quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Cantar Hino Nacional para quem? Lula, pro colombiano ministro, Damares, “Clara Crocodilo”, Temer, Brumadinho?


Era uma liturgia tradicional. No século passado as escolas onde estudei obrigavam a cantar o Hino Nacional. Quando o professor entrava em sala, tínhamos que levantar. No Dia da Bandeira, havia desfile. Atividades que fazíamos com naturalidade.

A partir de 1990 a baderna virou premissa, quando o democracismo mostrou a sua cara e seu caráter, simbolizados por Collor. Concordo, Lula teria sido pior, mas eleger um caçador de marajás que em poucos meses se revelou um vigarista foi uma enorme decepção para milhões de pessoas.

O Hino Nacional é um culto a nação. Nos Estados Unidos os nacionalistas mais fanáticos colocam bandeiras na porta de casa, adesivos no carro, tatuam a bandeira americana na bunda. Em nome pátria, o norte-americano joga a vida nas guerras, o que não é pouco.

Em todas as escolas dos EUA o Hino deles é cantado. Todos de pé, alguns emocionados. Os EUA são orgulho para muitos norte-americanos. Em algumas notas de dólar está lá: “Em Deus Confiamos”. Qual o problema?

Vamos voltar para o Brasil. Hoje o sujeito vai cantar o hino e o que lhe vem a cabeça? O ministro colombiano da educação chamando brasileiro de canibal e ladrão e determinando que devemos filmar e mandar pra ele gente cantando o hino nacional a força? O prédio da Petrobrás assaltado pelos sicários? A imagem de Brumadinho, das montanhas de Minas Gerais devoradas pelas mineradoras, “sócias” dos governos? O filho mais vadio do presidente, vulgo 02, que passa o dia INTEIRO no Twitter falando (desculpem) merda? A favelização em massa do país patrocinada pelo terrorismo organizado, com suporte das Farcs da Colômbia, terra do ministro da educação?

E a imagem de dona Damares “denunciando” em suas costumeiras diarreias mentais a existência de spas de luxo no Brasil só para a prática de zoofilia, “gente que paga para ter relações sexuais com animais”, ela disse. Até hoje não sei se foi despiroquice ou uma estocada que ela deu em Lula que, como todo mundo sabe, disse numa entrevista a Playboy, em 1981, que perdeu a virgindade com um animal (leia aqui https://bit.ly/2tEmtIb )   .

O que te vem a cabeça se você fechar os olhos para cantar Hino nacional? Aécio? O primeiro ministro das relações exteriores especializado em armar barracos, criar guerras, um bombeiro que usa lança chamas sendo contido, vejam vocês, por um general que é vice presidente? O rostinho de Gleisi, a nossa Clara Crocodilo( https://bit.ly/2EgSH0Z ? O moralismo fofo do Psol? Temer? Moreira? Eliseu? O obeso e suado Marun abocanhando uma diretoria na Itaipu Binacional?

Posso falar?

Hino Nacional porra nenhuma.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Rádio sobreviveu a fita, CD e iPod. Na era do Spotify, é mais popular do que nunca*

* Do site Caros Ouvintes – Instituto de Estudo de Mídia   
                                                             
A Nielsen, empresa de análise de dados que monitora o consumo de entretenimento dos EUA, revela em seu recém-divulgado relatório anual da Music 360 que a rádio ainda é a principal forma de as pessoas descobrirem novas músicas.

Além disso, os relatórios de pesquisa de audiência mostram também que a porcentagem de americanos com 12 anos ou mais ouvindo rádio transmitido semanalmente permaneceu relativamente estável de 1970 até hoje.

O rádio AM / FM continua a ser o maior meio de alcance de massa nos EUA, com mais de 90% dos consumidores ouvindo semanalmente. Essa porcentagem permaneceu forte mesmo diante do crescimento explosivo da transmissão de músicas.

Para muitas pessoas, a disponibilidade de tanta música levou ao que alguns acadêmicos e analistas chamam de tirania de escolha, explica Larry Miller, diretor do programa de negócios musicais da Steinhardt School da Universidade de Nova York. “Você é confrontado com toda a música do mundo, mas o que diabos você deveria ouvir? Alguém me diz! O que é bom?”

A maioria das pessoas simplesmente não se importam tanto assim; eles querem que a música seja uma experiência passiva, algo para se ter ao fundo enquanto eles cozinham, limpam e continuam suas vidas.

Sobrecarregados por opções, eles prefeririam sentar e ter outra pessoa – um DJ, programador, locutor, uma lista de hits baseada em gráficos, qualquer autoridade confiável que assuma o controle. É por isso que os serviços de streaming estão cada vez mais parecidos com o rádio.

O Spotify, a principal plataforma de streaming de música, há pouco tempo lançou o Discover Weekly, uma inteligente lista de reprodução orientada por algoritmos que é continuamente atualizada com recomendações para o ouvinte. “É uma experiência de baixo envolvimento para verificar algo”, diz Miller sobre a imensa popularidade da playlist.

Desde a Discover Weekly, surgiu também o Radar de Liberação, Fresh Finds, My Time Capsule e uma série de outros mecanismos de recomendação.

Em outras palavras, as listas de reprodução do serviço de streaming são uma nova forma de rádio.
(Sert/SC, 19/02/2019)



sábado, 23 de fevereiro de 2019

O lixo musical que assola o Brasil


“Repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler.“ (Frank Zappa)

Nunca antes na história deste país a música popular esteve tão pífia, escroque e vagabunda. Reflete o cenário nacional de uma maneira geral e o cultural em particular. Com o fim do mercado do disco formal também desapareceram os críticos musicais que, direta ou indiretamente, eram um ponto de referência.

Os críticos musicais foram banidos junto com a radical dieta calórica/encefálica imposta pelos empresários da mídia aos suplementos culturais, hoje reduzidos a pequenos bidês usados por neófitos (saem bem mais baratos) que descarregam ali o seu asneirol vago.

Há pouco tempo tínhamos uma indústria polêmica, sim, mas que fazia a seleção dos artistas que iam gravar. Produziam seus discos que chegavam aos críticos, rádios, TVs. Os críticos opinavam sobre o que prestava e o que não prestava. As rádios sérias tocavam o que achavam que tinham a ver com o seu perfil, enquanto que muitas tratavam do assunto via jabá (corrupção), cobravam grana viva - ou viagens-ou carros- ou etc para tocar as músicas de interesse das gravadoras.

É lógico que muita gente ignorava os críticos e suas opiniões, mas pelo menos os tinha disponíveis. As rádios, nas coxas ou não, apresentavam a seus ouvintes as novidades. Enfim, a cadeia industrial da música beneficiava o consumidor final. Você que lê esta coluna e viveu naquela época, quantos artistas conheceu pela crítica e pelo rádio?

Hoje não há mais referência alguma. A crítica foi substituída por placebos que não conhecem música, nem jornalismo e, ainda por cima, escrevem mal. Vomitam ignorância, futilidade e asneiras em canais do You Tube, blogs e similares, onde concordância, vírgulas e parágrafos são discos voadores.

As FMs, em vez de investir no novo preferem atacar de flash backs por uma razão muito simples: a função de produtor e programador, um exímio conhecedor de música que selecionava o que as rádios iam tocar, também foi pulverizada. O programador hoje é o pior do Spotify, Deezer e os views no You Tube.

Não adianta cacarejar sem sentir dor porque a internet é a ordem do dia por pelo menos mais um século. A quem discorda, sugiro um pijama listrado, canário na gaiola e papo na pracinha passando a mão na bunda das babás fingindo que é gagá. A WWW é maravilhosa, minha amante 24 horas por dia. Surgiu com a proposta de liberdade absoluta, total. Mas, como um disco de vinil, a rede tem seu lado B. A internet inventou a música por streaming e degolou a indústria do disco. A internet substitui rádios por tocadores de música que não apresentam conteúdo falado. Você ouve mas não sabe o que está ouvindo porque, na maioria dos casos, não há quem explique.

O cotidiano me põe em contato direto com as novas gerações e seus iPads, smartphones e players como o Spotify, onde estão quase 100 milhões de músicas. Se no passado o Brasil exportou Bossa Nova, Tropicália, Carmem Miranda, hoje defeca o que há de pior. Nas festinhas que as novas gerações frequentam, só dá funk, um cupim auditivo chamado sertanejo universitário e pagodagem gourmetizada. Nas ruas idem. Na TV, idem. Ora, para as novas gerações, essa é a única nova música disponível no planeta, massacrada pela grande mídia via programas de auditório moderninhos e outros moedores de cabeças.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Ótimo filme, “Minha Fama de Mau” é um mergulho na vida de Erasmo Carlos e da Jovem Guarda


                                  Gabriel Leone, Malu Rodrigues e Chay Suede
                                                     Roberto e Erasmo na estreia
                                             lui Farias, Erasmo e L.G Bayão
                                                                      Malu Rodrigues e Wanderleia
                                                             Chay Suede e Erasmo

Largue o que estiver fazendo e voe para um cinema.

Assisti ao filme “Minha Fama de Mau” e pude sorver livremente momentos que me conduziram ao início dos anos 1960 a virada para os 70. A música é um banco de memória com o poder de nos arrastar em viagens pelo tempo e o som da Jovem Guarda, em especial do Erasmo Carlos, me devolvem às cores, aromas, a grande festa que marca o início da adolescência, também conhecido como puberdade.

O roteirista L.G. Bayão fez uma releitura muito saudável do excelente livro que deu origem ao filme, “Minha Fama de Mau”, do Erasmo. Logo no início, sente-se uma nova linguagem visual que insere imagens em jornais antigos, outras desfilando pela tela, intrigando, estimulando, apresentando o cenário onde a incrível história e envolvente de Erasmo Carlos acontece.

Como era lindo o Rio de Janeiro. Como era humano, gentil, generoso. Como era cidade o Rio de Janeiro nos anos 1970/80.

A direção de Lui Farias dá espaço para que Chay Suede dê um banho de interpretação, no papel do Erasmo. Ele, Chay, também canta várias músicas e sua veia roqueira aparece em cenas onde percebemos, por exemplo, que ele toca mesmo o violão, sem dublagem.

Sentado ao lado de Roberto Carlos, na estreia, Erasmo comentou que “dei força para o Chay (Suede), o Gabriel (Leone) e a Malu (Rodrigues) gravarem as músicas. Eles cantam muito bem e eu não aguento mais ouvir as minhas versões”.

O filme regravou clássicos da Jovem Guarda como “Vem Quente que Eu Estou Fervendo” e “Festa de Arromba” para o filme. O Tremendão contou que uma das cenas que mais o emocionaram foi aquela em que o chapa Roberto Carlos o apresenta “Amigo”, feita em sua homenagem.

Também está ótimo o Gabriel Leone no papel de Roberto Carlos. Talentoso, não se preocupou em ser clone do cantor o que foi ótimo. Inclusive, ele sequer manca, como o Roberto.

Malu Rodrigues vive Wanderléia, a “Ternurinha”, que ganhou o apelido após dar um “coice” no próprio Erasmo que estava no ar na Rádio Guanabara substituindo o show man Carlos Imperial.

A mistura de imagens reais da jovem guarda com as imagens criadas matam a saudade daqueles que, direta ou indiretamente tiveram contato com o iê iê Iê brasileiro e podem rever a segunda geração do rock brasileiro sacudir as estruturas.

Diversões, brincadeiras, muita gargalhada, a Jovem Guarda foi uma festa, para milhões de pessoas e, principalmente, para os artistas envolvidos. Um cometa que passou rápido, muito rápido, de 1964 (final) até 1967 (final). Na cabeça do cometa, Erasmo, Roberto e Wanderléia. 

A fase dramática de Erasmo Carlos, quando a Jovem Guarda acabou, ele e Roberto se afastaram, o ostracismo bateu na porta é bem realista. Um realismo que mostra que o Tremendão foi salvo por uma música corajosa, “Sentado a Beira do Caminho”, quando ele  quase descreve esse momento abissal de sua vida. Ouça o original aqui:  https://bit.ly/2GD2xxN .

Cenas de beleza embaladas pelo como o clássico “Meu Mar”, até pelo lirismo com aroma de adolescência que a música evoca, mexe com todo mundo. Ouça o original aqui:  https://bit.ly/2BO9EiT  

“Minha Fama de Mau” é um filme para fãs de Erasmo (e da Jovem Guarda), curiosos, saudosos, a garotada que quer saber o que foi, afinal, aquele furacão que varreu o país.

A Sinopse

Na Tijuca dos anos sessenta o jovem Erasmo Carlos alimenta uma paixão: o rock and roll. Fã de Elvis, Bill Haley e Chuck Berry, ele aprende a tocar violão enquanto vive de sonhos, bicos e pequenas delinquências.

Sua fama de roqueiro atrai Roberto Carlos, e logo se tornam parceiros e amigos. Um mega sucesso chega com a Jovem Guarda, programa de televisão onde Roberto, Erasmo e Wanderlea são a atração principal.

"Minha Fama de Mau" é um mergulho emocionante na música e na vida de Erasmo Carlos que, com cabeça de homem e coração de menino, se tornou o Tremendão, símbolo vivo do rock nacional.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Ummagumma, 50 anos

                                               Essa coluna não cita nenhum partido político, em especial
                                     PT, PSOL, PC do B e PSL

Se as gerações futuras decidirem se interessar pelos parcos, pobres e decadentes tempos atuais, vão correr atrás de alguns rastros de inteligência e sensibilidade.

As futuras gerações vão se chocar com fatos como a explosão de lama em governos que provocaram as tragédias de Mariana, Brumadinho, o fim anunciado da Amazônia, a equalização humana em uma única massa de pensamento, credo, raça, uma versão piorada do já abominável homem novo inventado pelo argentino Ernesto Che Guevara.

Mas, haverá muitos sinais positivos. Um deles é o álbum duplo Ummagumma que o Pink Floyd gravou e lançou em 1969 que este ano celebra 50 anos.

Os segmentos acústicos do álbum, recheados de efeitos especiais livres, são de tamanha profundidade que até hoje ainda encontramos rastros inconscientes de cabeças consistentes que decidirem jogar todas as fichas no inusitado. Ummagumma é, sobretudo, um louvor a liberdade e aos seus antagonismos, entre eles o próprio líder da banda, baixista, cantor, compositor e mentecapto Roger Waters, que virou stalinista.

Quando Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason começaram a gravar o álbum, no Estúdio 2 do Abbey Road Studios (Londres) tinham, sim, ideia do que iam fazer. Mais: tinham certeza de que pretendiam rachar o concreto da lógica do mercado, no apogeu da era hippie. Decidiram que os momentos gravados ao vivo em fusão com as experiências em estúdio não seriam digeridos imediatamente por ninguém. Aqui, acrescento: até hoje. “Não entendi nada”, ouço muita gente dizer após uma audição do álbum porque Ummagumma é para ser sentido.

Quando saiu no Brasil, lembro de alguém chamar de "coisa de doidões". É muito mais do que isso. Muito mais. A começar pelo nome, na verdade uma invenção de um roadie do Pink Floyd, Iain "Emo" Moore, que costumava dizer "eu vou até em casa ver se acho um pouco de ummagumma". Ele diz que significava "paz de espírito, relaxamento, não fazer nada", mas não desmente que Ummagumma pode significar sexo ilimitado, principalmente oral.

Ummagumma é pura, densa e tensa peça de arte contemporânea. Tão desafiadora que em 2015 cientistas britânicos batizaram com seu nome uma nova espécie de libélula que descobriram.

Não sei que horas vou parar de ouvir. Mas não pretendo desligar tão cedo.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Fogo no rabo


No Brasil só existem duas estações: quente e muito quente. Eventualmente, no inverno, dá uma esfriada, o cheiro de naftalina dos casacos ganha as ruas, mas é muito breve e rápido. Mas nosso carma é com o suor e ar condicionado e não com lareiras e cachecóis.

Todo mundo reclama do calor, mas o verão é adorado. Sempre foi. Até esse, quando as temperaturas passaram de 40 graus e os meios de comunicação importaram dos Estados Unidos uma quenga chamada sensação térmica. Esse ano a marafona registrou mais de 50 graus algumas vezes.

Verão tem a seu favor algumas datas cruciais: Natal, Ano Novo e Carnaval. Por isso inventaram a lenda de que o país entra em férias em dezembro e só volta a trabalhar na segunda-feira depois da quarta de cinzas. Mentira. Quer dizer (olha a elegância, rapá!), não é verdade. Brasileiro trabalha pra cacete. Em alguns países europeus como a Espanha, há 30% mais feriados (fora o ronco diário depois do almoço) do que aqui.

Verão é aeroporto de mitos. No topo da lista as praias do Rio. Durante séculos cariocas sacanearam paulistanos por causa de praias que, diziam, nós temos e os paulistanos não. Ouso informar que praia no verão carioca é virtual. Superlotadas, tomadas de flanelinhas, arrastões, camada de ozônio furada, cachorros fazendo coco na areia, poucos são loucos de se aventurar a um mergulho em Ipanema, Leblon ou na eterna Princesinha do Mar, minha amada Copacabana e seu amásio inseparável, o Leme.

Milhões se deslocam de todos os pontos do Rio e periferia rumo as praias. Estimulados pela propaganda maciça de cerveja na internet, TV, jornais, rádios, revistas, enchem a cara. Muitos brigam. Mal intencionados fazem arrastões e num domingo apenas 20% conseguem curtir a chamada “praiana” sem se aporrinhar.

Em suma, na boa, sem provocações, os paulistanos são veranistas mais felizes porque, na certeza de que não tem praias, inventaram piscinas, vão as represas, partem para dentro dos cinemas. É hora da revanche. Quem já passou fim de semana em São Paulo (capital) sabe do que falo. Passei vários e o que mais fiz foi me divertir, relaxar, ir a dezenas e dezenas de piscinas, cinemas, parques.

Em 2012, o verão foi palco de um horror na região serrana do Estado do Rio. Aos que dizem que “aquilo já era esperado por causa da profusão de favelas”, peço um humilde peraí. Conheço a fundo a Serra dos Órgãos e, até recentemente subindo para Teresópolis ainda dava para ver dezenas de barreiras que formavam línguas de barro em áreas de vegetação nativa. Mas, é claro que a favelização (de ricos também) das encostas agravou mais.

Fora isso, o péssimo hábito de construir em beira de riachinho romântico, saído de historinha tipo Alice no País das Maravilhas, que quando bate um toró de verão vira rio asfixiado que sai do leito detonando tudo e todos pela frente.

Como em todo verão, meus colegas de grosso calibre saem de férias. Sites, jornais e revistas infestados de interinos e, pior, juristas, o que irrita muita gente. É no verão que as concessionárias de luz gozam com as contas astronômicas (des) graças a roubalheira planaltina e o uso de ar condicionado.

Cheguei a entrevistar um engenheiro que garantiu que quanto mais novo é o aparelho menos luz ele consome. Só que é no verão que o desgoverno autoriza os aumentos de tarifas e nós, talvez por estarmos trôpegos de calor, nada fazemos. A última manifestação saudável de protesto contra a má qualidade de serviços foi em Piratininga, Niterói, anos 90. Consumidores apedrejaram uma subestação de energia.

E que surja um novo Albert Camus para escrever mais um “Núpcias, o Verão”, que releio ano sim, ano não. E você, nunca leu? Corra e compre.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

A face oculta da lua, um conto sem fadas, fatos, fotos


Comia uma empada de galinha caipira num bar na rua do Ouvidor, Centro do Rio, perto de um lugar onde Machado de Assis também comia empadas de galinha, só que urbanas, numa manhã de quarta-feira quando parou um caminhão que trazia no para-choques uma frase tola e genial, algo como “na estrada da vida, passado é contramão”, é isso ou mais ou menos isso, mas a vida é como um texto sem ponto, só vírgulas, um pouco de ar, na base do ir em frente, pensando, pensando, passei a semana pensando num monte de coisas como um artigo que escrevi para um jornal norte americano no já longínquo 2014 que, por vacilo meu, não saiu assinado, na carta de um leitor que me esculhambou por causa de uma crônica sobre mulheres gostosas, e eu acabei ficando meio sem saber o que dizer, mas depois constatei, relendo o que havia escrito, que o tal leitor não entendeu, confundiu homenagem com vagabundagem, a tal vagabundagem que me falta para acender a fogueira de um amor impossível que surge no alto de uma montanha, fazendo pé pé com a lua e brincando de trapezista com o arco-íris, mas espera aí, por que todo amor impossível precisa ser adolescente, nos faz sentir como meninos soltando pipa no alto de uma pedreira que ainda existe atrás de um prédio em Trás-os-Montes, onde passei parte de minha pós-adolescência soltando foguetes e alimentando amores impossíveis, como o que tive com uma estação de rádio, que de musa acabou virando livro cujas últimas linhas começo a escrever em suas prováveis 974 páginas que deverei lançar neste 2015 no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Lisboa, Porto, matando a saudade dos Boeings e Airbus que, eventualmente são minha segunda casa para depois, quem sabe, voltar a TV, ao VT, ao Protools, criar um megasite já que a saudade é um sentimento completamente inútil para mim a ponto de eu não reconhecer os anos 1960, muito menos os 70, os 80, afirmando que a melhor década é a que estou, o melhor momento é o agora, que não é mais agora porque quando este texto for postado no site essas palavras chamadas de originais já terão ido morar no arquivo vivo de minhas dezenas de milhares de textos, amontoados há quase 45 anos de escrita diária, dedicada, obsessiva, ou quem sabe vão se mandar para Aracaju, canção de Caetano Veloso que diz que “ser feliz/o melhor lugar é ser feliz”, ah, essa música está impregnada em minhas veias abertas para a minha cidade, cidade-calamidade para quem quer jantar com uma amiga sem ser chamado de amante, mas ao mesmo tempo cidade-útero, morna, molhada, que nos recebe aberta nas madrugadas quando cruzamos a baía sob chuva fina, ou sob neblina, ou sob o torpor da cafeína que consumo num botequim próximo à estação das barcas, acompanhado de divagações afetivas, mulheres de sonhos, verso e prosa, tendo ao fundo o rugido cansado dos miseráveis que se embolam nos jornais para escapar do açoite do frio, ou da fome, ou da polícia imaginária, ou dos políticos virtuais, ou da música que Keith Jarrett ainda não compôs sobre um pôr-do-sol no Algarve para onde provavelmente irei este ano, acompanhado de meu cão Hanói e meu canário Elvis, encontrar amigos e conversar sobre política e sardinhas e, quem sabe, pensar um pouco mais sobre o próximo semestre, na dieta prometida, na possibilidade de receber um e-mail da mulher de meus sonhos dizendo que a vida não faz sentido sem mim, essas coisas que a gente gosta de ouvir quando deita no sofá com um pote de dois litros de sorvete de abacaxi Kibon, quatro litros de Coca Cola e um DVD com um filme de Buñuel, imagem que pode lembrar a canção que me vem as vísceras lá de 1971, Jards Macalé, que canta “estou cansado/e você também/ vou sair sem abrir a porta/e não voltar nunca mais/ desculpe a paz que lhe roubei/ e o futuro esperado que não dei/é impossível pensar/ num barco sem temporais/ e suportar a vida como um momento além do cais” e, por sorte, quebrei esse disco em questão de horas porque não tenho vocação para o masoquismo, daí a minha paixão pela bossa nova, pela magia do céu, sol, sul, e não o samba-canção martírio, daqueles que chamam a lua de luz de mercúrio e nos fazem roer meio fio quando sentimos que nosso texto num jornal não está sendo bem revisado, ou sequer assinado, mas, pensando bem, o editor tem mais o que fazer, o que não vale é acharem que estou tristinho, magoadinho, quando na verdade estou cansado porque são três da manhã e o principal recado na caixa postal do meu celular diz apenas “durma em paz”,  ou foi impressão minha, não sei bem, dizem que comer carne de porco a noite faz mal a alma, mas o recado estava lá na voz da mulher dos meus sonhos, provavelmente telefonando do futuro,  de um orelhão primitivo, olha, garota, eu não quero saber por onde deitas, mas confesso que a possibilidade do recado ser verdadeiro faz um bem danado, como o dia em que Peggy Sue voltou à tona depois de passar dias submersa nos anos 1960...ah, esse Copolla é tão genial que faz um Fusca chorar sem sentir dor, ou alguém não notou que em “Apocalypse Now” a música do Doors, chamada The End, foi infernalmente bem inserida na abertura do filme, eu sei, teria que colocar um ponto de interrogação, mas o cansaço me fez escrever este texto sem pontos e sem parágrafos pois dizem que é uma boa maneira de conversarmos um pouco com nossos xamãs, ou com “As Valquírias” de Paulo Coelho, que estou louco para conhecer pessoalmente, mas as pessoas só pensam nos dólares que Paulo Coelho está ganhando, merecidamente, por ter despertado milhões de pessoas para coisas mais interessantes do que forninho de micro-ondas, IGP-M, Fipe, Dilma, esse macabro parque de diversões chamado economia que provoca sucessivos e generalizados rompimentos na classe média do Brasil, onde os casamentos desabam e renascem como frutos do mar, o que é bom, é muito bom, já que aprecio a velocidade emocional da classe média brasileira e suas Ferraris afetivas entrando no Arpoador a 230 por hora, como um bando de desdentados a caça de um dentista capaz de reduzir a dor em pelo menos 20%, ou uma manada de executivos de marketing, chamados à última hora para tentarem salvar Titanics depois das varadas nos icebergs da incompetência, o flagelo do terceiro mundo, parceria incansável da corrupção, da propina que assola o país desde sempre, crucificando temporariamente uma meia dúzia para saciar a turma do pão e do circo, é fogo, não é mole, e o pior é que que terminarem de auditar o Brasil  o berço esplêndido vai ficar mais deserto do que ilhas virgens em dia de finados, chovendo e com ressaca, porque como cantou um dia David Bowie “this is not America”,numa boa, sem preconceito, mas this is not America, mas não é mesmo, tanto que nem a inflação razoavelmente estável provoca o mínimo de otimismo, provavelmente por causa da porção Dom João Sexto em nosso sangue, suor e lágrimas, aquela ala que gosta de gemer, reclamar, expulsar, discriminar, enfim, eu tenho uma amiga que é dentista e me escreveu um e-mail da China onde os brasileiros são perseguidos como judeus na Alemanha de 1940, e tudo mais o que acomete o emocional de um perseguido que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones, acreditava em Papai Noel e nessa coisa de irmandade entre os povos, a ponto de me preocupar pois rapidamente respondi o e-mail sugerindo que ela não julgasse povos, mas governos, não julgasse indivíduos, mas corriolas e assim por diante já que da mesma forma que em Detroit (EUA) nos anos 1980, estavam matando japonês a pauladas, tenho receio que comece a rolar esse clima contra outros povos aqui no Brasil, o que não é bom para ninguém, pois de médico, português e louco, todos nós temos um pouco, da mesma forma que o amor impossível pode parecer impossível eternamente quando não buscamos soluções alternativas quando uma estrada está inundada e ficamos parados xingando o ar, já que há sempre uma trilha, um atalho, uma picada quando queremos mesmo chegar a algum lugar, mesmo que esse lugar seja o lugar nenhum, mesmo que chova açoites, pois somente algumas coisas não tem solução, entre elas o fim do papel.
Madrugada. Quente, fria, morna. Um homem está diante de seu vulcão interior e tenta decifrar a lava. Angústia. Êxtase. Sem páusa, sem trégua. Não há bandeira branca no embate entre o homem, o vulcão e o papel, feito refém e ponto de partida para um monólogo urbano, que segue, não para. Não para. Não para.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

41






                              Ouça: https://soundcloud.com/user-810093288/minha-fama-de-mau
A lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma oficial das cidades medíocres. Atravessar o asfalto lamacento sem ser morto por ônibus, carro, van, moto, bicicleta, que desafiam o excesso de leis e a malemolência das autoridades, só pode ser milagre.

Na calçada esburacada e estreita, pessoas cabisbaixas tentam caminhar e sobreviver sob marquises que parecem prestes a desabar, fiações elétricas que lembram pedaços de bombril nos lixões. Cada passo um suspiro. Cada passo uma lambança. Cada passo um milagre. Cada passo uma sobrevivência.

O carteiro conversa animado com o guarda de trânsito apesar das cartas atrasadas e do trânsito engarrafado. Afinal está calor e o celular do guarda não para de tocar. São dois supostos agentes públicos que desprezam os cidadãos. Vontade de dar uma pedrada em ambos, mas o calor não permite.

Na esquina amontoada de pedestres congestionados, o dono do bar coloca mesinhas na calçada. Dane-se é o lema. Dane-se! Fiscal é uma iguaria barata. Dane-se o pedestre, a idosa, o carrinho com bebê, dane-se o cego. Cerveja, espeto de carne de gato, farofa. Viva o bacanal urbano!

O ônibus apinhado parece trem da famigerada Índia, onde os desgraçados que pagam não tem direito a ar condicionado. E daí?, inquerem os donos dos ônibus que sabem que mandam na cidade. Os bólidos superlotados passam rente a calçada e ai daquele que perder o equilíbrio e cair. Morre e o corpo fica por ali mesmo, fritando, até se fundir com o chorume e a lama asfáltica.

Os prédios monumentais não param de subir, fabricando sombras, arrancando árvores. Quinze, 17, 22 andares, fabricando covas de 10 metros quadros, e olhe lá. E daí? Os especuladores também mandam na cidade.

O menor abandonado levanta a camisa para dizer que não está armado e começa a fazer uma espécie de malabarismo com três batatas quando o sinal fecha. Quem não paga ele manda a merda, cospe no carro, as vezes chuta a lataria e fica tudo por isso mesmo porque é proibido reagir. A ordem e engolir, entubar, arregar, rastejar.

E a lama asfáltica envolvendo o meio fio exala um odor de chorume que virou aroma das cidades medíocres.

A 41 graus.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Chuva


Senti suas gotas roçarem a janela, temperatura de 26 graus. Chuva. Saí para pensar, pensar, pensar. Pensar em soluções, saídas, ou na possibilidade de não haver solução nenhuma diante de problemas amplificados pela aflição e pela angústia. Pensar com realismo em minha acachapante desimportância social, funcional, existencial.

Um bentevi resolvia a sua aflição imediata bebendo água numa poça. Simples. Quer dizer, simples para quem assiste. A grande vitória para o bentevi é voar vivo, pousar vivo numa árvore próxima, saltar vivo para os fios de um poste, pousar vivo na poça. Vivo, beber a água num ambiente hostil.  Vivo, desconhecer desimportância.

Chuva, calma que parece reinar na cidade, protegida da falsa e histérica euforia do verão e seus moedores de carne midiáticos.
Caminhei pelo bairro que, raro, estava sereno e vazio. Senti a quase garoa cair sobre a cidade, que repousava. Poucos carros, ônibus, ciclistas, pessoas nas calçadas; os bares relativamente vazios com uma meia dúzia bebendo cerveja e assistindo futebol na TV. Calma. 
É esse o dom da chuva. Calma. Apesar de já ter gente sadomaso reclamando da ausência do calorão.

Voltei a pensar em soluções, saídas, ou na possibilidade de não haver solução nenhuma diante de problemas amplificados pela aflição de quem procurava viver intensamente.

Seguir caminhado, por dentro da chuva é um bom paliativo não alcoólico. Dizem.

P.S. - Ouça: https://soundcloud.com/user-810093288/minha-fama-de-mau 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Insônia


Ódio, não te conheço. Não sou santo, mas não te conheço. Conheço euforia, tristeza, raiva, conheço a “out estima”, a baixa estima, mas você, ódio? Não, não te conheço.

Desde o início da Lava Jato o ódio mudou-se para o Brasil. A História sibila que todas as revoluções vitoriosas, batalhas e conquistas foram movidas pela fúria, ira, determinação. As que beberam a gosma verde do ódio fracassaram. Todas.

O ódio sempre perdeu. Hitler perdeu. Mussolini perdeu. Getúlio perdeu. E agora, o ódio que sustenta a mentira no Brasil também vai perder. Que mentira? A História dirá. Em breve porque tudo no Brasil é muito breve.

Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada. Longa madrugada pela frente. Não gosto de escrever e publicar quando estou emocionado e ontem passei o dia tomado por espessa neblina afetiva. Escrevo agora, mas só vou publicar quando retornar do caos. Breve.

O amor é tão abissal que espanta até os nevoeiros. Só o amor consegue assolar os nevoeiros. Dizem. Nenhum intelectual explicou. Nenhum filósofo, sociólogo, antropólogo conseguiu encarar a distonia neuro não vegetativa do amor. Machado, o de Assis? Quase.

O que mais nos difere dos chamados irracionais é a consciência do afeto. Escrevi num trabalho de faculdade. O professor não gostou por achar...por achar...por achar...esqueci. Conversamos, ele disse que viveu uma experiência num lugar bem perto de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês a nota tinha subido para nove. Perguntei por que e a resposta veio vaga: “Realocação de novos conceitos”, ele disse.

Não quis reclamar porque estava apaixonado por uma garota (tínhamos 20 anos, ela e eu) e ingressava mais uma vez na ante sala do amor comocional, aquele que ignora os raios e vendavais e nos faz rolar por virtuais calçadas encharcadas as nove horas da noite. Era o que fazíamos. Vivi a ausência de explicações e, sobretudo, complicações. O amor jamais foi incondicional, papo de existencialista amador. O ser humano é condicional em sua essência.

Ela me elegeu o primeiro homem, a primeira cama. Um dia o destino nos chamou e no centro de uma praça e sussurrou que não ia rolar, não. E não rolou. Saímos da praça, eu a levei até a porta de casa em meu Karmann Guia TC 1975, bege, que toda a faculdade conhecia e venerava.

Ela desceu do carro, eu também, fomos até a portaria do prédio, nos olhamos sem nada dizer apenas ouvindo ao longe, baixinho, o rádio do Karmann Guia TC na Eldo Pop FM tocando o Renaissance. “At The Harbour”, a que ela mais gostava. Sincronicidade. E como a música é a minha linha de tempo e afeto, jamais desvinculei “At The Harbour” dela.

Ela entrou no prédio. Peguei o Karmann Guia TC e dei uma volta pela orla do Rio. Fui até o final do Leblon e voltei. Em Copacabana parei numa carrocinha da Geneal, comi duas mini pizzas olhando para o mar escuro e mexido, pensando naquela história de amor que havia acabado.

O amor sozinho não sustenta, Machado de Assis especulou no século 19. Nem quando ela me pediu desculpas em prantos consegui reverter aquela sensação estranha, um vácuo chamado “perdeu”. De mim para ela. Mão única. Amor condicional.

Ódio? Nenhum. Não conheço. Não conhecia. Não irei conhecer.

Ecos da guerra fria

            "O imbecil e seu dinheiro tem sorte suficiente para ficar juntos em primeiro lugar". Gordon           Gekko, pers...