sexta-feira, 28 de junho de 2019

Onanismo ao vento


Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada. Longa madrugada. Não gosto de escrever e publicar no ato, no pós coito imediato. Deixo decantar, como café turco, horas depois passo o pente flamengo e publico.

O que mais nos difere dos chamados irracionais é a consciência do afeto, apesar dos cachorros. Sempre conversei normalmente com os cachorros que  pareciam entender o que eu dizia e, também, sentiam os meus afagos. Sinto falta de cachorro e de sua vasta (na verdade infinita) paciência de ouvir, ouvir, ouvir.

Na faculdade fiz um trabalho sobre isso, mas omiti o exemplo dos cães para que não achassem que é coisa de maluco. O professor de Psicologia Social não gostou quando, para disfarçar, escrevi que os animais vivem única e exclusivamento deinstintos, reflexos. O professor disse que viveu uma experiência num lugar bem perto de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês a nota tinha subido para nove. Perguntei por que e a resposta veio vaga: “Realocação de conceitos”, ele respondeu.

A diferença é que nos cães o amor é incondicional, na espécie humana, não. Quando inteligentes emocionalmente, homens e mulheres amam, desde que... em contrapartida... também quero. Há execções, casos sadomorais de indefinição crônica e doentia, mas aí á outra história. Em suma, o amor jamais foi incondicional, papo de existencialista amador. Porque o ser humano é condicional em sua essência. O amor sozinho não sustenta, Machado de Assis especulou a respeito lá no século 19.

E o paradigma prevalece em tempos de inteligência artificial.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

International Magazine


Anteontem o colega Emilio Pacheco, gaúcho de Porto Alegre, postou no Facebook um muito merecido texto reconhecendo o seu trabalho e citou o International Magazine, jornal musical mensal da maior importância que atravessou o Brasil durante muitos anos nos anos 1980/90. Emílio escreveu lá, muita gente boa ligada a música frequentava as páginas daquele tabloide que dava show de conteúdo porque tinha uma equipe de colaboradores livre. Literalmente.

O jornal era uma parceria do Marcelo Fróes e Marcos Petrillo e eu tinha um espaço chamado “Desconsiderações”. O ser humano não é contemporâneo de seus momentos felizes (prefere sentir saudade desses momentos no futuro), sei lá por que, e como também sou gente (presumo) também sou assim.

Quem conheceu o I.M. certamente sabe do que estou falando e quem não conheceu perdeu. Foi um grande jornal. Hoje posso afirmar com todas as letras que nunca me senti tão livre escrevendo porque despejava tudo o que vinha a cabeça, sem, sequer, usar um pseudônimo como barraca.

Nunca fui tão pornográfico. Muitas vezes que fui comprar o I.M. na banca ficava preocupado (vejam vocês) se o jornaleiro, que era leitor, ia associar meu nome ao cafajeste que escrevia “Desconsiderações”. Nem quando escrevi no Pasquim ousei pensar em tamanha infâmia. Adorável infâmia. Adorável, divertida, autêntica. Indecência descarada.

Não nego que neste momento sinto o horror da saudade e da nostalgia. Saudade do cara que escrevia “Desconsiderações”. Hoje não tenho mais coragem de chutar coqueiros dando gargalhadas porque mudou o planeta, mudamos todos. Se eu escrevesse aquela página estaria preso, em nome da moral e dos bons costumes da nova UDN (https://bit.ly/2sOuOrP) que está mordiscando o poder com seus estatutos, regulamentos, normas, determinando como se fala, como se beija, como se vive.

A cada mês a página ficava mais radical porque os leitores (leitoras, principalmente) incentivavam, jogavam mais gasolina no lampião de labaredas altas e, como um pau de enchente, me deixava levar como se descesse as Cataratas do Niágara de peito.

Não tenho nenhum exemplar do I.M. e se não fosse a digitalização da Biblioteca Nacional, que abriga os jornais onde trabalhei, não teria nada. A minha relação com o passado é meio erma, e não vejo nisso qualidade alguma, mas uma vez ouvi no rádio Zora Yonara dizer que ignorar o passado é coisa do meu signo. Não gostaria de reler “Desconsiderações” hoje porque esses raios não caem duas vezes no mesmo lugar.

Valeu a lembrança, Emílio.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Arariboia, o cacique que merece um filme; vão virar a estátua ao contrário?



Domingo, a jornalista Ana Cláudia Guimarães que assina a coluna “Fome de Que?” do Globo Niterói (trabalha também com o grande Ancelmo Góis), lançou uma enquete. No Facebook ela explicou:

“A estátua do Araribóia deve continuar de costas para a cidade no novo projeto assinado pelo escritório Burle Marx? A História, como bem lembra o querido jornalista Barcímio Amaral, diz que “Araribóia foi um índio vendido aos invasores por ter ajudado os portugueses contra os franceses e contra outra tribo, Tamoios. Como recompensa, Araribóia ganhou de presente a atual região de São Lourenço, que deu origem a nossa cidade: “Foi tão canalha que adotou um nome português, Martim Afonso de Sousa, em homenagem ao navegador”, diz Barcimio. O que vocês acham?”

Ou seja, podem virar a estátua de frente para Niterói ou mantém como está? Opine aqui (eu já deixei minha mensagem lá): https://www.facebook.com/ana.c.guimaraes.5

Caro Barcímio Amaral, há muitas flechadas mal explicadas nessa história. E não é pelo fato de Araribóia ser o meu maior ídolo local que o defendo. Explico mais adiante. Um abraço.

Volto o HD. Tomas Portella é um dos meus papos prediletos porque os assuntos não terminam, vão se transformando. Não foram poucas as vezes que falamos no telefone até 2 da manhã, ideias, sonhos, alguns delírios.

Ele é o diretor do filme “Aumenta que é Rock and Roll”, uma ficção escrita por L.G. Bayão, baseada em meu livro “A Onda Maldita – como nasceu a Fluminense FM”; em breve, novidade sobre o livro. Só dependo de entraves internáuticos para tocar os clarins.

O diretor se tornou meu amigo. Amigo, não. Grande amigo. Sou muito grato a ele por compreender a minha ansiedade explícita ao longo dos últimos meses com a realização do filme porque, em se tratando de imagens em movimento, a minha cabeça profissional foi adestrada pela TV e pelo VT, mas sobretudo pelo rádio. Imediatismo total, urgência, é pra ontem, e tal. O Cinema é bem mais profundo, reflexivo, logo, lento. Por isso, Cinema é arte e a TV; bom há controvérsias, mas como adoro os dois me sinto confortável sentado no vão central das neutras opiniões. Além disso, o Tomás teve uma atitude pessoal rara comigo. Rara e comovente.

Nos anos 1990 (para ser preciso, em 1991) quando eu presidia a Fundação de Arte de Niterói – FAN – o cineasta e também amigo Luiz Carlos Lacerda criou um maravilhoso polo de Cinema e Vídeo. A ideia foi de Jorge Roberto Silveira, amigo comum e prefeito e o polo voou alto, fez o maior sucesso, muita gente foi lá sorver a imensa sabedoria do “Bigode” (como Luiz Carlos é conhecido por 500% das pessoas), principalmente estudantes.

Foi nessa época que ele falou de seu sonho: filmar a vida de Araribóia, o cacique que fundou Niterói. Ele falava dos cenários, dos planos de câmeras, nas ações, mas seria uma produção absurdamente cara para o Brasil. Anos depois, quando vi Piratas do Caribe, de Rob Marshall, pensei “se Araribóia fosse filmado, teria que ser assim”.

Afinal, não é barato criar caravelas francesas invadindo a Baía de Guanabara em 1555, centenas e centenas de canoas, índios, Estácio de Sá levando a flechada envenenada e fatal de um tamoio (os tamoios foram abduzidos pelos franceses, e os temiminós de Arariboia pelos portugueses), milhares de locações, cenários reais e virtuais, enfim, um sonho.

Um sonho que é também do Tomás Portella. Filmar Arariboia é absolutamente fascinante porque, provavelmente, ele é o índio mais importante daquele período da história do Brasil. Ou não?

Comecei a procurar exaustivamente o livro “Arariboia, o Cobra de Tempestade”, do professor Luiz Carlos Lessa, uma das primeiras publicações da Niterói Livros (também da FAN). Saiu em 1992, esgotou, mas a José Olympio deu sequência em reedições. Até que o estoque acabou e como não achei o meu (carinhosamente apelidei minha estante de Chupa Cabra, some tudo lá) entrei na Estante Virtual, meu Samu literário e....lá estavam alguns exemplares seminovos e, claro, comprei um. Onde fica? Clique aqui:  https://bit.ly/2WYLFp6 . Na Amazon também tem: https://amzn.to/2IMKQfk .

O livro, que sugiro ao colega Barcímio, é um roteiro pronto sobre a vida do cacique, que o autor definiu como romance histórico. Na época eu achei que poderia ser adotado pelas escolas da rede pública, mas me disseram que a linguagem não é didática. Não quis discutir porque acho que é mega didático, só não é cartesiano. Enfim, quem quiser conhecer o cacique, “O Cobra da Tempestade” (é no masculino mesmo, “O Cobra...) um bom passo é recorre a este livro.

E que Araribóia permaneça de frente para a Baia de Guanabara defendendo Niterói. E tem mais, toda vez que mexeram nele deu problema sério, bumerangue total. Falaram até em “praga de índio”, que não vem ao caso. Não chamo de maldição, mas, digamos, uma “tradição etérea”. Deixem o cacique quieto.





segunda-feira, 24 de junho de 2019

Fale conosco


Muitas empresas e instituições pedem que a gente dê notas pela qualidade do atendimento prestado pelo funcionário. Apesar de desconfiar que ninguém vai ouvir a minha nota quando ligo, por exemplo, para a operadora de telefone (tem mais de 100 milhões de assinantes) dou nota máxima quando bem atendido e nota nenhuma quando não. Simplesmente desligo. Vai que um zero se acumula a outros e a pessoa, mesmo podre de humor, é demitida?

Reconhecer a boa vontade é mais importante do que esbofetear o oposto. Quem sabe elogiando, estimulando, reconhecendo poderemos sinalizar que ser cordial é o melhor caminho?

domingo, 23 de junho de 2019

Bonnie


Quando o carro chegou na aldeia empoeirada, bela, paradisíaca, a cabeça moída e o corpo cansado agradeceram. De pés juntos. Era verão, provavelmente o melhor verão de minha vida. Pelo menos até o verão seguinte.

O acaso me fez encontrar com três amigos, que foram promovidos a grandes amigos, numa rua qualquer naquela semana. Eu já andava cheio dos ególatras, interesseiros, parasitas que só investem em amizade de conveniência achando que somos babacas. Tudo bem, eventualmente sou um babaca mesmo, mas naquela semana eu estava com a faca nos dentes.

Eles me convidaram desleixada e afetuosamente, “vamos passar o resto do verão naquela aldeia praiana. Alugamos uma casa lá e um dos caras não vai poder ir.”

Comuniquei as férias (vencidas) no trabalho, passei em casa, amontei umas roupas. Partimos em dois carros, saindo por volta das 10 da noite, uma viagem que durou umas seis horas pois paramos em várias biroscas para bater papo. 

Eu não estava habituado ao saldo positivo de tempo. Naquela noite sobrava tempo, mas as vezes, no meio da conversa movida a gargalhadas sentia a incômoda presença do fantasma da culpa até lembrar que estava de férias.
Na reta final, quase chegando a aldeia, achei que um caminhão vinha em sentido contrário, mas era Vênus, linda, vaidosa, imponente no meio daquele céu azul petróleo banhado de estrelas. Vênus ficou em nosso horizonte alguns mágicos minutos, até dobrarmos a direita numa estrada secundária que levava diretamente a aldeia.

Chegamos e nem desfiz minha mala. Simples. Duas calças jeans, duas bermudas, quatro camisetas, sandália, tênis, sunga, escova de dente, Omo, etc e lá no fundo, bem no fundo, a fita com “Bonnie”, do Supertramp, que havia gravado há meses como uma espécie de mantra e estava perdida. Ela acabava e recomeçava, acabava e recomeçava. Peguei. Peguei e logo que coloquei a rede nos ganchos da varada, liguei “Bonnie” num micro system de um dos amigos, no meio daquele resto de noite de um lado e início de amanhecer do outro, com direito a brisa soprando e ruído do mar de encontro as pedras perto dali.

Acordei com o sol na cara, quente, implacável. Eram umas 10 da manhã e quase me arrastando fui para o quarto onde liguei na tomada meu bravo ventilador Britania, que morava no porta malas do meu carro. Dormi. Dormi pra cacete.

A tarde, fomos almoçar numa birosca que servia o melhor e mais barato filé de cação da região, com arroz agulhinha e brócolis de acompanhamento. Dali, praia, mar translúcido, areia deserta. Um dos amigos tinha levado o seu pranchão de windsurf, um esporte que existiu entre os anos 80 e 2000, se não me engano. Pusemos a prancha no mar sem ondas, eles colocaram a vela e começaram a velejar. Não sei nem nunca soube velejar porque tenho preguiça de aprender, apesar de achar fantástico. Os caras eram feras e no fim da tarde pararam. Na beira d’água, tirei a vela da prancha, amarrei num pedregulho (como âncora) e deitei de costas, boiando como Zorba, o Grego.

As 11 da noite retornamos para a casa, a uns 60 metros dali. Eles pediram e para minha alegria dei Play na fita de “Bonnie”, que rolou mais um tempão. Fizemos e devoramos um churrasco de picanha. Depois, em duas motos fomos para uma espécie de centro da aldeia e entramos num dancing bem simples, com frequentadoras locais e também de fora, maioria de São Paulo e Minas.

No dia seguinte, sem dormir, peguei uma das motos e percorri a beira d’água por vários e incontáveis quilômetros, rumo ao norte. Em algum lugar parei, mergulhei, deitei na areia e dormi. Acordei com o sol quase se pondo. Mergulhei de novo. Depois, liguei a moto e retornei.

E assim o verão “Bonnie” foi cavalgando. Tudo muito devagar. Dias depois já estávamos pretos por causa do sol, e barbudos por desleixo proposital. Numa das noites maravilhosas e transcendentais, quando todo mundo havia saído (com algumas outras garotas do dancing), preferi ficar sozinho.

Deitei a vela da prancha de windsurf no gramado, liguei “Bonnie” e me atirei nas estrelas e satélites que passavam naquele impressionante firmamento que misturava azul petróleo com prata. “Deus existe”, pensei várias vezes. Pensei e prometi a mim mesmo mudar algumas coisas em minha vida. Alguns comportamentos. Não foi promessa, nem decisão radical. Um mero acordo meu com aquelas noites abençoadas que, de cara, me deram de presente três amigos extraordinários.

Passamos todo o final do verão lá naquela aldeia, como primatas. Uns 40 dias, não sei bem. Retornamos muito amigos. Um deles seguiu a pé para a Cordilheira dos Andes e o outro pegou um voo para o México, onde estava estudando os peiotes de Carlos Castaneda. Eu e o terceiro amigo ficamos por aqui mesmo e toda vez que nos encontramos falamos de “Bonnie”.

Como não?

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Modo blues


Ainda há quem ache que o choro é fraqueza, que o lamento é covardia dispensável, que o modo blues que tem que ser massacrado, assassinado, deletado, arquivado, atirado no lixo, em nome de uma suposta superioridade existencial.

Dizem que os ocidentais, em especial os pequeno-burgueses, preferem ignorar o afeto profundo. É mais fácil? Não. É como um cheque pré-datado, daqueles que batem na conta lá na frente, com juros e correção.

Sinto, sim, o nó na garganta quando sinto o cheiro do mar misturado ao de óleo combustível dos navios de guerra e também dos zepelins que um dia surgiram na Boa Viagem.

Foi bom homenagear quem eu queria que fosse homenageado, com lembranças, poemas, vento do litoral, o azul petróleo da noite.

O meu afeto não se encerra. Prefere transmutar como as auroras boreais. Nunca as mesmas. Sempre as mesmas. Assim é. Assim será.

Sempre.

91 invernos

                                                                                   
Saudade.
Eliseu Visconti

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Armas


Melhor depôr as armas.

Telefonei e expliquei que o boleto não havia chegado. Mal humorada (segunda-feira é um péssimo dia para que não gosta do que faz), ela cortou. “Nós enviamos o boleto”. Corte. “Estou informando que não recebi e não que a senhora não enviou.”. Entendeu. “Enviaremos uma segunda via”.

O PM mandou encostar. “Documentos”. Na sequência.“Mostre o IPVA pago”. Saio do carro. O PM afirma que “o senhor estava em alta velocidade”. Não havia nenhum radar, mas optei por não questionar. “Sim, estava rápido, sim”, disse. O PM explicou que “pode dar multa e encher de pontos a carteira”. Concordei. Perguntou “o senhor está com alguma urgência?”. Respondi, “Não senhor”. “Por que essa velocidade?”, ele quis saber. “Não sei”, respondi. “Pode ir embora, mas na próxima vez vou mandar rebocar”.

Chamei o garçom. O ar condicionado do restaurante está fraco. “Vou olhar”, ele disse. Voltou dizendo que estava normal. Agradeci, levantei e saí. Almocei em outro lugar.

O flanelinha me mandou dar a volta por trás do carro que ele estava achacando. O carro dava ré e poderia me atingir. Ignorei. O flanelinha gritou “ei!, porra!” O cara do carro o esculacha: “ele está certo. A preferência é do pedestre”. Saí, voltei e havia confusão. Polícia inclusive. O flanelinha teria chutado o cachorrinho de uma menina de 12 anos. Na pequena multidão ouvi alguém dizer “dá vontade de passar fogo nessa bandidagem”. Por desacato, o flanelinha levou cacetadas na bunda e foi levado para a delegacia.

O mico atravessava a praça no alto de uma árvore. Um homem me diz “tem que matar, isso transmite febre amarela”. Não respondi. Uma senhora ao lado rebateu: “não, meu senhor, os macacos não transmitem eles só contraem a doença”. Grosseiro, o homem disparou: “a senhora é médica?”. Não, eu leio jornal.

Na fila do posto de saúde o homem tenta falar com o médico: “doutor, doutor!”. Espere a sua vez, respondeu, azedo, o médico. O homem esperou alguns minutos e voltou a chamar. “Fique no lugar e não me atrapalhe”, respondeu, mal humorado, o médico. Chegou a vez do homem da fila. O médico pergunta, “o que o senhor queria falar?”. O homem pergunta “o senhor chegou naquele Honda prata mais cedo?”. O médico, “sim, e daí”? É que estavam roubando o carro e eu tentei te avisar, mas agora é tarde.

Melhor depor as armas. As coisas se resolvem de uma maneira ou de outra.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Let it Be, o filme



O filme “Let it Be” não está disponível porque Paul McCartney e Ringo Starr não querem trazer de volta à tona as cenas sombrias que marcam o debacle da maior banda da história.

Dirigido por Michael Lindsay-Hoog, foi feito ao longo de janeiro de 1969 e lançado em maio de 1970, quando a banda já havia acabado. Paul McCartney foi o único que lutou para que o filme fosse feito (aliás, era o único que ainda parecia acreditar que dava para seguir em frente com o grupo), e o que era para ser o registro histórico dos ensaios, momentos de composições, interiores do maior grupo de rock de todos os tempos acabou se transformando num testemunho vivo sobre o fim dos Beatles.

Não há qualquer tipo de iluminação de cinema. Não há cenários, o roteiro é mínimo, a falta de luz gera a sensação de má qualidade das imagens, mas e daí? As câmeras circularam à vontade entre os músicos no estúdio, registrando conversas, gargalhadas e mal estar. George Harrison não esconde que já está de saco cheio e em determinado momento, conversando com McCartney, diz, desanimado e irritado “tudo bem. Diz o que devo fazer e eu faço”, uma maneira nada sutil de disparar um“dane-se”.

Ringo Starr está apagado, desanimado e só raramente (mas raramente mesmo) se diverte dividindo um piano com George numa brincadeira ou brincado com a então pequena Stella McCartney, de três anos.

Yoko Ono é onipresente. Aparece em várias cenas, quieta, sorriso de Monalisa, observando, sempre ao lado de Lennon, com quem chega a dançar uma valsa no estúdio. O constrangimento no ambiente é óbvio mas o som rolou assim mesmo. E que som. Que som! Com Billy Preston no órgão, The Beatles, mesmo sabendo que era o fim, arrebentou.

Curiosamente, o clima entre McCartney e Lennon não parecia ruim. Os dois se divertem, riem quando dividem microfones, mas fica claro o comedimento, a cerimônia. Em determinado momento comenta com ele que se George Harrison não embarreirasse os Beatles deveriam voltar a tocar ao vivo, quem sabe começando pelo Royal Albert Hall, em Londres.

Há quem diga que naquela época Lennon teria sugerido a Macca que Harrison fosse substituído por Eric Clapton, o que foi negado. Paul achava que The Beatles só deveria existir com os quatro. Há muito mistério na atitude dos dois ao longo dos quase 90 minutos do documentário, onde tocam de tudo, inclusive canções que, creio, permaneceram inéditas. O final apoteótico foi aquele lendário show no telhado da gravadora Apple que acabou com a chegada da polícia.

Assistir Let it Be faz muito bem porque: 1 – comprova que The Beatles foram (e são) muito mais gigantescos e monumentais do que supomos; 2 – o grupo acabou na hora certa. Melhor do que seguir definhando publicamente.


terça-feira, 18 de junho de 2019

"Vítima da sociedade" joga bloco de concreto da 10 quilos de passarela e mata motorista




O viciado em crack subiu na passarela e assassinou o motorista jogando sobre o seu carro um bloco de concreto de 10 quilos que estava espalhado com outros por FALTA DE MANUTENÇÃO da prefeitura. A mesma que derrubou o túnel na Lagoa-Barra, a ciclovia na Niemeyer, enfim, destrói o Rio dia após ia.

Eu ia escrever sobre mais esse crime hediondo indiretamente cometido pelo do prefeito do Rio, mas desisti. Desisti porque sinto que os cidadãosde bem estão alheios a tudo, quem sabe cansados de tanta lambança e decepção.

Por isso, vários especialistas acham que se for mantida essa toada de torpor e dormência por parte do eleitor consciente, Crivella pode ser reeleito ano que vem. Ou, tão grave quanto, Clarissa Garotinho pode acabar levando já que o clã dos Garotinhos tem muitos votos na cidade.

Há ainda a suposta candidatura de Marcelo Freixo. Há duas semanas, perguntei a ele pelo twitter se ele pretende se candidatar e ele nada respondeu. Deve estar no modo “não tenho que dar satisfações a ninguém”. Freixo, para mim, é um enigma como administrador. Não tenho ideia de como se sairia como prefeito, que na verdade é um mega síndico.

No mais...nada.

Uma verdade absurda

"Até o Último Homem" foi dirigido por Mel Gibson e indicado ao Oscar em seis categorias, inclusive a de melhor filme.


Impressionante o ilimitado poder da determinação de um homem, que ultrapassa a barreira do absurdo. Cercado de sangue, vísceras, pernas amputadas por bombas, o tal homem, que não encosta a mão em armas, decide ir para a II Guerra Mundial disposto, somente, a ajudar. E, impressionante, acaba indo parar na sangrenta e histórica Okinawa (Japão), a maior batalha marítimo-terrestre-aérea da história, entre abril e junho de 1945.

O vendaval de absurdos ao longo do filme nos deixa abismados. Como aquilo tudo pode ter sido real? Como existem pessoas assim num planeta incendiado por nefastos? Como? Como? Como? Banhados pela comovente e caótica história, deslumbrante fotografia e efeitos especiais, e pelo som, até os mais descrentes acabam sucumbindo e se entregam a esperança.

O que mais me chocou positivamente no filme "Até o Último Homem" foi o fato daquela imensidão humana ter sido uma história real.

História real que precisa ser vista por todos.

Ideal é ver no cinema, mas está na Netflix.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Milagres

          AirBus 320 pousa no Rio Hudson, Nova Iorque, janeiro de 2009. Nenhum ferido.
  

                                              Milagres existem.                                                  
Acontecem.

É só pedir a Deus.

Deus está cima de crenças, protocolos, formalidades, dialética.
Se um ateu pede um milagre, terá um milagre.

Ponto.

Deus gosta de nossos pedidos.

De todos.

Absolutamente todos.

Para falar com Deus basta pensar em Deus.
Como quisermos.

Deus é livre.
Deus ama os nossos problemas.

Use sem moderação, o tempo todo, o dia todo.

Peça, peça, peça.

Deus adora o que pedimos.

Peça agora.

Peça saúde.
Peça trabalho.
Peça paz.
Peça amor.

Nada é pequeno para Deus.

Milagres existem.

E como existem.

Graças a Deus.


domingo, 16 de junho de 2019

Zeffirelli e A Grande Arte

                                             Olivia Hussey em "Romeu e Julieta".


Franco Zeffirelli (1923-2019) foi um de meus dos mais importantes mentores, um homem que me mostrou um cinema farto, grandioso, belo, lírico. Certa vez escrevi, meio tomado pela emoção, que Zeffirelli despejava a alma latina na tela, mas depois me arrependi. Tarde. O jornal já havia rodado e estava nas bancas. Me arrependi porque ele despejava na tela não só a alma latina, mas a essência da alma humana.

Desde muito pequeno, muito pequeno mesmo, ia ao cinema com a minha mãe e meu irmão. Aquele ambiente, o ritual, a luz que iluminavam as cortinas de veludo vermelhas apagando, o toque do “gongo sutil” anunciando o início da sessão, que tinha o Canal 100, os trailers, o ar condicionado, o lanterninha e, logo, um Zefirrelli envolvendo a tela. Tela que, como um manto, nos tomava pelos braços e arrastava pelos mais belos cenários, tramas, diálogos.

Entrando na adolescência nosso bando viu “Romeu e Julieta” várias vezes porque, não negávamos, estávamos todos apaixonados por Olivia Hussey. Foi a primeira atriz de cinema que ganhou um poster de revista na porta do armário do meu quarto. Mas eu já andava encantado com Elizabeth Taylor porque adorei “A Megera Domada” que, vejam vocês, assisti sozinho.

Na época íamos ao cinema atraídos por atrizes e atores, mais tarde fui mergulhando na Grande Arte e comecei a acompanhar diretores, roteiristas, fotógrafos e durante muitos e muitos anos, praticamente “morei” no Cinema 1, na Prado Júnior, Copacabana, onde conheci muitos diretores do Cinema Novo, da  Nouvelle Vague e quase tudo de Kurosawa.  Zeffirelli abriu as cortinas do cinema italiano e mergulhamos fundo em vários diretores. Meu destaque foi Pasolini, radicalmente proscrito do colégio, católico. Colégio que exibiu “Irmão Sol, Irmã Lua” que fez muito marmanjo enxugar lágrimas nas cortinas dos janelões.

Quero agradecer ao Zeffirelli por ter: 1 – vivido intensa e densamente; 2 – por ter filmado intensa e densamente; 3 – por ter sido latino intensa e densamente. Mas o agradecimento mais especial foi por ele ter superlotado as salas de cinemas do Brasil por décadas. E como faz bem ver uma sala de cinema lotada.
“O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, me deu esse prazer. Ano passado, durante 15 dias, tentei assistir nos fins de semana mas as salas estavam com lotação esgotada, todas elas. E eu vibrei, comentei com Odara “cacete, as pessoas estão indo a um filme de Cinema com C maiúsculo, que maravilha isso”. E quando assistimos, as sequências líricas que o Cacá gosta de fazer, na velocidade de sua sentimentalidade e jeito de contemplar a Grande Arte...caramba, quanta emoção.

Hoje eu ia ligar para a minha sobrinha Catherine, 19 anos (https://ooppah.com.br/Catherineberanger), apaixonada por Cinema desde o berçário (está no quarto período da ESPM) que a cada dia se revela uma grande produtora executiva e roteirista. Acho que vai ser a pegada dela. Não conversamos a respeito, mas eu acho. Eu ia ligar para sugerir passar alguns Zeffirelli lá na ESPM porque as novas gerações não precisam apenas conhecê-lo, mas mergulhar fundo em cada take, cada fala, cada luz, sabe como?

É o caso do Cacá, do Luiz Carlos Lacerda, enfim, existe uma legião de diretores que são a prova de tempo, estão sempre 10, 20 anos à frente. “Introdução à Música do Sangue”, de Luiz Carlos Lacerda, é um poema, uma crônica sobre o Brasil de barro vermelho, corações partidos e mormaços existenciais.

Quero dizer a Catherine que sugira um “Festival Cinema 1” na ESPM, mostrar o que precisa ser visto. Com uma certa urgência. Em tempo: magnífico o trabalho dessa faculdade em prol do Cinema. Magnífico!

Bom, é só isso. Aplaudo de pé o Zeffirelli. Por tudo e por todos nós.

sábado, 15 de junho de 2019

Otimismo & Pessimismo

                                    Se esses caras fossem pessimistas o "disco voador" não subiria


Se todo mundo, em todos os tempos, fosse pessimista 24 horas por dia ninguém teria nascido. A começar por nós. O pessimismo crônico, assim como o mau humor, em geral são sintomas clássicos (eu diria óbvios) de depressão e ansiedade aguda que, de cara, conduzem diretamente a inapetência existencial.

Não é normal ser pessimista o tempo todo. Não é normal ser otimista o tempo todo. A leve e harmônica oscilação de humor rege a saúde do nosso sistema nervoso, ensina a boa medicina.

Os negativistas tem no pessimismo o início, o fim e o meio. O lema deles é o famigerado “nada será como antes” e reclamar de tudo é a essência. Reclamam do calor, do frio, da chuva, da falta de chuva, do trabalho, da falta de trabalho, do amor, do desamor, do céu, do inferno.

Sem que ninguém diga claramente “meu chapa, vá se tratar!”, porque ninguém está a fim de se aporrinhar. E recomendar um médico para um sujeito nesse estado pode parecer ofensa.

O otimismo comedido é um exercício, dizem os sábios. Viver com esperança (favor não confundir com a agoniante expectativa) é saudável. Enxergar a luz no fim do túnel como porta de saída (e não de entrada) é uma ginástica mental/emocional fundamental. Mesmo que ao nosso lado B esteja no modo “a luz que vejo pode ser de um trem vindo em sentido contrário.”


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Dreams


Levei um coice dos bons quando "Dreams", do Allman Brothers, explodiu nas potentes caixas de som Edifier do meu computador. Provavelmente a vizinhança não gostou, mas fazer o que se o nome disso é blues?

Lembrei, como se fosse amanhã, do primeiro dia em que entrei na Radio Federal AM, a primeira emissora de Rock do Brasil, em 1973. Comecei lá, este ano, como estagiário passando logo a função de programador. Entrei na sala da produção e o Marcos Kilzer estava ouvindo "Dreams" da The Allman Brothers Band, aos berros, olhos fechados. Eu não conhecia.

Disco de 1969, o primeiro dessa banda extraordinária que perdeu seu primeiro guitarrista, o grande Duane Allman, em 1971, aos 25 anos. Ele voada em cima da sua Harley Davison Sportster na cidade de Macon (EUA) e foi fechado por um caminhão que transportava um guindaste. Duane, mesmo estraçalhado, chegou vivo ao hospital, mas poucas horas depois morreu.

Marcos Kilzer (hoje alto executivo da gravadora Coqueiro Verde) me contou essa história. Terminamos de ouvir "Dreams" e ele saiu, me deixando com o restante do álbum de estreia do Allman Brothers. Não só virei fã como descobri, naqueles parcos tempos sem internet, sem Google e com revistas de rock brasileiras não confiáveis, que Duane Allman chegou a ser eleito o melhor guitarrista do mundo pela Rolling Stone, na época uma revista de rock, blues e similares altamente conceituada.

Hoje, o You Tube me joga nos braços de "Dreams". Como se estivesse na rua Da Conceição, 99, 10o. andar, centro de Niterói, bunker da Rádio Federal AM. Essa música é uma daquelas que transportam. Para o futuro, para o passado, para o talvez.

Vai ser uma das convidadas de honra da RSRC.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O filme acabou


Contam os escalavrados tiranossauros que até uns 20 anos atrás existiu um bípede mamífero, que também já virou petróleo, chamado lanterninha. Ele habitava as salas de cinema, com uma lanterna na mão, fiscalizando e chamando a atenção de quem não andava na linha, jogava galinha viva para o alto, copulava animadamente entre as fileiras de cadeiras ou conseguia penetrar na sala escura arrombando a porta de saída.

O lanterninha era um guarda noturno da noite virtual das salas de cinema e foi extinto pelo competente e sempre alerta, obediente, positivo e operante autopoliciamento imposto pela sociedade dita contemporânea e suas várias patrulhas espalhadas por aí.

O rico portifólio de lendas urbanas cariocas (queimaram esse portifólio? Por onde anda?) conta uma célebre história que muitos juram que teve como palco a sala escura do cinema Comodoro, na Tijuca. Andei frequentando meio que compulsoriamente o Comodoro por duas razões. Namorei firme uma tijucana na adolescência que, linda e inteligente (como tem mulher bonita na Tijuca!), merecia os dois ônibus e uma barca que eu pegava para ir e mais dois ônibus e uma barca para voltar, totalizando umas três horas de viagem.

No começo foi como todo começo. Praça Sanz Peña, cachorro quente, sorvete, discretos amassos atrás de uma banca de jornal fechada e, reação vulcânica, pegávamos outro ônibus e íamos namorar no Comodoro sem sequer saber que filme estava passando. Menores de idade, sabíamos que o porteiro e o lanterninha do cinema eram menos repressores e fingiam que não sabiam que éramos menores de idade e deixavam entrar.

Lembra que escrevi lá em cima que andei frequentando meio que compulsoriamente o Comodoro por duas razões? A outra razão é que estudava Comunicação Social na Estácio que ficava mais ou menos lá perto. Muitas vezes arranjava uma carona em frente ao Jornal do Brasil (trabalhei anos do Departamento de Jornalismo da Radio JB) que me deixava nas imediações do cinema.

Uma dessas caronas quem me deu foi o Zózimo, ele mesmo, Zózimo Barroso do Amaral lendário colunista que dizia, de gozação, estar visitando “uma iguaria na Tijuca”. E numa das vezes que me deixou em frente ao cinema, comentou “uma escapada nesse Comodoro até que é uma boa ideia...”.

Ir ao cinema dependia...na verdade não dependia de nada. Muitas vezes, em vez de pegar outro ônibus no Comodoro e partir para a faculdade (meu trabalho acabava as 19:30 e as aulas começavam as 19:00, ou seja, já estava atrasado) baixava um “hoje não” e entrava no cinema. Até hoje agradeço a Estácio por ter me apresentado ao Comodoro, onde vi uma montanha de filmes que foram fundamentais em minha formação existencial e, posso falar?, intelectual.

No final do curso, numa dessas decisões de última hora, entrei no cinema e estava passando “Em Algum Lugar do Passado”, de Jeannot Szwarc, com musicão acachapante de John Barry. Com o andar do filme fui afundando na cadeira de tanta emoção, numa noite em que o lanterninha não precisou trabalhar.
O filme era mais forte do que tudo. No final eu estava pronto para uma crise de choro quando, bruscamente, assim que o filme acabou acenderam as luzes. Muita gente enxugava os olhos e eu flagrado por aquele lumiar artificial repentino, engoli as emoções como sonrizal sem água.

Na saída encontrei com um dos mais lúcidos (???), inteligentes e tresloucados cronistas do Rio, Carlinhos de Oliveira (assinava com pompa José Carlos de Oliveira, diariamente no JB) que vivia lutando contra o alcoolismo que o perseguia desde a encarnação anterior, diziam as péssimas línguas. Seria ele? Um cara que tinha pinta, roupa e alma de Zona Sul, ali na Tijuca? Dia de semana? Cedo da noite? Vi que era porque, como um tiro de fuzil, ele andou reto, reto, reto até um bar onde pediu dois martelos de conhaque.

Fui atrás e quando cheguei no balcão do botequim disse “trabalho na Rádio JB, que também fica no sexto andar”. Pedi uma meia Malzbier para me enturmar, apesar de não gostar de bebida nenhuma (acabei golfando no banheiro). Carlinhos tinha a tecla “Gonzaguinha” e era só apertar para ele se tornar rancoroso, azedo, amargo, negativista, como o próprio cantor rancor. Ele fez uma cara de contrariado, mas a minha ideia não era tietar e nem fazer social.

Eu só queria saber o que ele tinha ido fazer na Tijuca já que mulher não era motivo pois o mantra cantado no Jangadeiro, power point das cabeças bebantes, dizia que Carlinhos não comia ninguém porque mulher não gosta de homem mal humorado.

Como acho que todo sado também é maso decidi dar uns coices ao léu e Carlinhos começou a dar assunto. Já bêbado (com um martelo apenas; com o tempo baixam as doses sobem os porres e, segundo Jaguar, “é quando já estamos surfando no juízo final”) disse que estava tentando escrever sobre um cara que ia assistir a todas as sessões de “Em Algum Lugar do Passado”, em todos os cinemas possíveis, para afogar uma dor de corno.

Naquela semana o sujeito estava se enfiando no Comodoro, mas ele, Carlinhos, não conseguia localizar para conversar e fazê-lo personagem de uma crônica. Aquela noite seria a última tentativa porque “eu tenho mais o que não fazer”, esbravejou o ébrio cronista. Até perguntei “se eu achar o cara, quer que te avise?”. Delicado, Carlinhos rosnou “não”. Pensei  (mas nada disse) “ah é, meu chapa, quer entubar um robalo? Pois sou repórter você, não...”.

Comecei a caçar o cara e a gostar da história do homem que ia afogar dor de corno com overdose de cinema, apesar de, no íntimo, acreditar (hoje mais ainda) que música, cinema, livros e praia curam qualquer doença. No dia seguinte, mais cedo, fui ao Comodoro, conversei com o pessoal procurando saber se havia um sujeito que ia a quase todas as sessões de “Em Algum Lugar do Passado”, etc etc etc. O porteiro ficou de ver mas o lanterninha, que passava por perto, ouviu e sussurrou no canto do meu ouvido: “a informação tem recompensa? O cara fez merda? É coisa com a polícia?”. Eu disse que não, que era curiosidade minha, jornalista, e garanti dois mistos quentes e bebida “a seu critério”. O lanterninha disse que já havia notado "um cara estranho" e que me ligaria assim que ele voltasse ao cinema.

Dois dias depois, a secretária da redação da Rádio JB chamou alto “Luiz Antonio, linha A. É o lanterninha do cinema Comodoro”. Atendi, ele disse que o cara tinha acabado de entrar no cinema e que o filme sairia de cartaz em pouco tempo. Eu tinha um programa jornalístico na Rádio JB chamado “Vida no Rio” só entrevistando pessoas bizarras vivendo situações surreais, numa cidade cada vez mais boçal etc. 
Logo, minha pauta era livre. Peguei um gravador, saí. Táxi e cinema Comodoro.

Cheguei, filme já começado, o lanterninha apontou “é aquele lá na frente, bem no meio do cinema”. Cinema vazio, quatro e pouco da tarde. Sentei perto e fiquei observando. O sujeito mantinha as mãos no queixo, de vez em quando pegava um lenço no bolso da camisa, enxugava os olhos e voltava com as mãos no queixo. Faltavam uns 20 minutos para o filme terminar ele olhou para os lados e começou a sacolejar na cadeira, bronha provavelmente e logo depois ficou quieto, relaxado na cadeira. Não se mexeu mais.

O filme acabou, mas ele não levantou. Nem eu. O lanterninha se aproximou e no meu ouvido comentou “agora ele vai ficar assim, meio dormindo até começar a outra sessão. Se eu for lá ele vai implorar para deixar assistir mais uma. Vai assim até a última sessão. Aí, na última sessão, eu tento acordar, digo que o filme acabou, ele levanta e sai chorando”.

Voltei na última sessão, dei a grana do lanche para o lanterninha e na saída cerquei o suposto voyeur, prevendo uma explosão e até porrada na minha cara. Quando eu disse “sou jornalista da radio tal e queria conversar contigo...”, ele me olhou, olhos inchados e disse “ainda bem”. Não entendi, mas fui para aquele botequim do Carlinhos onde sentamos numa mesinha de madeira velha com toalha quadriculada de plástico.

Professor do ensino médio, bom em literatura, boa fala, ele concordou em contar desde que eu me comprometesse a publicar o nome dele e da mulher que “me atirou no precipício”. Topei e disse que o texto sairia no Pasquim mas sem complicar perguntei logo: “por que você assiste “Em Algum Lugar do Passado” todos os dias, todas as horas?”. Ele respondeu claramente: “porque eu preciso me convencer que um amor quando acaba não tem volta. Esse filme é certeiro. O personagem perde a personagem porque ela não existe, logo o amor também não. 

Mas com medo de que no final os dois acabassem reatando, eu nunca assisto até o fim...eu me masturbo antes do fim e durmo...aí vem o lanterninha e diz “o filme acabou”. Eu finjo que não entendo e ele repete “o filme acabou”. Peço para repetir, de novo “o filme acabou”. Eu saio dali martelando “o filme acabou”, “o filme acabou”, “o filme acabou”, eu me convenço. Fico mais aliviado, não dou nenhum espaço para a maldita esperança porque o meu filme com aquela mulher acabou mesmo, mas a esperança insiste em rebobinar.

Perguntei se aquele ritual estava fazendo efeito, ele disse “com certeza, agora a esperança só volta dois dias depois. Antes logo que saia a esperança me torturava com aquela conversa “tudo vai dar certo, tudo será como antes” e tome sofrimento, tristeza. A tendência é que, de “filme acabou” em “filme acabou”, minha doença desapareça. Conversamos um bom tempo.

Agradeci. Ele perguntou se eu iria publicar eu disse que a chefia ia dar uma avaliada. Mas naquele momento decidi não escrever nada para não reativar a esperança, logo, a doença daquele homem, que já estava quase curado. Jamais comentei o assunto com Carlinhos de Oliveira que, acho, ficou sem saber até a sua morte em 1986.

Quando o seu filme acabou.





terça-feira, 11 de junho de 2019

Heresia com os Beatles

Entrei no Uber e assim que começou a tocar uma música dos Beatles no rádio e eu senti um pouco de náusea. Reagi mal aos primeiros acordes de “Let it Be” (era essa a música) e me assustei. Estaria ficando de saco cheio dos Beatles? Quando? Onde? Por que?

É verdade. Uma verdade que eu suspeitava mas não confirmava porque achava um absurdo. Mas estou enjoado de boa parte das músicas dos Beatles, não por culpa de Lennon, McCartney, Harrison e Starr, mas por causa da overdose de covers, tributos, versões, imitações, enfim, a molambalização que estão fazendo da obra da maior banda da história do rock.

Com o passar do tempo (e das versões, dos covers, das homenagens e cusp!, tributos) fui enjoando. Não aguento mais ouvir Hey Jude, nem Something, Yesterday, enfim, a lista é grande, mas parou de crescer porque optei por parar de ouvir Beatles.

Voltei a ouvir graças ao espetacular CD “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, edição especial de 50 anos, remixada, com várias faixas bonus bem legais com ensaios, etc. Depois de minha “greve” ouço canções que não foram sucessos mundiais e muito menos fontes de cobiça de aproveitadores fantasiados de beatlemaníacos que jogam lama sobre a obra dos chamados Fab Fours. Principalmente os que fazem o traste chamado “tributo” que, em geral, urina sobre a biografia do homenageado.

Uma vez, no Rio Grande do Sul, no meio de um “tributo a Stevie Ray Vaughan um cara da plateia, meio bêbado, levantou e quis bater no líder da banda. Com razão porque aquilo que ele estava cometendo não era Stevie Ray Vaughan nem no Paraguai.

Paul McCartney está preocupado com a super exposição de muitas canções dos Beatles e a cada turnê varia, busca músicas mais alternativas, enfim, o GPS do Macca já percebeu que os Beatles não merecem morrer de overdose.

Puxei assunto com o motorista do Uber que disse gostar dos Beatles e que, inclusive, foi a um show do Paul McCartney. Perguntei se ele não estava cansado de ouvir algumas canções e ele disse que “essa aí toca muito...já está meio batida”, referindo-se a “Let it Be”. Para escrever esse texto liguei para alguns amigos ligados a música e todos, absolutamente todos, concordaram que por causa dos covers, versões, etc. os Beatles estão cansando.

Um conhecido montou uma banda que toca Beatles me mandou e-mail/convite para a estreia e tal, mas acabei não indo. Semanas depois encontrei com ele veio a fatídica “pô, não foi ao show...”. Abri o jogo, falei a verdade, disse que não vou mais a show de cover de Beatles. Ficou tudo bem, como sempre acontece quando falamos a verdade.

Recentemente, estava num bar conversando com amigos e o violeiro que nos punia com a famigerada música ao vivo começou a tocar Beatles. Pedi a conta e fui embora antes dele chegar ao refrão porque a banda que sacudiu o planeta não merece um final tão melancólico como o esquecimento, consequência de overdose de exposição.

P.S. - Devo a Lennon, McCartney, Harrison e Starr tudo o quer acho que sei sobre música pop.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

As éguas de Paquetá


Quando fui a ilha de Paquetá pela primeira vez, não passava de um bronheiro mirim de 12 anos, leitor voraz dos catecismos de Carlos Zéfiro, nutriente básico da borduna ainda em formação.

Senti um mal estar quando saí da barca, um misto de fastio, fome e vontade de vomitar, meio tudo ao mesmo tempo agora. Excursão de colégio e um dos professores gritou “você está amarelo!”. Tentei disfarçar, tentei dissimular e, felizmente, o nó na garganta impediu que eu balbuciasse a mais remota das frases. Provavelmente iria falar besteira.

Depois de arfar muito, saí andando, fingindo que estava tudo bem, o professor perguntou “melhorou?” eu disse que sim e a excursão prosseguiu, mas fiquei para trás. Disse ao professor que precisava descansar, ficar sentado num caixote de “manzanas argentinas” embaixo de uma jaqueira. Ele concordou. “Fique aí, mas não saia para lugar nenhum. Voltamos logo”.

Mormaço quente; Foi quando vi uma égua pastando bem perto. Pangaré, coitada, escrava das charretes que agora foram abolidas. Pensei em montar, sair pela ilha como um Zorro bem resolvido, mas é lógico que não poderia. Ou poderia?

Josélia disse que sim. Josélia, uma garota mais velha de uns 20 anos, muito morena, magra, cabelos enrolados na altura dos ombros, descalça, vestido de chita desbotado, abaixo dos joelhos, dizia que era filha da dona da égua. Insinuante, perguntou “você quer?”.

Eu ainda estava mal, mas queria. Queria qualquer coisa que Josélia me desse. Qualquer coisa. Até chute na cara. Mas ela não queria me dar, queria alugar. Alugar a égua da mãe. Disse que a sela estava atrás do muro da casa de José Bonifácio, o freio também. Freio da égua, não o meu.

Assim que o pessoal se afastou, Josélia pulou o muro de volta. Muro da casa de José Bonifácio. Vi a sua calcinha, branca, provavelmente de algodão, mas foi só um flash. Montei na égua mas, desorientado pelos workshops de Zéfiro me fiz de vítima, cara de coitado e pedi para ela ir comigo. E ela foi. Montou na minha garupa e chamou a pangaré pelo nome. Não lembro o nome.

A égua não marchava, só trotava. Delícia. Delícia sentir os peitinhos de Josélia roçando minhas costas, rumo a alvorada de sei lá onde. Eu já não sabia quem era quem; quem era égua, quem era Josélia, quem era eu. Mas sabia que a turma (e os professores) voltariam logo. Foi tudo muito rápido.

Deixei a égua parar embaixo de uma amendoeira, virei e agarrei Josélia. Ela não refugou. Um longo beijo acompanhado de mãozadas mal distribuídas, mas quase na altura do obscuro objeto do meu desejo, Josélia mandou tirar. A mão. Tirei, insisti, tirei, insisti, insisti, insisti, arfando Josélia pulou da égua, levantou o vestido perto da calçada, saltou uma cerca e, do outro lado, ficou nua e determinada comandou: “vem”.

Louco, voei da égua, pulei a cerca e ouvi os berros chamando meu nome. Era o professor. Josélia já tinha posto a mão, eu já tinha posto a mão, o mundo girava, mas eu teria que...refugar.

O professor me inquiria como um sargento alemão. Disse que eu estava com a aparência pior. Disse que eu precisava ir ao médico. Disse, disse, disse e a turma se fez em grupos. Como um eunuco compulsório, avistei a égua longe. Pastando junto a calçada. Josélia devia estar por ali, como sempre esteve, tocando siriricas em série.

Semanas depois, num sábado, disse em casa que iria a Modern Sound, em Copacabana, comprar discos. Na estação mudei para a barca de Paquetá, onde o tempo não passava e eu latejava alucinado. Latejo que só Josélia dissipou. Uma. Duas. Seis.70 vezes.

Noite alta, barca de volta, pernas tremendo, paixão vulcânica, até quando eu estaria escravizado por aquela mulher? Em casa, desculpas vãs, levemente imbecis, “isso não se faz, sumir sem avisar”, disseram. Concordei. E me auto exilei no quarto, auge da noite de sábado, lembrando de Josélia que me fez o mais Zéfiro dos Carlos por longos e longos sábados na ilha de Paquetá.



Ecos da guerra fria

            "O imbecil e seu dinheiro tem sorte suficiente para ficar juntos em primeiro lugar". Gordon           Gekko, pers...