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Dez da noite que parecem quatro da madrugada. De todas as noites desde o início da quarentena, está sendo a mais solitária. Sinto saudade. Saudade dos meus voos noturnos pelas artérias da cidade de bicicleta, observando a luz cúmplice dos abajures nos andares mais baixos. Sombras eventuais. O silêncio da bicicleta nos faz invisíveis. Ano passado, por volta das duas da madrugada, percebi os sons de uma mulher gozando. Parei. Meio que embaixo de uma árvore. Os sons ficaram mais altos, lancinantes, palavras descoxas afogadas na mais pura e vadia luxúria, pairavam sobre os cabos de alta tensão. E depois davam voos rasantes em direção a meus ouvidos. Música. Parecia música. Foi longo, muito longo. Ela arfou alto, arfou médio, arfou baixo. Fez-se silêncio. Pedalei. Pedalei excitado, não com os gritos daquela mulher que sequer sabia em que buraco daqueles pombais – chamados prédios – estava metida. Imaginei o que ela podia estar desej...