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Escrevendo sob censura, resistindo a inveja, a deduragem, ao bom mocismo, ao falso moralismo porque vocês valem a pena

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Tenho o maior carinho por vocês, leitores e leitoras, que frequentam diariamente esta Coluna. Aqui tento o melhor, escolhendo assuntos, escrevendo o melhor português disponível, empolgado, cheio de gás porque vocês merecem todo o empenho, esforço e até algumas noites insones. No entanto, temos o lado B. E o lado B, uma camarilha invejosa, mal resolvida, de mal com a vida, entrou em ação mais uma vez me dedurando ao Facebook que, atendendo as “denúncias” retirou uma foto artística que postei (acima). Foto manjadíssima, feita em 1968 e que saiu até nos jornais mais carolas do mundo. Quando será que vão inventar uma corporação mais forte do que o Facebook para que possamos optar? Fico aqui pensando nos vários processos de censura moral e tecnológica a que fui submetido lá, que não se compara a censura ideológica dos tempos de censura militar, mas que provoca muito incomodo, irritação e a mesma indignação. Segundo a corporação estou com 4. 915 “amigos” na minha página (ou será tab...

O sedã japonês

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O sedã japonês é verde escuro e estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine. Ele entrou disposto a comprar um SUV preto, tração 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile. Ele sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando o olhar dele fixou-se no sedã japonês. Levantou, olhou a frente, traseira, laterais. Abriu o motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV. Num impulso mudou. Em vez do SUV comprou o sedã japonês. No dia seguinte saiu da loja, pôs um CD no Kenwood de fábrica e entrou nas picadas q...

O jornalismo no século 21 – entre a internet e o passaralho

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Semana passada os jornais O Globo e Extra demitiram dezenas e dezenas de jornalistas, de todos os cargos, funções, faixas salariais. Sete meses atrás a mesma empresa demitiu mais de 100, chocando o “mercado”, entre aspas porque, definitivamente, o “mercado” de trabalho dos jornalistas está tão minúsculo que, a meu ver, não existe mais. Globo e Extra justificaram as demissões falando em “ajustes”, “realinhamento”, aquele bucrocratês muito comum nessas ocasiões. Desde o ano passado o chamado “passaralho” tem feito vítimas na Folha de S. Paulo, Estadão, Veja, jornais e revistas de todo o país e todas as empresas insinuam (ninguém assume claramente)que a culpa é da internet. Não é. A culpa é da má gestão, da incompetência, da ganância, dos conchavos com governos que, contrariados, fecharam as torneiras da grana. A internet tem a sua parcela de responsabilidade mas não é só por aí. O curioso é que a imprensa brasileira culpa a web mas foram ela mesma que criou serviços,...

Uma tarde com meu primo Cornélio Melo

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Demais! Neste sábado passei mais uma tarde com o meu primo Cornélio Melo, na casa dele. Com certeza ele é a pessoa que mais tem DVDs de rock, blues e afins e, de vez em quando, ele abre o seu precioso acervo para a gente assistir a momentos raros, geniais, bizarros do rock. Hoje foi a vez do Byrds e do Kinks. Caramba! Como ele tem raridades dos anos 1960 e, simultaneamente, vai contando histórias das bandas já que leu e lê muito sobre a história do rock. Sinceramente eu não sabia que The Kinks (que sempre adorei) foi tão importante. Num documentário sobre a banda comandada por Ray Davies, que tem entre seus fãs nada menos que Pete Townshend (pai e mãe do The Who), pintou a informação: Kinks foi a segunda banda mais importante da Inglaterra depois dos Beatles em meados dos 60. Mais que os Stones, mais que o Who. Lógico que não assistimos aos filmes e vídeos em baixo volume. As janelas vibravam com os graves (como eu, Cornélio também ama os contrabaixos) e quase trincavam ...

O menino afogado na praia turca; o dia em que o mundo sentiu vergonha de si mesmo

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Quero falar do menino Aylan Kurdi afogado num balneário da Turquia. Quero falar da foto daquela criança pequena, sapatinhos pequenos, bermuda, camiseta. Morta. Inerte perante a boçalidade. Quero falar que aquele garoto, cujo nome todos nós já sabemos, transformou-se num mártir. Por causa dele (ou da ausência dele), da sua inocência de bebê que parecia adormecido perto do mar manso, a história vai sofrer, sim, uma reviravolta. O mundo ficou envergonhado de si mesmo. Quero dizer para o pai daquele menino que ontem, desesperado, gritou “eles escorregaram de minhas mãos” (além do menino, seu irmão um pouco mais velho e sua mãe também morreram)...bem, quero dizer para esse pai que se não tivesse morrido, seu filho poderia se tornar um líder pacifista mundial, um presidente, um monarca, um baluarte dos direitos humanos. Mas quis a boçalidade humana que ele entrasse para a história com a sua imagem frágil, largado, abandonado, cuspido pelos homens, pelos poderes, pelos or...

Adiei o lançamento de meu novo livro

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Semanas atrás escrevi aqui que estava finalizando a seleção de contos, crônicas e espasmos que vão formar um novo livro. Muito texto, muita lambança, muitos vacilos e, por que não, alguns momentos bem interessantes. Li (ou quase li) mais de dois mil e fui cortando, cortando, até chegar em 80. Ótimo. Encaminhei o material para São Paulo onde nesta segunda-feira, vulgarmente conhecida como hoje, iriam começar a trabalhar no projeto gráfico. Eu quero uma coisa meio pós-punk, me io  Staatliches-Bauhaus , meio Claudio Valério Teixeira, meio Luiz Carlos Lacerda (o Bigode), meio Glauber Rocha, meio Luiz Carlos Maciel, meio Tarsila do Amaral, meio Oscar Niemeyer, meio Burle Marx, meio Carlos Zéfiro, meio Di Cavalcanti, meio Pete Townshend, meio Egberto Gismonti, meio Almir Satter, meio Ramones, meio The Clash, meio Gestalt, meio Anais Nin, meio Henry Miller, meio Blur, meio Radiohead… Bom, os caras disseram que entenderam o que eu quero e ainda me falaram “como você diz aí no ...

A angustiante velocidade do tempo

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Texto restaurado e reeditado Não sei se o tempo é a maior angústia do ser humano, ou está entre as principais, mas fato é que, ultimamente, muita gente tem falado da velocidade dos calendários e relógios, o que me faz lembrar de uma frase do amigo Alvaro Acioli: “agora, enquanto ainda”. Ou seja, faça enquanto há tempo. Lógico que o tempo também me angustia. Lembro que tempos atrás tive um dia duro de trabalho. Muito duro. Achei que o tempo tinha voado bem mais rápido do que no dia anterior, quando o trabalho foi mais light. Será que a distração proporcionada pelo trabalho aumenta a nossa percepção de velocidade do tempo? Sei lá. Um alto executivo de uma montadora de automóveis nos Estados Unidos, em sua autobiografia, escreveu que “agora, aposentado, sinto vontade de atirar o relógio pela janela na ilusão de que fazendo isso estarei parando o tempo”. Nós aceleramos a percepção de velocidade do tempo? Nós temos esse poder? Quando um supermercado coloca ovos de Páscoa (que é em ...