vida só vale a pena se pudermos vive-la. Mesmo que correndo risco.

Está aí a magia do carnaval. Há luto por toda a parte no Estado, há covardia, há violência, há brutalidade, mas o carnaval consegue atrair as pessoas para a vida, mesmo que passando por perigosas pinguelas.

Numa redação no início de minha trajetória profissional, conheci um grande redator chamado Walter. Mais velho, escrevia muito bem e com ele exercitei muito a prática do lead e sublead (ou lide e sublide), já que ele exigia a presença dos dois em cada texto.

Walter chegava caladão, dava um olá para todo mundo e enfiava a cara na máquina de escrever, parando de vez em quando para tomar comprimidos. Walter era hipocondríaco e, diziam debochando, usava máscara hospitalar no ônibus e no trem da Central que o levava para casa.

O pessoal ia almoçar numa pensão barata na Gamboa, mas temendo bactérias, germes, moscas, etc Walter não ia. Levava comida de casa numa pequena marmita que esquentava num velho fogão que ficava num canto da redação. Seu pavor de doenças o transformou num homem insular, que não ia a lugar nenhum, só trabalho-casa-trabalho. Uma vez por mês ia a Paquetá onde tinha uns primos. Nada mais.

Como a vida é mais imprevisível do que meteorologia, numa noite de quarta feira Walter caminhava para pegar o ônibus (ele ia mais tarde para evitar aglomerações e ônibus lotado, muito risco de contágio) e parte de uma marquise desabou. Sobre ele.

Deu sorte porque um pedaço relativamente pequeno que atingiu o seu lado direito. Mesmo assim foi levado quase desmaiado para o Souza Aguiar e rápido a notícia chegou a redação.

Transferido para um hospital particular no Rio Comprido, Walter passou mais de 15 dias em cima de um leito. Quando fui visita-lo deu vontade de falar “tá vendo? Todo cheio de cagaços e acabou que a mulher da foice quase te levou”, mas não tinha nenhuma intimidade para isso. Mas soube que colegas mais próximos comentaram algo parecido com o Walter que, quando saiu do hospital, tomou uma decisão radical: se demitiu e foi viver trancado em casa, em Vaz Lobo, onde ficou até morrer.



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