quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Mente caótica


Nossos predadores emocionais vivem nas savanas do inconsciente e mantém no topo da cadeia alimentar a ansiedade antecipatória, figurinha fácil no corredor da morte das penitenciárias onde a pena de morte é formal. No Brasil é informal. Há muitos relatos de condenados que ficaram ensandecidamente ansiosos para chegar o dia da execução, quando a ansiedade, parece, cessa.

Dormir mal, comer mal, falar mal, cansaço instalado no cotidiano, sono, sono, sono, banzo, a ansiedade antecipatória é capaz de levar o ser humano a milhares de abismos por minuto, numa tortura inominável que devora dias e noites, semanas, meses, anos, décadas.

Certa vez, lá na casa do cacete dos anos 70, fui me meter a fazer meditação transcendental na torpe tentativa de tentar reduzir a velocidade dos pensamentos caóticos. Baixei numa espécie de consultório em Copacabana, num prédio que se chama Edifício das Boutiques, na rua Santa Clara.

Apesar do tsunami de mulheres maravilhosas na fila do elevador, minha cabeça parecia uma Kombi capotando e pegando fogo na avenida Brasil, abarrotada de hortifrutigranjeiros. Não deu nem para apreciar a bundolaria feminina. Olhei, mas não apreciei.

O cara começou a sessão de meditação querendo que eu ficasse de pernas cruzadas, similar a posição de lótus, mas nunca consegui e não consigo até hoje. Acabei deitando de barriga para cima. Com a voz mansa ele fez uma contagem, disse um monte de coisas e na minha cabeça surgiam piranhas (peixes) comendo a minha mão num caixa eletrônico, incêndio no meu próprio corpo, afogamentos, enforcamento numa floresta devastada, em suma, a tal meditação conseguiu reunir o pior do pior e eu disse “para, meu amigo! Não aguento mais! Quanto é?, vou embora”. E fui.

No corredor do elevador fumei dois cigarros acendendo um no outro (na época eu fumava e todo mundo podia fumar em qualquer lugar, até dentro de aviões e berçários), andando de um lado para o outro como limpador de para brisas aflito até golfar na lixeira e, meio trôpego, sair do feitiço dos feromônios do edifício das Boutiques.

Eu tinha uma Brasília, carro de sucesso que a Volkswagen fabricou de 1974 até 1982 e a bordo, em alto volume, enchi a cara de Led Zeppelin como se fosse fogo paulista auditivo e as erupções de pensamentos hediondos deram uma serenada.

Dias depois encontrei um saudoso amigo, médico psiquiatra, numa fila de orelhão (telefones públicos que ainda existem em alguns becos) e falei que estava completamente descacetado “a ponto de recorrer a meditação transcendental.” “Pior opção”, ele disse, “porque quando estamos sob violento estresse – que é o seu caso - a meditação piora tudo, amplifica. Gasolina em lareira. Não adianta tentar conter pensamentos através de mudanças de pensamentos.” 

Perguntei o que poderia resolver e ele, muito objetivo aconselhou “tomar ansiolítico e fazer psicanálise”. “Mas eu parei”, disse, “pois então retome já”, ele respondeu, “mas faça em grupo para ver que todo mundo sofre disso”, encerrou, antes me passando uma receita do hoje vintage Lexotan.

Foi quando voltei a fazer psicanálise e várias outras terapias ortodoxas e heterodoxas (florais, unha de corvo ao suco, chá de garça do Abaeté) que uso até hoje para conter a mente caótica. Não dá para conter 100% mas adquiri know how para negociar com ela.

Há uns cinco ou 30 anos atrás (não lembro) eu estava nadando a noite numa paradisíaca praia de Angra dos Reis quando o motor da mente caótica girou e comecei a pensar na música do filme “Tubarão” (“tan tan tan tan”), convencido que ia ser devorado por um ali mesmo. 

Apesar de pensar “não existe tubarão aqui, não existe tubarão aqui, não existe tubarão aqui” desesperado nadei até a praia e, quando cheguei, me joguei na areia arfando. Acho que até suei no mar.

Um amigo disse, “caramba, você nada rápido pra cacete”, e emendou, “parecia eu, ano passado, quando mergulhei a noite, fui até lá no fundo e lembrei daquela música do filme Tubarão, entrei em desespero e quase andei sobre a água. Nunca mais pisei no mar a noite”.

“Pois é”, respondi.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

"O Caminho do Peregrino": um milagre, uma guinada, um livro fabuloso



O poder dos milagres. Depois do estrondoso sucesso de seus quatro grandes livros de história, “1808”, “1822” e “1889”, que venderam (e ainda vendem) milhões de exemplares, o jornalista e pesquisador Laurentino Gomes deu uma guinada e ao invés de escrever mais um livro de história ele optou por um belo e emocionado relato espiritual. Um desejo que nasceu de um milagre não revelado que ele vivenciou.

Numa entrevista de 2017 a Ana Claudia Guimarães, da coluna de Ancelmo Gois, do Globo, Laurentino Gomes falou do maravilhoso livro “O Caminho do Peregrino - Seguindo os passos de Jesus na Terra Santa”, que escreveu em parceria com seu mestre espiritual, o pastor Osmar Ludovico. O livro foi recebido com frieza pela mídia e não houve praticamente nenhuma divulgação.

Ana Claudia escreveu que Laurentino narra uma viagem que fez à Terra Santa com um grupo de brasileiros. Escreveu o livro “meio sem querer”, como ele mesmo diz: “A obra foi brotando na cabeça, com toda a estrutura.”
Católico de formação, de família conservadora, ele se afastou, durante décadas, de práticas religiosas. Mas, por “caminhos misteriosos”, segundo ele, está “voltando para casa”.

Foi a primeira vez que você fez uma peregrinação?

Não. Antes, eu já tinha tido duas experiências. Uma delas em Roma, no dia em que os papas João XXIII e João Paulo II foram canonizados. Também fiz o Caminho de Santiago de Compostela, completamente por acaso. A data de um lançamento de um livro meu na Espanha foi adiada e me ofereceram a viagem.

Como foi sua parceria com Osmar Ludovico?

Osmar é um mentor espiritual cristão. É o meu líder espiritual. Ele faz meditações de trechos das escrituras. Quando surgiu a possibilidade de fazer um livro com Osmar, contando a minha experiência, fiquei meio amedrontado. Tive medo da reação das pessoas. Mas, depois, comecei a sonhar com o livro, e tudo ficou claro em minha cabeça. Foi uma alegria.  

De que fala “O caminho do peregrino”?

É um livro que também mistura o meu trabalho como pesquisador. Fizemos observações da arqueologia de Israel, do Império Romano. Falamos sobre como era Israel no tempo de Jesus, sobre a geografia da Terra Santa, um simbolismo espiritual. O interessante é que não é possível se comprovar cientificamente algo que brota do coração das pessoas.

Qual é o resultado dessa peregrinação para você?
 
O peregrino é diferente do turista. O turista olha para fora, mobilizado pela paisagem, quer consumir o que vê. O peregrino olha para dentro, para ter uma revelação que está escondida em seu coração, um silêncio. O livro não tem como propósito ser um relato de viagem. É uma crônica de uma peregrinação. Como disse Leonardo Boff para mim, uma vez, descobri que Deus é mais para ser sentido do que para ser pensado. É uma dimensão inexplicável, misteriosa. Fui redescobrindo um significado escondido na minha infância. Eu seguia os meus pais, mas não entendia. Agora, tocou o meu coração. Não dá para explicar com palavras. É uma volta para casa.

Em uma outra entrevista a Rodrigo Bem Nunes, do site de Martin Behrend, Laurentino Gomes explicou que a não divulgação do livro pela mídia faz sentido. “Jesus Cristo não é um tema muito politicamente correto nos ambientes de redação, nas emissoras de rádio e TV, na imprensa em geral. É como se fosse um “não-assunto”.

“Este é uma obra que, na verdade, eu não esperava escrever. Mas aconteceu uma grande transformação na minha vida, que resultou na redescoberta das minhas raízes Cristãs e o livro fala deste assunto.
Fui redescobrindo o significado profundo da minha vida, que por sua vez tinha tudo a ver com o cristianismo. Isso pra mim foi uma coisa muito libertadora, redescobrir que eu tinha um Salvador, que tinha uma razão transcendente, espiritual para minha vida, que ela não se resumia apenas ao visível.

Eu e a Carmen, minha esposa, fizemos três peregrinações em um espaço de apenas um ano. Fomos a Roma, fomos a Jerusalém e fizemos também o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Então tudo isso foi somando e eu descobri onde estava a essência da minha vida.

Este é um livro confessional de minha parte, mas também abordo alguns fatos históricos referentes ao Cristianismo, ao Judaísmo, a história da Terra Santa, Jerusalém, além das reflexões escritas com maestria pelo Osmar Ludovico.

Sobre o silêncio da mídia sobre o livro, Laurentino comentou:

Sim, de fato...isso até me surpreendeu. Houve uma certa reação silenciosa negativa em relação a este livro. A repercussão foi muito menor; Jesus Cristo não é um tema muito politicamente correto nos ambientes de redação, nas emissoras de rádio e TV, na imprensa em geral. É como se fosse um “não-assunto”. Mas é natural que seja assim. Esta é uma dimensão que só entende quem foi chamado e quem não foi chamado pode acabar rejeitando essa dimensão.

As pessoas às vezes acham que a experiência de renascimento espiritual, de conversão é algo confortável, que você vai estar em paz, tranquilo. Diria que é uma experiência desconfortável, pois você passa a se sentir deslocado em relação aos valores e aos parâmetros de avaliação de um mundo amplamente secular, quase anti religioso. É preciso estar preparado para isso.

Mente caótica

Nossos predadores emocionais vivem nas savanas do inconsciente e mantém no topo da cadeia alimentar a ansiedade antecipatória, figurin...