quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Feriadão

                                                                     Óleo sobre tela, Osamu Obi
Quando estou no carro ouço rádios de notícias. CBN e Bandnews. CBN menos por causa da overdose de futebol que nem gandula suporta. Na Região Oceânica de Niterói (Itaipu Itacoatiara, Camboinhas, Piratininga, Cafubá etc) ouço a Oceânica FM, 105,9, que tem uma programação que tem tudo a ver comigo.

As rádios de notícias me irritam em vésperas de feriadões porque os apresentadores tratam do assunto (feriadão) como solução de tudo. Perguntam aos repórteres “vai chover no feriadão”?, “como está o transito na véspera do feriadão?, “eu vou estar de folga no feriadão, e você?”. Passam a impressão que detestam o que fazem, quando em alguns casos é mera falta de assunto.

O dicionário explica: “Feriado - dia de descanso, instituído pelo poder civil ou religioso, em que são suspensas as atividades públicas e particulares”. Já escrevi sobre feriados. Um artigo meio marrento, sentando o pau especialmente nos feriadões, que atrapalham...atrapalham...atrapalham quem? O que? Hoje, com a devida distância, digamos, histórica, confesso que foi um texto egoísta.

Desci o cacete nos feriados porque jornalistas vivem um dilema. Se por um lado parte da redação fica de folga, a outra rala dobrado para compensar, já que a mídia não para, ou pelo menos não parava. Não foi um texto reclamão, mas agressivo porque naquela semana um feriadão tinha me liberado de virar noites escrevendo, antecipando trabalhos para que o cronograma não fosse para o espaço. É isso mesmo. Gosto de dar plantão em feriados por várias razões: 1 – as cidades turísticas em geral estão soterradas de gente; 2 – as praias da cidade também; 3- bares e restaurantes a noite ficam entupidos; 4 – e eu amo muito o que faço e já troquei muita folga por plantão que, de quebra, pagam muito bem e não gastamos um centavo.

É evidente que não costumo viajar em feriados, ou feriadões, porque meu nível de masoquismo é baixo. Enchi o saco de passar feriados encalhado nas sub estradas do Estado do Rio ou largado como uma mochila perdida em esteiras de aeroportos lotados.

Tempos atrás, num desses feriadões, acompanhando uma namorada asiática que não falava português (a gente se virada num inglês à Bangu), fomos parar numa pousada no alto de uma montanha, totalmente selvagem. Sem luz (gerador ligado até 10 da noite), comida natural sem carne, sucos, água de fonte e muitos passeios pela mata virgem.

A asiática falava pouco, fazia muito. Nosso feriadão foi de quatro dias e perdi cinco quilos, comendo galinha, comendo alface, comendo abricó, e sendo comido pela insaciável asiática calada, quieta, mas que na hora do abajur lilás lembrava as bombas de Hiroshima e Nakasaki.

Não saí para caminhar. Nem ela. Parecíamos um casal de codornas internado no quarto dos fundos, para desespero de uma meia dúzia de outros casais que foram para aquele lugar com aquela conversa de reiniciar o casamento, como se casamento fosse um Windows, um PC, um OS. Casamento é para os criativos, ousados, independentes, absurdos, seres a prova de rotina como aquela asiática que, um dia, deixou uma carta apaixonada (escrita à mão) na minha portaria e ganhou o mundo. De novo.

Sofri porque me apaixonei pela liberdade dela, pelo imaginário dela, pela ausência de ciúme dela (não rolava nem “que horas são?”), pela beleza dela e...bom, ela se mandou mas deixou uma carta que, diria Euclides da Cunha, me fez ruborizar de tanto auto orgulho num momento de rejeição radical que é o do pé na bunda.

Pelo que observo, muita gente tem desistido de viajar nos feriadões porque percebeu que padece nas estradas e quando chega ao destino está tudo cheio, falta água, luz, vale a lei das filas, engarrafamentos humanos e o de automóveis pioram, praias superlotadas, preços estratosféricos, assaltos, blá blá blá.

Temos o direito de homenagear nossos mortos, santos e afins. Temos sim. Mas o que me fez realmente mudar de ideia em relação aos feriados foi uma matéria que li sobre um relatório da Organização Internacional do Trabalho, OIT, que informava que nós, brasileiros, estamos entre os povos que mais trabalham no mundo. Claro que os chineses batem recorde, mas aquilo é regime de escravidão.

Os que menos trabalham (medição em horas por semana), pasmem, são os alemães. Fiquei impressionado com a quantidade de feriados na Europa, com a quantidade de horas/semana que os franceses, ingleses e italianos trabalham que é muito menor do que a nossa. Ou seja, nós que trabalhamos pra caramba merecemos dar uma descansada-extra de vez em quando.

Não importa se viro noites, não importa se os prazos ficam apertados. O que importa é que, ao contrário do que muita gente pensa nós, brasileiros, trabalhamos muito. Você sabe disso porque sente na carne. Além disso, os feriados desorganizam a vida de muitos outros profissionais que são submetidos a plantões, emergências, enfim, nem todo mundo bota o boi na sombra.


E começamos mais um feriadão. Em vez de despejar a ira, desejo a todos muito, mas muito prazer.