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Dez da noite que parecem quatro da madrugada. De todas as noites desde o início da quarentena, está sendo a mais solitária. Sinto saudade. Saudade dos meus voos noturnos pelas artérias da cidade de bicicleta, observando a luz cúmplice dos abajures nos andares mais baixos. Sombras eventuais. O silêncio da bicicleta nos faz invisíveis. Ano passado, por volta das duas da madrugada, percebi os sons de uma mulher gozando. Parei. Meio que embaixo de uma árvore. Os sons ficaram mais altos, lancinantes, palavras descoxas afogadas na mais pura e vadia luxúria, pairavam sobre os cabos de alta tensão. E depois davam voos rasantes em direção a meus ouvidos. Música. Parecia música. Foi longo, muito longo. Ela arfou alto, arfou médio, arfou baixo. Fez-se silêncio. Pedalei. Pedalei excitado, não com os gritos daquela mulher que sequer sabia em que buraco daqueles pombais – chamados prédios – estava metida. Imaginei o que ela podia estar desej...

Amor, impere sobre mim

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                                Amor, impere sobre mim                                        (tradução livre) Só o amor Pode fazer chover Quando a praia é beijada pelo mar Só o amor Pode fazer chover Como o suor dos amantes Deitados nos campos Amor, impere sobre mim Amor, impere sobre mim Chova sobre mim Só o amor Pode trazer a chuva Que te faz desejar o céu Apenas o amor Pode trazer a chuva Que desaba como lágrimas lá do alto Amor, impere sobre mim Na árida e empoeirada estrada As noites que passamos separados e sós Eu preciso voltar para casa Para fresca chuva Não consigo dormir, deito e penso A noite é quente e negra como tinta Ó Deus, eu preciso de uma dose fresca de chuva

Bob Dylan lança música de 17 minutos; um cáustico manifesto sobre o assassinato de Kennedy

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“Saudações a todos os meus fãs e seguidores com gratidão por seu apoio e lealdade através dos anos. Esta é uma música não lançada que gravamos alguns anos atrás e que talvez vocês achem interessante. Fiquem seguros, fiquem atentos e que Deus esteja com vocês", desejou Bob Dylan ontem, em sua conta oficial no Twitter. Ele aproveitou a quarentena do coronavírus para atirar pesado. Aos 78 anos, o Nobel de Literatura Bob Dylan lançou "Murder most foul" (algo como “Assassinato a sangue frio”), música que, com seus 17 minutos, é a mais longa de sua carreira, passando "Highlands", de 1997, com 16 minutos e 31 segundos. Em turnê infinita pelo mundo ele não lançava uma música inédita há oito anos. Podemos chamar “Murder most foul” de manifesto sobre o assassinato do presidente americano John F. Kennedy em 1963. A música faz inúmeras referências a figuras culturais dos anos 1960 e 1970, como o hit dos Beatles “I want to hold your hand”, o festival Woodstock, ...

“Muito estranho: todos os passarinhos - todos - desapareceram da vizinhança desde ontem. Isto não é uma metáfora. Repito: isto não é uma metáfora.”

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A solidão é uma velha conhecida. Íntima. Vivemos juntos há muitos anos, em paz na maioria do tempo como Gaza e Tel Aviv. Angústia. De vez em quando abre a porta da sala com cara de íntima, senta no sofá e depois de ficar algum tempo olhando para o teto, pede um café forte. Houve um tempo em que o simples aroma (?) de sua chegada me deixava apavorado. Tempos em que eu me relacionava mal com a solidão, medo de mim, coisa de garoto, sabe como? Mas é a primeira vez que fico sozinho à força, compulsoriamente, e à força tudo muda. Tenho ocupado o meu tempo com o de sempre: trabalho. Gosto do trabalho porque gosto do que faço e desde o dia em que inaugurei meu escritório caseiro percebi que trabalho muito mais e melhor. De vez em quando preciso sair, coisa de 10 minutos, vou até ali comprar víveres e volto, adestrado como golfinho de Miami, paulistinha de circo. No lugar onde encontro os víveres poucas pessoas temem-se mutuamente (será que existe isso, essa composição, temem-se mutuamente...

Um país que “quase decola” desde 1.500*

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                              A história do Brasil oscila entre a tristeza e o vexame. Nas ruas da cidade, olhar perdido, as pessoas parecem temer umas as outras, não apenas por causa do coronavírus, mas também pelas contaminações generalizadas que acometem o povo brasileiro desde sempre. Curiosamente nunca houve uma guerra civil entre brasileiros, corpo a corpo, bala a bala e talvez a leitura do clássico “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade, explique por que.  Lançado em 1928, disponível em novas edições nas livrarias, esse livro não seria lançado hoje de jeito nenhum porque as ditaduras dos tempos modernos ceifam ideias ousadas, eventualmente descarrilhadas e fora dos regulamentos ditados pela imbecilândia. Aliás, para compreender que Brasil é esse, desde que os quatro Bolsonaros assumiram o poder (Jair, Flávio, Carlos e Eduardo) acho fundamental ler “Tormenta: ...

Bombas de sementes para reflorestar o planeta

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    Repórter Global A ideia de jogar sementes em cápsulas do ar não é nova, no entanto, só não foi realizada antes por não haver tecnologia para tal. Hoje é possível e várias empresas buscam alcançá-lo da maneira mais eficiente. Uma delas é a americana Lockheed Martin Aerospace, que afirma que com um bombardeio quase um milhão de árvores jovens podem ser plantadas por dia. Através deste método de bombardeio com sementes, pode reduzir pela metade o custo em comparação com os métodos de plantio manual. Além disso, aproveitam aviões que só podem ser usados em caso de guerra e com um objetivo positivo. Existem 2.500 cargueiros C-130 em setenta países, esperando uma oportunidade de voar. A empresa calculou que eles podem lançar mais de 3.000 bombas de sementes por minuto. Isso significa plantar 900.000 árvores em um dia. As bombas de sementes são apontadas e projetadas para serem enterradas no solo na profundidade certa, como se tivessem sido plantadas à mão. ...

Parágrafo único

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Encerra-se à força o ignóbil escárnio da distopia e de suas amásias próximas. Finda-se à bala a suruba da hediondez, escrotidão amontoada, lamaçal de bílis expelida como se sêmen fosse. Cerra-se a faca os portais da inimaginação, * infeliz moribunda/A vida lhe esvai,/Corre arredia,/ Indômita,/ A cavalgar no alazão do tempo,/ Sem rédeas, sem rumo, sem direção... E a poesia,/ Por covardia/ Faz companhia,/ Num vagar vadio,/ Sem rima, sem graça, sem inspiração.../. Acede à força o gozo do amor clandestino incondicional, degolando o tergal do onanismo desardido . Há de arder. Há de arder para todo e sempre /; apertar, inchar, tocar, dedilhar, vibrar, brandir, estremecer. Enforque-se em público lupanar o desalento e o fatalismo. Abra-se o mundo dos sóis orgásticos, faça-se felicidade eterna o grito esfuziante do cabaço dizimado, felícia dos prazeres. ** Aqui/ onde foi abolido o hímen/ úmido hífen/ Aqui/ onde a língua é dinâmica/ e dedos são talheres/ Aqui/ onde o grelo/ destrona o falo...