Rádio Fluminense FM: 33 anos hoje...mas na verdade a rádio estreou no dia 2. Você sabia?

Jornal O Fluminense na véspera do nascimento da rádio. Sergio Vasconcellos, eu e Amaury Santos
Samuel Wainer Filho, meu saudoso amigo, teve que deixar o projeto em outubro de 1982. Morto em acidente de carro.
Alex Mariano, um grande e saudoso amigo desde a adolescência, produtor da rádio e meu sucessor na direção em 1985. Assassinado num assalto a luz do dia no centro de Niteroi em 2013. Foto de Mauricio Valladares.
Carlos Lacombe, também amigo também saudoso, um gênio das promoções. Morto em acidente de carro.
Mauricio Valladares, amigo desde os anos 70, produtor da primeira equipe da rádio. Fazia o programa Rock Alive, edições de segundas e sextas feiras, e abastecia a programação com a vanguarda internacional e nacional. Foi ele quem lançou os Paralamas do Sucesso e a Legião Urbana em fitinhas caseiras.
Primeira equipe de locutoras, da esquerda para a direita: Monika Venerabille, Edna Mayo, Liliane Yusim, Cristina Carvalho, Selma Boiron e Selma Vieira.
Selma Boiron a primeira voz da Maldita.
Meu irmão Fernando Cesar Mello, em Paris. Levando fitas da Fluminense para tocar em rádios piratas embaixo da Torre Eiffel.
Meu livro bomba. Esgotado, não quis fazer uma segunda edição.
Livro de Maria Estrella: quem pariu, criou e matou a rádio.
Hoje é uma data especial para muita gente. A Rádio
Fluminense FM faz 33 anos de existência, depois de um parto extremamente
difícil, caótico e maravilhoso em 1 de março de 1982.
Mais ou menos como me
sinto agora quando escrevo; meio down, eufórico, cansado, otimista, pessimista, com vontade de
fazer um monte de coisas enquanto faço um monte de coisas o dia todo, a noite
toda, a madrugada., ah...madrugada, eu te amo, madrugada. Você me deixa em paz
nesses dias quando acordo muitas vezes com um nó na garganta e com vontade de
pegar um táxi para o infinito. Sabe como é, madrugada? Sabe sim. Você não
burla, madrugada. Você não finge, não simula, não engana. A Fluminense FM só deu certo porque nasceu de madrugada.
Se fosse as 7 da manhã estaria lascada porque nada dá certo as 7 horas da
manhã.
O quilômetro zero da biografia da rádio está na metade de
1981, quando comecei a trabalhar no projeto com Samuel Wainer Filho (Smuca),
Sergio Vasconcellos, Alex Mariano, Amaury Santos e Maurício Valladares. Esse
foi o primeiro time de produtores da rádio. Locutoras: Selma Boiron, Selma
Vieira, Monika Venerabille, Liliane Yusim, Edna Mayo e Cristina Carvalho. O gerente
de promoção era Carlos Lacombe.
Minha história na Fluminense FM vai de 1981 até 1
de abril de 1985 quando me demiti e retornei em 1990 onde fiquei alguns meses na
direção. Uma fase ótima, por sinal. Em suma, assinei a certidão de nascimento da rádio e não o seu
atestado de óbito. Por isso me orgulho muito (e sempre) quando me chamam de
pai da Maldita. Sou sim, com muita honra.
Sei que quando deixei a rádio em 1985 ela estava num
honroso terceiro lugar no Ibope no Estado do Rio. Depois? Não vi, não ouvi. Li o
que aconteceu no livro da jornalista e pesquisadora Maria Estrella “Rádio
Fluminense FM – A Porta de Entrada do Rock Brasileiro dos anos 80”.
Os coveiros da Maldita estão lá, enfileirados como corvos.
O que pouca gente sabe é que a Fluminense FM que estreou
em 1 de março de 1982 foi apagada, deletada, jogada no lixo por mim, Amaury
Santos, Sergio Vasconcellos e Alex Mariano. Para contar o que aconteceu, fui na
estante, peguei um raro exemplar de meu livro “A Onda Maldita – como nasceu e
quem assassinou a Fluminense FM” e copiei os capítulos 18 e 19, que chamo de
módulos.
Está tudo aqui. Nosso pulso, nosso suor, nossas lágrimas
as 6 horas da manhã de uma noite insone, caótica e orgásmica. Módulo 18
“Fluminense,
FM, Maldita!!!”
Eram
oito da noite de domingo, 28 de fevereiro de 1982. estávamos arrasados, quando
o operador de áudio subiu com a cara espantada e disse que, inexplicavelmente,
os zumbidos e chiados tinham parado. Desci as escadas como um mico-leão dourado
nas selvas de Silva Jardim. Cheguei ao parque gráfico e constatei, quase
chorando de emoção, que as máquinas não tinham parado de cuspir jornal. Ou
seja, a chiadeira tinha sumido porque... porque... quis.
Eu,
Serginho (Sergio Vasconcellos) e Amaury (Amaury Santos) mergulhamos no estúdio
de gravação e fomos de oito da noite às cinco e meia da manhã gravando
vinhetas, chamadas, a base da rádio. Foi pesado, foi cansativo, foi tudo, mas
acima de tudo, foi uma vitória. Usamos a voz de veludo persa de Amaury para as
vinhetas e prefixos. Uma maneira de aliviar qualquer provável saturação de voz
feminina no ar. Faltavam dez minutos para as seis da manhã.
A Rádio Fluminense
FM, nova em folha, ia entrar no ar às seis horas. Em ponto. A locutora Selma
Boiron já estava no estúdio fazia uma hora, concentrada. Todos estávamos
nervosos, mas não podíamos passar nada para a locutora. Pela primeira vez em
sua vida ela ia entrar no ar. Qualquer hipótese de insegurança nossa e picas,
meu amigo.
Faltavam
cinco minutos para as seis horas. Tudo pronto no estúdio e no Sumaré. Céu
claro, temperatura amena naquele histórico 1º de março. Eu, Amaury e Serginho
tínhamos gravado, sei lá, umas 20 ou 30 vinhetas que iam sendo encartuchadas.
Entre uma e outra, nos abraçávamos. Chegamos à conclusão de que tínhamos,
finalmente, inventado uma rádio ousada, criativa, audaciosa, independente, como
os malditos da arte, da ciência... Aí não se sabe por que, pedimos ao operador
que abrisse o microfone e juntos, os três disparamos: “Fluminense FM, Maldita!”
Absolutamente sem querer.
Foi
a última vinheta a ser gravada. Sem trilha sonora. Só oz. Acidentalmente, foi a
vinheta que definiu tudo aquilo que pensávamos, que trabalhávamos. Era um
produto maldito, como os quadros de Van Gogh, não entendidos em sua época, ou
como os poemas de Jim Morrison. Os sermões de Jesus Cristo, os sons de Hermeto
Paschoal, os delírios de Jorge Mautner e Jards Macalé, os fuzis de Carlos
Lamarca, ou os mergulhos de Tangerine Dream, Revolution 9, de Lennon, o som de
Hendrix, a imagem de Glauber, a vida de Leila Diniz. Choramos pra cacete. Dois
minutos depois, pilotada por Selma Boiron, a Maldita entrou no ar.
A
primeira música já estava decidida há muito tempo. Todo mundo sabia de meu
fascínio pelo The Who. Por isso, não quis me meter na história. Mas foi Serginho
quem lutou para que a primeira música a ir ao ar fosse The Kids Are Alright,
com The Who. Uma gravação do primeiro álbum da banda ("My Generation", 1965), que tinha muito a ver
com o som da fase pré-histórica dos Beatles. A letra, em seu refrão cantado
para o Rio de Janeiro que ainda se contorcia nos trens, ônibus e camas, àquela
hora da manhã, dizia: “Os garotos têm razão, os garotos têm razão.” Valeu
Townshend! Valeu Serginho!
Sem
comer, sem dormir, lá pelas oito horas nós três estávamos no farrapo. Sim, a
coisa estava apenas começando. Foi quando apareceu o Alex (Alex Mariano), que
segurou a peteca. Fui para casa dormir, ouvindo a rádio. Tudo corria bem, ou
melhor, quase bem, ou melhor ainda, uma merda. Achei que a programação musical
estava péssima, caída. Não entendi. Foram meses de trabalho e pesquisa e estava
uma merda?
Resolvi
tomar um café e ir dormir. Poderia ser impressão, estressadas impressões que
muitas vezes nos levam a atitudes babacas. Dormi pouco. Meio-dia já estava de
pé. A programação ao meu ver, continuava muito ruim. Triste, triste, triste.
Por mais que Jimmy Page fizesse a guitarra gemer, a Maldita estava triste. E
foi com esse pensamento que peguei o carro e rumei lentamente para a rua
Visconde de Itaboraí, onde ficava a rádio. Passei pelo nono andar e a locutora
Selma Vieira disse que o telefone não parava de tocar.
Todo mundo adorando.
Falou que Regina Echeverria, na época repórter da revista Isto É, estava a fim
de fazer uma matéria sobre a rádio. Peguei a programação, conferi módulo por
módulo. Era aquilo mesmo que tínhamos programado. Só me senti satisfeito quando
Serginho, Alex e Amaury disseram que também tinham achado a rádio uma merda.
Que alívio. Começamos a fazer tudo de novo, só que com o prazo de 24 horas.
Mergulhamos.
Módulo
19
“Isso
até que daria um livro”
A
carta do meu irmão, que morava em Paris, abria com esta frase. Eu contei a ele
o que tinha sido o primeiro dia da Maldita e, no envelope, mandei uma fitinha
cassete com a programação musical. Na verdade, em 48 horas, a Fluminense foi
três rádios diferentes. A antiga, misturando Sex Pistols com Nélson Gonçalves,
a segunda, que estreou no dia 1º de março, e a terceira, que foi ao ar no dia
seguinte, completamente modificada. Aquela sim, pegou na testa.
Nota
do autor: Meu irmão tinha uns amigos franceses ligados a rádios piratas móveis
que funcionavam em furgões que rodavam pela cidade. Inclusive, ele não
confessa, mas entre suas idas e vindas a Sorbonne, trabalhava numa rádio
pirata. Ele pegou a fita da Fluminense e com o Fiat de uma amiga, Marília
Câmara Torres, estacionou sob a Torre Eiffel, onde costumava ir para ouvir em
ondas curtas os jogos do Flamengo. Lá chegando, viu um furgão pirata
“jampeando” uma transmissão nas ferragens da Torre. Não é que meu querido irmão
caçula deu as fitas da Fluminense para os caras que, imediatamente, jogaram a
rádio no ar, em plena Paris, com locução, anúncio e tudo? Foi uma sensação que
me custou caro, pois eu tinha que mandar fita toda semana para a sucursal Paris
da Fluminense FM. Mas, de pirata em pirata, foi ouvida até na Bélgica. E foi
por causa destas transmissões piratas que o violonista Didier Locwood – não é
assim que se escreve – quis conhecer a Maldita, o que acabou acontecendo dois
anos depois.
No
dia 2 de março de 82, um ouvinte apareceu com um cassete gravado no Circo
Voador, que ainda estava pousado no Arpoador. Trazia uma gravação caótica de
uma banda chamada Blitz. Na bateria, Lobão. A música era engraçada,
absolutamente teatral. Pusemos no ar Você não soube me amar.
Com ela, um
guitarrista carioca, um certo Celso Carvalho, que mais tarde virou Blues Boy. A
rádio estava cheia de ouvintes. Um deles, Mário Neto, era da única banda de
Rock progressivo do Rio: Bacamarte. Levou uma fita de estúdio, com Jane Duboc
nos vocais. Foi para o ar.
Nesta
primeira fase foi fundamental a presença de Ignácio Machado, dublê de produtor
de Rock (Lobão) e executivo do Ibope. Ignácio surgiu com um fitão o braço,
gravado em 24 canais. Era o primeiro disco-solo de Lobão, que já estava com um
pé fora da Blitz. Aliás, a passagem do grande Lobo por ali foi rápida como uma
pedrada. Ignácio passou uma manhã inteira conversando sobre o disco, detalhes
de produção. O título era curioso: Cena de Cinema, nome da faixa principal. Na
capa, Lobão de cabelo curto quebrando a bateria. Dentro, Lulu Santos na
guitarra base, Marina Lima nos backing vocals.
Carlos
Lacombe tinha errado a data e só apareceu para trabalhar no dia 8 de março.
Tudo bem. Chegou com a ideia de fazermos uma festa de lançamento da Fluminense
no dia 15. Fui contra. Disse que a rádio não tinha audiência para lotar um
fusca. Lacombe insistia dizendo: “Está todo mundo ouvindo, só se fala na
Fluminense.” Expliquei que funciono basicamente em cima de pesquisas e que
aquele falatório podia ser impressão. No meio da conversa toca o telefone. Era
o Ignácio do Ibope. “Luiz Antonio, a rádio está subindo como uma flecha...
Estou com umas parciais não fechadas da Zona Sul... Estou impressionado.”
Desliguei o telefone e disse ao Lacombe: “Vamos fazer a festa.”
Fechamos
com a danceteria do Hotel Sheraton numa quarta-feira. A Fluminense tinha
entrado no ar como Maldita em penúltimo lugar na audiência e nós íamos fazer
uma festa de lançamento numa quarta-feira, num hotel que fica encravado no
morro, entre o Leblon e São Conrado. Isto sim é desafiar a lógica.
As
chamadas entraram no ar. O telefone não parava. Tivemos um retorno fantástico.
O nome da festa foi “Quarta é Dia de Rock”. Lacombe negociou com o hotel
dizendo que a Fluminense era uma rádio de alto nível, que os ouvintes era de
classe, enfim, que não haveria problema algum. Foram dez dias de chamadas, sem
parar.
No
dia da festa fomos tomados por nova onda de euforia. Quarta-feira, 17 de março
de 1982, entrou para a nossa história profissional e pessoal. Saí tarde da
rádio, nove da noite. A festa estava prevista para nove e meia a exatamente
31km da minha sala, distância que foi coberta rapidamente.
Na
subida da Avenida Niemeyer o trânsito estava lento. Eram nove e meia, bem
depois da hora do rush que normalmente tumultua a região. Achei que tinha acontecido
um acidente. Botei a cabeça para fora e perguntei a um transeunte se tinha
acontecido alguma coisa. Com aquela voz solidaria, mistura de Macunaíma com
Amigo da Onça, o popular detonou: “Tá o maior quebra-quebra numa festa lá no
Sheraton.” E continuou descendo, calmo como um monge tibetano. Só podia ser a
nossa festa. Mesmo assim, eu e as pessoas que estavam no carro, chegamos a
duvidar da informação. “Vai ver que é no Hotel Nacional... O cara deve ter
feito confusão.” No íntimo sabíamos que aquilo era coisa da Maldita.
Principalmente depois que um carro de reportagem do jornal O Dia, na época um
banco de sangue impresso, passou pela contramão. O repórter abrir passagem
dando socos na porta do carro.
Boca
seca. Não pude controlar uns vagalhões de pensamentos negativos que estouravam
na praia de Ramos em que se havia transformado a minha cabeça. Imaginei as
manchetes de O Dia: “Roqueiros furiosos matam e esfolam em orgia de drogas”. Ou
então: “Roqueiros drogados incendeiam hotel e matam 200 pessoas” Que loucura!
Quando chegamos a uns 30 metros do hotel, as primeiras imagens. Uns dez
camburões pardos. Cordões de isolamento policiais dando geral em todo mundo.
Muita tensão no ar.
Fui
logo me apresentando e imediatamente desmoralizado. Não tinha carteira funcional
da Rádio Fluminense provando que eu era o diretor. Aliás, a Rádio Fluminense
não tinha carteira funcional. A sorte é que ainda guardava de lembrança o
crachá do Jornal do Brasil. Acho que, por baixo, deviam estar ali umas duas mil
pessoas, do lado de fora, forçando as portas de blindex do hotel.
Queriam
entrar. O vidro parecia uma bolha prestes a explodir. Os funcionários do hotel
informavam que a lotação lá dentro já estava esgotada. Vi muitos ouvintes sendo
presos, 90% por desacato a autoridade. Me apresentei ao comandante da operação
e pedi que liberasse os ouvintes detidos, que foram colocados dentro do
camburão. O PM, um oficial, concordaria desde que eu assumisse a
responsabilidade da festa por escrito e que botasse aqueles ouvintes para correr.
Assumir
a responsabilidade da festa significava, em claro e bom português, suspender
tudo. Seria um desastre para todo mundo. Fui lá dentro e constatei que, de
fato, o ambiente estava tomado. Não havia lugar para absolutamente mais
ninguém. Consegui telefonar para Niterói, para a rádio, e pedi à locutora Edna
Mayo que lesse no ar uma nota pedindo aos ouvintes que não fossem mais para o
Sheraton. Como tinha muita gente de carro, ouvindo a Fluminense de porta aberta
no epicentro do caos, aproveitei para mandar a mensagem: “Para que a Fluminense
não seja acusada de vandalismo, pedimos para que os ouvintes deixem a porta do
Hotel Sheraton.” Foi emocionante. Eu e Lacombe, que ofegava e praticamente
relinchava de nervosismo, assistimos à primeira demonstração de solidariedade
da audiência. Os ouvintes se retiravam.
Pareciam
noviças metaleiras. Foi quando Lacombe, quase chorando, disparou: “Eles estão
do nosso lado, meu irmão!” Certamente eles não suportavam mais ver rádios de
Rock fecharem por preconceito. Os caras sacaram que pintou sujeira. Tanto que,
depois, o comandante da PM veio me cumprimentar: “As notícias que saíam no
rádio intimidaram.” Que equívoco misturar consciência com intimidação.
Confissão: assinei o termo de responsabilidade com o nome do então
superintendente.
É isso aí. A todos os profissionais que passaram pela rádio entre 1982 e 1985 (muitos se tornaram meus amigos), um abraço.
P.S. - Para entender a rádio, ouça o que foi ao ar as 6 horas da manhã do dia 1 de março de 1982. Clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=98KzcSUYVaU&list=PLIw0u5BOwbFzsuKCEfJr6JYi8RjUHJ_tY&index=23
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