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Passeio Noturno - Conto de Rubem Fonseca (postado no Clube da Leitura)

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Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar. Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar? A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que v...

A perda de um amigo

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O telefone tocou. Ontem. Do outro lado da linha a informação que nublou meu coração. Perto do carnaval, um ex-psicanalista que se tornou amigo morreu. Meu último encontro com ele foi no final de janeiro. Não o via há tempos, estava bem, tomando água mineral numa antessala de cinema. Disse a ele da sua importância em minha vida, do magnífico trabalho que fizemos, ele meio que baixou a cabeça, sorriso tímido. Acho que meio vermelho. Não vou citar seu nome em respeito ao seu jeito de ser. Vivia a vida dele, quieto, low profile, não gostava de aparecer. Pelo que soube, ele morreu de câncer e, provavelmente no nosso último encontro ele já sabia. Afinal, além de psicanalista era médico. Se quisesse dizer teria dito. Se não disse é porque não quis. Comecei a fazer análise com ele num momento muito crítico da vida, quando tudo parecia turvo, opaco, sem ar, sem chance, sem perspectiva, sem esperança. Junguiano, me apresentou a sincronicidade, a energia psíquica, anima, animu...

O novo e magistral uivo de Lobão

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Lobão lança nos próximos dias um petardo chamado “Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock”, um álbum de regravações que ele fez de clássicos do rock oitentista. Vai sair em CD duplo, vinil e download. Do mestre Lobão nunca esperei chumbo fino e no caso deste trabalho quase fui parar no teto quando comecei a ouvir. Há muitos e muitos e muitos e muitos e muitos anos não ouço rock brasileiro tão autêntico, visceral, competente. Não dá para ouvir baixinho. Aliás, não parei de ouvir até agora, dois dias depois e afirmo, muito seguro, que a antologia do Grande Lobo é um dos álbuns mais importantes da história do rock brasileiro. Lobão aboliu aquele velho conceito de “guitarras econômicas” e mandou ver. Sozinho e com uma superbanda, ele não economiza nada e chuta londe qualquer sintoma de nostalgia. O álbum é banhado de autenticidade, guitarras lancinantes, baterias cheias de referências como, por exemplo, a de John Bonham do Zeppelin. É impressionante. Lobão f...

Hóspede (II)

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Falta de ar pelo amor partido, sem bilhete, 29 anos atrás. Leve asfixia, leve melancolia, leve arrependimento sob a garoa fina e quase fria. Ele mandara o amor partir. Partir reto, sem olhar para trás, sem derramar lágrima, sem se deixar levar pelas nuvens obscuras da falsa esperança. Cretina. Chega ao topo da serra bela e fria, quase no final da estreita estrada, a subida contornada por cerca viva que se transformava em um diário, onde letras, vírgulas, parágrafos pareciam incorporar os fios de metal entre os moirões. Piso de pedras. No final da subida um pátio, não muito grande, com antigas, muito antigas, marcas de pneus. Bem em frente, uma pequena casa de hóspede, em madeira e telha colonial. O motor V8 silencioso do carro corta o silêncio opaco daquele lugar que já fora mágico, 29 anos atrás. Havia ecos, de vozes relembradas, remexidas, requentadas. Havia ecos de longos e apaixonados beijos entre os pinheiros que naquela manhã sem vento pareciam estafados, parados, qui...

Pou!

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Durante uns anos fui freguês de um comedouro nas imediações. Distraído, olhando e pensando em outras coisas, fingi que não sabia o quanto era mal tratado naquele negócio. Gente mal humorada distribuindo coices pelas baias de fregueses pacatos, cansados, arregados, entre eles eu. Para piorar, o negócio aumentava o preço dos seus produtos à galega, de acordo com o (mau) humor dos donos. Há um ano entrei e dei boa tarde. Como de praxe, uma funcionária com um bico de pica pau na cara, não respondeu. Dei boa tarde mais duas vezes e nada. Perguntei se a canja de galinha estava boa e ela respondeu “tem que pagar as torradas avulso”. Rebati “avulsas, minha filha. Avulsas!”. Saí e fui para um outro curral, no mesmo comedouro. Outra funcionária, tromba à mostra, bico de avestruz. Dei boa tarde, nada. Boa tarde segunda vez, resposta: “vai querer o que?”. Saí prometendo a mim mesmo não voltar mais, o que de fato aconteceu. Muitas vezes d...

Clube Naval Charitas recebe projeto “Música no Deck: ensaios abertos”. Alto nível e extremo bom gosto, com curadoria de Elaine Guedes

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                                                 Adilson Alvez e Maria Luisa Tonácio   Elaine Guedes Algo muito novo, diferente e de alto nível no ótimo ambiente do Clube Naval Charitas. Direto da Casa França Brasil, o projeto “Música no Deck: Ensaios Abertos” mostra grandes revelações recém saídas das Escolas Superiores de Música. Neste domingo, as 14 horas, com entrada franca, vão estar no palco do Naval o clarinetista  Adilson Alves, vencedor do concurso de solistas da Escola de música da UFRJ (edição 2013), menção honrosa na 50° edição do Festival Villa Lobos, com o “Duo Música Nova”, com a violonista Maria Luisa Tonácio. Ela foi integrante da Orquestra de Violões da AV-Rio. O repertório inclui Jacó do Bandolim, Pixinguinha, Tom Jobim e tantos maravilhosos autores. Segundo a curadora do “Música no Deck”, Elaine Guedes “o...

Cezar Motta lança livro contando a história do Jornal do Brasil, entre 1891 e 2010

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O jornalista Cezar Motta lança neste mês de março o livro “Até a última página: uma história do Jornal do Brasil” (Editora Objetiva). Ao longo de 552 páginas, Motta narra, em profundidade, a trajetória do jornal que durante décadas foi o mais importante do país, entre o nascimento 1891 e 2010. Após oito anos, o JB, sob nova gestão, retornou as bancas no último domingo em edição impressa. Foi um trabalho árduo. O jornalista passou anos entrevistando os principais personagens que fizeram a história do jornal, além de mergulhar em vários arquivos. O lançamento do livro em Brasília será dia 20 de março, terça-feira, a partir das 19 horas, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. No Rio será dia 26 de março, segunda-feira, a partir das 19 horas, na Fiorentina do Leme . Cezar Motta é um dos mais brilhantes jornalistas da sua geração e, entre outras qualidades se destaca pela dedicação quase obsessiva pela apuração/confirmação dos fatos. Sobre o livro, o texto de apres...