terça-feira, 30 de abril de 2019

A Luz


O radicalismo faz parte da pós-adolescência imediata, quando queremos virar ônibus, tacar fogo no mundo, lutar contra a sociedade construída, contra o capital, contra o governo, contra a família, contra tudo. Depois, a maturidade chega, toca a campainha, entra, senta numa poltrona pede um café e convida a pós-adolescência a se retirar. Ela, a maturidade, irá morar conosco o resto dos dias, mas ouvindo o alarido da pós-adolescência do lado de fora.


O Brasil está envolto ´pelo radicalismo de tal forma que o ódio impera. Ou a pessoa é de direita ou de esquerda, exatamente como nos tempos de colégio, com uma drástica diferença: o maior e mais poderoso meio de comunicação da história da civilização, a internet, está amplificando e reverberando essa relação caótica entre as pessoas com milhares de giga tons de potência. Se você não quer confusão, a confusão entra no seu celular, tablet, computador. Pé na porta.

É muito negativismo, baixo astral, azedume. Concordo que o otimismo excessivo, modo Poliana de ser, representa uma cerca queda de asa em direção a alienação. Os tempos modernos exigem equilíbrio, lembrar que o Brasil não está em crise, ele é a crise, e do caos fez-se o Cosmo (Carl Gustav Jung).

Eu me recuso a pensar que não existe mais luz no fim do túnel, ou que a luz no fim do túnel é de um trem no sentido contrário. Eu me nego porque quis o destino que eu me apaixonasse por comunicação e informação desde garoto e por conta disso acabei fechando um pacto com os livros, jornais, revistas, internet, TV, rádio. E a história mostra que desde 1808 quando a Corte portuguesa fugiu de Portugal e se apossou do Rio só dá encrenca, protagonizada pela corrupção.

Como ioiô o Brasil já foi lá embaixo e voltou várias vezes, mas a luz do fim do túnel jamais apagou ou foi apagada. Crise com o fim da monarquia, crise com o começo da república, golpes de estado, tropas na rua, II Guerra, Getúlio se roçando em Hitler, Estado Novo, Jânio, renúncia, golpe em 64, turbo golpe em 68....blá blá blá.

Um dia pus no Facebook a linda foto que ilustra esse artigo, um túnel no final, túnel verde, de autor desconhecido, e algumas pessoas comentaram. Quis mostrar que não devemos nos render ao negativo, venha de onde vier, certos de que há conserto para tudo.

Sabem o Ted Turner, magnata que criou a CNN e um monte de outras TVs? Ele conta no livro biografia sobre a CNN que tinha um iate com bandeiras de todas as cores, menos a branca. “Branca é de rendição e eu não me rendo”, ele disse.  Eu também não.

Logo, não venham querer levar o nossa luz no fim do túnel, e muito menos o túnel que faz parte da vida. Dou a maior força aos conhecidos que fugiram para o exterior, estão no seu direito de ir para onde quiserem. Muita gente esculhamba mas eu defendo porque ninguém é obrigado a permanecer num lugar que faz mal. Agora, também acho ridículo quando eles ficam lá de fora dando pitacos nos problemas daqui. Ou está fora, ou está dentro. Uma vez fora, a peteca fica aqui. E a luz do fim do túnel também.


domingo, 28 de abril de 2019

Documentário autoproclamado “definitivo” pouco revela sobre Robert Johnson


Uma boa série chamada “ReMastered”, da Netflix, investiga os maiores mistérios não resolvidos do mundo da música. Uma grande sacada, mas dessa vez pisaram na jaca.

“ReMastered: O Diabo na Encruzilhada” em tese seria sobre Robert Johnson, o mais enigmático bluesman, morto por envenenamento em 1938 aos 27 anos. De toda a série, é o pior episódio.

A série já exibiu um episódio sobre Bob Markey (a história da tentativa de assassinado), sobre o encontro de Johnny Cash com Richard Nixon e suas consequências, a execução brutal de Victor Jara em Santiago, Chile, 1971. Ele era considerado o Bob Dylan latino-americano e Pinochet mandou matar.

Pouco se sabe sobre Robert Johnson e esse documentário quase nada acrescenta, além das baboseiras de sempre; o tal pacto com o demônio, os sumiços estranhos, a ausência de fotos (só existem duas), nenhum registro em filme. Apesar de fraco, é bom ser visto porque de bola na trave em bola na trave as vezes sai um gol.

A lenda diz que Johnson vendeu sua alma ao diabo na encruzilhada das rodovias 61 e 49 em Clarksdale, Mississippi, com seu violão e uma garrafa de uísque falsificado. Coisa ruim teria pego o seu violão e afinou um tom abaixo.  Johnson pegou de volta, tocou como nunca e se tornou um grande guitarrista.
Ele gravou apenas 29 músicas em um total de 40 faixas, em duas sessões de gravação em San Antonio, Texas, em novembro de 1936 e em Dallas, Texas, em junho de 1937.

Treze músicas foram gravadas duas vezes e continuaram sendo interpretadas e adaptadas por diversos artistas e bandas, como Led Zeppelin, Bob Dylan, Eric Clapton, The Rolling Stones, The Blues Brothers, Red Hot Chili Peppers e The White Stripes.

Envenenado por ter azarado a mulher do dono de um bar

Em 1938 durante uma apresentação no bar "Tree Forks", Johnson bebeu uísque envenenado com estricnina, supostamente preparado pelo dono do bar, enciumado porque o músico supostamente azarou a sua mulher. Sonny Boy Williamson, que estava tocando com Jonhson, havia alertado sobre o uísque batizado, mas Robert ignorou.

Johnson se recuperou do envenenamento, mas contraiu uma pneumonia e morreu três dias depois, em 16 de agosto de 1938, em Greenwood, Mississippi. Há outras versões para sua morte: teria morrido envenenado pelo uísque, de sífilis e assassinado a bala dentro do hospital. Seu atestado de óbito cita apenas "No Doctor" (sem médico) como causa da morte.

“Remastered” poderia ter ido mais fundo, mas optou pelo sensacionalismo.




sábado, 27 de abril de 2019

Carta aberta em defesa do audiovisual brasileiro


Diante do cenário alarmante, a Spcine manifesta seu repúdio ao que considera o desmonte da política audiovisual brasileira. Os acontecimentos recentes - pedido do Tribunal de Contas da União para suspender novos contratos da ANCINE e paralisação nos repasses da agência - põem em risco um setor responsável por alavancar anualmente mais de R$ 20 bilhões no PIB do país e empregar mais de 330 mil trabalhadores.

Em São Paulo, região de atuação direta da Spcine, nos últimos três anos foram 57,2 mil postos de trabalho gerados e mais de R$ 1,1 bilhão movimentados pelas produções que passaram pela cidade.

Como empresa ligada ao poder público, a Spcine compreende e reitera a importância da transparência na gestão de recursos públicos. No entanto, reforça a necessidade de um ecossistema inteligente, onde os órgãos de controle entendam e contemplem as particularidades da economia do audiovisual.

A Spcine ressalta também que a formulação de políticas públicas exige a participação de entidades de classe e sociedade civil. Só assim é possível criar estratégias eficazes e potentes para a economia brasileira.

As recentes notícias, somadas à retirada do patrocínio de empresas públicas de ações de Cultura, acendem uma luz vermelha para o audiovisual brasileiro, botando em risco as conquistas de um setor que se manteve em franco crescimento mesmo com a crise em outros segmentos da economia.

Prova da relevância do conteúdo nacional é a participação nos principais eventos de audiovisual do mundo. Ao longo dos últimos anos, o cinema brasileiro marcou presença em festivais e premiações como o Oscar, Sundance (EUA) e Berlim (Alemanha), só para citar alguns.

E, mesmo em meio à grave situação, o Brasil estará na edição deste ano do Festival de Cannes (França), com participação em SETE longas-metragens, incluindo a disputa pela Palma de Ouro, maior honraria do cinema mundial, e exibições nas mostras Um Certo Olhar, Quinzena dos Realizadores e L’ACID.
Em defesa do cinema nacional, a Spcine está articulada com as entidades de classe para entender e propor saídas para este momento delicado para o audiovisual brasileiro.

A empresa espera que medidas urgentes sejam tomadas para que a paralisação tenha fim e as atividades do setor possam ser normalizadas.

Atenciosamente,

Laís Bodanzky
Diretora-presidente

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Acossados


Somos acossados pelos caçadores de impostos com seus boletos, carimbos, juros, má fé.

Somos acossados pelos catadores de propinas; pequenas, médias, grandes.

Somos acossados pelo desserviço público, desconsideração, baderna.

Somos acossados pelo sub judiciário e seus chicaneiros.

Somos acossados por governos que mentem, manipulam, chutam.

Somos acossados pelo lixo dos poderes rasteiros.

Somos acossados pela vitimologia social que empodera nossos algozes.

Somos acossados pela cafetização do racialismo disfarçado de ativismo.

Somos acossados por milicianos, traficantes e seus comparsas no Estado.

Somos acossados pela direita.

Somos acossados pela esquerda.

Somos acossados, acossados, acossados.

Sem direito a “The Anarchist Cookbook”.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Bolsonaro e filhos pensam e agem como um bloco - um estudo sobre a família do presidente - Por Ascânio Seleme – O Globo – 31-03-2019


             Mais do que doença, os Bolsonaro mantém um pacto                                                    inquebrantável.

Aqueles que ainda pensam ser possível separar o presidente Jair Bolsonaro de seus filhos, mesmo que apenas na gestão do país, é melhor ir logo tirando o cavalinho da chuva. Os Bolsonaro são um bloco único, monolítico, inseparável e inquebrantável. Suas posições são resultado de um pensamento único, elaborado ao longo de anos, e nenhum dos seus membros sobrevive sem os demais, explica Dado Salem, economista, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e sócio da Psiconomia, empresa especializada em gerir questões complexas e sensíveis envolvendo famílias e negócios.

Salem fez um estudo sobre a família do presidente tomando por base entrevistas que cada um deu ao longo dos anos e suas manifestações nas redes sociais. Com esses elementos e com o apoio de um relatório contendo as nuvens de palavras mais repetidas por cada Bolsonaro no Twitter, elaborado em 2016 pela cientista política Mariana Cartaxo, foi possível escrutinar a raiz comum do raciocínio de Jair, Flávio, Carlos e Eduardo.

Os Bolsonaro são o que Salem chama de “família simbiótica indiferenciada”. Eles pensam, sentem e agem como um bloco. São vulneráveis quando separados e se sentem ameaçados pelo mundo externo, o que os torna ainda mais fechados. Têm tendência ao isolamento e possuem uma enorme capacidade de deteriorar relações muito rapidamente. São governados por suas reações emocionais ao ambiente e acabam gerando neles próprios uma previsível ansiedade crônica.

Em famílias assim, o pai não toma qualquer decisão sem ouvir os filhos. O que parece ser o caso de Bolsonaro. Seus filhos, por sua vez, detestam os que se aproximam demais do pai, sobretudo se enxergam nessa aproximação uma tentativa de manipular o patriarca. No caso da família em questão, os filhos têm ciúmes dos que se aproximam para ganhar luz e aparecer aos olhos do público. E torpedeiam sistematicamente o intruso.

Cada um dos filhos cumpre um papel no bloco. O Zero Um, Flávio, o mais velho, é o conciliador e o diplomata, que busca interlocutores para o grupo. “Normalmente é assim que funciona em famílias simbióticas, ao primogênito é dada essa função”, diz Dado Salem. O problema na família Bolsonaro é que Flávio acabou queimado logo na largada. O Zero Dois, Carlos, é o queridinho, o mais ligado ao pai. Tão ligado que acaba confundindo seu próprio papel, queria ser ele próprio o pai da família, o presidente da República. O Zero Três é o “intelectual”, o formulador do bloco, e como tal é respeitado pelos demais.

Nas famílias simbióticas indiferenciadas não existe separação emocional entre seus membros. Eles não são bem desenvolvidos como indivíduos. Sua reatividade emocional é intensa e pode ser disparada por qualquer faísca. Essa característica explica a demissão do ministro Bebianno e o mal-estar criado com o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia. Um elo sustenta o outro, sempre. As relações externas normalmente geram angústia e ansiedade em seus elementos. Para aliviar a tensão, essas famílias geralmente tendem a ser ainda mais unidas e indissolúveis.

A leitura das nuvens de palavras produzidas a partir das suas manifestações nas redes comprova a tese do ideário único. Mariana Cartaxo apurou que as palavras que mais aparecem nos discursos de cada um dos membros do clã são muito parecidas, e três são repetidas por todos os membros da família: “Brasil”, “Contra” e “PSOL”. No caso de Flávio, que até o ano passado era deputado estadual no Rio, a palavra “Polícia” também tem destaque. Desnecessária qualquer explicação.

O resultado dessa simbiose, segundo Dado Salem, é o que todo o Brasil já viu, as decisões de Jair Bolsonaro atendem prioritariamente ao arranjo do grupo familiar. O presidente não governa sozinho, governa com seus filhos. Os ministros e demais assessores compõem o ambiente, mas quem manda são pai e filhos.

Um alerta: o Zero Quatro vem aí. Pesquisa de seu perfil nas redes revela que Renan, 21 anos, estudante de Direito, está crescendo com a mesma retórica, os mesmos slogans e os mesmos ranços dos irmãos e do pai. A única coisa que os separa dos irmãos são as mães diferentes. Mas esse é um detalhe que não significa muita coisa no universo absolutamente masculino dos Bolsonaro. Por isso também a Zero Cinco, Laura, de 8 anos, jamais emergirá.



quarta-feira, 24 de abril de 2019

Siamês




O oficial de justiça Jacy mordeu a nuca de uma noviça sênior no Mercado Municipal. Arrancou sangue. Detido e julgado, foi condenado. Problemas psiquiátricos. Foi parar no regime semiaberto.

Obrigado a dormir na prisão todos os dias, mas tinha direito a visitas íntimas. A única que recebia era de Carmelita, codinome da Noviça Sênior Severa, a noviça do Mercado Municipal, que apresentou uma falsa certidão de casamento com Jacy, que não a conhecia. Só a viu de costas, no dia do ataque no Mercado Municipal.

As visitas íntimas eram tão tórridas e lancinantes, que num domingo os agentes penitenciários tiveram que invadir a sala de encontros. Noviça Severa, digo, Carmelita estava nua, pendurada de costas por correntes numa grade da janela da sala, enquanto Jacy a chicoteava e ao mesmo tempo jogava álcool 90 graus nas suas costas. Carmelita, digo, Noviça Sênior Severa, gritava “bate e faz queimar o corpo da sua...sangra a nuca da sua ... como aquele dia no mercado. Bate, meu ... Bate mais forte e depois... a minha... com esse... balaústre, meu...!

A festa acabou. Os gritos de Carmelita alvoroçaram o pavilhão, engolido por volúpia coletiva. Temia-se uma rebelião. Os homens não paravam de bater nas grades como símios enquanto Carmelita se vestia (saia azul marinho abaixo do joelho, blusa branca sem decote, sapatos baixos) e, com uma pequena mala na mão, foi conduzida para fora da prisão por um grupo de guardas.

Na rua, Noviça Sênior Severa entrou num táxi e pediu para parar num posto de gasolina. No banheiro do posto, trocou as roupas pelo hábito e seguiu para a sede Congregação. O motorista de vez em quando olhava pelo retrovisor, desconfiado.

Entrou sem ser vista. Em seu quarto na sede da Congregação, Noviça Sênior Severa abriu uma gaveta no fundo do armário e pegou uma caixa de metal. Muitos dólares que conseguiu guardar ao longo de anos, presentes de um tio avô milionário que vivia em Belize. Pôs a caixa na mala. Na mesinha de cabeceira escreveu um curto bilhete para a madre superiora. Tirou o hábito, vestiu a roupa de Carmelita e, somente com a mala, saiu, sem chamar atenção.

Noviça Sênior Severa, a Carmelita, desapareceu. O policial dizia a Congregação que ela “pode estar em qualquer lugar entre os bordéis da Praça Mauá e o Vaticano. Supomos que tirou documentos falsos e caiu no mundo”.
Jacy foi solto em uma manhã de domingo. Tinha cumprido sua pena de forma exemplar. Seu advogado provou que Noviça Sênior Severa e Carmelita eram a mesma pessoa, logo, a dentada de Jacy no Mercado Municipal ganhou uma outra abordagem. Em sua defesa, o advogado vociferava que “aquela mulher supostamente atacada por meu cliente encantou-se por ele. A ponto de tirar o hábito e fazer-lhe visitas íntimas tórridas disfarçada de mulher comum, com uma certidão de casamento falsificada (...) o furor uterino da falsa vítima transformou aquela unidade prisional num barril de pólvora pansexual (...) 
Meritíssimo, meu cliente foi atraído por aquele furor uterino, que hoje corre o mundo com nome falso, fazendo não sabemos o que”.

Seu tio o guardava do lado de fora. Jacy entrou no carro e foi para casa. Sua tia e dois primos o esperavam com uma macarronada. Jacy subiu para o segundo andar da casa de classe média, tomou um banho, vestiu uma bermuda, camisa polo e desceu para almoçar. Seu gato siamês, feliz, pedia afagos na cama. Jacy fez carinhos e desceu.

Estava feliz, mas não era de rir muito. Seu tio contou que, apesar do julgamento favorável, Jacy acabou aposentado por transtornos psiquiátricos cíclicos. A família soube do tumulto Jacy-Carmelita-Noviça sênior Severa-rebelião dos tarados, mas não tocou no assunto.

No dia seguinte, Jacy acordou, tomou um banho, fez a barba, vestiu um terno, cumprimentou o siamês, desceu a escada, tomou café da manhã, saiu, abriu e fechou o portão da casa e, na rua, lembrou que não tinha nada para fazer.

Sua casa de dois andares ficava numa esquina movimentada, cercada de prédios. E foi nessa esquina que, parado, Jacy percebeu que não sabia o que fazer com o fato de não ter nada para fazer.

Subiu e enquanto mudava a roupa reparou num prédio em frente uma moça tocando acordeão sentada na cama do quarto. De saia, ela tocava, abria e fechada o acordeão e também as pernas. Sem calcinha.

Jacy vestiu uma bermuda larga, pegou o siamês no colo e subiu para o telhado da casa. Lá de cima, uma visão privilegiada. A moça tocava acordeão e ele acariciava o siamês com a mão esquerda enquanto que com a direita se masturbava vagarosamente, contemplando o abrir e fechar de pernas da vizinha. Sentiu o primeiro orgasmo e deitou-se para trás, lembrando, saudoso, de Carmelita. Deitado, arfando, descansou alguns minutos, ouvindo o som do acordeão. Lembrou de Madre Severa.

Ergueu-se e a moça continuava tocando. De novo Jacy passou a acariciar o siamês com a mão esquerda e com a direita se masturbava vagarosamente. O orgasmo demorou, o acordeão calou, mas ainda assim ele atingiu o êxtase, sempre pensando em Carmelita e Noviça Sênior Severa, deitando de costas no telhado para descansar. A moça do acordeão tinha sumido do quarto.

E assim, todos os dias naquele horário, sol ou chuva, o mesmo ritual: acordeom, telhado, pernas se abrindo e fechando, siamês, orgasmos, repouso. Nasceu um novo Jacy. Feliz. No entanto, aos domingos a moça do acordão não aparecia.

Um mês se passou e Jacy, com cinco quilos a menos, passou a correr 10 quilômetros todos os dias, alimentação saudável, devorava livros, virou cinéfilo. Em casa, seu bom humor agradou a todos, tios e primos, que nunca o viram tão alegre. “Deve estar apaixonado”, pensavam. Conversando com um amigo, jornaleiro da rua, perguntou e soube que a moça do acordeão estava noiva e por isso, aos domingos, sempre ia passar o dia no sítio da família do noivo em Cachoeiras de Macacu.

Percebeu que entrava em pânico toda vez que imaginava a moça casando e mudando dali para outro lugar. “O que será de mim?”, pensava.

Quando os pensamentos se tornavam compulsivos (especialmente aos domingos, quando ela não estava) ele procurava um drama mais forte, como, por exemplo, o DVD do filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” para amenizar a sua dor. Mas, com o passar do tempo, constatou que perto do sumiço da moça do acordão “Lúcio Flávio” parecia Sítio do Pica Pau Amarelo.

Após mais um mês de rituais bem sucedidos, Jacy chegou a conclusão que: 1 – não conseguia mais viver sem aquela moça do acordeão; 2 – ela sabia que ele estava lá porque, algumas vezes, seus olhares se cruzaram e ambos baixaram a cabeça; 3 – Ela assumiu o conluio porque não fechava a janela e sequer reclamou com alguém

Numa sex
ta-feira o jornaleiro procurou Jacy. “Olha, trago um bilhete para você. É da Janaína, a moça do acordeão. Jacy...desculpe...ela perguntou seu nome, eu disse e ela me entrou este envelope”.

Enquanto o jornaleiro falava, Jacy sentia uma estranha vertigem, sensação de desmaio, falta de ar, algo parecido com morte iminente. E por tudo que já havia lido, não tinha dúvidas: ele estava tendo um ataque de pânico. Assustado, o jornaleiro comentou “você está branco, senta aí”, puxou um banquinho. Jacy sentou, aspirando devagar pelo nariz e expirando devagar pela boca. Pediu um pouco d’água, garganta seca. O jornaleiro deu. Refeito, Jacy levantou e, com o envelope perfumado e fechado nas mãos foi para casa.

Deitou na cama e abriu o envelope. Num papel florido, apenas a frase: “Jacy, eu adoraria conhecê-lo pessoalmente. Tenha um bom dia. Beijos, Janaína do acordeão.

Jacy colocou o papel no envelope, sério. Olhou a janela e conseguiu avistar algumas nuvens entre os prédios altos. Minutos depois, devagar, levantou. Tomou um banho, pôs uma roupa leve, arrumou a mochila, incendiou o envelope com o bilhete, matou o siamês a facadas, saiu de casa e sumiu.

Aos tios e primos desolados, os policiais disseram que “ele pode estar em qualquer lugar entre os bordéis da Praça Mauá e o Vaticano. Supomos que tirou documentos falsos e caiu no mundo”.

O império do ódio



É muito simples.

Quem apoia A, B, C, D tem profundas afinidades com eles, o modo de pensar deles, o jeito de agir deles.

Quem apoia E,F,G,H tem profundas afinidades com eles, o modo de pensar deles, o jeito de agir deles.

Tentar argumentar com esses grupos é arranjar briga, inimizades, aporrinhação. Desde sempre a política desperta paixões como uma seita, obsessão, fanatismo e muito ódio.

Na política, polarização é regra e não exceção. Sempre foi assim. Monarquistas e republicanos se estapeavam, trabalhistas e liberais quase se matavam, stalinistas versus trotskistas versus leninistas.

O que mudou tudo radicalmente foi a internet, a mais importante criação do Homem desde a escrita. As redes sociais estimulam o embate, a violência, as ofensas, as manifestações de ódio mais agudas em tempo real, instantaneamente.

Não entrar na fogueira é a única maneira de não se queimar.



terça-feira, 23 de abril de 2019

Dedicado aos imbecis que defendem a Terra plana


Dedico esse humilde artigo aos imbecis que defendem a ideia de que a Terra é plana, lembrando que a boçalidade é um direito inalienável. Mas deve estar rolando dinheiro grosso, tem até documentário na Netflix. Não conheço capitalistas tão empenhados em fazer papel de palhaço assim, de graça.

Fico imaginando a tripulação da Estação Espacial Internacional dando gargalhadas ouvindo os parasitas defenderem que a Terra não é bola azul vista lá de cima mas essa imensa mesa de pingue pongue que eles acham que é.

Por exemplo, a Lua.

A Lua jamais deixará de ser a musa encantada dos poetas, mesmo depois que Neil Armstrong desceu do módulo lunar da missão Apolo 11 em 20 de julho de 1969 e pisou o solo lunar com sua bota prateada.

1969 foi um ano de muitas mudanças, entre elas o maior protesto contra a guerra do Vietnã reunindo meio milhão de pessoas em Woodstock, no mês seguinte. Esse ano foi tão significativo que, inspirado nele, Paul Auster escreveu o magistral “Palácio da Lua”, livro que devorei em duas noites.

Sempre fui um apaixonado pelo céu e os astrólogos dizem ser uma característica de meu signo. Lembro bem do dia em que o homem pisou na lua. Morava em Icarai (Niterói), onde o nosso bando tinha o hábito de jogar taco (uma espécie de baseball tupiniquim) no meio da rua. Atento a propaganda sobre a hora em que Armstrong pisaria na lua, fui cedo para casa para assistir pela TV.

Não lembro se foi uma transmissão ao vivo, mas sei que a narração era de Hilton Gomes, um célebre locutor. A imagem em preto e branco cheia de imperfeições me hipnotizou e quase não ouvi o pipocar dos fogos que algumas pessoas soltaram celebrando aquele momento.

Um momento crucial na história de todos nós que algumas pessoas insistem em dizer que foi uma fraude, que o homem pisando na lua teria sido uma gravação simulada em estúdios. Que bobagem.

Algumas pessoas diziam que o fato do homem pisar na lua anularia seu poder poético. Não acho. A lua continua comovendo, mesmo depois de Neil Armstrong pisou na sua pele e revelou que o homem não conhecia a versão maior da solidão. Ele disse depois que “a solidão na lua é abissal...indescritível..absolutamente angustiante”.

E se a humanidade evoluiu, pelo menos cientificamente, devemos muito a desbravadores heroicos como Armstrong. Aliás, sugiro a todos que assistam ao filme “Os Eleitos”, de Philip Kaufman que conta a história da corrida espacial de um jeito completamente diferente. O filme é baseado no livro de Tom Wolfe. Deve ter no Now ou similar.

Neil Armstrong morreu em agosto de 2012 triste com o corte de verbas para o programa espacial e até se reuniu com Barack Obama para tratar do assunto. Obama, adorável vaselina, explicou que é uma questão temporária mas, ainda assim, Armstrong não engoliu.

Discreto, nunca transformou a sua grande viagem numa egotrip pessoal e, só eventualmente, dava uma ou outra palestra. Por tudo que representa e simboliza, por tudo que fez, Neil Armstrong, um ícone dos anos 60, deixa sempre muita saudade.


domingo, 21 de abril de 2019

Comes a Time (Chega uma Hora) - Neil Young - Tradução livre


Chega uma hora em que você está à deriva
Chega uma hora que você se acalma
Chega uma luz que te eleva
Ergue qualquer um do chão
Esse velho mundo continua girando
É lindo como as árvores nunca se deixam cair

Sim, nós fomos capturados
Pegamos nossas almas e voamos para longe
Estávamos certos, estávamos entregando
E assim, tudo que iria embora ficava conosco.
Esse velho mundo continua girando
É lindo como as árvores nunca se deixam cair



sábado, 20 de abril de 2019

Sede Passante!

                                                                    Inga Nielsen

O que significa a Páscoa?


Por Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, escritor

Este tema da passagem é o tema da Páscoa. Pessah em hebraico, quer dizer passagem. A passagem, no rio, de uma margem à outra margem, a passagem de um pensamento a outro pensamento, a passagem de um estado de consciência a outro estado de consciência. A passagem de um modo de vida a outro modo de vida. Esta fala de Jesus lembra que somos peregrinos sobre a terra. Somos passageiros.

A vida é uma ponte e, como diziam os antigos, não se constrói uma casa sobre uma ponte. Temos que manter, ao mesmo tempo, as duas margens do rio, a matéria e o espírito, o céu e a terra, o masculino e o feminino e fazer a ponte entre estas nossas diferentes partes, sabendo que estamos de passagem.

É importante lembrar-se do caráter passageiro de nossa existência, da impermanência de todas as coisas, pois o sofrimento geralmente é de querermos fazer durar o que não foi feito para durar.

A grande Páscoa é a passagem desta vida mortal para a vida eterna, é a abertura do coração humano ao coração divino. É a passagem da escravidão para a liberdade, passagem que é simbolizada pela migração dos hebreus, do Egito para a terra Prometida. Mas não é preciso temer o Mar Vermelho.

O mar de nossas memórias, de nossos medos, de nossas reações. Temos que atravessar todas estas ondas, todas estas tempestades, para tocar a terra da liberdade, o espaço da liberdade que existe dentro de nós.
Sede passante!

Creio que esta palavra é verdadeiramente um convite para continuarmos nosso caminho a partir do lugar onde algumas vezes paramos. Observemos o que para a vida em nós, o que impede o amor e o perdão, onde se localiza o medo dentro de nós. É por lá que é preciso passar; é lá nosso Mar Vermelho. Mas, ao mesmo tempo, não esqueçamos a luz, não esqueçamos a liberdade, a terra que nos foi prometida.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Páscoa, ressurreição, pontos de restauração, “re existências”


Quem usa o sistema operacional Windows certamente conhece o “ponto de restauração”. Quando há algum problema mais complicado podemos ativar o “ponto de restauração” e a máquina volta a trabalhar em uma data do passado. (https://bit.ly/2KQZdlT )

Por exemplo hoje, 19 de abril de 2019, você vai ao “ponto de restauração” e escolhe a data de 10 de dezembro de 2018. Em questão de minutos o Windows volta até esta data e trabalha como se não tivesse existido futuro, funciona como se estivesse na “encarnação” de 10 de dezembro e ignora tudo o que aconteceu a partir daí: programas instalados, aplicativos, etc e, logicamente, os defeitos.

Se ainda assim o problema persistir, podemos formatar o HD. É quando a máquina “morre” temporariamente e, depois do HD formatado, nasce outra. Vazia, literalmente zerada. Que nós vamos preencher instalando programas, aplicativos.

A ideia de poder voltar ao passado e viver uma outra vida é sedutora para muitos, como se existisse em nós um “ponto de restauração” ou, mais radical, a possibilidade de reformatação da nossa existência. Ignorar tudo o que passou e viver de novo a partir de uma data escolhida.

Você toparia ativar seu “ponto de restauração”? Ou iria mais fundo, reformatando o seu HD, deletando essa vida e iniciando uma outra, nova, também cheia de surpresas? Afinal, o conceito de que o homem é uma flecha atirada ao infinito sem plano de voo pré-estabelecido continua valendo em qualquer “ponto” da nossa vida. A imprevisibilidade é lei.

Mas se você tivesse o poder de escolher os caminhos a partir do zero, baseado nas vivências que acumulou, você o faria? Mudaria muita coisa? Mudaria decisões, atitudes, ações?

Outro pitaco que o Windows dá (falo nele porque é o que uso, mas os outros sistemas oferecem opções semelhantes) é reiniciar o computador para resolver pequenos problemas ou bugs. Muita coisa é corrigida, ou deletada, a partir de um simples reinício da máquina, como dar uma dormida para acordar de novo. O cara acorda de manhã, dá uma topada, bate com o a porta do armário na testa, recebe uma péssima notícia. Decide dormir de novo para acordar mais uma vez. Diferente.

A Páscoa marca a ressurreição de Jesus, três dias após a crucificação no Calvário. É a data mais importante dos Cristãos, ao lado do Natal, e simboliza o renascimento, renovação, reposicionamento para quem crê em tudo o que aconteceu lá no Ano Zero.

Crer em Deus e Jesus é um milagre pessoal. Não tem receita, não tem fórmula, não tem sistema operacional. A fé vem do nada e se instala. Vou citar de novo o Darcy Ribeiro que pouco antes de morrer, em fevereiro de 1997, falou sobre a fé com Roberto D’Avila em seu programa na TV Manchete:


Na Páscoa podemos pedir a Deus que redirecione a nossa vida, ou que deixe como está. Já comentei aqui que aprendi que Deus adora os nossos fardos. Ele diz que devemos colocá-los sob ele e ter fé de que tudo será resolvido, a maneira Dele e não do nosso jeito. Sejamos modestos pelo menos nessa hora.
Desejo a todos uma Feliz Páscoa, em especial a meu irmão Fernando César Mello (para mim César para todo mundo Fernando) que é o aniversariante do dia. Feliz Pascoa a família, aos amigos, colegas, leitores, ouvintes.





quinta-feira, 18 de abril de 2019

A farsa dos e-mails

Estou vendo aqui que nos últimos dois anos mandei oito e-mails, fale conosco ou similares para órgãos públicos e empresas. Dos oito, respondeu somente um, mesmo assim de forma evasiva e com erros de português. Claro, não envio mais e-mail para CNPJ nenhum, nem fale conosco, nem opine aqui, nem posso ajudar?, nada disso. Voltei a usar o velho símio tecnológico, o telefone, porque do outro lado não dá para escapar. Você diz alô aqui, a pessoa tem que dizer alô lá. Se desligar na cara não adianta, ligamos de novo.

Uma pesquisa (americanos adoram pesquisas, eu também) feita, acho, pelo Gallup constatou esse índice de não resposta de e-mails corporativos por consumidores ou de “pessoas de fora do sistema”, o popular estranho no ninho. Motivo: vadiagem. Os caras travestiram as palavras com terminologia técnica, e tal, mas no final o diagnóstico foi esse: vadiagem, vagabundagem. Não respondem porque dá trabalho. Tem que abrir, dar reply, escrever....”ai que preguiça” (https://bit.ly/2VbWIOI)

Em um desses e-mails ingênuos que enviei, que muito lembram carta de corno estilo perdoa-me por me traíres, perguntei se um produto tinha modelo similar mesmo que “um pouco mais caro”. Não responderam. Em outro, sem resposta, perguntei porque eles não tinham representantes do relógio marca X no Brasil se comprei em uma loja credenciada, no Rio, logo, no Brasil. Não estou dando nomes ao gado porque isso pode dar processo judicial e está muito calor para ir a audiências.

Com relação aos órgãos públicos chega ser engraçado porque eu trato a minha pessoa (reverência, hein) como “contribuinte” e não cidadão e escrevo no máximo 15 linhas já imaginando que do outro lado quem vai abrir é um indolente inimigo pago por mim, que representa um estado (com e minúsculo) sonolento bancado também por mim, que provavelmente vai fingir que não viu o e-mail e vai passar a bomba para outro, que vai passar para outro, outro, outro até a lixeira final. É assim o estado (com e minúsculo) brasileiro.

No caso das empresas privadas não reagi, apenas nunca mais toquei no assunto, mas quanto aos órgãos públicos reagi. Mandei um segundo e-mail para cada repartição dirigido ao “Exmo Senhor Escroto” com 15 linhas de chutes na cara que fazem estado islâmico parecer festa junina em Campina Grande (Deus me livre, aliás).

Não sei se esse fenômeno acontece com outras pessoas (a pesquisa americana diz que sim), mas é tudo culpa nossa. Somos muito cordiais, antagônicos ao real conceito de homem cordial de Sergio Buarque de Holanda ( https://bit.ly/2Gs6zb0). Temos educação, humildade, damos bom dia, pedimos por favor, cedemos a vez, deixamos a dama passar na frente (mesmo que seja para contemplar a lombada), não falamos de boca cheia, enfim, parecemos Príncipe Danilo I do Montenegro lutando na lama com um porco.

Conheço um sujeito catastrofista, daqueles que quando entra em avião todo mundo desembarca, que acha que o fim da internet no terceiro mundo vai ser justamente a “descomunicação dos vadios”. Ele diz que o calor das Américas de baixo, da África, do Sudeste Asiático (ele é radical) provoca indolência, falta de respeito, a vadiagem, e que o sangue latino, tão cantado em prosa e verso, é pura cachaça de quinta. “Frances bota colete amarelo e vai brigar com a polícia para não ter que trabalhar. Espanhol não está em greve, espanhol é em greve”, ele teoriza sem aliviar, é claro, o lado da América do Sul. “Argentino passa os dias tocando bumbo na Praça de Mayo e gritando volta Perón”, no Brasil é “Lula Livre”, tudo desculpa para não trabalhar.

A tese dele de que “a internet no terceiro mundo vai acabar porque dá muito trabalho”, que cheguei a ridicularizar, acabou ganhando sentido após a minha péssima experiência com os e-mails corporativos.

Supondo que além de mim milhares de pessoas tenham dado com a cara na porta mandando e-mails sem resposta, e por isso desistiram da comunicação pela web, significa que mais pessoas estão retomando a comunicação dita arcaica do “alô, alô” e, em breve, e-mails, fale conosco, whatsapp e o escambau vão cair em desuso literal.

“E-mail não tem A.R.” lembra Afonso Luis Mendes Moura, aposentado, ex-gerente de operações dos Correios por décadas. “O A.R., Aviso de Recebimento, foi um verdadeiro ´mata vagabundo` porque obriga a pessoa a se manifestar. Já e-mail não tem isso, é fácil se livrar dele, fingir que não recebeu, “que o sistema ficou lento”, que “o sistema caiu” porque a culpa sempre será desse sistema que na verdade é o alter ego da vadiagem.

Um dia achei que o e-mail era a minha comunicação ideal. Ontem eu fiz menção a minha tese de mestrado que foi sobre a força do jornalismo de bairro e o estímulo que ele dá a comunicação entre leitores, jornalistas, vizinhos.

Lembro que escrevi na tese que para mim o ideal seria falar pouco e escrever muito porque: quando você escreve e manda não é interrompido, o raciocínio sai inteiro, redondo; não é mal interpretado porque vale o escrito; a precisão é de 100%.

Foi pena não ter concluído a tese e muito menos o mestrado por falta de tempo e saco (nessa ordem), mas acho que daria uma história boa. Na época o jornalismo de bairro estava na moda, havia dezenas de jornaizinhos no Rio, em Niterói, em São Paulo.

Bom, escrevi demais. Começo a concordar que o fim da comunicação via internet será pela desmoralização da própria pelos usuários, cansados de chutar na trave.


Procede?

P.S. - Já ouviu o meu novo programa A ONDA, na Rádio Pedal Sonoro, Bike & Roll? É só acessar https://pedalsonoro.com.br/podcast/ e rolar o link da
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terça-feira, 16 de abril de 2019

Um doidão sem solução

Soube de manhã na padaria que Gangorra estava internado num hospital em Saracuruna (Baixada Fluminense) todo escalavrado. Levou uma surra numa roda de samba porque o agressor não se comoveu com o argumento de que Gangorra estava doidão quando passou a mão na bunda da garota dele.

O cara que me contou a história disse que Gangorra gemia feito ema, chorava, balbuciava que estava bêbado, que não sabia o que estava fazendo, mas não teve clemência. Como Carlos, o Chacal, o macho da garota molestada meteu-lhe a porrada por mais de 20 minutos e como manda o protocolo da boemia ninguém se meteu. Desacordado, Gangorra foi jogado numa caçamba de lixo onde uns mendigos o viram e avisaram a polícia.

Conheço o Gangorra há muitos anos. Ganhou o apelido porque, chato pra cacete, quando sentava todo mundo levantava. Começava a beber de manhã cedo num botequim que hoje é padaria na rua Moreira Cesar esquina com Miguel de Frias. Só parava de entornar quando, chato, cricri, pentelho, começava a falar bobagens e apanhava. Apanhava de todo mundo: médicos, dentistas, pedreiros, oficiais de justiça. Além de chato era inconveniente porque, calcado no álibi da porranca, molestava mulheres alheias e por isso vivia cheio de curativos pelo corpo.

Sumiu de Niterói em meados dos anos 80 quando, na fila da barca, doidão de éter (ele acabou se viciando nisso também), bolinou os mamilos de uma mulher cujo marido estava comprando a passagem. Gangorra não viu o cara se aproximar, levou um soco no queixo e desabou no asfalto. O marido puxou uma arma e sentenciou sem gritar: “se você não sumir eu te mato”. Gangorra sumiu.

Dei a má sorte de encontrá-lo no ônibus no dia da partida. Linha Santa-Rosa Vila Isabel, mais conhecida como Vila Isabel-Santa Rosa. De manhã cedo. Eu ia para o trabalho e Gangorra para a rodoviária Novo Rio. Sentou ao meu lado e quase levantei. Além de chato pra cacete, bafo de cana misturado com éter e esmalte de unha, começou a falar o de sempre: desonrou uma meia dúzia de pessoas do bem, falou mal de outras 30 e alegando estar doidão me pediu dinheiro. Confesso que fiz um acordo sórdido. Disse que daria o equivalente a 20 reais para que ele mudasse de lugar e, textualmente (ouvido de doidão é privada mesmo) expliquei que “a sua presença me faz mal, toma esse dinheiro e vá sentar pra put......”. E nunca mais o vi, mas na época disseram que ele foi morar nas imediações de Bicas (MG)

Desde sempre tive e tenho amigos conhecidos como “doidões”, mas todos sem exceção são “profissionais”. Ficam na deles, na boa, na paz. Gangorra representa uma exceção, mesmo porque nunca foi meu amigo e nem amigo de ninguém. Sua vida é um enigma, mas sabe-se que é um incurável cornofóbico e que a sua entrega ao álcool e a simular taras para provar que é macho foi consequência de uma corneada que levou no colégio. A namorada, primeiro amor da vida dele, teria se jogado nos braços de um inspetor de disciplina. Em vez de sentar na calçada, chorar, engolir e partir para outra, Gangorra bebeu. E fumou. E cheirou. E virou um difamador. Partiu para o assédio em público e a partir de então foi surrado incontáveis vezes, até esse dia da barca, quando viu uma Colt nove milímetros enfiada na boca.

Achei que ele tinha morrido em Bicas (MG) porque foi o boato que correu. De novo uma festa, de novo a mão na bunda de uma mulher, de novo surra do macho dela, de novo...não, não teria havido caçamba de lixo mas um tiro na cara.

Gangorra vive e a pergunta que fica é “até quando”?



segunda-feira, 15 de abril de 2019

Ritmo Circadiano, de Carol Bensimon

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. 

Ela escreveu "Ritmo Circadiano", que transcrevo aqui:

Não sei se um dia vou deixar de olhar com inveja para os que escrevem de noite e seguem madrugada adentro, ouvindo eventualmente um gato no cio, um bêbado atravessando a rua ou nem isso. Talvez eu ainda me deixe ser seduzida pela imagem fácil do “artista”, esse que deve ser o contrário de tudo; ficar acordado quando os outros já estão dormindo há muito tempo, etc. Nunca consegui. Meu corpo parece se regular de acordo com a luminosidade. Desconfio, às vezes, de que tenho um parentesco com as plantas. Quando o sol cai, quase dá pra sentir a energia indo embora.

Ao mesmo tempo, me pergunto o quanto há de social em nossos hábitos de sono. Agora estou em um lugar cuja diferença de fuso com o Brasil é de quatro horas (para menos) e, como vivo de certa forma isolada, sem muito contato humano e longe de qualquer centro urbano que se regule por horários bem determinados, me parece que acabo vivendo uma mistura de horário-do-Brasil com aquela regulagem ancestral pela luminosidade. Curioso.

Então fui ler um pouco sobre isso. Esse artigo publicado pela BBC ( https://bbc.in/2GeQx38)  questiona a suposta naturalidade de nossas almejadas oito horas seguidas de sono. Segundo uma exaustiva pesquisa do historiador norte-americano Roger Ekirch, o homem, sobretudo até o século XVII, costumava ter seu sono dividido em duas porções. Entre elas, era comum que as pessoas levantassem da cama, rezassem, conversassem, fizessem sexo ou visitassem os vizinhos. Há inclusive um trecho de Dom Quixote ilustrando isso! Ekirch parece acreditar, portanto, que nossas desejadas oito horas de sono são menos um chamado da biologia e mais uma construção social que nasce a partir da modernidade. O artigo também coloca que muitos problemas relacionados ao sono teriam surgido a partir do século XIX, com o fim definitivo do sono em duas porções distintas. Russell Foster, professor de neurociência circadiana em Oxford, e Gregg Jacobs, psicólogo especialista em sono, acreditam que hoje as pessoas ficam estressadas e ansiosas quando acordam no meio da noite, quando o fato pode ser apenas um resquício de um hábito que nos acompanhou por séculos e séculos. Não deveria, em suma, ser tão preocupante assim.
Também descobri que, só em 2005, os hotéis americanos gastaram 1,4 bilhão de dólares em colchões!

O mesmo artigo do Huffington Post  (https://bit.ly/2XcCJgd) que me dá essa informação perturbadora também me mostra que o mundo nunca se interessou tanto pelo sono. O investimento em colchões do ramo hoteleiro deixa isso bem claro, sem dúvida, mas também o número de pesquisas na área e tudo que se tem demonstrado através delas: que um bom sono, em resumo, é essencial para a saúde e para a produtividade de nossas horas de vigília. Fica, no entanto, um necessário alerta: não estamos mercantilizando o sono, vendo nele uma “utilidade”, como fazemos com alimentos ou com praticamente tudo em que encostamos a mão e pesquisamos pesquisamos pesquisamos?

“Queremos dormir mais não porque valorizamos mais o sono em si”, escreve Eve Fairbanks, “mas porque estamos obcecados com produtividade. Em vez de ser uma terra estranha e selvagem cujo propósito não entendemos totalmente, o sono foi colonizado por nossa ambição, tornando-se apenas mais uma zona a ser domesticada em nome da produtividade.”

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Carol, há uns anos ando farejando os escritores e escritoras da nova geração no Brasil e, felizmente, não canso de me surpreender. A coragem das doidivanas dos anos 1920 que surravam com força o papel, dando saltos mortais nos trapézios da literatura marginal, ignorando que não havia rede no circo, está muito bem representada.

O sono foi, é e será um capítulo sem réquiem na história da literatura. Comecei a escrever como quase poeta fake aos 12, depois meio cronista aos 14 e, um dia, aliás, uma noite entrei de cabeça na redação de um jornal onde fui apresentado a literatura de urgência, inspiração compulsória, compulsiva e industrial dos jornais, onde a hipótese remota de “dar um branco” ou se o perder numa narrativa pouco reta de algum caso escabroso são exceções inimagináveis e passíveis de demissão. Resumindo, na época (anos 1970) o cara que trabalhava em jornal não tinha o direito de escrever mal. Em qualquer dia e horário, principalmente à noite.

Os jornais me apresentaram à noite. Os “pescoções” foram o nosso Phd; fechamentos histéricos de edições virando a noite tendo que escrever títulos, legendas, fazer lead, dar título, levar esporro e entregar uma obra prima por dia na gráfica e acabar com um litro de café.

Não aprendi a escrever a noite porque sequer tivemos (falo de minha geração) a moleza de optar por aprender alguma coisa. Foi no tranco, no tapa, no berro. Eu sei, texto de jornal é diferente mas também, é texto. Os textos do Jornal do Brasil e Jornal da Tarde dos anos 70 eram peças literárias não reconhecidas. Tenho admirado o novo formato da revista Época que, com coragem, meteu o pé na porta ano passado e decidiu investir no texto de qualidade, tijolaços maravilhosos, justamente na era da figurinha, GIF, e o escambal. Tem lido a Época? Tem lido os ensaios? Tem lido a Piauí?

Bom, escrevo para te cumprimentar. Adorei “Ritmo Circadiano” que uma vez chamei de relógio psicodélico. De manhã, de tarde, de noite, de madrugada, continue assim, celebrando os bons textos porque eles gostam de você. 




                                                                            

Cacá Diegues: "Há um desejo latente de valorizar a vulgaridade e o homem dito “normal”, aquele que só reproduz os piores valores de nossa ignorância"

                                                            Foto de Roberto Moreyra - Agência O Globo

A posse de Cacá Diegues na Cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, sexta-feira, foi um bálsamo para o Rio e para o Brasil. Ele sucede o também cineasta Nelson Pereira dos Santos, amigo/irmão/mestre, morto em abril de 2018. 

Semana passada foi mais uma daquelas com a grife Crivella de baixo astral, falta de respeito, insalubridade política, mentiras, incompetência, vulgo fim do mundo, com direito a destruição, pelas chuvas, da locação de uma série que o diretor Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, está fazendo. Ele ocupava um apartamento no delicioso Horto, colado ao Jardim Botânico, e a água levou tudo.

Também no Horto, a casa de Bi Ribeiro, baterista dos Paralamas só não foi totalmente destruída por milagre. Ele e sua família ainda não conseguiram voltar para lá. O que se comenta é que uma obra estranha (grife Crivella), no alto do bairro, causou a tragédia, mas ficou por isso mesmo. Ninguém mexeu no assunto.

Quando escrevo que melhor do que Crivella é Crivella preso não é ataque de pelancas. É desejo mesmo. Todos os descaminhos desse velhaco o levam a Bangu, onde aquele uniforme com SEAP (Secretaria Estadual de Administração Penitenciária) gravado nas costas, lhe cairia muito bem. Modelito ideal.

Mas na sexta a posse do Cacá desceu do céu como um manto de alto astral, de alento, uma força estranha que insiste em dizer que o Rio não morreu porque o Rio tem Cacá Diegues e uma maravilhosa horda de cariocas brilhantes, bairristas, fortes e relevantes.

Não consegui ir até a ABL dar meu abraço no Cacá, de quem sou fã e seríssimo candidato a amigo, e também da sua mulher, Renata Almeida Magalhães, mega produtora executiva da Luz Mágica, empresa de ambos dedicada ao cinema, claro.

O Globo publicou uma excelente matéria de Bolivar Torres na mesma sexta-feira, um necessário entrevistão com o Cacá Diegues. Coisa fina, bem feita, coisa de jornalista Senior, que revelou as opiniões sempre corajosas e certeiras do nosso cineasta, escritor, poeta, filósofo. Trechos da matéria:

“Cacá é um artista que "capturou parte essencial do imaginário brasileiro com seu espírito irônico e plural", discursou o presidente da ABL Marco Lucchesi. Já para o acadêmico Geraldo Carneiro, que fez o discurso de recepção, Cacá deu "uma resposta aos tempos negros da ditadura militar", fazendo de seu cinema "um lugar de celebração da vida e da cultura brasileira". (...)

Em seu discurso, Cacá bateu firme:

"Temos sofrido um vendaval de paixões polarizadas e histéricas. Há um desejo latente de valorizar a vulgaridade e o homem dito “normal”, aquele que só reproduz os piores valores de nossa ignorância, sem sonhos nem fantasias, num horizonte sombrio e sem surpresas. A criação, hoje, corre o risco de se tornar prisioneira dessa consagração da platitude, onde o único valor reconhecido e respeitado é o da morte elevada a uma desimportância consagradora”.   

Mais trechos:

“Este é o momento mais paradoxal da história do cinema no país — diz o diretor de clássicos como “Cinco vezes favela”, “Chuvas de verão” e “Bye bye Brasil”. — Ao mesmo tempo em que ele vive sua melhor fase, com uma diversidade enorme, produzindo 160 filmes por ano, com uma garotada começando a fazer filmes no exterior, outros fazendo sucesso no próprio país, está ameaçado de acabar. A estrutura formada para criar o cinema está desmoronando. Porque hoje você não sabe direito quais são as condições para se fazer cinema no Brasil.” (...)

(...) Não é o governo que participa do cinema, é o Estado — afirma. — E governo que for contrariar isso não é democrático, não presta. Temos que impedir que esse macartismo se desenvolva, impossibilitando que o cinema seja o que tenha que ser.(...)

(...) A eleição do cineasta, em agosto do ano passado, foi uma das mais comentadas da história recente da casa. Grupos de fora da academia cobraram mais diversidade racial e de gênero, fazendo campanha para a escritora negra Conceição Evaristo, uma das concorrentes à vaga. Questionado, Cacá diz que vê com bons olhos uma ABL mais diversa, mas pondera que se trata de uma instituição privada, com “o direito de escolher quem quiser”.

— Não é porque a pessoa é negra que automaticamente tem que ser eleita. Conceição é uma grande escritora, merece ser eleita, se amanhã se candidatar talvez vote nela, mas ninguém tem o direito absoluto de ser eleito porque é negro. (...)

Cacá Diegues busca recursos para filmar “A Dama”, com Betty Faria no elenco. O cineasta dedica-se também a retrabalhar o roteiro de “O último imperador”, que Nelson Pereira dos Santos lhe deixou de herança. O longa é sobre a deposição de Dom Pedro II.

Outro projeto é a continuação da sua comédia “Deus é brasileiro” (2003). Mais de 15 anos depois, o personagem (novamente vivido por Antonio Fagundes) chega ao Brasil e acha tudo a maior esculhambação. Mas, como diz o título, “Deus ainda é brasileiro”.




Ecos da guerra fria

            "O imbecil e seu dinheiro tem sorte suficiente para ficar juntos em primeiro lugar". Gordon           Gekko, pers...