Não gostar e achar ruim em tempos de Idade Mídia
A primeira página do Segundo Caderno do Globo deste
sábado traz uma matéria que, apesar do título ridículo (“Provo Canção” – a música
que sai das ruas para a berlinda) pretende colocar na mesa (?) a discussão do
valor artístico, ou não, de celebridades instantâneas como Jojo Todynho, Pablo
Vittar e similares. Todynho, aliás, é a foto da capa.
Há um abismo quase intransponível entre a música ruim e
a música que não gostamos. Não gostar é um direito, achar ruim também, mas o direito
maior é de poder e ouvir e não ouvir.
Ouvi a Jojo Todynho (que tenta se afirmar como Maronttinni) e
achei muito ruim, apesar dos mais de 130 milhões de cliques em sua página no
You Tube, que em se tratando de tempos quantitativos é um ótimo número. A
música se chama “Que Tiro foi esse” e no refrão traz:
“Que
tiro foi esse, viado?
Que tiro foi esse que tá um arraso?!
Que tiro foi esse, viado?
Que tiro foi esse que tá um arraso?!
Samba
Na cara da inimiga
Vai, samba
Desfila com as amigas”
De quantas músicas ruins você gosta? Eu gosto de algumas,
assim como não gosto de algumas músicas boas. Um exemplo clássico desse abismo
é “Revolution 39” (gosto muito), de John Lennon (está no álbum branco, dos
Beatles), que provocou um racha mundial em 1969. Muitos críticos esculacharam
chamando de porralouquice inútil, outros acharam genial.
[Chorus]
Number 9 Number 9 Number 9 Number 9 Number 9 Number 9
[Verse 1]
Then there's this Welsh Rarebit wearing some brown underpants
About the shortage of grain in Hertfordshire
Everyone of them knew that as time went by
They'd get a little bit older and a little bit slower but
It's all the same thing, in this case manufactured by someone who's always
Umpteen your father's giving it diddly-i-dee
District was leaving, intended to pay for
[Chorus]
Number 9, number 9
Who's to know?
Who was to know?
[Chorus]
Number 9, number 9, number 9, number 9, number 9, number 9, number 9, number 9, number 9, number 9, number 9, number 9
[Verse 2]
I sustained nothing worse than
Also for example
Whatever you're doing
A business deal falls through
I informed him on the third night
When fortune gives
I've missed all of that
It makes me a few days late
Compared with, like, wow!
And weird stuff like that
Taking our sides sometimes
Floral bark
Rouge doctors have brought this specimen
I have nobody's short-cuts, aha…
[Chorus]
With the situation
They are standing still
The plan, the telegram
Os livros mostram que naqueles tempos de sociedade livre e democrática era mais
fácil opinar. Era tranquilo elogiar John Cage, Karlheinz Stockhausen, Secos & Molhados e Soft
Machine. Levávamos bomba dos que não gostavam ou que achavam péssimos, mas a
pancadaria ficava no terreno artístico.
Nos tempos atuais, quem chama a Jojo Todynho de ruim é
acusado de racismo, gordofobia, preconceituoso e o escambau. As normas e regras
do mundo artístico são ditadas pelo regulamento do politicamente correto, uma
seita que, como o nazismo, nivela a sociedade por baixo transformando-a numa
horda de gosto único, roupa única, cor única sexo único e por aí vai. Talento?
Virou coisa de burguês.
Não gostar e achar ruim. Por mais que expliquemos, o
politicamente correto finge que não entende e nos crucifica, num remix da Idade
Média.
Chamado Idade Mídia.